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10.6.10


A partir de agora, a convite da Inês Ramos, passo a colaborar com o blogue Porosidade Etérea.
Espero estar à altura da responsabilidade.

14.8.09

[Em face dos últimos acontecimentos]

JOSÉ GOMES FERREIRA


V

(Lágrimas de raiva nos olhos. Ainda água.
Notícia da proclamação da Monarquia no
Porto. As pedras preparam-se para acor-
dar. Em 1918-1919 a República era uma
religião burguesa muito grave.)


A palavra República
tornou-se de repente tão real,
sonho com recorte
— envólucro de chamas,
corpo de mulher ritual
que todas as noites condenava o sol à guilhotina,
para sentirmos respirar melhor a morte.

Uma palavra
que tornava a liberdade mais misteriosa
para além da luz e das trevas.

República
— religião em que os deuses se evadiam dos templos
para se misturarem com os homens no suor das labaredas!


VI
(A bandeira monárquica içada no Mon-
santo em Janeiro de 1919. As pedras acor-
daram. O povo assalta os museus para
se munir das armas velhas que lhes res-
tam. Cantava-se «sobre a terra, sobre o mar».)

As mãos fugiram, dos braços!
e durante a noite
entraram no sonho exacto
de colarem com pincéis de lume
nas esquinas das ruas
os editais da cólera
a favor da morte com sentido
(a morte no passado é o que depois chamamos tempo):

ÀS ARMAS, CIDADÃOS!

Era nítido que todos queriam continuar a sonhar em comum,
e recusavam as superfícies com fronteiras.

ÀS ARMAS, CIDADÃOS! ÀS ARMAS!

Todos metem à pressa nos olhos os incêndios necessários
para acordar em asas
a liberdade presa ao vento do agitar das bandeiras.

(de Memória - III, 1962-1963, in Poeta Militante - Viagem do Século Vinte em mim, Moraes editores, 1983 - Círculo de Poesia)

26.7.09

Isto um tipo anda distraído com coisas sem importância e acaba por se esquecer do que realmente faz sentido:

o Henrique Fialho está de volta à blogolândia!

9.6.09

O fascismo é uma minhoca
que se infiltra na maçã
ou vem com botas cardadas
ou com pezinhos de lã

(Sérgio Godinho)

Pedindo desculpa aos citados por os juntar num mesmo post, não posso deixar de dar relevo a textos de hoje de Eduardo Pitta e de Paulo da Costa Domingos (que cita, a propósito, este texto de José Saramago) a alertar para uma realidade que não pode ser despachada com frases do tipo "ah, isso são os histéricos do costume". Porque não são. A extrema-direita, as suas intolerâncias e os seus ódios são uma realidade que anda por aí e exige a maior vigilância por parte de todos.

2.5.09

[para uma antologia de bicicletas - 15]

JOÃO CAMILO

DE BICICLETA


Como se o teu olhar me perseguisse,
eu preocupava-me em executar da maneira mais perfeita
todos os gestos. Via-me de fora como tu me verias
se fosses atrás de mim quando pedalava na bicicleta,
sentada no banco confortável de um automóvel.
O rio à direita da estrada tinha certa beleza
e as árvores, como sempre, faziam do asfalto preto por onde eu ia
um caminho em que apetece passear ao fim da tarde.
Enquanto me olhavas ias conversando para o lado
com os teus companheiros de viagem. O cabelo
loiro sobre os ombros iluminava o teu rosto à janela
e aqueles que te viam passar ficavam a pensar em ti.
eu lá ia, tranquilo e inquieto a pedalar,
convencido de que ao ver-me sem esperar assim ali
descobrias mais duas ou três razões para me amares.
Não olhava para trás para que tu não te escondesses
e em cada pedalada deixava a atenção
com que poderias falar-me e eu escutar-te.



MEMÓRIA DE RUY BELO

Madrid está deserta do teu corpo, só os fantasmas
do desejo se digladiam ainda ao sol das praças.
Era tão curta a distância entre a eternidade
e a luz nas esplanadas dos cafés, na pedra dos edifícios?
O amor, ave desencontrada das estações, acena ainda
nos olhos das raparigas de braços nus. E tu,
morto mais discreto da pátria, adormeceste
sem ter beijado a mulher e os filhos, longe
para sempre das romarias e do mar.

(de A mais nobre das artes, editorial Caminho, 1991)



(…) quando jogava futebol na equipa da Faculdade de Letras de Lisboa nunca joguei a guarda-redes, em geral jogava a defesa direito, às vezes ao lado do Ruy Belo ou do Arnaldo Saraiva, do Moreira, do Madeira, do Carlos Correia, etc.; e gostava muito de arrancar por aí adiante a caminho da baliza adversária. Uma vez, depois de vários passes com o Pissarra, um puto cheio de talento, fui rasteirado na área adversária e tivemos direito a uma grande penalidade. Imagino que o Pissarra a deve ter transformado em golo. Velhos tempos. (…)

(daqui)

13.4.09

A Rute podia ter sido amiga da Irene e criou um blogue para a lembrar. Vale a pena lá ir e descobrir o mais que se pode encontrar na net sobre Irene Lisboa e que está referenciado na barra da direita.
Irene Lisboa é um dos casos mais injustos de esquecimento da nossa literatura. Injusto por ser uma obra belíssima, reveladora de uma voz original e de abertura de novos caminhos para alguns dos que a leram.
Também por este blogue, Irene Lisboa tem aparecido pouco, mas um dos primeiros posts que aqui coloquei foi dedicado a ela. Convém lembrar o que dizem Paula Morão (responsável pela reedição e por um esforço de divulgação da sua obra) e José Gomes Ferreira.

2.2.09

Nunca li nenhum livro de Agustina Bessa-Luís e só agora me dou conta do que ando a perder.

27.12.08

[especialmente a pensar neste blogue]

GEORGE STEINER

(…)
A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a posterestante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Kraus, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empiriocriticismo e jogou xadrez com Trotsky.
Note-se as diferenças ontológicas. Um pub inglês e um bar irlandês têm a sua própria aura e mitologias. O que seria da literatura irlandesa sem os bares de Dublin? Onde, a não existir o Museum Tavern, teria o Dr. Watson encontrado Sherlock Holmes? Mas estes estabelecimentos não são cafés. Não têm mesas de xadrez, não há jornais à disposição dos clientes, nos seus suportes próprios. Só muito recentemente o próprio café se tornou hábito público na Grã-Bretanha, e mantém o seu halo italiano. O bar americano desempenha um papel vital na literatura americana e em Eros, no carisma icónico de Scott Fitzgerald e Humphrey Bogart. A história do jazz é inseparável dele. Mas o bar americano é um santuário de luzes desmaiadas, muitas vezes de escuridão. Vibra com música, muitas vezes ensurdecedora. A sua sociologia e o seu tecido psicológico são permeados pela sexualidade, pela presença – desejada, sonhada ou real – de mulheres. Ninguém redige tomos fenomenológicos à mesa de um bar americano (cf. Sartre). As bebidas têm de ser renovadas, se o cliente quiser continuar a ser desejado. Há «seguranças» que expulsam os indesejáveis. Cada uma destas características define uma ética radicalmente diferente daquela do Café Central ou do Deux Magots ou do Florian. «Haverá mitologia enquanto existirem pedintes», declarou Walter Benjamin, um connaisseur apaixonado e peregrino de cafés. Enquanto existirem cafetarias, a «ideia de Europa» terá conteúdo.
(…)

(excerto de A Ideia de Europa, tradução de Maria de Fátima St. Aubyn, Gradiva, 2005)

26.11.08

Entretanto...

A Rita, que aposto que atravessa sempre nas passadeiras mais por razões estéticas do que de segurança, criou a Rua da Abadia.
Muito interessante e muito bem escrito.

Entretanto...

O André Simões, mostra-nos as suas traduções de poetas árabes contemporâneos, no Pausa sobre as ruínas - الوقوف على الأطل


24.10.08

Ponto da situação I

Recentemente fiquei a conhecer alguns bons blogues, que valem mesmo a pena serem vistos:
- A única real tradição viva;
- Café Central;
- Casa dos Poetas;
- Do trapézio sem rede;
- Hospedaria Camões;
- Last Breath;
- Memento;
- Poesia dos Dias Úteis (dedicado ao poeta Vasco Costa Marques).

(com particular referência ao André Simões e ao João Gaspar que tive o gosto de conhecer pessoalmente.)

18.7.08

[da série eu gosto é de letrinhas pequenas entre parêntesis ou dá cá Leiria que eu te dou Moura]



NUNO MOURA

1


é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delirias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por Paranhos Bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com a telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.

portugal é um país de poetas ricos.

a poesia dá dinheiro a portugal.

(de Nova Asmática Portuguesa, Mariposa Azual, 1998 – em itálico no original)

15.7.08




[a propósito
disto e disto – e basta ir à base de dados da Biblioteca Nacional para perceber que há montes de livros com nomes iguais a outros livros]

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA


O meu livro As (E)vocações Literárias, dado à estampa em 1980, incluía, pela primeira vez, nas obras a editar, um volume de traduções de poesia, sob o título Por Outras Palavras.
Os livros que se lhe seguiram (doze de poesia e três de estudos e memórias) mencionavam, também, esse conjunto de traduções, na bibliografia dos inéditos, conservando o mesmo nome, que me pareceu original e adequado (opinião partilhada por David Mourão-Ferreira).
No texto que me é dedicado, na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura (Verbo), ele figura na lista dos meus livros a aparecer.
Todavia, em 1990, o poeta Joaquim Pessoa, talvez ignorando os, até então, dez anos de divulgação de tal título, resolve publicar um volume de poesia a que chamou, precisamente, Por Outras Palavras!
E, do mesmo modo, procede Ivone de Moura, tempos depois, atribuindo idêntico nome a um trabalho didáctico da sua autoria.
Devo confessar que nenhum dos dois livros mencionados, quanto a mim, merece assim intitular-se.
Creio que somente este meu tem o direito de nomear-se Por Outras Palavras.
E já não me refiro ao argumento (sério) da antiguidade; aos quinze anos em que o fui anunciando.
Mas porque, realmente, traduzir Poesia é interpretar, por outras palavras, de determinada língua, os pensamentos, os sentimentos, servidos pelo ritmo, a métrica, a rima, que foram transmitidos por uma inspiração em língua alheia.
Daí que, embora estranhando as coincidências (que não vou classificar de plágios), mantenha o meu título na presente obra.
[…]

(in Por Outras Palavras, Vega, 1997)

[...entretanto, em 2000, foi publicado um romance também intitulado Por Outras Palavras, da autoria da Paulo Castilho, Autor da particular preferência da Autora que acaba de publicar um livro com o mesmo título de um outro de Joaquim Pessoa]



24.4.08

Ainda há quem se acanhe
Com a pronúncia que tem

Sérgio Godinho

O que nos põe de acordo é o que dizemos
E se negamos à palavra o risco de a dizer
Anulamos a marca do que nos une.

Se, acanhados, nos rendemos ao lucro
Do vocábulo premeditadamente correcto,
Cingido por uma técnica limpa e pela lei,

Então recusamos a delicadeza,
Morosa de séculos e paciente,
Que remói cada sílaba e a transporta

Em vasos rústicos e desprezados,
Alheios a ortodoxias gráficas
Ou a gramaticais exigências postuladas.

Como ia dizendo, transportamos cada sílaba
Até um outro rigor – inconsciente, é certo,
Mas marcado pela melodia de que nasceu

E pelo sabor do que pais dizem a filhos,
Do que filhos a pais respondem
Ou do que em locais obscuros se aprende.

O que nos põe de acordo é a vontade
Com que nos dispomos a perceber
O acento de cada vogal em que divergimos

E também o deslumbramento da dispersão
Provocada pelos lugares de origem da fala
Que vão do latim até ao kimbundo,

Passando pelo tétum, pelo tupi-guarani,
Pelo papiá ou pelo castelhano.
Ou até (porque não?) por esse rumor denso

Da mecânica ultra-pop que nos enche os ouvidos
E que nos alimenta da inconsciência tão útil
Aos que por nós decidem o como mas também o porquê.

O que nos põe de acordo são os momentos de esforço
Em que procuramos perceber o sentido,
A regra íntima com que cada um se diz.


(Este poema foi uma das respostas a um desafio do Henrique: "enviem-me poemas, narrativas breves, aforismos, labirintos, etc., em desacordo com o Acordo Ortográfico".

Também no blog da Frenesi se vai fazendo a resistência, na série "Com acordo ou sem acordo...", na qual Paulo da Costa Domingos lembra o que algumas vozes sensatas disseram sobre o assunto. Por minha sugestão, estão lá Ruben A., Mário Cesariny e Ruy Belo. [entretanto retirados])

3.4.08

ANA DE AMSTERDAM

(Portugal não merece o Fausto. Merece a Marisa, insuportável, intragável, feia de morrer, sempre a fazer beicinho, a pôr-se humilde, a agradecer o reconhecimento, o sucesso, os discos de platina, os prémios, os poetas portugueses e sei lá que mais. Não posso com a mulher. É superior às minhas forças. Odeio-a.)

(daqui)

1.4.08

["A espessura da palavra poética"... ora aqui está uma bela ideia]



(daqui)

29.2.08

[outros melros L]

RUI MANUEL AMARAL

De um momento para o outro


Os melros nem sempre foram os pássaros tímidos e esquivos que conhecemos hoje. Houve um tempo em que os melros eram brancos e, em alguns casos, semelhantes a peixinhos dourados. E cantavam maravilhosamente nas tardes sombrias de Inverno e escondiam-se nas profundezas húmidas dos jardins, e comiam minhocas também. Mas depois, de um momento para o outro, tudo mudou.

(daqui)