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segunda-feira, fevereiro 22, 2010

O gesto nobre e alegre

As eleições presidenciais prevêm-se aguerridas. Fernando Nobre e Manuel Alegre já estão na pré-corrida e pelo que provocaram, já merecem o nosso aplauso e agradecimento. A Presidência da República detem na nossa comunidade uma importante função de representação política e social e qualquer um deles tem um perfil humano, cultural e cívico que os coloca, indiscutivelmente, num plano de destaque da vida política e social portuguesa. Que vive momentos de grande perturbação e bem precisa deste tipo de iniciativas de cidadania que a prestigiem. Não deixa no entanto de ser interessante, e engraçada, uma circunstância política, que surge com estes pré-anúncios: ambos os candidatos que têm uma forte capacidade de implantação na esquerda, possuem também capacidade de entrar em campos do centro e da própria direita e, ao fazê-lo, desvalorizam a importância da questão do enquadramento político, permitindo que surjam outros aspectos de valorização política das candidaturas (e até criando problemas a uma eventual candidatura de Cavaco Silva, que iria claramente dirigir-se às tribos de direita).
[Às tribos de esquerda recomendo este texto, de Porfirio Silva.]

domingo, fevereiro 21, 2010

Os meus amigos da Madeira

Estive uma única vez no Funchal, em 1998. Estive praticamente nove dias fechado no Teatro Baltazar Dias, com o Carlos Alberto Augusto, o Fernando Mora Ramos, o Luís Mourão e um grupo de aventureiros na área da escrita, da música e da representação. No último dia, antes do voo, os quatro alugámos um taxi e fomos dar uma volta pela ilha, para a conhecer mais um pouco. É a única vez que estive na ilha. Agora, ao ver as imagens, algumas parecem-me familiares, as da zona portuária, das docas, mas de resto, entre lama, carros e detritos, tudo me parece uma paisagem branca das catástrofes internacionais. Até que de repente me ligo às pessoas. Aos meus colegas de curso, o Filipe, a Susaninha, o JP, o Fernando. Ao Emanuel. E tudo volta a ficar mais próximo, demasiado próximo.

Conspiração

Não sei se é ele, se é o tempo, que conspira, e, ambos, a meu favor. É já muitos dentro de mim. Desde aquela pequena bola rechonchuda que eu agarrava e levantava no ar, com os dois braços esticado, os dois a rirmo-nos, até ao Peter Pan, ou ao meu parceiro de bola; áquele que me dá conselhos de vida, o que já fez o luto da sua ideia de pais juntos e enfia o braço no braço dela; o que já me deixa namorar com ela sem nos vir abraçar aos dois, com medo de ficar de fora, até ao mais recente, o que escreve e canta canções com trejeitos na voz que imita sei lá eu onde. Ou o que já criou um endereço gmail, o que me manda milhares de emoticons numa única frase que diz, porque é que não estás aí, pai?. O que ainda há pouco tempo dizia, o meu pai é muito bom a jogar à bola e que ontem, quando um amigo dele me perguntou se eu sabia quantos metros tinha uma baliza de futebol, antes de eu responder, ajuizou logo, o meu pai não percebe nada disso, obrigando-me à desforra de ter de dizer em que lugar do campeonato é que estavam o Benfica, o Braga, o Sporting e o Porto, coisa em que falhei redondamente. Por vezes não sei onde vive. No reino de Bakugan, onde cada linha de código é uma história que ele fantasia, no seu colégio de meninos-protegidos-do-real-a-sério (mas não estamos todos?!), no seu quarto onde crescem peixes, na sua mesa de cientista onde faz trabalhos e perguntas cada vez mais complicados, não sei.
Não é literatura ou é a literatura a fazer de vida: há um não-saber que sei cada vez mais.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

O galo é o dono dos ovos

Não consigo deixar de gostar deste tipo. Não sei se é lealdade canina, se devia fazer uma declaração de interesses, afinal de contas só me encontrei com ele uma meia dúzia de vezes. Mas fiquei a gostar. E ele paga-me bem, à distância: mesmo quando não concordo com ele, as mais das vezes, uma simples croniqueta de jornal, vinte e poucas linhas, arranca-me umas cinco gargalhadas fartas. Das boas, mas das mesmo boas, generosas, quase a roçarem a alarvidade, capazes de me levarem o dia para um outro lado.

Será a cidade capaz de salvar a política?

Vou, a pouco e pouco, deixando cair o hábito da citação. Há frases de que sou feito mas a memória vai-se indo e quando a lembradura não se associa a uma emoção, tenho tendência a esquecer-me. Lembrei-me disto ao dar comigo com a recorrência com que, nestes dias, me ocorre o dito que ouvi ao Miguel Real (que andava ás voltas com uma investigação sobre o séc XVII/ XIX), " Estou cheio de saudades do século XX!". Lembro-me de que a frase iluminava todo o seu rosto, com aquela vivacidade e aquela agitação que lhe é tão própria. Lembrei-me disto ao ler a reportagem de Alexandra Lucas Coelho sobre Édipo-Rei e de pensar que este vaivém entre o nosso tempo e outras épocas é tão necessário para nos libertarmos de uma ânsia de totalidade que respira por todos os poros da nossa epiderme contemporânea. As coisas podem ser de outra maneira. O coro da tragédia grega somos nós, a cidade. O que queima Édipo não é a verdade, é o valor dado à palavra. É por isso que quando ele amaldiçoa o assassino de Laio é a si, sem apelo nem agravo, que se amaldiçoa. Olhássemos a cidade de hoje à luz da cidade de ontem, e veríamos que seria impossível fazer viver nela a ideia de política. Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Paulo Portas, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa, todos eles, sem excepção, já estariam condenados pela sua própria retórica. Há quem, face a este quadro, quem adiante que é porque na vida contemporânea a palavra perdeu credibilidade. Outros, mais pragmáticos, dirão que o problema se resolveria facilmente com a contratação, por Édipo, de uma boa assessoria de imagem e comunicação.
Voltar a casa é uma ideia ampla, que cria sonoridade, que repercurte. Cria um dentro e um lado de fora. Ainda há um adn em mim que se reconhece neste jogo de interioridade e exterioridade. Uma das coisas que voltar a casa traz é a ideia de arrumarmos as coisas, de acrescentarmos algo. Trouxe, desta rápida incursão pela Regra de Jogo, dois nomes para iluminarem a minha blogos de todos os dias: Hoje há Conquilhas, amanhã não Sabemos, do Tomás Vasques e a Máquina Especulativa, do Porfírio Silva.

salto no vazio

todos os dias 18 de Fevereiro, há nove anos, são, para mim, dias santos. satisfaz-se com pouco: "amanhã vai partir um bolo com os amigos. ele disse que gostava muito que fosses", recebo num sms na véspera. atrasei-me uns minutos. ao entrar no portão vem ele a correr para mim e, como tanto gosta de fazer, dá um salto no vazio em direcção aos meus braços. faz isto há tanto tempo. e eu sempre a pensar, como será, se um dia me faltarem as forças e não conseguir segurá-lo? ele confia em mim. já me critica, já me diz que eu errei, mas no salto para o vazio, ainda é em mim que acredita. é desta santidade que se fazem alguns dos meus melhores dias. enquanto houver esta corrida e eu for vontade, estarei lá.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

voltar a casa

voltei a casa e não sei se trouxe algo para contar. alguns amigos novos. regresso de uma viagem que não foi muito feliz. era para ser um jogo com regras. acabou por ser a demonstração das regras do dono do jogo. daqui a vinte anos entrarei noutra.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

As memórias coloniais da Isabela

Na Livraria Pó dos Livros ontem, a apresentação do livro de Isabela, Caderno de Memórias Coloniais, de Isabel Figueiredo, a Isabela do Novo Mundo e do Mundo Perfeito. A Isabel Almeida Santos do nosso DN Jovem. Eduardo Pitta (Da Literatura) apresentou a obra, secundado por Osvaldo Silvestre , editor de Angelus Novus.

A conversa foi bastante animada. Na sala, para além de quatro colaboradores do DN Jovem (além do editor) e três bloguers da Regra do Jogo, estavam muitas pessoas que tinham ouvido a entrevista ao Pessoal e Transmissível do Carlos Vaz Marques, e que vieram com o calor do afecto e da memória por África, misturados com um misto de admiração pela coragem literária da Isabel.

Depois de Osvaldo Silvestre ter inscrito este livro na (grande) literatura autobiográfica, era irrecusável o debate sobre a forma como o livro deixa transparecer a questão colonial, que logo se encaixou na forma como falamos ou não falamos dela. Muita gente ali na sala tinha um pedacinho da sua memória da áfrica colonial que queria trazer para a roda da conversa. Para esses, com as Lourenços Marques cosmopolitas ou do caniço enfiadas até ao osso da memória, nem sempre é muito claro a forma como, forçosamente, se misturam memórias, horas de vida gravadas na caixa negra que, individualmente, transportamos, com o modo como a ideologia, o discurso político, tensionou a forma como nos lembramos de África. Como se lembram de África aqueles que voltaram, os portugueses de segunda, os retornados, os que deram o sangue pelo sonho colonial.

Era já noite, ao adormecer, quando peguei no livro para o ler. Não faço critica nem vou disfarçar isso perante o livro de uma amiga. Fico-me pelos fenómenos, pelos factos: o livro lê-se bem, lê-se demasiado bem. Já ía na página quarenta e tal quando de repente, ainda sem sono, percebi as desoras da leitura. A micro narrativa de um blogue, uma espécie de conto curto, talvez ajude a isso. Outro fenómeno: quando acordei dei-me conta de que tinha viajado para a minha própria infância. Primeiro colando-se à do imaginário do livro, as brincadeiras no quartel de Mafra com as lanças confiscadas aos turras, depois outros caminhos. É uma sensação boa, acordar com a infância espalhada no travesseiro.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

O Lado B

Não sou melómano. Sempre tive uma grande dificuldade para a música. Para a concentração, para o canto. Desde tenra idade. Lembro-me, era cachopinho, cantávamos no coro das crianças, em Mafra, o que eu gostava era as partes em que cantávamos todos juntos, disfarçava-me na pequena multidão de vozes. Com o tempo tentei várias estratégias contra isso. Tive aulas de voz e canto, quando fui actor. Ouvi detrás para a frente as músicas, tentando identificar os vários instrumentos. A verdade é que por uma razão ou por outra, nunca desenvolvi essa aptidão. Se coloco um cd passado dois ou três minutos já nem me lembro que o coloquei a tocar. Quando os discos eram de vinil, voltava incessantemente a colocá-los no princípio, para tentar ouvir finalmente as música sem nunca virar o disco, para ouvir o outro lado. Vejo agora que isso talvez me tenha moldado o próprio pensamento. Nunca me preparei o suficiente para o lado B e por isso, quando o vinil deu lugar ao cd, adaptei-me à nova linguagem tecnológica sem me aperceber que me faltava algo de fundamental: a compreensão da importância do Lado B. No amor, no trabalho, no lazer, em tudo. O que aprendemos nos primeiros anos da infância e da adolescência molda-se aos nossos gestos como se fôssemos nós próprios e a certa altura, insanos, até defenderemos isso como a nossa identidade. E esta minha tendência para voltar ao princípio da música, ou, como quem diz, do amor, de uma profissão, de uma maneira de estar, se me foi agradável, porque me distinguia dos outros e para o olhar de fora é sempre refrescante ver o mito do eterno retorno a desvanecer-se diante dos nossos olhos, talvez me tenha impedido de perceber o quão sombrios por vezes somos e de como a nossa vida também é iluminada pelas nossas trevas. Eu sei: isto é qualquer coisa que qualquer um de vós que me lê e que não se formou da mesma maneira que eu, tem como adquirido e por isso estranhará a forma como só agora, tão tardiamente, isso me surja no pensamento.

domingo, janeiro 10, 2010

A vida dos simples

É a fotografia mais antiga que tenho do meu pai, uma descoberta do último natal. Não são coincidentes os testemunhos sobre o momento que retratam. Teria sido ou no dia em que o meu avô morreu, tinha o meu pai treze anos, ou no dia em que ele entrou para o seminário. É dificil dizer, não só porque nos dois casos o luto carregado não permite distinguir momentos, era o único fato que o meu pai tinha, também, como a sua história veio a mostrar, a extensão da sua expressão de pesar adequava-se, tal como o fato, tanto a um como a outro momento.
A da Pera, algures em 1972. Os meus pais há muito que a esperavam. Principalmente o meu pai. Três filhos pilas, queria uma mulher na descendência. Ele sabia bem o que fazia. As árvores, mesmo as geneológicas, precisam da sabedoria da genética feminina. Olho a fotografia antiga, ainda há dias estive lá ao pé daquela varanda. Há pequenos pormenores que só eu sei. Por exemplo, porque é que só eu estou sem gelado. quando tinhamos planeado que tirariamos uma foto para a posteridade, e que o gelado assinalaria - tal como cigarro mais tarde, na adolescência, o faria em relação ao nosso style - a nossa felicidade. Naquele tempo para tirar uma fotografia, demorava-se algum tempo. Era uma Reflex que o meu pai tinha comprado na Suiça, quando lá estudara. Por isso tanto eu, mais sofrêgo como o meu irmão mais velho já não tinhamos gelado. Ele salvou as aparências, disfarçando, mas a verdade é que já não tinha gelado. Mas há mais marcas da nossa vida pendurados nos pixels: os relógios. Já tinhamos obrigações sociais. Mafra ficava a dois quilómetros e tal, tinhamos que passar o rio cego e chegar a horas à escola. Os dois irmãos mais velhos já íam sózinhos para a escola. Sózinhos é como quem diz. Era uma algazarra pegada entre os campos. Havia amigos nossos que faziam metade do caminho, até ao Rio Cego, só pelo prazer da brincadeira.

Rezar

Aconteceu-me já por duas vezes, nos tempos mais recentes. De repente comecei a falar, dirigindo-me a um ser que estava fora de mim e, pela direcção do meu olhar, num plano superior a mim. Não durou muito tempo este quebranto no meu agnosticismo. De repente dei-me conta de que estava a rezar e, a meio de um frase, calei-me, dividido entre um sentir-me mal comigo mesmo e o aperceber-me de que me sabia bem, ao espírito, ao corpo, esta ideia de que, mesmo quando tudo se for, não estarei só no mundo. E depois deste pequeno instante metafísico fiquei a pensar: foi assim que as religiões vieram ter connosco? Como uma promessa eterna contra a solidão universal? É por isso, por nos libertarem de toda a solidão do mundo, deste e do outro, que lhes perdoamos todos os pecados?

terça-feira, janeiro 05, 2010

Sair de casa

Ao olhar a foto, fico na dúvida: com o passar do tempo continuaremos a reparar na pequena mancha que somos nós nos lugares que habitámos?

Recital inesperado

Ontem, ao deitar-me, apeteceu-me levar um livro para ler. Peguei na obra poética de António Ramos Rosa, que aventuradamente me ofereceram num aniversário passado. Há muito que não lia um poema em voz alta. E assim ficámos os dois, a chamar o sono, virando páginas atrás de páginas. De manhã acordei feliz, leve, como se fora uma criança.
Na Regra do Jogo a cronologia da vida de Albert Camus, elaborada pelo Eduardo Graça do Absorto , cuja reflexão sobre a obra de Camus é uma constante da sua presença na blogosfera.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Tempo de ficar em casa

Há muito que não me lembrava de um começo de ano como este, tão soterrado na própria água. São as lágrimas dos aflitos? No último dia de férias improvisadas resultantes da conjugação da tolerância de ponto, olho a varanda, lá ao fim o rio nem se distingue do céu carregado, e penso em como também é saboroso ficar em casa. Dormir até tarde, sonhar. Improvisar um brunch com o cabaz de natal andaluz que nos ofereceram. Ficar a escrever um pouco. O resto. Às vezes dá-me ganas de sem abrigo, imagino a ir-me, pelo mundo fora, sem eira nem beira, sem casa. Há duas coisas que persistem nessa imagem de vagabundagem: há sempre um rio na cidade onde estou e é sempre verão. Estes dias em que o dilúvio é um espectáculo do outro lado da janela são de louvarinhação da casa, do recolhimento, do encontro com a parte de dentro de nós.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Parece mas não é

Parece indigência, mas não é. É o tempo. O tempo que faz, o que não faz, o que acontece, o que não consegue acontecer. Talvez seja o principio do fim. Hoje arranjei tempo para vir aqui dizer que ainda não tenho tempo para escrever. Que a minha quinta no Farm Ville depois de uma promissora abertura, está uma lástima. Os meus animais, as minhas árvores, sentem há talvez dois meses, a minha falta. O meu facebook, esse, abro-o no telemóvel, para fingir que estou ocupado, quando apanho um motorista de táxi mais melga.