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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018




               Da primeira vez eras compasso de música

               e eu incrédula, no espanto de quem vê a brisa 

               assobiar quente ao meu ouvido

               em jeito de sol maior.

               Sim, da primeira vez ludibriaste os meus sentidos

               Com esse teu assobio baixinho, musical

               de brisa ondulante e terna.

               Mas depois  virias a erguer a tua cabeça

               e a olhar fixamente o meu infinito

               enquanto  eu olhava o teu

               e ambos compactuamos com a eternidade

               e o sangue ferveu-nos nas veias sem eu saber

               e ainda assim fui crédula e trouxe-te comigo

               e tu tocaste vagarosamente

               com as tuas mãos no meu rosto

               e de seguida procuraste guarida no meu peito

               e a brisa voltou como da primeira vez, ondulante

               a ludibriar-nos novamento os sentidos

               a conjurar para que não voltassemos

               a fazer o caminho para trás


terça-feira, 27 de novembro de 2018

"Tu és o amor"...





Tu és o amor

tu és o ardor

nos olhos alucinados

das noites mal dormidas

tu és a minha inspiração e expiração

tu és todo o sangue vivo

que o meu corpo alberga

deambulando ao acaso

entre artérias e veias

sem quaisquer assombramentos.

Tu és o amor

tu és a própria vida

no olhar de uma criança absorta

num céu azul traçado de branco

pelo rasto de aviões


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Selfie ...





Apetece-me chorar por ti... porque já foste

há tantos dias e nunca mais voltas!

eu sei que ainda foram só umas horas mas já dói tanto

deixaste-me no vazio dos abraços incompletos

que indiciavam marés e prometiam noites

com o vagar da ternura das nossas  lágrimas silenciosas...

E de tantas horas que tínhamos juntado juntos

erguemos um mar nosso, incomensurável

poderoso e com  estatuto próprio de um mar que o amor fez

com a água translúcida dos teus olhos perdidos no verde cinzento

com o sal que seca no corpo depois do suor do amor

e do riso partilhado atropelado pelo prazer que faz

derreter os ossos, ficando as pernas bambas, os braços lassos...

molhados pelos beijos que o corpo pede na loucura

no desejo cego de não nos perdermos outra vez...

pele com pele, lábios, os corpos a darem-se frutos

a florir...flores vermelhas a brotar e a encher o mar

uma explosão potente da natureza no seu  mais belo expoente,

o amor, o amor ardente, puro, capaz de mover montanhas

e de criar mares imensos, como o nosso...

onde a todas as horas do dia e da noite e em vigília permanente

nascem e se balanceiam as  flores vermelhas e efémeras

à tua espera, sempre à espera que venhas nas marés vivas

de final de Verão, Estação que não combina com os teus olhos

espero -te lá pelo Outono sempre junto ao nosso mar

já sei que virás com o tom cinzento nos olhos transparentes

Já sei que trazes as mãos vazias e o coração pronto para ficar...






segunda-feira, 22 de julho de 2013

...




O ENTERRADO VIVO

"É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência."



Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Difícil é reter o calor...





 É fácil trocar as palavras,

Difícil é interpretar os silêncios!

É fácil caminhar lado a lado,

Difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto,

Difícil é chegar ao coração!

É fácil apertar as mãos,

Difícil é reter o calor!

É fácil sentir o amor,

Difícil é conter sua torrente!



Excerto de um poema de Fernando Pessoa


sábado, 19 de janeiro de 2013

" Rute"





      Foi uma honra e uma grande alegria receber este presente de Joaquim Pessoa, grande poeta dos nossos dias.   Venho aqui partilhá-lo convosco porque fala do meu nome, porque é poesia e porque é muito bonito...:)

Rute
Nos primeiros ouros,
sem as primeiras armadilhas,
as tuas mãos brincavam com a água,
e os leopardos e os linces engravidavam as corças
quando antigas pedras do céu
foram as primitivas pedras da terra.
O sangue dos vulcões soltou-se
arrastando o teu nome trazido
de um palácio subterrâneo e profundo,
senhora dos mais tímidos gestos de princesa: Rute.
Essa era a fala das aves. A que primeiro
tiveram as pombas e as rolas,
e a que depois o vento aprendeu a entender.
Dela nasceu a cor do rubi, a flor do tamarindo,
o odor do aloendro.
Teu é o nome que agora rumoreja entre as árvores,
som que os animais feridos retiram do silêncio,
duas sílabas de pão, de erva, de ternura.
Nome que nenhum monte tem,
que não pôde ser de nenhuma cordilheira,
desfiladeiro ou lago.
Porque há nomes que são apenas um sorriso,
justamente uma gota: Rute.
Nome que só poderia pertencer
ao vento solar
ou a uma muito longínqua luz,
e que algum deus ou algum homem
há muito, muito tempo se deveria
simplesmente ter lembrado
para baptizar
a Constelação da Virgem.
in NOMES
Joaquim Pessoa, 2001

-*-
Espero que goste do poema, Rute.
 Beijo amigo do
Joaquim Pessoa

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A minha casa





És a minha casa a céu aberto

entre o azul e o verde  mar

 és o arrepio da minha pele

és a casa onde quero morar...




sexta-feira, 9 de março de 2012



"DESEJO"

Queria ser essa noite que te envolve; e 
cobrir-te com o peso obscuro dos braços 
que não se vêem. Um murmúrio 
desceria de uma vegetação de palavras, 
enrolando-se nos teus cabelos como 
secretas folhas de hera num horizonte 
de pálpebras. Deixarias que te olhasse 
o fundo do olhos, onde brilha
a imagem do amor. E sinto os teus dedos 
soltarem-se da sombra, pedindo
o silêncio que antecede a madrugada.

Nuno Júdice



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012





QUEM  ÉS TU 



Quem és tu que assim vens pela noite adiante,

Pisando o luar branco dos caminhos,

Sob o rumor das folhas inspiradas?



A perfeição nasce do eco dos teus passos,

E a tua presença acorda a plenitude

A que as coisas tinham sido destinadas.



A história da noite é o gesto dos teus braços,

O ardor do vento a tua juventude,

E o teu andar é a beleza das estradas.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012





"Nos teus olhos alguém anda no mar


alguém se afoga e grita por socorro


e és tu que vais ao fundo devagar

enquanto sobre ti eu quase morro.



E de repente voltas do abismo



e nos teus olhos há um choro riso


teu corpo agora é lava e fogo e sismo


de certo modo já não sou preciso.



Na tua pele toda a terra treme


alguém fala com Deus alguém flutua

há um corpo a navegar e um anjo ao leme.



Das tuas coxas pode ver-se a Lua



contigo o mar ondula e o vento geme


e há um espírito a nascer de seres tão nua."





Manuel alegre, in Sete Sonetos e um Quarto



* desculpem-me, mas não consigo colocar os espaços do poema como deve ser...provavelmente é da ondulação que as suas palavras nos trazem!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011




AMOR

o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um 
trovão de céu sobre a montanha. 



as tuas mãos são finas e claras, vês-me 

sorrir, brisas incendeiam o mundo
, 
respiro a luz sobre as folhas da olaia. 



entro nos corredores de outubro para 

encontrar um abraço nos teus olhos
 
este dia será sempre hoje na memória. 



hoje compreendo os rios. a idade das 

rochas diz-me palavras profundas, 

hoje tenho o teu rosto dentro de mim. 


JOSÉ LUIS PEIXOTO


quarta-feira, 9 de novembro de 2011




CANÇÃO DE AMOR

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.

Por isso canto. Alegre ou triste,canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.

Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.

Assim quero cantar-te meu amor,
para além da morte, para além de tudo.



Joaquim Pessoa, in 
CANÇÕES DE EX-CRAVO E MALVIVER

sexta-feira, 7 de outubro de 2011
















ÂNSIA

Não me deixem tranquilo
... não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo

Mia couto 


domingo, 2 de outubro de 2011























Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa