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sábado, março 15, 2014

POEMÁRIO FACEBOQUIANO | PRÓXIMA ESTAÇÃO


 

Não há correspondência com nenhuma estação.

Os passageiros devem desembarcar.
Caminhar pela penumbra do cais.
Avançar isolados.

Não há correspondência com nenhuma estação,
estado
ou situação.

É preciso viver de novo.

É preciso viver tudo de novo. O fascismo. A exploração. As lutas operárias.
O avanço napoleónico na estepe russa.
A miragem dos eslavos
à porta da cidade imperial.
A própria da cabeça guilhotinada.
O nosso sangue.

Não há correspondência com nenhuma estação. O próximo lugar
é o fim da linha,
o começo de uma viagem,
estação terminal.

Estação seminal.

Não há correspondência com nenhuma estação.

Os passageiros devem continuar calados.
Caminhar na euforia de um discurso
unificador.
Unificado pela alegria das palavras-chave.
Repitam comigo: crise, dívida pública, privatização,
empreendedorismo,
swapps, reestruturação, impostos,
taxas compensatórias,
constitucionalidade,
sacríficios.
 

Soletrem devagar. Sílaba a sílaba. O
sabor das palavras sobrevive muito tempo à sua passagem pelo palato.

Ainda somos travo do fascismo que nos habitou.

Os passageiros que caminham pelo cais devem permanecer
sozinhos. Há palavras-chave que virão ser atiradas
para guiar os corpos cansados
que voltam para casa.

Os corpos cansados voltam sempre para casa.
Todos os passageiros de todos os cais devem saber de cor
os enunciados das palavras chaves.

Há uma diferença entre despotismo e estupidez,
embora pareçam irmãos saídos da mesma mãe,
frutos lançado pela mesma árvore.

Saber distingui-lo é o essencial para andar no cais.
Para voltar para casa.


(publicado primeiro no facebook. reescrito)

sábado, janeiro 04, 2014

Olhos-olhos




Acreditasse eu ainda  no que digo,
diria, até ao fim.

Acreditasse eu nas palavras,
diria,
lutarei até ao fim.

É este o meu silêncio.

Não é de ouro,
nem de prata, nem tem pedras,  preciosas
ou não,
descalças vão as ruas onde me revolto.

E nem é silêncio. É isto,
um ruído,
ruir,
pedaço a mais de verbo,
sempre um quase 
na nossa vida.

Acreditasse eu ainda no que digo,
na força, na magia das palavras,
e diria aquilo que já só encontras
na menina dos meus olhos.







sexta-feira, janeiro 03, 2014

Revolução



Apetece-me ser uma flor na tua boca. 
Ser a pétala do que falas quando explodes. 

Flor que se incendeia quando
a tua boca, mais do que grito,
for bandeira.


O resto é excesso, verbo a mais.

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Poesia & Contrabando

Quanto menos tempo tenho para as palavras, mais me transformo em poesia. Não ponho as palavras em escadeado, como antes, antes de tudo, antes de mim, eu imaginava o poema. Eu pensava que era assim que se distinguia o verso, a própria poesia. Tantas ilusões. Agora, que é tarde, o mundo está preso a uma guerra que eu não sei anunciar - sim, eu seria um verdadeiro poeta se conseguisse entrar por dentro destas vidas mesmificadas e, por um instante fosse capaz de avisar-vos da guerra que aí vem - eu sei que o poema não verseja, nem diz piropos às moças na vereda dos caminhos.
Tenho alguns amigos meus que são poetas, que decidiram apresentar-se ao mundo enquanto poetas . Olho para eles, para a gravidade com que trazem a poesia na fronte ferida, lacerada, por uma linguagem-torniquete e bebo deles como se matasse a sede numa fonte de água fresca. É preciso coragem para querer viver assim, sabendo que a poesia começa por não perdoar aos poetas a ousadia.
Antes de ser poema o poema é poesia.
Quanto menos tempo tenho para as palavras, mais me transformo em poesia. Se eu ainda tivesse ilusões, que não tenho, a maior de todas seria esta: fazer de mim mesmo um poema.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Criação das palavras

Uma frase pequena. Falta-me o tempo para as frases grandes. Uma frase é um objecto. Um jogo, um espelho. Uma porta. Ou quando o tempo ainda é ainda mais escasso, uma janela. Um lugar onde (ainda) não se está.
A palavra perfura na virtualidade. Adensa-a. Como se começasse por ser uma pequena neblina matinal. E de repente, tão de repente que até dói, é um nevoeiro cerrado, um lugar sem saída. É aí que a palavra serva perfura. Cria.

Breves palavras de desespero

Uma palavra breve. O tempo escapa-nos. E com o tempo, o sabê-lo. O próprio saber. Não tenho nenhum sentimento dentro de mim. Não o digo com garbo. Constato-o. Constato que aquilo a que a partir de agora chamarei de sentimento não é suficientemente canino para eu poder emoldurar ao pé dos lustres, das pratas, das palavras exdrúxulas. Quanto muito seria uma borboleta, se assim o quisesse. Não quero. Fecho-me àquilo que o seu bater de asas, metáfora do mundo, cicia. Olho-te com um desespero nunca visto. Olho-te como se te dissesse,
agora é que se foi, o que perdemos.
A minha vida é de uma inutilidade tão tamanha que nem sirvo para odiar. Eu sei, eu poderia propor-me para mestre-escola, propor-me a humanidades, salvar assim a família, a tença, o próprio salário.
Não posso. Seria mentira. E eu já me adestrei a tudo. A perder pai, irmãos, amigos. Os próprios sentimentos, o ódio, o amor. O pensamento, que não a ideia de pensar. Mas não é perder o pensamento viver num mundo que dele não carece?
É. Sobreviverei a isso também. Deixo-me apenas este luxo, esta bizantinice: um pouco de verdade. Não digo muita. Tendes razão. É pouca. Nem é bem uma verdade que é. É uma sombra. Um resto que ficou do grande banquete.
Basto-me assim.

domingo, junho 06, 2010

Escrever é ler

.
Leio e escrevo lendo
No espaço livre
Dos versos,
.
Leio no silêncio
Do espaço livre
Dos versos,
.
Leio e escrevo lendo
Os versos
E assim me entendo.
. .
Eduardo Graça, aqui
. [Tinha acabado de escrever no post anterior esta relação que em nós se estabelece entre o escrever e o ler e depois encontro, a propósito de uma pequena exaltação ao Prémio Camões deste ano (o poeta brasileiro Ferreira Cullar) este poema do Eduardo Graça que, pelo que me apercebo, interiorizou este hábito de escrever em diálogo com aquilo que lê. Lembro-me agora também, no encavalitanço que a memória é, de uma conversa tida um dia com Eduardo Prado Coelho num daqueles jantares depois das aulas - foi meu professor de uma disciplina de mestrado que já não sei o que era, recordo apenas o prazer de o ver tecer ideias umas a reboque das outras - em que ele confessava que muitas vezes abandonava a leitura de um livro para se deixar ir no entusiasmo da "escritura". Talvez os seus livros sejam como os do Eduardo, cheios de apontamentos, de diálogos cruzados, a transbordar de uma delicadeza que importa. ]

domingo, abril 05, 2009

Rua do Caderno Azul

Há uma coisa que eu sei: ela não precisa de mais nada para que a sua voz seja já grande poesia. O mais intrigante é o tempo que o seu poema andou pelos caminhos da invisibilidade a desenvolver-se, a maturar-se, até chegar até nós assim, impressionante respiração.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Ess'outro jardim

[Ella de Susana Paiva]
(.../...)
estou sentada numa cadeira de verga coberta de areia
tenho os pés descalços
visto-me de giz o teu olhar é um quadro negro
um solavanco dizes-me é a ossatura da dor inquieta
também para ela não tenho abrigo murmuro
ainda assim mordes os meus lábios engoles as minhas palavras
como quem procura uma dose letal
sem anteparo não somos desse outro jardim
nenhum anjo nos salvará.
O (jardim) da Blue. Adapto livremente, fazendo minhas, as palavras dess'outro poeta recolhidas há muito de um lugar comum (de um lugar que temos em comum): a poesia virá depois do sétimo dia tirar os pecados do mundo. fazer-nos anjos.

quinta-feira, junho 05, 2008

Homenagem à Cláudia, à vida e à Poesia

Agora apetece-me festejar. E como este blogue faz anos em Junho excelente altura para lançar esta iniciativa, o Viva a Poesia!, dedicada, como não poderia deixar de ser, à Cláudia Pedra, à Cláudia Magalhães, à Cláudia, para sempre. Todas as semanas, na coluna direita, um novo poema. No começo, vozes conhecidas na arte da declamação. Depois, se as técnicas derem para tanto, gostava de associar alguns dos amigos que partilharam com a Cláudia os seus envios quase diários de poemas: vou-lhes pedir que declamem alguns dos poemas que ela nos enviou (gravaremos em audio ou vídeo). O primeiro declamador será Mário Viegas e o poeta, Manuel Alegre.

quarta-feira, maio 28, 2008

Aos animais dos céus

"Aos animais dos céus chamamos pássaros. Um dia virá que percebemos que morremos como eles mas menos leves."
Luis, na Natureza do Mal.

segunda-feira, maio 26, 2008

Radical poético

"aos poucos cerca-me a vida tal como ela é
e sei melhor quem sempre fomos
ainda que esteja certa de que não saberás o meu paradeiro
não faço plásticas não injecto toxina botulínica do tipo A não me escondo
estou na primeira linha de fogo."
A Cláudia está assim, no radical livre que é a sua poesia, na primeira linha de fogo. O Luís tem um blogue para derrotar o real. Eu começo por aqui - um pouco como os tolos que vão a todas - por pensar em estar presente. Não sei se é do Sul que ainda tenho agarrado à minha pele.

segunda-feira, maio 12, 2008

Poesia Vertical de Alberto Juarroz

As últimas estruturas estão gastas
e é preciso mudá-las,
sobretudo as mais finas.
jjjj

Desmantelar o ar, por exemplo.
Desmantelar o pensamento.
Mas substitui-los por quê?
jjjjj
Há que pôr o ar no lugar do pensamento.
Há que pôr o pensamento no lugar do ar.

terça-feira, abril 15, 2008

Lançamento da Revista Criatura

Com poesia de Ana Aleixo Lopes, Ana M. P. Antunes, António Ramos Pereira, Beatriz Hierro Lopes, Cláudia Santos Silva, David Teles Pereira,Diogo Vaz Pinto, José Carlos Barros, Maria Sousa,Marta Caldeira, Marta Chaves,Nuno Araújo,Rita Branco Jardim,Sara F. Costa,Susana Almeida.
Na próxima sexta-feira, dia 18 de Abril, pelas 21h, é apresentada pelo poeta Nuno Júdice esta nova publicação literária. Na Fábrica de Braço de Prata. Para os antigos colaboradores do DN Jovem que andam nestas águas blogosféricas sei bem que o nome de José Carlos Barros é por si só motivo apetecível para uma presença. Até sexta.

sábado, março 29, 2008

Criatura

Vi aqui anunciado. Tem lá três vozes cuja poesia já não dispenso aqui no ciberespaço: José Carlos Barros, o primeiro, desde há vinte anos, no Jovem até à sua última casa. Marta Caldeira, daqui, desta voz inaudita, Blimunda. A mais recente, Cláudia Santos Silva, a Blue.

quarta-feira, outubro 24, 2007

As cidades, vistas pelo lado da metáfora

As cidades na sua profusão interior.
É uma metáfora mas deixo-me levar por este pensamento: as pessoas são o lado visível do interior das cidades.
Por exemplo, acordas, e a um palmo de ti,
da tua cara,
tens dois olhos, uma boca, dois ouvidos,
um nariz,
equidestantemente agrupados com a forma que, habitualmente, a geometria facial atribuí a um rosto,
e dizes para ti mesmo,
como se em silêncio velasses uma promessa de uma vida melhor:
tenho o interior de uma cidade deitado na minha cama.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Que Esperar de Nós? *

"Imaginemos jovens de dezoito, dezanove, vinte anos, a entrarem todos os dias pela porta de um hospital para iniciarem o seu percurso de formação como enfermeiros. A aprenderem de cor a cartografia do corpo, o de fora e o de dentro, os seus acidentes, o relevo, os seus rios, as suas rugas, crispações. Trata-se de uma ciência em que o exacto se conjuga com o inexacto, o aproximado. Durante quatro anos é aqui - nesta matéria acidentada e irregular que é a pessoa - que os iremos encontrar. E um dia surpreendemo-nos porque percebemos que o mais difícil que lhes é pedido não é o conhecimento nem a técnica: é que sobrevivam à morte que ronda cada corpo, cada presença, cada um de nós. Lembro-me bem do momento especial em que me dei conta disso. E também me recordo que foi aí que começou este espectáculo.
Quando o propus sabia que eles não iam recusar este desafio. Embora da nossa relação com a morte faça parte este jogo de esconde-esconde, quase infantil, de socialmente metermos a cabeça debaixo da terra à espera que ela passe, este grupo com quem venho trabalhando sem interrupções desde o final de 2003, é um grupo-coragem. Nenhum de nós sabia no entanto em que se iria transformar esta viagem e não é uma metáfora, este espectáculo constituiu-se como uma peregrinação aos nossos lugares, às nossas histórias.
A ideia era criarmos o espectáculo a partir de todos os materiais que encontrássemos. Não o escondo, tenho desde muito cedo, na minha experiência teatral, uma utopia: a criação do próprio texto pelos actores. Assumo a minha filiação teatral: a expressão dramática e a criação colectiva. Isto que começou por ser uma utopia literal, evoluiu. Em relação aos actores essa evolução surge quando a certa altura comecei a compreender que os actores não precisavam de escrever palavras, eles são por si só texto, escrevem-se, no evoluir da sua presença, do seu corpo físico e espiritual, da sua energia, carne, vísceras, sangue e molécula, no espaço cénico. O Ricardo Rodrigues falará disso, creio, foi assim que distribuímos as vozes neste programa. O Ricardo, que começou o primeiro espectáculo que dirigi para o Teatro Andamento a dizer que não se sentia tão à vontade na escrita, que se realizava mais na leitura, dando por isso origem à personagem do Quasimodo no "Que esperar de nós?". Ele diz-me também que esta minha relação de trabalho com o Andamento termina, nalguns sítios, com um círculo perfeito: é ele que teve a missão de assumir, através da escrita, as várias discursividades dispersas que fomos atirando para cima do chão da sala de trabalho, textos, imagens, improvisações.
A construção deste espectáculo atravessou fases que, na metodologia que defendo, e já assumi que sou fiel à minha árvore, são muito raras num grupo que trabalha sem condições: tivemos a partir de certa a ajuda da AMARA, que acompanhou o grupo num trabalho que, como se vê, tem muito a ver com as nossas projecções sobre a morte. Depois, a certo momento do trabalho criativo, teve uma equipa de escrita, que ia relançando propostas para exploração e que ajudou a estruturar o espectáculo. E por fim, contámos desde quase o início com a colaboração da Margarida Rodrigues, que para além de nos ter feito o registo vídeo do processo de trabalho, o que nos permitiu estabilizar e fixar o trabalho de improvisação, partilhou connosco a construção da visão cénica de "A Morte é uma Flor!".
Há uma parte deste espectáculo que guardo para mim, como todos nós: a forma como ele me ajudou a conviver com a morte, com os meus mortos. Penso neles ao despedir-me deste trabalho, ao fechar os olhos e pensar por momentos na viagem que terminou: a D. Morte andou muito gulosa durante o tempo em que andámos à procura deste espectáculo. Não vou falar em nomes. A morte é o inominável. Os meus mortos juntam-se com os deles e desse chão improvável nasce uma flor. Além disso aqui na sala de trabalho, que para mim é dos raros lugares deste mundo, lugar onde contamos, sabemos as mortes de uns e dos outros, partilhámo-los durante esta jornada.
Este percurso tinha uma permissa: iriamos procurar, investigar, trazer à evidência tudo o que nos pudesse ajudar a falar sobre a morte. E para isso foi fundamental que assumissemos que sabíamos muito pouco. Sabemos o valor do toque, do olhar, da presença. Onde as palavras falham neste jogo imenso de cabra-cega. É com essa matéria que construi a encenação. Teatralmente fecho assim um ciclo, que começou com "O que esperar de nós?", em que trabalhámos sobre a escola, o seu espaço físico, através de improvisações, que continuou com "O Gato", texto meu, espectáculo que não conseguiu cumprir a dinâmica de animação que desde o início o grupo tinha perspectivado e que neste caso tínhamos pensado através da integração dos mais idosos, mas que trouxe o grupo para o exterior, através da sua presença no FATAL, e agora este "A Morte é uma Flor", que realiza um desafio que desde o "Que esperar de nós?" julguei inadiável: o confronto de um grupo que não tem espaço físico próprio com uma sala de teatro onde pudesse estar um determinado tempo a confrontar-se com a escuridão da sala, com a sua luz cénica, com a presença dos vários elementos teatrais. E até, com a compreensão do lugar do camarim na relação com o trabalho do actor.
É em tudo feliz o fecho deste trabalho, até neste desenhar da morte simbólica do animador que sempre fui, que sempre serei. A morte é uma flor…"
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* Texto para o programa do espectáculo "A Morte é uma Flor", a estrear amanhã na Guilherme Coussul.

segunda-feira, agosto 27, 2007

O último olhar, disse ele

Em Broken Flowers de Jim Jarmush, Bill Murray depois de saber, através de uma carta anónima, que pode ter um filho que o procura, empreende ele próprio uma viagem para tentar descobrir quem é a mãe do seu filho.
A estrutura repetitiva do filme acaba por mão se tornar monótona graças quer à excelente banda sonora do filme, quer ao modo paradoxal como a personagem de Don Johnston é construída. Por um lado o seu comportamento apático, desafectado, alheado. Por outro um homem que inicia uma viagem através das várias namoradas que teve para descobrir qual delas é a mãe do seu filho, como se isso lhe devolvesse alguma chama existencial.
Imaginei-me dentro do filme e espantei-me com a forma como Don Johnston foi acolhido pelos seus antigos amores. Não acredito que se fosse eu a maior parte das mulheres com quem reparti dias, horas, me abrisse sequer a porta. É difícil confessá-lo mas nunca amei verdadeiramente. O amor em mim é uma memória e uma promessa. Amei quando nasci, e da procura dessa memória de que nem sequer me lembro faço a minha esperança de que por uma vez na vida, nem que seja ao morrer, possa sentir a plenitude de um amor verdadeiro rasgando-me por dentro, libertando-me de todo este ódio com que me deixei enquistar, soltando-me desta matéria pustulenta e ocre com que me entranhei de violência.Amei no exacto segundo em que nasci, aí fui humilde e autêntico amor molecular, cromossomático. Desde esse momento todo eu sou aprendizagem do medo, do egoísmo, da mentira, do desamor e da desafectação. Há uns tempos entristeci-me porque recebi de uma das mulheres com quem mais tempo tinha dispendido a desamar, uma carta a pedir-me para nunca mais a contactar, para imaginar que tinha morrido, emigrado para a Gronelândia, para o centro do centro do mundo, whatever! Agora, ao constatar a persistente inexistência do amor na minha vida, compreendo afinal a lucidez que, como um punhal, a trespassou.
Estas coisas que eu sei sei-as a despeito do amor que nunca senti, que nunca fui capaz de sentir. Sei-as por causa do único vislumbre amoroso que sou capaz de descortinar para além desta memória de que nem sou capaz de ser recordação: os gestos de amor autêntico de que fui objecto. Não são muitos, a maior parte do amor que me dedicaram é tão mesquinho como aquele que dediquei. E nem de outra forma poderia ser quando é a mesquinhez e o desenho de diminuitivo que lavra o chão e a terra onde semeámos e plantámos a flor. Não são muitos, são os bastantes.
O amor em mim é apenas uma promessa, uma memória. Por mais estranho que possa parecer, não é um ser agoniado pela sua própria acidez que escreve, mas alguém que percebe que é na desfiliação de um face à mitologia amorosa do mundo que pode estar a única e a última chance da nossa experiência amorosa ter algo de autêntico.
E a linguagem é apenas mais um entretenimento, um fazer tempo, enquanto a verdade crua e dura da nossa existência não nos atinge como um raio.Eu não o sabia antes e não o sabia assim: o véu vai caindo ao mesmo tempo que caminhamos. Enquanto com o tempo a gravidade puxa todas as nossas carnes para baixo, numa flacidez que nos permite o destempero lúcido de quem deixa para sempre a sua hipótese de ícone, o cérebro, o cerebrelo, a massa encefálica enrijecem, entesam-se na estreita vinculação à única proferição possivel.
É por isso que por mais aparato e exuberância que os nossos amores jovens possam ter tido, ninguém no seu perfeito juízo se comove senão com o amor que espera um dia, na velhice, experimentar. Padeci das mesmas doenças de espírito que qualquer um de nós: procurei uma mulher ou para me governar a vida, ou para me dar filhos, ou para tornar a minha vida aventurosa, ou para me rejubilar nas fotos de família, ou para o vangloreio junto dos amigos ou até, para me rejuvenescer. Tudo isso foi em vão e foi por isso que não deixei nem tenho saudades do amor que não vivi, que não soube viver.
A única coisa que agora ainda espero encontrar em relação àquela que será a minha última hipótese amorosa é algo que não posso ainda, nem nunca, procurar: uma mulher a quem possa olhar no derradeiro relance que pousar sobre o mundo e que espero, seja o mais autêntico gesto de amor que percorreu toda a minha vida.Uma mulher em quem amar e confiar, como escreveu o poeta.
Porque o que conta, a única coisa que verdadeiramente conta na possibilidade amorosa de cada um, é a confiança. É o único momento em que matamos a avestruz enterrada em mitemas de merda, de trampa doce, de lodaçento e pantanoso verboreio. A nossa derradeira chance de luz. Eu sei que tudo isto pode parecer cínico, ácido, desesperançado. Eu creio que não é. Ou que só será se já amarmos mais a linguagem do que a vida, do que a vida autêntica, indecifrável. Esse festim que, quando linguarejo, creio ainda ser possível.

domingo, junho 17, 2007

Uma nação é uma flor

Deu-lhe um beijo por engano. Ele sorriu, sem o retribuir. Estendeu-lhe apenas a mão, os dedos, cinco. Para que ela os sentisse a estremecer. O que se passa no fim de uma dança já não é da ordem dos pés abruptos e dóceis. Já não é poesia. Lembrou-se de cada segundo. Não se morre em vida para esquecer. Ao princípio tudo parecia a cor de um engate. Um amigo pediu-lhe. Queria dançar com a outra. Ele, mal a viu, percebeu-lhe os olhos, o lance de chão que eles alcançavam, a festa, e pensou, é ela. É ela, a bailarina de pés de fogo. Tudo parecia no entanto destinado a não ser. Primeiro foi ela que convidou um branco, que estava à deriva na pista. Depois foi o negro com cara de criança. Ele não desistiu. Pelo menos foi assim que eu percebi o seu recuo para a janela. Deixou a música acabar e dirigiu-se à pista. Ela tinha ficado momentaneamente sem par. Ele sentiu-se um lince. Num segundo já estava a fazer a festa. Era um dos seus funanás preferidos. Sorriu, cantou, dançou. Às vezes o seu corpo soltava-se, afastava-se dela uns bons dois metros mas uma teia os ligava. Via-se a olho nu. Eu vi. A coisa foi de tal forma brutal que toda a pista parou para os ver dançar. Quem são aqueles dois?, cochichavam as vozes. Eram os dois brancos. Os seus corpos explodiam como se fizessem o mais violento e festivo sexo que dois corpos entrelaçados são capazes. Como souberam que eu estava ali para contar chegavam-se a mim pessoas vindas de todos os lados. Estão a foder?, perguntavam-me. Respondia-lhes o mesmo que agora escrevo: nunca vi uma mulher a simular o orgasmo que uma dança pode ser. Aliás, não foi isso que eu disse. Respondi: nunca em tempos da vida do mundo um homem ou uma mulher podem simular a fusão que uma dança é. Uma dança verdadeira, aquela que se sobrepôe ao sexo do mundo, um bailado, um batimento cardíaco. Era indescritível o prazer, a certeza. Uma dança, quando é dança, é uma investigação ao local onde a vida se constitui. A incerteza do movimento que vem aí, a batida segura de um compasso ritmíco que reproduz a vontade. A tesão.
Podia tudo ter acabado assim, ali, e já seria um acontecimento único, excedentário. Ainda era pouco. Eu fui testemunha de que não bastava. Vi-lhes os corpos ávidos de poesia. Era preciso uma morna para ajuramentar os corpos, para os fazer de massa, barro, misturando-os. E eu nunca vi nada igual. Ele falava-lhe num sussuro que se ouvia profundamente, como ressoasse na aparelhagem da discoteca. Perguntou-lhe, de olhos fechados, ainda estamos no B.Leza?, será que morremos?, é isto morrer?, desaparecemos no colo do mundo, ou num glaciar da Patagónia, enquanto a abraçava como se os seus dedos lhe rasgassem a carne, a matéria carnal. Nunca em dias da minha vida tinha percebido que o corpo de uma mulher é como a matéria ondulante de um saxofone, disse ele dedilhando-lhe a pele, as entranhas. Era tudo em volta que tinha fugido de dimensão. O tempo tinha parado. Já não era uma dança. Era a fusão do mundo que se aproximava. Em suspenso. Já a música tinha sido outra, já eles se soltavam, lassos, quando ela lhe deu um beijo. Foi por engano, disse ele, sorrindo-lhe. Uma nação, o nascimento de uma nação, é como o crescer de uma flor. De uma paixão como não há, nunca houve.

terça-feira, maio 29, 2007

FARROPE DE POESIA : Tomai lá com o O'Neill

Como habitualmente as terças do B.Leza (e até ao seu fim - eternamente adiado - que ocorrerá no próximo mês), pelas 23h, têm Farrope de Poesia. Hoje poemas de Alexandre O'Neill. Com Andresa Soares, David Almeida, João Cabral e Marina Albuquerque. Músico: Carlos Mil Homens. A entrada é 3 Euros. Uma boa forma de nos despedirmos deste espaço cultural.