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terça-feira, 12 de julho de 2011

googlo-te



Fui parar a uma cidade onde uma mulher de uma vez me disse:
“quero sugar-te o conteúdo.”
- Todo?
“Todo, quero-o em gelado de morango com pedacinhos de alma.”
- E é assim para já ou dás-me uns dias de preparação?


Estava sentado a uma mesa de esplanada e o mar brilhou para mim e disse:
“hás-de um dia vir aqui parar.”
- E quando será isso, tens ideia?
Silêncio. Aquela imagem imagem azul, resplandescente.


Ia à janela de um avião a ver as nuvens lá em baixo sobre os cumes e encontrei-me com a cabeça de fora e alguém disse:
- há uma sombra de um passageiro que abandonou a viagem.
É preciso prevenir a família. E cá em baixo a família toda sorridente acolheu-me sobre o telhado e ouvi dizer:
“Bem-vindo finalmente a casa, meu filho.”

Entrei no meu quarto de solteiro e estava lá uma antiga namorada que me abriu os grandes lábios.
“Esqueceste-te de me lamber as arestas da alma”
- E passados este anos todos?
“Há coisas intemporais, ardo no teu fogo ainda.”

Descia uma “rambla” interminável e nunca mais encontrava o mar. Os passeios estavam cheios de feitios que começaram a dançar e isso atraiu-me a atenção.
Quero apenas um hamburger.
“Tenho melhor proposta”, disse uma mulher por detrás de mim.

Pensei que percebi por que é que a morte se conjuga no feminino e um homem tem de gastar tanto tempo à procura, neste mundo que alguns dizem que ficou louco, mas que é capaz de ter sido criado assim mesmo.

- Ok, começa então por baixo. Vamos fazer isso junto ao mar, como cães, fotografados em contra-luz.
“Certo, meu, vais ver que nunca mais passarás um momento assim.”
- Mas comemos primeiro um hamburger cada um, gosto disto tudo lambuzado e de levar os cinco dedos à boca.

És um poeta, ouvi alguém dizer. Ainda bem que chegaste. Vou ter saudades tuas. O mais certo é terminarmos na cama. Nunca leste esse livro? Não me digas que nunca foste a um restaurante paquistanês. Ainda não percebeste quem eu sou? Vês o brilho do mar? Vês as montanhas, como as nuvens lhes coçam os picos? Vá, não pares. A coisa assim está cada vez melhor agora cada dia como nunca como dantes. Parto amanhã muito cedo. Eu linko-te. Eu googlo-te. Deste-me do melhor que jamais tinha experimentado. Quem não arrisca não petisca. Trinca-me como a um hamburguer, lambuza tudo, suja o já escrito, o já dito, o já silenciado, suja tudo o já feito. Todo o reverso do feito e do não-feito. O próprio interior do nada virado do avesso. Vamos fazê-lo de novo como dois cães contra-luz.

- Ainda bem que decidi fazer esta viagem. Volta sempre. Sim, é meu, trago sempre entre os bolsos para as ocasiões! És uma gaja porreira. Fecha os estores, que isto agora vai ser a valer. Toma a minha alma, hoje tem sabor a morango.


voj porto julho 2011

sábado, 5 de dezembro de 2009

avestruz


Na sociedade hiper-segmentada, sub-tribalizada de consumidores, em que cada qual, para fugir à hemorragia de "informação", quer dizer, ao mar de programas em que se afogaria, procura avidamente o seu nicho identitário, com o qual vai identificar-se (numa completa identificação com o seu fantasma) há uma série de atitudes relativamente à imagem própria que são de extrema comicidade no seu carácter inócuo:
- exposição máxima, caso extremo do sistema super-star
- exposição recatada, do tipo encriptada, só para amigos e só a conta-gotas, por vezes com carácter tribal ou sub-tribal (goticismo, clubes de fãs, etc, etc)
- vontade de reservar a imagem para o seu próprio espelho, como se a consciência, destruída numa suposta e mirífica autonomia anterior, quisesse ainda preservar a sua "verdade" última do mercado, da mercadoria que a consciência é, de si para si.
Talvez esta última atitude, na sua inocência (?), seja a mais cómica. É a da avestruz com a cabeça na areia, imersa no escuro da sua "intimidade", enquanto o sistema já metastasiou todo a extensão do seu desejo, desde o interior. E, neste recato reclinado, as partes íntimas ficam à mercê, ou, como diz o povo, a jeito.


quarta-feira, 17 de junho de 2009

pecado original



o verão é uma linha horizontal, um horizonte deitado precisamente em cima de si mesmo. é essa perfeita correspondência que as pessoas não suportam. as pessoas não suportam a placidez, a inacção absoluta: têm de fazer algo. e ao procederem assim, postam-se em frente às geometrias puras, de uma maneira excessiva, e estragam qualquer dia e qualquer paisagem. mesmo quando afrontam essa limpidez sagrada de peito aberto, sem aparentes artifícios, estão a mais, ocupam o plano na altura em que nenhuma acção se devia passar, em que nem mesmo se poderia falar de solidão, porque havia muita coisa por todo o lado. mas as pessoas aparecem sempre a sobrepor-se a tudo, a esse todo o lado. como se fossem mais importantes que o mundo, cada uma com o seu peito, com o seu corpo, com as suas sensações voltadas para o lado da representação. isto é terrível, espeta uma cana afiada em cada olho, e sangra, com o mar horizontal ao fundo, esse fio de acontecimento jamais iniciado, apenas anunciado, ou enunciado.

Foto: Pascal Renoux
texto: voj

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O Concerto

Quando o concerto ia mesmo começar,
As notas precipitaram-se para a sala
E invadiram as cadeiras dos espectadores,
Sentando-se no seu colo com um gesto provocante.

Traçaram as pernas; mostraram as ligas;
E disseram ao músico que estupefacto esticava
O laço no palco para ganhar tempo, tão desesperado
Que parecia querer enforcar-se no adereço:

Toca. Toca-nos para aí à vontade,
Enquanto nós ficamos hoje aqui a tocar
No elegante público.
Chega de submissão à arte, queremos outra coisa.

Dos bastidores o dono do teatro sussurrou ao pianista,
Demasiado tarde, toca mesmo sem notas, o espectáculo
Tem de continuar. E assim as mãos e as teclas
Começaram a mexer-se, e som a dar-se.

Que som? Precisamente
Foi possível pela primeira vez haver o som.

As alcatifas grenás dos corredores agitaram-se,
Lânguidas. Os camarotes debruçaram-se para ver melhor,
As cortinas irromperam, umas atrás das outras,
Como saias tontas, rodadas.

Os cavalheiros certificaram-se dos bigodes.
As damas foram aos lavabos trocar impressões,
Ruborizadas. E os candelabros começaram a dançar no tecto,
Com a manifesta intenção de se tocarem.

Toca tudo a tocar. Toca tudo a sentir.
Por um momento a arte parou,
A Cultura ficou estancada, no camarote real,
Com a coroa à banda e o ceptro no chão.

Tudo teria sido imprevisível em seguida,
Não fossem ter entrado as forças da Ordem
Para reporem intempestivamente a situação.

O músico, que se excitara, foi levado de cena;
E esta foi ocupada por uma banda marcial, esplendorosa,
Que tocou para as luzes todas acesas, para o esplendor
Da ópera, batendo bem as notas nas caixas,
Cuspindo-as com força pelos trombones.

O mundo recomeçara, o Concerto deu-se!








Foto: Loretta Lux (rep. aut.)
Site: http://www.lorettalux.de/
Texto: voj porto dez. 2008
variação em torno de O Concerto de lj
site: http://lilianajasmim.blogspot.com/