Mostrar mensagens com a etiqueta nótula. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta nótula. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Nótula... já não me lembrava de que tinha escrito este apontamento






in "O Arquitecto Paisagista. Conceito e Obra", Lisboa, Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas, 2007, pp. 25 a 27.

(a nota aparece também no livro em versão inglesa)


domingo, 18 de março de 2012

perda



Era uma vez um homem que perdera temporariamente o futuro, de forma tão inesperada quanto a que pode acontecer com as chaves de casa, ou do carro. Mas perder o futuro, mesmo temporariamente, é complicado, porque não se pode obter uma cópia para usar de novo. Não está nos perdidos e achados. Não se pode encontrar facilmente nenhum culpado, nem o próprio, nem os que o agridem, ou foram agredindo, de forma mais ou menos insidiosa. O homem que perde, mesmo que temporariamente, o futuro, fica entregue aos objectos. Estes aparecem-lhe como figuras indecifráveis. Não tem descanso dia e noite, mesmo que conheça e viva intensamente o mais extremo amor e ternura, mesmo que faça tudo para ser feliz, mesmo que tenha momentos extraordinários. Na base, no fundo, ou lá num sítio indefinível como é costume pensá-lo, este homem paira no vazio. Este homem tem um certo medo desse vazio, de não conseguir suportar a ausência de si próprio que o futuro perdido lhe deixou. Este homem está tolhido. Está nu e está pobre, o seu corpo tem momentos de grande veemência, mas outros em que lhe apetecia descansar para sempre. Este homem não sabe o que dizer, parece que tudo o que diz é apenas o eco do que pensou antes, dentro de uma caixa oca. Este homem tem medo do confronto, este homem sem futuro é um menino sem pais. Órfão de si mesmo. E no entanto fascinado e inquieto perante os objectos. Que lhe aparecem por toda a parte, dizendo-lhe: nós somos o passado, um passado onde tu não estiveste. E o homem tem medo, medo de não voltar a sentir-se no presente, pleno e vigoroso, e com um futuro tão certo como as chaves de casa na mão. Medo de se tornar um sem-abrigo, no sentido mais íntimo em que se pode ser um sem-abrigo.
Então o homem que perdeu temporariamente o futuro instou junto de muitos guichets, e entidades, e pessoas: dêem-me por favor um futuro, ajudem-me a reencontrar o meu futuro, um futuro que não tenha nada a ver com este mundo hostil e vazio, com esta realidade cheia de arestas cortantes, com estas funções que se me exigem, com esta alegria que se me espera, com esta normalidade que é suposto ter, com esta vontade de todos os dias ir para o espectáculo da vida e ser um bom actor.
O homem que perdera temporariamente o futuro encostou o rosto à face acolhedora, incondicionalmente acolhedora, e ouviu dizer: protege-me, ajuda-me, sê forte e dá-me um futuro a mim também, estou cansada de não saber bem para onde ir, também eu.
E aquele homem pensou que lhe tinha surgido a primeira e talvez única tarefa verdadeiramente urgente, depois de perder tudo, tudo, e lançou-se com acrescida convicção a essa tarefa, ainda totalmente atordoado, mas com o peito exposto à mão ardente, à sua festa reconfortante, e calçou finalmente as meias e os sapatos para caminhar para o momento seguinte. Amo-te, ouviu dizer ainda. E pareceu-lhe confirmada a tarefa que afinal, quem sabe, o esperava desde que nascera.

voj loures 18.3.2012 (foto e texto)
Para a Flor


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

amor

Foto voj fev. 2012 - reprodução interdita.


Perdão pelas banalidades que vou escrever. O autêntico amor entre duas pessoas adultas está, para o "amor" correntemente procurado e praticado na nossa sociedade de hoje, como (permita-se-me a vulgaridade) uma verdadeira refeição para o fast food, ou um verdadeiro saber para a informação mercantilizada que para aí circ
ula. Custa. É um processo fabuloso de adaptação, naturalmente desejado, mas um processo extremamente complexo. Só que esse processo de verdade, de carinho, e de "cumplicidade" no melhor sentido, tem de ser construído também com algum sofrimento. Nem uma criança já acredita em amores à primeira vista, duradouros, do tipo "casaram e foram muito felizes". É muito diferente. Um amor feliz é como uma obra de arte: raro, mas tão cheio de momentos extraordinários que só ele de facto justifica viver. Naturalmente que a montante é necessário algum equilíbrio psicológico e maturidade de cada um dos envolvidos. Nem sempre o que parece é; também é preciso intuição, vontade imensa, e sorte (seja o que for que se entenda por isso). Só este amor vale a pena.

domingo, 21 de agosto de 2011

palavras e coisas: sua dialéctica na história da arqueologia



O caminho que a arqueologia tomou foi o de partir de textos (de "coisas com textos"- epígrafes, inscrições, medalhas, moedas) para a objectualidade de coisas cada vez mais "neutras", chegando à totalidade do espaço e confundindo-se assim com as outras ciências que o "monitorizam". Mas mais recentemente (últimas décadas) a arqueologia (a mais inteligente) tendeu a "textualizar" de novo o espaço dessa objectualidade, isto é, a de o ver como um conjunto de citações. Isto é importante.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Happy end

FLUP, 3 de Junho de 2011. Augusto Lemos, José Manuel Varela, Sérgio Rodrigues, eu e a Carla Stockler. Foto de Alice Semedo.



Acabei de chegar da minha última aula da FLUP. Agradeço muito a todos os amigos e colegas que quiseram vir assistir, abraçar-me, rodear-me de atenções, incluindo tirar fotografias comigo, nomeadamente pessoas que viajaram de longe (incluindo Alentejo e Algarve). Bem hajam! Estive ininterruptamente na sala entre as 15,30 e as 20 horas.

sábado, 2 de abril de 2011

estas sombras

estas sombras


sentir o corpo a atravessar o ar

a tarde sem qualquer urgência

nas sombras, nas árvores


esta sensação de caminhar,

de sentir o chão, o seu atrito suave,

sentar-me sobre a pedra

rugosa e ocasional


e olhar as luzes que se acenderam

bem longe

os reflexos que por todo o lado

se acenderam

e me rodeiam


e sentir a consciência escorrer

como um rio silencioso

e tão cheio de pequenos silêncios

e redemoinhos


e esperar por uma mão

tão suave como a pele da pétala


que venha sossegar a minha pele

gretada


cair suavemente sobre ela,

como folha simples

sobre a superfície rugosa

do granito


deitar as sombras

sem qualquer urgência

sobre o meu corpo


deitar as árvores, as flores

sobre o rio escorrendo


fluir sem qualquer ansiedade

ou objectivo, ou intenção


ver a paisagem ao meu lado

atravessar o ar ao meu lado


uma coisa assim tão simples

ocasional


revelação da pessoa

revelação do tempo


estas botas dão-me tão bom andar

há muitos anos que não caminhava


contra o ar, com uma mão na minha mão.


estas sombras tão tranquilas.





voj abril 2011, porto

quinta-feira, 31 de março de 2011

Travessia



Dizia eu a um amigo de infância que se divorciou há pouco de um longo casamento, e por vontade da outra parte: não te deixes levar pela urgente necessidade de companhia; não utilizes as pessoas como pastilha elástica para aventuras passageiras que deixam sempre um sabor amargo; não te deixes seduzir facilmente por ninguém. Reconstrói-te primeiro. Tens de te refazer a partir da base. O teu espaço. O teu equlíbrio. A tua serenidade. ALGUÉM aparecerá um dia. Até lá, atravessa o deserto. Dolorosamente. Ter tomates é conseguir aguentar isso, e não demonstrações ridículas de confirmação de virilidade ou de altivez. Uma experiência dessas é uma experiência de verdade: o refazer de toda uma vida e de toda uma identidade. Não odeies quem te fez isso: é um sentimento que corrói. Mesmo que te sintas injustiçado até à medula, amigo, prossegue o teu caminho de homem bom e justo. E escolhe daqui para a frente apenas pessoas sãs de espírito, que são muito difíceis de encontrar. Mas, olha, mais vale só que mal acompanhado. Ou que viver no equívoco. Amplia os teus amigos; abre-te aos outros. Um dia O Rosto aparecerá. O Rosto belo, iluminado, Puro.


quarta-feira, 23 de março de 2011

Con(finados)



Se nos confinamos a um campo de saber, podemos ter nele êxito e aplausos dos nossos pares. Mas um dia olhamos à nossa volta e vemos que estamos todos, nós e os nossos pares, metidos numa sala, e que há muito mais mundo lá fora. E olhamos pela primeira vez para aquele espaço como o de uma cela. Não era afinal um saber, era apenas uma questão de segurança. Era a cegueira cega, inocente, de quem se confinou.

Mas a maior parte das pessoas ainda não interiorizou isto. Implica riscos. Implica a ansiedade da interdisciplinaridade. Implica o despaisamento. Um certo cosmopolitismo. A maior parte das pessoas ocupa-se quotidianamente como forma de se auto-desculpar (inconscientemente) de nunca poder fazer o que seria mais interessante. A maior parte das pessoas ocupa-se sempre do mesmo, como quem vai por um corredor às escuras e tacteando as paredes ao seu lado. E desemboca em salas onde lá estão os pares, substitutos da segurança doméstica, para o/a certificar de que o caminho valeu a pena. A maior parte das pessoas, para não dizer quase todas, deixou atrofiar muitas das suas potencialidades de sair do corredor, de fugir aos aplausos. Vivem no auto-comprazimento. O importante é passar pelo anel de fogo que nos abre outras perspectivas. Que nos permite, mesmo chamuscados, voltar a sentir que temos pele, e vida, e energia, e autêntica criatividade. Passar pela famosa e batida imagem do deserto. Sempre com a esperança de encontrar um oásis onde o turismo, os media, a banalidade do entertainment não tenham chegado. Onde esteja o Rosto Luminoso, Apaixonado.

domingo, 13 de março de 2011


Dizia-me uma vez um amigo chegado: "é muito difícil, é uma experiência-limite, habitar um apartamento grande povoado de memórias e subitamente esventrado de coisas, de pessoas, de bichos, de móveis. As salas parecem desertos. Cada pequeno som nos põe alerta. E às vezes um tipo muito particular de medo impede-nos o repouso. A Ausência absoluta é uma Presença temível."

segunda-feira, 7 de março de 2011

kairós



Se alguém com quem se partilhou uma vida (ou julgou partilhar... e este aspecto é fundamental) decide mesmo partir, nada há a fazer.
Nunca possuímos nada nem ninguém; nem percebemos o absurdo (o Real) contra o qual de súbito chocamos.
Uma falésia tomba à nossa frente; outra atrás de nós.
E, do pequeno espaço que nos resta, ou podemos ...cair no abismo, ou então levantar voo, com uma juventude e alegria incríveis!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

postura algo messiânica...

Em relação aos que na vida me apunhalaram pelas costas, tentando consciente ou inconscientemente liquidar-me, eu digo:

virarei o brilho das lâminas com que me feristes contra os vossos olhos, e cegar-vos-ei. Assim, eu vos prometo: cegos sereis.

Passarei sobre a vossa campa rasa com as mãos cheias de lâminas brilhantes, espalhando música.... E esta calará até o vosso sussurro ou lembrança.



voj

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Agamben: como podem tantos historiadores e tantos filósofos e todos os outros passar-lhe ao lado?

Agamben: como podem tantos historiadores e tantos filósofos e todos os outros passar-lhe ao lado?... Etc. (breve nótula)


Correlação estrutural entre jogo e rito, entre diacronia e sincronia; nascimento e morte, crianças e larvas, e o problema da história.

Uma reflexão fundamental de Giorgio Agamben a partir de (e em homenagem a) Claude Lévi-Strauss

no:

Capítulo “O país dos brinquedos. Reflexões sobre a história e sobre o jogo”, do livro “Enfance et Histoire. Destruction de l’ Expérience et Origine de l’ Histoire”, Paris, 1989, 2ª ed. Paris, Poche et Rivages, 2002, pp. 121-158 [edição original italiana de 1978].

ESTE TEXTO E TODO ESTE LIVRO SÃO ABSOLUTAMENTE FULCRAIS.

Como pode continuar tanta gente a pensar que para se poder pensar (filosoficamente) é preciso rever a história da filosofia do início para o fim, como normalmente se faz nos cursos de filosofia, isto é, começando nos pré-socráticos e terminando na actualidade?

Como pode não se ter percebido ainda que o presente, os autores actuais, REFAZEM os autores passados, que se pode ir às arrecudas, que por exemplo Agamben é indispensável para se entender (e reformular) Benjamin, que Lacan é indispensável para se perceber retrospectivamente toda a importância de Freud, que sem Miller e Zizek não se entende patavina de Lacan, e por aí adiante? Que o pensamento grego, latino, medieval só têm interesse se vistos à luz do presente, das nossas questões mais comezinhas que infiltram, impregnam, determinam cada uma das nossas opções, usos, hábitos, pensamentos, sentimentos diários, actos irreflectidos, comandados pelo inconsciente?

Todos pensamos. Todos sentimos. Todos agimos de acordo com o que pensamos.

Mas muitos não sabem o que sabem.

E quase todos não sabem como começar a tentar saber o que já sabem.

Sem a consideração do inconsciente, tal como ele continua a ser problematizado, é IMPOSSÍVEL perceber seja o que for.


voj 12.2.2011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

estilo



AS COISAS MAIS "VERDADEIRAS" (POSSUIDORAS DE POTÊNCIA) SÃO AS MAIS SINGELAS, AS QUE REFUTAM OS FLOREADOS E AS INTUIÇÕES. PORÉM, ESSA SINGELEZA, ESSA FORÇA, LEVA UMA VIDA A CONSTRUIR.
NÃO É EXPRESSIVA, NADA TEM A VER COM SENTIMENTOS.
ESSA FORÇA É A POTENCIAÇÃO MÁXIMA DE UM ESTILO.

domingo, 9 de janeiro de 2011

ilusão fundamental



Um blogue (web log) é um bloco-notas, uma espécie de diário voltado para fora, público. Implica uma auto-encenação como qualquer diário. O que eu fiz foi transplantar para o facebook a mesma metodologia deste blogue , ganhando em interacção e impacte (instantaneidade), o que hoje em dia é crucial para a comunicação. As pessoas têm a ilusão de "seguir" a minha vida...



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A gestão mais difícil - o confronto com o Vazio

O desejo é o que nos conduz, claro, mas o problema está sempre em aberto: qual a economia libidinal que cada um escolhe para si? Que ideal do eu persegue? Por que é que tantas pessoas estão no desemprego, já sabemos - a exploração desenfreada própria do capitalismo. Mas por que é que tantas pessoas, podendo reformar-se, continuam a trabalhar como loucas, por vezes num trabalho alienante (por muito que o representem como tão indispensável como o tabaco, a bola, a sua própria respiração e felicidade, etc) ? Evidentemente, o trabalho é o que as ancora à realidade, ou se se quiser, o que lhes permite a ilusão de que são indispensáveis, de que colmatam a sua Falta. As pessoas têm horror ao Vazio. Por isso estamos aqui, nas redes sociais. Por isso as pessoas têm tanta dificuldade em gerir os seus tempos de lazer (as férias tornam-se um frete por vezes tramado, sendo que é uma obrigação gozá-las bem). Os reformados ficam confrontados com o sem-sentido último da vida. Há quem se agarre às religiões. Diz-me a que tábua se salvação te atiras, dir-te-ei o tipo de náufrago/a que és... é aos filhos? é à família? é aos/às amantes? é aos milhares de nichos de entretenimento? É à paciente construção de uma Obra? É para vencer concursos ou ganhar prémios? É para ser lido/a daqui a 500 anos? Qual a economia libidinal de cada um? É disso, dessa construção fantasmática de cada um, de que trata (salvo erro) a psicanálise. Como cada um gere o (seu particular) Grande Vazio.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

uma arqueologia da arqueologia: breve nótula

para uma arquelogia da arqueologia: algumas notas sobre uma reviravolta necessária nos pensamentos e nos procedimentos


Quando a arqueologia se constituíu nos finais do século XIX como formação discursiva, como “disciplina” científica, destacando-se da história da arte, por um lado, e da longa tradição de antiquarismo, por outro, isso foi um fenómeno ocidental e muito particularmente ligado ao estado-nação moderno (v. Thomas, Julian, “Archaeology and Modernity”, Londres, Routledge, 2004). Cada país procurou firmar as suas raízes na mais remota antiguidade e seus “testemunhos” mais ou menos míticos, quer greco-latinos, quer nacionais (estes sobretudo naqueles países que tinham ficado fora do âmbito territorial do império romano): mas o “movimento nobilitador e identitário” é o mesmo. Como outra face da moeda, as “ciências naturais” (geologia, biologia), o evolucionismo e a ideia de uma “história natural do homem”, aliadas à etnografia dos “selvagens” (ou “primitivos”, uma invenção ocidental que legitimou todos os colonialismos), impuseram a noção de uma pré-história comum a toda a humanidade. Aí a disputa foi menos pelos pergaminhos nacionais em termos de grandes feitos expressos em monumentos e obras patrimoniais, e mais em torno da “antiguidade” maior ou menor dos indícios do “progresso” (grau de hominização dos indícios fósseis, antiguidade da “arte rupestre”, pioneirismo em torno de “descobertas” técnicas e produtivas, etc., etc).

Neste quadro, bem conhecido, é interessante repensar o conceito de história, e em particular de pré-história, e, como sintoma, o próprio desinteresse que tem havido por parte da União Europeia em, ao contrário do que poderia ser de esperar, fazer da sua “pré-história comum” um elo de ligação entre povos, nações, estados. Porquê, por exemplo, esse estatuto de margem dos “pré-historiadores”, dos arqueólogos das “origens”?

O discurso, ou narrativa, da continuidade, com a teleologia implícita, e a con-fusão, inerente à história, entre antecedentes e causas (descrever é perceber, é explicar mas diferentemente das ciências do cálculo), ligados à procura das “origens”, da archè, em particular na nossa tradição greco-latina e judaico-cristã têm sido discutidos por numerosos autores.

A mim interessa-me tentar prolongar algumas questões suscitadas por Giorgio Agamben no seu texto “Arqueologia filosófica”, inserto no livro (cito a tradução francesa) “Signatura Rerum. Sur la Méthode” (Paris, Lib. Ph. J. Vrin, 2008, pp. 93-128, na linha de Nietzsche, Foucault, e outros, e convocando também o pensamento de Walter Benjamin (noção de “reactivação”) e de Jacques Lacan, e do que na sequência deles se tem pensado sobre a condição do ser humano. Sem esquecer Alain Badiou ou Slavoj Zizek.

A minha convicção é a de que lavramos num mito fundamental, e esse nosso mito ocidental (que, como outros produtos ideológicos, “vendemos” a todo o mundo) é o da história e do tempo “continuista”, cronológico, tal como o temos pensado, tanto do lado dos “reformistas” do estado social (hoje falido), defensores de uma “redenção” por passos, como dos “revolucionários” sonhadores de um “tratamento de choque” igualmente de cariz religioso, escatológico, mesmo que não assuma aspectos fundamentalistas e se procure integrar nos quadros parlamentares do chamado “estado de direito”.

A questão do evento, da sua imprevisibilidade, e das rupturas que se darão certamente numa civilização que parece já viver no apocalipse, no “fim do tempo”, como diz Zizek, eis o que me interessaria debater.

Tendo consciência de que estes considerandos são apenas um resumo de uma reflexão que julgo crucial e que tenho em curso (e que se expressou resumidamente na lição inaugural do ano lectivo que fiz a 13 de Outubro da FLUP intitulada “A Arqueologia e as suas Metáforas”).

Porto, 15 de Novembro de 2010

Vítor Oliveira Jorge

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Missão cumprida

Chegámos da cultura e da civilização.
Com mais uma mala de livros e DVD's!
Missão cumprida... vejam fotos no facebook e olhares.com...
Logo conto!
Cheers
Vítor

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

António Lobo Antunes









Acaba de dar uma entrevista maravilhosa a Mário Crespo no Jornal da 9 da Sic Notícias.
Às vezes há minutos televisivos que são a redenção de um dia, vulgar como todos os dias.



Fonte da imagem: http://www.dquixote.pt/

sábado, 15 de novembro de 2008

Ontem, na FEAA, o Prof. António Bracinha Vieira indicou este livro...


Chimpanzee Cultures

por Richard W. Wrangham (coordenador)
assim apresentado na Amazon (http://www.amazon.co.uk/gp/product/0674116631/ref=sib_rdr_dp):

Paperback: 448 pages
Publisher: Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts; New edition (27 Nov 1996)
Language English
ISBN-10: 0674116631
ISBN-13: 978-0674116634

"Do chimpanzees have something akin to culture? Bringing together studies of behavioural variation within and among chimpanzees and bonobos - the sibling species of the genus "Pan" - this book provides the basis for answering this question. In "Chimpanzee Cultures", leading authorities on chimpanzees and bonobos chronicle the animals' behaviours from one study site to the next, in both captive and wild groups, in laboratory and field settings."

__________
Como se vê, o assunto está mais que estabelecido.
Mas o Prof. Bracinha Vieira, na sua posição filosófica continuista (não há hiato entre a natureza e o homem) disse mesmo que três coisas que tradicionalmente separavam as duas "entidades conceptuais", não separam de facto: nem a palavra, nem o jogo (há numerosos trabalhos sobre o jogo em animais), nem a cultura (no seu sentido mais geral, é claro, incluindo obviamente a tecnologia). E disse ainda: o que pertence só ao homem é o preconceito (a neurose, etc.).
A fronteira entre o homem e o não homem, sabemo-lo bem (vide também trabalhos de D. Lestel, de T. Ingold, etc.) é algo muito difícil de definir!
Mas dá que pensar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

a propósito de "direitos de autor"

Penso que para fins estritamente científicos/pedagógicos e não comerciais, comprováveis, o patrimómio público (isto é, já publicado ou publicitado em qualquer suporte, o que inclui provas académicas defendidas publicamente) deveria ser retirado da lógica da mercadoria e desde que o autor e a fonte fossem citados, esse património deveria ser público, isto é, disponível e gratuito. Repito: sempre com respeito pelos direitos do autor, que não implicam necessariamente dinheiro, mas direitos morais pelo seu trabalho (impossibilidade absoluta da desonestidade do plágio, de roubo ou utilização danosa do produto do trabalho alheio, etc., etc.) Sobre isto – copyright e copyleft – há toda uma reflexão a fazer. Sem dúvida que qualquer utilização de material produzido por outrém tem de ter a autorização do autor, isso é o mínimo exigível. Dou um exemplo. Tenho este blogue onde publico em primeira mão reflexões, imagens ou material literário meus, que posso querer destinar, reformulados ou não, a publicação ulterior em suporte papel. Não gostaria que alguém se apropriasse deles sem primeiro me pedir autorização, nomeadamente para utilizar em publicações, e mesmo indicando a fonte. Mas, em geral, nessas condições de transparência e honestidade, dou sempre autorização, como gosto que outros ma dêem a mim. Dá-me até prazer ver que os outros se interessam pelo que faço e o reproduzem nos seus blogues, artigos, ou livros, se for caso disso. O mercado não é tudo e as antigamente chamadas “obras do espírito” não podem sujeitar-se às regras correntes de "economia" que, como se vê pelo mundo actual, são objecto de muita controvérsia e de pontos de vista muito diversificados. Os direitos de autor são uma coisa, os seus direitos morais e o respeito pelo seu trabalho; a transformação deste em mercadoria vendável é outra.
O mundo não pára. A mercantilização geral não é o fim da história. Aliás, não há fim da história, como não há origem. Mas nós vivemos na circunstalialidade do espaço/tempo, encapsulados na temporalidade e contingência, e devemos estar abertos ao futuro, sem que isso queira dizer atropelar o ser humano nos seus direitos: direitos de quem produz e coloca o seu produto no espaço público, sendo útil. Direitos de quem reproduz, e assim modifica, e aumenta a valia do já produzido. Património e criação devem harmonizar-se...pelo menos como constante horizonte de utopia, no sentido mobilizador desta palavra.