Depois de, a 6 de Julho p.p., ter publicado aqui um artigo
sobre as Escolas iPad na Holanda, tenho recebido correio assinado pelo Sr.
Maurice de Hond, o mentor deste projecto, que achou por bem informar-me do
desenrolar das actividades dos pais e alunos até à abertura das referidas
escolas, que se verificou a 21 de Agosto p.p. (e não a 13 de Agosto, como
constava do artigo mencionado).
Informou-me também que tinham elaborado um extenso e
pormenorizado comunicado de imprensa sobre o funcionamento das escolas “Steve
Jobs”, que me enviou, em neerlandês, inglês, castelhano e chinês (a mim
coube-me a versão castelhana, o que é compreensível), tendo-me solicitado que
desse conta aqui no blogue do endereço onde podem ser vistos cinco vídeos
(vimeo) sobre as actividades das crianças e das escolas, e que é este: www.educationforanewera.com/es
(também a versão castelhana, claro).
Satisfeito o pedido, não deixo, todavia, de reafirmar a
apreensão que manifestei na introdução à publicação de 6 de Julho.
Depois de ler este artigo fiquei a reflectir, tentando antever que tipo
de cidadãos terá a Holanda daqui a dez ou quinze anos, se a maioria das
crianças e jovens acederem a este modelo de “ensino”. Se hoje já se distanciam
tanto dos problemas que afectam os seus parceiros da União Europeia mais dados
a festas e romarias (de preferência, à borla), não será de admirar que, no
futuro, e por este caminho, se sintam mais confortáveis a lidar com robôs do
que com seres humanos. Mas como posso não estar a entender bem o alcance e as
repercussões desta “reforma”, traduzi o artigo e publico-o aqui quase na
totalidade, pois pode haver alguém que me indique o que tem de virtuoso.
«Muitas
escolas usam iPads. Mas, e se toda a experiência educativa fosse oferecida via
tablet? Isso é o que algumas novas escolas na Holanda estão a planear fazer.
Não haverá o quadro negro nem programas escolares. Será o fim da sala de aula?
Pensem
diferente. Isto foi mais do que um anúncio publicitário. Foi um manifesto e,
com isso, o ex-presidente da Apple, Steve Jobs, revolucionou a indústria dos
computadores, da música e o mundo dos telemóveis. O plano seguinte do
visionário do digital era introduzir mudanças radicais nas escolas e nas
editoras de manuais escolares, mas morreu de cancro antes de o conseguir
executar.
Algumas das ideias que talvez tenham ocorrido a Jobs, estão
agora a ser concretizadas na Holanda. Onze “Escolas Steve Jobs” abrirão em
Agosto, estando Amesterdão entre as cidades que acolherão esse tipo de escola.
Cerca de mil crianças, com idades entre os 4 e os 12 anos, irão a essas
escolas, sem cadernos, livros ou mochilas. Cada uma delas, contudo, terá o seu
próprio iPad.
Não
haverá quadros, giz ou salas de aula, salas de professores, aulas formais,
planos de aulas, carteiras, canetas, professores a ensinar à frente da turma,
horários, reuniões de pais com os professores, notas, toques para intervalo,
nem dias de escola e de férias previamente estabelecidos. Se uma criança
preferir jogar no seu iPad em vez de aprender, não haverá problema. E as
crianças escolherão o que desejam aprender com base no que lhes desperta
curiosidade.
As
adaptações já estão a ser feitas em Breda, uma cidade perto de Roterdão, onde
uma das escolas ficará instalada. Gertjan Kleinpaste, o reitor de 53 anos de
idade, está consciente de que a sua escola iPad na Schorsmolenstraat poderá
tornar-se, em breve, destino para invejosos – e também para indignados –
reformistas da educação de todas as partes do mundo. (…)
O
ano passado, ele era o reitor de uma escola que tinha três computadores, o que
achava frustrante. “Já não estava a acompanhar os tempos”, diz ele. Em breve
(13 de Agosto de 2013), Kleinpaste será um membro da era digital avançada. E
está convencido de que “o que estão a fazer parecerá normalíssimo em 2020”.
As
escolas Steve Jobs estarão abertas entre as 7:30 e as 18:30 de segunda a
sexta-feira. As crianças entrarão e sairão quando quiserem, desde que estejam
presentes no período principal, entre as 10:30 e as 15:00. As escolas
encerrarão apenas pelo Natal e Ano Novo. As famílias das crianças poderão ir de
férias quando lhes aprouver, e nenhuma criança terá de ficar preocupada se
faltar às aulas por causa disso, uma vez que já não existirão aulas no sentido
tradicional.
Aproveitando a efeméride, escolhi este excerto por constatar a continuação da sua actualidade em muitos relacionamentos humanos, e porque, sendo assim, e faltando a alguns a capacidade para o insulto e para a rudeza, muito menos para “tiros e estocadas”, já se vê em que situação ficam os que optam pela via do direito, da razão e da verdade.
«Assim como ser insultado é uma vergonha, insultar é uma honra. Por exemplo, mesmo que a verdade, o direito e a razão estejam do lado do meu adversário, não deixo de insultá-lo; desse modo, todas as suas qualidades passam a ser desconsideradas, e o direito e a honra passam a estar do meu lado. Ele, pelo contrário, perdeu provisoriamente a sua honra – até conseguir restabelecê-la, não mediante direito e razão, mas por tiros e estocadas. Logo, a rudeza é uma qualidade que, no ponto de honra, substitui ou se sobrepõe sobre as outras. O mais rude tem sempre razão: para quê tantas palavras? Qualquer estupidez, insolência, maldade que alguém possa ter feito, uma rudeza retira-lhes essa característica e elas são de imediato legitimadas. Se, numa discussão ou conversa, outro indivíduo mostra conhecimento mais correcto do assunto, um amor mais austero à verdade, um juízo mais saudável, mais entendimento que nós, ou se em geral exibe méritos intelectuais que nos deixam na sombra, então podemos de imediato suprimir semelhantes superioridades e a nossa própria mesquinhez por elas revelada e sermos, por nosso turno, superiores, tornando-nos ofensivos e rudes.
Pois uma rudeza derrota todo o argumento e eclipsa qualquer espírito; isso se o oponente não tomar parte nela e replicar com outra maior ainda. Não o fazendo, chegamos à vantagem no nobre desafio; desse modo, permanecemos vitoriosos e com a honra do nosso lado. Verdade, conhecimento, entendimento, inteligência e espírito têm de ser desconsiderados e acabam por ser reprimidos pela divina rudeza. Por conseguinte: as “pessoas de honra”, tão logo são confrontadas com uma opinião diferente da sua ou simplesmente com um entendimento mais arguto que pode contradizê-las, preparam-se imediatamente para montar no seu cavalo de batalha, e se, numa controvérsia, lhes faltar um contra-argumento, procurarão uma rudeza, que servirá para o mesmo fim e é mais fácil de encontrar. Em seguida, vão-se triunfantes. Nesse caso, já se vê o quão é justo dizer, em louvor do princípio da honra, que ele enobrece o tom em sociedade.»
Muitos séculos depois, a Universidade de Lisboa recupera os Estudos Gerais, num tempo em que já podemos apercebermo-nos dos resultados a que conduzem as especializações prematuras por áreas do conhecimento, que deixam muitos praticamente desprovidos de ferramentas para compreenderem outras matérias, muito menos de as relacionarem com as que aprenderam. A licenciatura em Estudos Gerais, que se inicia no próximo ano lectivo, dá a cada aluno a possibilidade, à semelhança do que acontece nos Estados Unidos da América, de elaborar o seu próprio plano de estudos, escolhendo as matérias que deseja aprender, desde a Biologia, às Artes, à Filosofia, às Línguas, ou seja, um só curso abarca áreas tão diversas como as Artes, Ciências e Humanidades. Terminada esta licenciatura, os alunos ficarão, por certo, e com este modelo, mais apetrechados para escolherem as áreas em que querem especializar-se, através de cursos de pós-graduação, já para não falar na maturidade e no conhecimento de causa com que o fazem, muito diferente do que acontece no 9.º ano de escolaridade, que é quando agora têm de escolher a área a seguir no Secundário.
Deixo o que, no entender da Universidade de Lisboa, será a mais-valia deste curso:
«O curso de Estudos Gerais serve para as pessoas poderem ser capazes de estudar e perceber coisas diferentes: do Big Bang a Homero, das leis da perspectiva à filosofia política, das culturas multimedia às línguas orientais. Para não serem ignorantes em Biologia, em História, em Matemática ou em Arte. Para serem capazes de distinguir uma falácia de um argumento, explicar-se através de um desenho ou ler estatísticas.
Quem percebe coisas diferentes é mais capaz de fazer coisas diferentes. E quem é capaz de fazer coisas diferentes tem mais facilidade em encontrar emprego. Os empregadores vão poder encontrar nos licenciados em Estudos Gerais pessoas com formações mais completas e mais versáteis. Uma formação em Estudos Gerais vai aumentar muito a competitividade dos seus graduados num mercado de emprego global e em mutação constante. E, porque os nossos alunos vão organizar a sua formação superior de acordo com os seus interesses, a sua motivação irá também aumentar.
Para os que quiserem continuar a estudar depois da licenciatura, os Estudos Gerais darão acesso a todos os mestrados das Faculdades de Belas-Artes, Ciências e Letras da Universidade de Lisboa, bem como aos mestrados em ensino da Universidade, dependendo dos majors ou das disciplinas que tenham sido escolhidos no seu decurso.»
Não é todos os dias que nos deparamos com pessoas de fibra, daquelas que não contornam os obstáculos mas que os ultrapassam através de uma luta incansável e inteligente, deixando-nos a sensação de que vale a pena o esforço e o sofrimento quando o objectivo é o da liberdade e igualdade de direitos entre homens e mulheres no Afeganistão, algo impensável há tão pouco tempo.
Fawzia Koofi, 35 anos de idade, tem duas filhas, e apesar de o pai, o irmão e o marido terem sido mortos pelos talibãs, decidiu candidatar-se ao parlamento afegão para que a sua luta tivesse um verdadeiro eco político no que se refere às mulheres do seu país e que conduzisse a resultados práticos, desde logo o acesso à educação para todas as meninas, pois, segundo as suas próprias palavras: «We have much participation of women in Afghanistan politics. Yet 86 percent of the women are illiterate. I and the women who come before you, are not typical of women in our country». Fawzia Koofi conseguiu ser eleita e é deputada e vice-presidente da Assembleia Nacional do Afeganistão desde 2005 e tenciona candidatar-se às Presidenciais em 2014.
Esteve há poucos dias em Portugal a apresentar o seu último livro, "Letters to my daughters" ou "Às minhas filhas, com amor..." na tradução portuguesa das Edições Asa, e cujas reflexões sobre o mesmo poderão ser encontradas no sítio do Comité de Apoio a Fawzia Koofi. Quem desejar acompanhar a sua página no Facebook, encontra-a AQUI
SERÁ QUE TODO O LICENCIADO EM FILOSOFIA ESTÁ FADADO AO ENSINO OU À INVESTIGAÇÃO?
NÃO HAVERÁ OUTRA SAÍDA PROFISSIONAL?
Convidamos todos os interessados nestas questões a deslocarem-se à UCP (Sala dos Descobrimentos - 1º Piso do Edifício da Biblioteca) no próximo dia 25 de Fevereiro (6a-feira), entre as 18:30 e as 20:30, para assistirem à palestra «A Consultoria Filosófica segundo Jorge Dias».
Seguir-se-á um debate.
A entrada é livre.
Jorge Dias é licenciado em Filosofia na vertente Ético-Política pela UCP (1998) e Pós-Graduado em Educação para a Cidadania (1999). É actualmente doutorando na Universidade Nova de Lisboa e dirige desde 2008 o Gabinete Project@ – Consultoria Filosófica.
Entre as suas publicações, destacam-se:
Pensar Bem, Viver Melhor. Filosofia Aplicada à Vida (Lisboa, Ésquilo e APAEF, 2006)
(co-autor) Felicidade ou Conhecimento? (Sevilha, Doss Ediciones, 2009)
(co-autor) Ideia e Projecto. A Arquitectura da Vida (Madrid, Visión Libros, 2009)
PROGRAMA:
18h30 – Palestra “A Consultoria Filosófica segundo Jorge Dias”
20h00 – Questões e Debate: Jorge Dias, Marisa Cruz e Carlos Morujão
20h15 – Venda de Livros
20h30 – FIM
PALESTRA:
1. Da preocupação pelo Sentido à necessidade de um Projecto de Vida;
2. 5 mitos e 5 ilusões sobre a CF;
3. O desespero pela Utilidade;
4. A Filosofia do Conflito;
5. Condições para o (re)nascimento da Filosofia na actualidade;
6. Dos Problemas aos Métodos;
7. Competências do Consultor Filosófico;
8. O método PROJECT@;
9. O Consultório do EU – por Marisa Cruz;
10. Conclusões e debate;
A organização desta iniciativa resulta de uma parceria entre a Área Científica de Filosofia da FCH-UCP e o Gabinete Project@.
Para assinalar a Semana Nacional da Ciência e da Tecnologia, que termina já no próximo Domingo, escolhi alguns poemas de Eugénio Lisboa, que os dedicou principalmente a alguns "gigantes" da Física e que se encontram no livro de poesia "O Ilimitável Oceano". Alguns dos eventos poderão ser encontrados na página da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica - Ciência Viva.
COPÉRNICO
O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente,
demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!
GALILEU
As leis do movimento perscrutaste
com paciência e cândido olhar.
Com o mesmo olhar o vasto céu sondaste
humilde mas altivo no ousar.
KEPLER
O mundo próximo, à volta, apodrece.
Fome, mortal conflito e pestilência
turvam o dia mal amanhece.
Segura-se à pureza da ciência:
o curso aparente das estrelas,
seguindo matemática divina,
deriva, das rigorosas tabelas
do vasto cosmos, a curva sibilina.
NEWTON
Da qualidade oculta de tudo,
não cuido, nem sei. Não é de ofício
sério sabê-lo: o tudo é mudo
e forçar-lhe a fala é sério vício.
Dos fenómenos, deduzo leis
de movimento e destas derivo
qualidades e acções: vereis
que o saber, assim, avança, altivo.
Para quem prefira ler em vez de ouvir, aqui fica a transcrição do texto, no que se refere a educação, feita pelo blogue De Rerum Natura
«[Há] uma tragédia a que vamos assistindo quase sem reacção (...) teria de se construir um projecto social diferente. Nós temos demasiado denunciadores e não temos anunciadores, e os anunciadores que temos mentem (...). O caminho tem de ser outro, de construção duma consciência social, duma consciência colectiva de co-responsabilidade social (...).
[Neste] país de um nível cultural baixíssimo (...) tem agora esta espécie mentira colectiva das Novas Oportunidades, são novas oportunidades de quê? De coisa nenhuma.
Vamos dar um canudo às pessoas mas não construir uma consciência cultural, não vamos construir uma consciência social, vamos continuar, e esta é outras das nossas desgraças nacionais, a viver para a cultura do penacho, das peneiras e dos títulos (…) e sabemos como, às vezes, os diplomas se conseguem e as confusões que estão por aí…
Se o Bordalo Pinheiro fosse vivo, neste momento, a fotografia que ele faria do país seria barraca de um bairro de lata com um submarino estacionado à porta. Nós somos o país do pessoal das barracas com antena parabólica no tecto, temos um país a cair de podre, mas temos um submarino lindíssimo para as visitas verem, mas se calhar nem sequer temos fundo para o pôr a navegar …
Este seria o momento, não de aparição de nenhum messias, mas de aparição de gente capaz de formar opinião, gente capaz de formar consciência, gente capaz de gritar que o rei vai nu por muito engravatado que esteja, gritar que é tempo de mudar e de mudar as estruturas podres que nos conduziram até aqui. E estamos outra vez a sacudir a água do capote (...).
O facilitismo começa desde o Jardim-de-infância. Nós estamos a assistir a uma débâcle nacional, estamos a montar uma escola, [onde] teoricamente e por ironia da estupidez, é possível entrar na universidade sem quase saber ler nem escrever.
Estamos a mentir às pessoas, não estamos a dar um futuro aos nossos jovens. Pior do que isso, estamos a construir uma sociedade montada na fachada (…). Estamos a formar ou a deformar as gerações que vão ser o futuro desta nossa terra, que estão a crescer sem bases, que estão a crescer sem valores, que estão a crescer dentro duma sociedade que está montada no ter ou não ter e que deixou, esqueceu, o serpelo ser, e o ser pelo outro e o ser com o outro (...).
Reparem no que está a acontecer (…) vamos pagar uma factura extremamente pesada, e muito brevemente: nós estamos a criar gerações de monstros, nós estamos a criar gerações de jovens sem memória, estamos a criar gerações de gente sem história. E quando a memória e a história não se encontram, temos os cataclismos sociais.
As nossas crianças desde os três meses estão nos berçários, nos infantários, na escola porque têm que estar porque os pais precisam desesperadamente de ter dois ou três empregos para sobreviver (…) as nossas crianças não têm avós, não têm, sequer, pais (…).
É esta estrutura, por dentro, que precisa de mudar, e é a partir da base, a partir da educação.
Outra das facturas grandes que estamos a pagar (…) é a de um peneirismo nacional que entrou a seguir ao PREC e resolveu acabar com as Escolas Industriais e Comerciais (…). Não somos técnicos de coisa nenhuma. Veja um jovem que saia do liceu não sabe fazer rigorosamente nada. Temos a brincadeira dos Cursos Técnico Profissionais que são mais fachada do que outra coisa e temos uma população inteira de gente desqualificada. Nós somos os limpadores do mundo (…), continuamos a despejar os caixotes do lixo da Europa e da América do Norte. Não temos formação para mais (...). O destino é sermos comandados.»
“… O mainstream é feito por aqueles que berram ou têm palco. Mas dado que é, por sua natureza, imitação, ele apenas se repete. Quem anda no mainstream não tem tempo para ler, estudar ou investigar, pois passa o seu tempo a repetir. O mainstream é fruto da ignorância e da preguiça mental. Mas confere aos ignorantes a oportunidade de terem um protagonismo que não teriam de outro modo." (José Luís Pio de Abreu – todo o texto AQUI). E eu a pensar que era apenas impressão minha ao tropeçar com eles na blogosfera, mas se o Dr. Pio de Abreu o diz ...
Quando está ainda a decorrer a década que a Organização das Nações Unidas (ONU), através da UNESCO, dedica ao tema da Literacia (2003-2012), que veio substituir o da Alfabetização por se ter compreendido que uma pessoa alfabetizada não tem necessariamente a capacidade para interpretar o que lê e ouve nem competências para aplicar correctamente certos conhecimentos, assiná-la-se hoje mais um Dia Internacional da Literacia, que servirá principalmente para se fazer o balanço e reflectir sobre esta temática a nível mundial.
A literacia é, segundo a UNESCO, um direito humano, uma ferramenta para o desenvolvimento pessoal e um meio para o desenvolvimento social e humano, essencial para a erradicação da pobreza, redução da mortalidade infantil, para alcançar a igualdade de géneros, para assegurar o desenvolvimento sustentável, a paz e a democracia, e, por isso, estes são alguns dos motivos que a levam a colocar a literacia no centro da iniciativa “Educação para Todos”.
Actualmente, a iliteracia, de acordo com as estimativas da UNESCO, caracteriza um em cada cinco adultos, dos quais dois terços são mulheres, e já há muito que se chegou à conclusão de que é nas mulheres que se tem de apostar a todos os níveis de ensino e de formação porque são elas as primeiras educadoras dos seus filhos. O número de crianças que não frequenta o sistema de ensino, estimado em 72 milhões a nível mundial, e principalmente no chamado “terceiro mundo”, pode bem ser o reflexo de ainda não se ter apostado nas suas mães neste domínio.
A UNESCO não advoga um único modelo de literacia. O conceito tem evoluído ao longo dos anos, com novas implicações tanto ao nível das políticas a implementar como dos programas que têm sido desenvolvidos. Na prática, a literacia tem mudado rapidamente nas sociedades contemporâneas fruto de uma resposta aos desafios que se impõem aos níveis social, económico e tecnológico.
Daí que, o conceito de literacia da UNESCO tem vindo a transformar-se, desde uma simples noção de um conjunto de competências de leitura, escrita e cálculo até envolver múltiplas dimensões destas mesmas competências. Face às recentes transformações económicas, políticas e sociais, incluindo a globalização e os avanços na área das Tecnologias da Informação e Comunicação, a UNESCO reconhece a existência de muitas práticas no domínio da literacia com base em diferentes processos culturais, em circunstâncias pessoais e nas estruturas colectivas que se desenvolvem.No portal divulgado é possível aceder, entre outros conteúdos, ao programa estabelecido pela agência, em particular no âmbito da Década das Nações Unidas para a Literacia, assim como a materiais dedicados ao desenvolvimento da literacia e de programas de educação para adultos em comunidades linguísticas minoritárias.
Com um dia de atraso, por motivos de força maior, junto-me à comunidade BloggersUnite no sentido de chamar a atenção para o muito que ainda há a fazer na educação para a cidadania, neste caso concreto para que se respeitem os direitos dos cidadãos com deficiência, permanente ou temporária, e cada um de nós não está livre de passar por essa experiência.
Como é habitual, a legislação portuguesa é boa, também nesta matéria, mas o seu problema é sempre o da sua implementação no terreno, e é aí, no dia-a-dia, que as pessoas com mobilidade reduzida, quer seja em cadeiras de rodas, com o auxílio de canadianas ou de bengala no caso dos invisuais e amblíopes, que a falta de rigor e de medidas expeditas mais se faz sentir, pois qualquer pequeno obstáculo pode representar um perigo ou mesmo algo de intransponível para esses cidadãos.
Por outro lado, o nosso Código da Estrada é já bastante severo no que respeita a coimas para os condutores que estacionem os veículos em cima dos passeios e nos lugares reservados a deficientes, estando sujeitos a reboque além da coima. No entanto, parecem não ser suficientemente dissuasoras desse comportamento de absoluta falta de respeito para com as pessoas com deficiência.
No Concelho onde vivo é com agrado que vejo os passeios rebaixados junto às passadeiras para peões, rampas amplas e com pouca inclinação para acesso a estabelecimentos comerciais, mas também existe ainda um Centro de Saúde com três pisos sem elevador para ninguém, há mais de trinta anos, e que só agora a Autarquia parece ter condições de construir um de raiz adequado à função e para substituir este.
Como não tenho um vídeo que possa ilustrar o que ainda há a fazer nesta matéria no meu Concelho, deixo um vídeo, muito bem feito, com a realidade de Guimarães, e como, nesta matéria, os problemas são todos iguais, e as dificuldades que os cidadãos deficientes enfrentam também, não importa a localidade, o que interessa é chamar a atenção a quem de direito para actuar em conformidade.
A partir do 6.º minuto deste vídeo poderão ver como um homem em cadeira de rodas resolveu ultrapassar o seu obstáculo - um veículo em cima do passeio. Deplorável a falta de civismo de alguns de nós.
Ouvi, na Antena1, a Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, dizendo que os livros excedentes vão deixar de ser destruídos pelas editoras, como o fizeram recentemente alegando que não tinham espaço nos seus armazéns para os livros não vendidos, atitude que provocou na altura uma espécie de consternação geral por esse acto quase criminoso, dado o elevado nível de iliteracia no País, conjugado com o fraco poder de compra de muitas pessoas e o elevado preço dos livros, e que as editoras não doavam às bibliotecas municipais e escolares, hospitais, centros de dia, enfim, a todo um conjunto de instituições sem fins lucrativos, porque a doação desses livros não está isenta dos 5% de IVA.
Segundo a Ministra, que não teve coragem de dizer quantos livros foram destruídos até agora por se sentir envergonhada com a sua dimensão, na próxima semana será elaborado um diploma que isenta do pagamento de IVA a doação dos livros excedentes.
Eu desejo todo o sucesso a Gabriela Canavilhas para conseguir conciliar todos os interesses em causa, pois já ouvi o Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) a dizer que tinham que ser salvaguardadas também as percentagens que respeitam aos direitos de autor. Ora, se os livros destruídos não pagam IVA nem direitos de autor, os livros doados vão ficar isentos de IVA mas ficarão sujeitos ao pagamento dos direitos de autor como se tivessem sido vendidos nas livrarias? Não sei como a Ministra vai conseguir resolver esta questão, mas ficou ainda mais claro por que é que a destruição de livros se mostrou o caminho mais fácil quando as partes interessadas não se conseguem entender. E depois mostram-se chocadíssimos!
Vale a pena ler o texto publicado agora no blogue de António Barreto, Jacarandá, com o título Do livro e da leitura e que corresponde a uma intervenção que fez no 1.º Congresso dos Editores Portugueses em Abril de 2001. Antes ou depois, convém ler o texto de Helena Damião publicado a 16 de Agosto no blogue De Rerum Natura, com o título "Os livros são feitos para serem vendidos", onde se aborda a questão da destruição de livros por algumas editoras. As conclusões tira-as cada um.
Jean-Paul Sartre mostrou-se encantado por ter observado na península ibérica uma das educações infantis menos repressivas que existiam.
Essa educação consiste na adulação permanente da criança-rei (sobretudo os meninos e hoje também as meninas), o que constitui uma porta aberta para as suas pulsões narcisistas e exibicionistas, para a afirmação egoísta de si, e em nada contribui para a existência de um comportamento autodeterminado e equilibrado na percepção de si e do outro.
Esse tipo de educação traduz-se, na adolescência, numa indefinição do espaço humano que nada limita e define senão a vontade oposta, o que pode dar origem a uma sociedade que suscite e imponha uma intervenção estatal que, de algum modo, equilibre essa falsa "realeza" individual, mas que pode também, e muitas vezes, descambar em facilitismos e em nivelamentos por baixo, o que é desastroso e quase epidémico, com reflexos em várias gerações. Aliás, a sociedade portuguesa não é a única que não consegue resistir a esse impulso de ocupar um lugar que exija o mínimo de esforço e o máximo de promoção social segundo a norma do "parecer". E bem podemos esperar sentados a almejada mudança dessa coisa obscura chamada "mentalidade" que, não sendo da ordem do político, implica-o. A mentalidade de ricos sem tostão faz parte duma estrutura global, e mesmo que a realidade mostre o contrário ou que uma catástrofe esteja iminente, não a conseguem alterar. Se Freud tivesse tido oportunidade de nos conhecer, descobriria um povo em que é patente o triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade.