Não creio que Crowley tivesse sido um homem mau, como
o epíteto ‘The Wickedest Man in the World’ (criado pelo jornal “John
Bull”) sugere. Penso que foi, no seu pior, muito egoísta e muito estúpido
(com péssimas consequências), mas sem cair no diabolismo cinemático
que os ‘media’ patentearam. Excepto na aproximação que faz ao individualismo
filosófico (antecipando o Objectivismo cunhado pela escritora
Ayn Rand) a doutrina thelémica nada tem de satânico, ou de satanista.
Em primeiro lugar, tal como se encontra descrita por Crowley, trata-se
de um sistema iniciático, logo procura transmitir conhecimentos ocultos
através de mensagens e rituais que namoriscam com o sobrenatural.
Em seguida, o trajecto que o adepto precisa de cumprir nesse caminho
iniciático é ferozmente demolidor do ego. E, para terminar, a disciplina
de Thelema ainda incita o indivíduo na direcção de uma espécie de
consciência social. Para isso concorreram as fontes de inspiração de Crowley:
proto-anarquistas como François Rabelais e Jonathan Swift, mas
também teóricos anarquistas/socialistas como Gracchus Babeuf, Louis
Blanquis e Pierre Proudhon. É preciso lembrar que “O Livro da Lei” foi
recebido por diversos leitores como sendo um livro comunista, e que
Mussolini expulsou Crowley de Itália, alegando que a Abadia de Thelema
em Cefalù, era um organismo comunista. É confuso constatar que
Crowley, inglês imperialista, manteve uma relação calorosa com ideias
revolucionárias desta estirpe. Não é, pois, sensato ler o trabalho da auto-
denominada Besta do Apocalipse, para quem o ‘fin de siécle’ era todos
os dias, sem ter em mente o sentido de humor provocante e escatológico
que o atravessa. E sobre um autor cuja vida é impossível dissolver da
obra, a exegese biográfica deve efectuar-se sob a mesma iluminação.
A encadernação da edição do livro “Moonchild”, de Aleister
Crowley, que a Sphere Books publicou na colecção “The Dennis
Wheatley Library of the Occult”, em 1974, é (além de uma obraprima
trash), bastante conveniente, já que um observador atento
não pode deixar de ver Ra-Hoor-Khuit, ou Harpócrates, a versão
infante de Hórus, sendo presenteado com a herança de Hadit, o
embaixador do Tempo do Pai no segundo capítulo d’“O Livro da Lei”.
David Soares
À parte os movimentos mágicos e iniciáticos, Crowley também exerceu enorme influência sobre o trabalho de vários artistas, compositores e conjunto musicais; famosos grupos e cantores de rock como Black Sabbath, Led Zeppelin (Jimmy Page, guitarrista do Led, inclusive comprou o famoso "Castelo" de Boleskine, onde Crowley morou por alguns anos), Rolling Stones, The Clash, Beatles (no álbum Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band, sua fotografia aparece como "uma das pessoas que gostamos"), Iron Maiden, Ozzy Osbourne (que compôs o clássico "Mr. Crowley"), entre tantos outros, além de artistas do quilate de H. R. Giger, Kenneth Anger, David Bowie, etc., têm no exemplo de 666 uma fonte de inspiração para seus trabalhos e vidas.
Também na literatura encontramos vários romances que foram concebidos utilizando a imagem cultivada por Crowley, como exemplo: The Magician de W. Somerset Maugham (o mesmo autor de O Fio da Navalha), The Goat-Food God de Dion Fortune, Stranger in a Strange Land de Robert A. Heinlein, etc.
Não se pode deixar de mencionar o meio artístico brasileiro, que teve no memorável Raul Seixas, o grande arauto da mensagem de Aleister Crowley. Em especial as músicas A Lei e Sociedade Alternativa (ambas de Raul Seixas e Paulo Coelho), que têm como base Liber OZ. Outras notáveis obras de sua autoria são A Maçã, Tente Outra Vez (estas em parceria com Marcelo Motta e Paulo Coelho) além de muitas outras canções do maluco beleza que apresentam, de um modo bem particular ao Raul, a Lei de Thelema.
A internet é hoje em dia o reflexo daquilo que somos para o bem e para o mal. Eu criei este blogue com o objectivo de falar sobre a cultura pop - musica, cinema, livros, fotografia, dança... porque gosto de partilhar a minha paixão, o meu conhecimento a todos. O meu amor pela música é intenso, bem como a minha curiosidade pelo novo. Como não sou um expert em nada, sei um pouco de tudo, e um pouco de nada, o gosto ultrapassa as minhas dificuldades. Todos morremos sem saber para que nascemos.
Mostrar mensagens com a etiqueta livros-Aleister Crowley. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta livros-Aleister Crowley. Mostrar todas as mensagens
10/01/2009
ALEISTER CROWLEY
Crowley acompanhou a morte do século XIX e viveu no
período mais violento do século XX, absorvendo muito desse horror
e glamour para construir uma lenda pessoal. Foi um reconhecido
alpinista, e liderou as primeiras expedições às montanhas
Kangchenjunga, no Nepal, e Chogo Ri (ou K2), nos Himalaias, antes de
encarrilar a toda a velocidade no caminho da Magia. Em 1902, depois
de visitar o amigo ocultista Allan Bennett em Ceilão, Crowley começou
a misturar ritos orientais com o tradicional hermetismo ocidental com
o objectivo de criar um novo sistema mágico que fosse ao encontro
das suas inclinações bissexuais. Na verdade, unir o sexo à magia
não era um conceito inédito, e Crowley deveria conhecer, com toda
a certeza, os trabalhos de Paschal Beverly Randolph (que sentia um
pavor patológico pela masturbação, prática fundamental na disciplina
de Crowley) e de Alice Bunker Stockham (que desenvolveu o método
Karezza: doutrina mais cúmplice da profilaxia que da magia, mas
que, mesmo assim, advoga a sacralização do orgasmo). Nas sociedades
iniciáticas criadas ou lideradas por Crowley, como a Argenteum Astrum
(fundada após a sua saída da Hermetic Order of the Golden Dawn) e a
Ordo Templi Orientis, o misticismo que serve de cola social aos neófitos
encontra-se impregnado de ritos de natureza sexual.
David Soares
Marcadores:
livros-Aleister Crowley
Subscrever:
Mensagens (Atom)