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domingo, 7 de dezembro de 2014

Comentário é conteúdo



Neste post não vou refletir sobre o carater aleatório deste blog, embora a minha mente tendencialmente organizada me faça sempre começar por aí. Talvez tenha que assumir que este espaço não tem propósito intelectual mas antes um propósito emocional, sou eu que me conecto comigo. Para mais, nos dias de hoje, “comment is the content” e estou a citar o último episódio de South Park, já disponível online, e se aparece em South Park, é porque é oficial. E é verdade, é tão verdade para o meu sobrinho de 6 anos que é viciado em comentadores de jogos no youtube, como é verdade para todo o tipo de informação que recebemos hoje em dia. Eu acho que com isso – não sei se gosto muito desta forma do meu sobrinho passar grande parte do seu tempo – mas é verdade que o aumento da influência da socialização das redes disponibilizou para o utilizador uma leitura de várias camadas, mais transversal, espontânea e livre. De facto, o comentário ao conteúdo é conteúdo por si mesmo. Isto faz com que o conteúdo esteja sempre em permanente vigilância e acredito que há valores positivos que advém desta nova experiência – nunca vi tanta denúncia de misoginia presente em livros, filmes e músicas como vejo agora pela internet a fora. Parece que todos somos convidados a opinar e essa massa opinativa tem também o propósito de ser geradora dos próximos conteúdos, desejavelmente adaptados às exigências com que se depara. Nunca foi tão fácil perceber o que pensa o consumidor final dos produtos culturais. 

Começo a notar que o mês de Dezembro é muito profícuo em reflexões. É uma espécie de melancolia metódica que coincide com o fim do ano civil. Serão as luzes fluorescentes nos pinheiros? Será o Pai Natal um espírito de uma realidade com 5 dimensões onde o tempo é não só um círculo plano como a parte de trás de uma estante – é tão lamentável mas eu fico sempre … entusiasmada… vamos dizer assim, com estas MMR (Matthew Mcconaughey References). Também é uma fase em que fico muitas vezes com tempo livre e não preciso de dormir e assim sendo posso instruir-me mais tanto passiva como ativamente através da escrita que é, essencialmente, uma questão de prática como as outras. Ou até através de uma atividade que faz muito bem  que porventura pessoas que leem este blog, certamente não praticam o suficiente que é o convívio com pessoas, tipo sair com elas e conversar, como todo o tipo de pessoas em termos de feitio, idade, nacionalidade, orientação sexual, etc e nem sempre recorrendo a estupefacientes ou álcool para o efeito. Nem sempre, mas às vezes ajuda. Viajar também é uma forma ativa de reflexão mas é sempre diferente se se viaja sozinho/a ou se viajamos a dois ou com grupos de pessoas e atividades definidas. Todas estas condutas são bem-vindas para alimentar o bichinho do pensamento que é uma forma querida e quase infantil de dizer preencher o vazio existencial camusiano que invade inusitadamente os sentidos na quadra festiva.


É provável que eu venha a escrever novamente em breve mas se não acontecer, lembrem-se de ter um período festivo repleto de todas estas dicas que vos dei: boa continuação de produção de não-conteúdo para todos!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Torres de Ouro




Vou escrever genericamente com ornamentos abstratos de forma a tentar atrair as atenções dos amantes da leitura que não tolerariam, obviamente, um desabafo ressabiado de um ou de uma qualquer transeunte inútil com mágoas de cabeceira para partilhar com uma audiência imaginária. É contudo óbvio que o que se segue são rastos de experiência pessoal acumulados num inconsciente escoriado, a cicatrizar lentamente usando o tempo como pomada hidratante reconstrutora dos tecidos do bem-estar diário.


Não há lugar algum onde padrões de comportamento registados entre indivíduos da mesma sociedade possuam interpretações lineares. As ciências sociais e até as ciências humanas possuem assim este caráter místico, de uma imensidade de explicações e planos teóricos altamente improváveis (impossíveis?) de serem testados. Mas vamos voltar a mim porque a vitalidade de uma personagem é o que torna a ficção um lugar menos árido do que o texto académico. Ah, esta última palavra, o academismo. Qual o desapontamento de me aperceber que os académicos nas melhores universidades deste país vivem ainda inacreditavelmente em torres de marfim. (A expressão Torre de Marfim designa um mundo ou atmosfera onde intelectuais se envolvem em questionamentos desvinculados das preocupações práticas do dia-a-dia.) Suponhamos que vou falar de economia ou do estado social. Quero descrever violência estrutural mas a única forma de violência que experienciei foi o arrivismo intelectual no qual me asfixio de forma a ter um lugar garantido num pedestal de prestígio que me refugia de qualquer realidade. Faz sentido? Não, não faz. O entendimento do mundo deve ser visceral antes de ser teórico e não quero usar a palavra empirismo porque não é de empirismo que se trata porque esta porcaria do empirismo é a forma que os académicos usam para dizer conhecimento pragmático. Pragmatismo é sujar as mãos. Sim, sou maluca – está diagnosticado. Há em mim uma necessidade ridícula de compreender as coisas em profundidade, mas não é essa profundidade intrínseca de literaturas infinitas que compõe o espólio intelectual de um académico. Claro que sim, claro que o conhecimento é o aspeto basilar da compreensão da realidade. Está para mim fora de questão pôr em causa o papel do conhecimento teórico e do papel da educação. O que ponho em causa, contudo, é a hipocrisia. A hipocrisia de se falar em responsabilidade social e de se desprezar frontalmente a responsabilidade que um professor tem, por exemplo, perante um aluno, dispensa o seu tempo e paga propinas e tem expectativas, o que é compreensível. Mas o tutor com a sua inquestionável notoriedade no seu grupo de pares, no seu grupo de estrategas do poder tem que publicar, porque tem que debater ideias num colóquio internacional e aproveita para pôr umas fotos no facebook a dizer como é bom estar em Nova Iorque a passear num intervalo de um debate interessantíssimo sobre os conflitos no Sudão ou as discrepâncias sociais na Rússia. E vamos falar de hipocrisia como ela deve ser falada, todos somos uns potenciais exibicionistas e foi a internet que o comprovou. Acho que já dei este exemplo mas continuo a gostar dele. Era Orwell que falava do medo de sermos constantemente controlados por um estado totalitário que não nos dava liberdade de ação sem supervisão. O que vemos, no entanto, com o advento da ultra-exposição, numa explosão de ecrãs é que ela é procurada incessantemente. As luzes ligam-se, as câmaras estão a filmar e quem não se quer pôr à frente delas? Sobretudo se é para realçar as necessidades que o nosso ego foi construindo – porque o ego é uma construção social – temos todos necessidade de reconhecimento, necessidade de prestígio – não vou descer tão baixo ao ponto de falar de fama mas é mais ou menos o mesmo - são todas essas palavras utilizadas diariamente em todos os meios de comunicação e que nos incutem uma forma coerente de perspetivar a realidade com base em valores que outros definiram. Esta experiência universitária começa desde o primeiro ano de qualquer espaço de ensino superior, mas naturalmente que se intensifica em patamares da pesquisa académica mais avançados. E é claro, vão-me dizer, metes-te em meios competitivos, estás à espera do quê? É sempre esta inocência parva que me caracteriza que me faz acreditar que o mundo não é como uma série americana onde o Kevin Spacey é um sociopata homicida em nome do poder. Se é para perceber de poder, as teorias do poder segundo Foucault são mais esclarecedoras do que qualquer coisa filmada e nisso estou de acordo com qualquer marfim em qualquer torre. Este texto não tem o intuito de ser moralista porque como dizia alguém estou-me a borrifar para o moralismo ou até se calhar mesmo para a moral. Sobretudo para a moral da história. Mas é acima de tudo a hipocrisia que me irrita e é a irritação é uma das melhores combustões para os meus textos, deve ser o meu lado de animal político ou talvez haja uma distinção essencial entre sociabilidade e política como dizia a Arendt. O que importa? Uma das coisas que aprendi em relação ao texto académico: há regras mas essas regras não são ensinadas. É um bocado como quando o meu treinador de viet vo dao me dizia que ele aprendeu tudo o que sabia sem que ninguém lhe explicasse. O mestre dele limitava-se a fazer o exercício uma vez e a exigir que o aprendiz descobrisse como é que aquilo se executava, sem qualquer orientação, a partir do absoluto vazio. Há uma lógica taoista muito interessante, é certo. Mas é isto um texto académico? Uma professora dizia ‘olhem, a mim só me explicaram isto no último ano, mas eu estou a explicar-vos logo no primeiro… olhem que sorte!’. É exatamente como o meu mestre de artes marciais me dizia ‘eu estou aqui a dar-te a papinha toda feita, a explicar com metodologia e orientação todos os passos que deves dar para executar o exercício, mas olha que o meu mestre não me dizia nada… olha que sorte que tu tens!’. Agora, das duas uma: ou vocês estão a gozar com a minha cara e isto de redigir um texto “científico” é tão rigoroso como uma prática esotérica ou então há uma hipótese bem mais perversa e bem mais ofensiva, não querem que o aluno chegue aí ao lugar onde vocês estão? Não quer o mestre que o discípulo o substitua? Se é esta última, não há nada a dizer a não ser, é triste. Não é por aqui que se quer andar quando se procuram verdades. Sejam elas quais forem. Acerca da condição humana ou da cura para o cancro. Um professor que não quer ensinar devia estar a fazer outra coisa qualquer.

Bom, a minha ideia era falar da minha experiência corporativa e ainda não saí dos traumas da escola e falta-me tocar no tendenciosismo ideológico e incapacidade de imparcialidade de vários profissionais com os quais me cruzei, que é mais grave do que isto tudo. Vamos esperar por um próximo capítulo porque o lorazepam está prestes a fazer efeito. Para concluir, eu entendo que qualquer entidade ou organização institucional onde existem pessoas com aspirações se possa tornar num sítio tomado por estratégias de manipulação e disputas por um lugar de sabe-se lá o quê – muitas vezes nem sequer é uma coisa tão concreta como ‘dinheiro’, embora o materialismo seja para mim uma fonte de justificações para o comportamento coletivo mas nem sempre para o individual. Parenteses à parte, é honestamente triste ver que a meritocracia está neste país altamente baseada em preconceitos e jogos de influência – o que anula o conceito de “meritocracia” - irónico.  É a minha dose de ironia por hoje. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Da condição humana

Em Portugal há sem dúvida uma distinção entre o comentador político e o teórico político. Isto porque o teórico não se expõe por dificuldade de legibilidade dos conteúdos para a maioria da população. Contudo, a leitura de uma agenda política partidária não deveria ser suficiente para se construir uma posição política. Compreendo que se pretendam encontrar soluções para problemas concretos e imediados, mas o que fica por detrás é todo o legado civilizacional que nos pertence.



Para os romanos, provavelmente o mais político dos povos conhecidos, a palavra “viver” tinha por sinónimo “estar entre os homens” (inter homines esse). É aqui que começa o debate sobre as várias terminologias: a vita activa (labor, trabalho e ação), a contemplação, o discurso (lexis) a polis e o bios politikos. Por um lado absorve-se do pensamento clássico que a mortalidade é a categoria central do pensamento metafísico e que a natalidade, por seu lado, é a categoria central do pensamento político. A ação (praxis), torna-se na atividade política por excelência.

O livro “A condição humana” de Hannah Arendt deixa de lado o pensamento e a razão para se centrar na vita activa enquanto “vida dedicada aos assuntos públicos e políticos”. A ação necessária para manter o bios politikos. O conceito de contemplação surge como substituto da vita activa, principalmente por parte da igreja que defende uma necessária quietude. No entanto, para os filósofos: “Do ponto de vista da contemplação, não importa o que perturba a necessária quietude, o que importa é que seja perturbada”.

Quando a preocupação com a eternidade e mortalidade chegou ao pensamento filosófico, Heráclito regista a sua crença de que apenas os melhores se poderão inscrever na eternidade. É um pensamento singular, não encontrado em mais escritos filosóficos clássicos. Contudo, o eterno surge como verdadeiro e o lado divino no homem está na sua inscrição no eterno. Num cosmos onde tudo é cíclico e imortal, o homem vê-se como único elemento mortal. 

Desta forma, a religião cristã que tomava para si todo o ocidente era apologista de uma vida contemplativa, fora da necessidade da vida entre os homens. É aqui que existe a separação entre vita contemplativa e vita ativa. A preocupação com a imortalidade que se sobrepôs a todas as outras está intimamente ligada à queda do Império Romano. Esta demonstrou claramente que nenhuma obra de mãos mortais poderá ser imortal e foi acompanhada pela promoção do evangelho cristão – uma vida individual eterna. Se qualquer busca de imortalidade terrena se tornava fútil e desnecessária, a vita activa e o bios politikos resumiam-se a servos da contemplação. 



“Nem mesmo a ascendência do secular na era moderna e a concomitante inversão da hierarquia tradicional entre ação e contemplação foram suficientes para fazer sair do esquecimento a procura da imortalidade que, originalmente, fora a fonte e o centro da vita activa”. (Arendt, 1958, 33) 

 A ação como prerrogativa exclusiva do homem, depende da constante presença de outros. Aristóteles chamava ao homem animal socialis e já Séneca aceitou como tradução consagrada “homo est naturaliter politicus, id est, socialis” (o homem é, por natureza, político, isto é, social). A vida em societas generis humani – sociedades humanas, traz ao termo “social” a sua posição de condição humana fundamental. Platão e Aristóteles apenas não consideravam que esta condição fosse essencial mas antes uma necessidade da vida biológica. O bios politiko é, de acordo com o pensamento grego, uma segunda oikia (casa) e família. Como se a partir de agora todo o cidadão tivesse duas ordens de existência que não apenas o privado. 

Dividem-se assim aquilo que lhe é próprio (idion) e aquilo que é comum (koinon). Não se tratava apenas de uma pensamento de Aristóteles mas da constatação de um facto. A partir do momento em que surge a polis, ou cidade-estado, ela destrói todas as organizações fundadas à base do parentesco. A esfera da Polis, pelo contrário, era a esfera da liberdade, e se havia uma relação entre essas duas esferas era a de que a vitória sobre as necessidades da vida em família constituía a condição natural para a liberdade na polis. A política não podia ser apenas um meio de proteger a sociedade – uma sociedade de fiei, como em Locke, ou uma sociedade inexoravelmente empenhada num processo de aquisição, como em Hobbes, ou uma sociedade de produtores, como em Marx, ou uma sociedade de operários como nos países socialistas e comunistas. 

Em todos estes exemplos é a liberdade da sociedade que limita a autoridade política. Assim a liberdade é já para a os filósofos clássicos um assunto que se situa na esfera política ou social e que a necessidade é um fenómeno pré-político, característico da organização do lar privado. A violência torna-se assim no ato pré-político de libertação da necessidade da vida para conquistar a liberdade no mundo. 

Contudo, o pensamento político do século XVII acredita que só é possível evitar a violência ao ser estabelecido um governo que, através do monopólio do poder, controle o temor. Pelo contrário, todo o conceito de domínio e submissão, de governo e poder no sentido que o concebemos hoje, assim como à sua ordem regulamentada, eram tidos como pré-políticos, pertencentes à esfera privada e não pública.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A liderança, back to Lord of the Flies

Já tentaram dominar um grupo de pessoas? Um grupo de amigos, um grupo de colegas, um grupo de trabalho. Felizmente nem todos vivemos segundo os moldes culturais americanos e não crescemos com noções claras sobre popularidade mas hoje em dia fala-se muito em empreendedorismo e liderança.


 Eu questiono-me, o que é realmente vital para que a liderança ocorra? Tive recentemente o desafio de criar um método de educação não formal que se enquadrasse no plano da democracia/cidadania. No meu grupo de trabalho alguém sugeriu ter-se como base a história de Lord of the Flies. Um grupo de pessoas encontra-se isolado numa ilha depois de um acidente de avião e diferentes pequenos grupos seguem diferentes lideranças. Para isto dávamos-lhes instruções. A ideia era termos por detrás vários backgrounds ideológicos ou diferentes estruturas de organização social mas dissimulados por uma breve descrição. Para que o role play tivesse mais piada, cada grupo teria diferentes recursos interdependentes, o que faria com que tivessem que chegar a um acordo em relação à liderança. Enfim, acabou por se testar o método que se revelou bastante pedagógico para os envolvidos. Já tínhamos previsto no grupo de trabalho possíveis associações – será que os teocráticos se juntam à democracia, será que os ecologistas cedem à ditadura, no grupo experimental a maioria dos participantes estava com dificuldade em compreender a diferença do grupo no qual nos inspiramos para a democracia e do grupo no qual nos inspirámos para ditadura (de contornos comunistas). Curioso.



Na realidade, no livro que nos deu este fundo teórico apercebemo-nos que quando confrontados com a estaca zero civilizacional, um grupo com frágeis reflexos sociais (como o são as crianças) facilmente cede à selvajaria. Claro que o objetivo deste método em particular era o de instruir para a cidadania e transmitir valores democráticos, preferencialmente aqueles que temos como basilares no velho continente.

Mas do social salto para o pessoal e é tão fácil apercebermo-nos que esse instinto selvagem de cedência ao simples e ao imediato é absolutamente presente. É interessante observar alguém que tenha um instinto natural para a liderança ou, pelo menos, para exercer influência sobre os outros. A forma como o populismo está presente, as ideias fortes deixam de ser assim tão fortes, o controlo das emoções, a compreensão empática da emoção dos outros e a racionalização da resposta esperada. Nada disto constitui o arsenal de conhecimento intelectual que nos fazem acreditar ser o conteúdo essencial para a liderança. Tudo isto requer muita possibilidade de prática mas no meu íntimo tenho a certeza de que há situações de completa impossibilidade. A capacidade de manipular é demasiado instintiva e dificilmente racionalizável. É por isso que esta obra é tão claramente fascinante.
Uma vez que o Piggy representa o espírito intelectual e lúcido dos bastiões da nossa construção social, o verdadeiro líder Ralph tem que ceder muito mais ao espírito massificado e funcionar com base numa certa condescendência. De outra forma, o líder intelectual é automaticamente suprimido pelo líder emocional, aquele que dirige as emoções e que pode (e que o faz tendencialmente) conduzir o grupo para a dissonância – como se diz em termos de inteligência emocional – apatia, paralisação e união pelo ódio. É o que faz o Jack. Bom, depois de ler uma obra destas e com algum espírito crítico e reflexivo facilmente chegamos a estas conclusões e por isso estes cursos intensivos em voga de “coaching” acabem por ser, honestamente, inúteis. Mas como quero manter um bom espírito de liderança, não vou fazer propaganda negativa que possa prejudicar os meus amigos psicólogos. 



Agora a minha reflexão em juntar o plano do psicológico com o da ascensão social ao qual a liderança pode levar, seja em termos políticos ou apenas dentro da nossa empresa ou instituição é o de que, o que é necessário não é necessariamente o que é ensinado.
É uma observação óbvia de se fazer mas menos fácil de expor analiticamente ou que requer pelo menos alguma disponibilidade mental para pensar sobre o que nos rodeia, o que acaba por ser algo que faço instintivamente e não porque tenha alguma meta delineada que me leve a fazê-lo. Isto reflete uma das características de Jack porque o verdadeiro líder é aquele que embarca o grupo naquilo que ele faz por instinto e puro prazer – o dele era caçar, matar, o bloodlust de que nos fala o livro. Mas podia ser outra coisa qualquer.
Na realidade, ter que obedecer a imposições e regras não é propriamente a coisa mais divertida de sempre e isso sente-se. É por isso que, à parte de todas as análises deste livro que é estudado em todas as escolas dos países anglo-saxónicos, a interpretação não é assim tão linear em reconhecer o bom e o mau. Isto porque o bom é alguém que não deixa de estar inserido num sistema e num formato.

Será que há algo de Jack em qualquer pessoa com tendência natural para a liderança? A ideia de símbolo, a noção de pertença/outcast.
É por isso que quando Jack começa a tentar camuflar-se na natureza com as suas pinturas faciais adquire um simbolismo de estilo a que ninguém consegue escapar o fascínio, a noção de pertença através de símbolos que nos fazem sentir maior do que nós, numa profunda ilusão de poder (bem representado mesmo no filme dos 90, o menos apreciado dos dois). Se virmos de um ponto de vista externo, quantos povos se definem por símbolos religiosos, quantas tribos recorrem à exuberância facial de guerra que os camufla com a natureza mas que os define de forma exclusiva para os unir como um grupo.
Quando estão num grupo de amigos e alguém tem um claro sentido de liderança que toca a ambição e a obsessão e o prazer pelo domínio, nunca repararam no tipo de sinais mais ou menos evidentes que surgem como que símbolos que nos identificam como pertencentes ou não? Coisas simples e simbólicas podem começar a minar a criação de subgrupos. Será chocante vermos em nós ou nos que nos rodeiam o poder manipulador que Jack representa?



Talvez esta linha de pensamento que se debruça sobre o descrédito pela ordem pré-definida em prol de uma lógica de poder e de submissão ao poder, no conduzisse a ideias como as da anarquia ou do niilismo no sentido filosófico para nos opormos a isto. Se não há regras e nada faz sentido então não há qualquer motivo para se acreditar na existência. Contudo, há na personagem de Simon uma esperança no valor intrínseco do Homem, a crença na possibilidade de se poder ser genuinamente bom, ou seja, aquilo que entendemos em termos de rótulo por humanismo. Simon é o primeiro a questionar o elemento de medo criado pelo sistema opressor de Jack, a existência de um monstro – o tal elemento externo que reforça o interno. Simon é aquele que não acredita na besta, é absolutamente destemido porque não acredita que tenha muito mais a perder, não acreditar em nada pode também traduzir-se por uma coragem movedora. No livro, este ser em comunhão com a sua essência é destruído pela brutalidade do grupo alienado. Uma prova de que sem a liderança correta, tudo pode ficar negro.



Há quem tenha recentemente comentado a semelhança deste livro com o recente The Hunger Games – que inevitavelmente vem associado ao Battle Royale. Mas não vejo o porquê da relação. Provavelmente só fazem este paralelismo para abordar o tópico das definições das idades da audiência em que os argumentos passam por: “Já que deixamos as nossas crianças analisarem na escola livros como Lord of the Flies, porque não deixá-las ver o The Hunger Games?” Na realidade, nem HG nem BR têm muito em comum com LOTF. Os primeiros têm em comum a crítica mediática, o conflito geracional, a ulta exposição e o sadismo de uma sociedade orientada para uma glamourização da violência. LOTF é uma reflexão pura sobre as dinâmicas de grupo e a fragilidade dos nossos sistemas democráticos, consensualmente os melhores ainda que, em perspetiva, ainda não perfeitos.



A reflexão real é em que medida esta luta pela liderança não é apenas mais uma forma de integrar um sistema perante o qual espíritos críticos vêem necessidade de reforma. Alimentar a noção de competitividade como solução, é de facto um caminho viável? Até que ponto precisamos da condescendia e, acima de tudo, até que ponto precisamos de ordem e até onde pode ir o nosso caos se ele representar uma superioridade intelectual definida – dialética de Marx, (não marxismo) ? Uma coisa é certa, sinto-me inserida numa linha de pensamento que se expressa por um lado pelo idealismo e por outro pelo pragmatismo decorrente da condição humana efémera, sem que dela derive um incontornável egoísmo já que há um sentido de comunidade que nos é intrinsecamente necessário. E quanto mais tentamos anular o nosso ego, é quando ele mais parece brilhar. É por isso que de todos os elementos representados no livro, o Simon é provavelmente aquele que me descreveria embora em quase tudo o que faço as reações convergem para o líder socialmente equilibrado que é Ralph. É o meu nível de fachada, é o meu nível de fazer o menos pior, num mundo onde o idealismo acaba por ser fatalmente confrontado com a morte da inocência.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Os conflitos internacionais e a moda



Quando passo em frente à sede do Bloco de Esquerda em Leiria penso sempre no quão talentoso é o partido para arranjar humoristas e designers. O merchandise é pormenorizado. T-shirts, pins e panfletos em geral satirizam situações e tentam transmitir a mensagem do partido. É engraçado mas na sua essência não passa disso: uma piada. O BE é um partido que tão jovem não se consegue descartar desta forma de protesto pelo gozo. Não acharia grave se os dirigentes não enveredassem por aí, mas infelizmente enveredam um bocado. Pessoalmente, compreendo o formato da campanha para ser mais apelativo mas acho que descredibiliza o partido quando o pensamos inserido na sociedade conservadora e envelhecida que é Portugal. Tem a mesma incapacidade de comunicar com os adultos como os adolescentes a têm e até os jovens adultos que se sentem a viver num planeta alheado do dos avós. O partido político deve precaver-se mais desta aversão geracional provocada por uma mera fachada, afinal os pins do Che Guevara e as piadolas com a troika não são relevante, relevantes são os programas partidários e as propostas para alteração de leis apresentadas em parlamento. 

Mas bom, isto para apontar para um dos pins que mais me fizeram sentir o romantismo da nossa esquerda. O pin pró-palestina. É interessante como a dimensão dos conflitos Israelo-Palestinianos se propagou. Quase toda a gente tem noção de que aquilo tem para ali uns conflitos sanguinários. Numa pesquisa mais aprofundada vemos que há muitos outros sítios do mundo com conflitos armados graves dos quais nunca ouvimos falar e dos quais não queremos tomar partido. Neste sim e a principal razão será provavelmente por causa de termos um apoio americano metido ao barulho. Não tenho a pretensão de escrever sobre este tópico em particular porque há para isso analistas e muitos calhamaços de opiniões e perspetivas sobre o assunto. Quero apenas falar da minha experiência pessoal.
Estando envolvida em associativismo que lida diretamente com as políticas europeias no campo da juventude (uma pequena fração de apoios da CE para organização de encontros juvenis internacionais) recentemente tive a oportunidade de estar num seminário que lida com um novo frame destas políticas. O da integração dos chamados Meda countries – os países mediterrâneos. É só por si uma designação abrangente – desde a Tunísia a Israel, passando pela Turquia e Malta, muitos países estão abrangidos por este enquadramento que se quis lato para facilitar cooperação dentro destes projetos. Neste seminário conheci um rapaz muito simpático chamado Roi. Para quem acaba por cair neste clash político com as melhores intenções do mundo ligados à energia da juventude, era difícil ver no meu amigo mais do que uma pessoa animada e divertida, com uma tendência estranha para se rir de tudo à sua volta como que nervoso com as reações dos outros. No meio dos nossos mecanismos de defesa naturais no processo de socialização a maioria das pessoas esquece-se de enquadrar a identidade dos outros num ponto de vista mais do que psicológico, mas nacional. O Roi é israelita e vive em Tel-Aviv. No seminário estavam alguns europeus e muitos árabes.

O seminário decorreu em Portugal porque somos um país neutro, não temos uma variedade étnica enorme e a nossa comunidade de muçulmanos ou de judeus é reduzida. As minhas alunas indonésias não estavam a dizer com leveza que não tinham escolhido França para os seus estudos porque queriam usar o véu à vontade. Estavam a falar bem a sério. É o nosso temperamento brando e amigável. Todos são bem-vindos e não nos metemos com ninguém. Também há coisas boas por cá!
Isto se a neutralidade não estiver intimamente ligada à insignificância, mas seria outro tópico! Entretanto, nestes programas que têm prioridades delineadas e que por isso atraem pessoas com perfis específicos, tenho conhecido algo que em Portugal nunca vi e não sei se existe, jovens académicos especialistas no médio oriente. A minha experiência com os estudos asiáticos e sobretudo com a China já me deu uma perspetiva genérica de como os estudos internacionais se encontram subdesenvolvidos em Portugal. Os estudos chineses, por exemplo, em estado de maturidade avançada em muitos outros países europeus, assim como nos Estados Unidos, ainda se encontram na sua forma embrionário ligeiramente exotérica em Portugal. Felizmente a economia veio aí impor a sua importância no meio do academismo e a língua chinesa já se ensina e já se estuda com a seriedade de qualquer outra.

O estudo do árabe, no entanto, ainda não tem uma aplicação prática tão evidente neste mundo de capital e por isso é apenas semi-existente. Existe enquanto língua e pouco mais. Um amigo polaco dizia-me que eu era realmente extraordinária porque ele nunca tinha encontrado alguém do sul da europa que percebesse patavina de política internacional. Não soube se devia ficar contente com o elogio pessoal ou ofendida com o preconceito. Depois da Merkel nos ter chamado preguiçosos, oficializando assim uma distinção bairrista norte-sul, custa sempre ouvir os northerns dizerem seja o que for sobre nós. Mas será uma realidade? Claro que no leste e no norte se fala mais de política, se o trauma deles é tão recente, existe neste momento uma geração pouco mais velha do que eu encontrada a crescer entre transições de sistemas que se traduzem em transições de realidades. E quando pensamos na Polónia só temos pena. Mas o certo é que ainda não foram atingidos com esta onda anti-sul dos mercados e das economias internacionais, pelo contrário, estão a crescer e o facto de não terem aderido ao euro talvez seja relevante (!). “Falar de políticas é o dia-a-dia do norte” dizia ele enquanto me descrevia a forma como o avô era popular durante a guerra fria por ser o homem que tinha papel higiénico.
Agora o porquê deste nome do artigo. Depois deste seminário com os países mediterrâneos num meio a este semelhante conheci a Reem. Simpática e divertida, veio representar o Reino Unido mas na noite da comida intercultural presenteou-nos com comida da Palestina. A Reem é palestiniana a estudar em Oxford e foi o que me disse quando nos encontrámos pela primeira vez. Não me lembro como reagi em concreto mas sei que a assustei um bocado. Não tendo o que dizer e querendo dizer algo ao fim de dois dedos de conversa em privado disse-lhe ‘Eu apoio a vossa causa’. Ela olhou para mim com um ar cansado e agradeceu ou tentou agradecer. Não era desprezo mas sei que não gostou da minha associação imediata. 



Mas era demasiado pouco tempo e eu tenho demasiada curiosidade. Aprendo mais com as pessoas do que com os livros e a minha provocação acabou por ser consciente. No dia a seguir passou-me um livro para mãos – ainda tínhamos uns dias juntos – “I Shall Not Hate” de Izzeldin Abuelaish. “Agradeço o interesse. Muitas pessoas na Europa não têm sequer consciência e não temos advogados internacionais. Mas não acredito em divisões” depois de vários dias com as mesmas pessoas a falar de temas complexos e que apelam ao nosso lado mais emotivo, os laços estreitam-se. É um efeito big brother mas intelectual. Passei muitas horas a falar com a Reem e tudo o que ela me disse vai ao encontro daquilo que li no livro que me recomendou. Não há anti ou pró. Os ativistas que tenho conhecido têm-me familiarizado com o conceito da coexistência. Trabalhar para a paz nunca é tomar uma posição de ódio e é essa mensagem de Izzeldin. Tendo crescido num campo de refugiados na faixa de gaza, Izzeldin descreve neste livro como acreditou no poder da educação para melhorar a sua situação pessoal num primeiro nível e a situação do seu povo, num segundo (ou a tentativa de). O livro relata a sua experiência de vida e deixa-nos mergulhar no terror que é conviver com o terror. Coisas simples como passar as fronteiras ou obter tratamento médico adequado. A forma como teve que abandonar a casa por ordem israelita, a discriminação. Mas aquilo de que Izzeldin fala também é do conservadorismo do Islão, da desigualdade dos géneros, da forma como a mãe era ostracizada por não ser a primeira esposa do marido e como ele conviveu com isso. A bombista suicida que se armou para tentar explodir um hospital em Israel onde Izzeldin e médicos israelitas a tinham ajudado a tratar-se. A forma como o Hamas cria conflitos civis armados e instala o terror no território palestiniano. Ou seja, o que vemos aqui é uma perspetiva não sectária, não há partes definidas no branco e no preto de quem deve ganhar ou perder porque não há vitórias. Há uma situação complexa.



É inevitável que conhecendo o dia-a-dia de um campo de refugiados em gaza não nos indignemos contra a ocupação brutal de Israel, com a prepotência, com tudo aquilo que representa na luta das classes, o embargo, a humilhação, a forma como ocuparam um espaço e o tornaram fértil injetando-lhe dinheiro à custa do lobbismo americano enquanto alimentam descaradamente um estigma à volta daqueles que inevitavelmente, no meio da miséria, não lhes conseguiram evitar o ódio. Este médico, contudo, acredita na coexistência e ao longo do livro aponta constantemente para a forma como os árabes e os judeus têm muito mais em comum do que de diferente. É um tratado filosófico onde demonstra que, apesar de toda a tragédia que lhe rodeia a existência desde que nasceu e que culmina no bombardeamento do quarto das filhas, é parte da natureza humana ser-se genuinamente bom e positivo. É um relato de vida comovedor que para muitos pode não passar disso mas que para mim é a representação ideal daqueles que têm colaborado com todas as suas forças para formar uma ideologia de coexistência e não de ódio. Ser pró-palestina pode estar em voga mas o que nunca deveria estar em voga é a imaturidade e as ideias formadas a partir de meia dúzia de websites com teorias conspiratórias e explicações simplistas que tocam o antissemitismo. Isto porque o entendimento das religiões em si não devia sequer ser confundido com as etnias ou as várias formas de aplicação socio-política, ainda que religiões como o Islão possam estar orientadas para essa vertente de organização social – como o confucionismo o está, por exemplo. Mas são este tipo de coisas que me irritam nos militantes mais extremos – como o eram os Roptura/Fer com as suas ideias de se juntarem a milícias talibãs no Afeganistão. Contudo, não sou feminista para a seguir vir defender estados islâmicos conservadores. Não sou democrática para a seguir vir manifestar a minha simpatia por tiranias por oposição ao apoio que o capitalismo americano que lhe faz. É isso que às vezes me chateia nos pins pró-palestina, esta ideia por detrás de que as coisas podem ter explicações simples e uma fação clara. A minha ideia é a mesma que a deste senhor levemente desconhecido mas que tanto fez por esta causa: militem se querem militar, mas militem pela paz.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Entretenimento



“Perguntar-me-ão se defendo um mundo em que apenas existam televisões privadas. (…) Não é um cenário que me atraia. Porque sei que a indiferença em relação à forma como um povo se diverte é a marca de uma sociedade decadente. Para Gibbon, o declínio do Império Romano começou quando os imperadores cederam aos instintos da plebe, permitindo a organização, no Coliseu, de espetáculos nos quais os gladiadores lutavam até à morte. Criticar a RTP não é o mesmo que defender o Big Brother”. Maria Filomena Mónica, Impressao Digital: A RTP, Expresso

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O Pensamento

Fui parar à educação não formal de para-quedas. Aliás, fui parar à educação de para-quedas. Quando dei por mim, estava do outro lado da sala. Os papéis invertem-se e o mundo que pensamos conhecer, passa a ser algo de completamente novo. Não é que não seja uma realidade que deixo de encarar como natural, é quando automaticamente nos propomos a fazer aquilo que sempre achámos que deveria ser feito e é aí que surge verdadeiramente o desafio, confrontamo-nos com a condição de preceptor nos mais variados aspetos: éticos, formais, cívicos e, obviamente, pedagógicos. Os jovens professores tendem a seguir os modelos que tiveram. O que é natural. Toda a construção é um conjunto de influências e uma aula é uma construção. Mas não vou entrar por discussões pedagógicas, não é sequer a minha praia, há muito escrito sobre a teoria da pedagogia, andragogia, entre outros. Muitos métodos, muitas técnicas, aquilo que qualquer pessoa aborda quando tira um CAP – mas que infelizmente pouco ou nada tenta em termos de aplicação experimental do que aprende.



Mas muitas vezes senti que o facto de ter ido parar ao ensino sem o ter propriamente planeado foi uma espécie de provocação do destino que me quis pôr à prova, sendo eu uma aluna tão crítica e, por vezes, severa e intolerantemente crítica, foi como se me dissesse “então e agora, na hora da verdade, achas que vais realmente fazer melhor? Vais marcar a diferença?”. A aprendizagem do formador é também uma forma de aprendizagem. Aprender a ensinar passa por uma aprendizagem. Aprendi numa formação de educação não formal que Kolb fala do Experiential Learning. Da experiência concreta passa-se à observação e reflexão, formam-se conceitos abstratos e isso conduz naturalmente ao teste de situações novas. Ensinar passa basicamente por isto. Por uma aprendizagem constante daquilo que é o ensino daquilo que é o método. Acredito que a ética, as formalidades são algo que se vai estabelecendo, mas a forma de chegar aos alunos com eficiência é um processo que de tão complexo se torna um permanente study case. Uma das coisas mais relevantes que aprendi num treino sobre educação não formal foi que o Mentor/Professor/Perceptor/Trainee (como lhe chamam internacionalmente quando se referem a educação não formal) é alguém que terá que conduzir um manancial de condições psicológicas e conseguir lidar com elas. Isto é, o meu perfil – mais concreto, experimental ou então não, mais abstrato e conceptual – terá que ser equilibrado com os inúmeros universos psicológicos que terei à minha frente.



Mas o meu objetivo com este texto é questionar, o que é a formação? O que é a qualificação, o que é conhecimento? Não foi em vão que comecei o texto com a expressão ‘educação não formal’. Em termos teóricos e políticos a educação não-formal é algo que é implementado através de políticas de apoio do estado ou de estados membros, como o caso de projetos apoiados pela União Europeia em secções que preveem um acesso livre ao conhecimento e à experiência multicultural de forma a promover o humanismo e a aproximação das pessoas. Tudo isto munindo as pessoas de saberes e conhecimentos não certificados. É educação não formal. Posso ter aprendido bastante sobre uma determinada área – normalmente humanística, política ou de outro caráter multicultural e social – mas ninguém me dá um diploma que seja academicamente válido. É um pequeno extra num currículo mas não é formalizado. Numa altura em que o debate sobre a Europa está na ordem do dia e em que mais do que nunca Portugal parece vitimizado pela sua pertença a este sistema que está neste momento a colapsar e a desviar-se completamente dos seus objetivos fundadores, estes apoios de privilégio ao multiculturismo, sensação de pertença a um universo global estão à beira da extinção. E porquê? Qual é o valor das ideias no mundo atual? Aceitamos que não passamos de produtores de bens e serviços. “Não são coisas práticas” diz alguém numa conversa de café e dizem muitos políticos à frente destes estados membros. Seria interessante que se conhecesse que foram estes programas em parcerias com os países árabes mediterrâneos com os quais temos parcerias que despoletaram, por exemplo, grande parte da consciência política que levou à primavera árabe na Tunísia. Se isto não é mudar o mundo pelo pensamento, então é o quê?



Acaba por haver esta necessidade de sistematização permanente, institucionalização permanente. Esta época acabou! Estamos na época do acesso facilitado ao conhecimento. Educação não formal? Estou a utilizar uma neste momento. Mais acessível ainda porque é de todo gratuito, é o acesso a uma biblioteca. A educação não formal passa por uma iniciativa coletiva mas também individual. A informação está aí, mais disponível do que nunca. Não deixamos de ser multados por um polícia por alegarmos não conhecer a lei e não podemos no mundo ocidental deixar de ser culpados pela nossa própria ignorância. Se não sabemos foi porque não quisemos saber. A maioria dos problemas sociais na história do mundo, adveio da ignorância.
Em Portugal, há muito esta tendência de sobrevalorizar graus, sobrevalorizar títulos. É como que uma forma de arrumar as coisas em caixas de uma forma simples, que todos possam perceber. Acredito na especialização, na qualificação científica e académica nos moldes clássicos mas acredito, essencialmente, numa incitação à curiosidade, incitação ao espírito crítico, à criatividade e à lógica racional no seu sentido mais filosófico. Sim, no sentido filosófico! Tenho ouvido tantas conversas de gabinete sobre a “pouca importância pragmática de certas disciplinas”. Claro que não vamos desviar cursos a cem porcento os objetivos tecnológicos de uma formação mas o valor das ideias é algo que não advém de nenhuma massificação do ensino. Uma professora numas jornadas de línguas aplicadas em que participei dizia “Ao fim dos vários doutoramentos, percebi que a minha capacidade profissional estava principalmente relacionada com o meu fascínio pelo ballet desde os 6 anos”. O pensamento, a reflexão conduzem-nos para a construção. Somos mais competentes quanto mais racionais, quanto mais conscientes somos da realidade que vivemos, quanto mais enquadramento teórico lhe damos. Não é por acaso que esta Professora que ouvi e tanto admirei numa palestra e com quem não tinha qualquer contacto, tal era o distanciamento que o respeito por ela me provocava, se veio a revelar minha colega de trabalho, meses mais tarde, pelas circunstâncias. Pelas circunstâncias mas há uma consequência natural da incitação ao pensamento, aqui ilustrada desta forma.



Depois há aquelas pessoas que acham que uma pessoa só se preocupa com uma condição social quando é miserável, são os defensores da inveja. Meus caros, não, não é por ter preocupações sociais que isso significa que eu pessoalmente vivo em condições menos privilegiadas dos que as vossas. Se repararem ao longo da história da humanidade e do estudo da sociologia, as principais revoluções sociais advieram dos filhos dos burgueses. Aqueles que tinham acesso ao conhecimento e que não suportavam as ideologias dos pais. Na minha vida pessoal posso estar feliz, na minha vida enquanto cidadã tenho um dever de velar pelo estado do mundo em geral e do meu espaço em particular. É um dever cívico, são os valores da democracia, são os valores do estado de lei que fomos conquistando ao longo de milénios. Isto não é pessimismo.
Depois são estas coisas que me levam a odiar discursos motivacionais baseados em formas ilusórias de perspetivar a realidade e que desprezam visceralmente o meio que os rodeia e chamam isso “ótica otimista” e que depois se revelam esquemas maquiavélicos que se aproveitam da ingenuidade dos arrivistas (coisas como a ACN do Donald Trump, entre outras coisas desse tipo). Não há otimismo nem pessimismo. Há uma avaliação analítica das circunstâncias e uma visão concreta de como podemos contribuir.
Não é preciso ter um grau académico ligado à política, nem às relações internacionais, nem à história nem ao cinema e, no entanto, posso elaborar o meu pensamento, posso expô-lo perante os factos que possuo, as deduções que faço, as ligações que construo, posso dissecar, membro a membro, todos os alicerces que compõe a minha forma de perspetivar o mundo. E isso é algo que nem todos os professores vão transmitir mas é o que vai estruturar a nossa realidade. Posto isto, a educação tem o papel que tem, social, estrutural mas o valor do pensamento e das ideias vale por si só, não requer um prestígio devidamente institucionalizado por um título. E um título sem conteúdos, é precisamente isso, um título, e qualquer cidadão tem todo o direito de pôr em causa o que esse título nos tenta transmitir como verdade única.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A sociedade tornou-me lésbica?

Não é novo que o acesso à cultura desde a antiguidade privilegiou, fomentou e até condicionou esse ingresso essencialmente a um género, o masculino, sendo isso resultante de uma proeminência historicamente comprovada. Era a consequência natural de um estado político-social onde a mulher não tinha os mesmos direitos que os homens e as questões de igualdade não eram sequer abordadas nem questionadas. Não sendo a mulher munida de ferramentas para o pensamento crítico que a ajudassem a refletir a sua condição, seria natural uma assunção por imperatividade social que a fizesse aceitar a sua postura de inferioridade na sociedade, na política, na religião – cargo de elevada importância social para a época - e consequentemente na cultura. Por esse motivo, os cânones literários do passado (pré séc. XX) estão repletos de nomes masculinos. Os tempos mudaram e partes que mais cedo se tornaram progressistas – EUA – tiveram logo no início do séc. XX uma viragem na forma de encarar o pensamento feminino como tão relevante na história do pensamento como qualquer outro, apelando a uma paridade e a uma não discriminação baseada no género. O estado de lei protegeu e incentivou essa igualdade. Contudo, o estado de lei nunca conseguiu interferir por completo na perceção coletiva e social, naquilo a que vulgarmente designamos por ‘mentalidade’. A liberalização sexual dos finais dos anos 60 e 70 americanos tentou quebrar os tabus sexuais inerentes à condição feminina, desafiando códigos tradicionais de pensamento, seguindo os escritos das questões psico-sexuais levantadas primeiramente por conceções Freudianas.

Até aqui tudo parecia estar a correr bem até que um dos maiores twists da forma de hegemonia intelectual sobre as mulheres adveio previsivelmente da exploração do grande capital, exacerbando o conceito de liberalização e utilizando-o de uma forma reversa e perversa. Foi quando as mulheres se começaram a aperceber que a sua liberalização sexual conduziu, inevitavelmente, a uma produção de parques de diversões para homens. Mais do que os media ou o marketing, o sexismo institucionalizou-se nas interações diárias ao ponto do piropo que claramente nos reduz permanentemente a um objeto sexual passar a ser unanimemente aceite como elogio. 2011 foi o ano do Slut Walk, mais uma vez um alerta para as subtilezas sexistas da nossa realidade.


Como consequência, a mulher passou a ter uma forma de opressão intelectual que se passou a basear nos aspetos da relevância daquilo que é. Quando a pressão do status passou a enfatizar o capital em vez do conhecimento e o aspeto em vez do intelecto. Aqui podem dizer que sou tendenciosa, não é como se a sociedade do consumo e da superficialidade não atingisse ambos os sexos, não é como se no fundo tentasse vender tudo através de uma incitação primária da líbido, claro que sim!, mas, no mundo ocidental, este marketing opressivo passou a destacar claramente com mais incidência um sexo do que outro. Os homens têm respostas muito mais pró-ativas em sua defesa. Convenhamos, um homem nu é uma coisa que associamos à comédia, uma mulher nua tem um carater sexual imediato no imaginário coletivo, o que é interessante é que é no imaginário coletivo de ambos os sexos. Chegamos ao debate daquilo que é intrínseco à natureza humano e àquilo que é no fundo social. A esquerda sempre defendeu o social como mais relevante, a direita sempre teve tendência para defender condições pré-determinadas no humano por via genética. Se acreditar mais na primeira hipótese, na qual acredito, será caso para dizer: a sociedade tornou-me lésbica? O mote para este texto surgiu-me a ver o videoclip do LMFAO, o gajo que é sexy e sabe disso.

A pressão visual a que o homem é sujeito – forte, musculado, com roupa reveladora – é facilmente refutado com respostas pró-ativas que o diminuem, o tornam ridículo, o tornam ‘gay’, ou seja, desincentivam-no entre os seus - de uma forma abusiva, é por isso que os filmes realmente viris têm sempre um comentário pouco elegante sobre uma mulher qualquer que for a passar – (no homo dos lonely island! boa sátira que reflete a minha ideia) pôr de fora a ambiguidade homossexual, repulsada entre eles. O problema acaba não por ser o facto de se protegerem, mas o facto de atingirem por danos colaterais toda uma perceção sobre o outro género. Protegem-se e unem-se com medo da opressão a que isso os sujeita. Todo este texto tem, contudo, uma aplicação muito mais concreta e atual ou, pelo menos, é a esse o ponto onde quero chegar. Estudos sobre as mulheres nas tecnologias da informação começam a surgir entre os meandros teóricos da antropologia e da sociologia. Livros como Gender and Information Technology: Moving Beyond Access to Co-Create Global Partnership de Hershey que usa a teoria da transformação cultural de Riane Eisler. Pessoas informadas e sem preconceitos como base tendem a fazer tábua rasa a qualquer preconceção que surge na interação com o outro.

Contudo, a crescente influência cultural americana tem trazido muito do seu hype em formato de classificação estereotipada e sexismo que não estavam na raiz de muitos países que acabam por integrá-la. O universo geek é um universo de essencial predominância masculina, mas seria uma predominância de elite e, logo, teria menos em conta as distinções de opressão de género do que qualquer outro movimento progressista e de vanguardismo tecnológico. Inicialmente, assim o era, contudo a crescente opressão psicológica ligada aos movimentos de exclusão da ameaça do impopular começaram a minar estes últimos panteões do pensamento despreconceituoso. Tirado por miúdos, a cultura douchebag que inicialmente se oponha à cultura geek começou a ganhar terreno. A decadência dos padrões de consumo de séries e de cinema é disso um sinal claro. Como é que é suposto uma mulher conviver bem com séries como Entourage, Nip/tuck, filmes como The Hangover ou – indo mais mais longe – séries como ‘How I met your mother’. E eu sei que o machismo é algo de presente nas mulheres, já expliquei, a sociedade tornou-nos progressivamente em lésbicas, por isso, se acham que as coisas são tão simples como me darem uma lista das pessoas do sexo feminino que conhecem que gostam destas séries, isso a mim não me diz nada. O homossexual que não se assume e vai a terapias para se curar, tem assim uma atitude preconceituosa para com o seu género, a mulher que gosta de assumir com subserviência o seu papel de objeto é uma mulher sexista ,contra o seu género. Se as coisas fossem tão simples como – tenho uma condição, logo tenho que lutar por ela - muitos dos problemas estariam, efetivamente, resolvidos. Se Portugal se tentasse defender mais a si e aos seus interesses teríamos muito menos do que a maioria dos eleitores a votarem em políticas que apenas têm o objetivo de nos colocar numa situação de poder económico gradualmente inferior. E será que é o efeito de espelho que nos vai ajudar a ultrapassar as diferenças? Mais Samanthas de Sex and the city, Casanovas femininos para que o mundo ganhe um natural equilíbrio em que, desapontados com o amor, nos tornamos meros predadores sexuais e ser sociopata deixa de ser uma patologia clínica grave para passar a ser um objetivo? Tudo isto para dizer que se vão ser parolos porque se deixaram dominar por aqueles que vos costumavam sujeitar a uma série de condicionamentos de aceitação em grupos com os quais nunca se identificaram, tudo bem, o ser humano é complexo e deve ter a abertura suficiente para se explorar, se no fundo temos uma vontade inconsciente de recorrer ao conflito. Mas algo que me chateia são revistas, programas de televisão, blogs, websites sobre cultura e tecnologia onde o sexo feminino é permanentemente inferiorizado, relegado para o campo da objetificação.

Chateia-me porque chega a ser tão difícil entrar no boys club que a ostracização tem um caráter essencialmente de género. Eu não posso mudar a minha condição. Os valores humanistas e da amizade deveriam superar essa barreira de misoginia inconsciente que sinto em muitas das minhas interações com grupos de elites intelectuais com as quais contacto - tecnológicas, literárias - e torna-se difícil ver a aceitação generalizada de um meio que inicialmente tinha padrões, para a passagem a um grupo que cede, gradualmente, a valores sexistas dominantes e não só sexistas, ideológicos também, presentes nas ambições gerais ligadas à cultura do capital e o do consumo, ou a apologia do capitalismo em detrimento da cultura e da equidade social foi alguma vez proveniente de meios informados? 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Secret Story

Há qualquer coisa no Secret Story que vai ao encontro desta reflexão sobre a inversão do género.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Is This Christmas?

Prendas caríssimas, comida e muita champanhe a acompanhar discussões familiares sobre perspetivas completamente opostas sobre o mundo em que toda a gente acaba aos gritos. Natal... :)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Coisas que se põe ao lixo só para ganhar espaço



Interessante como esta onda de culpabilização das agências de rating até parece desculpabilizar o facto dos portugueses terem votado massivamente em políticas sem nenhuma posição face à postura europeia que até agora nada tem feito contra a vulnerabilidade de alguns países à especulação. O défice português é semelhante ou inferior a outros países da Europa mas não é avaliado com os mesmos critérios, ou é culpada a postura ideológica ou é culpada a perspectiva histórica (já partilhei este artigo quando saiu, mas aqui fica novamente).
A especulação das agências e do mercado em geral é assim praticamente arbitrária, o que é curioso é que já o é há algum tempo agora e, no entanto, é tão conveniente ao governo e seus apoiantes fazerem-se passar por vitimizados pelo estrangeiro de forma a evitar aquilo que é o essencial: a discussão não sobre o que é que uma série de empresas privadas andam a fazer para obter lucros de forma fraudulenta (o que é condenável mas não fundamental para nós neste momento) mas sim fazer pressão política para que uma postura seja tomada face à Europa, iniciativa essa que teria que se iniciar, desde já, pela posição do recém-eleito governo. Contudo, a realidade é que o PSD e a pseudo-coligação CDS, nunca ocultaram a realidade das suas posições e políticas e agora que o contacto com a realidade é mais evidente - meramente devido ao aproveitamento político destes partidos que eleva uma ênfase mediática - é que os portugueses decidem estar muito frustrados em relação a algo que se vem a passar desde 2008 e mais particularmente desde a entrada do FMI no país. Foi o que aconteceu depois de um bode expiatório - Sócrates - ter saído de cena.

Isto apela ao clássico da caricatura portuguesa, a figura do Zé Povinho, definida pelo próprio Bordalo Pinheiro da seguinte forma
"O Zé Povinho olha para um lado e para o outro e... fica como sempre... na mesma. Ele é paciente, crédulo, submisso, humilde, manso, apático, indiferente, abúlico, céptico, desconfiado, descrente e solitário, também não deixa por isso de nos aparecer, em constante contradição consigo mesmo, simultaneamente capaz de se mostrar incrédulo, revoltado, resmungão, insolente, furioso, sensível, compassivo, arisco, activo, solidário, convivente..."

É extraordinária a falta de capacidade de análise aquando da vontade de mudança, ou talvez ela simplesmente não exista na realidade: existe apenas como mera expressão da nossa identidade mais ou menos pré-definida, somos os revoltados preguiçosos, queremos ter com que nos entreter na nossa demanda por uma posição de ruptura mas que acabe por se revelar afinal consensual dentro dos nossos grupos. É este o paradoxo que conduz à mera inércia e que nos deixa, afinal de contas, sempre na mesma.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Rir de desespero


Vivemos numa sociedade que raramente nos dá espaço. Ou seja, que raramente se esforça por abranger uma faixa etária jovem em qualquer tipo de representação mediática. Estatisticamente será normal, se temos uma população envelhecida, esse público-alvo representará mais share, logo, esse público-alvo será mais procurado. Não é mais do que a lógica de mercado. Agravante é ainda a alternativa da televisão por cabo e da internet como opções aos canais generalistas. Portanto, é normal que ligue a televisão de manhã e seja bombardeada por noções sensacionalistas ultra-conservadoras e saudosistas de direita que me levantem os pêlos da nuca de tão sinistros que são os valores ali representados. Contudo, pensar em variar mais a qualidade do serviço não seria uma estratégia assim tão arrojada como pode aparentar. Senão vejamos, a classe etária jovem está desesperada por rir. É verdade! É curioso verificar que os mais velhos não compreendem fenómenos como pôr o gel e o Falâncio na final de um festival da canção.




 Dos que ouvi falar tentaram justificar a escolha seguindo uma lógica elitista de que “só as pessoas incultas e o povinho votaram naquilo”. Mas o fenómeno é bem mais complexo do que isso. Foi muito mais a irreverência e a subversão que meteram os humoristas lá do que propriamente a parolice e a ignorância. Foram muito mais as pessoas que apreciam o humor do absurdo do que as que viram nos comediantes verdadeiros revolucionários abrilistas. É isto que essas pessoas têm que compreender. No fundo, os jovens estão só à procura do seu espaço e o seu sentido de humor é muito mais virado para o culto da incongruência do que conscientemente contestatário de um qualquer sistema político vigente. Foi isto que deu a fama ao fenómeno “gato fedorento” prendendo toda uma geração de apreciadores de humor ao humor Monty Python. Ora, quando se fala em Monty Python estamos a falar dos anos 70. Eu suponho que desde então já se pudesse evoluir para outra coisa. O gosto pelo absurdo? Bom, então posso referir o movimento dadaísta de 1915? O dadaísmo focalizava-se essencialmente no nosso tão pós-moderno termo de “non-sense”… que então, vistas bem as coisas, nem é assim tão moderno. Ou seja, o que eu quero dizer é que não há motivos para se viver realmente um conflito geracional e é uma pena que, mesmo assim, esse conflito esteja mais que presente. De que outros fenómenos podemos falar? Até uma coisa com um nível de qualidade medíocre como o “último a sair” está a provocar um hype tremendo entre os mais jovens . Estamos, claramente, desesperados por rir. Queremos rir à força toda e na nossa própria língua. Foi assim que surgiu o fenómeno tremendo que foram os gato fedorento.




O que é curioso é ver o programa francamente insultuoso e profundamente deprimente que estes 4 humoristas outrora de vanguarda andam a fazer no canal do meo, o “fora da box”. Basicamente, são sketches antigos mas que incluem coisas como “Rede 100% fibra óptica”, “velocidade garantida” e “melhor qualidade de imagem e som” com um enorme “production value 100% maior-gigante-neoliberal-de-telecomunicações” e com textos humorísticos sofríveis, a roçar o infantil e com uma originalidade a zero cujo único propósito é o publicitário.
Francamente, o Bruno Nogueira é a única pessoa engraçada daquele programa da RTP – e eu até sou fã da maior parte do trabalho do Miguel Guilherme (lembram-se do fintas e fintas?), mas, sinceramente, ele podia fazer tão melhor.
E o novo programa do Gato Fedorento é de se atirar de um 12º andar mas em alta definição, porque, sinceramente, não poderia ser mais irrisório, já os estou a imaginar a planear o programa:
- Ora vamos lá então fazer o sketch do primo tozé do campo mas incluir os termos “mais de 70 canais” e “fibra óptica” no meio do diálogo em que ele fala das coives e das ovelhas.

Ou outro assim:

- HD?
- Qual HD?
- HD?
- Qual HD?
- HD?
- Qual HD?
- HD?
- Qual HD?
- HD?
- Qual HD?
- HD?
- Qual HD?
- Ahhhhhhhh! Mas qual HD?

A sério, não somos assim tão estúpidos. Merecemos melhor. Depois queixem-se que falamos inglês. É que eles (pessoal de países de língua inglesa) fazem coisas engraçadas. Mas engraçadas mesmo, daquelas mesmo de rir.

domingo, 8 de maio de 2011

MGMT, Queima das Fitas e espírito académico




A queima do Porto tem vindo a fazer um esforço para se destacar de outro tipo de festas académicas. No ano passado com Crystal Castles e Franz Ferdinand e este ano com MGMT. Já está a adquirir o estatuto de “queima indie” e com mérito. O ano passado aprendi a lição ao chegar em cima da hora para o concerto de Franz Ferdinad e ao ter que ficar lá atrás de tudo. Então este ano decidi ir bastante cedo e ver o recinto do queimódromo a abrir as portas – coisa a que nunca tinha assistido na vida. Vale a pena! Quando se é fã e se vai pela banda porque tive a oportunidade de ficar logo entre a primeira e a segunda fila em frente ao palco com toda a qualidade de visualização que isso envolve. 




Então, sendo este um concerto que eu queria muito ver, fiquei algo apreensiva por ser numa queima na medida em que já se sabe que nas queimas se encontra todo o tipo de pessoas (de pessoas estudantes mas ainda assim pessoas – e não, eu não acho que por sermos todos estudantes somos todos iguais…) e assim foi confirmado. Á porta do recinto faziam fila emos, gente do metal e até algumas miudinhas e miuditos já bêbados ainda mal o recinto tinha aberto. Portanto, foi logo de se andar para ali a contornar vómitos. Interessante de se verificar que algumas pessoas confundem música emo com música indie, era só reparar nos miúdos com o cabelinho escorrido, parcialmente pintado e com t-shirts dos “paramore”. Sou uma pessoa calorosa e comunicativa, como qualquer nortenho que se preze e não sou o tipo de pessoa de estar a olhar para toda a gente à minha volta com um ar snob (vamos deixar isso para pessoal que fala português catedrático) mas não haveria outra forma de transmitir a minha experiência.
Adiante, lá fiquei a fazer tempo a ver os X-wife à espera dos MGMT. Não conhecia x-wife. Achei piada a uma ou outra característica pós-punk da banda e do ritmo mas achei as músicas no geral algo entediantes. Voltam os roadies e finalmente os MGMT entram em palco.


Como estava muito próxima do palco consegui captar todas as expressões dos músicos. Abrem com a The Youth. The youth!! Abrir um concerto numa queima com the youth!!! Bem… que escândalo! Pensei que eles se iam adaptar ao espírito quim-barreirista vigente e fazer uma coisa com mais consciência de que aquilo é um festival para estudantes com uma propensão para a cirrose acima do que deveria ser permitido. Mas não! Estavam-se a borrifar! Era ouvir os metalheads “mas a gente vai fazer moche, não?” e uma miúda com uma cartola azul a dizer “então se em Quim Barreiros fizemos moche porque é que não havemos de fazer em gê éme tê?” Ahhh! Moche em MGMT? Mas que tipo de acéfalos ignorantes querem fazer moche em MGMT?
Vamos lá a ver, não é porque são estudantes que têm que ir a todos os dias da queima e, sobretudo, não têm que vir ver os concertos. Se ouvem a “of moons, birds & monsters” em casa e aquilo vos soa bizarro, estranho e incompreensível, deixem-me dar-vos uma dica: não apareçam no concerto! Vão embebedar-se ao som de Shakira para a barraquinha mais próxima. É este o grande problema de se querer algum vanguardismo, é que a própria organização ultrapassa a clientela comum.


Mas claramente, o Andrew VanWyngarden sabia o que estava a fazer. A introspectiva e profunda youth como música de abertura foi entoada com uma falta de comunicação terrível. Excessiva até. Entraram na defensiva e nem sequer deram à audiência o benefício da dúvida.
Primeiro que o vocalista lançasse um olhar para a plateia foi preciso terem passado já umas quatro ou cinco músicas. Alguém lhes deve ter dito que éramos todos fãs do Quim Barreiros, só pode! Aproveitando a ocasião para os deixar a par de todo o tipo de metáforas e alegorias sexuais que se podem fazer com a comida e explicando que bacalhau é um prato típico muito bom que deveriam provar. Bom, enfim, eu estou a dar um cenário muito negro da audiência. O que não é justo porque claramente havia muitos fãs. Havia muita gente que só tinha ouvido a “Kids” mas havia muita gente, pelo menos à minha beira, nas primeiras filas, que conhecia muito bem o trabalho da banda. Havia muitas raparigas – coisa que em Franz Ferdinand o ano passado não era tão visível – eu estou sempre muito atenta às questões de género, como se sabe.
O que é certo é que achei este concerto delicioso precisamente por causa de ser anti-festivo, anti-académico e por conseguir reunir toda a gente que se sente como eu, ou seja, a audiência deste concerto é a melhor representação estudantil que eu poderia ter. Mas se formos à essência da questão, é normal que assim o seja. Estamos a convidar bandas de uma tremenda originalidade quando o espírito académico se define pela condensação da originalidade, pela uniformização, pelo consumo das individualidades tornando-nos a todos mais do mesmo, jovens com trajes que gostam de perpetuar “tradições”… só que bêbados, o que torna tudo muito mais irreverente! Não, mas francamente, o espírito académico não precisa de ser isso (agora ocorreu-me um slogan do PSD, mas vou já benzer-me para me expurgar) e é a trazer o espírito de “the youth”, “the handshake” e da “electric feel” que podemos demonstrar uma alternativa.




Os artistas perceberam que até não éramos assim tão ignaros quando no encore os chamámos a gritar pelo nome da banda e a entoar partes das músicas e foi assim que roubámos uns sorrisos adoráveis ao teclista e ao vocalista – ok, os sorrisos já tinham surgido na Kids quando se aperceberam que, pelo menos, toda a gente sabia cantar aquela. Estão a ver, os portugueses até são boa gente e nem todos são parolos! Pessoas falaram da sua convivência com os artistas depois do concerto em barraquinhas do recinto. Só as posso invejar porque a mim o dever chamava-me no dia seguinte – já não estou na fase do estudo, para que conste. De qualquer forma, achei uma noite fabulosa. O som podia ser melhor, o pessoal do moche poderia ter ficado quietinho que tinha feito melhor figura e os artistas escusavam de estar tanto na defensiva mas deste espírito académico que envolve partilhar o prazer de ver um bom concerto de uma banda de qualidade eu posso dizer que é um espírito no qual eu me revejo.


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Mandarim Cityschool



Para pessoas da minha área, divulgo esta oferta de emprego. Devo, no entanto, dizer que já trabalhei com a Cityschool do Porto e que não o voltaria a fazer. As instalações são muito boas, mas não é muito bem pago (bom, sempre é melhor do que um Wall Street Institute, mas aí também já estamos a falar de extremos de decadência). Além disso, uma coisa a ter em conta no trabalho de formador de línguas específicas é também o de fazer valer a nossa escassez. Para quem trabalha com prestação de serviços, não se podem tolerar pagamentos irrisórios (até porque os alunos deste tipo de institutos pagam pequenas fortunas para os frequentarem). Posso dizer que trabalhei lá para ganhar experiência mas o que me pagaram quase não cobriu despesas de deslocação - sim, porque para dar este tipo de formação, não é ao virar da esquina que se encontram as pessoas devidamente qualificadas e nem o facto de se residir numa área afastada os faz reflectir minimamente sobre as propostas de pagamento. No entanto, para mim o problema não residia no que eu poderia lucrar. O verdadeiro problema foi lidar com a directora da Cityschool do Porto, Luísa Lupi. Para alguém que apregoa constantemente a relação interpessoal com colegas de trabalho como um dos principais aspectos a ter em conta, o estilo opressor, desconfortável e hierárquico com o qual lida com os formadores que emprega, é simplesmente insuportável. Eu sei que as coisas não estão fáceis e etc mas fica a mensagem de que não nos podemos sujeitar a qualquer coisa por uns trocos. Aproveitem a oferta e a experiência, mas não se deixem intimidar pela postura da senhora. Ela não tem qualquer direito de vos fazer sentir seus submissos.

sábado, 6 de novembro de 2010

Micronarrativas


Ontem à tarde, o Colóquio de Outono era sobre as mutações do conto nas sociedades urbanas. Tendo este mote em mente podemos encontrar reflexões diversas. Quais são as particularidades do conto nas sociedades urbanas? Estamos a centrar-nos em temáticas ou em estilos de abordagem? O urbanismo reflecte-se nos conteúdos, nas personagens com estilos de vida distintos, numa concepção alterada de realização da existência ou, por exemplo, em diferentes percepções da moral?

Ou estamos a referir-nos a formatos vanguardistas da exposição do texto (lembram-se daquela onda da poesia concreta?) . Bom, aparentemente estava a falar-se de ambos mas relacionado com uma única ideia primordial: a noção do tempo. Ou da falta dele. Por isso essa tarde era essencialmente dedicada a um género pós-moderno designado de micronarrativa. À volta do género tentou discutir-se um pouco de tudo. Contudo, a discussão sobre esse género era também perfumada pela presença da ideia da tradição oral como algo comparável à noção de micronarrativa. Por isso juntaram-se contadores de histórias com escritores de micronarrativa. Participantes da revista Minguante, o autor Rui Manuel Amaral , o autor Luís Ene e contadores de histórias como David Heathfield ou Thomas Bakk foram alguns dos presentes.

Às micronarrativas, ou às Short Stories temos referências desde os clássicos ETA Hoffmann ou Gogol assim como Jorge Luís Borges. A nível de tradição anglo-saxónica nem se fala: Kipling, Faulkner, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, Hemingway...
 O debate careceu de alguma definição teórica mais académica e científica. As micronarrativas não serão, certamente, apenas textos curtos – os autores muito aludiram ao facto de que o formato não lhe retira o brilhantismo ou a genialidade “a literatura não se mede ao metro”. Certamente e até aí ninguém o contrariou, Rui. Tal como a poesia ou o próprio humor: expor em menos tempo é sempre uma forma de recolher uma essência concentrada. Falou-se em urbanismo e em novas tecnologias e na forma como os escritores poderiam começar a compor literatura com um twitt – vou ver se começo a adicionar tais iluminados, os meus amigos no twitter não têm, por norma, o hábito de compor obras de arte pelo smartphone.

Mas, enfim, há algo de pertinente nesta mescla de referências: a noção de brevidade, a assunção de um conteúdo literário, artístico, reflexivo e criativo que pode ser condensada num género breve, numa cultura que precisa, necessariamente, de ser cada vez mais rápida. Eu não poderia ser mais solidária com as cogitações do colóquio: olhem só para o título do meu último trabalho! Agora, resta quebrar alguns pudores e algumas limitações. Um escritor não é menos escritor porque só escreve breves contos ou apenas poesia – quais são os limites da definição? É a micronarrativa poesia em prosa, já que a poesia também pode narrar e a micronarrativa nem tem necessariamente que narrar, ou pelo menos, não necessariamente pelas estruturas convencionais? Se a micronarrativa é uma forma de comunicação com os leitores que pode ser assimilada mais rapidamente, porque é que um autor não pode admitir, sem pudor de ser considerado – ó, um autor menor – que a própria concepção do texto literário se torna mais breve e mais imediata? Se a relação com a criação de um texto breve é uma relação quase hedonísta, de prazer momentâneo, de exorcização criativa fraccionária que não nos assombra constantemente num trabalho obsessivo como o é o da concepção de uma obra literária mais longa, então porque não assumir esta vertente?

Queremos sempre repensar as nossas tradições artísticas à luz das metamorfoses do meio mas há sempre esta incapacidade que é a de conseguir assumir apenas parcialmente as novas necessidades. E não é porque a relação do autor com a obra se torna mais imediata que a obra se desvaloriza e eu não ouvi ninguém no colóquio colocar as coisas nestes termos, mas infelizmente os convidados não foram capazes de ultrapassar este pudor que é o de que é possível estabelecer uma relação mais breve com a criação e que se alguém se atrever - Cruzes credo! - a não nos tratar por “escritores” por causa disso ou até mesmo a chamar de “literatura” o que eu fazemos, vamos lá ver, será que eu quero realmente saber? Pelos vistos, eles querem, afinal tem que se estar afeiçoado a rótulos tradicionais mesmo quando a ideia da concepção do género é inovar, e isso, sinceramente, parece-me paradoxal.

A micronarrativa não parece ser, contudo, um género que se fecha na sua definição pelo tamanho. Se a quisermos definir por oposição à ideia de metarrativa de Lyotard, quando reformula a condição do pós-modernismo. No dicionário de termos literários podemos ler: Para uma doença, a Ciência dirá que possui todas as respostas conhecidas (totalidade a que chamamos metanarrativa); se uma comunidade local possuir uma resposta simples para essa doença (unidade a que chamamos micronarrativa), não estaremos a pressupor que a verdade foi definitivamente alcançada. Lyotard defende a “incredulidade” nas metanarrativas (humanismo, iluminismo, modernismo, etc.,) como o fundamento do pensamento pós-moderno. (Jean-François Lyotard: A Condição Pós-Moderna (2ª ed., Lisboa, 1989); Id.: O Pós-Moderno Explicado às Crianças (Lisboa, 1987)).

Assim, na minha perspectiva, o valor real da micronarrativa reside no descontrolo do conhecimento, nas percepções fragmentárias do mundo, na continuidade da diversidade dos jogos de linguagem canalizadas num sentido oposto ao das metanarrativas, de acção convergida. A micronarrativa abre caminho ao pós-estruturalismo e à análise do caos. Gostaria de ter ouvido mais sobre isto e menos de "eu escrevo pouco mas... mas BEM, ouviram? Não sejam ignorantes, sou tão escritor como os outros".

Com esta minha posta de pescada sobre do rigor académico eu não defendo a necessidade de se conversar num colóquio como quem lê um ensaio da Helena Buescu mas, por outro lado, se o estilo descontraído de um orador ganha todo o meu respeito, a absoluta falta de rigor na escolha dos termos (nós não queremos pôr “palha” nos nossos textos) também faz com que o meu respeito lá se vá para debaixo de alguma cadeira sonolenta de auditório.