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segunda-feira, 22 de julho de 2019

Apresentação em Braga "A Transfiguração da Fome" de Sara F. Costa


25 de julho
18h30
Livraria Centésima Página

O livro vencedor do Prémio Internacional Glória de Sant'Anna para melhor livro de poesia publicado em países de língua portuguesa em 2018, “A Transfiguração da Fome" publicado pela Editora Labirinto será apresentado pela primeira vez em Braga na Livraria Centésima Página dia 25 de julho pelas 18h30. A apresentação do livro estará a cargo da Prof.ª Dra. Isabel Cristina Mateus.
Leitura de poemas pelo poeta Luís Aguiar.

"A Transfiguração da Fome, de Sara F. Costa, é uma longa narrativa sobre nós: tu, eu e o mundo. Essa história pode ser lida em várias direções, sem necessidade de início ou de fim: há fins antes de certos inícios, há fins depois de outros fins. Em qualquer dos casos, esse será um caminho de referências concretas, papéis no chão levados pelo vento, e metáforas, horizonte. Sara F. Costa prepara-nos uma cartografia exata, não apenas no rigor com que organiza a linguagem, mas também na delicadeza do silêncio: entre palavras, entre versos, entre o título e o início do poema." Jose Luis Peixoto, escritor.

"Eis o maior mérito do livro, o de nos desconcertar, através de imagens impactantes, esteticamente cuidadas (“Porque é que a pele seca dos transeuntes vem esfoliar no meu peito?”, “a harpa do pensamento é uma planta que morreu de overdose de delírio”), ou através de procedimentos gramaticais, como o de contornar voluntariamente a palavra amor (...) A transfiguração da fome é, acho eu, uma homenagem à palavra certa, essa que procuramos apenas para evocar o tu após termos derrubado todos os impérios." Teresa Moure, júri do Prémio Literário Glória de Sant'Anna.

"Não é nada fácil navegar por este turbilhão de teres, seres e sentires que a poeta labora neste extenso poema. Um poema de muitos poemas. Amores e desamores. Uma viagem de muitas viagens vertiginosas que fluem numa crescente desconstrução procurando um equilíbrio que irá desaguar na ruptura." Fernando Sales Lopes, poeta.





Sara F. Costa é licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem recebido vários Prémios Literários nacionais na área da poesia. Foi autora convidada do Festival Internacional de Poesia e Literatura de Istambul 2017. Em 2018, fez parte da organização do Festival Literário de Macau e do Festival Internacional de Literatura entre a China e a União Europeia em Shanghai e Suzhou. Tem poemas traduzidos em várias línguas e trabalhos publicados em Revistas Literárias um pouco por todo o mundo, desde o Brasil à China. Atualmente reside em Pequim e é coordenadora da comunidade de escrita criativa de Pequim, Spittoon Arts Collective.









Isabel Cristina Mateus é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Coimbra e Doutorada em Ciências da Literatura, Área de Especialização de Literatura Portuguesa (Moderna e Contemporânea) pela Universidade do Minho. Exerce atualmente as funções de Professora Auxiliar no Instituto de Letras e Ciências Humanas e de investigadora do Centro de Estudos Humanísticos (CEHUM). A sua área de investigação centra-se na Literatura Portuguesa dos séculos XIX (com especial destaque para Fialho de Almeida e Raul Brandão) e séculos XX a XXI.
É coordenadora da edição da obra completa de Maria Ondina Braga pela INCM (com Cândido Oliveira Martins (UCP), exercendo igualmente funções de dinamizadora do Espaço Maria Ondina Braga/Museu Nogueira da Silva.
É membro da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores.
Tem colaborado em diversas revistas de especialidade nacionais e estrangeiras e é autora de vários estudos sobre autores da literatura portuguesa moderna e contemporânea, com destaque para o ensaio “Kodakização” e Despolarização do Real: Para uma Poética do Grotesco na Obra de Fialho de Almeida, Leya/Caminho 2008.






Luís Aguiar é licenciado em «Técnico Superior de Secretariado - Ramo de Assessoria de Direcção» pela ESTGA-UA e Mestre em «Línguas e Relações Empresariais» pela Universidade de Aveiro. Estudou, também, música clássica no Conservatório de Música Clássica Calouste Gulbenkian de Aveiro e fotografia analógica no Centro de Artes de São João da Madeira.
Foi colaborador assíduo do Diário de Notícias (DN Jovem) entre 2001 e 2007. Tem dezenas de poemas dispersos por jornais, revistas e antologias literárias.
Foi coautor na construção do maior poema contemporâneo, O Fulgor da Língua - O Estado do Mundo, promovido pela capital da cultura - Coimbra (2003).
Foi galardoado em vários prémios literários, alguns dos quais resultaram na publicação da obra. Em Março de 2017 foi distinguido com o Prémio de Poesia Judith Teixeira com a obra literária O muro onde a sombra persiste e em Setembro de 2016 foi premiado no XVIII Concurso Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage (2016) com o trabalho poético Quantas madrugadas precisamos para fermentar um pão?.

domingo, 26 de agosto de 2018

Momentos Festival Literário de Macau 2018, Kalaf Epalanga, Sara F, Costa, Julián Fuks

Sara F. Costa, Kalaf Epalanga

 Kalaf Epalanga, Sara F, Costa, Julián Fuks


Julián Fuks, Sara F. Costa,  Kalaf Epalanga

Julián Fuks, Sara F. Costa,  Kalaf Epalanga

Sara F. Costa, Kalaf Epalanga

Kalaf Epalanga, Sara F. Costa

terça-feira, 17 de julho de 2018

Lançamento do livro "A Transfiguração da Fome" de Sara F. Costa


Lançamento do livro "A Transfiguração da Fome" de Sara F. Costa

Editora Labirinto
Data: 28 de julho, 17h
Espaço Menina e Moça Livraria Bar, Lisboa



Lançamento do livro "A Transfiguração da Fome" de Sara F. Costa que mereceu uma Menção Honrosa no Prémio de Poesia Soledade Summavielle (2ª edição) e será editado pela Editora Labirinto.

"A Transfiguração da Fome" insere-se na Coleção "Contramaré" da Editora Labirinto e tem uma nota introdutória de Jose Luis Peixoto.

O evento contará com a presença de Victor Oliveira Mateus, coordenador da coleção, juntamente com Daniel Gonçalves e o editor João Artur Pinto.

A apresentação do livro será levada a cabo por Fernando Sales Lopes e António Graça de Abreu.

Leitura de poesia por Lígia Reyes e Gisela Casimiro.




Sara F. Costa (1987) nasceu em Oliveira de Azeméis. É licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem recebido vários Prémios Literários nacionais na área da poesia. Participou no Festival Internacional de Poesia e Literatura de Istambul 2017 e em 2018 fez parte da organização do Festival Literário de Macau e do Festival Internacional de Literatura entre a China e a União Europeia em Shanghai e Suzhou, China.

Tem publicadas as obras poéticas:
– A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos (Pé de Página editores, 2003);
– Uma Devastação Inteligente (Prémio João da Silva Correia, Atelier Editorial, 2008);
– O Sono Extenso (Prémio João da Silva Correia, Âncora Editora, 2012);
– O Movimento Impróprio do Mundo (Prémio João da Silva Correia, Âncora Editora, 2016)
– A Transfiguração da Fome (Editora Labirinto, 2018)



Poema em "A Transfiguração da Fome"

Império ao meio

sento-me no limite desta cidade
a observar os quilómetros percorridos entre existências.
em hora de ponta nenhum coração está vago.
queria traduzir-te o sorriso
e fumar os prédios,
bebe-los com a agonia.
dizem que sem medo há sempre destino
mas eu escrevi-te do fundo do tempo,
já não existias.
este é o império que se partiu ao meio
nas nossas mãos.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Apresentação "O movimento impróprio do mundo" de Sara F. Costa em Lisboa

Apresentação "O movimento impróprio do mundo" de Sara F. Costa em Lisboa

Apresentação por Nuno Júdice

21 de abril,19h
Local: Carpe Diem 
Rua de O Século, 79, Bairro Alto
Lisboa

terça-feira, 8 de março de 2016

"O Movimento Impróprio do Mundo" lançamento do livro de Sara F. Costa


Sara F. Costa ganhou pela terceira vez o Prémio Literário João da Silva Correia mas há muito mais nela do que poesia. A jovem de 28 anos, licenciada em Línguas e Culturas Orientais, é intérprete e consultora de investimento chinês em Portugal. Vive e trabalha em Lisboa, onde também se dedica ao estudo das Relações Internacionais, área onde se encontra a tirar doutoramento e onde analisa o diálogo intercultural, questões identitárias, análise histórica, diplomática e política externa. Ao labor, fala da sua escrita, dos interesses académicos e das saudades de S. João da Madeira


LABOR: Como descreveria “O Movimento Impróprio do Mundo” em relação às duas obras anteriormente galardoadas: “O Sono Extenso” e “Uma Devastação Inteligente”?

Sara F. Costa: Cada um dos meus livros é o reflexo de um percurso. Por um lado, o percurso existencial. Por outro, há uma exploração da plasticidade da palavra, um permanente exercício de alteridade, uma evocação dos outros que me habitam. Como diria Rimbaud, “je suis un autre”. É nesta encarnação permanente do alheio que procuro traçar um percurso que se tem vindo a desenvolver em termos de maturação pessoal e literária. Recordo-me que, tanto no meu primeiro livro “A melancolia das mãos” que editei com 15 anos, como no segundo “Uma devastação inteligente” editado aos 19, era uma adolescente mais ou menos assustada com isto tudo que é viver e deixar de viver, são livros com tonalidades mais melancólicas e ansiedades pulsantes. Não é que não exista melancolia em “O Sono Extenso” ou “O Movimento Impróprio do Mundo” mas admito que passei a incorporar uma dimensão mais social, ainda que mantendo sempre a dimensão psicológica e sobretudo emocional. É difícil a autora analisar a sua própria obra, mas reconheço o meu fascínio pela vertente plástica e visual da poesia, a criação de imagens sensoriais, a captação do instante de inspiração simbolista e surrealista, o recurso à sinestesia e abstração em detrimento da narrativa ou o esboçar de narrativas não figurativas.


L:Que comentário lhe merece este triplo reconhecimento pelo Prémio Literário João da Silva Correia?
SFC: Eu escrevo de forma espontânea e sem um deadline ou um compromisso de publicação. O máximo que faço é enviar trabalhos para Prémios Literários. Este triplo reconhecimento vem confirmar algo de que sempre estive certa, a aposta que a Câmara Municipal de S. João da Madeira faz no apoio às artes e à cultura. Tenho que agradecer aos júris do prémio, todos personalidades de grande idoneidade intelectual e que muito me honram com a sua decisão. É também uma honra ter o meu nome associado desta forma ao grande João da Silva Correia, cuja obra-prima “Unhas Negras” faz sem dúvida parte dos meus livros favoritos. Espero que a escrita deste autor continue a ter divulgação na contemporaneidade e se eu fizer de alguma forma parte dessa divulgação, sinto que é algo de muito nobre.


L: Além destas três obras, que outra produção sua destacaria? O que a inspira, o que a aflige, sobre o quê gosta de escrever?
SFC: Divido-me entre a escrita criativa e a escrita académica ou científica. O que eu envio para ser analisado, por exemplo, em prémios literários é aquilo que para mim atinge um certo valor artístico. Em termos de produção artística, não destacaria mais nada para além daquilo que tenho publicado. Tenho escrito vários artigos científicos relacionados com a área de investigação na qual me encontro a tirar doutoramento, que é a área das Relações Internacionais, onde gosto de escrever sobre o diálogo intercultural, questões identitárias, análise histórica, diplomática, análise de política externa. A minha especialização geográfica é a China. O comportamento humano inspira-me bastante. Tanto na sua dimensão micro como macro, ou seja, tanto a nível psicológico como a nível social. Digamos que se eu fosse fotógrafa ou pintora, tenderia a fazer retratos. Interessa-me a ética da mesma forma que me interessa a cidadania e consequentemente a política. Participo ativamente na sociedade civil e muitas das minhas inquietações advêm de análises e reflexões de cariz social, os modelos económicos e ecológicos da nossa contemporaneidade, a violência e a conflitualidade, a reflexão sobre os modelos vigentes e os modelos que seriam desejáveis, o que os distancia e o que pode ser feito para lá chegar.


L: S. João da Madeira, cidade essencialmente industrial, tentou-se afirmar na poesia com a organização da campanha Poesia à Mesa. Tem acompanhado o evento?
SFC: Tenho acompanhado o evento na medida do possível. Quando era adolescente era uma semana de grande entusiasmo. Quando fui estudar para Braga e depois trabalhei em diversos pontos do país, deixei de ter tanta facilidade em participar no evento, com muita pena minha. O facto de S. João da Madeira ser uma cidade industrial só pode fomentar a criatividade, como fomentou ao próprio João da Silva Correia. Como sou uma escritora que se interessa muito pelas dimensões humanas e sociais, acho que é perfeitamente normal que muitos artistas se tenham inspirado na industrialização para a sua arte.


L: Sabemos que se licenciou em Línguas e Culturas Orientais e que passou algum tempo na China. Fale-nos dessa experiência, do que faz atualmente e se esse conhecimento se reflete de alguma forma na sua produção artística.
SFC: Parte do meu mestrado foi passado na cidade de Tianjin na China, onde aprofundei conhecimentos de mandarim. Já lecionei mandarim e português como língua estrangeira. Atualmente sou consultora de investimento chinês em Portugal. Também sou intérprete. Naturalmente que esta vontade de perspetivar o mundo em diferentes posicionamentos se relaciona com o meu fascínio pela Ásia da mesma forma que se relaciona com o meu fascínio pela arte, penso que tudo faz parte de uma experiência integrada.


L: Deve saber também que nas escolas primárias de S. João da Madeira ensina-se atualmente o Mandarim. Como avalia esta opção?
SFC: Sei sim. Acho que é algo louvável, de grande visão. O multilinguismo é de extrema importância e o mandarim é a língua mais falada no mundo e a República Popular da China encontra-se, nas várias dimensões do poder, a desafiar a ordem do sistema internacional pelo que há imensos motivos para se estudar esta língua neste momento.


L: Vem a S. João da Madeira com frequência?
SFC: Venho com uma periocidade mais ou menos mensal. Visito a minha família em Cucujães e os meus amigos e outros familiares espalhados por S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis e Santa Maria da Feira. Tenho sempre saudades de S. João da Madeira porque me lembra os tempos da adolescência, das longas horas passadas em cafés e na biblioteca a ler e a escrever e nos bares a divertir-me com os meus amigos.



Vencedora de três prémios


A escritora de Cucujães Sara F. Costa voltou a vencer o Prémio Literário João da Silva Correia. É a terceira vez que é distinguida, desta vez com a obra “O Movimento Impróprio do Mundo”.
O Prémio Literário João da Silva Correia, cuja edição de 2015 foi dedicada à Poesia, é atribuído pela Câmara Municipal de S. João da Madeira e traduz-se num apoio monetário à publicação do título escolhido pelo júri, até ao montante máximo de 2.000 euros.
Em “O Movimento Impróprio do Mundo”, segundo o júri do concurso, a autora “apresenta uma escrita fluida e ampletiva, tonalizada com algum humor, aparentemente simples, mas trabalhada e consistente. Abordando temáticas atuais e referências a símbolos identitários nacionais, o livro premiado contém um conjunto de poemas que desenvolvem uma reflexão poética intensa e envolvente em torno do quotidiano do próprio poeta, transportando o leitor para universos marcadamente pessoalizados”.
Sara F. Costa, escritora e poetisa, venceu este concurso literário em 2007 com a obra “Uma Devastação Inteligente” e em 2011 com “O Sono Extenso”.
O júri é atualmente constituído pela representante do Município de S. João da Madeira, Suzana Menezes, pelo representante da Âncora Editora, António Baptista Lopes, e pelo poeta José Fanha.
Licenciada em Línguas e Culturas Orientais pela Universidade do Minho, Sara F. Costa esteve dois anos em Tianjin, na China, onde expandiu os seus conhecimentos de Mandarim. Fez um mestrado em Estudos Interculturais: Português/Chinês: tradução, formação e cultura empresarial e está atualmente a fazer um doutoramento em Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa.
Foi leitora nas universidades de Braga e Tianjin, professora de Português como Língua Estrangeira e professora assistente convidada da licenciatura em Tradução e Interpretação (Português/Chinês – Chinês/Português) no Instituto Politécnico de Leiria. Foi ainda Relações Públicas e é atualmente tradutora/intérprete e consultora de investimento chinês em Portugal.
Tem várias publicações académicas, onde refuta a tese da paz pelo comércio partindo do exemplo da Guerra do Ópio, analisa o intervencionismo da ONU e a importância da tradução nas redes de informação contemporâneas.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Herberto Helder


O que representa a poesia de um país?

Em 2015 não há muitos motivos para se ter orgulho em ser português. Essencialmente por questões políticas e acessoriamente por questões que se relacionam com a economia local mas também global.
Se a expressão artística em geral consegue representar uma identidade individual ou coletiva, a poesia, pelo uso exclusivo da linguagem consegue minudenciar essa identidade. 

Sempre me identifiquei com o Álvaro de Campos que era estrangeiro em toda a parte e com o Pessoa que declarou que a sua pátria era a língua portuguesa. Dois conceitos pessoanos com os quais desenvolvi a minha identidade desde a pré-adolescência.  

Pessoa falece em 1935 mas é a partir dos anos oitenta que historicamente se começa inscrever na nossa memória coletiva, símbolo da cultura portuguesa contemporânea, lisboeta em particular devido ao esforço que foi feito para que a divulgação da riqueza literária que ele deixou pudesse atravessar fronteiras. Consecutivamente conheço estrangeiros que se apaixonaram por Portugal porque começaram por conhecer Pessoa. Neste Março que celebra 100 anos desde a primeira edição da Revista Orpheu é também um mês em que o país perde mas, sobretudo, a língua portuguesa perde um símbolo maior da sua vitalidade com o falecimento de Herberto Helder.



Em Photomaton & Vox, Herberto Helder define em 1979 o que significa pertencer a uma geração de poetas em Portugal “Eramos uma nova imitação de Cristo na Luciferania versão de alguns radicais antigos ou modernos, para quem a poesia foi uma ação terrorista, uma técnica de operar pelo medo e o sangue”. Até porque a poesia é “aquele equilíbrio no arame que mata o apetite de vertigem e nebulosa delinquência de uma emotividade suburbana”.

Herberto Helder, surrealista, simbolista ou híbrido: um poeta que explora as figurações do corpo (a poesia carnal ou encarnada), da relação com o tempo e com o espaço, da reivindicação da presença do leitor, da relação vida e arte, do discurso do absurdo, da dessincronização dos sentidos e da criação de realidades na realidade. Do prosaico ao carnal, do erudito ao existencial. Um poeta que pôs muita gente ler poesia e outra tanta a escrevê-la. Um homem de esquerda, contra as unanimidades e pensamentos empacotados.

A resposta à pergunta inicial do post encontra-se também dada por Herberto Helder na continuação da abertura desta obra, o poeta como revelação, sendo que “a última revelação é esta de sermos os produtores inexoráveis e os inevitáveis produtos de uma ironia cuja única dignidade é descender do tormento, um tormento sempre equivocado na sua manifestação sensível.” “Escrever é um jogo (…) representa-se a cena multiplicada de uma carnificina metafisicamente irrisória”.
Sabemos que Herberto Helder não quer ser o próximo Fernando Pessoa. Não quer estátuas, não quer ruas, não quer pertencer a protocolos literários, como afirmou em modo de pedido o seu mais mediático filho, o comentador político e jornalista Daniel Oliveira.

De facto, se se refugiou de qualquer meio mediático nos últimos anos de existência não podemos depois da sua morte desejar-lhe algo contra o qual lutou em vida.
 “Se quisesse, apresentava-me como uma vítima da escrita, da inocência, da neurose e suas instâncias psiquiátricas e psicanalíticas”.


Se em 2015 temos poucas razões para nos orgulharmos da nossa identidade, Herberto Helder é uma delas. Apelo ao encontro de uma identidade que não se deixe delinear apenas por fronteiras ou origens mas que se exprima através do nosso maior património: o património linguístico. Cabe-nos divulgar Herberto Helder como ícone de um valor literário ímpar globalmente. A contemporaneidade exige reciclar os nossos ídolos literários. Que estes se mantenham como parte essencial de uma identidade coletiva, sempre. 



domingo, 4 de novembro de 2012

“Heart of darkness” de Joseph Conrad



“Heart of Darkness” de Joseph Conrad, publicado em três fases durante o início do século XX, é um livro razoavelmente curto mas canónico na tradição literária dita ocidental.
            Às multiplas camadas de narrativa junta-se uma linguagem visceral frequentemente sensorial e que nos descreve um universo pouco colorido, dir-se-ia mesmo um universo onde a luz é inetivalmente absorvida. Para além das qualidades literárias intrínsecas da forma, o impetuoso simbolismo da mensagem justifica esta canonização. Esta jornada a lugares considerados exóticos não ganha proporções épicas mas antes ilustra o nengrume presente na perceção de Marlow face ao conhecimento de um mítico reinado instaurado por “Kurtz” um homem “de elevado gosto e espantosa eloquência”. 
Heart of Darkness é baseado numa jornada do próprio Joseph Conrad ao Congo como comandante marítimo.Em 1878, as entidades belgas que colonizavam o Congo com pretextos supostamente filantrópicos para o desenvolvimento rural anunciam a criação de um novo estado, o Estado Livre do Congo. Na realidade, tudo não passava de um esquema montado por Leopoldo II para a exploração do marfim. O povo local era sistematicamente roubado, escravizado e sujeito a trabalho forçado nas minas. Aqueles que não trabalhassem devidamente eram punidos com amputações de membros. Centenas de milhares de escravos morriam devido a exaustão, doença ou fome.

Grande parte do interesse da obra de Conrad deve-se ao seu enquadramento temporal. Em 1902, o termo “racismo” não tinha sequer uma conotação pejorativa. No entanto, no seu livro encontramos o narrador Marlow a refletir várias vezes sobre a possível humanidade presente “naquelas criaturas”:They were not enemies, they were not criminals, they were nothing earthly now, nothing but black shadows of disease and starvation, lying confusedly in the greenish gloom. (Conrad 14)
O reino de Kurtz, instaurado sobre o pretexto de uma suposta civilização dos povos face à presumivel superioridade europeia torna-se num conto fantasmagórico na qual o conceito de civilização é invertdo. Perante a ausência de lei, o reinado que Kurtz pensava controlar estava antes a controlá-lo a ele num ilusionismo febril. Fora do seu estado de princípios, Kurtz implementa o mais primitivo dos sistemas mas considera-se a ele superior porque a lei dos homens não se confunde com a lei primitiva da natureza. Contudo, é do reconhecimento dos ocupantes de que “ali não há leis” e que“podemos matar se necessário”.  A selvajaria é assim instaurada pelos mensageiros da civilização, por homens brancos de estados hegemónicos.
Este regresso à selvajaria relembra outro clássico, o posterior “Lord of the flies” de William Golding. Em ambas as obras a reflexão sobre civilização e selvajaria demonstra que a assunção de superioridade cultural e civilizacional é facilmente posta em causa aquando da ausência de regulações e imperativos externos. A terra de ninguém é assim a terra da lei do mais forte.
A viagem ao coração das trevas é na realidade uma viagem ao lado mais sombrio do coração humano.



Conrad, Joseph, Heart of Darkness, first published in 1902, published in Penguin Classics1994

terça-feira, 17 de abril de 2012

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A liderança, back to Lord of the Flies

Já tentaram dominar um grupo de pessoas? Um grupo de amigos, um grupo de colegas, um grupo de trabalho. Felizmente nem todos vivemos segundo os moldes culturais americanos e não crescemos com noções claras sobre popularidade mas hoje em dia fala-se muito em empreendedorismo e liderança.


 Eu questiono-me, o que é realmente vital para que a liderança ocorra? Tive recentemente o desafio de criar um método de educação não formal que se enquadrasse no plano da democracia/cidadania. No meu grupo de trabalho alguém sugeriu ter-se como base a história de Lord of the Flies. Um grupo de pessoas encontra-se isolado numa ilha depois de um acidente de avião e diferentes pequenos grupos seguem diferentes lideranças. Para isto dávamos-lhes instruções. A ideia era termos por detrás vários backgrounds ideológicos ou diferentes estruturas de organização social mas dissimulados por uma breve descrição. Para que o role play tivesse mais piada, cada grupo teria diferentes recursos interdependentes, o que faria com que tivessem que chegar a um acordo em relação à liderança. Enfim, acabou por se testar o método que se revelou bastante pedagógico para os envolvidos. Já tínhamos previsto no grupo de trabalho possíveis associações – será que os teocráticos se juntam à democracia, será que os ecologistas cedem à ditadura, no grupo experimental a maioria dos participantes estava com dificuldade em compreender a diferença do grupo no qual nos inspiramos para a democracia e do grupo no qual nos inspirámos para ditadura (de contornos comunistas). Curioso.



Na realidade, no livro que nos deu este fundo teórico apercebemo-nos que quando confrontados com a estaca zero civilizacional, um grupo com frágeis reflexos sociais (como o são as crianças) facilmente cede à selvajaria. Claro que o objetivo deste método em particular era o de instruir para a cidadania e transmitir valores democráticos, preferencialmente aqueles que temos como basilares no velho continente.

Mas do social salto para o pessoal e é tão fácil apercebermo-nos que esse instinto selvagem de cedência ao simples e ao imediato é absolutamente presente. É interessante observar alguém que tenha um instinto natural para a liderança ou, pelo menos, para exercer influência sobre os outros. A forma como o populismo está presente, as ideias fortes deixam de ser assim tão fortes, o controlo das emoções, a compreensão empática da emoção dos outros e a racionalização da resposta esperada. Nada disto constitui o arsenal de conhecimento intelectual que nos fazem acreditar ser o conteúdo essencial para a liderança. Tudo isto requer muita possibilidade de prática mas no meu íntimo tenho a certeza de que há situações de completa impossibilidade. A capacidade de manipular é demasiado instintiva e dificilmente racionalizável. É por isso que esta obra é tão claramente fascinante.
Uma vez que o Piggy representa o espírito intelectual e lúcido dos bastiões da nossa construção social, o verdadeiro líder Ralph tem que ceder muito mais ao espírito massificado e funcionar com base numa certa condescendência. De outra forma, o líder intelectual é automaticamente suprimido pelo líder emocional, aquele que dirige as emoções e que pode (e que o faz tendencialmente) conduzir o grupo para a dissonância – como se diz em termos de inteligência emocional – apatia, paralisação e união pelo ódio. É o que faz o Jack. Bom, depois de ler uma obra destas e com algum espírito crítico e reflexivo facilmente chegamos a estas conclusões e por isso estes cursos intensivos em voga de “coaching” acabem por ser, honestamente, inúteis. Mas como quero manter um bom espírito de liderança, não vou fazer propaganda negativa que possa prejudicar os meus amigos psicólogos. 



Agora a minha reflexão em juntar o plano do psicológico com o da ascensão social ao qual a liderança pode levar, seja em termos políticos ou apenas dentro da nossa empresa ou instituição é o de que, o que é necessário não é necessariamente o que é ensinado.
É uma observação óbvia de se fazer mas menos fácil de expor analiticamente ou que requer pelo menos alguma disponibilidade mental para pensar sobre o que nos rodeia, o que acaba por ser algo que faço instintivamente e não porque tenha alguma meta delineada que me leve a fazê-lo. Isto reflete uma das características de Jack porque o verdadeiro líder é aquele que embarca o grupo naquilo que ele faz por instinto e puro prazer – o dele era caçar, matar, o bloodlust de que nos fala o livro. Mas podia ser outra coisa qualquer.
Na realidade, ter que obedecer a imposições e regras não é propriamente a coisa mais divertida de sempre e isso sente-se. É por isso que, à parte de todas as análises deste livro que é estudado em todas as escolas dos países anglo-saxónicos, a interpretação não é assim tão linear em reconhecer o bom e o mau. Isto porque o bom é alguém que não deixa de estar inserido num sistema e num formato.

Será que há algo de Jack em qualquer pessoa com tendência natural para a liderança? A ideia de símbolo, a noção de pertença/outcast.
É por isso que quando Jack começa a tentar camuflar-se na natureza com as suas pinturas faciais adquire um simbolismo de estilo a que ninguém consegue escapar o fascínio, a noção de pertença através de símbolos que nos fazem sentir maior do que nós, numa profunda ilusão de poder (bem representado mesmo no filme dos 90, o menos apreciado dos dois). Se virmos de um ponto de vista externo, quantos povos se definem por símbolos religiosos, quantas tribos recorrem à exuberância facial de guerra que os camufla com a natureza mas que os define de forma exclusiva para os unir como um grupo.
Quando estão num grupo de amigos e alguém tem um claro sentido de liderança que toca a ambição e a obsessão e o prazer pelo domínio, nunca repararam no tipo de sinais mais ou menos evidentes que surgem como que símbolos que nos identificam como pertencentes ou não? Coisas simples e simbólicas podem começar a minar a criação de subgrupos. Será chocante vermos em nós ou nos que nos rodeiam o poder manipulador que Jack representa?



Talvez esta linha de pensamento que se debruça sobre o descrédito pela ordem pré-definida em prol de uma lógica de poder e de submissão ao poder, no conduzisse a ideias como as da anarquia ou do niilismo no sentido filosófico para nos opormos a isto. Se não há regras e nada faz sentido então não há qualquer motivo para se acreditar na existência. Contudo, há na personagem de Simon uma esperança no valor intrínseco do Homem, a crença na possibilidade de se poder ser genuinamente bom, ou seja, aquilo que entendemos em termos de rótulo por humanismo. Simon é o primeiro a questionar o elemento de medo criado pelo sistema opressor de Jack, a existência de um monstro – o tal elemento externo que reforça o interno. Simon é aquele que não acredita na besta, é absolutamente destemido porque não acredita que tenha muito mais a perder, não acreditar em nada pode também traduzir-se por uma coragem movedora. No livro, este ser em comunhão com a sua essência é destruído pela brutalidade do grupo alienado. Uma prova de que sem a liderança correta, tudo pode ficar negro.



Há quem tenha recentemente comentado a semelhança deste livro com o recente The Hunger Games – que inevitavelmente vem associado ao Battle Royale. Mas não vejo o porquê da relação. Provavelmente só fazem este paralelismo para abordar o tópico das definições das idades da audiência em que os argumentos passam por: “Já que deixamos as nossas crianças analisarem na escola livros como Lord of the Flies, porque não deixá-las ver o The Hunger Games?” Na realidade, nem HG nem BR têm muito em comum com LOTF. Os primeiros têm em comum a crítica mediática, o conflito geracional, a ulta exposição e o sadismo de uma sociedade orientada para uma glamourização da violência. LOTF é uma reflexão pura sobre as dinâmicas de grupo e a fragilidade dos nossos sistemas democráticos, consensualmente os melhores ainda que, em perspetiva, ainda não perfeitos.



A reflexão real é em que medida esta luta pela liderança não é apenas mais uma forma de integrar um sistema perante o qual espíritos críticos vêem necessidade de reforma. Alimentar a noção de competitividade como solução, é de facto um caminho viável? Até que ponto precisamos da condescendia e, acima de tudo, até que ponto precisamos de ordem e até onde pode ir o nosso caos se ele representar uma superioridade intelectual definida – dialética de Marx, (não marxismo) ? Uma coisa é certa, sinto-me inserida numa linha de pensamento que se expressa por um lado pelo idealismo e por outro pelo pragmatismo decorrente da condição humana efémera, sem que dela derive um incontornável egoísmo já que há um sentido de comunidade que nos é intrinsecamente necessário. E quanto mais tentamos anular o nosso ego, é quando ele mais parece brilhar. É por isso que de todos os elementos representados no livro, o Simon é provavelmente aquele que me descreveria embora em quase tudo o que faço as reações convergem para o líder socialmente equilibrado que é Ralph. É o meu nível de fachada, é o meu nível de fazer o menos pior, num mundo onde o idealismo acaba por ser fatalmente confrontado com a morte da inocência.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Os homens que odeiam as mulheres / The Girl with the Dragon Tattoo

Tentar conjugar numa só obra um policial com jornalismo de denúncia mais questões de género mais reflexões sobre o estado de bem-estar social dos sistemas nórdicos pode parecer extremamente ambicioso e, ainda assim, soa incrivelmente bem! Soa bem sobretudo porque misturado a isto tudo temos a fabulosa paisagem de um país que é conhecido no estrangeiro por pouco mais de que mobiliário estético fácil de montar e barato (o que já é bastante, quando pensamos nisso!).
E isto é aquilo que faz com que esta saga seja também uma forma de valorização cultural nacional. Sim, porque a arte valoriza um país.

Vou tentar escrever este excerto como se estivesse a tomar uma cerveja e a gesticular numa manifestação de energia juvenil e espírito sonhador: temos uma história brutal sobre um assassinato e essa história decorre na Suécia e a Suécia é super awesome e tem paisagens fixes no Inverno e na Primavera e tem personagens super carismáticas e há grandes empresas que fazem grandes golpes financeiros e jornalistas de grande ética que procuram desenfreadamente a denúncia. Há hackers punks que punem os criminosos pelos seus próprios meios e há toda uma reflexão sobre política, sociedade, organização e caos e isto constitui um conjunto de elementos para algo de extraordinário. Imagine-se um português a escrever uma coisa assim!

Agora, ao escrever este artigo, de que é que posso falar? Dois filmes e um livro. Se toda a densidade da trama e os vários aspetos em foco não forem suficientes, temos ainda que lidar com dicotomias no que diz respeito à perspetiva de Stieg Larsson como basilar e às perspetivas do sueco Niels Arden Oplev e do americano David Fincher.
De facto, é difícil compreender o porquê dos remakes. Isso porque muitas vezes sentimos que o remake hollywoodesco está lá porque houve uma necessidade de adaptação cultural que o público americano tem dificuldade em encarar e isto, de um ponto de vista europeu, soa bastante estúpido. Durante algum tempo pensei que Fincher tinha optado pela adaptação a cinema da saga Millenium porque ela fazia parte de uma agenda mas depois de ver o filme condeno-me por ter alguma vez questionado a consciência da escolha do Fincher.
Na realidade, o tema atrai-o e a perspetiva que ele adota no filme, sob o ponto de vista da Lisbeth, é uma demonstração do envolvimento dele com a obra. Não só a quis apresentar como a quis interpretar. O filme sueco careceu não só de orçamento ou cultura cinematográfica mas também de visão e isso, na minha perspetiva, é o que não falta em Fincher.

A estrutura clássica do policial concentra e converte a maior parte das pessoas. Claro que o espírito detetive do público consegue mais concentração quando as pistas são dadas no formato de livro e daí elas existirem lá em mais abundância, contudo, penso que o Fincher conseguiu abreviar a estrutura de forma a ela ser percetível pelo público. Esta parte convence a maior parte da audiência. Depois há o resto que se apercebe que o filme não é sobre o caso de uma rapariga desaparecida, não de forma tão linear. O grande magnata empresarial conduz Mikael a um embuste quando não tem o que lhe tinha prometido ter para lhe dar e, para além do mais, atenta contra a sua liberdade e aos seus valores ligados à transparência: pede a Mikael que não revele o sadismo de Martin. Este é um aspecto que me parece relevante para o autor.

Vou voltar à questão do ponto de vista, adaptar aquele livro para cinema requeria o eleger das peças que queremos enfatizar e dos temas que queremos realmente explorar. Fincher envereda e diria até que se arrisca bastante quando elege o ponto de vista de Lisbeth. Isso porque opta por explorar em grande parte a problemática do género. Quem me conhece neste ponto deve achar que fico toda contente! O que não é bem verdade. Isto é, fico contente que ele tenha feito opções mas não vejo na saga Millenium a questão do género como a melhor. Claro que o filme é sobre homens que odeiam as mulheres e o desfecho do caso se relaciona com uma hierarquia de misóginos mas há na personagem de Lisbeth um ícone no qual não me revejo porque não a considero completamente feminista.

Aqui, as formas de atribuir poder à mulher são formas essencialmente… masculinas. Isto revela-se em alguma força física fora do comum que Lisbeth possui – a mota, a agilidade corporal, etc. Revela-se ainda mais na perspetiva de Fincher sobre o que é o poder feminino no ato sexual – a forma como Lisbeth utiliza o Mikael procurando apenas o seu próprio prazer ou até o facto de ela surgir inicialmente como lésbica.
Isto para explicar a minha não identificação total com o questionamento do género que foi um tom ligeiramente adotado por Fincher – daí o ênfase numa cena brutal de violação com o devido alívio posterior, o da vingança. A senhora ao meu lado só se ria quando a Lisbeth dizia que ela era louca e torturava o seu violador. Parece que o sadismo é coisa vulgar. Eu não consigo deixar de lado o tom perturbador desta escolha. Mas esse é o meu problema em aceitar uma mera destruição do sistema.

Que ela era louca! É aqui que Fincher ganha muitos pontos em relação ao seu colega sueco. Fincher criou diálogos, apanhou-lhes a essência e encurtou-os. Ainda assim é um filme longo mas imagine-se se quiséssemos transpor as palavras de Larsson como realmente eram. Teve uma resolução criativa para muitos dos problemas – quem é que não adorou o wink wink quando no fim nos trocam a Anita pela Harriet?
Fincher tentou surpreender os mais bem-entendidos no assunto porque ele sabe que os há e optou por esta forma de recriação.

Na minha perspetiva, o caso de investigação torna-se secundário e o facto de Mikael ser um jornalista com ética que procura simplesmente a transparência, sem simpatias ideológicas particulares, que a certo ponto cria empatia pelo Henrik Vanger é um dado bastante importante e mal explicado no filme. Mas, mais uma vez, isto dá-se porque o realizador teve que se debruçar mais sobre Lisbeth e menos sobre Mikael.

É interessante como a personagem de Mikael sempre foi aquela que me cativou mais ao longo da saga.
 A parte introdutória no livro em que se percebe que não é propriamente um homem seduzido pelos grandes patrões nem um sonhador idealista nem um intelectual misógino. É simplesmente ele, respondendo de forma cartesiana aos desafios, sendo metodológico dentro daquilo que considera capaz de ordenar. Evitando frustrações desnecessárias mas não indo contra os seus desejos – livro posteriores da saga exploram mais este aspaço. Mikael é um homem moderno face a problemas também eles de género e é este reverso da medalha que o torna uma personagem tão bem conseguida. Lamento que no filme ele não tenha oportunidade de se expor mais enquanto ser inteligente e interessante que é porque há demasiado a necessidade de ser atraente para Lisbeth para que esta atravesse um processo de maturação que culmina num desgosto.

Para sintetizar a minha apreciação, sou claramente fã da saga Millenium e queria um filme que fizesse jus ao livro, que conseguisse pôr em imagens grande parte dos momentos intensos do livro e o filme sueco foi uma grande desilusão mas, à parte de uma perspetiva inevitável do realizador, Fincher tem um trabalho conseguido. Já há algum tempo que a grande tela não trazia verdadeiros momentos de desconforto e neste filme eles surgem em todo o seu esplendor, num contexto controlado como devem surgir mas, acima de tudo, num contexto extremamente artístico.
Aquela reminiscência de Reservoir Dogs na cena de tortura do Martin é simplesmente deliciosa.
Conseguiu manter o hype elevadíssimo que o famoso trailer lhe criou, captou uma das várias mensagens do livro e transmitiu-a. O elenco está mais que conseguido. Siga para o próximo!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Entrevista para o Labor

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Poesia de Sara Costa denuncia “lado negro” da sociedade

Jovem cucujanense vence Prémio Literário João da Silva Correia, pela segunda vez. “O Sono Extenso” dirige-se à juventude dos nossos dias
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A crítica de “um certo lado negro”, inerente ao viver dos nossos dias, valeu a Sara Costa a edição deste ano do Prémio Literário João da Silva Correia. Com a obra poética “O Sono Extenso”, arrebatou o galardão pela segunda vez, após uma primeira vitória em 2007
O júri realçou a “força original, interpelante e perturbadora” dos seus versos, que fazem com que o leitor mergulhe “na surpresa de uma desvairada criação de existências vivas, intensas e de uma desconcertante atualidade”.
A poeta prefere salientar que este produto da sua insónia criadora pretende apresentar o seu lado “mais irreverente e mais subversivo”. Mais de acordo com a Sara de hoje, que acabou de completar 24 anos, e por contraponto à jovenzinha que começou a debitar a sua criatividade poética com apenas 16 anos. “Está muito ligado a uma afirmação daquilo que sou “, assume.
Em “O Sono Extenso”, interpela a juventude, que apelida de “geração muito peculiar” e considera “muito minada por uma certa cultura do consumismo”. Explora as incoerências do viver de hoje em dia, que, em especial, marcam os jovens, por lhes criarem expectativas “que, depois, não se cumprem”.
Os versos da obra premiada são um produto de dois anos de trabalho e falam da “insatisfação” e da “frustração” provocadas por um “mundo” de aparentes facilidades, no qual “a felicidade” parece ao alcance da mão, mas onde nos podemos perder. “Sinto que não temos valores, que não percebemos a diferença entre o bem e o mal, entre o que está certo e o que está errado”, sublinha Sara Costa.
Contrapõe ao “olhar mais cínico” deste livro o carácter “intimista” de “Uma Devastação Inteligente”, que, em 2007, também lhe permitiu triunfar no Prémio João da Silva Correia. Então, “explorava a adolescência, na descoberta de certas emoções e de certos sentidos”, recorda.
Fazendo a ponte, e apesar da evolução pessoal, que necessariamente levou a uma evolução poética, considera que quem conhece os seus livros anteriores, reconhecerá em “O Sono Extenso” os traços da poeta: “um certo estilo – a forma como uso as metáforas, as sinestesias e o lado imagético da poesia”.

Escrever é viver

Com a vitória, Sara Costa garante, também, a publicação da obra. Que, como salienta, é um dos motivos que torna “interessante” a participação em concursos e prémios literários.
Refira-se, contudo, que a sua forma de criar e de viver a poesia não implicam uma produção com data marcada, com o fim exclusivo de editar. “Tenho momentos em que tenho mais necessidade de escrever”, diz, assinalando que isso “tem um bocadinho a ver com o aspeto terapêutico da escrita e da arte em geral”.
Como aconteceu com o processo de criação do livro galardoado, regra geral, as ideias vão surgindo, assim como o desejo de as passar a poesia e ... a obra vai tomando forma.
Dos seus primórdios enquanto autora publicada, recorda com especial carinho os tempos em que pôde apresentar os seus poemas na página “DN Jovem” do Diário de Notícias, entre 2004 e 2006.
“Tenho pena que tenha acabado”, confessa, recordando que essa divulgação no periódico nacional lhe dava a sensação de ter “um feed-back permanente” com os leitores que, como acentua, “é muito bom para estimular a escrita”.
Sara Costa enfatiza que o DN Jovem tinha, também, o mérito de desmistificar alguns considerandos sobre a poesia, nomeadamente a que afirma que apenas “uma certa maturidade” a pode fazer nascer. “Acredito que depende mais da maturidade artística das pessoas ”, considera. Vinca que qualquer idade é boa para se passar sensibilidades e sentimentos.
Natural de Cucujães, tem, no entanto, uma vivência escolar, social e cultural muito ligada a S. João da Madeira. Formada em línguas e culturas orientais, orientou a sua vida profissional para o ensino. Diga-se, a propósito, que a sua estada na China, para aprender mandarim e também japonês, lhe insuflou experiências e influências que vão sendo expressas no seu trabalho poético.
E a sua veia artística tem tido deambulações por outras expressões, desde logo pela prosa, com abordagens ao conto, mas também pelo teatro.
Essencial é – e será sempre - criar e comunicar, sem que tenha de assumir a arte como meio de vida. “Mas quanto mais tempo tiver para me dedicar à poesia, melhor!”, declara.

Alberto O. Silva