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sexta-feira, 2 de março de 2012

Giorgio Agamben em debate no Porto

Nos próximos dias 8 e 9 de Março, realiza-se um colóquio sobre o pensamento de Giorgio Agamben, no Centro Unesco do Porto, Rua José Falcão, 100, com entrada livre, de que transcrevo o programa completo:


Programa
Colóquio/ jornadas de estudo
sobre o pensador italiano contemporâneo
Giorgio Agamben (n. 1942)
 
Dias 8 e 9 de Março de 2012 – Centro Unesco do Porto – Rua José Falcão, 100 – colaboração da Fundação Eng.º António de Almeida, Porto – organização da SPAE e da ADECAP (associações científicas e culturais sem fins lucrativos sedeadas no Porto).
 
Entrada livre sem necessidade de inscrição prévia.
Coordenação conjunta de Vítor Oliveira Jorge e de
Luís Carneiro
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Dia 8. Quinta-feira

9h00 Vítor Oliveira Jorge – Breve apresentação de Giorgio Agamben na perspectiva de uma pessoa sem formação em filosofia: por que interessa tanto a todos este pensador contemporâneo?

9h30 Luís Carneiro – Breve apresentação geral da obra/ perfil filosófico de Giorgio Agamben

10h00 Cíntia Gil – Considerações sobre o contemporâneo
10h30 Gonçalo Leite Velho - Indelével: Gesto, Memória e Cinema

Debate (11h00-13h00)

15h00 André Dias – Contra a vontade

15h30 Rossana Mendes Fonseca – Assinatura, Enunciado, Arquivo

16h00 Viriato Porto – A comunidade que vem, ou o pós-anarquismo de Agamben

Debate (16h30-18h00)
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Dia 9. Sexta-feira

9h00 Maria José Barbosa – A experiência como mistério – leitura da história segundo Agamben
9h30 Joana Alves Ferreira – Homo qua Homo. O lugar singular de um corpo aprisionado. A obra “O Aberto” de Giorgio Agamben no contexto da relação entre homem e natureza, entre homem e técnica e entre natureza e história
10h00 Ana Vale – Paradigma e emergência em Arqueologia. Uma leitura dos textos: O que é um paradigma e Arqueologia Filosófica de Giorgio Agamben
10h30 Sérgio Gomes – O Passado, os Indícios e as Pistas: um cruzamento da leitura de Giorgio Agamben, Michel de Certeau e Tim Ingold

Debate (11h00-13h00)

15h00 Pedro A.H. Paixão – A questão das «medialidades puras» em Giorgio Agamben
15h30 Jorge Leandro Rosa – O messiânico como crise do pacto arcaico
16h00 António Caselas – A vida indomável, para além da regra e do direito

Debate final (16h30-18h00)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Giorgio Agamben - "Collants Dim"


«No início dos anos setenta podia-se ver nas salas de cinema de Paris um spot publicitário de uma conhecida marca de collants. Nele era apresentado de frente um grupo de raparigas que dançavam juntas. Quem teve a oportunidade de observar, mesmo distraidamente, alguma dessas imagens, dificilmente terá esquecido a especial impressão de sincronia e de dissonância, de confusão e de singularidade, de comunicação e de estranheza que emanava do corpo das dançarinas sorridentes. Esta impressão resultava de um truque: cada rapariga era filmada sozinha e, em seguida, fazia-se a montagem com todas as peças, tendo como fundo uma única banda sonora. Mas deste truque fácil, de calculada assimetria nos movimentos das longas pernas revestidas pela mesma mercadoria barata, de uma diferença mínima nos gestos, exalava para os espectadores uma promessa de felicidade que dizia respeito, inequivocamente, ao corpo humano.
Nos anos vinte, quando o processo capitalista de mercantilização começou a investir na figura humana, observadores de modo nenhum favoráveis ao fenómeno não puderam deixar de destacar nele um aspecto positivo, como se tivessem sido postos perante o texto adulterado de uma profecia que estava para além dos limites do modo de produção capitalista e que se tratava, justamente, de decifrar. Assim nasceram as observações de Kracauer sobre as girls e as de Benjamin sobre a decadência da aura.
A mercantilização do corpo humano, ao mesmo tempo que o sujeitava às leis férreas da massificação e do valor de troca, parecia simultaneamente resgatá-lo do estigma de inefabilidade que o tinha marcado durante milénios. Libertando-se da dupla cadeia do destino biológico e da biografia individual, ele abandonava quer o grito inarticulado do corpo trágico quer o mutismo do corpo cómico e surgia pela primeira vez perfeitamente comunicável, integralmente iluminado. Nos ballets das girls, nas imagens da publicidade, nos desfiles dos manequins, cumpria-se assim o secular processo de emancipação da figura humana dos seus fundamentos teológicos, que já se tinha imposto em escala industrial quando, no início do século XIX, a invenção da litografia e da fotografia tinha encorajado a difusão a bom preço das imagens pornográficas: nem genérico nem individual, nem imagem da divindade nem forma animal, o corpo tornava-se agora verdadeiramente qualquer.
A mercadoria mostrava aqui a sua secreta solidariedade com as antinomias teológicas (que Marx tinha entrevisto). Já que o “à imagem e semelhança” do Génesis, que fazia radicar em Deus a figura humana, vinculava-a, no entanto, deste modo, a um arquétipo invisível e fundava, assim, o conceito paradoxal de uma semelhança absolutamente imaterial. A mercantilização, libertando o corpo do seu modelo teológico, salva-lhe porém a semelhança: qualquer é uma semelhança sem arquétipo, isto é, uma Ideia. Por isso, se a beleza perfeitamente substituível do corpo tecnicizado não tem já nada a ver com o aparecimento de um unicum que, perante Helena, perturba os velhos príncipes troianos, nas portas Ceias, vibra no entanto na beleza de Helena e no corpo tecnicizado algo como uma semelhança (“vendo-a, assemelha-se terrivelmente às deusas imortais”). Daí, também, o desaparecimento da figura humana das artes do nosso tempo e o declínio do retrato: apreender uma unicidade é tarefa do retrato, mas para apreender a “qualqueridade” é necessária a objectiva fotográfica.
Num certo sentido, o processo de emancipação era tão antigo quanto a invenção das artes. Já que, desde o primeiro momento em que uma mão delineou ou esculpiu uma figura humana, estava lá presente, a guiá-la, o sonho de Pigmalião: formar não simplesmente uma imagem para o corpo amado, mas um outro corpo para a imagem, quebrar as barreiras orgânicas que impedem a incondicionada pretensão humana à felicidade. Que se passa hoje, na idade do completo domínio da forma da mercadoria em todos os aspectos da vida social, com a submissa e insensata promessa de felicidade que vinha ao nosso encontro, na penumbra das salas cinematográficas, através das raparigas enfiadas nos collants Dim? Nunca como hoje o corpo humano – sobretudo o feminino – foi tão maciçamente manipulado e, por assim dizer, imaginado de alto a baixo pelas técnicas da publicidade e da produção mercantil: a opacidade das diferenças sexuais foi desmentida pelo corpo transsexual, a estranheza incomunicável da physis singular abolida pela sua mediatização espectacular, a mortalidade do corpo orgânico posta em dúvida pela promiscuidade com o corpo sem órgãos da mercadoria, a intimidade da vida erótica refutada pela pornografia. Todavia, o processo de tecnicização, em vez de investir materialmente no corpo, estava orientado para a construção de uma esfera separada que não tinha com ele praticamente nenhum ponto de contacto: não foi o corpo que foi tecnicizado, mas a sua imagem. Assim, o corpo glorioso da publicidade tornou-se a máscara por detrás da qual o frágil e minúsculo corpo humano continua a sua precária existência, e o geométrico esplendor das girls cobre as longas filas dos anónimos corpos nus conduzidos à morte nos Lager, ou os milhares de cadáveres martirizados na quotidiana carnificina das auto-estradas.
Apropriar-se das transformações históricas da natureza humana que o capitalismo quer confinar no espectáculo, fazer com que imagem e corpo se penetrem mutuamente num espaço em que não possam mais ser separados e obter assim, forjado nele, o corpo qualquer, cuja physis é a semelhança – tal é o bem que a humanidade deve saber arrancar à mercadoria no declínio. A publicidade e a pornografia, que a acompanham ao túmulo como carpideiras, são as inconscientes parteiras deste novo corpo da humanidade.»

De A comunidade que vem, Editorial Presença, Lisboa, 1993, Cap. XII, pp. 40 a 43

terça-feira, 6 de julho de 2010

Giorgio Agamben - "Sem classes"


«Se tivéssemos mais uma vez de pensar o destino da humanidade em termos de classes, então deveríamos dizer que já não existem hoje classes sociais, mas apenas uma pequena burguesia planetária, em que as velhas classes se dissolveram: a pequena burguesia herdou o mundo, é a forma sob a qual a humanidade sobreviveu ao niilismo.
Mas isto é exactamente o que o fascismo e o nazismo tinham igualmente compreendido, e ter visto com clareza o irrevogável declínio dos velhos sujeitos sociais constitui de facto a sua insuperável patente de modernidade. (De um ponto de vista estritamente político, fascismo e nazismo não foram superados e é sob o seu signo que vivemos ainda.) Eles representavam, porém, uma pequena burguesia nacional, ainda ligada a uma falsa identidade popular, sobre a qual agiam sonhos burgueses de grandeza. A pequena burguesia planetária, em contrapartida, emancipou-se destes sonhos e fez sua a atitude do proletariado que consiste em declinar toda e qualquer identidade social reconhecível. Tudo aquilo que é, o pequeno burguês anula-o no próprio gesto com que parece obstinadamente aderir a ele: ele apenas conhece o impróprio e o inautêntico e recusa até a ideia de uma palavra própria. As diferenças de língua, de dialecto, de modos de vida, de carácter, de vestuário e, acima de tudo, as próprias particularidades físicas de cada um, que constituem a verdade e a mentira dos povos e das gerações que se sucederam na terra, tudo isto perdeu para ele todo o significado e toda a capacidade de expressão e de comunicação. Na pequena burguesia, as diversidades que marcaram a tragicomédia da história universal estão expostas e reunidas numa fantasmagórica vacuidade.
Mas a falta de sentido da existência individual, que ela herdou dos subsolos do niilismo, tornou-se entretanto tão insensata que perdeu todo o pathos e transformou-se, revelando-se abertamente, em exibição quotidiana: nada se assemelha mais à vida da nova humanidade quanto um filme publicitário do qual foi apagado qualquer sinal do produto publicitado. A contradição do pequeno burguês é que ele ainda procura, porém, neste filme o produto pelo qual sofreu uma decepção, insistindo apesar de tudo em se apropriar de uma identidade que, na realidade, se tornou para ele absolutamente imprópria e insignificante. Vergonha e arrogância, conformismo e marginalidade são assim os extremos polares de toda a sua tonalidade emotiva.
O facto é que a falta de sentido da sua existência se depara com uma última falta de sentido, onde naufraga toda a publicidade: a morte. Perante ela, o pequeno burguês é confrontado com a última expropriação, com a última frustração da individualidade: a vida na sua nudez, o puro incomunicável, onde a sua vergonha encontra finalmente a paz. Deste modo, ele cobre com a morte o segredo que deve no entanto resignar-se a confessar: que também a vida na sua nudez lhe é, na verdade, imprópria e puramente exterior, que não existe, para ele, nenhum abrigo na terra.
Isto significa que a pequena burguesia planetária é verosimilmente a forma sob a qual a humanidade está avançando para a sua destruição. Mas significa também que ela representa uma ocasião inaudita na história da humanidade, que esta não deve por nenhum preço deixar escapar. Porque se os homens, em vez de procurarem ainda uma identidade própria na forma agora imprópria e insensata da individualidade, conseguissem aderir a esta impropriedade como tal e fazer do seu ser-assim não uma identidade e uma propriedade individual mas uma singularidade sem identidade, uma singularidade comum e absolutamente exposta, se os homens pudessem não ser-assim, não terem esta ou aquela identidade particular, mas serem apenas o assim, a sua exterioridade singular e o seu rosto, então a humanidade acederia pela primeira vez a uma comunidade sem pressupostos e sem sujeitos, a uma comunicação que não conheceria já o incomunicável.
Seleccionar na nova humanidade planetária as características que lhe permitam a sobrevivência, afastar o subtil diafragma que separa a má publicidade mediática da perfeita exterioridade que não comunica outra coisa que não seja ela própria – esta é a missão política da nossa geração.»
De A comunidade que vem, Editorial Presença, Lisboa, 1993, tradução de António Guerreiro, pp. 50-52

domingo, 4 de julho de 2010

Giorgio Agamben - "Maneries"

Com alguma frequência uso a expressão «a minha maneira de ser», e ao ler este excerto do livro de Giorgio Agamben, "A comunidade que vem", fiquei um pouco apreensiva com a ideia de que o que me gera é a minha maneira de ser e isso "é a única felicidade verdadeiramente possível".
«É um ser deste género que Plotino devia ter em mente quando, ao procurar pensar a liberdade e a vontade do uno, explicava que não se pode dizer dele que "aconteceu ser assim", mas apenas que "é como é, sem ser dono do próprio ser"; e que "não permanece na sua própria condição, enquanto tal, mas usa-se a si tal como é" e não é assim por necessidade, na medida em que não podia ser de outro modo, mas porque "assim é o melhor".
Talvez o único modo de compreender este livre uso de si, que não dispõe porém da existência como de uma propriedade, seja pensá-lo como um hábito, um ethos. Ser gerado pela própria maneira de ser é, de facto, a própria definição do hábito (por isso os gregos falavam de uma segunda natureza): ética é a maneira que não nos acontece nem nos funda, mas nos gera. E o serem gerados pela própria maneira é a única felicidade verdadeiramente possível para os homens».

De "A comunidade que vem", Editorial Presença, Lisboa,1993, tradução de António Guerreiro,  Capítulo VII, pp. 29/30.