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23.3.18


JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA


INDÚSTRIA

Não sei ser útil como a chuva
nas raízes das árvores,
ou o osso que o cão fareja:
já tentei – se tivesse
de dançar como uma abelha,
em frente da colmeia,
de certo erraria os passos
e indicaria um rumo estéril.

O destino, erros na transcrição
de aminoácidos, uma educação
inadvertidamente condenada
ao fracasso? Já tive
momentos de felicidade,
ignorando mãos, gestos,
propósitos, temo que,
um dia destes, a minha
morte não sirva para nada.


(de De Passagem, Assírio & Alvim, 2018)

19.11.14

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA


EXERCÍCIOS DE CALIGRAFIA

1.
Mate em dois lances: olho fixamente,
ameaço um desenlace escondido e
nunca encontro a solução. Quando me sinto
mais aflito, cuido que não tem.


2.
Manhã de Novembro e o desatino do sol
que nem corista em dia de estreia, eu decido
ir cortar o cabelo - da última vez disseste-me
que me ficava bem. Preciso de tão pouco para me sentir
histérico, guardar as mãos nos bolsos
e alcançar um sorriso de Madonna com bambino:
pobre de quem sobe as escadas
e tropeça na tua amabilidade como um golpe
de vento nas costas, fica rígido, deseja
que a fantasia não o assalte, que a ser verdade
não se magoe e, de qualquer forma, tenha o cabelo cortado.

3.
Que imprudência! - essas fotografias onde todos
se compõem como se fizessem parte do desenho
do mundo e com traço sigiloso te contemplam,
edificando o futuro num silogismo
sem termo médio, crendo que o tempo é uma
sucessão de surpresas, programado como máquina
de lavar louça, entre duas frases
amarfanhadas, a caminho do caixote do lixo,
e o papel reservado nesse mesmo quadro.

4.
Tanta roupa lavada - e nem um par
de calças em que me sinta à vontade.
Agora tenho de beber para conseguir
dormir e Charlie Haden esforça-se nas curvas
do baixo, turtuosas e a perder de vista,
como se uma única recta
passasse por um único ponto do plano.
Saberás como é difícil conservar a própria
estima e como desprezávamos contratempos
- sentados no chão, com o tabuleiro
de permeio, não entendi
as regras. Tenho vivido
de noite, lutado com subterfúgios,
que me seria penoso que ouvisses
enumerar - a música encrespa a ilusão
de outro mundo, de um tempo reversível.


(de Peças Desirmanadas e Outra Mobília, 2000)

10.10.13

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA


OS OBJECTOS NO LUGAR

Há por sorte um espelho que parece
mentir, sem questionar, em cada novo dia.
O teu problema não é apenas acordar, são as dores
nas costas e a devolução da ameaça
de uma barba mal escanhoada. Foi outra noite

nem muito ingrata. Os objectos estavam
no lugar, a sombra do teu passado
nem muito perseguida pelos maus hábitos
e a nostalgia das ocasiões perdidas;

o mal que te fizeram mensageiros ímpios,
notícias desatadas, viagens que soçobraram
nos alivanhos, o ruído assustador de quem quer
viver. Uma fadiga que te corta o lábio,
onde o sabor do sangue se insinua

e entre destroços e a boca aberta de afogados,
o rei em Agelaos ordena que
escrevam o teu nome e o do teu pai
e o do local onde nasceste.


(de O que Vai Acontecer?, Assírio & Alvim, 1997)

31.8.09

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

JORGE DE SENA E A RÁDIO MACAU


1.

Devagar, registando como tão facilmente poderia
esquecê-lo, fugiu de quê? Não sabe, ou não quer
responder? Favorecido pelo estrondo nocturno
das trovoadas e por urna língua que desconhece,
a sorrir manso, como se quisesse entender.

Foi a sua prática semanal e como se desembaraçou
da leitura! Outros se exilaram por razões
sérias e para cidades menos levianas, sem
preencher formulários e com dietas estreitas.
Renegou de vícios pequenos, supondo atingir a evidência

– uma configuração de alma sem acidentes,
uma vontade como terra de sequeiro e a memória
um filme mudo: poupando o álcool dos nervos,
que a procissão do tempo lhe fosse sendo escrita.

2.

Pudesse surgir da música um sopro deserto
e um destino imprevidente, náufrago que se obstina
em regressar do fundo até se agarrar a um destroço,
segue à deriva, repetindo trambolhões e quedas:
quem se condoeu dessa carta, quem esmolou

medida e regra? Por mais que o pão fosse
de trigo e a mesa trôpega, poderia recordar
quem lhe curou a sede, desprezar quem lhe compôs
cama de giesta? Alguém teria sempre melhor
razão do que a que tinha, ou maior queixa?

Uma história que ignorou auspícios, as dores
pequeninas de quem ficou em terra, por ter pontual
o relógio dos intestinos e a estrela dos navios
e a morada, como qualquer outra, incerta.

(de Mais Tarde, Assírio & Alvim, 2003)

26.10.07

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

A REGRA DO JOGO


Adivinham-se tempos difíceis:
obsessão apoderou-se das tribos;
uma vírgula pode ser um crime,
a ameaça esconde-se numa frase incompleta.
Os jornais encheram-se de notícias peregrinas,
os editoriais ponderam. Murmura-se
nas fileiras, a especulação prospera.
Com um salário que é como mau tecido,
depois da primeira lavagem, o funcionário público
poupa na fruta, no tabaco, no queijo. Amanhã,
de comboio, a História enfrentará o seu destino,
ou, pelo menos, uma cópia que levará tempo
(medido em lustros) a rasurar.

(de Nada Tão Importante Que Não Possa Ser Dito, Assírio & Alvim, 2007)

4.6.05

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

TEORIAS DA LUZ: O ESPELHO


Seria uma execução
quase perfeita, embora
lhe falte esse músculo
imprevisível, a que chmam
alma ou inspiração,
ou mesmo (os mais obstinados)
a verdade - a convicção
de que o mundo pode ser explicado
em poucos segundos
(ou que não chega
um semestre inteiro)
pelo reconhecimento
de uma promissória
(mesmo de uma taxa
sobre perdas comerciais)
a quem, de forma quase perfeita,
que roça o absurdo,
executou tais linhas.

(de Mais Tarde, Assírio & Alvim, 2003)