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domingo, 1 de dezembro de 2013

Anselmo Borges: "As perguntas do Papa Francisco. 2"

Texto de Anselmo Borges no DN ontem.

Embora sensível ao raciocínio de Vasco Pulido Valente, que, reflectindo, no "Público", sobre os caminhos que ficam para o Papa Francisco, concluía: "Apesar da sua imensa popularidade, e mesmo por causa dela, Francisco acabou numa velha armadilha, em que esbraceja em vão. O inquérito não o ajudará.", não creio que, desde que superemos a análise sociopolítica e nos coloquemos na perspectiva cristã, que é a sua, Francisco tenha caído numa armadilha.

Então, qual é o maior problema de Francisco? Ele é um cristão convicto. O que o move é o Evangelho enquanto notícia felicitante da parte de Deus para todos. Assim, o seu problema é que todos se convertam realmente ao Evangelho, começando pelos cardeais, continuando nos bispos e nos padres e acabando nos católicos, que devem converter-se a cristãos.

Neste sentido, não se trata de mudar o essencial da doutrina, mas de ir ao decisivo do Evangelho. Ora, o núcleo do Evangelho são as pessoas, dignas de respeito e atenção. É, pois, preciso continuar a anunciar o ideal do matrimónio cristão, mas, depois, atender às pessoas, às suas necessidades e feridas. Para isso, Francisco conta com a mediação da sensibilidade pastoral dos bispos e dos padres e dos cristãos em geral, que asseguram no concreto a aplicação do ideal.

Por outro lado, não se deve esquecer que Francisco tem uma dupla origem. Ele é ao mesmo tempo "franciscano", e, assim, humilde e próximo das pessoas, e jesuíta, portanto, com toda uma formação de procura da eficácia. Ele crê na "Igreja Povo de Deus", que é também a "santa Igreja hierárquica". Por isso, sabe consultar, no quadro de uma adelfocracia (governo de irmãos), mas também sabe que, em última instância, é a ele que compete decidir, com os outros bispos e em Igreja. Neste quadro, deixei aqui na semana passada o que me parece expectável como resultado deste inquérito, passando agora a algumas perspectivas de teor mais pessoal.

É claro que a família é uma instituição essencial, indispensável, enquanto espaço de comunhão, partilha de afectos, valorização e realização pessoal e educação das crianças. A família é a célula de base da sociedade. Mas também é claro que a pastoral familiar não pode continuar a centrar-se num catálogo de proibições e pecados, na proibição dos anticonceptivos e das relações sexuais pré-matrimoniais. O próprio Francisco já preveniu que não se pode viver obcecado com o rigorismo e o legalismo; de outro modo, "mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas". É evidente que não vale tudo, mas a Igreja tem de reconhecer que tem tido enorme dificuldade em falar pela positiva das questões ligadas à família e ao sexo. O seu discurso nestas matérias tem de centrar-se na dignidade, liberdade, respeito e responsabilidade. Isto também significa que a valorização que se faz da família cristã não tem de ser acompanhada de ataques a outros tipos de realização e vivência de família.

Se o Papa reconhece que há também a tendência homossexual, pergunta-se se não se deve caminhar no sentido do reconhecimento do direito de actividade sexual no mesmo quadro de exigências dos heterossexuais. A adopção é diferente, pois o debate continua, mesmo entre especialistas. Embora Francisco, quando arcebispo de Buenos Aires, tenha aprovado que um casal gay adoptasse uma criança, o que significa, mais uma vez, a dialéctica entre os princípios e as pessoas na sua situação concreta.

Quanto à paternidade e maternidade responsáveis, é urgente perceber que a moral é autónoma, pertencendo, portanto, as decisões neste domínio às pessoas e aos casais, dentro da liberdade na responsabilidade.

No caso dos divorciados que voltam a casar, é claro que se exige celeridade nos processos de declaração de nulidade no casamento. Mas pergunta-se se não será necessário ir mais longe e, atendendo à fragilidade humana, invocar, como a Igreja cristã ortodoxa, o princípio da misericórdia, dando a possibilidade de outra oportunidade. Seja como for, não se pode pedir aos divorciados recasados que continuem no seu empenhamento na Igreja, mas impedindo-os da comunhão.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Era feriado hoje?

Hoje seria feriado do Corpo de Deus se não tivesse aparecido a trindade profana que é a troika. Na realidade, quase ninguém sente a falta deste feriado, "dia santo de guarda". Perguntei a três pessoas e nenhuma delas sabia que hoje seria feriado noutras circunstâncias. Tenho cá para mim que nunca mais será feriado.

sábado, 9 de junho de 2012

Do Corpo de Deus ao corpo na Linha

Sobre o fim do feriado do Corpo de Deus – ou supressão meramente temporária, se voltar mesmo em 2018 –, deixa-me perplexo a indignação de alguns eclesiásticos. Um exemplo. D. Nuno Brás (auxiliar de Lisboa) disse aos microfones da Renascença:
A Igreja poderia bater o pé e dizer 'não queremos', mas com que autoridade moral é que o faria? (…) Convenhamos que nós, os católicos, temos alguma culpa nisso. Se todos fossem à missa nesse dia em vez de irem para a praia, muito possivelmente não haveria Governo que tivesse condições para retirar este feriado (li aqui).
O Governo retirou este feriado? Sim, porque os feriados são todos do Estado. Mas não foi a Igreja (e no caso Conferência Episcopal coincidiu com a Santa Sé) que propôs que fosse este? Mais sensata parece-me a atitude de D. José Cordeiro:
Nós não deixamos de celebrar a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus, comummente designado como Corpo de Deus. Passa é para o domingo seguinte, deixando de ser feriado. [A supressão do feriado civil não traz] nada de grave e relevante (li aqui).
E em Bragança-Miranda não se faz sentir o efeito das praias da Linha.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Notícia do Corpo de Deus

Notícia com data de ontem.
En Alemania 160 párrocos de la arquidiócesis de Freiburg declaran vía internet que suministran la Eucaristía a los que se han casado dos veces. (…) 
Los sacerdotes –que representan alrededor de un séptimo del clero de Freiburg que dirige el arzobispo Robert Zollitsch, que también es el presidente de la Conferencia episcopal alemana– declararon en su manifiesto que están «completamente cosncientes» de violar la postura de la Iglesia católica. «Con nuestra firma –explican–, expresamos que, en nuestra actividad pastoral en relación con los divorciados que se han vuelto a casar, nos dejamos guiar por la misericordia», citando el principio salus animarum suprema lex (la salvación de las almas es la ley suprema).
Ler mais aqui. Agradeço a Henrique Dias, que me alertou para a notícia. Nos países latinos acontece o mesmo. Mas nestes há sempre uma relatividade entre os princípios e a prática. Não precisam de coincidir. E cada um age por seu lado, sem manifestos. Por isso é que as reformas de se ver nascem na Alemanha (e na Áustria e noutros países não latinos).

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Ah, grande Romano



A Igreja não se identifica com uma parte concreta da sua hierarquia, com uma escola teológica ou com uma práxis tradicional. A Igreja é muito mais que tudo isto, e em qualquer  momento cabe o recurso à sua totalidade e essência. Sei que tudo isto deve ser dito e feito com cautela, pois a autoridade torna-se atual no concreto e a obediência deve também ser exercitada concretamente. Apesar disso, existe igualmente uma relação imediata com a Igreja na plenitude da sua essência, a partir da qual é possível agir "sem temor", como diz S. Paulo, quando a inteligência e a voz da consciência assim o exigem. Posso dizer que sempre me senti Igreja, até quando, para servi-la, tive de caminhar sozinho.


Romano Guardini na sua "Autobiografia"

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Aceitação

A comunhão traz-me a possibilidade de me aceitar, apesar de me sentir tão inaceitável.


Anselm Grun

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Quatro propostas de T. Radcliffe para ultrapassar polarizações na Igreja católica



Como forma de ultrapassar as polarizações entre católicos da Comunhão e católicos do Reino, Timothy Radcliffe, no capítulo 10 de "Ser cristão para quê", intitulado "A criação de pandas" - porque se trata de coisas delicadas e que levam o seu tempo -, propõe, em resumo:

* “Devo alegrar-me com a diferença, vê-la como um outro lugar para estar de pé e olhar para o alto”, até porque “a largueza de Deus é mais entusiasmante do que a mera indiferença”. A natureza ajuda a perceber isto. “Para um acasalamento ter sucesso, é preciso haver diferença, mas não uma incompatibilidade radical. Não se pode fazer procriar ovelhas e bodes uns com os outros. Se cavalos e burros acasalam, só conseguem produzir mulas infecundas”.

Ultrapassar o medo. “O medo nunca é útil à prossecução da verdade. É da responsabilidade da ortodoxia não deixar que o pânico suprima a reflexão, ter a coragem de impedir condenações prematuras e assegurar que lhe damos o tempo necessário”.

* Temos de encontrar lugares para falar. “Precisamos de lugares onde se possa falar sem medo e sem preconceitos. Podemos ter necessidade de nos zangarmos uns com os outros e ainda haver tempo para nos reconciliarmos”. “Precisamos também de muitas pequenas iniciativas a nível diocesano e paroquial. (…) Precisamos de muitas mais que abram espaços e lugares nos quais possamos falar livremente com os que são diferentes e sermos férteis. Precisamos de criatividade institucional”.

Precisamos de líderes, mas atenção que “a liderança é a tarefa de todo o cristão batizado”. “A única compreensão da liderança cristã que acho estar de acordo com o Evangelho é a obrigação de cada um de nós dar o primeiro passo”. “A grande virtude de que necessitamos hoje, na Igreja, é a coragem de avançar, de tomar iniciativas, de pedir perdão, de procurar dar atenção mesmo àqueles que nos condenam. É mais fácil e mais seguro censurar os outros, em especial a hierarquia”. “Talvez gostemos de ter sempre alguma coisa de que nos possamos queixar. É mais seguro do que correr o risco de avançar e arriscarmo-nos a ser feridos”.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

É seguro? É aberto?

Ao quadro aqui apresentado sobre os católicos da Comunhão e os do Reino faltava pelo menos mais uma característica: a pergunta preferida.


Os da Comunhão perguntam sempre: "É seguro/a?" (A Igreja, a doutrina, a teologia, a moral...). Os do Reino perguntam: "É aberto/a?" (O responsável, a pessoa, a comunidade, a teologia...).

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Católicos do Reino versus da Comunhão

Timothy Radcliffe escreveu em “Ser cristão para quê?” (Ed. Paulinas) um capítulo (p. 239-259) sobre as divisões internas da Igreja que corroem  comunidades e semeiam ira entre os cristãos.


Estas divisões internas atravessam toda a Igreja, do Vaticano às dioceses, dos bispos aos padres, dos movimentos às paróquias, dos teólogos aos comentadores neste blogue. Leiam-se os comentários aqui neste post. Este tipo de diálogo é recorrente em alguns assuntos neste blogue.


Radcliffe chama a estas tensões “católicos do Reino” e “católicos da Comunhão”. Sintetizo as características de uns e outros. Embora a maioria dos cristãos se reencontre em ambos, quase todos nós preferimos mais um ou outro tipo.

Católicos do Reino
Católicos da Comunhão
Veem-se como Povo de Deus em peregrinação para o Reino

Vêem-se como membros da instituição Igreja, a Comunhão dos crentes
Os principais teólogos colaboram na revista “Concilium”

Os principais teólogos colaboram na revista “Communio”
Não há revelação nem verdade sem liberdade

A verdade e a beleza têm autoridade para atrair as pessoas
Doutrina central: Incarnação


Doutrina central: Cruz
Veem a verdade como uma libertação


Veem a verdade como um  reagrupar das forças
Centram-se na práxis e na experiência


Centram-se na adoração e na liturgia
Cristo é o que derruba fronteiras


Cristo é o que reúne uma comunidade
Ubi Christus, ibi ecclesia – Onde está Cristo, aí está a Igreja

Ubi ecclesia, ibi Christus – Onde está a Igreja, aí está Cristo
Dão mais destaque ao “sangue derramado pela multidão” (“por todos”)

Dão mais destaque ao “pão dado aos discípulos” (“por vós”)
Pensam (erradamente) que os católicos da Comunhão são uns saudosistas do passado
Pensam (erradamente) que os católicos do Reino sucumbiram à cultura do relativismo

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Comungar só de joelhos?


Quando se recuperou a missa em latim, segundo o ritual pré-Vaticano II, houve quem dissesse que não havia nada de estranho nisso, pois com multidões plurinacionais o uso da língua oficial da Igreja seria melhor para dar a ideia de catolicidade. Mas logo se tornou claro que a recuperação do latim (talvez dê jeito aos chineses, que andam a aprendê-lo) trazia agarrados outros ritos, paramentos velhos, rendas, luvas, arminhos e outras coisas que não deviam sair dos museus paroquiais e diocesanos. Não é conjuntural, é estrutural, como gostam de dizer os políticos.

Sinais há de que regressa também a teologia do sacrifício. A missa é mais sangue derramado no altar para aplacar Deus do que refeição partilhada em festa. O padre, de costas para o povo, é mais sacerdote e hierarca do que pastor e companheiro.

(Curiosamente, invoca-se que o padre age na vez de Cristo para dizer que uma mulher não tem tal similitude para ser ordenada – não estou a brincar, este é um dos argumentos contra a ordenação –, mas já não se defende que se se trata de oferecer um sacrifício na vez da Igreja, segundo o rito antigo, a mulher teria mais similitude para com a "mãe e mestra", que é a ecclesia, do que o homem...)

Regressa também a linguagem dos anjos e demónios, os sacrifícios feitos pelas crianças, a pureza ritual. Um dia destes será restaurado o limbo para as crianças que morrerem sem baptismo. Voltará a exigência de a mulher entrar na Igreja de véu. E já faltará pouco para se exigir o jejum integral antes da Eucaristia, se é que não é já exigido na chamada missa tridentina.

Agora vem o cardeal António Cañizares, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, dizer que “é necessário para toda a Igreja que a comunhão se faça de joelhos” (li aqui). Na realidade, o Papa só dá a Comunhão a cristãos de joelhos.

Cada vez é mais necessário recordar a frase mais repetida na Bíblia (talvez daqui a pouco também a não possamos ler livremente): “Quero misericórdia e não sacrifícios”.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Depois de comungar, uma criança...

Depois de comungar, uma criança regressa ao seu lugar e pergunta à senhora que está na ponta do banco:

- Eu pisei o pé da senhora quando saí?

A senhora responde, sussurrando, pronta para aceitar o pedido de perdão, julgando que é efeito da comunhão acabada de fazer:

- Sim, mas não faz mal.

- Óptimo - responde o garoto. Então, é este o meu banco.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Poema de Simone Weil

A divina renúncia

Só se possui
aquilo a que se renuncia.
Aquilo a que não se renuncia
escapa-nos.
Neste sentido,
não podemos possuir seja o que for
sem passar por Deus.

Comunhão católica.
Não só
Deus se fez uma vez carne,
mas faz-se todos os dias matéria
para se dar ao homem
e ser consumido.
Reciprocamente,
pela fadiga, desgraça, morte,
o homem torna-se matéria
e é consumido por Deus.
Como recusar esta reciprocidade?
Ele esvaziou-se da sua divindade.
Nós devemos esvaziar-nos
da falsa divindade com que nascemos.

Uma vez que se compreendeu
o seu próprio nada,
o fim de todos os esforços
é tornar-se nada.
É com esta finalidade
que se aceita o sofrimento
é com esta finalidade que se trabalha
é com esta finalidade que se reza.

Simone Weil (1909 – 1943)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A gripe e a comunhão. Ponto final.

Não pretendo alimentar polémicas (se bem me lembro, a palavra vem do grego e quer dizer guerra), mas devem-se alguns esclarecimentos sobre a troca de palavras entre mim e José Vítor Malheiros (JVM).

1.º JVM fala do “exemplo do polícia”. Trata-se de uma referência ao polícia que anda de bicicleta e come sandes de alface e pepino versus o barrigudo que come hambúrgueres gordurosos. Uma jornalista dizia que se sentia mais segura com o segundo, mais capaz de pôr a sua pele em risco.

2.º Ele não sabe (e suponho que o mesmo acontece com a maioria dos que seguem este blogue) que sou jornalista. Pelo que, mesmo trabalhando num semanário humilde (mas 59 anos mais velho do que o “Público”), sei como funciona um jornal. Mas nunca concordaria que isso alguma vez pudesse dar-me legitimidade para opiniar sobre o trabalho de um jornalista. O que dá legitimidade é o facto de o ler. E pronto. Todos os leitores podem opinar sobre o que está escrito. Nisso creio que ambos concordamos.

Mas a condição de jornalista talvez dê mais propriedade para distinguir os géneros (o que, no entanto, não será exclusivo dos jornalistas) e afirmar que qualquer jornalista poderá escrever sobre factos, desde que os saiba interpretar, mas nem sempre estará suficientemente esclarecido para opinar sobre os factos (principalmente sobre os que não são da sua área; recuso-me a fazer uma crítica de futebol, embora perceba que ganha quem marca mais). A comparação é antiga, mas julgo que continua válida: quando se fala da Igreja, comete-se geralmente o mesmo erro que um crítico de arte (ou um historiador) cometeria se só analisasse os vitrais do lado de fora. É preciso entrar na igreja. A crítica eclesial a partir de fora sem dúvida que é legítima, e será muito significativa (poderia dizer “profética”) quando atinge as consequências sociais da fé cristã (JVM de alguma forma pode invocar que é disso mesmo que se trata), mas será sempre incompleta.

3.º Invoca o exemplo de Cristo e aí isto entra numa outra dimensão. Cristo tocou em doentes, principalmente em leprosos, que deixavam ritualmente impuro quem lhes tocasse, à face das leis antigas. Sem dúvida que havia o aspecto médico: o perigo de contágio; e o aspecto religioso: o ficar ritualmente impuro, logo impróprio para o culto.

Quando ao aspecto médico, não sei o que Cristo pensava. A minha cristologia diz-me que ele era plenamente humano, portanto, podia ficar doente. Não sei porque não ficou, não sei sequer se ficou ou não – os evangelhos são omissos –, mas tenho a certeza de que podia ficar. Não estava imune. E tinha que ter cuidados para não apanhar doenças. Deve ter tido varicela e sarampo quando era pequeno. E dor de dentes. E de barriga, se bem que a dieta mediterrânica seja das melhores. Será que teve cuidados para não apanhar doenças? Não sei. Talvez ele não tocasse em todos os doentes. Talvez ele tenha levado a pensar que em alguns doentes que parecia terem lepra podia-se tocar (tudo o que era doença de pele era tido como lepra; até as casas tinham lepra, quando apareciam manchas nas paredes e também elas tinham de submeter-se a rituais de purificação – vem no Antigo Testamento). Talvez a aproximação aos doentes tenha levado a pensar: destes podemos aproximar-nos; daqueles, não. E tenha levado à diferenciação dos tipos de doenças - a medicina!

Mas quanto ao aspecto religioso, é claro o que Cristo pensava. Ele veio para os pobres e doentes (e para os outro também, já agora). Ele veio para reintegrar os excluídos numa grande sociedade sob o olhar bondoso de Deus a que chamava Reino de Deus (ou dos Céus, segundo S. Mateus). Com o gesto de tocar em doentes (e também: comer com ladrões, cobradores de impostos, pessoas de má vida e outros das classes rasteiras; curar ao sábado; dizer que os últimos serão os primeiros; falar com mulheres e crianças…) queria mostrar que as doenças não deviam ser factor de exclusão (os leprosos – até por estratégia social – andavam de sineta ao pescoço e diziam: fujam de mim, fujam de mim que sou leproso). Ele queria dizer entre a lei e o ser humano há que optar pelo ser humano, mesmo quando a lei parece divina. Tocar, acolher, era (e é) o contrário de excluir, diabolizar.

Mas ele também disse que o cego não pode guiar outro cego (embora eu já tenha visto cegos a guiarem-se muito bem – os tempos são outros e as capacidades dos cegos evoluíram muito).

O máximo de prudência não é contrária à solidariedade. Como sabe, “prudência” é uma boa desculpa para, por vezes, não se fazer na Igreja o que deve ser feito (alguém disse uma vez que a palavra “prudência” era a que mais se ouvia nos paços episcopais). Mas, em termos de saúde, se a gripe A for a ameaça que dizem ser, prudência é o primeiro mandamento da solidariedade. Se todos ficarem doentes, que visitará os doentes? Quem lhes levará a Comunhão?

[Desculpe(m) se me alonguei.]

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...