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sábado, 16 de agosto de 2014

Recuperando do évola: "My focus, however, remains the same - to follow God"

Kent Brantley e a sua mulher, Amber

A boa notícia do dia é que pode ter sido encontrada a cura para a febre hemorrágica do évola. Kent Brantly está praticamente curado, depois de o Hospital Universitário de Emory (Atlanta) lhe ter administrado um soro feito a partir da planta do tabaco geneticamente modificada.

Quando estava na Libéria e percebeu que tinha adoecido com o ébola, Kent Brantly isolou-se e, contou mais tarde, percebendo que ia morrer, teve um “sentimento profundo de paz, para além de qualquer compreensão”.
When I started feeling ill on that Wednesday morning, I immediately isolated myself until the test confirmed my diagnosis three days later. When the result was positive, I remember a deep sense of peace that was beyond all understanding. God was reminding me of what He had taught me years ago, that He will give me everything I need to be faithful to Him.
Agora que está quase curado, escreveu na página da Bolsa doSamaritano que está agradecido a Deus “pela sua misericórdia”.
I am growing stronger every day, and I thank God for His mercy as I have wrestled with this terrible disease.
Kent Brantly trabalha para a Samaritan’s Purse, uma organização dos cristãos evangélicos. Ele e Nancy Writebol (que está a recuperar, ainda que mais lentamente), estavam como médicos missionários na Libéria.
Now it is two weeks later, and I am in a totally different setting. My focus, however, remains the same - to follow God. As you continue to pray for Nancy and me, yes, please pray for our recovery. More importantly, pray that we would be faithful to God’s call on our lives in these new circumstances.
Na terça-feira, morreu em Madrid o padre Miguel Pajares, da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, que também tinha estado na Libéria, tratando de doentes com évola.


Pode ser da minha visão seletiva, mas os que estão com os mais desgraçados estão porque veem neles Jesus Cristo – algo bem difícil ou impossível para quem não tem os olhos da fé. Aliás, as duas coisas são intercambiáveis. Não vi Donald Trump fazer barulho pelo repatriamento de ninguém da Associação Ateia ou da Liga Humanista.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Anselmo Borges: "Mandela: o milagre do perdão"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.


Ainda se pode dizer algo que não tenha já sido dito sobre Nelson Mandela, perante quem o mundo todo se inclinou, em sinal de respeito e veneração, aquando da sua morte a 5 de Dezembro passado, aos 95 anos? Já antes também.

Estive várias vezes na África do Sul, ainda no tempo do apartheid. Ainda vi, por exemplo, em bancos de jardim ou indicação de praia, a ordem: "Whites only" (só para brancos). Se pude visitar o Soweto, foi porque o afável bispo católico de Joanesburgo, que não era racista, pediu ao pároco negro que me acompanhasse. E foi com muita simpatia que me receberam.

Muitas vezes me perguntei como é que aquela ignomínia iria acabar. Seria possível sem um banho de sangue? Foi possível. Pacificamente, abriu-se o caminho para a democracia no quadro da coexistência racial. Isso deveu-se certamente também à inteligência política do presidente De Klerk, no novo contexto criado pela queda do muro de Berlim. Mas, para evitar a tragédia, o espírito e a acção de Mandela foram determinantes. Afinal, tudo está naquele gesto de apertar a mão aos carcereiros e convidá-los para o banquete de inauguração da nova presidência da "nação arco-íris". É necessário caminhar com a utopia, que nos diz, por um lado, o que não pode ser, porque intolerável, e, por outro, nos indica o caminho do para onde se deve ir.

Mandela percebera que os seus carcereiros eram seres humanos habitados pelo medo. Ora, o medo é do pior que há. O medo tolhe a razão e a capacidade de pensar. É preciso ter medo de quem tem medo, de tal modo que a primeira libertação tem de ser a libertação do medo. Também e sobretudo no universo da religião. Aterrados pelo medo de Deus, homens e mulheres que se julgam religiosos caminham fatalmente para desgraças tenebrosas. Por isso, a Bíblia é atravessada pela compreensão histórica lenta, que culmina em Jesus, através da sua experiência, palavras e acções, de que a única tentativa de "definir" Deus é (está em São João): Ho theós agapê estín (Deus é amor incondicional, Deus é Força infinita de criar e só sabe amar).

Mandela era cristão. Por isso, sabia que se deve perdoar aos inimigos. Pelo Evangelho, também sabia que os romanos enquanto potência de ocupação podiam obrigar um judeu a transportar a bagagem na distância de uma milha, sendo neste contexto que se percebe o que Jesus diz: "Faz uma segunda milha de livre vontade." Talvez o romano começasse a conversar, e quem sabe se não acabariam por beber um copo juntos? A reconciliação, a solução pacífica dos conflitos é preferível à violência e à guerra. E Jesus, do alto da cruz, rezou: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem."

De qualquer modo, o perdão é um milagre, também em política. Jürgen Habermas, agnóstico, talvez o maior filósofo vivo, que quereria uma filosofia que herdasse, num processo de secularização mediante a razão comunicativa, os conteúdos semânticos da religião e a sua força, reconheceu que há um resto na religião não herdável pela simples razão. Disse-o num discurso famoso, por ocasião da recepção do prémio da paz dos livreiros alemães e já depois dos acontecimentos trágicos do 11 de Setembro de 2001. Esse resto tem que ver nomeadamente com o drama do perdão.

O perdão, em última análise, já não pertence à ordem do jurídico nem do político. No perdão do imperdoável, é a razão humana enquanto capacidade do cálculo que é superada, pois nem o algoz tem direito ao perdão nem a vítima é obrigada a perdoar. Como escreveu o filósofo Jacques Derrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, "qualquer coisa de trans-humano": "na ideia do perdão, há a da transcendência", pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí, começa o domínio da religião. "A partir desta ideia do impossível, deste "desejo" ou deste "pensamento" do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito bem tentar-se uma génese do religioso."

segunda-feira, 25 de junho de 2012

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

10 factos do Vaticano pouco noticiados em 2011 (1.ª parte)

Em 2011 houve notícias relativas à Igreja Católica e ao Vaticano que obtiveram amplo destaque na imprensa internacional. A beatificação de João Paulo II foi uma delas. Outras foram claramente “sobrenoticiadas” – como o são geralmente os escândalos com figuras da Igreja. Mas há ainda uma terceira categoria de notícias: as que, sendo importantes, não obtiveram o devido espaço na imprensa internacional. John L. Allen Jr., do semanário católico norte-americano “National Catholic Reporter” selecionou dez factos subnoticiados (Top 10 under-covered Vatican stories). Moisés Sbardelotto traduziu.  Eu resumi.

1. Scola para Milão
O cardeal Angelo Scola, 70 anos, já era candidato papal antes da sua nomeação, no dia 28 de junho, para arcebispo de Milão. Durante o século XX, dois papas foram eleitos de Milão, Pio XI e Paulo VI, e vários outros arcebispos de Milão foram considerados formidáveis concorrentes. Scola, oriundo do movimento Comunhão e Libertação, é um feroz defensor da identidade católica, mas prefere pôr o acento “no que a Igreja é” em vez de “contra quem ela é”.

2. Átrio dos Gentios
O "Átrio dos Gentios" de 24 e 25 de março, em Paris, foi um grande sucesso no mundo de língua francesa. Organizado pelo Conselho Pontifício para a Cultura, presidido pelo hipererudito cardeal italiano Gianfranco Ravasi, o encontro levou cristãos, ateus e agnósticos a um sério diálogo. Um sinal do sucesso é que o reputado filósofo agnóstico francês Jean-Luc Ferry ficou tão impressionado que pediu uma reunião urgente com Ravasi para propor uma colaboração a dois sobre o Evangelho de João. O encontro de Paris foi o primeiro de uma série de "Átrio dos Gentios".

3. Assis
O encontro de 300 líderes religiosos na cidade natal de São Francisco, promovido por Bento XVI, no dia 27 de outubro, não atraiu um interesse semelhante ao que cercou a primeira cúpula inter-religiosa promovida pelo Papa João Paulo II em 1986. No entanto, assinalar com um encontro inter-religioso o 25.º aniversário do evento de João Paulo II foi, sem dúvida, algo de extrema importância pelo que simboliza: a convocação dos líderes religiosos do mundo em prol da paz não era simplesmente um capricho pessoal de João Paulo II. Pelo contrário, tornou-se parte do trabalho do papado, algo que os futuros papas deverão repetir.

4. A viagem ao Benim
Na ausência de um novo tumulto em torno dos preservativos e da Sida, a viagem de Bento XVI ao Benim, nos dias 18 a 20 de novembro, não foi uma sensação mediática. No entanto, os papas votam com os pés, ou seja, as suas prioridades pastorais e geopolíticas são muitas vezes reveladas pelos locais que escolhem para visitar. África é o segundo continente mais visitado depois da Europa. Bento XVI apresentou um documento contendo as conclusões de um Sínodo dos Bispos para a África, de 2009, constituindo um plano papal para o continente onde o catolicismo cresceu quase 7.000% durante o século XX, alertou para a corrupção e desafiou os bispos a arrumarem a sua própria casa em termos de responsabilidade, transparência e bom governo.

5. Viganò para os Estados Unidos
A nomeação do dia 19 de outubro do arcebispo italiano Carlo Maria Viganò como o novo núncio ou embaixador papal para os Estados Unidos tem um significado negativo e outro positivo. Durante o seu período no governo da cidade do Vaticano, Viganò foi uma reformador financeiro, instaurando procedimentos eficientes de contabilidade entre os pequenos feudos independentes do Vaticano. No entanto, não terminou o que começou. O facto de estar agora nos EUA significa que está posicionado para ajudar os bispos norte-americanos a seguir em frente na boa gestão do dinheiro, num momento em que se teme que os escândalos financeiros possam tornar-se o segundo “round” da crise dos abusos sexuais enquanto fonte crónica de desordens.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Paul Schebesta: Missionário, antropólogo e anticolonialista


No "Público" de hoje, sobre o missionário-antropólogo que escreveu o livro referido em entrada anterior. Há dias, o missionário foi citado numa crónica de Anselmo Borges, que a certa altura escreve refere a definição de religião de Paul Schebesta: "A religião é o reconhecimento consciente e operante de uma verdade absoluta ('sagrada') da qual o Homem sabe que depende a sua existência" (aqui).

José Mattoso apresenta obra do missionário que foi antropólogo em Moçambique

Informação dos missionários do Verbo Divino:


Lançamento de "Portugal - a Missão da Conquista no Sudeste de África", do historiador, antropólogo, etnólogo e linguista alemão Paul Schebesta, que foi missionário em Moçambique, na região da Zambézia, de 1911 a 1916.

A sessão terá lugar no dia 13 de Dezembro, pelas 18 horas, na Sociedade de Geografia de Lisboa, sendo a obra apresentada pelo historiador Prof. Doutor José Mattoso.

Traduzido do original alemão "Portugals Konquistamission in Südost-Afrika" este livro vem preencher uma importante lacuna na historiografia da missionação e da presença portuguesa em Moçambique.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Missionários, bíblias e terras - 2


Quando os missionários chegaram a África, eles tinham a Bíblia e nós tínhamos a terra. Eles disseram: “Oremos”. Nós fechados os nossos olhos. Quando os abrimos, nós tínhamos a Bíblia e eles tinham a terra.

Desmond Tutu, bispo sul-africano da comunhão anglicana

Frase muito parecida com a de Jomo Kenyatta. Mas mais desarmante.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Missionários, bíblias e terra

Jomo Kenyatta (1894-1978), fundador da nação queniana


Quando os missionários chegaram pela primeira vez à nossa terra, eles tinham as bíblias e nós tínhamos a terra. Cinquenta anos depois, nós tínhamos as bíblias e eles tinham a terra. 

Jomo Kenyatta


No mês das missões, é preciso pensar que nem tudo foi bom, embora eu não tenha qualquer dúvida de que os missionários actuais, mais do que os jornalistas ou os políticos, mesmos os bons, são os verdadeiros heróis do nosso tempo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

10 de Outubro de 1881. Morre Daniel Comboni

Daniel Comboni, italiano, nasceu no dia 15 de Março de 1831, em Limone Sul Garda, e morreu no dia 10 de Outubro de 1881, em Cartum, Sudão, onde era missionário.


Deve ser das personalidade europeias que mais fez pela África nos últimos séculos. Ele e os seus companheiros, os missionários combonianos, que, embora espalhados por outros continentes, continuam com a predilecção de África.  "África ou morte", dizia o fundador.


Evocar Comboni é igualmente pretexto para lembrar as duas revistas que os missionários publicam em Portugal, a "Audácia" (para crianças e adolescentes) e a "Além-Mar", de onde tirei a ilustração.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Filantropia telescópica

Timothy Radcliffe, na página 159 de "Ser Cristão para quê?", fala da "filantropia telescópica", uma expressão de Charles Dickens. Refere-se aos que amam quem está longe, geralmente esquecendo-se de quem está perto. A Sra. Jellyby, diz Dickens, estava marcada por "filantropia telescópica, porque não conseguia ver nada mais perto do que África".
Já no séc. XII, Aelredo de Rivaulx advertira os religiosos do seu mosteiro contra "um amor que, dirigindo-se a todos, não alcança ninguém".
Acrescento que já João notava a contradição de que diz que ama a Deus, que não vê, e não ama o próximo, que vê. Precisamente por isso, penso eu. A filantropia a olho nu é a mais difícil.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

14 de Janeiro de 1875. Nasce Albert Schweitzer, músico, médico, missionário, teólogo, Nobel da Paz

Albert Schweitzer nasceu em 1875, no dia 14 de Janeiro, na Alsácia (que hoje faz parte da França, mas na altura integrava o império alemão), e morreu no dia 4 de Setembro, em Lambarena, Gabão.

Formou-se em Teologia e Filosofia e tornou-se professor universitário. No início do século passado escreveu um livro sobre todas as tentativas de levar a cabo uma biografia de Jesus que ainda hoje é estudado nas faculdades de Teologia. Schweitzer estava convencido de que não é possível escrever uma biografia de Jesus, nos moldes modernos, porque este escapa a todas as categorias. E quem escreve tem tendência a projectar em Jesus os seus próprios traços e interesses. Daí que seja possível, ao longo da história, dar com um Jesus asceta, liberal, hippie, comunista, pobre, imperador, rei…

Na angústia de ser impossível chegar ao Jesus em si mesmo, Albert Schweitzer tomou uma decisão: encontrar Jesus nos mais abandonados. Quando tomou a decisão, era um professor admirado, gozava de grande prestígio e era um músico afamado. Mais tarde deixaria registadas as suas interpretações de João Sebastião Bach. São célebres as gravações de 1936-37, ainda à venda em disco (aqui, por exemplo).

Para ir ao encontro dos mais pobres, formou-se em medicina, casou-se e partiu para Lambarena, uma povoação no Gabão, em África, nos trópicos (as ilhas de S. Tomé e Príncipe ficam ao largo do Gabão).

Ao deparar-se com a falta de recursos em Lambarena, improvisou um consultório num antigo galinheiro e atendeu os doentes enfrentando o clima hostil, equatoriano, a falta de higiene, a língua que não entendia, a carência de remédios e de instrumentos. Tratava de mais de 40 doentes por dia e, no resto do tempo, ensinava o Evangelho.

Com o início da I Guerra Mundial, os Schweitzer foram levados para a França, como prisioneiros de guerra – eram alemães. Com o final da guerra, Albert retoma seus trabalhos: “Começaremos novamente. Devemos dirigir nosso olhar para a humanidade”. Recolheu fundos e, após sete anos, regressou a Lambarena com médicos e enfermeiras dispostos a ajudá-lo.

A sua acção e determinação – que as minhas palavras não mostram verdadeiramente – espantaram o mundo. E em 1952 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz.

Há uma série televisiva sobre Schweitzer. Passou em Portugal no final dos anos 80 – foi graças a ela que conheci esta grande figura. Na altura, quis ser missionário como ele. Foi uma das maiores personalidades do século XX.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

12 de Novembro de 1938. Os nazis anunciam planos para fazer de Madagáscar a “pátria dos judeus”

No dia 12 de Novembro de 1938, Hermann Göring revelou os planos para fazer da ilha de Madagáscar a pátria dos judeus.

Curiosamente a ideia não era propriamente original. O judeu Theodor Herzl (1860-1904), jornalista austro-húngaro, fundador do sionismo político moderno, já havia proposto algo semelhante, após o Caso Dreyfus e o recrudescimento do anti-semitismo em França, onde era correspondente.

Herzl pensou que a “questão judaica” só se resolveria com um Estado para os judeus e começou a procurar uma terra que os acolhesse. Em 1896, tentou persuadir o sultão da Turquia para que este lhe cedesse uma parte da Síria, então sob o domínio otomano. Outras localizações foram estudadas pelo movimento sionista no princípio do século XX: Patagónia (Argentina), Uganda...

O “Plano Madagáscar”, nazi, falhou porque, para além das dificuldades logísticas do transporte de quatro milhões de pessoas (que a Alemanha queria que a Inglaterra assumisse), as tropas da Inglaterra e da França Livre tomaram a ilha que estava sob o domínio da França de Vichy, colaboracionista, em 1942. Os nazis começaram então a executar a "Endlösung der Judenfrage", a “Solução final da questão judaica”, o Holocausto.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Mandela diz que não é santo, o que é típico dos santos


«Não devemos esquecer que um santo é um pecador que não cessa de se esforçar». Esta é a frase que fica, neste livro, como principal mensagem de uma vida, diz Ana Dias Cordeiro, no “Público” (aqui), sobre a autobiografia de Nelson Mandela, que hoje (12-10-2010) foi lançada mundialmente e aparecerá em Portugal, a 8 de Novembro, com o título “Arquivo Íntimo” (título original: “Conversations with Myself”). No livro, Mandela diz que não é santo, o que é típico dos santos. "Dignidade por fora, dignidade por dentro", disse dele o historiador Tim Couzens.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

3 de Maio de 1491. O rei do Congo é baptizado por missionários portugueses

Levantamento de um Padrão da foz do Zaire por Diogo Cão. Painel de Sousa Lopes no Salão Nobre da Assembleia da República

No dia 3 de Maio de 1491, missionários portugueses baptizam o rei Nzinga Ntinu, que assume o nome de D. João I. Em Portugal governava D. João II. Digo Cão havia chegado à foz do Zaire em 1482.

O rei congolês fez baptizar o filho Mbemba a Nzinga, que tomou o nome de Afonso, e durante vários anos apoiou a difusão do cristianismo. No entanto, a pouco e pouco regressou ao paganismo. Afonso, ao contrário de um seu irmão que nunca se baptizou, permaneceu fiel à religião dos europeus.

Em 1798, Fr. Raimundo de Dicomano, missionário franciscano capuchinho, italiano, escreveu, num relatório dirigido a Miguel António de Melo, Governador, e Capitão-Mor do Reino de Angola:

“Contam os historiadores que em tempos antigos floresceu no Congo a Religião Católica. Sua Majestade Fidelíssima, o Rei D. João II de Portugal, de feliz memória, foi o primeiro que a introduziu naquele vasto Reino, enviando, no ano de 1492, Missionários da Europa, que, chegados ao Rio Zaire, desembarcaram no Principado do Soio, e dali passaram para o Congo. Afonso, filho de D. João, o primeiro Rei do Congo que recebeu o Baptismo, deu muitíssimas provas do seu grande zelo e amor pela Religião, e pela propagação do Evangelho de Jesus Cristo. Logo que recebeu o Baptismo, e foi instruído nas verdades da Religião, mandou destruir os ídolos, exilou os Bruxos e os Feiticeiros, e proibiu todas as superstições, e chegou tão longe o seu zelo, que enterrou viva sua Mãe por esta não querer abandonar a idolatria.

Ele próprio andava a instruir os seus povos nas verdades mais importantes da Religião Cristã, e ajudou de tal modo os Missionários, que em pouco tempo aquele grande Reino se tornou Cristão; mas hoje em dia, as coisas mudaram totalmente de figura, porque a Religião, que agora se encontra pelo Congo, não é senão pura aparência, e apenas se vê um ou outro vestígio de Cristianismo e de Religião".

sábado, 10 de abril de 2010

Nomes, obras e temas das teologias africanas

Síntese das onze páginas da "além-mar" sobre as teologias africanas (ver "post" anterior).

Marco
A obra “Os Padres Negros Interrogam-se”, de 1956, significou o nascimento da teologia africana.

Principais temáticas das teologias africanas

O Verbo é negro. Relação entre cultura bíblica e cultura africana. Esta está mais próxima da Bíblia do que as culturas europeias. Desenvolvimento de uma inculturação cristocêntrica e trinitária.

Libertação no centro. Sair da eterna crise africana. Escravatura, colonialismo, neocolonialismo. Deus que é Deus só pode ser Deus dos oprimidos. Teologia negra da libertação.

Cristo é o proto-antepassado. Defesa da racionalidade holística e religiosa dos africanos contra a instrumental e unidimensional dos ocidentais e do “inegável monoteísmo” das religiões africanas, para lá das acusações de politeísmo.

Quem é quem na teologia africana

Autores e obras

John Mbiti, pastor anglicano de origem queniana
* African Religions and Philosophy
* New Testament Eschatology in African Background
* Bible an Theology in African Christianity

Victor Wan-Tatah, originário dos Camarões, professor na Youngtown University do Ohio, EUA.
* Emancipation in African Theology

Laurenti Magesa, padre católico tanzaniano
* Ujamaa Socialism in Tanzania. A Theological Assessment (ujamaa, em suaíli quer dizer “solidariedade familiar”)
* African Religion. The Moral Traditions of Abundant Life

Desmond Tutu, arcebispo anglicano
* The Rainbow People of God. The Making of a Peaceful Revolution

Albert Nolan, católico sul-africano, dominicano
* Jesus before Christianity. The Gospel of Liberation
* Jesus Today: A spirituality of Radical Freedom

Allan Boesak, pastor da Igreja reformada sul-africana
* Farewell to innocence
* When Prayer Makes News
* A call for an End to unjust rule

Outros nomes

Ka Mana, pastor protestante de origem congolesa

Justin S. Ukpong, católico nigeriano, professor de Novo testamento e Teologia Africana na Universidade católica da África ocidental, em Port Harcourt, Nigéria.

Para conhecer as teologias africanas

Emanuel Martey, teólogo presbiteriano do Gana
* African Theology: Inculturation and Liberation

Kwesi A. Dickson, pastor metodista do Gana
* Theology in Africa

Bengt G. M. Sundkler
* Bantu Prophets in South Africa

Kwane Bediako, teólogo presbiteriano ganês
* The Renewal of a non-Western Religion

Nota final

Tanto quanto sei, destes autores, apenas Albert Nolan tem uma obra publicada em Portugal, “Jesus hoje”, nas Paulinas (aqui).

Teologias africanas na "além-mar" de Abril

A revista “além-mar” de Abril de 2010 (n.º 591, Ano LIV) apresenta um dossiê de 11 páginas sobre teologias africanas. Os cinco textos são do congolês Benoit Awazi Mbambi Kungua e referem-se à teologia subsariana, negra, podemos dizer - embora haja autores brancos e mestiços -, quase toda em língua inglesa.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

10 de Novembro de 1871. Henry Stanley encontra David Livingstone

Stanley é o da esquerda

No dia 10 de Novembro de 1871, o jornalista Henry Morton Stanley (1841-1904) encontra o missionário e explorador escocês David Livingstone (1813-1873). O encontro deu-se em Ujiji, perto do Lago Tanganica, na Tanzânia.

Segundo o diário de viagem de Stanley, este saudou o explorador e missionário de que não havia notícias com a frase: “Dr. Livingstone, I presume?”. Livingstone era o único europeu que Stanley encontrava em milhares de quilómetros.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

6 de Novembro de 1913. Gandhi é preso na África do Sul

O advogado Gandhi, na África do Sul, em 1899-1900

No dia 6 de Novembro de 1913, Mohandas Gandhi liderou uma marcha de cerca de duas mil pessoas, a maioria mineiros indianos, na África do Sul. Tinha 44 anos. Foi preso. Pagou a fiança e passados uns dias voltou a ser preso. Mais quatro dias de liberdade e nova prisão, desta vez com três meses de trabalhos forçados. Entretanto já eram 50 mil a fazer greve. Desde 1906 que Gandhi usava o método da não-violência.

A não-violência não existe se apenas amamos aqueles que nos amam. Só há não-violência quando amamos aqueles que nos odeiam. Sei como é difícil assumir essa grande lei do amor. Mas todas as coisas grandes e boas não são difíceis de realizar? O amor a quem nos odeia é o mais difícil de tudo. Mas, com a graça de Deus, até mesmo essa coisa tão difícil se torna fácil de realizar, se assim queremos.
Gandhi


domingo, 4 de outubro de 2009

Sant’Egídio continua em Moçambique

Sobre a paz em Moçambique e a Comunidade que conduziu as negociações (aqui):

No dia 4 de Outubro de 1992, após 27 meses de intensos colóquios junto da Comunidade de Sant’Egídio em Roma, era assinado o acordo de paz que punha cobro a uma longa e sangrenta guerra civil em Moçambique. O acordo, o único assinado em Itália na época contemporânea, funcionou. O caso de Moçambique é um dos poucos exemplos felizes de uma negociação que tenha gerado uma paz duradoira em África. Há 16 anos que Moçambique vive em paz, sólida e estavelmente.

Sant’Egídio está hoje presente em 120 localidades do País, com comunidades empenhadas na proclamação do Evangelho a todos e em actividades de apoio aos mais fracos. As Comunidades de Sant’Egidio em Moçambique sentem a responsabilidade de continuar a construção da paz através da educação das crianças nas Escolas da Paz, na amizade com os prisioneiros, com os idosos, na ajuda ao programa DREAM para a luta contra a SIDA.

4 de Outubro de 1992. Acordo de Paz para Moçambique assinado em Roma

No dia 4 de Outubro de 1992 foi assinado em Roma o Acordo Geral de Paz, entre o governo de Moçambique e a RENAMO. O acordo foi assinado sob os auspícios da Comunidade Sant’Egídio.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...