
Howard Phillips Lovecraft nasceu em Providence, Rhode Island, a 20 de Agosto de 1890. Foi o último descendente de uma velha família de Nova Inglaterra que já tivera melhores dias. O seu pai morreu num hospício em 1898; a mãe sobreviveu até 1921, mas a sua instabilidade mental aumentou à medida que a fortuna da família declinava.
Segundo o próprio autor, o maior golpe da sua vida foi a morte do avô em 1904. A má gestão da fortuna da família forçou-os a vender a grande casa vitoriana onde Lovecraft havia nascido para se mudarem para uma mais pequena e modesta. O significado daquela perca despedaçou Lovecraft, e ele chegou mesmo a considerar o suicídio durante algum tempo, dando longos passeios de bicicleta e olhando em silêncio para o fundo escuro do rio Barrington. Lovecraft escreveu, "Quando criança, eu era muito peculiar e sensível, sempre preferindo a companhia das pessoas adultas à das outras crianças".
Na verdade foi a sua mãe, extremamente neurótica, quem o rotulou de peculiar e que o "protegeu" do contacto com os outros jovens. Uma criança precoce, aprendeu a ler aos quatro anos, a escrever aos seis, latim aos sete e interessou-se pelas ciências muito antes de ingressar na escola - primeiro química aos oito anos e astronomia aos doze. Uma saúde débil impediu-o mais tarde de ir à escola com regularidade.Gradualmente começou a produzir jornais e tratados científicos, trabalhos sobre História e mitologia, poesia e traduções, contos de horror (inspirados em Poe e não só) histórias policiais, e até alguma ficção científica - dando a entender um formidável intelecto e, mais importante, uma curiosidade constante acerca de todos os assuntos académicos.
O facto de, até à morte do avô, nunca a família se ter visto em dificuldades económicas, fez com que Lovecraft não fosse preparado para ganhar dinheiro. Mas também a sua educação, ainda segundo os ideais vitorianos do século XVIII, fizeram dele um homem cortês, honrado e digno, mas que desprezava profundamente o dinheiro e o trabalho feito a troco de dinheiro. Irremediavelmente, Lovecraft passou dificuldades económicas durante grande parte da sua vida. Teve que negligenciar a sua carreira jornalística em favor da revisão do trabalho de outros para publicação e à escrita-fantasma.
Depois da morte da mãe, viveu algum tempo em Nova York e casou com uma mulher mais velha de quem se separou amigavelmente dois anos depois, regressando a Providence. Foi lá que passou a viver com duas tias idosas. Ironicamente, a sua mulher morreu no mesmo hospício onde falecera o seu pai, vinte anos antes.
A carreira de Lovecraft como escritor profissional foi largamente comprimida num período de dezasseis anos. Permaneceu virtualmente desconhecido excepto para as pequenas audiências de pulp magazines como a Weird Tales onde o seu trabalho foi publicado. Os magros rendimentos da escrita não chegavam para reforçar os rendimentos de uma empobrecida herança, e ele continuou a escrever anonimamente para outros autores. Ao mesmo tempo animou um pouco a sua monótona existência com uma extensa troca de correspondência com outros escritores e leitores de ficção fantástica. Os mais constantes e devotos membros deste grupo formavam o que mais tarde viria a ser conhecido como "O Círculo de Lovecraft"; as suas extensas cartas de comentários, críticas e conselhos literários, encorajaram-nos escrever ou a tentar escrever dentro do mesmo género. Quando uma combinação de cancro e nefrite reclamou a sua vida aos quarenta e seis anos de vida, a perda foi sentida por todos os amigos, muitos conhecendo-o apenas como correspondentes.O estilo literário de Lovecraft era muito distinto e frequentemente imitado por protegidos. Com a sua aprovação, muitos aproveitaram os locais, os deuses grotestos e os conceitos por ele imaginados para as suas próprias histórias.
Aquando da sua morte, Lovecraft já se tinha tornado aquilo que hoje chamaríamos de "figura de culto". Mas o culto era comparativamente pequeno e não possuía absolutamente nenhuma influência em críticos e editores do seu tempo. Foram necessários vários anos para fazer chegar o homem e a sua obra a uma audiência mais vasta.Hoje em dia Lovecraft é reconhecido como um dos grandes escritores americanos de ficção fantástica, sujeito a mais estudos do que qualquer outro escritor de ficção excepto (e talvez até incluindo) o seu grande mentor Edgar Allan Põe.
A sua obra já foi traduzida para mais de 15 línguas e adaptada para cinema, TV, banda desenhada, jogos e até musica. A sua influência é visível na obra de nomes tão diferentes como Stephen King, Robert Bloch, Alfred Hitchcok, H. R. Giger, Umberto Eco, John Carpenter ou Neil Gaiman. Referências a Lovecraft ou ideias Lovecraftianas abundam em toda a paisagem cultural e fazem já parte do imaginário de todos nós.E, com toda a justiça, o homem fleumático, solitário e conservador de Nova Inglaterra, tornou-se indiscutivelmente no maior mestre da ficção de horror