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2.1.12


EMANUEL FÉLIX


TRÊS POSTAIS DE SÃO JORGE
Para o João Félix

1.
Nas Velas, junto ao Arco
um chocalhinho breve
feriu furtivamente a superfície
de vidro
da manhã.


2.
Deixei o meu relógio algures numa fajã.
Onde não contam horas nem minutos
É o tempo de Deus.

3.
Acabo de enviar um apelo veemente
aos excelentíssimos
detentores do poder municipal:

“Deixem Nosso Senhor passear sossegado
p’los trilhos antiquíssimos
da inefável Fajã do Sanguinhal”. 

(São Jorge, 24 de Julho de 1993)


(de Habitação das Chuvas, edição do Autor, 1997)

2.11.11

EMANUEL FÉLIX


«BUSCAR A LUZ DO DIA, VIVER DEPOIS DA MORTE» (*)

Eu te saúdo
A ti que te ergues sobre os abismos cósmicos
Imenso é na verdade o teu esplendor
Surges como um leão de duas cabeças
Deixa ouvir a tua mensagem poderosa
Cede a tua força aos que te aguardam de pé teimosamente

Eis que acabamos de chegar e nos misturamos
À multidão dos deuses que gravitam
Em teu redor oh sol
E logo cumprimos as ordens a que obedecem os teus servidores
Semeamos os campos
Tiramos água dos poços
Carregamos areia de leste para oeste
E na verdade como tu vivemos depois da morte
Do mesmo modo que todos os dias renasces da noite

E todos os que nos amam rejubilam 
Ao saberem-nos vivos

______
(*) Livro dos Mortos dos Antigos Egípcios


(de O Instante Suspenso, 1992)

8.8.09

EMANUEL FÉLIX

PALAVRA O AÇOITE


Todo o santo nevoeiro esta manhã de glória
pátria filho
um rugir absoluto
de botas um secreto
martelar de silêncio
filho
medo

Todo o santo silêncio este espanto este espesso
sangue suor e água e mar e mágoa
e o amor e o amor e o amor em reserva
o trigo inteiro e digo amor o dia
inteiro por ceifar

E toda a santa esperança este dia esta noite
este vago vagar de sulcos rodas rosas
rasas
a relva a alva
o alvo
corpo inteiro da esperança

Todo o santo nevoeiro esta pressa este instante
este loiro este negro este infante fantasma

(de A Palavra O Açoite, 1977)

14.2.04

EMANUEL FÉLIX

Nasceu em Angra do Heroísmo, em 1936. Também ensaísta, autor de contos e crónicas, crítico literário e de artes plásticas.
Chegou hoje a notícia de que morreu.

"Melhor o vejo operário da palavra como um mister sagrado - seu compromisso sócio-intelectual, apresentando serenamente a voz preclara da Verdade na sua função libertadora. Melhor o vejo ainda peregrino silencioso da Poesia, percorrendo os espaços onde se encontram as palavras disponíveis e componentes do edifício do poema. Nada detém Emanuel Félix nestas viagens onde se encontram os deuses em seu descanso, os homens com o coração à tona da água, os bichos na pose delirante dos seus festins. E tanto viaja, como os pássaros, até aos reinos da primavera e do sorriso (sua Melibeia oriunda da liberdade e vestida de mil silêncios), como peregrina - volátil profeta da manhã - pelo país das magnólias e das flores de lotus, a quem os tempos emprestaram a filosofia das coisas simples." (Álamo de Oliveira - excerto do texto introdutório do livro A Viagem Possível)

PEDRA-POEMA PARA HENRY MOORE

Um homem pode amar uma pedra
uma pedra amada por um homem não é uma pedra
mas uma pedra amada por um homem

O amor não pode modificar uma pedra
uma pedra é um objecto duro e inanimado
uma pedra é uma pedra e pronto

Um homem pode amar o espaço sagrado que vai de um homem a uma pedra
uma pedra onde comece qualquer coisa ou acabe
onde pouse a cabeça por uma noite
ou sobre a qual edifique uma escada para o alto

Uma pedra é uma pedra
(não pode o amor modificá-la nem o ódio)

Mas se a um homem lhe der para amar uma pedra
não seja uma pedra e mais nada
mas uma pedra amada por um homem

ame o homem a pedra
e pronto

(de O Vendedor de Bichos, 1965)

TRISTES NAVIOS QUE PASSAM

Tristes navios que passam
na hora da nossa vida
na hora da nossa morte

escuros vasos de guerra
cargueiros tanques paquetes
brancos navios de vela

levam óleo levam ódio
luxo lixo das cidades
levam gente gente gente

deixam ficar nostalgia

tristes navios que passam
na hora da nossa morte
na hora da nossa vida

DOIS POEMAS CHINESES

1. Canção do trigo à maneira de Han


O trigo está verde:
Preciso é que amadureça.

E quem serão os ceifeiros?
- As mães os seus meninos...

(Os homens estão para o sul
A combater os bárbaros).

2. Por um anónimo da Dinastia T'sin(*)

Os mandarins compram cavalos brancos.
Os grandes senhores têm palácios de oiro.

Mas, cuidado:
Nem uma palavra, amigo.
__________________
(*)Período em que foram queimados os livros e enterrados vivos todos os poetas (N. do A.)

(de 5 Poemas de Amor)

DISCURSO (MUITO BREVE)
SOBRE A CRIAÇÃO ARTÍSTICA


Para o Jean-Claude Bertrand

Com que amor violentamos a folha deserta
cujas margens tateiam a fronteira do sangue
cujas marcas viajam a superfície múltipla
das dunas mão aberta
afagamos talvez a face o pleno espaço
na outra logo o fogo
o lápis a memória
o gesto em vez do peso
a viagem
sem bússola do corpo

com que violência amamos o terreno
demarcado do espanto
sobre o húmus a força o quente espaço
a forma
a breve fala

Paris, 1979

(poemas retirados do volume que recolhe a obra poética do A. até 1981, A Viagem Possível, editada pela Secretaria Regional [dos Açores] da Educação e Cultura, em 1984 - há uma edição, mais recente e aumentada, pela editorial Vega)

3.
Porque digo pareces
uma espiga de trigo
eis o cheiro da terra deste Junho
quando é tarde demais para semear
mas cedo ainda
cedo
para o gesto infinito
de repartir o pão

(da sequência Seis recados pessoais para Margarida Weizen, incluído em Habitação das Chuvas, edição do A., Angra do Heroísmo, 1997)

12.1.04

EMANUEL FÉLIX

AUTO DE DECLARAÇÃO


Ao Jacinto Monteiro

Sou o homem da mão ressequida
O cego Bartimeu de Jericó
O paralítico de Cafarnaum
Sou Zaqueu
Sou a viúva de Naím
Sou a mulher adúltera, Senhor
Sou Marta irmã de Lázaro
Maria Madalena
O Bom Ladrão

Só me falta, Senhor, o coração
Silencioso e humilde.

(de Habitação das Chuvas, edição do Autor, Angra do Heroísmo, 1997)