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sábado, 20 de dezembro de 2014

Anselmo Borges: Herança cristã da Europa

Até grandes pensadores agnósticos e ateus concordam que muito do bom da Europa é herança cristã. Anselmo Borges no DN de hoje.

sábado, 7 de julho de 2012

Anselmo Borges: Guia das religiões para uso dos não crentes



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).


"Imagino Deus como alguém que está presente, que olha por ti, que conhece a tua mente melhor do que tu próprio. Alguém com quem se partilha problemas, que cria momentos especiais de intensidade, e a sensação de um contacto directo com momentos de revelação. Imagino que quem acredita tenha essa capacidade para admitir que está perdido e tem esperança de que Deus o vai ajudar a encontrar o caminho. Tem a capacidade para admitir tudo, de ser muito honesto com Deus - porque Deus vai perdoar, porque Deus é amor e por isso nunca se está sozinho. Imagino que isso saiba muito bem. Simplesmente não me parece plausível". Esta a resposta de Alain de Botton à pergunta do "Público": "Como é que imagina Deus?"

A. de Botton, que diz não ter sensibilidade para a fé em Deus, pensa que os ateus têm muito a aprender com as religiões em problemas fundamentais. No seu livro, que já aqui apresentei, "Religião para Ateus. Um guia para não crentes sobre as utilizações da religião", escreve: "A essência da tese apresentada aqui é que muitos dos problemas da alma moderna podem ser resolvidos graças a soluções propostas pelas religiões", cuja sabedoria "pertence a toda a humanidade, mesmo às pessoas mais racionais, e merece ser selectivamente reabsorvida pelos maiores inimigos do sobrenatural. As religiões são por vezes demasiado úteis, demasiado eficazes e inteligentes para serem entregues apenas aos crentes". "Deus talvez esteja morto", mas os problemas que levaram até ele continuam aí e o ateísmo não pode esquecer as respostas das religiões, que continuam pertinentes.

Tenho aqui sublinhado a necessidade que os crentes têm de ouvir os ateus, pois, pelo facto de se encontrarem fora, estão mais capacitados para se aperceberem da desumanidade, intolerância e superstição que se apoderam tantas vezes das religiões. Mas, agora, é um ateu que reconhece as vantagens e benefícios das religiões, a ponto de, ao contrário do que faz R. Dawkins, não pretender converter as pessoas religiosas ao ateísmo. Parece-lhe cruel e uma loucura "convencer alguém a deixar de acreditar em Deus", confessou também ao "Público".

Ninguém sabe se Deus existe ou não. Volto sempre ao filósofo ateu André Comte-Sponville, que escreve que é tão imbecil alguém dizer que "sabe" que Deus existe como outro dizer que "sabe" que Deus não existe. De facto, Deus não é objecto de saber, mas de fé, e o crente tem razões e o não crente também tem razões. As religiões, sendo humanas, trazem consigo uma enorme herança de oportunismo, violência e miséria moral, mas são igualmente fonte de dignidade, verdade, imensa generosidade.

Para A. de Botton, um dos aspectos mais dramáticos do nosso tempo é a solidão, que as religiões superam mediante a vivência comunitária, onde conhecidos e desconhecidos se reconhecem como amigos.

As religiões conhecem bem as fragilidades humanas - a angústia, as tentações de injustiça, a maldade, a paralisia dos remorsos pela incapacidade de atingir níveis decentes de integridade - e sabe lidar com elas. Para lá do saber, interessam-se pela sabedoria: qual a finalidade do meu trabalho?, como devo amar?, como posso ser virtuoso?, como viver com arte?, qual o sentido da existência?

Questão essencial é a do ensino. Os espaços cimeiros do saber não apresentam o género de assistência dada pelas religiões, porque há "a convicção de que a Universidade se deve abster de toda a associação entre as obras culturais e as preocupações do indivíduo". No entanto, as necessidades íntimas permanecem e seria necessário haver cursos sobre como estar só, o trabalho, as relações com os filhos, o contacto com a natureza, o confronto com a doença e a morte. Pede-se "uma Faculdade das relações humanas, um Instituto sobre a morte, um Centro do conhecimento de si".

Adultos, continuamos com uma parte de infância em nós e "o culto mariano ousa sugerir a todos os ateus que também eles continuam vulneráveis e pré-racionais no seu coração".

E a arte? O cristianismo sabe para que serve: "Um meio de nos lembrar o que conta". O silêncio, a contemplação, a virtude, a transcendência.






Ler entrevista no "Público" aqui.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

"Religião e Diálogo inter-religioso", livro de Anselmo Borges


Só hoje tive acesso a um livrinho de Anselmo Borges, embora me lembre do entusiasmo de Bento Domingues num dos seus textos, na altura em que o livro saiu, Setembro de 2010 (recorde aqui).

"Religião e Diálogo inter-religioso", n.º 8 da coleção "Estado da Arte", da Imprensa da Universidade de Coimbra, é, muito provavelmente o que de melhor se escreveu sobre religião, religiões e diálogo inter-religioso nos últimos tempos. 136 páginas que me valeram uma maravilhosa manhã de leitura.

Num excursus, o professor e padre fala de A. Comte-Sponville. Não é irrelevante a particularização. Comte-Sponville, com a razão de afirmar que crê que Deus não existe (escreve Borges citando o filósofo francês: “Se alguém disser que sabe que Deus não existe, «não é em primeiro lugar um ateu, mas um imbecil», do mesmo modo que, se alguém disser que sabe que Deus existe, «é um imbecil que toma a sua fé por um saber». Cada um com as suas razões, tanto o ateu como o crente, têm fé”), é exemplo daqueles que procuram uma espiritualidade, “no quadro de um certo tipo de experiência mística, feito de evidência, de plenitude, silêncio, experiência oceânica, simplicidade, eternidade”.

A segunda parte, sobre o diálogo inter-religioso, tem de ser de leitura obrigatória para quem se interessa minimamente pelas religiões e culturas. E avança bastante em relação ao que há 50 anos ficou consagrado no Vaticano II.

domingo, 10 de outubro de 2010

Bento Domingues: Elogio da participação na política


Bento Domingues elogia a participação na política, bem na linha do pensamento eclesial, que considera que a política é uma forma de amor (serviço) organizado e público.

sábado, 2 de outubro de 2010

Anselmo Borges: Quem guardará a guarda?

Wittgenstein

Um dia, numa conferência, L. Wittgenstein disse mais ou menos o seguinte: se fosse possível escrever um livro de ética que fosse verdadeiramente um livro de ética, esse livro arrasaria todos os outros.

Hoje, toda a gente se queixa: "não há ética, perderam-se os valores"... Quem pode negar razão a essas queixas? Mas, depois, fundamentar a ética e, sobretudo, ser ético, é tremendamente complicado. Se há terreno há muito revisitado teoreticamente, é o da ética, mas lá estão as éticas materiais e as formais, as ontológicas, as teleológicas e as deontológicas, as éticas da virtude e até as teológicas, também há a negação do seu conteúdo cognoscitivo, pois estaríamos apenas no campo das exclamações emotivas de aprovação ou reprovação... Etc. Mas o mais difícil mesmo é ser ético na vida. Porque devo ser honesto, se isso prejudicar os meus interesses?

Os seres humanos são constitutivamente abertos à questão ética, porque nascem por fazer, devido à neotenia, e devem fazer-se bem moralmente, porque a sua lei é a lei da liberdade e da dignidade. Devemos habitar o mundo eticamente (o étimo de ética é êthos, morada).

Mas o que constitui um acto ético? Há na história da ética dois exemplos famosos: o anel de Giges, de Platão, e o comerciante honesto, de Kant. Nem Giges nem o comerciante eram éticos, pois agiam como agiam no seu próprio interesse. Ora, a ética implica agir não por causa do próprio interesse ou da consideração dos outros, não por castigo ou por prémio, mas exclusivamente pelo dever, pela consideração da humanidade e da dignidade.

Como diz A. Comte-Sponville, não é necessário nem possível fundamentar a ética. Como se fundamenta a razão? Mas fazemos a experiência ética: se virmos uma criança a afogar-se, sabemos o que devemos fazer. É uma exigência. Trata-se de não sermos indignos da nossa humanidade e de estarmos de bem connosco.

E que fazer? Queres saber se esta ou aquela acção é boa ou má? Pergunta a ti mesmo o que aconteceria se todos se comportassem como tu e se quererias isso honrada e dignamente. Se todos mentissem, quem poderia acreditar em alguém? Quererias viver numa sociedade na qual todos roubassem? Se toda a gente matasse, nem sociedade existiria. Se ninguém pagasse impostos, não poderia erguer-se uma vida comum em dignidade e todos perderiam.

Se todos fossem éticos, segundo a ética desinteressada, não era necessária a política, que ficava reduzida a administração das coisas. Só porque somos egoístas, interesseiros, é que temos necessidade do Estado para regular e gerir de modo não violento os conflitos de interesses. Como escreve A. Comte-Sponville, se a moral reinasse, não teríamos necessidade de polícia, de leis, de tribunais, de forças armadas, de cadeias.

Então, ética e política não se identificam nem confundem, mas os seus objectivos são comuns: a realização da humanidade de todos. O paradoxo não é então encontrar políticos que sejam precisamente políticos, mas com ética?

O grande desafio do nosso tempo é a formação ética, para os valores. Quando isso não acontece, remetemos constantemente para a política, para as leis, para os tribunais... Ora, neste quadro, fica-se confrontado com duas questões temíveis. Primeira: não é possível legislar sobre tudo, até porque o indivíduo tem mais deveres do que o cidadão, pois há o pré-político e o pré-jurídico. Depois, seja como for, sem ética assumida - e poderia acrescentar: sem referência religiosa ao Absoluto -, fica apenas a lei e a sua sanção, o medo e a esperança de não ser apanhado. Por exemplo, se não se pagar impostos e se for apanhado, tanto pior... De qualquer forma, nesta lógica, sem valores éticos assumidos, acaba, no limite, por ser necessário colocar um polícia junto de cada cidadão, mas, como os polícias também são humanos, é preciso pôr um polícia junto de cada polícia... Ai!, o totalitarismo!

Lá está Juvenal, embora noutro contexto: Custos custodit nos. Quis custodiet ipsos custodes? A guarda guarda-nos. Quem guardará a guarda?

Texto de Anselmo Borges no DN de 2 de Outubro de 2010.

sábado, 5 de junho de 2010

Anselmo Borges: Ao mesmo tempo religioso e ateu?

André Comte-Sponville

No DN de hoje, Anselmo Borges escreve sobre os ateus que levam a sério a sua não crença em Deus e a fé dos outros.


Como aqui me refiro por vezes a quem se considera ao mesmo tempo religioso e ateu, gostaria de tentar explicar.

Podemos apresentar exemplos. É sabido que Einstein tinha profunda veneração pela natureza - uma veneração de tipo religioso -, mas não aceitava Deus como pessoal e criador. Ernst Bloch afirmava que onde há esperança há religião. Segundo a sua concepção da matéria, força divina geradora de tudo, pode esperar-se uma salto "sobrenaturante" da natureza, de tal modo que se dê a reconciliação entre a natureza e o homem, que, no limite, se poderia tornar imortal. Mas afirmava-se ateu, porque não aceitava o Deus bíblico, transcendente, pessoal e criador.

Nesta ligação à natureza, força geradora divina impessoal, há traços de religiosidade quase mística, mas, ao mesmo tempo, porque se não acredita no Deus transcendente, pessoal, criador, com quem se tem uma relação pessoal, não se presta culto, não se reza, e, sobretudo, não se espera dele a salvação. Aí está uma religiosidade ateia.

Actualmente, um exemplo desta vivência como ateu e religioso é o filósofo A. Comte-Sponville, que se define como "ateu fiel": "ateu, porque não acredito em nenhum Deus nem em nenhum poder sobrenatural; mas fiel, pois me reconheço numa certa história, numa certa tradição, numa certa comunidade, e especialmente nos valores judeo-cristãos (ou greco-judeo-cristãos) que são os nossos", e que, neste sentido, escreveu a obra "L'Esprit de l'athéisme".

Quando se pergunta: "Acredita em Deus?", deve-se perguntar previamente o que é que se entende por Deus. Assim, Comte-Sponville propõe a seguinte definição: "Entendo por 'Deus' um ser eterno, espiritual e transcendente (ao mesmo tempo exterior e superior à natureza), que teria consciente e voluntariamente criado o universo. Supõe-se que é perfeito e plenamente feliz, omnisciente e omnipotente. É o Ser supremo, criador e incriado (é causa de si), infinitamente bom e justo, de quem tudo depende e que não depende de nada. É o absoluto em acto e em pessoa."

É precisamente em relação a este Deus pessoal que A. Comte-Sponville se confessa ateu. Não podemos saber se Deus existe ou não. Deus não é objecto de saber, se entendermos saber como "o resultado comunicável e controlável de uma demonstração ou de uma experiência". Assim, há quem acredite que há Deus e quem acredite que não há. Comte-Sponville é ateu, não crê, mas sublinhando que não pretende saber que Deus não existe: "Creio que não existe." Se alguém disser que sabe que Deus não existe, "não é em primeiro lugar um ateu, mas um imbecil", do mesmo modo que, se alguém disser que sabe que Deus existe, "é um imbecil que toma a sua fé por um saber".

Há razões para crer e razões para não crer. A. Comte-Sponville faz o elenco das razões que o levam a não crer em Deus, sendo uma das principais a existência do mal no mundo. Mas afirma-se espiritual - prefere a expressão espiritualidade a religiosidade, porque a religião está vinculada em princípio a religiões institucionalizadas -, no quadro de um certo tipo de experiência mística, feito de plenitude, silêncio, experiência oceânica, simplicidade, eternidade... Quando falta Deus, há "a plenitude do que é, que não é um Deus, nem um sujeito". Há o Todo, pouco importando os nomes: o ilimitado (Anaximandro), o devir (Heraclito), o ser (Parménides), o Tao (Lao-tsé), a natureza (Lucrécio, Espinosa), o mundo ("o conjunto de tudo o que acontece": Wittgenstein), o real "sem sujeito nem fim" (Althusser), o presente ou o silêncio (Krishnamurti) - "o absoluto em acto e sem pessoa".

Quando não há Deus que nos salva, que é a espiritualidade? "É a nossa relação finita com o infinito ou a imensidade, a nossa experiência temporal da eternidade, o nosso acesso relativo ao absoluto." O que faz viver não é a esperança, mas o amor; o que liberta não é a fé, mas a verdade. "Já estamos no Reino: a eternidade é agora."

Aqui, a pergunta radical é: um Deus não invocável pelo homem salvaria alguém enquanto pessoa? O núcleo da questão é a pessoa.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O jornalista convencido e o ateu cauteloso

Claude Dagens, bispo católico e membro da Academia Francesa desde 17 de Abril de 2008, conta (na "Communio" aqui referida):

Foi há alguns anos. Um conhecido jornalista, ao aperceber-se de que no seu estúdio de televisão está uma mulher com véu, exclamou:

- Desde que existe um Livro revelado, existe o obscurantismo.

Encontrava-se lá, no mesmo momento, um filósofo ateu, André Comte-Sponville, que replicou de imediato:

- Que grande exagero!

Concluiu o bispo de Angoulême (a terra dos grandes festivais de BD): "As reacções tacanhas, e até fanáticas, podem escandalizar também aqueles que não partilham a fé".

domingo, 9 de agosto de 2009

Anselmo e o capitalismo

Anselmo Borges escreve sobre o capitalismo, no DN (aqui). Pergunta se é moral. E, com umas referências a Kant, Platão e André Comte-Sponville acaba por concluir que não é moral nem imoral, mas amoral. Sem moral.

“O capitalismo é, pois, amoral. Não funciona pela virtude nem pelo desinteresse ou pela generosidade, mas pelo interesse pessoal ou familiar, pelo egoísmo. Se funciona bem, é precisamente porque egoísmo é coisa que não falta, mas, também por isso, não basta. O mercado, que mostrou ser o sistema mais eficaz, não tem a capacidade de regulação socialmente aceitável e a moral também não consegue”, escreve.

Tenho algumas objecções às considerações do padre filósofo. O capitalismo é uma actividade humana. Ou melhor, é o nome que se dá a um conjunto de actividades económicas humanas. Anselmo Borges não explica o que entende por capitalismo e esse será a primeira fonte de mal-entendidos. Dando o exemplo do comerciante que é honesto por causa do seu próprio interesse, tirado de Kant (mas que faz lembrar o talhante, do cervejeiro e do padeiro do professor escocês de Moral chamado Adam Smith), parece reduzir o capitalismo ao mercado. Ao negócio de compra e venda.

Mas o capitalismo é também livre iniciativa, liberdade de fazer e investir, de criar. O capitalismo é tão questão de negócio como de liberdade e criatividade. E estas são questões essencialmente humanas. E aqui entra a ética e a moral.

Perguntar se o capitalismo é moral é como perguntar se a indústria é moral ou se a agricultura é moral, se uma faca, um automóvel ou uma folha de papel são morais… Depende. Só o ser humano é que é moral. Todas as actividades são morais ou imorais apenas na medida em que nelas participam os seres humanos.

Os problemas que o capitalismo apresenta, tal como em todas as outras actividades, são problemas humanos. Têm rostos e nomes. Procedem de acções imorais.

Por outro lado, penso que é injusto identificar “interesse” com “egoísmo” na generalidade. Interesses teremos sempre, mas podem ser egoístas ou não. Anselmo Borges não é o único a identificar capitalismo com egoísmo. Há toda uma corrente com ligações à Igreja, a alguns socialismos, comunismos, anarquismos que assim pensa. Está latente. Mas penso que essa identificação não serve nem a verdade nem o bem comum da sociedade que somos.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...