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15.11.16

RUI NOGAR


CICLO VITAL

catanas de silêncio
onde o crime
da pretendida
mutação biológica
se esboçou mais
que a premissa pretendida

catanas de silêncio
jugulando
“as nossas melhores intenções
nossas humaníssimas intenções”


(in “Caliban” N.º 1, 1971)

26.8.14

EDUARDO WHITE


O QUE VOCÊS NÃO SABEM NEM IMAGINAM

Ao Abdul Magide, ao Pilinhas, ao Ungulani, ao Rui, ao Zé Camudjoma e outros

Vocês não sabem
mas todas as manhãs me preparo
para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
o vinagre para as mágoas
e o cansaço que usarei
mais para o fim da tarde.

À hora do costume,
estou no meu respeitoso emprego:
o de Secretário de Informação e de Relações Públicas.
Aturo pacientemente os colegas,
felizes em seus ostentosos cargos,
em suas mesas repletas de ofícios,
os ares importantes dos chefes
meticulosamente empacotados em seus fatos,
a lenta e indiferente preguiça do tempo.

Todas as manhãs tudo se repete.
O poeta Eduardo White se despede de mim
à porta de casa,
agradece-me o esforço que é mantê-lo
alimentado, vestido e bebido
(ele sem mover palha)
me lembra o pão que devo trazer,
os rebuçados para prendar o Sandro,
o sorriso luzidio e feliz para a Olga,
e alguma disposição da que me reste
para os amigos que, mais logo,
possam eventualmente aparecer.

Depois, ao fim da tarde,
já com as obrigações cumpridas,
rumo a casa.
À porta me esperam
a mulher, o filho e o poeta.
A todos cumprimento de igual modo.
Um largo sorriso no rosto,
um expresso cansaço nos olhos,
para que de mim se apiedem
e se esmerem no respeito,
e aquele costumeiro morro de fome.

Então à mesa, religiosamente comemos os quatro
o jantar de três
(que o poeta inconsta
na ficha do agregado).

Fingidamente satisfeito ensaio
um largo bocejo
e do homem me dispo.
Chamo pela Olga para que o pendure,
junto ao resto da roupa,
com aquele jeito que só ela tem
de o encabidar sem o amarrotar.

O poeta, visto-o depois
e é com ele que amo
escrevo versos
e faço filhos.


(in Nunca Mais é Sábado – Antologia de Poesia Moçambicana, org. de Nelson Saúte, Dom Quixote, 2004 / originalmente in Antologia da Nova Poesia Moçambicana, org. de Fátima Mendonça, 1993)


4.2.14

LUÍS CARLOS PATRAQUIM


TRÊS VARIAÇÕES SOBRE O ESCURO ANTERIOR

o olho intrusivo
pouco
o que vês na paisagem
se houvesse

e
dizes a palavra muda

há uma savana anjo
que te redime

ela
pietá
a invisível árvore

e tu
filho de nada
no seu colo

*

Alta noite
depois do escuro anterior
eu vi a máquina

a máquina prótese
epigramática

e meu canto tinha a tensão de um arco
e cada grito era uma seta

*

Coração neuronal sanguínea pulsante fonte
de que mar beber-te a inteligência
que a voz pergunta

um chuço passou
e a cabeça larvar corre adiante
oscilando sob a Lua

As adagas flanqueiam a Carne
orgiásticas
subindo até à transcendência
do Gesto

o que dança
e explode da lava e a isso chamamos Mãe
e rasgamo-la!

Ei-lo! O cavaleiro mongol degolando
a última estrela

Um pescoço de nuvem onde
pasmam as gazelas cúbicas
sossegadas



(«unpublished poems for "Anjos Urbanos" exhibition by José Cabral», in Urban Angels, P4Photography, 2009)

7.12.13

VIRGÍLIO DE LEMOS


CANTEMOS COM OS POETAS DE HAITI

Cruzo os braços, Baby, e deixo-me ficar
Apreensivo e triste, meditando:
Tu, Baby, e os poetas nossos irmãos
Que escrevem cânticos no Haiti,
Sabem da vida incerta e vazia
Dos negros das ilhas e Américas
Dos que sofrem em África e Oceânia.

Lembras-te daquele poema universal
Que falava de desumanidade?
Lembras-te dos segredos nas entrelinhas
Dos poemas verticais da Noémia de Sousa
Sempre em papel amarelo?

Ah, se tudo fosse como nos sonhos belos
Cheio de romance e fantasia doce
Não haveria, Baby, o desespero
Nos cânticos dos poetas de Haiti
Nem segredos havia, fundos de angústia
Nos poemas verticais de desespero!

Ah, nem tu, Baby, nem mesmo eu
Faríamos da poesia um cântico triste
E só falaríamos de paz, amor,
E numa sede constante do azul do céu!
Mas se é dor o mundo que nos cerca,
Cantemos com os poetas de Haiti
Uma canção amarga que se não perca,
Cantemos em uníssono, porque lá ou aqui,
Os segredos são iguais, fundos de angústia,
E os poemas verticais, também de desespero.



(de Poemas do Tempo Presente, 1960)

10.7.09

RUI KNOPFLI

APRENDIZ NA OFICINA DA POESIA

Não rimes.
Ou rima, se quiseres,
mas não violentes
a palavra.
Não busques ansioso,
qual amante inexperiente,
a palavra.

Espera antes
a sua vinda.

Música e rima
são acessórios dispensáveis:
O poema é outra coisa.

Deixa, pois
que as palavras acordem
na matriz
e caiam maduras.
Áridas ou frias,
secas e imperturbáveis,
orvalhadas, humildes,
estropiadas até,
que sejam precisas,
prenhes de significado.

Espera as palavras.
Elas viajam misteriosas,
desconhecidas ainda,
elas germinam
em ti.

Caem. Juntam-se.
Doloridas, feias
sob o visco placentário,
deselegantes por vezes,
elas procuram-se
e organizam-se.

Juntas transcendem-se,
há algo de íntimo,
coeso e secreto
nelas.

O poema está aí.

(de Reino Submarino, 1962)

3.6.09

[ver outras evocações aqui, aqui e aqui]

GLÓRIA DE SANT’ANNA


até que volte a ver-vos me reconhecereis
não pela face desnecessária mas
porque aí estareis apenas

e quando vos movimentardes (se)
a agitação perturbada que sereis
vos dará a imponderável consistência
de entre mim e vós

não haverá gestos e até nem vozes (acredito)
só a lancinante serenidade resultante
e o desconhecido imerso (ou emerso) azul alívio




mas por outro lado poderia romper-se também
num relâmpago visível pelo que se chama céu
a nossa alegria

e voariam pássaros inacreditáveis pelo que se chama céu
e poldros de crinas longas até ao vento
bateriam os cascos nunca ferrados em galope sobre
o que semelhasse campina

e alguém poderia afirmar que nos viu
pela força incontrolável da nossa alegria




(a força incontrolável da nossa alegria
que deslassa os fios de qualquer pensamento
e despedaça as palavras em risadas e lágrimas
e se alimenta do horizonte dos dias

e é como uma sentinela no umbral da porta à noite
molhada de luar e arrepiada pelo gume das folhagens
escolhendo em silêncio uma estrela longínqua
e simultaneamente é áspera e doce)

mas quem o afirmasse seria apontado
como espontaneamente louco voluntariamente interpondo-se

a vós

tão desesperadamente ocultos
nas linhas do meu rosto


(de Gritoacanto (1970-1974), in Amaranto / Poesia 1951-1983, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988 – Biblioteca de Autores Portugueses; o 2º e o 3º poemas haviam sido antes publicados em Junho de 1972, no número 3/4 de Caliban, em Lourenço Marques)

21.5.06

RUI KNOPFLI

METODOLOGIA


Convoco os duendes da inquietação
e da alegria, urdindo um laborioso
rito circular, delicada teia iridiscente
de que, relutante, a luz se vá
pouco a pouco enamorando.

Palavras não as profiro
sem que antes as tenha encantado
de vagarosa ternura; mal esboçados,
gestos ou afagos, apenas me afloram
a hesitante extremidade dos dedos

que, aquáticos e transidos, estacam
no limiar surpreso do seu rosto.
Movimentos longos da tarde
e sussurros graves da noite
que tendessem para a imobilidade

e o silêncio, não seriam mais cautos
e aéreos. Quietas estátuas de cristal,
intensamente nos fitamos, enquanto
trémula, lenta e comburente,
a luz mais pura nos atravessa.

(de O Corpo de Atena, 1984)

20.12.05

RUI KNOPFLI

O POETA É UM FINGIDOR


Entreteço palavras
na malha áspera destes versos
e a tessitura triste que faço
mais esmorece no azul baço
do papel. Entristeço então
a alma numa renda miúda
e apertada de ponto incerto
e complicado. Estabeleço assim
dois mundos convergentes:
A textura entristecida dos versos
e a tristeza entretecida da alma.
E logo esqueço onde tudo isto
teve começo:
Se de entristecer palavras,
se de entretecer sentimentos,
se de constrangera alma,
se de contristar palavras:
se me contristei constrangendo,
se me constrangi contristando.

Sei que me contristo entretecendo
e me entreteço de tristeza.

(de Mangas Verde com Sal, 1969)

30.8.05

RUI KNOPFLI

OFÍCIO NOVO


Uma poesia exausta de pássaros
e folhagem
abre os olhos descarnados
para a paisagem de amarelos
lívidos.
No desconforto modorrento
da tarde
pulam insectos pardos
ao voo sonolento.
O olhar cauterizado
perde-se no árido desencanto
da planície morta
estendida inutilmente à fome dos homens.

Uma poesia cansada de aves
de sonho
e do brilho rútilo das imagens,
esgarça e seca e refaz-se
na magoada realidade de um céu
ardendo em ferida.
Do verso se rompe
a arquitectura íntima
e se ausenta a melódica
sonoridade.
Em silêncio, na paisagem tosca
de gente magra e escura e triste,
lentamente,
aprendemos um novo ofício.

(de Reino Submarino, 1962)

18.6.05

JOSÉ CRAVEIRINHA

PUREZA


Nós
jamais ficamos lívidos.
E nascemos tão simples
que o rubor em nossos rostos
não tem sentido
não é possível
nem existe.

É uma fonte de aves o nosso canto
e o grito de capataz
não é sonho inventado
mas existe na manhã cósmica dos cargueiros atracados
e guindastes de duzentas e cinquenta toneladas.

Lívidos
nascem os outros
e o rubor em nossos rostos
não tem sentido nem existe.
Mas o permanente sentido de angústia
nossos corações de negros
faz cada vez mais puros.

(da selecção de poemas que acompanha o texto de Jorge de Sena em Poesia de Moçambique I, Minerva Central, 1972; publicado originalmente em A Voz de Moçambique de 31 de Março de 1962)

15.5.04

[personagens recorrentes II]



RUI KNOPFLI

O ESCRIBA ACOCORADO


Sentado na pedra de ti próprio,
não tens rosto, senão o que,
de anónimo, a ela afeiçoou
a mão que assim te quis. Do resto,
do que de individualidade, porventura,

em ti existiria, se encarregou
a persistente erosão dos dias. De vago,
neutro olhar sem órbitas, permaneces
hirto, fitando sempre mais além
da morna penumbra que te envolve

no halo intemporal que é, do tempo,
o nexo único. Nesse olhar
de não ver tudo se inscreve,
repensa e adivinha: teus limites
e, ainda, o que excederia tua humana

estatura. Sem contornos, em sombra
e sono te diluis no que, de ti,
nunca saberemos. Porém, límpida
e escorreita, até nós chega a laboriosa
escrita que no papiro ias lavrando.

(de O Corpo de Atena, 1984)


PEDRO TAMEN

1. O escriba acocorado


Ele que escreve que não saibamos já,
olhos fitos no nada que por ciência tem?
Sob os ardores do sol burila só silêncio
que sustenta no colo
e onde cabe tudo.

(de Depois de Ver, 1995)

28.12.03

[gosto muito de inventários XXXIII]

RUI KNOPFLI

INVENTÁRIO


Rosas inglesas rosa pálido tingido
de alvura, gravatas Lanvin e Ricci.
Na mão a demorada taça de ordálio,
ouro velho e insidioso, doce cheiro a fumo.
Objectos familiares, ténues, difusas

lembranças de longe. Um crânio
de ébano negrejando entre a luz
e a garrulice do barro artesanal,
o cio magoado da voz fadista. A ilha ao sol,
ao sonho, amortalhada na distância.

O cajueiro e a mafurra, micaias
agrestes, panoramas da infância,
dolorosos, esbatidos fantasmas
de outro tempo, agigantados em olmos
e castanheiros na oval cinzenta

do No Man's Common. Livros por abrir
dormitando na poeira, o gráfico
anguloso do horóscopo, retratos,
memória paralisando o instante
esquecido. A mulher de passagem,

velo fulvo, debrum para o azul
lavado do olhar, perfil mitigando
a vacilante modorra do entardecer.
Alongada curva do flanco retraindo-se
sob a experimentada carícia antiga

dos dedos cansados. Toda a memória
inflectindo o gesto, o gesto já só memória
que de si mesma se desprende e afasta,
conjecturando, indolor, a paisagem
neutra dos dias que se avizinham ermos.

(de O Corpo de Atena, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984)

25.12.03

RUI KNOPFLI

Nasceu em 1932, em Moçambique.
Morreu no dia de Natal de 1997.

AMOR DAS PALAVRAS

Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo
para o sabor de teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o de meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo e pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.

(de O País dos Outros, 1959)