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5.8.18

FERNANDO GUIMARÃES


Esquecemo-nos muitas vezes que a realidade é o termo de um diálogo que, inconscientemente, se desenvolveu no tempo através de muitos encontros. Fomos nós e os outros quem o tornou possível até se dar a sua apropriação através de uma linguagem. No contacto que temos com os objectos, estes absorvem uma multiplicidade de sentidos que se depõem como outros tantos limiares de acesso à sua e à nossa presença. 
Vai-se dando, assim, uma significação aos seres que se transformam progressivamente ou adiam uma forma onde, como diria Rilke, o “perder é ainda nosso”. Dizer casa ou árvore equivale por vezes a invocar algo mais do que o indício que nos permita reconhecer ou localizar coisas que entre árvores e casas o são também. Dizê-lo é ou poderá significar o conhecimento radical que cada ser em face do homem suscita e que os diversos modos de o desligar invocam. Só nesse momento saberemos medir a casa pelo seu equilíbrio, pelo espaço que ela nos restitui cheio de significações; e que a árvore se tornará tão autêntica para nós como a realidade das estações que a atravessam ou o fogo futuro em que a sua presença brilha. Ou que, ainda, pode uma casa ser tão completa e solitária como uma árvore.
A acção do poeta consistirá em inventar ou atribuir uma ordem, um equilíbrio, a esses significados, a esses valores. E, pelo caminho das palavras, regressa-se de um mundo que se tornou ausente, embora os múltiplos sentidos que tal caminho nos propõe acabem por preencher totalmente essa ausência


(excerto de «Poesia e Sentido», in Conhecimento e Poesia, Oficina Musical, 1992)

23.12.13

[no dia em que passam 125 anos sobre o corte da orelha de VAN GOGH] 

FERNANDO GUIMARÃES


VAN GOGH: «AUTO-RETRATO COM A ORELHA LIGADA»

O corte numa orelha. Esta rasura
que pode ser da morte, tão vizinha
de todo o corpo, enquanto principiam
as colheitas que vinham revelar

a cicatriz mais perto das searas,
o ruído que passa pela gaze
porosa, as ligaduras que no rosto
o fecham para sempre, mesmo quando

não existem sequer. Qualquer imagem
é sempre igual porque nela se via
aquilo que em segredo procuramos

até que se encontrasse o mesmo sítio
onde fique contida a própria dor
só para ser arada nestes campos.



(de Os Caminhos Habitados, Afrontamento, 2013)

24.3.06

ALBRECHT DÜRER


Cristo entre os doutores, 1506
Óleo sobre madeira
64,3 x 80,3 cm
Madrid, Colecção Thyssen-Bornemisza


FERNANDO GUIMARÃES

DÜRER: "CRISTO ENTRE OS DOUTORES"
(DA COLECÇÃO THYSSEN-BORNEMISZA)

No meio estão representadas quatro mãos. Formam um quadrado. Qualquer
gesto há-de ocultar-se nelas. Este só pertence a quem as veio
pintar; elas são a moldura dessa ausência. Conservam-se juntas
e entreabertas. O espírito de quem ali se encontra procura
um novo conhecimento. Há mesmo alguns livros e uma luz desconhecida
principiou a iluminá-los. Numa das mãos de Cristo descai o indicador
até ao polegar da outra e vê-se à sua volta espalhado o reflexo
desse movimento sobre um manto que é verde. As outras duas
são as de alguém que nesses livros há-de encontrar uma nova pergunta
para depois se receber o seu mistério. Como se víssemos
em páginas diferentes o que nos podia ser explicado, o rosto de Cristo
inclina-se um pouco e fita as quatro mãos. Elas são a resposta.

(de Na Voz de um Nome, Roma editora, 2006)


20.12.03

FERNANDO GUIMARÃES

Nasceu em 1928.

As nossas mãos, ao abrirem um livro, por vezes detêm-se subitamente.
Mas logo outro movimento principia, o dos olhos que procuram não as mãos que seguram o livro, mas aquelas que o escreveram. É, então, que se encontram aí novas palavras. Elas são as que efectivamente lemos, mas não lhe pertencem agora. Desapareceram para que o livro seja escrito desde o princípio.

(texto inicial)


O que podemos esperar? É mais perto que vês
um caminho. A ele nos habituamos. É deste modo
que consegues compreender-me melhor. Reparas agora
como os gestos podem ficar reduzidos a um único
movimento e as cores à mesma transparência
que as há-de tornar maiores. Encontras o sentido
que pertencia a tudo, para que finalmente seja
apenas nosso, como se olhássemos para longe.

(da sequência Acerca do Sentido)


O olhar diante de outro olhar o que vê? Antes
era a distância entre ambos, esse relance súbito
que se torna interior, o seu cume tranquilo
dentro de cada imagem. Há um novo segredo
que vinha ter connosco e ali ocupa o espaço
que não é de ninguém. Assim foi o princípio
tão súbito dessa perda para que seja a leve
intimidade de em tudo haver o mesmo encontro.

(da sequência Lições de Trevas)


SEGREDO

Os gestos que esconderam qualquer rosto.
E mais nada. O que sentes lembra agora
uma enseada ao longe. Assim o modo
de surpreender mais cedo o que era a mesma

imagem que sujeita a própria ausência
ao que por ser assim contém a nova
vontade de encontrar uma mais íntima
direcção insuspeita que se alonga

noutro sentido até ficar oculta
só por instantes no que se aguardava
há muito: este segredo onde procuras

um rio ou uma ponte, os gestos leves
sobre o rosto voltado para nada
daquilo que foi nosso e assim se perde

(da sequência Seis Poemas)


Caminhamos até este lugar. Fecho os olhos para conhecer
o que se torna igual a uma promessa. As flores morrem nas jarras
e deixam cair ao longo dos caules um peso estranho. Tu reparaste
na sua transparência. Como era íntimo esse movimento capaz de vir
percorrê-las para ser menor esta destruição. É assim que principia
a perda do mesmo brilho que existe à nossa volta. Já nada
espero e, por isso, deixei que de mim o tempo se afastasse. De longe
chega uma voz e ela procura os lábios vazios até ficar dispersa
pela névoa. É talvez uma única palavra. Há quem julgue
que se trata da pronúncia que passa por uma ferida.

(da sequência Considerações de Ovídio acerca do seu desterro)

(poemas do livro Lições de Trevas, edições Quasi, 2002 - biblioteca “uma existência de papel”)