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quarta-feira, 3 de março de 2010

ESTE BLOGUE TEM CERCA DE 3 ANOS.
MAIS DE 200.000 VISITAS...


CONTRIBUA COM SUGESTÕES, COMENTÁRIOS, TEXTOS QUE GOSTASSE DE VER DIVULGADOS/PUBLICADOS.


O MUITO TRABALHO ACADÉMICO DOS AUTORES E (PELO MENOS NUM DELES) O INVESTIMENTO RECENTE EM SÍTIOS QUE TÊM MAIS IMPACTE DIRECTO (FACEBOOK E OLHARES.COM) TEM FEITO COM QUE, NOS ÚLTIMOS MESES, AQUI SE POSTE COM MENOS ASSIDUIDADE.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Este blogue contém...



... mais de 200 poemas.

Peço a quem se interesse que faça aqui uma busca por essa palavra... e também, se desejar, que ouça no facebook c. de uma centena de poemas que eu gravei lá em video...
Obrigado!

Ultimamente ando também muito virado para a fotografia:
olhares.com - posto lá por dia 3 fotos na minha (modesta) galeria...passei a andar com uma câmara no bolso para todo o lado, estilo pistola. Mas não mato ninguém.


domingo, 3 de janeiro de 2010

Certa ausência daqui...



Nos últimos dias, após chegar de Inglaterra, tenho estado algo ausente deste blogue... na verdade, tenho-me concentrado noutras actividades, umas mais sérias, outras mais lúdicas, incluindo o facebook... onde descobri (...!) que se pode postar muitas fotos (também tenho no olhares.com) e videos. Tenho já lá bastantes. Questão de procurar em vitor manuel oliveira jorge.
Bom ano Novo para os leitores deste blogue e... não pensem que vou esmorecer, enquanto os deuses me derem vida e saúde. Mas viagens, leituras, alguns contratempos de saúde... arqueologia, poesia, ensaio, filosofia (a estudar, sempre...) , a vida não dá para tudo!
Enfim, passamos horas a comunicar... e isso é bom, encontram-se pessoas novas e interessantes, há uma diversificação da experiência, um confronto com o outro. E aprende-se. Mas os dias são curtos para tanta coisa!



sábado, 26 de dezembro de 2009

a desorientação


Nos seus tempos livres, as pessoas "matam o tempo". Quer dizer, procuram esquecer o seu vácuo e a inexorável consciência da morte, com "passatempos".
Se estão acompanhadas, interagem, nomeadamente com conversas, jogos, toda a variedade de tragicomédias, e confissões. Amor e amizade, subitamente despontados, derramam-se pelo planeta em biliões de votos. Nem que seja para grupos de muitos interlocutores, para atingir o maior número.
Se estão sozinhas, comunicam através dos mais diferentes meios. Puxam do cigarro ou do telemóvel com a destreza com que os cow boys puxavam das pistolas. Enviam mails, mensagens, entram em chats, etc. Também bebem, comem, dedicam-se ao prazer solitário (mesmo que estejam com outro ser humano), ou se drogam, quanto mais não seja consumindo os media.
Alguns esforçam-se ainda para encontrar a salvação, estudando, no meio da confusão geral.
Desorientados no núcleo. Com a sua economia libidinal esventrada.



sábado, 12 de dezembro de 2009

banalidades correntes


Um curso de mestrado custa agora, salvo erro, na minha Faculdade, 1250 euros por ano lectivo, pagáveis em 4 prestações. Entretanto, os estudantes podem solicitar apoio aos Serviços Sociais da UP. No campo a que estou ligado, o da arqueologia, é muito importante que o 2º e 3º ciclos se afirmem e consolidem, para o que são evidentemente fulcrais as bolsas, de modo a que as pessoas que procuram estudar não se dispersem com trabalhos que acabarão por as impedir de preparar as suas teses, por redundar no atraso da sua apresentação, ou ainda, no melhor dos casos, num inevitável baixar de nível de qualidade que pode tornar-se muito preocupante.
Os padrões de consumo, nomeadamente de "bens" caros, envolvendo compromissos a prazo (apartamento, automóvel, etc., para já não falar em questões mais complexas de organização da vida relacional e afectiva) transformaram-se completamente na geração actual, que deseja aceder a todos os "bens" ainda enquanto anda a estudar, em articulação com um constante incentivo ao crédito, e com uma predisposição mais que benevolente das famílias, num contraste profundo com o que aconteceu com a minha geração, nomeadamente entre pessoas de classes médias ou médias-baixas, em que tudo o que se procurava era, antes de mais, obter um curso, por vezes num grande "espartanismo" de vida, hoje inimaginável.
Na prática, muitos estudantes de licenciatura trabalham em algo que não é o que devia ser a sua profissão única, a de estudantes. Cada aluno universitário representa um investimento por parte de todos os contribuintes, em média, mas esse investimento nem sempre é aproveitado devidamente por quem pode consagrar-se ao estudo. A sociedade incentiva a saída mais fácil (a "janela de oportunidade") e não a meritocracia.
Tanto nesse plano, como sobretudo nos ciclos seguintes, a divisão por classes é cada vez mais notória, com o acentuar do fosso entre os que lutam para conjugar empregos mais ou menos precários e estudos, e os raros que se podem dar ao luxo de se não preocuparem com problemas económicos. A questão foi sempre muito a de uma emancipação em relação aos pais, e de afirmação de independência própria de cada geração.
Mas os modos como isso se tenta concretizar mudaram radicalmente no espaço de algumas décadas.
Entretanto, todas as pessoas perceberam que uma coisa é assegurar a sobrevivência condigna, outra a obtenção de um mínimo de competências que permita aspirar à execução de tarefas, outra ainda, e muito importante, a de dispor de um capital cultural e social (de um conjunto de conhecimentos e de hábitos de cosmopolitismo e de um âmbito ou rede de interacção exigente) que permita a circulação em meios de distinção de elites. São estes (a "cultura") que levam muitas pessoas à ribalta, e é a essa ribalta, com êxito mas sem grande sacrifício, que em última análise muitos indivíduos querem ascender, no meio de um consumismo que acaba por atabafar as pessoas, e de compromissos de todo o tipo que a envolvente familiar lhes vai criando, numa teia em que a dita pessoa é (ou se deixa ir sendo) cúmplice, nos pequenos gestos, nas pequenas opções, numa gestão da sua vida que cria um efeito de bola de neve e do nivelamento pela mediania.
Felizes dos artistas, dos cientistas, dos criadores de algo de eventualmente mais perene, que nunca estão satisfeitos com o que já realizaram. Felizes dos que não colocam pantufas mentais demasiado cedo, neste ambiente duro e hostil, cheio de invejosos e até de marginais, à medida que as diferenciações sociais perigosamente se acentuam. A falta de padrões comuns de valor e de hierarquizações partilhadas e interiorizadas de organização, criando esta espécie de sensação de estilhaçamento horizontal (em que cada indivíduo se tornou num tipo de "bicho obscenamente ávido" de se afirmar) e de que tudo a qualquer momento pode alterar-se, são factores de desestabilização que não vale a pena lamentar, mas primeiro que tudo tentar perceber.
Não disse senão banalidades correntes. É também isso um blogue... não querer sempre, ao modo jornalístico, falar sobre o bombástico... ou de forma fulgurante ou profética (ao modo dos "opinion makers") mas tentar recriar aqui o espaço público que hoje nos fugiu para a mediação técnológica sofisticada e para os grandes grupos financeiros que a controlam e para nosso envolvimento (as tais pantufas) a produzem. Pelos pequenos gestos nos vamos acomodando, cada um como pode.
E o glamour de que falava noutra postagem entretanto paira sobre tudo. E sem ele ficamos deprimidos.






Palavra de ordem da modernidade:


Foto ( de Lady Gaga?) publicada na revista PARQ, p. 51
Lisboa, nº 16, NOV/DEZ. 2009
a ilustrar o artigo de Davide Pinheiro "Mulheres na Pop"

___________________________

: GLAMOUR


É esse qualquer coisa que nos atrai como um íman irressistível. É uma aparição. É uma imagem. Mas não é um simulacro, não é uma mimesis: a imagem é TUDO O QUE HÁ.
Pensar bem é pensar imagens.
Mas para se chegar lá é preciso qualquer coisa que a maior parte, por mais que se esforce, não traz para a frente, atrofia, já não tem, se é que alguma vez teve.
Não estamos na época do humanismo.
Não estamos na época dos sentimentos.
Não estamos na época nostálgica das distâncias.


Estamos na época da sedução que nos bate com toda a força, e que é algo que vem de "dentro", não de dentro da pessoa (não há nenhum dentro nem nenhum fora). Algo que vem de um algures indefinível, de um núcleo da pessoa, algo que não tem a ver nem com amizade, nem com paixão, nem com desejo (sexual ou outro).
Algo que tem a ver com a aparição em estado puro, totalmente laicizada.

É o glamour. Esta seta atirada ao meio dos olhos da observação, e que vamos arrancar a meio das costas. Estendeu-se a todos os campos da vida, mas só muito poucos a têm ou sustentam. Não é fashion, não é passarelle, não é roupa, não é estilo, não é design.


É qualquer coisa de outra ordem.
É deus circulando pelas ruas.
É a aparição messiânica que se infiltra subitamente na nossa intimidade, e nos beija os lábios de um modo totalmente inesperado e inaudito, nunca sentido.
Por uma pequena fresta, por segundos, nos acerta.




terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Visão de futuro - precisa-se!

Portugal é um país de cultura antiga e de imensos atractivos num mundo globalizado, onde o inglês se impõs como a língua de comunicação. A maior parte do conhecimento produz-se e transmite-se hoje em inglês. Até para promover a "cultura portuguesa" é preciso fazê-lo por múltiplas vias, em inglês. Ora, como podem as nossas universidades competir na Europa e no mundo se não fornecerem cursos em inglês, a preços competitivos? Como podem organismos de ensino superior ter páginas web sem versão em inglês, com clara informação sobre os cursos e as suas formas de acesso? Mas as nossas universidades por si nada podem sem a atracção das cidades, porque não se imagina universidades no meio do campo: universidades, cidades, aeroportos são coisas ligadas entre si, e sobretudo são vitais as conexões entre transportes de alta velocidade (as estradas não) e grandes eventos internacionais culturais, que são poderosos atractores. A "cultura" está a mudar, e não necessariamente sempre para pior. Abandonemos a pia lamentação de que tudo se transformou em coisa superficial. Os meios de comunicação e novas cosmovisões são um e o mesmo fenómeno. E é preciso não acompanhá-lo, mas adiantarmo-nos a ele. Como? As nossas cidades ou são centros cosmopolitas, com cultura, arte, ciência, congressos de organismos de ponta, ou são província, ficam fora do mapa. Já era tempo de sermos cada vez mais orgulhosos de Portugal. Promovendo-o em inglês. Acabaram-se os Viriatos da nossa escola primária antiga. O que importa é que venha gente para aqui de todo o mundo criar coisas e que parta gente daqui para em todo o mundo criar coisas. O resto são saudosos de Júlio Dinis. Quem goste dessa paz dos campos leia o autor e/ouça a sinfonia pastoral do Beethoven, magníficas obras, pronto. Mas não fiquemos a ouvir os passarinhos, ou os tecnocratas de vistas a curto prazo. Basta!

domingo, 6 de dezembro de 2009

o resto



quando achamos que a nossa carreira está estabilizada, que a nossa saúde não é excessivamente preocupante, que a nossa estabilidade afectiva está mais ou menos "resolvida" (o que só raros privilegiados chegam a sentir ao longo de toda uma vida), então é que se põe o problema principal, que ficou como resto:

e eu, qual é o sentido daquilo que a partir de tudo isto eu faço?
e é aí que cada um desses privilegiados se debruça no abismo infinito da tragédia da vida, da sua solidão irremediável, congénita

alguns ( e muitas algumas) sonham com o que chamam felicidade, amor, etc. E não percebem esta coisa básica: aquilo que procuramos é incolmatável, é o motor do desejo de viver. A morte (a nossa condenação solitária) e a vida são de facto indissociáveis. Freud e outros pensadores do séc. XX foram insuperáveis nisso, no encontro dessa vertigem da nossa irremediável perda de sentido, porque constitutiva do próprio sentido...





quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Hoje...


... foi um dia consagrado aos meus computadores.

Não pude praticamente consultar os mails, sempre às dezenas por dia, e tenho amanhã uma sexta-feira cheia...
Daqui em diante, em Dezembro, a situação de ocupação só tende a piorar... por mim peço benevolência aos nossos leitores!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

pornografia, obsceno, agonia, erótico, eros, etc.

Bettina Rheims



Damien Hirst
Source: http://skullcull.wordpress.com/2008/03/19/take-art-damien-hirst/





Quoting Online Etymology Dictionary
© November 2001 Douglas Harper
http://www.etymonline.com/:

pornography

"1857, "description of prostitutes," from Fr. pornographie, from Gk. pornographos "(one) writing of prostitutes," from porne "prostitute," originally "bought, purchased" (with an original notion, probably of "female slave sold for prostitution;" related to pernanai "to sell," from PIE root per- "to traffic in, to sell," cf. L. pretium "price") + graphein "to write." Originally used of classical art and writing; application to modern examples began 1880s. Main modern meaning "salacious writing or pictures" represents a slight shift from the etymology, though classical depictions of prostitution usually had this quality.
"I shall not today attempt further to define the kinds of material I understand to be embraced within that shorthand description [hard-core pornography]; and perhaps I could never succeed in intelligibly doing so. But I know it when I see it, and the motion picture involved in this case is not that." [U.S. Supreme Court Justice Potter Stewart, concurring opinion, "Jacobellis v. Ohio," 1964]
Pornographer is earliest form of the word, attested from 1850. Pornocracy (1860) is "the dominating influence of harlots," used specifically of the government of Rome during the first half of the 10th century by Theodora and her daughters."

Source:
http://www.etymonline.com/index.php?term=pornography

______________

obscene

"1593, "offensive to the senses, or to taste and refinement," from M.Fr. obscène, from L. obscenus "offensive," especially to modesty, originally "boding ill, inauspicious," perhaps from ob "onto" + cænum "filth." Meaning "offensive to modesty or decency" is attested from 1598. Legally, in U.S., it hinged on "whether to the average person, applying contemporary community standards, the dominant theme of the material taken as a whole appeals to a prurient interest." [Justice William Brennan, "Roth v. United States," June 24, 1957]; refined in 1973 by "Miller v. California":
The basic guidelines for the trier of fact must be: (a) whether 'the average person, applying contemporary community standards' would find that the work, taken as a whole, appeals to the prurient interest, (b) whether the work depicts or describes, in a patently offensive way, sexual conduct specifically defined by the applicable state law; and (c) whether the work, taken as a whole, lacks serious literary, artistic, political, or scientific value. "

Source: http://www.etymonline.com/index.php?search=obscene&searchmode=none


___________________

agony

"late 14c., "mental suffering" (esp. that of Christ in the Garden of Gethsemane), from L.L. agonia, from Gk. agonia "a (mental) struggle for victory," originally "a struggle for victory in the games," from agon "assembly for a contest," from agein "to lead" (see act). Sense of "extreme bodily suffering" first recorded c.1600.
agonist
1914, in writings on Gk. drama, from Gk. agonistes, lit. "combatant in the games" (see agony)."


Fonte: http://www.etymonline.com/index.php?search=agony&searchmode=nl


________________

erotic

"1621 (implied in erotical), from Fr. érotique, from Gk. erotikos, from eros (gen. erotos) "sexual love" (see Eros). Eroticize is from 1914. Erotomaniac "one driven mad by passionate love" (sometimes also used in the sense of "nymphomaniac") is from 1858. Erotica (1854) is from Gk. neut. pl. of erotikos "amatory," from eros; originally a booksellers' catalogue heading. "

Fonte: http://www.etymonline.com/index.php?search=erotic&searchmode=nl


eros

"god of love, late 14c., from Gk., lit. "love," related to eran "to love," erasthai "to love, desire," of unknown origin. Freudian sense of "urge to self-preservation and sexual pleasure" is from 1922. Ancient Gk. distinguished four different kinds of love: eros "sexual love;" phileo "have affection for;" agapao "have regard for, be contented with;" and stergo, used especially of the love of parents and children or a ruler and his subjects. "




A partir destas citações, que se conclui? Muita coisa, mas agora só breve nota.

Que a pornografia, a que damos uma conotação normalmernte negativa, por oposição a erotismo, pode ser tomada em muitos sentidos. Originariamente estava ligada à descrição (grafia, por oposição a logia, que é ciência, razão, diferenciando-se de simples descrição, tal como dizemos etnografia e etnologia) de mulheres que eram uma mercadoria, objecto de comércio, escravas, prostitutas. Só modernamente o sentido reaparece, como invenção dos últimos séculos, articulado a algo de moralmente reprovável (“salacious”).

Com o desenvolvimento da imagem (fotografia, cinema, televisão, e o que tudo isso anuncia de um mundo indistinto entre o chamado real e o chamado virtual) e com a sofisticação moderna dos jogos de sedução pela imagem, já se vê que juízos morais do passado, mais que hipócritas (a sociedade que condena a “pornografia” é a que a inventa e avidamente a consome) deveriam ser revistos. Hoje parte da arte contemporânea liga-se à pornografia e essa parte a que me refiro e não posso aqui desenvolver por falta de tempo é muito interessante. Trata-se de abater dicotomias moralistas, atitudes pudicas da maior hipocrisia, numa sociedade dominada pelo crime maior, que é o da exploração e o do lucro a curto prazo, pelas máfias, pelas economias paralelas, pela destruição do ambiente, por toda a casta de “poucas vergonhas”...

E nada disto tem a ver com uma atitude de contemporização relativamente a uma exploração industrial do ser humano (homem ou mulher) em termos “sexuais”, e muito menos com a pedofilia, um crime. É um assunto que me interessa pensar e a que hei-de voltar. Por outro lado, "obsceno" não significa propriamente apenas "fora de cena", que se não pode ou deve ver, mas está conotado com toda uma teia de juízos morais e de gosto que se geram na modernidade. E agonia, que ligamos à ideia de morte, está evidentemente articulada com o limiar transcendente do pathos orgásmico, altamente erótico (ou pornográfico), simbolizado pela figura desnuda de Cristo na cruz (de que a subversão feminista é apenas uma variante), sublime e sublimando o seu desígnio mais que heróico, o seu desígnio de completar a obra de Deus. É toda a união da dor máxima com o prazer máximo, o limite, que aí emerge. Enfim, isto é pano para muita manga... mas tem de se voltar a Foucault (etc) e pensar muito nisto tudo.





domingo, 29 de novembro de 2009

agonia



A relação da arte com a religião (no sentido mais amplo, ou seja, de uma relação com o distante) tem sido, em todos os tempos, estreita.

Por que será que os maiores autores, por muito "ateus" que fossem ou sejam, se cruzam sempre com esse limite de horizonte?
Essas obras deixam-nos sempre exaustos de tanta beleza, de sublime. É por demais, é um sofrimento, como um orgasmo arrastado e exaustivo.
Modestamente (é bom dizer assim) é o que procuro na minha pobre poesia. Esse êxtase, tão pouco à moda, onde se cruzem as mais directas e brutalmente expostas formas de transcendência: a agonia do amor e da morte.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

estímulo súbito numa vida estúpida









Esta vida que uma pessoa leva é tão estúpida, que quando recebe finalmente um mail de um colega respeitável com quem pode dialogar, meu deus, já se sente que se ganhou o dia...
avante para Serralves para ouvir o Hal Foster!
Valha-nos isso, madre santíssima!




domingo, 22 de novembro de 2009

última chance



a era do erotismo esgotou-se.
resta-nos a hipótese da porno-grafia.
como tantas outras grafias e logias, invenção da modernidade.
como tantas invenções laicas, a continuação do religioso por outra via.
a aparição do inaudito.
nossa senhora.
sagrado coração de jesus.
há ainda algo de profanável, de violável? eis a questão.



agitação tardia da pátria


foto voj tirada de um carro em movimento entre cascais e lisboa, 18 nov. 2009

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mar, a tua noite, a cor escura
que como hálito primordial
irradias
sobre o meu passado


que guardas os peixes negros e prateados
que saltam
sobre o meu coração
e agitam as suas guelras
ensanguentadas
como asas de aves mortais.


mar que me dóis
como a minha infância
de que fui expatriado.



_________________________________
voj nov. 2009

encontro



Quando o autor é lido pelo público, por cada leitor, e depois se dilui em todo este mundo indefinido e vago, e a sua obra segue o curso da história, como garrafa deitada ao mar sem se saber se chegará a alguma praia do futuro, tudo se passa em silêncio. O autor dá-se bem com esse silêncio e com a consciência que existe em si da alegria de escrever, de criar uma melodia, de abrir fotografias neste dia-a-dia vulgar, fotografias que se debruçam sobre outros universos. O autor sabe quando fez alguma coisa que se veja, como o arquitecto que coloca o último elo sobre a sua cúpula, e diz: não cairás, eu te ordeno. Dessa garantia o autor tem de estar certo. Já se demoliu tudo, mas dessa garantia de que continua a haver arte, uma certa forma ou fórmula, que cada um procura, de erguer à superfície da terra uma arquitectura, e poder mirá-la como coisa que entrega ao espaço público, essa potência, essa tesão, o autor tem de tê-la.
Mas quando o autor vai ter com o seu crítico, aquele que leu o seu trabalho pacientemente e lhe quer exprimir com toda a sinceridade o que pensa, o autor vai com o coração nas mãos. Não à espera de um elogio. Não à espera de uma análise fria, como se o seu trabalho fosse um grande retalho de carne estirado sobre uma mesa, sangrando, à espera de quem o prepare para fritar ou assar. O autor vai na expectativa da amizade. Qual amizade? A amizade do leitor que mais que outro qualquer leu a sua obra cautelosa, habilmente, sabiamente. O autor vai à espera de uma empatia. Com o que fez? Nem tanto. Vai à espera de uma palavra que lhe sirva de abrigo num dia de chuva e lhe diga, com afectividade: o que você fez não se aguenta sob esta chuva, é fraco, é pouco, é errado, são muitas as falhas, digo-lhe isto para seu bem.
E acrescente: mas o seu trabalho abriga-nos da chuva. Você puxou aqui por algumas forças, e construíu com elas algo. E é desse algo que o autor, que se dirige à pressa para o seu crítico para não chegar atrasado, vai sempre à espera. Daquela palavra que lhe permitirá sobre-viver à crítica, e continuar, de pé, erecto, potente, a tentar foder a arte, a tentar possuir, dar a volta à cintura, da maldita beleza, ou sublimidade, ou fantasia, ou sedução, ou violenta porno-grafia, ou seja o que for, que persistentemente persegue como à mulher que ardentemente deseja.



segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Amanhã




Desloco-me a Lisboa para apresentação do meu livro
Electri-cidade,
como anunciado.
O excesso de trabalho não me tem dado tréguas para me dedicar um pouco mais a este blogue.
Apelo para ajuda do meu colega de blogue,
pois, mal regresse na quinta-feira, é logo directo a aulas!
No dia 28, como anunciado, são lançadas duas revistas, os TAE e o JIA de 2009, aqui no Porto (Centro Unesco, R. José Falcão), 15,30 horas, seguidas de conferência pelo Doutor Gonçalo Leite Velho, do IPT. Entrada livre.






sexta-feira, 13 de novembro de 2009

a revolução diária de tentar pensar

Quando uma pessoa consegue finalmente afastar as "moscas do dia", entendendo eu por isto aquelas coisas da mais diversa ordem que permanentemente o distraem do trabalho (quer dizer, do núcleo do seu desejo, neste caso para pensar*), fazendo-o confundir-se ilusoriamente com uma gesticulação sem sentido para "resolver" pequenos atritos da vida... dá-se por nós e vai a caminho das duas da manhã do dia seguinte... algo gravoso quando depois uma pessoa se lembra que tem de acordar às 7,30 h. para ir dar uma sessão de mestrado de várias horas pela manhã... maldição! Isto é mortífero.


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* entendo por pensar: desconstruir o que parece absolutamente evidente, ou seja, a tentativa desesperada da consciência se furtar à sua total sobreposição aos (ao domínio dos) mecanismos protéticos (ou pretésicos - de prótese), cinemáticos, da sua fabricação hiperindustrial contemporânea - a industrialização sistemática dos dispositivos retencionais de que fala Stiegler, na linha de Husserl e Kant. Um grande autor. Terei de voltar a isto à medida que o estudo. O seu vol. 3 de "A Técnica e o Tempo" (Paris, Galilée, 2001) é absolutamente CRUCIAL, ao lado de Foucault, Lacan, Deleuze, Derrida, Zizek, Ingold e outros gigantes que, na sua heterogeneidade, mudaram a nossa maneira de nos olharmos.
Seguindo a via da intuição, intransigentemente persigo estes autores na tentativa de me furtar ao senso comum, por um lado, e ao academismo da minha formação, por outro - digamos que são os dois diabos que estão à minha esquerda e à minha direita sempre a quererem seduzir-me arrastando-me para a preguiça, a banalidade auto-satisfeita, numa palavra, a estupidez.





sábado, 7 de novembro de 2009

a vida como obra d' arte... mesmo que seja de "arte povera"...









uma vez uma amiga minha perguntou-me como é que eu conseguia fazer tanta coisa...
bem, ao referir isto não estou a presumir nada, porque quantidade, a existir, não significa qualidade...




mas eu disse-lhe que todos os dias procurava dar o meu melhor (o meu máximo) tal como quando se está a fazer uma tese de doutoramento e se tem de esgalhar...
senão... ou não se faz tese ou se faz uma coisa que não é digna desse nome. e o primeiro a ficar desesperado é o próprio autor, ainda antes do juízo dos outros, se tiver alguma noção do que anda a fazer!

é preciso viver a vida com a delizadeza e a atenção do poeta, e ao mesmo tempo com a tesão (no sentido espanhol de tesón, empenho, força - não seja eu mal entendido...) de quem vai morrer a qualquer instante.

É preciso ser um brutamontes na intransigência da beleza: é preciso o sublime.
É preciso, como eu dizia há dias a propósito de alguma da minha poesia, uma mística porno-gráfica, ou uma porno-grafia mística, como se quiser.
Um grande impulso para a frente e para cima.
É preciso a aparição.
Tudo o resto é trash.













fotos voj porto (aqui na minha rua, ao estacionar, vi esta aparição diante de mim... aproximei-me com a máquina para fazer o shot antes que os cogumelos miraculosos desaparecessem da visão) nov. 09



sábado, 31 de outubro de 2009



















Onde a noite.
Onde a jovem.
Com o sexo rodeado de pétalas vermelhas.
Com as virilhas cheias de lantejoulas.


A jovem,

já.


Todo o corpo do carro o exige,
Todo o tempo se projecta em frente,
E os tubos, e os orgãos, e as rodas, e a música,


Já.

A mais absoluta desvergonha.
O mais total carinho, não de palavras:
Mas o acto simples, simples, desdobrado
No silêncio eterno e impiedoso.


Despido de lirismo, nu de literatura.



São as batidas do coração
Nas baterias da noite:


já!



A jovem do sexo completamente forrado
De veludo, exalando um odor a incenso,
De rosto completamente coberto por camélias,
De sexo exposto e belo.



De boca debruçada amorosamente
Sobre este sexo seguro no ar, todo um calor envolvendo
A púrpura inchada, a única força que resiste
No meio da noite, entre os lampiões.


A última beleza que resta.
A única noite que há.


A única jovem, a jovem única, a jovem
Já,


Dando totalmente sua ternura,
Não de bejinhos e carinhos e outros inhos
que poluem a cidade,

Mas do acto carnal, maravilhosamente
Desbragado e saboroso.

O sexo rodeado de corações de veludo,
E o coração rodeado de sexos de pétalas,


E esta urgência
Por ruas íngremes


A agonia, a ternura da agonia
Para morrer já
Com a boca da jovem abraçando a púrpura
Da cabeça do sexo altivo, feliz, em júbilo,



Essa cumplicidade jovem e simples.

No meio da noite,

Já.



Já.


Esperma, esperma jovem e grosso e feliz
A descer para as águas negras e
Já grossas e velhas do Douro,


Aqui. Agora, Já.



texto e foto voj out. 2009 porto

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

de través




























Enquanto caminho, desejoso de chegar
Ao meu objectivo, vencendo, com a força das pernas,
De todo o corpo, este atrito da atmosfera que
Atravesso –

Ouvindo o som que os meus pés calçados
Em botas grossas fazem nos grãos da areia
Das áleas, o som interior do corpo trabalhando
Como o da casa de máquinas de um navio –

Enquanto atravesso assim a noite entre o esperançado
E o indeciso, nesta permanente fluidez de sensações
Que me percorre, e vejo as árvores penderem
Numa certa direcção, como se quisessem
Também caminhar –

Avanço, parece-me que se aproxima o meu objectivo,
E que aquilo que foi o mundo em meu redor
Vai escapando para trás
E arredondando-se, e abrindo-se, à minha frente –

Sinto-me imerso na noite como se esta fosse uma tinta,
Uma onda de tinta enorme que tivesse descido
E me envolvesse, dificultando o que mais gosto,
Ver os contornos nítidos, recortados até fenderem a vista,
Dos objectos –

Enquanto caminho assim triturando os grãos de areia
Por fora, e triturando, dentro, os meus órgãos que nunca vejo -

Nesta pressa de chegar, nesta antecipação de tanta coisa,
Que nunca chega a aparecer como esperada –

Enquanto caminho do nada para o nada,
Ou do tudo para o tudo, neste sem-sentido
Pleno de razões, que para mim próprio repito -

E fotografo, com detalhe e precisão, as cores, os ramos, os troncos,
Coisas a que ninguém liga agora neste jardim anoitecido
Onde só os lampiões acesos parecem marcar, aqui,
E mais além, a vibração eléctrica de um peito humano -

Atravesso a própria devastação, como se atravessasse
Um filme que já vi, e sem qualquer esperança de encontrar
Quem quer que seja, como se habitasse um jardim de bancos e
Janelas iluminadas ao longe, triturando pouco a pouco,
No início da noite, mais uma vez e naturalmente, a minha morte -

Com um passo apressado, como se fosse ao encontro
Do amor, eu, o desencantado eternamente encantado,
Por esse próprio movimento vou, esses sons, pelos jardins abandonados,
Em direcção a destinos inventados, onde já chegou toda a gente -

Antes de mim, e a multidão vestida, arranjada, se acumula
Como se estivesse tudo reunido em torno de algo crucial,
Como se, tal como as árvores inclinadas -

Tudo se voltasse ansiosamente para o acontecimento,
Numa espécie de excitação que lá fora a noite não deixava adivinhar.

Piso o espanto, desço as escadas do espanto, entro nos átrios
Iluminados pelo espanto, as caras lívidas dos que vieram aqui
Passam para trás de mim, para o meu passado, enquanto o mundo
Se arredonda à minha volta, como se eu estivesse a filmar
O meu próprio movimento -

Nesta cinematografia atravessada de azul escuro e
Reflexos de través.





texto e foto voj porto out. 2009