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terça-feira, 18 de novembro de 2008

teatro



O que é preciso fazer, a partir de uma “história crítica social do teatro”, e circunscrevendo-nos ao mundo ocidental, é tentar perceber, por exemplo :

- Que tipo de “dispositivo” (no sentido de “aparelho ideológico”) ele constitui em cada uma das suas grandes “fases”, ou seja, para simplificar, e apenas referir algumas dessas “etapas”, no mundo antigo (grego) em que surgiu, no mundo renascentista e barroco, no mundo burguês da primeira modernidade (séc. XIX), e no mundo contemporâneo (sécs. XX e XXI) da crise da primeira modernidade e da emergência de uma segunda modernidade (ou pós-modernidade, para alguns).

- Em que é que as formas de teatro exprimem (espelham), e também antecipam e criam, formas de vida social, de relações de produção e de reprodução da vida social no seu sentido mais abrangente, e portanto de orientação das subjectividades, permitindo materializar, num espaço de “evasão”, as molduras da ideologia, ou seja, dar corpo espacial e temporal ao “dispositivo”.

- Qual é a importância e papel - central - do jogo, do faz-de-conta, do ritual, da representação, da actualização de não-ditos e da criação de outros não-ditos, ou seja, da ideologia, em toda essa operação fundamental para a construção da sociabilidade, para a legitimação das diferenças, para a catarse emocional e para a possibilidade das pessoas, a partir de espaços de “evasão” e de descompressão, serem incluídas em formas de descriminação (tornando a opressão não apenas em vontade consentida, mas em desejo e direito do indivíduo, inalienável precisamente no coração da alienação, da intimidade, do projecto desejante do indivíduo): quem assiste, quem participa, quem fica de fora, quem vê de perto, quem vê só de longe, quem é exposto, quem está na sombra, quem está em cena, quem está nos bastidores,etc.

- Quais as formas arquitectónicas, físicas, espaciais em que se plasmam e configuram as diversas condições históricas da representação, da performance, da encenação do mundo, da vida e dos seres, incluindo a fantasia e, portanto, a emoção, ou seja, a criação de subjectividades, a docilização dos indivíduos, a ideologia em suma que os faz sentir como vontade própria a própria vontade que lhes é imposta como necessidade inquestionável, como realidade. Ou seja, um mundo “objectivo” em que a questão fica de fora como um impossível pensável/sentível, quer dizer, como exclusão antes da exclusão, ou, se quisermos, como loucura. Isto é, pensar a alienação como máquina de fabricação desta partilha: o que é razoável e o que é louco/desviante/criminalizável. Esse “agenciamento”, essa partilha, está em causa no teatro, é a sua motivação mais primeira.


- Em suma, como é que o espaço do teatro permite ”inculcar” nos participantes, actores e espectadores, um modelo de cosmos, de pólis, da tragédia/comédia humanas, e com é que ele antecipa/cria a crise das formas tradicionais de representação (séc. XX/XXI) - por outras palavras, como é que o teatro, na sua “arquitectura” (palco/plateia, formalidade/informalidade, centralidade no tecido urbano/teatro de bairro, de “caveau”, de “bas-fond” etc., etc) e na sua praxis se organiza como máquina simbólica, produtora de realidades e contestadora das mesmas, como elemento do jogo/conflito social entre dominantes e dominados, incluídos e excluídos, entre formas legitimadas e formas em procura de legitimação/imposição, entre diversas representações do self, etc.
Questão política, questão de soberania, questão radical de articulação/dialogia/dialéctica entre vida e património, entre existência e arquivo, entre norma e desvio, revolta, fractura.

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Imagem acima: 

Silent Theater: The Art of Edward Hopper

Book by Walter Wells

London, Phaidon Press, 2007

Fonte: 

http://www.amazon.com/dp/0714845418?tag=interesting-20&camp=15309&creative=331477&linkCode=st1&creativeASIN=0714845418&adid=1DWVMGFE8KWCSH9XSXXB


domingo, 12 de outubro de 2008

A nossa cultura é dicotómica no seu íntimo núcleo!

Carvalhos em Peredo da Bemposta, Mogadouro. Foto de Maria de Jesus Sanches. Out. 2008
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Exemplo de pares de ideias/conceitos que coligi num instante (quando tiver tempo, desenvolvo):

Acaso-necessidade
Acumulação-descarte
Adaptação-pré-adaptação/prevenção
Aleatoriedade-previsibilidade
Altruísmo-egoísmo
Amor-ódio
Animal-homem
Antigo-novo
Apresentação-representação
Argumentação-delírio/deriva
Automatismo/mecanismo/máquina-improvisação
Banal/vulgar-surpreendente
Bem-mal
Biologia-antropologia
Boca/ingestão/alimento-ânus/anal/defecação/fezes
Bruteza-educação/aprendizagem/elegância/gosto
Caos-cosmos
Certeza-hipótese
Ciência/racionalidade - mito
Cosmopolita-provinciano
Comportamento tout court-comportamento reflexivo
Comunidade-indivíduo
Côncavo-convexo
Conjectura-certeza/evidência
Continuidade-descontinuidade/oposição
Convicção-dúvida/suspeita
Corpo-alma
Crença-pensamento
Criança-adulto
Cumulativo-dispersivo
Descoberta-pesquisa
Dionisíaco-apolíneo
Direito-justiça/juízo
Dispersão-concentração/acumulação/produtividade
Doméstico-selvagem
Economia/gestão/bom governo-desperdício/excesso
Emoção/afecto-cognição
Estável/estático-dinâmico
Estrutura-história
Evolução (paulatina)-revolução (alteração súbita)
Excitação-sobriedade
Exterior-interior
Feminino-masculino
Fixação/sólido-deriva/fluído/liquido
Global-local
Herança-novidade
Hierarquizado-rizomático
Homogeneidade-heterogeneidade
Horizontal-vertical
Ignorância-saber
Iluminação/clarividência-obscuridade/obscurantismo
Imutável-mutável
Inato-adquirido
Inconsciente-consciente
Inércia/imobilidade-energia/dinâmica/deslocação
Infinito-finito
Ingenuidade-manha/estratégia
Inimputável-responsável
Insignificante-pertinente
Instinto-pulsão/inteligência/intenção
Intuição/hipótese-prova/comprovação
Invariantes-variáveis
Irracional-racional
Irreversível-reversível
Jogo-fim do jogo
Lazer/festa/orgia-trabalho
Lei-excepção
Maduro/ponderado-imaturo/imponderado
Matéria/materialismo/corpo-espírito/espiritualismo/alma
Memorização – esquecimento/amnésia
Mesmo/unidade-diferente/multiplicidade
Monismo-dualismo
Monólogo/fechamento em si-diálogo/transferência
Mulher-homem
Narração/estória-conclusão
Natural/naturalia-artificial/artificialia
Natureza/matéria-cultura/espírito
Normalidade-anormalidade/catástrofe
Objecto/objectividade-sujeito/subjectividade
Ocasional-intencional
Oral-escrito
Ordem-desordem/anarquia
Original/modelo-simulacro/reprodução/cópia
Particular/contextual-geral
Passado-futuro
Património-valor acrescentado
Persistência/permanência-mudança/contingência
Planalto-falésia/abismo
Potência-impotência/servidão
Prática/experiência-teoria
Predador-Produtor
Presença-ausência
Primitivo-civilizado/evoluído
Projecto-concretização/obra
Público-íntimo/privado
Puro/limpo-impuro/sujo/conspurcado
Quietude-violência
Realidade-ilusão
Reciclagem/renovação-lixo/poluição
Reciprocidade/mutualismo-desigualdade, dádiva não retribuída
Recolha/recolecção/caça – agricultura/domesticação
Regra/doxa-desvio/crime
Repetição-diferença
Replicação/reprodução-criação
Resistência-fragilidade/vulnerabilidade
Rigidez-plasticidade
Rosto/pessoa-máscara/actor
Rotina/conservadorismo-inovação/transformação
Rural-urbano
Sensação-percepção
Senso comum- senso(sentido) crítico/reflexividade
Sentimento/sensação-raciocínio/racionalidade
Simples-complexo
Solar-lunar
Superficial/superfície-profundo/profundidade
Telúrico-aéreo
Todo-partes
Tradicional/tradição/costume/hábito-moderno/modernidade
Transbordante-contido
Unidade-multiplicidade
Vagina/humidade – falo/secura
Variedade/diversidade-estandardização
Verdade-aparência/disfarce/representação/mentira
Visível-invisível
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Vítor Oliveirra Jorge Out. 2008