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13.10.08

[(há 40 anos) Bandeira e Pavia morreram no mesmo dia XI]

Sobre Cristovam Pavia, ver ainda a evocação, hoje, de Ruy Ventura, retirada de um seu livro inédito, e uma crónica recente de António Lobo Antunes.
[(há 40 anos) Bandeira e Pavia morreram no mesmo dia IX]

PEDRO TAMEN

TRÊS FRAGMENTOS À MEMÓRIA DE CRISTOVAM PAVIA


1

O fundo esse por onde tu saíste
qual é ele? Só uma coisa sei:
que é, e por aí
foste encontrar as glicínias virgens.
E mais do que nunca no maior silêncio
nos repetes teu branco telegrama.
Nos caminhos da quinta, as doninhas
também elas se calam, e as palmeiras:
o mundo inteiro é tua testemunha.


2

Quando já era tarde e eu não mais falava
(eu; que tu amavas dentro)
as ruas eram ocas, transparentes,
começava a nascer o outro dia.
Porque era ainda cedo.

3

E hoje o teu rosto é uma faca
que nos divide em um.

(1968)

(da secção “esparsos” de Retábulo de Matérias (1956-2001), Gótica, 2001)
[(há 40 anos) Bandeira e Pavia morreram no mesmo dia VII]

CRISTOVAM PAVIA

POEMA


Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas
Com os olhos fitos e os peitos esmagados,
Descendo devagar, ao som lento de segundos vertiginosos como séculos,
Todos nós vos acompanhamos e juntamos todas as nossas forças na mesma meditação.
Aqui, da terra firme,
Entre nuvens e terra,
Entre o suor e o orvalho,
Esperamos o termo com todas as nossas forças.
E sabereis a nossa mensagem:
Só há saída pelo fundo.

(de 35 Poemas, 1959)
[(há 40 anos) Bandeira e Pavia morreram no mesmo dia V]

NUNO BRAGANÇA

A cronologia: labirinto só de uma saída: o meter-se um em bocas de Minotauro, bicho antigo dietando de homem vivo que se deixe frangalhar. Por sob o que sucede numa dada ordem, outra existe. Jonas forcejando por jogar-se fora da Baleia Branca tem de ser o captar receitas estratégicas, decifração do mapa que nos diz como, por baixo das falsas ruas, as verdadeiras se entrelaçam. Descobrir os modos aguentadores no actuar segundo as catacumbas fingindo actuar à superfície. É isto a salvação. Só quem perseverar até ao fim de si verá o Sol no meio da noite. Só há saída pelo fundo. Irmão Cristovam.

(excerto de A Noite e o Riso, 1969)
[(há 40 anos) Bandeira e Pavia morreram no mesmo dia III]

JOÃO BÉNARD DA COSTA

Alguns permaneceram – e permanecem – católicos. Quase todos deixaram de o ser. Alguns tiveram ainda posições de relevo, como leigos, na Igreja Católica. Quase todos ficaram nas margens d'Ela. “Na expectativa” (en úpomoné, palavra grega donde o termo vem) como um dia disse estar Simone Weil, cujo luminoso ascetismo também tanto nos marcou? Não posso falar por outros. Falo apenas por mim. Agora que tanto narrei, revejo aquele de nós que mais cedo caiu – Cristovam Pavia, que se atirou para debaixo de um comboio em 1968, aos 33 anos – e releio um poema dele. Acabo como comecei com versos. E são estes:

Voltarei à penumbra fresca da igreja
Ancestral, silenciosíssima e vazia,
Aonde está pousado o teu altar:
Doce mãe Maria...
E ajoelhar-me-ei,
E fecharei os olhos sem pensar...
- Que a minha oração nada mais seja:
Basta descansar.

(final de Nós, os vencidos do catolicismo, edições Tenacitas, 2003 / o poema de é do livro 35 Poemas e tem por título A Nossa Senhora)
[(há 40 anos) Bandeira e Pavia morreram no mesmo dia I]

FRANCISCO BUGALHO

Dois Meninos


Meu menino canta, canta
Uma canção que é ele só que entende
E que o faz sorrir.

Meu menino tem nos olhos os mistérios
Dum mundo que ele vê e que eu não vejo
Mas de que tenho saudades infinitas.

As cinco pedrinhas são mundos na mão.
Formigas que passam,
Se brinca no chão,
São seres irreais…

Meu menino d’olhos verdes como as águas
Não sabe falar,
Mas sabe fazer arabescos de sons
Que têm poesia.

Meu menino ama os cães,
Os gatos, as aves e os galos,
(São Francisco de Assis
Em menino pequeno)
E fica horas sem fim,
Enlevado, a olhá-los.

E ao vê-lo brincar, no chão sentadinho,
Eu tenho saudades, saudades, saudades
Dum outro menino…

(de Canções de entre Céu e Terra, 1940)

Sobre este poema, um belíssimo comentário de Nicolau Saião.

19.5.08

CRISTOVAM PAVIA

O rouxinol gotejando vidro matinal e embaciado
No meio da noite,
No meio da planície, que é o meu corpo,
Ao relento da noite escura...
A queimadura fria do pirilampo no musgo,
Guardando debilmente a infância
Sob os ventos livres dormindo sob a abóbada levíssima.

(de Poesia, Moraes editores, 1982 – Círculo de Poesia)