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domingo, 16 de novembro de 2014

Nightcrawler / Repórter na Noite: provavelmente o melhor filme de 2014

Um sociopata é uma pessoa incapaz de sentir empatia. A empatia é o que nos permite identificarmo-nos emocionalmente com os outros, é o que nos faz ter sensibilidade emocional e é a base para nos relacionarmos socialmente. Clinicamente, os sociopatas são incapazes de dar respostas emocionais ajustadas às situações, por outro lado, são dotados de uma grande habilidade intelectual e, apesar de não serem capazes de dar repostas emocionais adequadas, a sua capacidade racional apetrecha-os de um dom muito próprio de mimetismo dos comportamentos humanos, o que os ajuda a misturarem-se sem serem identificados. 4% da população americana é sociopata, mais ou menos 12 milhões de pessoas. O que é que esta gente faz? Eu acho que muitos deles estão provavelmente à frente de cadeias televisivas e jornais de algibeira. Tendo em conta que o sociopata se conduz por instintos de megalomania e arrivismo extremo, é bem provável que muitos deles cheguem a lugares de chefia.

Quando acabei de ver o Nightcrawler a realidade à minha volta parecia distorcida, foi como se tivesse visto um filme de terror. Olhei para a mulher ao meu lado na casa de banho a lavar as mãos com alguma suspeita. Afinal, quem são os sociopatas desta sociedade que desfilam com impunidade perante todos nós? Mas este não é um terror de uma faca atrás de uma vítima, é um terror psicológico, cinematograficamente impecavelmente estilizado a transbordar humor e ainda assim refletindo uma realidade tão estupidamente próxima e familiar. O filme explora o ambiente suburbano de Los Angeles mas podia explorar qualquer outra grande cidade, podia ser sobre a Damaia ou os Olivais. É bastante negro e bastante gráfico. Críticos alegam que esta sátira ao lado macabro dos media não é novo, já foi feito, pois eu acho que precisávamos de mais um olhar sobre isso neste ano de 2014 e foi isso que este filme fez. Uma exposição do que de mais grotesco encontramos entre as pessoas que dirigem as imagens que nos chegam a casa todos os dias pelo pequeno ecrã, com interpretações brutais, um ambiente noir, estilo Drive, estilo Taxi Driver mas com um protagonista distinto, um Jake Gyllenhaal a transpirar carisma numa atuação brilhante.


Este é um filme de diálogos de culto que destrói a dialética do sucesso na nossa época: pega nela, espezinha-a e arrasta-a pelo chão a sangrar. De facto, não sei o que me perturbou mais: se o grafismo dos corpos assassinados ou a linguagem corporativa do Lou Bloom, ambas as coisas são macabras.  Entre uma fratura exposta ou alguém a dizer-me como me devo comportar em sociedade para atingir o sucesso, venha o diabo e escolha! 


Acho que o perfil do sociopata está extremamente bem definido na personagem principal, assim como na diretora de emissão (Rene Russo). Os diálogos deliciosamente escritos mergulhados em humor negro a cinematografia das perseguições, são alguns dos elementos que fazem deste filme provavelmente o melhor de 2014.

Para o ver numa sala de cinema, tive que me dirigir a um Cinema City, acho que devia estar melhor divulgado. Em Lisboa não terão certamente problemas em encontrá-lo, o mesmo não se pode dizer em relação ao resto do país. 

Acho que todos os defensores do empreendedorismo de cordel e dos ideais puros da ideia de “self-made men” possam sair deste filme a dizer:


“Who am I? I'm a hard worker. I set high goals and I've been told that I'm persistent.  Now I know that today's work culture no longer caters to the job loyalty that could be promised to earlier generations. But I believe that good things come to those who work their asses off and that good people who reach the top of the mountain, didn't just fall there.”


Lou Bloom 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Blue Jasmine


No mais recente filme de Woody Allen, produzido entre San Fracisco e New York, Allen recorre a uma temática típica da segmentação de classes, da forma como as pessoas vivem tentando perceber, em última instância, onde se encontra afinal a felicidade.
Muitos foram já os elogios à absolutamente fantástica performance de Cate Blanchett de comentadores que declararam esta obra senão uma das, a (inesperada) obra-prima de Allen.

Jasmine (Blanchett) é aqui um anjo caído da socialite e a vida gira em torno da comparação entre a 'gifted' elegante loira com um gosto requintado e Ginger (Sally Hawkins) que prefere um homem sexy ao homem rico e vive ao seu ritmo, sem particulares ambições, a trabalhar na caixa de um supermercado e sem perspetivas de grandes mudanças - nem em homens nem em carreira.

O filme enfatiza o fim pseudo-trágico ou no mínimo humilhante da protagonista. Caída numa tremenda depressão devido ao facto do seu ex-marido (Alec Baldwin) não só ser permanentemente infiel mas ter cometido grandes lavagens de dinheiro com as suas construções de resorts um pouco por todo o mundo.
Os conflitos de Jasmine com o parceiro da irmã adotada, Chili (Bobby Cannavale) demonstram um permanente conflito entre estereótipos, sem uma réstia de empatia de parte a parte. Ginger fica ali no meio dos dois, cada um a puxar para o seu lado e ambos a precisarem dela naquele momento.

A narrativa chega a uma altura que se desenrola em semi-círculo. Jasmine acredita que nasceu para ser diva e percorre esse sonho, Ginger sempre se conformou com o que fosse que a vida lhe trouxesse. Quando Jasmine encontra um novo candidato a marido rico com futuro na política local a precisar de uma mulher-troféu para as ocasiões sociais, há qualquer coisa nas mentiras de Jasmine que parece fazer sentido. Ginger decide aventurar-se em alguma coisa diferente, em vez de sexy, que tenha algum dinheiro (ator conhecido devido ao exito de humor Lucky Louie). Mas o homem em quem criara certas expectativas não estava propriamente na mesma linha de pensamento, enquanto Ginger procurava estabilidade, a ideia dele era a de pura diversão.

A certa altura começamos a acreditar que as duas vão acabar como lhes era pré-destinado, uma com os bons germes outra com o maus. A certa altura a narrativa em círculo faz um oito. Será que é realmente a atitude que conta? Quando Jasmine parece voltar a reviver o sonho de socialite frívola mas com todos os privilégios do dinheiro, somos levados a crer que algo se passa. Mas Allen foi sádico com esta personagem. Nos filmes de WA a classe média-alta é sempre abordada de uma maneira ou outra, por vezes com mensagens mais ténues do que noutras. Aqui, a personagem de Blanchett, depressiva, neurótica e incapaz de encarar um mundo em que ela não é superior aos outros torna-se quase uma vingança. Quantas mulheres conhece o realizador de cinema que "subiram" na vida à custa da frivolidade da sua atitude e da complacência com a corrupção do universo das grandes fortunas?  Há necessidade de humilhar esta personagens chega a um cume devastador até para quem está a ver. Os conflitos permanentes da Jamsmine com o Chili que a enfrenta sem piedade levam a pensar que mesmo esse homem, sem dinheiro ou a melhor educação, mesmo um homem que a ela só poderia causar repugnância, é no fundo, melhor do que qualquer coisa que ela pudesse vir a ter.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Django Unchained





Tarantino’s Django Unchained takes the shape of western spaghetti and adds to it a bit of a racial struggle during the year of 1858, just two years before the American Civil War. For me, the movie was all about something that Tarantino is just perfect at: the creation of tension and the always good mise-en-scène that makes us fly through cinema itself being attached to an old-style kind of movies with which Tarantino is familiar with – he tries to bring pop and mainstream references of other decades into something more deep and modern artistic. 

 Something about Tarantino is that for me he represents a new generation of movie fans, the ones that are affectionate to it in a different perspective from the other ones, more alternative, who would rather go to a cult session watch some old Fellini’s movie.I think that Tarantino does that because he wants to keep the distance between art and reality and that leads me to the next point of discussion.Although, Django Unchained is a representation of racial struggle in the South of USA in 1858, where slavery was still running as a normal thing, I would like to detached my perception of the critic historical episode that seemed to me as something that the director really wanted to show.  


I say this because I know that a lot of people reacted to this movie either because they were white Americans or because they were Afro-Americans – I must admit that I find it interesting how  Christoph Waltz’s character performs. Is the wise foreigner from Germany – good one to conciliate the fans from the Inglorious Bastard’s approach to Germany. But what I mean is that for me this was an episode contextualized and I don’t identify myself with any characters. I also believe that Tarantino was sensitive about the subject – as we know that America is sensitive about this black-white relation subject. In the past movies I saw girls getting bloody revenges (Kill Bill, Death Proof) or simply Nazis being insane, mafia serial killers, etc. This time, the historical approach is quite accurate in a lot of details and by that I don't mean the use of sunglasses but merely the historical contextualization of the previous civil war period. 

Personally, I found this movie a lot of fun to watch, I loved how it played with the sound-track (I even recognized a song that was in Battle Royale) and I find the violence scenes very well conducted and balanced. I like the bloody style. It's not realistic, it's not suppose to be for him, that's how he distances reality from cinema. It's also his mark and it's what makes a lot of people hate him. I suppose we need to understand the spectacular part of the bloodbath as a cinema show. We know that people don't have such exaggerated blood squirt or as in one of the last scenes when the sister is projected into another room with a shot gun, it's like, what?! But still...

I liked the message, even if I usually don’t approve in realistic terms the will of revenge that is always in Tarantino’s work, but we know that this revenge works in a classical way of relieve that is really well done in this movie. I love the humour. Django’s character is a lot of fun, the love story, the good German the evil black butler – the good and the evil in human’s heart despite the color of the skin. Basically, a very good Tarantino’s. I missed you very much! Please come back again soon! 



Here the original inspiration:

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Os homens que odeiam as mulheres / The Girl with the Dragon Tattoo

Tentar conjugar numa só obra um policial com jornalismo de denúncia mais questões de género mais reflexões sobre o estado de bem-estar social dos sistemas nórdicos pode parecer extremamente ambicioso e, ainda assim, soa incrivelmente bem! Soa bem sobretudo porque misturado a isto tudo temos a fabulosa paisagem de um país que é conhecido no estrangeiro por pouco mais de que mobiliário estético fácil de montar e barato (o que já é bastante, quando pensamos nisso!).
E isto é aquilo que faz com que esta saga seja também uma forma de valorização cultural nacional. Sim, porque a arte valoriza um país.

Vou tentar escrever este excerto como se estivesse a tomar uma cerveja e a gesticular numa manifestação de energia juvenil e espírito sonhador: temos uma história brutal sobre um assassinato e essa história decorre na Suécia e a Suécia é super awesome e tem paisagens fixes no Inverno e na Primavera e tem personagens super carismáticas e há grandes empresas que fazem grandes golpes financeiros e jornalistas de grande ética que procuram desenfreadamente a denúncia. Há hackers punks que punem os criminosos pelos seus próprios meios e há toda uma reflexão sobre política, sociedade, organização e caos e isto constitui um conjunto de elementos para algo de extraordinário. Imagine-se um português a escrever uma coisa assim!

Agora, ao escrever este artigo, de que é que posso falar? Dois filmes e um livro. Se toda a densidade da trama e os vários aspetos em foco não forem suficientes, temos ainda que lidar com dicotomias no que diz respeito à perspetiva de Stieg Larsson como basilar e às perspetivas do sueco Niels Arden Oplev e do americano David Fincher.
De facto, é difícil compreender o porquê dos remakes. Isso porque muitas vezes sentimos que o remake hollywoodesco está lá porque houve uma necessidade de adaptação cultural que o público americano tem dificuldade em encarar e isto, de um ponto de vista europeu, soa bastante estúpido. Durante algum tempo pensei que Fincher tinha optado pela adaptação a cinema da saga Millenium porque ela fazia parte de uma agenda mas depois de ver o filme condeno-me por ter alguma vez questionado a consciência da escolha do Fincher.
Na realidade, o tema atrai-o e a perspetiva que ele adota no filme, sob o ponto de vista da Lisbeth, é uma demonstração do envolvimento dele com a obra. Não só a quis apresentar como a quis interpretar. O filme sueco careceu não só de orçamento ou cultura cinematográfica mas também de visão e isso, na minha perspetiva, é o que não falta em Fincher.

A estrutura clássica do policial concentra e converte a maior parte das pessoas. Claro que o espírito detetive do público consegue mais concentração quando as pistas são dadas no formato de livro e daí elas existirem lá em mais abundância, contudo, penso que o Fincher conseguiu abreviar a estrutura de forma a ela ser percetível pelo público. Esta parte convence a maior parte da audiência. Depois há o resto que se apercebe que o filme não é sobre o caso de uma rapariga desaparecida, não de forma tão linear. O grande magnata empresarial conduz Mikael a um embuste quando não tem o que lhe tinha prometido ter para lhe dar e, para além do mais, atenta contra a sua liberdade e aos seus valores ligados à transparência: pede a Mikael que não revele o sadismo de Martin. Este é um aspecto que me parece relevante para o autor.

Vou voltar à questão do ponto de vista, adaptar aquele livro para cinema requeria o eleger das peças que queremos enfatizar e dos temas que queremos realmente explorar. Fincher envereda e diria até que se arrisca bastante quando elege o ponto de vista de Lisbeth. Isso porque opta por explorar em grande parte a problemática do género. Quem me conhece neste ponto deve achar que fico toda contente! O que não é bem verdade. Isto é, fico contente que ele tenha feito opções mas não vejo na saga Millenium a questão do género como a melhor. Claro que o filme é sobre homens que odeiam as mulheres e o desfecho do caso se relaciona com uma hierarquia de misóginos mas há na personagem de Lisbeth um ícone no qual não me revejo porque não a considero completamente feminista.

Aqui, as formas de atribuir poder à mulher são formas essencialmente… masculinas. Isto revela-se em alguma força física fora do comum que Lisbeth possui – a mota, a agilidade corporal, etc. Revela-se ainda mais na perspetiva de Fincher sobre o que é o poder feminino no ato sexual – a forma como Lisbeth utiliza o Mikael procurando apenas o seu próprio prazer ou até o facto de ela surgir inicialmente como lésbica.
Isto para explicar a minha não identificação total com o questionamento do género que foi um tom ligeiramente adotado por Fincher – daí o ênfase numa cena brutal de violação com o devido alívio posterior, o da vingança. A senhora ao meu lado só se ria quando a Lisbeth dizia que ela era louca e torturava o seu violador. Parece que o sadismo é coisa vulgar. Eu não consigo deixar de lado o tom perturbador desta escolha. Mas esse é o meu problema em aceitar uma mera destruição do sistema.

Que ela era louca! É aqui que Fincher ganha muitos pontos em relação ao seu colega sueco. Fincher criou diálogos, apanhou-lhes a essência e encurtou-os. Ainda assim é um filme longo mas imagine-se se quiséssemos transpor as palavras de Larsson como realmente eram. Teve uma resolução criativa para muitos dos problemas – quem é que não adorou o wink wink quando no fim nos trocam a Anita pela Harriet?
Fincher tentou surpreender os mais bem-entendidos no assunto porque ele sabe que os há e optou por esta forma de recriação.

Na minha perspetiva, o caso de investigação torna-se secundário e o facto de Mikael ser um jornalista com ética que procura simplesmente a transparência, sem simpatias ideológicas particulares, que a certo ponto cria empatia pelo Henrik Vanger é um dado bastante importante e mal explicado no filme. Mas, mais uma vez, isto dá-se porque o realizador teve que se debruçar mais sobre Lisbeth e menos sobre Mikael.

É interessante como a personagem de Mikael sempre foi aquela que me cativou mais ao longo da saga.
 A parte introdutória no livro em que se percebe que não é propriamente um homem seduzido pelos grandes patrões nem um sonhador idealista nem um intelectual misógino. É simplesmente ele, respondendo de forma cartesiana aos desafios, sendo metodológico dentro daquilo que considera capaz de ordenar. Evitando frustrações desnecessárias mas não indo contra os seus desejos – livro posteriores da saga exploram mais este aspaço. Mikael é um homem moderno face a problemas também eles de género e é este reverso da medalha que o torna uma personagem tão bem conseguida. Lamento que no filme ele não tenha oportunidade de se expor mais enquanto ser inteligente e interessante que é porque há demasiado a necessidade de ser atraente para Lisbeth para que esta atravesse um processo de maturação que culmina num desgosto.

Para sintetizar a minha apreciação, sou claramente fã da saga Millenium e queria um filme que fizesse jus ao livro, que conseguisse pôr em imagens grande parte dos momentos intensos do livro e o filme sueco foi uma grande desilusão mas, à parte de uma perspetiva inevitável do realizador, Fincher tem um trabalho conseguido. Já há algum tempo que a grande tela não trazia verdadeiros momentos de desconforto e neste filme eles surgem em todo o seu esplendor, num contexto controlado como devem surgir mas, acima de tudo, num contexto extremamente artístico.
Aquela reminiscência de Reservoir Dogs na cena de tortura do Martin é simplesmente deliciosa.
Conseguiu manter o hype elevadíssimo que o famoso trailer lhe criou, captou uma das várias mensagens do livro e transmitiu-a. O elenco está mais que conseguido. Siga para o próximo!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Cinema, Sherlock Holmes 2, The Girl with the Dragon Tattoo



2012! Yey! Será que este ano vai fazer com que eu volte a frequentar salas comuns de cinema? Depois de êxitos como o The Hangover parte dois a ter uma adesão massiva por parte das pessoas demonstrando uma profunda decadência dos padrões do consumidor de cinema ou coisas como New Year’s Eve, a única conclusão a tirar era a de que, definitivamente, é preferível ler livros!

Mas sou uma pessoa de fé e sou uma pessoa com um fetiche particular pelo Robert Donwey Jr., o que me fez ir ver a sequela do Sherlock Holmes de Guy Ritchie. Embora sob pré-aviso de que nada da profunda capacidade dedutiva e inteligência do mítico detetive de Conan Doyle iria estar presente mas a fotografia, o elenco, o enquadramento temporal e o facto de ter apreciado o primeiro são motivos suficientes para pagar bilhete já com acréscimo do IVA para 13% e um ecrã nem digital nem numérico na Castello Lopes. Ser aceitável é de facto o limite para que um filme me entretenha sem me irritar ou entediar e pensei que provavelmente a sequela aperfeiçoaria aspetos que no primeiro não foram bem conseguidos.

Contudo, Sherlock Holmes 2 desaponta em praticamente tudo. O Downey Jr. começa o filme a lutar kung-fu e acaba-o disfarçado com o padrão de um sofá, dados algo explicativos do desinteresse do filme. E que o filme toma liberdades em relação à figura do detetive é realmente o mínimo mas no fim do século XIX ainda não se praticava kung-fu em Londres, lamento. É um filme cheio de lacunas e coisas largadas simplesmente ao absurdo em termos de coerência interna da história. 
Depois de dois séculos de policiais qual é a necessidade de fazer uma estrutura de suspense tão fraca, tão incoerente e tão pouco envolvente? Nenhum dos atores conseguiu criar carisma nos seus personagens apesar do tremendo esforço. 

Gostei de ver o trailer do Millenium do David Fincher apesar de questionar a capacidade de colocar em cinema um livro como este, isto porque me questiono se é possível reduzir o interesse da saga Millenium a uma história central principal quando esta se compõe de interesses de detalhe, presente nos livros. Aliás, o trailer do filme, só com a banda sonora e sem diálogo é como se nos fosse contar uma coisa que já conhecemos mas que só queremos ver um pouco mais glorificada de alguma maneira. Fica assim lançado o mote para um 2012 com melhor cinema, mais RDJ e Jude Law – as cenas homoeróticas estavam muito bem - mas mais dinheiro gasto em criatividade e menos em efeitos especiais, por favor! Senão vou ter que condenar o cinema a fãs de Hangover e New Year’s Eve, coisas que apenas me fazem perder a fé na humanidade.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Midnight in Paris / Meia noite em Paris


Este filme encara de frente algo que tem vindo a ser visível em Woody Allen, a noção de nostalgia como “ denial of the painful present”. Owen Wilson foi uma escolha pouco previsível e na realidade quando não temos o Woody Allen nos papéis relevantes, como os de um escritor a questionar a atual direção da sua vida, temos um jovem a falar e a gesticular como WA e é como ver a mente de WA no corpo de outra pessoa, mas enfim, é uma técnica de direção de atores – fazendo com que convirjam para um só, ao longo da cinematografia do realizador. Quanto menos carater próprio tiver o ator, mais isto se nota. Mas os filmes do WA dão-me sempre a sensação de laboratórios de ideias e é isso que os torna sempre peculiares e apaixonantes – ou é só a minha perspetiva lunática de estimação? Seja como for, este filme pega num tema que de tão evidentemente bom, nunca tinha sido tocado: o gossip literário americano dos anos 20. Numa época em que sair à noite e embebedar-se se encontra vulgarizado por uma cultura r&b acéfala emoldurada por luxo bacoco, frivolidade e leviandade sexual, alguém se pergunta o que aconteceu à cultura boémia literária, às conversas intelectuais de café, à inspiração noctívaga? Pois bem, perguntemos às pessoas desse tempo. Recuemos à época de paixão do casal Fitzgerald e aos seus conflitos com Hemingway, ao Dali e ao Picasso ou recuemos antes a Faulkner e a Gauguin? Pronto, esta é basicamente a conclusão do filme, de que a sensação de nostalgia é só uma forma de abstração da realidade, não divergindo propriamente da mera criação de um universo alternativo, tal como os surrealistas o designavam. 
Eu acho interessante porque a nossa música também é toda revivalista oitentista e a nossa moda possui um futuro que era o futuro de antigamente. Acho que houve períodos mais otimistas mas não é o caso do nosso, já que a nostalgia de algo que não se viveu nunca esteve tão presente. Não é de admirar já que nos parecemos aproximar de um colapso a todos os níveis – ambiental, económico, político. WA escolheu corporizar personalidades de uma américa intelectual que pouca tradição literária teve antes disso. Os episódios pessoais acabaram por ser poucos, as peripécias entre o casal Fitzgerald davam para mais uma dúzia de filmes (é o que dá juntar dois escritores, Ted Hughes e Sylvia Plath deviam ter aprendido a lição), mas sou uma grande admiradora da Zelda Fitzgerald, apesar do marido se ter tornado mais conhecido e apesar da loucura patológica posteriormente diagnosticada. Na realidade, ela nunca se conseguiu libertar dos demónios interiores que lhe levaram a perder o rumo na busca do seu próprio lugar no universo artístico. Mas ela já na altura arranjava conflitos feministas com o Hemingway, quando ainda parece tabu dizer que Hemingway tem laivos de misoginia na sua obra. São os tabus dos génios literários, sempre inquestionáveis. Mas esse aspeto ficou mais ou menos demarcado no filme, o que apreciei – embora WA tenha insinuado que Hemingway tinha no fundo um fraquinho por ela? Típico de intelectuais misóginos sentirem-se atraídos pelas mulheres de personalidade forte, deve lembrar-lhes os conflitos internos que tiveram com as próprias mães, ou algo do género, não sei, não sou Freud – ainda que possa escrever alguma coisa sobre o tema. As perspetivas de Hemingway sobre a competitividade inerente ao artista (ao escritor em particular) foram também referidas no filme, embora não tenha ido muito longe nesta abordagem algo evidente da biografia de Hemingway - que de resto, era competitivo em tudo. Fica no ar se WA conseguiu a autorização para filmar em Paris por ter dado uns minutos de fama à mulher do Presidente – são raríssimas as autorizações de filmagens em Paris hoje em dia. Se é uma obra de arte, não sei, não senti a mensagem particularmente penetrante mas, como comecei este texto, considero estes filmes laboratórios de ideias e aprecio sempre filmes em que as personagens estão dentro de museus a falar de Monet ou Rodin com toda a propriedade e pedantismo, incorporando uma boa dose de requinte clássico. E é isso que ser quer, certo? Requinte clássico, como antigamente, como numa época que não é esta.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

domingo, 2 de janeiro de 2011

The Social Network



Apesar dos vários ingredientes positivos que se anteviam eu adiei a visualização deste filme, perdendo a oportunidade de o ver no cinema. Posso dizer que é algo de que me arrependo profundamente, mas agora não há volta a dar, a não ser que eu alugue uma sala só para mim e o projecte, o que até não era má ideia (não levava com o barulho das pessoas a comerem pipocas, já repararam que a maioria dos portugueses vão ao cinema essencialmente para comer pipocas?! como se o filme fosse um extra que vem com as pipocas). Seja como for, o que me levou a pensar assim foram os trailers que por algum motivo davam uma sensação de pretensão que foi nitidamente feita para atrair o grande público, já que o filme também fala de um fenómeno do grande público – e daí a minha desconfiança. No entanto, deveria acreditar mais no trabalho de David Fincher, pois realizou alguns dos meus filmes favoritos (Fight Club, Zodiac).

Parecia um filme sobre um fenómeno de massas virado para atrair a atenção dos miúdos novos dando a entender que basta ter uma ideia brilhante para se ter tudo na vida. Felizmente o filme é bem mais complexo e maturo do que isso, abordando precisamente a faceta altamente imatura deste tipo de ideias. Inicialmente confronta-nos, de facto, com uma tremenda presunção associada à noção de facebook, como a última tendência mundial genial, que eu nunca achei muito legítima, porque, como tudo, é uma questão que também está relacionada com tendências e marketing e a fase de aparecimento do facebook é uma fase em que tudo o que se relaciona com as redes sociais se está a desenvolver: a tentativa de transpor para a internet a experiência social da escola não é uma noção nova, por esta altura. Para além disso, acredito que as redes sociais não se resumem a algo tão linear. Apesar de possuírem bastante essa componente adolescente da descoberta do social, as plataformas de comunicação online, independentemente de serem redes sociais, têm a dimensão das pessoas que as utilizam desde que as possibilidades sejam infinitas.

Claro que se eu só tenho pessoas desinteressantes como amigos, a minha experiência com esta plataforma vai ser muito menos interessante, do que se acontecer ter amigos com bastante para dizer ao mundo (o que, felizmente, é o caso!). No fundo, é tudo uma questão de conteúdo e isso parece-me sempre positivo. No filme, é interessante a referência ao Livejournal, porque parece-me que o livejournal foi uma das ideias mais próximas da experiência facebook uma vez que apesar do formato de blog tinha também a componente restritiva que caracteriza o facebook. A ideia de que Mark Zuckerberg é um adolescente associal que cria um projecto para fomentar a sociabilidade pode não parecer novo, da mesma maneira de que é a rejeição de uma rapariga que o torna desequilibrado na sua procura por notoriedade. Podiam ser ideias tratadas como meros clichés, mas o final do filme consegue captar-lhes bem a essência e inegável veracidade. Da mesma maneira que Fincher tem uma visão bastante putrefacta desta geração do consumo, completamente frívola.

Numa sociedade em que as leis do marketing funcionam como ditadores de uma filosofia de vida, em que parece tão idílico nunca assumir um compromisso definitivo com nada, porque a disponibilidade é um campo de movimentação da ilusão e da economia. Para uma geração à qual não é possível dar um lugar estável na sociedade nem no mundo, a aparência dos prazeres momentâneos parece tão apelativa, quando na realidade é tão falsa e tão medíocre como a personagem do Timberlake. Sinceramente, conheço demasiadas pessoas a quem esta frase assentaria como uma luva You're not an assholeyou just try so hard to be one”.

O filme consegue ser bastante confuso no seu decorrer, com tantas prolepses e analepses e a personagem do Mark parece-me algo caricatural. No entanto, é uma reflexão sobre uma geração e tem uma mensagem bastante conseguida. Um excelente filme deste 2010 que me pareceu um ano algo infrutífero para o cinema.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

This is England


Ontem tive a feliz casualidade de ver este filme na cinemateca e é bom ter a sensação de se descobrir uma grande obra-prima. O filme consegue impregnar-se em nós e dar-nos a conhecer o surgimento de um movimento que inicialmente não assimilamos completamente a não ser, claro, pelas referências e localizações históricas e temporais. O que acontece é que não assimilamos automaticamente a que movimento é que se refere porque o filme transporta-nos para dentro de si de uma maneira que nos faz sentir uma empatia pelas personagens que chega a ser perturbadora. Claro que grande parte desse contributo se deve aos diálogos e às fabulosas interpretações mas também a momentos de génio nos quais o filme consegue ser subversivo no sentido mais inteligente da palavra. A história decorre em Julho de 1983 e tem como protagonista um miúdo de 12 anos que atravessa uma fase complicada da sua vida, tendo recentemente perdido o pai na Guerra das Malvinas. Este pequeno rapaz de personalidade bastante acentuada e numa posição emocionalmente frágil acaba por se integrar num grupo de jovens com estilos de vida alternativos reivindicadores de uma subcultura em formação: os skinheads. As interpretações são extraordinárias e a forma como esta subcultura é apresentada faz-nos perceber que a sua génese era uma génese ligada à estética, não muito diferente de um qualquer movimento punk. Camisas com suspensórios e botas Dr Martens. A sua evolução, contudo, metamorfoseou-se em todos os valores ultra-nacionalistas que lhe são conhecidos. Esta mistura característica dos skinheads em Inglaterra - uma mistura de bullys com hooligans com xenófobos – desenvolve-se numa segunda fase do movimento, quando este deixa de ser apolítico como era inicialmente. É uma reflexão interessante mas não se fica por aí. O filme desenvolve-se de uma forma leve e ligeira, quase simpática até que gradualmente, a partir de metade do filme, começa a revelar a sua componente mais negra quando começam a surgir os sinais da evolução do movimento até concluir num final trágico que nos dá a compreender toda a dimensão dos problemas do racismo: este fundamenta-se na dor e na inveja que aqueles que sofrem sentem. É precisamente toda esta dimensão psicológica que o filme transcende, cheio de complexidade e dimensão nas suas posições que o torna genial. Algo que questiona os limites de uma identidade nacional e que dá uma lição tão dura quanto carinhosa ao seu próprio país.  

sábado, 23 de outubro de 2010

O Crime de Aldeia Velha

“O crime de Aldeia Velha” é uma peça de teatro de Bernardo Santareno, hoje um nome pouco sonante fora  do meio teatral, mas um importante dramaturgo português no séc. XX. A maioria das suas peças levadas a cabo sob ditadura foram censuradas. Uma das mais famosas será eventualmente A Promessa, representada pela primeira vez a 23 de Novembro de 1957 no Teatro Sá da Bandeira, no Porto e reposta a 11 de Maio de 1967 no Teatro Monumental de Lisboa. Uma obra que segue a tendência de outros autores cuja corrente artística neo-realista era fortemente apoiada por ideais políticos de esquerda, tais como Frederico Garcia Lorca ou Manuel da Fonseca. A Promessa é uma obra também relacionada com a experiência do autor no meio piscatório. A peça foi adaptada a cinema por António de Macedo em 1973.

Antes desta adaptação, contudo, já tinha sido feita outra adaptação a cinema de uma das suas peças. Em 1964 Manuel Guimarães fazia a adaptação de “O Crime de Aldeia Velha” para o grande ecrã. Nesta obra, tal como em “A Promessa” o paganismo mesclado com cultura religiosa surge como temática central e as personagens, assim como os seus actos são analisados à luz destes preceitos. É possível estabelecer uma correlação entre as suas peças e a tragédia clássica, na sua forma de reinventar episódios mitológicos analisados à luz de motivações psicológicas e sociais.
Se em “A promessa”, os santos eram encarados como deuses pagãos relacionados com a mitologia marítima, já em “O crime de Aldeia Velha” a correlação mitológica é mais complexa e centra-se não na protecção ou salvação mas na expurgação do mal.




O ponto de partida para a sinopse baseia-se na personagem da Joana interpretada pela belíssima Bárbara Laage. Joana é uma jovem atraente residente numa aldeia do interior e a sua sensualidade estimula desejos e invejas. Destes desejos e destas invejas dão-se consequências maiores, o que leva grande parte da aldeia a acreditar que Joana é, no fundo, uma feiticeira possuída pela Coisa Ruim, o Belzebu, o Senhor das Trevas ou, mais corriqueiramente, pelo Diabo. Apesar de aparentemente se basear numa personagem tipo representante da mulher fatal que despoleta a inveja e a competição de pretendentes, a personagem de Joana é, ainda assim, mais complexa do que isto.

Apesar de constantemente perturbada pelos seus pretendentes, Joana dá uma atenção particular a Rui que, tal como ela, também tem uma popularidade privilegiada. O que acontece é que ela se deixa envolver de forma pouco inocente em esquemas de manipulação psicológica e sentimental que acabam por levar à tragédia da aldeia, quando os seus dois pretendentes se debatem numa esgrima de machados até à morte. Devo dizer que para um filme português dos anos 60 que decorre numa aldeia no interior, é uma luta de machados com uma qualidade fenomenal, qual Huen Chiu Ku de Marco de Canaveses. Entretanto surge um novo padre que é um jovenzinho (é o pior actor do filme) e que, como jovem moço que era, não conseguiu ficar indiferente aos esmerados atributos da Joana e também ele fica apanhadinho. Isto não agrada nada às beatas velhinhas que sempre acharam que aquela Joana tinha o estatuto de feiticeira-mor cujo poder advinha de um pacto com o Demo, suspeita realçada quando a Joana põe o senhor abade todo maluco.
Neste vídeo do youtube com a abertura do filme é possível ver as senhoras da aldeia naquela que é a tentativa de exorcizar um jovem rapaz "enfeitiçado" pela Joana. O futuro dele acaba, contudo, por não ser muito perceptível.
Outro factor que atiça o clima de desconfiança da população está relacionado com um bebé que fora deixado aos cuidados de Joana e que, passado algumas horas de contacto com a jovem, padece de uma febre fatal.

Para concluir o resumo da história, a Joana é condenada pela justiça popular à exorcização pela fogueira.

Esta história é baseada num caso real sobre o linchamento pelo fogo de uma rapariga supostamente possuída pelo demónio, ocorrido durante os anos 30 em Marco de Canaveses. Apesar da linha neo-realista da obra original e da própria realização, o filme ganha todo o seu charme nos momentos fantasmagóricos, com visões de feiticeiras nuas em cima de cavalos e cadáveres pendurados em árvores. A banda sonora também está muito bem. A história original em si leva-nos à dúvida e ao questionamento do papel da Joana. Embora seja facilmente perceptível a dura crítica à mentalidade hipocritamente religiosa e intrinsecamente pagã das aldeias, a personagem da Joana não é absolutamente óbvia na sua inocência. Em livro, teatro ou cinema, uma obra sobre os limites da clarividência (ou falta dela) das devoções. E um obrigada à RTP Memória! 


terça-feira, 6 de julho de 2010

Confucius

Fazer um filme sobre a biografia de Confúcio pareceria algo pertinente e interessante. Confúcio era um filósofo ou, talvez numa definição mais precisa, um homem que deixou um legado de pensamentos relativos a uma ideologia de organização social nunca antes visto na história. O pensamento confucionista teve repercussões naquilo a que se veio a estabelecer, numa vertente mais política, como legalismo durante a dinastia Qin e teve também influência na percepção da ideologia taoista - na medida em que procurou estabelecer um pensamento mais consciente e moral nas noções de conformismo que o taoismo defendia. Não me vou alongar muito nisto!! Confúcio deixou muitos tomos escritos relativos a muitos aspectos diversos, alguns deles mais sociais e políticos e outros mais espirituais, mas acima de tudo foi um defensor do humanismo. O problema deste filme? Um Chow Yun-Fat numa das suas representações mais forçadas a par de um ideal militarista e estratega associado a Confúcio que simplesmente não se percebe! É também um filme que surge na sucessão do Avatar e que cria polémica porque pretende tirar a popularidade ao mundo dos navis. Então parece que fazer um filme que exprimisse ideais filosóficos não poderia bater um blockbuster americano, portanto, bora lá pôr o Confúcio aí a comandar umas tropas! Ora bem, não me parece que resulte! Sinceramente, se a ideia era esta, escolheram a personalidade histórica errada. Porque é que não pegaram na Arte da Guerra de Sun Zi? Isto sim, daria tanto para o lado militar como para a compreensão daquilo que eram os ideais de guerra aplicados a mercados económicos ou até a relações de liderança tanto na vida profissional como privada. E para além de porem o filósofo a comandar tropas, ainda  têm sempre que acentuar o lado falsamente ostentativo de todos os elementos decorativos do século V a.c. - porque eles na realidade não eram assim tão ostentativos como parece - e há demasiada gente a ajoelhar-se em frente a governantes e chefes militares durante o filme, demasiada gente a ajoelhar-se! Enfim, é pena que o guarda-roupa e os elementos cénicos soem tanto a propaganda estética (ao estilo Red Cliff) em detrimento de uma tentativa real de perspectivar emotivamente a histórica (como em Nanjing Nanjing). Contudo, estou optimista em relação ao facto de que a falta de popularidade do filme possa ter influencia nas futuras produções chinesas da hengdian! 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Lady Terminator

As The Cinema Snob discovers, Indonesia has found a way to combine the South Sea Queen with...James Cameron's "The Terminator"?

domingo, 10 de janeiro de 2010

Senhor Woody Allen

Eu disse que ia fazer uma análise cinematográfica não doentia! E aqui está ela. :)
Decidi escrever sobre o artista das duplicidades. A negra decadência tornada em sedutora comédia. A vida urbana em todo o seu esplendor e declínio como uma coisa só. A liberdade do desejo versus a limitação da moral. O elitismo sofisticado ou o diletantismo absurdo. Pessoas que se zangam a sério porque não se entendem com o enquadramento dos filmes de Bergman ou da obra de Beckett. Burgueses intelectuais, abarcando os dois tipos de elitismo sempre com uma perspectiva irónica bem patente - como em Small Time Crooks (2000).



Porque afinal o amor é como um terreno movediço e a infidelidade como uma sincera manifestação do ser e esses são os maiores dramas do mundo… Ou não? Que ele se tenha casado com a própria filha adoptiva, bom, afinal Nabokov não escreveu “Lolita” baseado no nada e cada um que corporize as suas repressões psicológicas como quiser (ou como a lei permitir?). Bom, não interessa! Eu pensei em fazer um top10 Woody Allen porque um top é uma forma de organizar ideias mas depois pensei que também era uma forma de reduzir ideias e torná-las sensacionalistas… portanto, a velha e boa redacção será a solução.




Penso que a filmografia do realizador tem muitas oscilações, poderosa comédia inteligente, genialidades no seu sentido pleno e até muitas banalidades e é normal oscilar-se quando já se produziu quase meia centena de filmes. O que é também curioso é que apesar da abundância de produção, as temáticas são sempre recorrentes de uma forma particularmente homogénea, definindo muito bem o campo das contribuições que ele tem para dar. As relações humanas e sentimentais é background infalível, o que muda ligeiramente são as abordagens. O formato pode, contudo, mudar pontualmente, estou a recordar-me, por exemplo, do hilariante e genial Zelig (1983) no formato de documentário fictício onde a ênfase na sátira histórica e política é mais apurada. Um género mais ou menos semelhante foi seguido em Sweet and Lowdown (1999) o filme independente que conta a história de um guitarrista chamado Emmet Ray interpretado por Sean Penn.Ou o músical Everyone says I love you (1996).
Ao ver a produção mais antiga e que todos os especialistas consideram mais “característica” do realizador apercebi-me que muito para além do aspecto cómico/absurdo das conexões humanas, uma coisa que realmente fica bem nos filmes do Woody Allen é explorado mais tardiamente, refiro-me ao factor grave e especificamente trágico. É por isso que não consigo desprender-me do meu amor infinito pelo Match Point (2005) e pelo Cassandra’s Dream (2007). Não são filmes “típicos” apenas porque não se resumem ao Woody Allen actor a interagir e a narrar, porque são filmes em que ele nem sequer entra e onde as personagens são mais jovens. Para mim, são o meu Top2.





São filmes onde a catarse é brutal. Eu acho que sempre que lemos análises à obra de Woody Allen os filmes mencionados são sempre os dos anos 70 e 80 mas isso é porque eu acho que essas análises são escritas por pessoas mais velhas do que eu, que conheceram Woody Allen nessa altura e isso deixou um impacto tal a ponto de não se conseguirem desprender dessas impressões mais iniciais para apreciar a obra mais recente. Mas para mim as suas obras-primas são filmes recentes.

Para além dos dois que já mencionei, o Vicky Cristina Barcelona (2008) e Anything Else (2003) são fabulosas intercepções de desejos, repressões e ímpetos num lirismo realista e natural. Isto não significa que eu não reconheço a genialidade dos clássicos.



Que melhor introdução ao espírito citadino algum realizador conseguirá de maneira tão graciosa transmitir como na abertura de Manhattan (1979) e quem não gostaria que as coisas fossem como no Annie Hall (1977) com o Marshall McLhuan a dar uma lição àquele pedante chato? (ou será que meter o Mashall McLhuan ao barulho é que é pedante?) Apesar de tudo há filmes recentes que também não trouxeram nada de novo, como o Scoop ou o mais recente filme Whatever Works (2009). São aqueles filmes apenas ligeiramente engraçados. E enfim, muito mais há a dizer sobre a sua obra, é uma análise interessante de se fazer  de forma até académica. Concluo deixando as minhas favorite quotes do realizador/escritor/actor/saxofonista:



  • Eternal nothingness is fine if you happen to be dressed for it.

  • I don't want to achieve immortality through my work; I want to achieve immortality through not dying.

  • In Beverly Hills...they don't throw their garbage away. They make it into television shows.

  • I can't listen to that much Wagner. I start getting the urge to conquer Poland.

  • Tradition is the illusion of permanance.

  • I took a speed reading course and read 'War and Peace' in twenty minutes. It involves Russia.

  • If only God would give me some clear sign! Like making a large deposit in my name in a Swiss bank.

  • It seemed the world was divided into good and bad people. The good ones slept better... while the bad ones seemed to enjoy the waking hours much more.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

District 9

O Nostalgia Critic é o melhor amigo do AVGN (se não souberem quem ele é, tenham vergonha) e ele consegue dar expressão a pensamentos tão profundos como os desta review do filme District 9

sábado, 14 de novembro de 2009

Mother - Joon-Ho Bong


Gosto muito de Joon-Ho Bong (봉준호) como actor mas especialmente como realizador. Faz parte daquela linha de realizadores asiáticos com produção de qualidade que não é, de todo, mainstream mas que não é absolutamente impermeável à compreensão, sem muitos efeitos de obscurantismo de sentido para simular efeitos artísticos, que às vezes irritam um bocado sobretudo em alguns realizadores sul-coreanos que de tanto se quererem distanciar das comédias românticas tão populares no país, que acabam por fazer um oposto extremista. O último filme do realizador, “Madeo/Mother”, afasta-se da componente de acção do “The Host” e cai em aspectos mais realistas que relembram mais filmes como “Memories of a Murder” ou “플란다스의 개/Barking Dogs Never Bite”, o primeiro devido à recriação do ambiente rural e o segundo devido à exploração dos estados de espírito e de mente dos seus intervenientes. Embora cada um dos seus filmes sejam peças de arte distintas. Poderia classificar este filme como um thriller emocional de uma mãe em busca do culpado de um crime que é atribuído ao seu filho deficiente. Um conjunto de dúvidas circulam ao longo do filme onde as certezas do espectador são absorvidas pela empatia com a mãe que se revela também ela problemática a uma determinada altura. Mais um filme fabuloso de um dos maiores realizadores da actualidade e com uma interpretação simplesmente avassaladora de Hye-ja Kim (김혜자).

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Celebração do terror II: Zé do Caixão



Night of the living dead é um filme de terror independente filmado a preto e branco (por opção) de George Romero de 1968 é considerado um dos filmes de inauguração do terror e do gore como o conhecemos hoje, muito polémico e mediatizado devido ao seu conteúdo explícito que de facto, é muito explícito e macabro. Apesar de não ser o primeiro filme de Zombies é pelo menos um dos principais responsáveis pelo arquétipo de zombie na cultura popular e ainda tem uma série de críticas políticas ao período. Mas! E agora é que vem o ponto onde eu quero chegar, - já antes deste filme considerado tão pioneiro, já no Brasil tinham criado uma personagem de terror bem icónica de trash cinema absolutamente assombrosa e cujo conteúdo pioneiro ainda não é totalmente reconhecido... Refiro-me aos filmes de José Mojica Marins, e à sua personagem Zé do Caixão.








Á meia noite levarei a sua alma (1963) Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967) Ritual dos Sádicos (1970)

Uma bruxa com uma caveira na mão começa por dizer para não ver este filme. O índice começa por agradecer a agências funerárias. O objectivo do Zé do Caixão é encontrar uma mulher que ele possa engravidar para poder dar sucessão ao seu demónio. A sua mulher não consegue engravidar e ele acredita que a namorada do seu melhor amigo é a mulher ideal para o efeito. Violada por Zé do Caixão, a rapariga quer cometer suicídio para regressar ao mundo dos mortos e levar a alma expurgada daquele que a violou. Durante a noite, Zé tem um pesadelo: a Morte leva-o a um cemitério, onde cadáveres saem das tumbas e o puxam para o inferno. Corredores de gelo, onde homens e mulheres ensanguentados são permanentemente torturados por carrascos do rei das trevas.
Zé do Caixão é sem dúvida um personagem de extrema crueldade onde os momentos de gore são bastante criativos e macabros. Com uma vincada tendência anti-cristo, há uma cena em que ele se põe a comer carne humana à janela enquanto vê a procissão cristã passar num dia santo. A sua catarse é feita através de um monólogo teatral e dramático onde o Zé desafia os poderes de Deus e a sua existência, tentando provar que só o Diabo existe. A trilogia prossegue com Esta noite encarnarei o teu cadáver.


Os filmes são a preto e branco à excepção do momento em que ele vai para o Inferno, única cena colorida no filme e podemos ver uma representação do inferno que consiste em vários órgãos e partes de corpos ensanguentadas coladas às paredes e tecto e que se movimentam ainda com vida.
Já no terceiro filme um psiquiatra injecta doses de LSD em quatro voluntários com o objectivo de estudar os efeitos do tóxico sob a influência da imagem de Zé do Caixão. O personagem aparece de maneira diferente nos delírios psicadélicos e multicoloridos de cada um, misturando sexo, perversão, sadismo e misoginia.
No site oficial é possível ver a biografia do Zé do Caixão, entre outras curiosidades.
Mais um exemplo de terror de outros tempos neste caso através de um clássico bem bizarro de exploitation do Brasil!

Aqui o site oficial do Zé do Caixão

Aqui um excerto da visão do inferno em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Celebração do terror

Ok, nesta semana em que se aproxima o Halloween, vou deixar aqui no blog umas referências a cinema de terror de culto à moda antiga! Aqui ficam estas belas imagens que espero eu que tenham ou possam vir a provocar boas noites de intensos pesadelos.
O Gabinete do Dr. Caligari de 1920 de Robert Wiene é um exemplo do terror de outros tempos. Dr. Caligari, um famoso hipnotizador e o seu acompanhante sonâmbulo supostamente adormecido há 23 anos, predizem profecias que são cumpridas. Um filme imbuído na estética do expressionismo alemão, onde cada objecto material está sujeito a uma metamorfose que não é mais do que uma recriação da realidade, os delimitadores da realidade como paredes, portas ou janelas são deformados para tornar o ambiente num autêntico background de um pesadelo. Uma ideia que foi deixada muito de lado pelas tendências de mimética da realidade do cinema futuro e deixada apenas para algumas coisas muito experimentais. Acho que é uma pena porque podemos ter interpretações naturalistas e cenários oníricos, não me parecem coisas assim tão contraditórias e conseguem causar mesmo uma perturbação, um terror lírico. Uma verdadeira obra de arte.


 Um dos filmes mais terroríficos de sempre é o Nosferatu de 1922 de Friedrich Wilhelm Murnaum mais precisamente o Nosferatu, eine Symphonie des Grauens. É o filme que dá origem à noção de um dos maiores ícones do horror dos nossos tempos, o vampiro. Mas de facto não é um vampiro qualquer, este é o Drácula que Bram Stocker já tinha escrito em 1879, sendo portanto este o responsável pela criação da personagem. O livro que nos é dado a conhecer através das persongans que o escrevem é um dos clássicos mais geniais da história da literatura universal. Bram Stoker coloca o jovem Jonathan Harker nas funções de solicitador que tem que se desloca ao sombrio castelo de Vlades Tepes III, o Empalador, um aristocrata da Transilvânia cujo espírito tão cultivado demonstrava um aspecto obscuro na crueldade e sadismo pelo qual era conhecido. Por uma questão de direitos de autor, Murnau acaba por dar ao seu personagem central o nome de Orlok. É um filme brilhante em todos os aspectos que se ligam ao campo do suspense e do terrorífico, o ambiente e a atmosfera recriados são tão intensos que não importa se o filme é ou não mudo, pois tudo no filme parece ser o cenário de um macabro pesadelo.

A sombra a subir pelas escadas ou o vampiro que surge por detrás da porta triangular são imagens que não se esquecem. Werner Herzog fez uma adaptação do filme em 1979, Nosferatu: Phantom der Nacht, é também uma boa aposta para uma sessão bem medonha.



Suspiria de Dario Argento, 1977. Este também é um filme que incomoda bastante e eu penso que isso se deve à forma como o realizador pega na mise-en-scene e a transforma num jogo psicológico em forma de quadro visual. Eu que sou a defensora da importância da representação, como é que posso considerar que um filme onde a maior parte do elenco é francamente mau (como todos esses séries B com pretensões de giallo) como admitir que no fundo este é um bom filme? Precisamente pela criatividade visual e pelas opções da sonoplastia. A banda sonora é realmente muito boa e a construção das personagens não é má de todo, só é bastante mal representada sobretudo na primeira metade do filme. Enfim, análises técnicas à parte, é um filme assustador como o caraças, o grande momento da primeira rapariga morta pendurada pelo tecto, o momento em que a personagem cega é devorada pelo cão no meio da praça de Berlim (suposta metáfora ao nazismo) e o final que parece saído dos meandros de um pesadelo quando a americana por fim se encontra com a bruxa. É um filme que nitidamente influenciou posteriores barroquismos no tratamento visual de filmes como os de Tim Burton, etc. Mas acima de tudo são retalhos de horror que ficam a flutuar no inconsciente e voltam numa noite solitária de tempestade. :D
 The Evil Dead Trilogy é um clássico de Sam Raimi, que celebrizou Bruce Campbell como um protagonista-exemplo daquilo que é um bom momento de horror. De horror e de gore, ou seja, violência representada graficamente. É um dos filmes que trouxe muito ao actual cinema americano de terror, nomeadamente na utilização sábia do susto e no enquadramento do suspense. É um típico huis clos (ou em inglês um No Exit) onde as personagens vão passar férias numa cabana isolada no meio do mato. No primeiro filme, quando o grupo de americanos descobre um velho gravador de som que relata as experiências do antigo proprietário da casa e as suas visões de terror ao ver os demónios possuírem a mulher, remete-me para o recente “Rec” de Jaume Balagueró e Paco Plaza, quando os protagonistas encontram uma gravação semelhante no sotão do edifício onde ficaram presos devido a uma infestação se zombies. Uma referência que eu acredito ser uma homenagem dos realizadores.
Em Evil Dead, quando as pessoas ficam possuídas temos uma das mais macabras caracterizações de horror da história do cinema, uma visão autêntica de um corpo em decomposição ambulante. Também é o primeiro filme e possivelmente dos únicos onde uma mulher é violada por uma árvore. Portanto, também há aqui grande material e grande potencial horrorífico.

Aguardem pois ainda vem mais! (Pelo menos se eu tiver tempo para escever...:P)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A SEXTA GERAÇÃO 第六代


“Estamos mortos?”, “Não, isto é apenas o início.” São as últimas frases dos protagonistas de Shijie, traduzido significa “O Mundo”, o filme de Zhan Ke Jia (贾樟柯) que conta a história dos bastidores do World Theme Park em Beijing (http://www.beijingworldpark.com.cn/) um parque temático onde se podem visitar os monumentos mais populares de todo o mundo..sem sair de Pequim. O filme incide no sentimento de que visitar o mundo sem sair de Pequim deixa uma sensação amarga, sobretudo para os inúmeros trabalhadores daquele sítio que afinal, nunca foram a lugar algum. É assim que morrem os seguranças quando não conseguem mais de 200euros por mês e tentam por outras vias alimentar as famílias, é assim que se morre nas fábricas onde se trabalha por sobrevivência. Mas na realidade será sempre o início, o início da recuperação económica, o início da urbanização, o início.



Obviamente que são filmes de denúncia. A sexta geração é uma geração realista no sentido artístico do termo, no sentido de Courbet. Longe dos Estúdios Hengdian e dos orçamentos colossais com pequenos palácios de verão e cidades proibidas em pela província de Zhenjiang, a sexta geração é uma geração reflexiva sobre a condição humana e os desenvolvimentos políticos ao longo da história do país. Estão na realidade associados ao espírito do Neo-realismo Italiano no cinema pelo recurso a não-actores nos filmes, pelo improviso e pelo carácter dúbio na impressão da realidade no cinema. Sexta geração é sinónimo de cinema independente. Ainda que Li Yang (de “Mang Jing/Blind Saft” e “Mang Shan/Blind Mountain”) diga que “Não existe uma sexta geração” porque afinal não há uma oposição assim tão brutal àquela era a quinta geração. E é um facto.


Se olharmos para os trabalhos iniciais de Zhang Yimou “我的父亲母亲/Caminho para casa” ,“一个都不能少/Nem um a menos”, ou para “有话好好说/Keep Cool” encontramos o mesmo tipo de temáticas, o mesmo tipo de técnicas que eram usadas numa altura em que o seu cinema era essencialmente mais independente. Da mesma época também Tian ZhuangZhuang “小城之春/A primavera numa pequena cidade”, “吴清源/The Go Master” embora este último se foque com mais intensidade as memórias da revolução. E sinceramente acho que é mesmo neste aspecto que a sexta geração se afasta, não se afastando de uma forma brutal porque nada na sociedade chinesa ou na história da China se pode afastar de uma forma muito cabal do período da revolução, ainda tão recente, ainda com tantas repercussões e ainda sem uma ruptura total, para além da económica. Mas afasta-se na medida em que, precisamente, já não fala de memórias, mas antes de heranças, de legados e de vestígios que entram num conflito brutal com a abertura económica da China.


Frases como “Na china o que não falta são pessoas.” surgem com frequência na boca das mais diversas personagens, estou a lembrar-me do Shijie do Mang Jing, mas certamente apareceu em muitos outros. Há naturalmente efeito metafórico, esta é uma frase tipicamente usada por economistas e no entanto aqui surge ela num contexto em que se quer pensar o humanismo. O muito significa o barato o que faz com que até a vida humana não tenha muito valor.


Porque esta é uma geração de realizadores que nunca viram ninguém morrer à fome mas que que vêem os seus filmes serem proibidos no seu próprio país enquanto obtêm as mais sumptuosas menções na Europa ou na América, filmam na maioria das vezes de maneira ilegal, vivem no estrangeiro (ou viveram durante algum tempo) e acima de tudo querem... ser parte integrante da história da China. E não, não há necessariamente uma contradição. É um sentimento ambíguo de expatriação e espírito crítico, introspectivo, mas nunca estupidamente arrogante ao ponto de não compreender a forma como se pertence inevitavelmente a um lugar e como esse lugar deixa legados, heranças na formação do desenvolvimento individual e como esse legado intimista quer repercutir o colectivo, alertando-o, apelando aos seus sentidos, fazendo um cinema visceral, corrosivo que fala da identidade cultural e da personalidade colectiva do povo chinês tal como ela é.

 Como o recém-estrado em Portugal 落叶归根/Regresso a casa de Zhang Yang.A simplicidade da história ganha uma dimensão avassaladora na interpretação de Benshan Zhao (Happy Times, Keep Cool) e em todo o formato realista do filme. Todas as personagens com quem o personagem principal se cruza são personagens tipo que reflectem um tipo de atitude mais ou menos confucionista, mais ou menos taoista ou absolutamente materialista, naquele que é o estado das várias morais na China de hoje - um misto de identidades de várias origens geográficas com condicionamentos históricos e políticos.


Na minha perspectiva há dois realizadores altamente representativos do espírito da Sexta Geração. Um é Wang Xiaoshuai com "冬春的日子/The Days”e "十七岁的单车/Beijing Bycicle”, o primeiro que foi uma lufada de ar fresco que veio dar ares do início de uma geração que ainda existe e que ainda se quer afirmar, precursor do seu movimento, reflectindo o estado de uma nação cortada em pedaços deixando à sola um espírito materialista incontrolável que acaba por penetrar como uma repressão de um mau momento que acaba por ter consequências concretas no corpo social.


O outro é Yu Li e o seu 苹果/Lost in Beijing que conta com as poderosas interpretações de Tonny Leung Ka-Fai (não confundir com o Tonny Leung Chiu Wai), assim como com Binbing Fan vinda de Hong Kong mas sem que lhe falhe o mandarim e o recém-fenómeno do cinema chinês Tong Dawei, que mesmo estando envolvido em filmes proibidos onde há cenas de nudez e de sexo (e que não são filmes da terceira categoria -feng ye- de Hong Kong) ainda assim foi convidado para o elenco de Chi Bi/A batalha de Red Cliff, e foi o protagonista de uma das séries de maior sucesso televisivo no continente, Fendou(奋斗). Sem dúvida é um filme que reflecte o dia-a-dia com uma verosimilhança impressionante. Qualquer pessoa que tenha estado na China já viu imensos trabalhadores, imensos 'laoban' (patrão em chinês) que se parecem com a personagem de Ka-Fai ou trabalhadores nas construções que vêm de províncias distantes da grande cidade onde se encontram.


Outros a ter em conta: Zhang Yuan com “北京杂种/Beijing Bastards” e “East Palace, West Palace”, Lou Ye do qual destaco o 頤和園/Summer Palace.  Mas a sexta geração não se fica por aqui, é um emaranhado de prémios pela Europa e de proibições na China, sem esquecer mencionar que essas proibições são meramente formais já que em qualquer esquina onde se vendam DVDs piratas, podem encontrar-se os filmes todos (eu comprei a maioria dos filmes que tenho nesses sítios, e encontrei tudo o que não estava oficialmente em circulação).


Relembro que esta designação geracional é aplicada a realizadores da China continental que utilizam essencialmente o mandarim (que é aliás uma outra reflexão recorrente), o que ainda exclui uma infinidade de possibilidades, como cinema de Taiwan e Hong Kong.

Conclusão, há muito mais cinema do que aquele que se pensa. Nos dicionários de cinema que se encontram por aí ainda há pouca ou nenhuma atenção dada à Ásia o que é uma pena. O cinema não se esgota num ou dois continentes. Felizmente!