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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pela garganta





Pela garganta

custam-me os dias
quando tenho de te deixar ir
à tua vida

e fico a comer sozinho
qualquer coisa do micro-ondas

tentando agarrar-me aos livros
que me ligam ao que fui

para prosseguir
já não sei bem o quê

rodeado de todas as tuas memórias
que me atingem
como presenças ausentes

custam-me os dias

engolindo assim devagar
qualquer coisa
de indefinido

algo
que não me sai
da garganta

talvez o tempo
que estamos a perder
a cada instante

esta presença ausente
que vou comendo,
e custa a engolir.



voj (texto e foto) jan. 2012 loures

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

o difícil instante



Sobre o puro presente do teu corpo nu
Pairam sempre essas figuras espectrais
Do passado. Quem já passou por este quarto?
Com quem já gemeste antes aqui? Serei eu capaz,
No presente que te sou, de fazer esquecer,
Nem que por instantes, essas memórias?
Vejo os teus olhos dilatados, e por vezes
O teu rosto em transe. E quanto mais o prazer
Me apanha, amor, a tal ponto que parece uma faca
Que finamente me corta ao meio, ainda e sempre
As aves negras do teu passado me sobrevoam.

voj jan. 2012

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

a inesperada visita

quando me afagas
com a ponta dos dedos
os pêlos do corpo todo,
sem o tocar,

como se à superfície
de um terreno plano
e inexplorado
ateasses minúsculas
lareiras,

quando o teu dedo
perpassa ao de leve
a periferia dos meus lábios,
provocando pequenos
espasmos:

digo, para mim próprio -
é isto, afinal,
o que chamavam amor,

essa visita que esperei
e de súbito
assim tão subtil
sobre mim se abateu

como a chuva que cai
num deserto
depois de muitos séculos
de secura,

e faz brotar flores
inverosímeis
pela pele das areias...

quando todo o peito,
e até a compreensão do mundo
se abrem

de uma forma inesperada.

voj dez. 2011




para um verão futuro


Dar-te-ei todo o tempo

Para que cures as feridas

Dos homens que amaste

E partiram;


Dar-te-ei todo o tempo

Até que possas voltar

Inteira, tocando-me à porta

Com um sorriso novo;


Intacta, limpa, purificada

Pelo tempo;

E eu, liberto também

De muitas amarras


Incluindo as dos gemidos

Que trocaste com os homens

Que dantes amaste,

E as dos desesperos

Que trouxeram as lágrimas

À flor dos teus olhos.


Esperar-te-ei num dia de sol

Com a porta entreaberta

Sobre as sombras interiores

Da casa, quando as folhas do verão

Quiserem também entrar.




Voj Dez. 2011

domingo, 22 de maio de 2011

poema

súplica frenética de magritte quando se volta ao avanço plano da onda pela areia molhada





as ânsias sobem do tapete

sob a mesa da leitura,

e pelas pernas acima vêm

bocas, murmúrios, memórias,

toda a invasão lenta

dos ardores.

tudo se concentra

na tulipa escarlate

que subiu

até ao tecto, e arde.

arde.

enorme,

como só magritte sabe.

e por isso

à beira do mar desmaiam

as pernas enormes,

deitadas, abertas em v,

suplicando ao horizonte,

às ondas

e às marés,

e às suaves anémonas,

ao seu ondulado silêncio

à sua sucção azul,

que venham urgentes

dar uma pausa de água,

um bálsamo de azul e saliva

uma imersão pacificadora

ao prolongado tormento.

rastejantes, até ao sexo,

como a aproximação gentil da vaga

como a aproximação invisível,

tão suave, tão incrivelmente suave

do consolo supremo, e afinal

tão simples e antigo:

é que são insuportáveis estas agulhas

estes ponteiros bicudos

dos relógios implacáveis

quando,

por debaixo da mesa de leitura

vêm, inadvertidamente,

cruelmente,

traçar assim lado a lado

como alfinetes

a extrema sensibilidade dos genitais.







voj

maio 2011, porto

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

SEM DEPOIS


SEM DEPOIS


Desce as escadas, passa,


Passo a passo,

Por todas as escalas

Do que chamam sofrimento.


Agarra as folhas mortas

Do chão,

Ouve a sua súplica.


Esperaste sempre, sempre

Pela amada


E quando finalmente

Se aproximou o beijo


Era um punhal tão fino,

Tão fino,

Tão frio, tão lento,


Tão incrivelmente

Determinado, Impiedoso:


A percorrer-te os músculos,

As veias, os tendões, tão lento


Saiste então como expulso

Da tua própria casa


E desceste as escadas

Até ao frio

A frente de azul

Onde as ondas batem

Com toda a força.


E não tinhas medo.


Este é o meu corpo,

Ó mar,


Esta é a minha vida,

A minha biografia.


Aqui estou para ser julgado

Por Ninguém.


Foram as palavras

Que me conduziram

Até aqui,


Inquilino de mim mesmo,

No pequeno apartamento

Na cama estranha


Caminho para as cores,

Para a fusão absoluta

Das Cores.


Branco, branco, o branco

Sob o branco.

E negro, negro, o negro

Sobre o negro.


Neste fundo das escadas

Já não é preciso

Mais descer.


Só dar o salto

Irreversível


Voar

Por cima de todas as escalas


Cortando o ar como

Um anjo pesado


Sem depois.


Sem depois: isso

É o fundamental.






voj porto 2.2.2011

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

metrónomo


Volto à casa dos azulejos

E tateio de novo parede a parede

À procura do toque suave, do brilho

De uma luz hábil que tombe

Sobre uma sala, sobre um soalho.


Recordo

O som dos sapatos altos

Com que aqui caminhavas

Incessantemente despida


Como o de um metrónomo

Marcando o silêncio que depois

Se instalou

Entre os azulejos, e desceu do tecto

Como a luz que iluminava o teu corpo.


E então refaço inteiramente o sentido

Do que (não) se passou aqui.

Percebo quanto já aqui (não) estavas

Quando espelhavas os azulejos

Quando marcavas com os teus sapatos altos

O metrónomo dos meus dias nus.




voj porto janeiro 2011

foto a partir de instalação de ana rito lisboa dezembro 2010

domingo, 16 de janeiro de 2011

Esboço de um primeiro andamento de sonata para violoncelo e baixo contínuo, largo

Esboço de um primeiro andamento de sonata

para violoncelo e baixo contínuo, largo





E assim conheci

Sucessivos limiares de sofrimento,


Entre bailarinas jovens



Cobertas de gotas

De suor genuíno.



E sem parar agitavam

O umbigo, a cintura,



Como animais destapados

E possuídos

Por um frenesim

Sem explicação.



Tinham pele brilhante,

Fina,

Irreal no seu tacto,



E sobretudo estavam

Tão longe!



Tão desfocadas,



Como se eu, ao passar,

Abrisse um corredor de irrealidade

Em torno de mim.



De facto,

Segurava a bandeja pesada,

Cheia de copos de chá

Vermelho e quente



Procurando ainda

Chegar a tempo.



E assim à noite

Sob palmeiras amarelas



Aprendi a mortífera crueldade

Directamente nos lábios.



Tive de dormir com quem

Possuíra a minha casa

Em meu nome,



Para tentar ainda chegar

A tempo



Para tentar dar-te

As velas vermelhas,



Acesas

Como um pedido

Mesmo importante!



O pedido fundamental

O pedido

Com que caminhei sempre.



E assim passei

Entre os risos da festa

E a visão diabólica

Dos dentes azuis



Que me queriam morder



Para ver se ainda

Chegava a tempo.



E assim me acerquei

Do desvairado sorriso

Da traição;



O grande,

O interminável riso,



Sádico,



Lento, lento,

Tão lento,



Lento como uma tortura,

Como uma violação,



Enquanto a lâmina

Adquiria a têmpera



Preparada para atravessar

Todo o percurso

Dos meus versos:



Desde a primeira

Até à última estrofe;



Diria,

Desde antes da primeira sílaba

Até ao silêncio



Que demora



Após a última,



Enquanto as próprias nuvens roxas

Se escapam para o horizonte,

Apavoradas.




voj porto janeiro 2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

a propósito da segunda pessoa do singular

A propósito da segunda pessoa do singular



Sento-me de novo a uma mesa de esplanada

Da cidade onde dizem que nasci, onde vivi

Até ela ser minha, a minha cidade: antes

De ter partido para toda uma outra vida.


Vejo os mesmos monumentos, as ruas, o tejo,

As mesmas palmeiras, e até encontro traços

Que não esperava, conservados.


E mesmo ao lado coisas novas, inesperadas.

Novas marcas de automóveis, lojas mais modernas.

E sento-me melhor na cadeira,

Com aquele sentimento despaisado

De estar no estrangeiro, de tudo ser igual

Ao já imaginado, com uma pequena diferença.


Não sei se seria por essa pequena diferença

Que tu aparecerias. Talvez te esperasse sem saber.

Mas bem se sabe quanto a mais terrível palavra

É a palavra tu: uma palavra feita de carne e choro

E esperança e tinta escrita como sangue roxo escuro.


Assim fiquei na esplanada da gramática

Enquanto as gotas de água vinham pousar

Por toda a parte, quase que individualmente,

E faziam refulgir os metais. As cadeiras desocupadas.


Disse-lhes: não me podeis servir para nada.

Mas agradeço a intenção.


E peguei na mochila com as máquinas,

Entre brilhos, sons, sombras, reflexos,

Essas coisas que andam no ar, fui respirando,

Parti para o circuito turístico com nuvens sobre a cabeça

E uma ameaça de chuva, um souvenir para a família,


E deixei para trás as cadeiras todas molhadas

A olharem umas para as outras, para o fosso do rio,

como se só houvesse neste mundo eu e elas,

um mundo desprovido dessa tremenda palavra – tu.


Voltei-me então para fotografar isso,

Para poder dar testemunho aqui,

Para da ausência poder fazer presença,


e vi-te, sim,

Em mil rostos anónimos, que diziam coisas agradáveis

E acolhedoras. Faz favor esteja à sua vontade.


E todos tinham um objectivo, uma tarefa,

Talvez um encontro marcado,

Uma ocupação, uma determinação, algo combinado.


Esfalfei-me por ruas e travessas, até que tomei

Um táxi, e lhe disse: leve-me para os pastéis de Belém,

Tenho lá uma quantidade de coisas que fazer,


E além do mais não posso vir aqui

Sem provar aquele som estaladiço.

Aquele açúcar, aquela canela, aquele calor.


É que sabe, dizem que nasci aqui há sessenta e tal anos,

E levavam-me sempre ali. Gosto sempre muito.




voj, porto, 30 dezembro 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

sem título, por Vera Santos

sem título, por Vera Santos

Celebremos a partida sobre a mesa.É a tua vez.
Celebremos porque os livros também tombam junto das janelas
e eu odeio
O desmoronar do teu rosto
ao fim da tarde
o tumulto contido nas paredes.Espera.
não há música,só os meus braços se demoram.Toma-me.
a fadiga
e o corpo aberto em leque
até ao chão.Fica.
brindemos ao vagar de tudo o que ruiu.é só um beijo e o último
[estilhaço de pele.
Desisto-te.
Devolve-me o sangue,
de tudo o que te disse.



VERA SANTOS

para o voj

quinta-feira, 13 de maio de 2010

o oco da palavra






o oco da palavra



Nunca vim aqui
Onde já estive, e esqueci.

Encontro tudo tão mudado.
A tua boca que não conheci.
Os quadrados da toalha alucinados.
Os copos todos. Descrevendo círculos
Sobre o chão todo enxadrezado.

A tua boca aparecendo à janela
De uma paisagem que se apagou.

Os copos dançando todos
Em volta dos teus lábios ausentes.
A tua boca de novo acesa
O vinho sendo servido pelo braço.
Os copos abertos, desaparecidos.
O líquido derramado
Sobre o tecto, por onde foste
Para a paisagem que há-de vir.

Uma cabeça de lobo à janela
Segurando nos dentes o fragmento
De um vestido talvez nunca usado.

Desde que comecei a escrever isto
Que não me sinto. Nunca estive aqui
Não fui pelas palavras autorizado


voj (texto e foto: jardim botânico, madrid, março 2010)

terça-feira, 30 de março de 2010

variação improvisada sobre o poema do M. Torga transcrito pela Mafalda Bettencourt


recomeça sempre,
pois mesmo que o não queiras
é assim que forçosamente estás:
não houve início,
nem haverá fim, estamos sempre
a acabar e a começar, e a passar
entre o antes e o depois, nessa fresta
do presente que também foge.

e não há caminho: mas uns pés
que na sua nudez fascinam, e nos levam
a segui-los, a fugir atrás deles
para todas as praias onde vêm bater
as imagens alucinantes, as ilusões do futuro.

por isso vive sempre
descalça: e descalça entra nas estações,
cantando ou chorando,
descalça entra nos quartos recolhidos,
descalça escreve, ou pinta, ou ama.
conservando entre os dedos a areia,
o odor dos búzios, o apelo do mar livre,
a maresia e o iodo que entram
pelos corredores do verão como enxurrada.

abre-te ao futuro, abre-te ao mar,
abre-te à fresta do presente, o que foge,
segue a intuição, o desejo, a tremura
das folhas juvenis:

pois não há outra beleza
para além da juventude do mundo.

e essa beleza está em ti, nas tuas mãos,
no que fazes aqui e agora, nos pés nus
em que entrelaças os teus,
na energia de toda a praia estendida,

quando vista do teu corpo deitado.



voj.

sábado, 27 de março de 2010

a origem da pergunta

conheces um seixo, um seixo rolado?

foi com ele que deus criou o mundo,

junto às águas negras, de um negro brilhante,

no mar primordial.



deus ergueu uma vez o seixo,

ergueu-o bem alto com as suas mãos.

e cintou-o, e disse: nasceu a Mulher.



e deus ergueu a Mulher, ergueu-a bem alto,

e disse: eu te fecundo, eu te preencho,

eu te insemino para que de ti saia o Homem,

todos os seres humanos.



e a mulher tornou-se redonda,

a lua branca pousou suavemente

sobre os seus cabelos, e

a Terra povoou-se.



e então deus ergueu uma vez mais o seixo

e deixou-o cair pesadamente

sobre a sua própria cabeça.



e disse: este é o meu sangue, que o solo

o beba, que o solo o absorva, que ele brote para sempre

de todo o lado,

como sangue vivo, como

água cristalina.



e sobre o céu ergueram-se dois diamantes.

deus ergueu-se então entre os cristais,

deus ergueu-se entre os diamantes,

e desapareceu então no vazio escuro entre eles.



deixou-nos aqui nesta ilha sobre as águas,

sob um céu polvilhado de cristais brilhantes e longínquos,



deixou-nos aqui rodeados de seixos muito brancos

com os olhos muito abertos,como seixos redondos,



e neles vêm, desde sempre e para sempre,

espraiar-se as ondas da Interrogação.



vitor oliveira jorge

Março 2010

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

explosão:implosão


A mulher distende-se.

Afasta cada um dos seus membros

Para o mais longe possível do centro.



Rompe a pele, espalha os órgãos.

A atmosfera da mulher é assim

Rarefeita, um éter em que levitam

Partes ligadas por linhas, ligas, elásticos.



Sobre o grande espelho

Do antigo guarda-fato

A mulher projecta um eixo central

De onde partem radículas em todas

As direcções.



E os globos iluminados

Assistem a esta revolução secreta

Sem saberem que, através das fendas,

Para dentro de si,



A mulher projecta também

Figuras geométricas tensas,

Radículas, fluxos instantâneos

Que se dirigem às suas constelações

Interiores.



Não se descobriu ainda a física

Que descreva isto, que reduza a fórmulas

Tamanha força, o enigma



Da floração dos pêlos,

A astronomia destes astros, destes sapatos

De salto alto, bicudo, metálico,

Furando constantemente os lençóis iniciais.



Sobre o firmamento do útero

Giram luas e ondulam oceanos

Desde sempre à procura da resposta,

Do eixo em que a razão quer encaixar

Esta explosão ou implosão que é a mulher.





Vítor Oliveira Jorge, texto e foto

(Marrocos, palácio Bahia, Marráquexe, Set. 2008)



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

resposta a Isabel



de TOTAL AFLORAÇÃO", Porto, Ed. Papiro, 2006

ninguém

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

sequência pastoril












1

esse teu movimento
de camponesa despida

trazendo-me os lábios e os seios
a sua cor vermelha
como se fosse
uma colheita de maçãs
luzidias

esse à-vontade
com que te aproximas nua,
com o sol ruivo
a desdobrar-se em fios, em
pequenos novelos,
como uma decoração
entre as pernas

esse teu ar atrevido
de quem vai proceder
à coisa mais natural deste mundo
















2

apresentas-te como
um ninfa, uma estátua serena,
com um pé nu à frente

e toda tu atrás, resoluta e
natural como uma miúda
iniciando um jogo

e sorris abertamente
como uma estação
que se abre, fulva,

como se o que se vai passar
fizesse parte dos prados
e laranjeiras, e hortos

caminhas para mim
e sideras-me totalmente

esse modo de cruzares os braços
para erguer a blusa
essa forma de te destapares sorrindo














3


lanças-me a língua
ao sexo
como se fosse a primeira vez


e uma romã, ou framboesa
fosse o sabor
por que o teu palato aspira

com curiosidade


lanças-me esse olhar
de confirmação

enquanto me contorço
e da janela entrevejo
o estalido das romãs
a abrir















4


ofereces-te agora
de costas
com os cabelos descendo
quase até às nádegas


agarro aí o sol do poente
os silvos dos pássaros

e cheiro pela primeira vez
todo o teu corpo,

a pele, os seus
pequenos pêlos fulvos

sinto
a modulação das colinas
o modo como a boca
desce para os vales

a água

o estremecer
de músculos









5

dobro-te toda

os calcanhares rosados
pequenos sinais nas ancas

os joelhos contra os seios

aperto-te
quase te desfaço

com se te quisesse reduzir
a um passarinho
que pudesse engolir

mas tu logo
com um gemido
te desdobras de novo

e pairas sobre mim,
dominas-me o ventre
trincas-me de novo

e um pardal foge da janela













6


e nestas coisas andamos
enquanto pelo quadrado
da porta

as luas e os sóis se sucedem

como se a nudez
nos imunizasse do tempo
e dos intrusos


e os próprios relógios
nos olhassem com o respeito
de não interromper


ao longe, sobre
um dos braços do maple
o teu soutien

e sobre outro a camisa
interior

ganham eternidade










7

é inevitável
o odor das ovelhas
e o do leite

que escorre


a paragem dos copos
as gargalhadas

a minha cabeça passando tardes
sobre o teu rabo

ouvindo-te
o fluxo do sangue
as pulsações

e os movimentos súbitos
que mudam
e trazem de novo os lábios

uma fulva humidade

uma paz imensa











8

viro-te sobre a cama
como se fosse ordenhar-te

penetro-te por detrás, fundo,
num súbito arremedo

e os lençóis ondulam
em luzes e sombras

como a superfície da areia
quando a água recua

viras a cabeça
para me interpretares

e vês as narinas dilatadas

a captar os odores todos
de dentro e de fora

o teu balido como ovelha













9


cavalgas-me
e em torno dos mamilos
giram as pequenas

framboesas

macias

enquanto a expressão
se te altera

está um cavalo a espreitar
de olhos muito abertos
silencioso

os êmbolos trabalham
com a lentidão e segurança
dos moinhos de água

as tuas duas nádegas
abrem-se ao cavalo
às mãos transtornadas












10



qualquer coisa abre
irrompe

é a fonte que dá
de beber aos caules

é a seiva a transcorrer
nos vasos verdes,
transparentes

são os olhos das ovelhas
muito abertos

é a lã, o seu odor,
os pássaros a subirem-me
pelo sexo

é o quarto todo
que circula em torno

são os sulcos rasgados
por onde escorre, serena,

a conclusão





Vítor Oliveira Jorge
25.1.10

sábado, 26 de dezembro de 2009

florestal, intenso










Se os olhos se fecham

Ao mesmo tempo

Que os lábios se apartem:

Ao máximo;



Se esse movimento coincide

Com o escurecer dos troncos,

E a floresta engrossa - e se abre:

Ao máximo;



E se a floresta parte

A toda a velocidade para cima -

E ao mesmo tempo se desdobra,

Se vira em todas as direcções,

Ao máximo;



E se a rotação das pernas

Atinge os êmbolos eléctricos,

Os motores das violas nos músculos,

Fazendo ondular o ruído dos lençóis:

Ao máximo;



E se então um fio negro se atravessa,

E liga, faz contacto no fundo para além do fundo,

Cola mais o que já parece estar colado,

Ao máximo;



E se um grito pode ainda evocar

Esta explosão, este assassínio,

Esta insistência, essa violência

Máxima;



Estraçalhar com fúria todo o escrito

Todo o dito, todo o ansiado,

Numa agonia prolongada

Ao máximo.



Quase coincidência.

Quase perfeito

Ajustamento,



Que volta sempre em onda,

Numa nova tentativa,

Arrastando energia, a cor negra

Em atrito e furor;



Se os troncos entram suados

Pela floresta dentro, e a sua humidade

Estraçalha, rompe ao máximo,

Espalhando seios em todos os sentidos,



E se ouve

A coincidência do grito,

A intenção das gargantas

Viradas para cima,

A direcção das luzes voltaicas

Saindo em rompante.



Para quando, diz-me,

verso seguinte,



Esse quase-tudo

Levado ao máximo,



Esse apaziguamento

Dos corpos derrotados pela luz,

pela sua própria corrente,



E essas gotas de sauna

Pingando lentamente



Na floresta negra


toda


tombada.




___________

imagens: foto de rrp reestruturada por voj; catedral de durham (voj)
texto voj porto 25.12.09