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quinta-feira, março 11, 2010

A última aula de José Gil

Há qualquer coisa de romântico nesta ideia da última aula. Gostava de ter estado lá, o tema era fascinante. Não sei como analisa José Gil a questão na sua forma global, no campo da expressão dramática e do teatro comprovo-o muitas e muitas vezes: estes activam-se através de ferramentas e utensílios de pensamento muito poderosos mas que permanecem, ainda assim, mágicos, escondidos. O teatro parece ser um meio tão vigoroso de pensar a realidade e no entanto é tão capaz de esconder as pistas sobre o modo como realiza esse trabalho. A psicologia e a educação recorreram a ele, e criaram até campos próprios, que valorizavam a circunstância agorética do teatro, mas mais uma vez chegam a um determinado campo em que já só conseguem avançar com expressões como magia, fé cénica, ilusão, energia. Percorremos os grandes teóricos do teatro que, desde Stanislavski, ajudaram a constituir o século XX como uma época de grande vivacidade conceptual para as artes cénicas, e em todos eles o enigma mantém-se. Costumo organizar a visita ao teatro onde trabalho. A todos os visitantes, sejam crianças, jovens ou seniores, mais tarde ou mais cedo, acabo por fazer a mesma pergunta: por que é que há pessoas que saem de casa para virem a um sítio verem pessoas a fingirem que são outras pessoas que não aquelas que efectivamente são, que estão noutro espaço que não aquele em que realmente estão, lançadas num outro tempo que não aquele onde na verdade estão?
Muitos de nós, talves os melhores de entre nós os do teatro, dedicaram a sua vida a tentarem responder a essa questão. O que é mais interessante é que esse jorro incessante de respostas para isto não esgota a fonte, a questão, antes a faz renascer, cada vez mais seta essencial dirigida ao coração da nossa humanidade.

quarta-feira, agosto 13, 2008

A espuma semiótica

No caso do Assalto em Directo - ou deveria dizer, mais uma vez, como no caso do assalto em directo - talvez fosse produtivo debruçarmos-nos sobre a nossa incapacidade de confiarmos na nossa impulsividade para tomarmos partido, para exprimirmos uma posição, na nossa dificuldade de produzirmos juízo. Nos novos oráculos, figuras como Moniz, Santos ou Carvalho comandam os exércitos reprodutores de sinais mas somos ainda herdeiros de Kant, Platão e Aristóteles, caramba. Há muita espuma. O facto de serem imigrantes, de serem brasileiros, é espuma. Ou seja, é espuma para avançarmos no caso do assalto mas não o é, como o fez jpt, para analisarmos a forma como neste caso emudeceram os nossos detectores para o preconceito racial. Os limites do directo, na perspectiva da avaliação do trabalho jornalístico, é espuma. E há também aquilo que embora esteja para além da espuma, espuma dentro de nós: os complexos interiores que despoletam sem aviso, como o da autoridade, o da luta contra a autoridade. O facto de ser espuma não quer dizer que não signifique. Significa e devemos assinalá-lo. E discuti-lo. A estratégia policial, é espuma também. O tiro legal na nuca, a imagem que o Luís trouxe (e falo também da poderosa imagem que acompanha o seu post), não é espuma. O Estado tem o monopólio da violência legítima, que li no jpt, também não é espuma. A paz e a guerra dentro da nossa vida quotidiana, também não é espuma. O directo como reflexo da rendição da edição informativa tradicional, e das condições que ela necessitava para ser credível, também não é espuma. Ou, melhor, para não parecer demasiado arrogante: não são espuma ainda.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Porque não te calas?

Paradoxalmente, uma das razões para cada vez menos me sentir inclinado a fazer do Respirar o meu panfleto ideológico é uma redescoberta do político como parte fundamental da minha vida. Eu não sei onde somos criaturas e onde somos semi-deuses. Mas calculo que será algures perto do lugar onde cada um de nós quer mudar, transformar, contribuir de uma forma ou de outra para esta circunstância histórica de, uns diante dos outros, termos consciência de uma existência continuada num determinado espaço-tempo. E isso, o darmo-nos conta e o lembrarmo-nos e o projectarmo-nos, são as operações mais básicas do exercício político. O passado, o futuro e o aqui e agora. Sempre que penso na ideia de política vem-me à memória aquele fim de tarde há vinte e seis anos onde João Mota, na sala da carpete vermelha do Casarão Cor de Rosa nos dizia, com aquela certeza de quem sabia estar a marcar-nos para toda a vida, o amor e a política andam sempre juntos. O amor é uma exaltação da nossa condição política. Tudo isto para dizer que voltei a ler jornais, que acompanho o que dizem sobre a Ota e Alcochete, que estive ligado ao Prós e Contras, claro, que estou tão indignado como qualquer cidadão decente com as negociatas dos ministros antes de serem presidentes das Lusopontes, que acompanho com muita preocupação - e muito menos bonomia que as mudanças na Educação ou a letargia na Cultura - a reestruturação dos recursos do Serviço Nacional de Saúde. Só que ainda não sei falar disso. Já soube, como qualquer um de nós. Até que percebi que este linguarejar ao mesmo tempo que revela, esconde. Que enquanto torna audível, ensurdece. Comecei a fazer, como em todos os outros campos, o reboot ao sistema. Estou absolutamente convencido de que há momentos em que somos mais ricos discursivamente através do silêncio do que através dessa ilusão totalitária de que só podemos comunicar por palavras. Demoro muito tempo a escrever este post. E já o iniciei quatro ou cinco vezes e depois apaguei-o. A idade vai fazer o favor de não me tornar ao mesmo tempo mais religioso e simultaneamente marxista, mas a verdade é que vejo com um pouco mais de lucidez que aquilo a que chamamos discussão política é em grande parte um pugilato verbal numa paisagem ideológica minimalista, de modo a criar condições para que um viveiro de interesses de natureza especulativo faça em paz os seus negócios. Enquanto nós nos sentimos muito importantes por fazermos parte do sistema. E de certa forma fazemos. Eu não estou a dizer que nada disto tem sentido, que devemos desistir, que estamos todos entregues nas mãos dos interesses corporativos, especulativos. São coisas de mais e eu não sei tantas coisas ao mesmo tempo. Já houve tempos em que eu tinha inveja das pessoas que percebiam muitas coisas. Até que descobri que a única sabedoria invejável não era a da exaltação do conhecimento, sim a de conseguir fazer arte de navegação com a menor sabedoria disponível. Há alguns que pensaram ser isto o louvor da ignorância. Eu penso que a ser laudação de algo será apenas da humildade.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Trabalhos do "eu", do "nós"

Não sei se vos acontece o mesmo. Por vezes a minha história parece-me inacessível instantaneamente. É como que um muro, uma parede, onde seja preciso escavar, esburacar para ir tirando uma pedra aqui, outra acolá. E uma pedra por vezes é uma sensação, outras uma pessoa, outras uma vaga abstracção. Já tive alturas em que o querer lembrar-me era triste, era parar um pouco o mundo para me coser por dentro. Agora sei que pelo menos não é triste. E que essa conexão comigo é um trabalho como qualquer outro. Não canso de me maravilhar com a espantosa sincronia de tudo isto, o universo, o cosmos, a cada hora, a cada minuto, o big bang dentro de cada um de nós. O caos universal é uma incerteza mas ao mesmo tempo um apelo a que confiemos nos nossos impulsos, nos nossos feelings. Deixa-te ir, mais do que carpem diem, é a mensagem que conseguimos extrair da terra e do ar. Deixa-te ir, ao sabor do vento. Não interpretes. Suspende o pesadelo da hermenêutica. Deixa-te ir ao sabor do vento, da audácia, da fortuna.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

A borboleta esvoaça no azul

Sinto-me chegar ao pé de mim. Acendo velas na casa e vou para o quintal, ver o rio, o meu rio de sempre. É noite e o azul do céu tinge o rio. Sou feito de azul e de verde. Terra castanha. Dispenso, humildemente umas vezes, outras com resignío, como um mistério a que não posso aceder, o fogo, a combustão. Estrelas. Lá em cima um papagaio ou uma catatua assobiam-me. Um falar do nordeste brasileiro solta-se da colina descendente. Não sei se é do frio, sinto-me a aproximar-me de mim. Tu chegas-te a meu lado e a tua mão no meu ombro conforta-me, dá-me coragem. Pode parecer estranho e só o digo porque existe um lugar onde o enlouquecer nos salva da loucura: tenho quarenta e cinco anos e sinto-me aproximar-me verdadeiramente de mim. Será esta a minha última crisálida?

quarta-feira, outubro 24, 2007

As cidades, vistas pelo lado da metáfora

As cidades na sua profusão interior.
É uma metáfora mas deixo-me levar por este pensamento: as pessoas são o lado visível do interior das cidades.
Por exemplo, acordas, e a um palmo de ti,
da tua cara,
tens dois olhos, uma boca, dois ouvidos,
um nariz,
equidestantemente agrupados com a forma que, habitualmente, a geometria facial atribuí a um rosto,
e dizes para ti mesmo,
como se em silêncio velasses uma promessa de uma vida melhor:
tenho o interior de uma cidade deitado na minha cama.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Espero pacientemente que os últimos leitores se vão embora. Aprecio escrever em silêncio, quando a hora morre, quando tudo se acalma, o seu sono, lavei e limpei silenciosamente a louça, estou aqui à espera que aquele estranho que me habita se recolha aos seus aposentos, hoje foi um dia muito cansativo, muito cheio, muito online, torna-se por vezes um pouco obsessiva esta presença . Não há outro modo de o resolver, por ora, espero que avancemos depressa na descoberta de uma forma de estarmos ligados uns aos outros sem estarmos presos a esta posição de um diante de um ecrân que se torna metaforicamente num espelho.
Há uma questão por resolver: a realidade que isto é. É preciso que sejamos claros: de todas as ficções que conhecemos o blogue, quer pela sua estrutura diarística quer por ser momento de revelação de um sujeito - que, em muitos casos, tem aqui o seu único momento de revelação e exposição mediática - é aquela que tem um aparato de verdade mais difícil de desconstruir e desmontar. No outro dia uma amiga perguntava-me como é que eu conseguia manter a minha vida depois da forma desconcertante como me revelava aqui. Eu respondi-lhe que o conseguia assumindo que isto era um jogo.
É um jogo expressivo. No outro dia fui a um blogue onde amigos revelam fotos de amigos e quase dei por mim a rir-me do meu puritanismo ao pensar que eu nunca seria capaz de me expôr assim. Tenho a certeza de que, da mesma forma, se algum por aqui passar, se surpreenderá com a forma desconcertante como me revelo aqui. A única coisa que posso dizer é que cada um de nós estabelece de forma diferenciada os seus limites. Eu tenho limites. Limites que me são postos pela necessidade de privacidade de outros com os quais me relaciono, amig@s, amantes, familiares, vizinhos, colegas.
E por outro lado tento despojar-me de cada vez mais limites, cercas, delimitações de propriedade e tento escrever sobre isso, na esperança de que o compartilhar isso com outras pessoas possa ajudar alguém. É uma forma de sobrevivermos no outro. Não interessa por quanto tempo. Fazemos história na história dos outros e isso é uma das mais importantes formas de sermos eternos. De nos tocarmos. Ternos. É o lado ético do que escrevemos. Escrevemos para um outro que sofrerá eventualmente de uma dor que já lambemos, cicatrizando a ferida. Quando falo do meu filho e da relação com ele, quando falo da minha sexualidade, quando digo que sou um gajo-gaja sei que corro um risco: despertar movimentos de almas sensíveis que traçam uma extraordinária empatia comigo e que acabam por poder construir projecções de mim que não quero tornar verdadeiras. Não considero isso um problema: talvez por ser homem - e porque as mulheres vivem mais recatadamente uma negativa naturalizando-a - nunca encontrei nenhuma pessoa que não soubesse entender, sem dramatismo, um não. Corro esse risco voluntariamente: eu quero que tipos que estão na mesma situação que eu em relação à paternidade se possam sentir de alguma forma confortados. Seja lá que situação for, não devemos desistir de crescer com os nossos filhos. No outro dia deparei com um amigo que se viu separado dos filhos depois de ter estado a ser quase pai e mãe durante os primeiros anos de vida deles. Alguém dizia que para ele era um choque e uma tristeza maior porque tinha estado tão ligado a eles. Contraditei: ele tinha muito mais condições para pensar que um dia poderia fazer reverter a relação com os seus filhos porque tinha uma forte intimidade a suportar o seu contacto com eles. Dramático é o caso dos pais que perdem o contacto com os seus filhos com os quais quase não têm vínculos afectivos. Eu não sei até que ponto aquilo que escrevo ajuda ou não outras pessoas. Sei que muitas vezes encontro aqui textos de pessoas que não conheço e que iluminam fortemente a minha vida. Para um agnóstico, descrente em deus e no diabo, a possibilidade de acreditar na luz que, como pequenos vagalumes fazemos na noite de breu, no buraco negro onde caímos, é bálsamo bastante para seguir viagem. E também, quando falo da minha sexualidade, quando falo de uma forma sensível, tento dar conta de uma transformação genética que se nos ocorre quando fazemos quarenta anos: estamos em condições geográficas excelentes para desconstruirmos todos os mitemas, porque sabemos que a excelência do cruzamento dos planos afectivos e sentimentais, erótico e sexual, discursivo e existencial é como que um trevo de quatro folhas cuja probalidade de o encontrarmos não tem nada a ver com a forma como povoamos a nossa cabeça de ideias retocadas sobre o amor, a sexualidade ou o erotismo.
A única coisa que a partir dos quarenta se torna indissociável de qualquer prática de vida, o que não quer dizer que não possa ser antes, é que percebemos que a honestidade com os outros não é a conformação com algum plano moral exterior comum, é a de uma possível coincidência com uma honestidade de cada um consigo mesmo.
E essa é um caminho terrivelmente sinuoso.
Não toquei no nervo da questão: aquilo que escrevemos, quando escrevemos sobre nós, são os fragmentos de nós que já não são a nossa vida. Parece que o são, de tal forma vêm embrulhados em lugares e em personagens que são os nossos, mas não são. Embora as pessoas que nos lêem sem nos conhecerem só tenham isso para nos reconstituirem como gente, não chegam senão a uma dimensão de avatares, estranha, incompleta.
O que torna mais complexo isto é que muitas vezes não escrevemos sobre nós. Comunicamos com outros. E nessas alturas somos o mais parecido que podemos não só connosco mesmos, também com a identidade que criamos. Tive há bastantes anos, num suplemento do Diário de Notícias, o DN Jovem, uma experiência iniciática neste domínio. Nessa altura tratávamo-nos, entre amigos, com os nomes das nossas emergentes personalidades literárias. Eu na altura, habituado a ser o Quim, estranhava ser, mesmo com pessoas com quem tinha uma maior intimidade, o Joaquim Paulo, e mais tarde, o Joaquim Paulo Nogueira. Lembro-me de um dia o Armindo S. ter chegado ao pé de mim e me ter dito que me achava muito integrado, romântico, com uma ar pacato, feliz. Que da forma como eu escrevia tinha imaginado que eu era um um vagabundo urbano morando na rua, a farejar pelos caixotes do lixo, meio alucinado, praguejando contra os céus. Eu logo aí percebi que sou um quebra-cabeças para alguém que me leia. A coisa é tão verdadeira que nos posts mais antigos, e 365 dias vezes quatro anos são muitos posts, eu já não sei quem os escreveu, tenho de ir até ao fim, à assinatura, para me surpreender comigo
[E agora veio-me o sono. Até amanhã...]
Imagem de Susana Paiva

sexta-feira, agosto 31, 2007

Que se lixe o real!

A maioria dos meus amigos que trabalham em jornais, televisão, rádio expressam-me muitas vezes o agrado pelo que escrevo aqui, pela forma como eu penso e articulo as ideias com uma única excepção: o jornalismo. Chegando a esse tema quase todos acham que eu não percebo nada do assunto, que eu tenho essa mania irritante de pensar que o jornalismo é a causa de todas os males, que tenho um jornalista frustrado a gritar dentro deste crítico de sofá, que a minha incapacidade de perceber as coisas me tornou ainda mais arrogante e que tenho uma mala pata com o jornalismo.
É claro que por muito que a minha tendência para perorar sobre as coisas me seja inata e gratificante - não me posso esquecer que sou filho de um antigo orador eclesiástico - não sou desprovido de algum bom senso: prefiro conservar os amigos do que as minhas ideias. Até porque percebi que, entre eles, sem ninguém os ouvir, eram os maiores críticos da actividade que realizavam e conseguiam marcar pontos na sua análise. E por isso nos últimos tempos fui-me treinando para deixar de querer comentar de uma forma tão recorrente o trabalho jornalístico.
Isso levou-me a duas conclusões (não partilháveis claro com os meus amigos jornalistas): a primeira de que aquilo que ainda chamamos jornalismo tem de facto cada vez menos importância. A segunda - e é uma pena que continue sem a poder partilhar com os meus amigos que trabalham em jornais, na televisão e na rádio, e já não porque os vise, mas porque eles não aceitam de bom grado que exteriormente lhes venham dizer que o jornalismo está em vias de extinção - é que eles não têm culpa nenhuma da morte do jornalismo.
Nem os jornalistas nem os editores, nem os directores de jornais nem os proprietários dos títulos. Por exemplo o Oliveira e o Marcelino não são causa, são consequência. Não é o Oliveira que está a estragar o jornalismo português. Foi a degradação da actividade jornalística que permitiu que um empresário como Oliveira pudesse comprar o jornal Diário de Notícias e transformá-lo num jornal a dias. A chamada tabloidização da imprensa, seja jornais, televisão ou rádio, não é uma causa da tablodização do real mas uma das suas mais visiveis consequências.
Ontem alguém me perguntava pelo fenómeno dos blogues e eu dei por mim a dizer-lhe que achava que havia uma natureza luminosa do trabalho blogosférico, que consistia na abertura para a expressão de cada um como processo de construção identitária, ao mesmo tempo que me parecia crescente uma dimensão muito perigosa que era a de criarmos em comum a ideia de que é mais importante adquirirmos rapidamente um lead de um determinado acontecimento que nos permita tomarmos partido e posicionarmo-nos face a ele do que tentarmos aprofundar a nossa relação com o conhecimento real do mesmo.
Dei aliás um exemplo que há uns meses me chocou muito. Houve uma determinada entrevista a um chefe de um gang do Rio de Janeiro que foi difundida pela internet, através de blogues e por correio electrónico, e em que o entrevistado explicava que o pior estava para vir, que poderiam até usar armamento nuclear e que já não havia regresso possível. Esta entrevista circulou como se fosse verdadeira embora se tratasse de uma rubrica assumidamente imaginária de um determinado jornalista brasileiro. Quando isso deixou de circular no correio electrónico, e passou a circular na blogosfera, foi possível - graças ao hipertexto e aos comentários - desmascarar a notícia. Ora era curiosa a reacção dos comentários. Supondo que por exemplo havia um determinado comentário que desmascarava a notícia e que fornecia o link para a coluna de onde tinha saído a entrevista imaginária, os dois ou três comentários seguintes foram de espanto, de incredulidade, mas mais abaixo, começaram novamente a surgir comentários ao próprio discurso do entrevistado, como se ele fosse verdadeiro. E depois apareceram os contra argumentos a estes comentários, esquecendo já a reposição da verdade que tinha sido feita. Ou seja, foi só passar algum tempo e entre cento e tal comentários estavam quatro que se referiam ao desmascarar da falsa notícia. Os outros, os que lhe antecederam e os que lhe sucederam, vinham estabelecer uma linha de argumentação que tinha a falsa notícia como boa. Ou seja, grande parte das pessoas demonstravam uma grande incapacidade em abandonarem os aparatos ideológicos de que se tinham fornecido para discutir um determinado facto mesmo que ele fosse desmentido.
No caso Maddie também se passou algo muito curioso. A certa altura começou a circular a notícia de que tinha sido descoberto sangue no apartamento onde, alegadamente, a menina tinha dormido. Com essa notícia passou também a ideia de que a criança teria sido assassinada. Eu estava numa vila do Minho nessa altura e assisti de forma muito curiosa ao modo como a informação chegava ao único café que vendia jornais e de repente se disseminava pela vilória. É claro que a ideia de que os pais tinham matado a menina e escondido o corpo, até por causa do antecedente do caso Joana, começou a surgir e ao mesmo tempo a discussão pia sobre a incapacidade dos pais terem cometido tal acto. A polémica saltava etapas, factos e de repente já estava na condenação, no julgamento. Dias mais tarde veio a notícia de que o sangue do apartamento seria de uma outra pessoa que entretanto lá passara. O que era mais interessante é que essa nova notícia não desarmou nenhum daqueles que na vila já tinham tomado posição e que dias mais tarde, quando se começou a falar do sangue no carro alugado pelos pais, vieram comprovar aquilo que, uns dias antes, a opinião discutida já sabia.
Este é um excelente caso para percebermos o quanto a tablodização do real condiciona a indústria jornalística. É que a componente de realidade de uma notícia encarece em muito a produção da mesma. Custa muito mais investigar, deixar o jornalista levantar-se da cadeira e sair à procura da informação. E tudo isso se agrava quanto a indústria de conteúdos informativos depende cada vez mais de dispositivos tecnológicos dispendiosos. Ora se eu posso produzir uma informação que o público vai consumir com o mesmo deleite por menos, porque irei gastar mais dinheiro e ainda por cima em mais tempo, arriscando-me a perder na linha de montagem o prazo de validade de uma determinada história? Com uma boa agenda de contactos o jornalista pode facilmente validar o material enlatado ou os comunicados e informações à imprensa que circulam pelas redacções. Estamos a falar de uma indústria de conteúdos onde, por exemplo, grande repórter é, frequentemente, um titulo dado a veteranos que já pouco ou nada fazem em termos jornalísticos, isentando-os daqueles cumprimentos de deveres que qualquer outro jornalista assalariado tem de cumprir.
Deveremos por isso deixar a questão da morte do jornalismo para os jornalistas e para aqueles que fazem parte do pequeno circuito de discussão do problema. Não é importante nem decisivo para compreendermos a agonia do real no nosso mundo de todos os dias. Além disso eles já têm muito que se preocupar com a crescente função de amplificação que lhes é atribuída pelas diferentes forças sociais, económicas, políticas e culturais.
Até porque a tablodização do real é o verdadeiro problema enquanto realização de um determinado número de condições que secundarizaram o papel do paradigma da verdade na sociedade contemporânea. Nesse aspecto é impressionante como uma corrente que se apresentou como tão minoritária - o pós-modernismo - acabou por ter uma produção ideológica que afectou de tão grande forma a desvalorização da ideia de verdade na vida de milhões e milhões de pessoas. Tudo isso era necessário, claro, não é a crítica a esta corrente do pensamento que aqui se faz. É a percepção de que hoje há uma grande dificuldade em organizar a aproximação ao real através das condições que organizavam a ideia da procura da verdade. Estamos todos metidos no mesmo jogo. Que se lixe o real! O que ainda não percebemos, nem estamos preparados para discutir o quanto isso afecta o nosso quotidiano, é que sem o real a sustentar-nos o pensamento, a anterior categoria do ficcional, de tanto acorrer a tudo o que é processo de significação, fica exausta, cansa-se, deixa de poder significar, deixa de poder fazer-nos sonhar.

terça-feira, agosto 28, 2007

Brigadas da Contra-Informação.

Eu espero que aquelas horas esquecidas que passei na rede do limoeiro me tenham dado a teimosia suficiente para o confronto que quero ter aqui no Respirar com a linguagem. E eu já percebi pelos últimos posts que não será fácil. Há alguns anos Valere Novarina e o seu trabalho sobre o linguarejar tinham-me chamado a atenção para a necessidade imperiosa de devolvermos à linguagem a sua possibilidade interpelativa. Arrumei isso na gaveta do trabalho estético e criativo. Pensei, tenho de escrever como se escavasse um buraco no meio da linguagem. É nesse escuro, nesse negrume que a proferição se rejuvenescerá. Mas essa preocupação reservava-a exclusivamente para os meus textos teatrais. Sempre encarei o escrever no blogue como uma pré-escrita. Um lugar onde eu poderia ser e não ser, onde eu poderia ser inconsequente, inconstante, reflexivo, literário, piegas, sentimental, uma auto-terapia do existir.
Nestas férias pude no entanto perceber que as coisas estão bem piores do que eu pensava. Não se trata de uma questão estética. É uma questão política. Como blogger faço parte de uma comunidade bastante intelectualizada, quer dizer, que tem grande parte da sua vida construída através de referências do pensamento, da arte, da cultura, da política e por isso sempre desvalorizei o impacto da catástrofe que intelectualmente sentia que a linguagem estava a atravessar. Pensei que nos campos, nas aldeias, nas vilas, no interior das vidas amáveis que sempre soubemos construir estes artefactos comunicacionais não tinham quase valor nenhum.
Não é verdade. A situação é ainda mais catastrófica do que o meu pessimismo poderia alcançar. Já não existem campos, nem vilas, nem aldeias e as nossas vidas amáveis estão irreconhecíveis. O ter ido para férias quando o caso Maddie estava no seu epicentro deu-me a oportunidade para perceber que tipo de informação tem privilégios de produção de sentido fora dos grandes meios urbanos. É telenovela, noticiários e missa de domingo por esta ordem de importância.
O que tudo isto produz é um verdadeiro terrorismo da comunicação. Muitos de nós espantaram-se há uns anos com a possibilidade de implantação de retóricas fundadas no irracional como, por exemplo, a da guerra ao terror de George W. Bush. Ora o que aí vem ainda será pior, mil vezes pior.
E eu não sei o que verdadeiramente um blogger pode fazer, ou melhor, o alcance que poderá ter aquilo que ele pode fazer. Creio que nisso teremos de ter a paciência do agricultor que lança a semente ao chão e só saberá na primavera se o seu esforço foi produtivo. Poderemos começar a formar comunidades assentes no laborioso trabalho da contra-informação. Células anti-terroristas. Trabalharemos por casos como os terroristas da comunicação. Célula Contra Informativa no Caso Maddie por exemplo. Faremos reuniões de célula, de rede, de brigada no Second Life. Guerrilhas do pensamento. Pensar é estranho. Parece que nos afasta do lugar onde realmente estamos. E do lugar actual ainda mais. Provavelmente os vindouros já virão com o pensamento formatado para se adaptarem a esta reconfiguração ideológica da verdade, da mentira e já não sentirão esta nossa angústia de filhos da guerra fria.
A nós ainda é ela que nos ilumina.

O sacríficio

Há um engano em que muito facilmente caímos, e o tom provocatório que acabei por dar a dois dos meus últimos posts deu-me bem conta da medida desse logro: só um espírito empedernidamente romântico será levado a reconhecer que nunca amou verdadeiramente. Porque sabe que na negação está a possibilidade de um dia o vir a vivenciar plenamente. Ora eu sou um empedernido romântico. Prefiro sacrificar tudo o que vivi à hipótese de ter sido amorosamente vão, do que poder aceitar que nunca, em tempos da minha vida, conhecerei o verdadeiro e genuíno amor. O amor em mim é uma memória, uma promessa.

segunda-feira, agosto 27, 2007

O último olhar, disse ele

Em Broken Flowers de Jim Jarmush, Bill Murray depois de saber, através de uma carta anónima, que pode ter um filho que o procura, empreende ele próprio uma viagem para tentar descobrir quem é a mãe do seu filho.
A estrutura repetitiva do filme acaba por mão se tornar monótona graças quer à excelente banda sonora do filme, quer ao modo paradoxal como a personagem de Don Johnston é construída. Por um lado o seu comportamento apático, desafectado, alheado. Por outro um homem que inicia uma viagem através das várias namoradas que teve para descobrir qual delas é a mãe do seu filho, como se isso lhe devolvesse alguma chama existencial.
Imaginei-me dentro do filme e espantei-me com a forma como Don Johnston foi acolhido pelos seus antigos amores. Não acredito que se fosse eu a maior parte das mulheres com quem reparti dias, horas, me abrisse sequer a porta. É difícil confessá-lo mas nunca amei verdadeiramente. O amor em mim é uma memória e uma promessa. Amei quando nasci, e da procura dessa memória de que nem sequer me lembro faço a minha esperança de que por uma vez na vida, nem que seja ao morrer, possa sentir a plenitude de um amor verdadeiro rasgando-me por dentro, libertando-me de todo este ódio com que me deixei enquistar, soltando-me desta matéria pustulenta e ocre com que me entranhei de violência.Amei no exacto segundo em que nasci, aí fui humilde e autêntico amor molecular, cromossomático. Desde esse momento todo eu sou aprendizagem do medo, do egoísmo, da mentira, do desamor e da desafectação. Há uns tempos entristeci-me porque recebi de uma das mulheres com quem mais tempo tinha dispendido a desamar, uma carta a pedir-me para nunca mais a contactar, para imaginar que tinha morrido, emigrado para a Gronelândia, para o centro do centro do mundo, whatever! Agora, ao constatar a persistente inexistência do amor na minha vida, compreendo afinal a lucidez que, como um punhal, a trespassou.
Estas coisas que eu sei sei-as a despeito do amor que nunca senti, que nunca fui capaz de sentir. Sei-as por causa do único vislumbre amoroso que sou capaz de descortinar para além desta memória de que nem sou capaz de ser recordação: os gestos de amor autêntico de que fui objecto. Não são muitos, a maior parte do amor que me dedicaram é tão mesquinho como aquele que dediquei. E nem de outra forma poderia ser quando é a mesquinhez e o desenho de diminuitivo que lavra o chão e a terra onde semeámos e plantámos a flor. Não são muitos, são os bastantes.
O amor em mim é apenas uma promessa, uma memória. Por mais estranho que possa parecer, não é um ser agoniado pela sua própria acidez que escreve, mas alguém que percebe que é na desfiliação de um face à mitologia amorosa do mundo que pode estar a única e a última chance da nossa experiência amorosa ter algo de autêntico.
E a linguagem é apenas mais um entretenimento, um fazer tempo, enquanto a verdade crua e dura da nossa existência não nos atinge como um raio.Eu não o sabia antes e não o sabia assim: o véu vai caindo ao mesmo tempo que caminhamos. Enquanto com o tempo a gravidade puxa todas as nossas carnes para baixo, numa flacidez que nos permite o destempero lúcido de quem deixa para sempre a sua hipótese de ícone, o cérebro, o cerebrelo, a massa encefálica enrijecem, entesam-se na estreita vinculação à única proferição possivel.
É por isso que por mais aparato e exuberância que os nossos amores jovens possam ter tido, ninguém no seu perfeito juízo se comove senão com o amor que espera um dia, na velhice, experimentar. Padeci das mesmas doenças de espírito que qualquer um de nós: procurei uma mulher ou para me governar a vida, ou para me dar filhos, ou para tornar a minha vida aventurosa, ou para me rejubilar nas fotos de família, ou para o vangloreio junto dos amigos ou até, para me rejuvenescer. Tudo isso foi em vão e foi por isso que não deixei nem tenho saudades do amor que não vivi, que não soube viver.
A única coisa que agora ainda espero encontrar em relação àquela que será a minha última hipótese amorosa é algo que não posso ainda, nem nunca, procurar: uma mulher a quem possa olhar no derradeiro relance que pousar sobre o mundo e que espero, seja o mais autêntico gesto de amor que percorreu toda a minha vida.Uma mulher em quem amar e confiar, como escreveu o poeta.
Porque o que conta, a única coisa que verdadeiramente conta na possibilidade amorosa de cada um, é a confiança. É o único momento em que matamos a avestruz enterrada em mitemas de merda, de trampa doce, de lodaçento e pantanoso verboreio. A nossa derradeira chance de luz. Eu sei que tudo isto pode parecer cínico, ácido, desesperançado. Eu creio que não é. Ou que só será se já amarmos mais a linguagem do que a vida, do que a vida autêntica, indecifrável. Esse festim que, quando linguarejo, creio ainda ser possível.

quinta-feira, julho 26, 2007

Amnésia

Deu-me em cantar.
Aconteceu-me fazê-lo como se rebentasse com as cordas vocais. Há uma alegria não-verbal no meu tecido celular. Eu gostava de saber os nomes dos meus enzimas, das várias camadas de pele que é preciso atravessar para ir do meu intestino delgado até à pequena verruga que tenho na ponta do nariz.
Sempre admirei as pessoas que sabem os nomes das coisas. Por mim apetecia-me saber quantos ácidos revestem esta minha mania de ser doce.
Ou queria desfazer-me na minha hipótese química. Morro e nasço dentro de mim e não sei sequer o nome dos meus mortos nem dos meus vivos.
Deu-me em cantar.
Apeteceu-me fazê-lo como se me esvaísse em delicadeza.
Na mais pura delicadeza. A verdade é que se alguma vez alguém me tivesse ensinado os nomes das coisas eu me teria esquecido.
Esqueço-me de tudo. O meu problema não é, agora, o não saber. É esquecer.
Evito até aprender novas coisas, pelo menos, evito aprendê-las pelos metódos escolares tradicionais. Sei, e sei para sempre, e sei-o desde sempre, aquilo que apreendo com os sentidos.
Ainda me lembro intuitivamente dos cheiros, há pessoas que não se acreditam quando o digo, mas eu lembro-me ainda do cheiro da placenta que me revestia, ou da apoteose de odores do interior materno de onde vim.
Há qualquer coisa de incompleto numa vida.
É de noite que a solidão demora o tempo, o lugar. E atrasa mesmo o pensamento. Em todas as noites da minha vida neste universo de equações e de seres o que atrasa o pensamento e com este, a tranquilidade, é a noite.
Admiro as pessoas que são feitas de uma só peça, ou até, metade de uma coisa ou metade de outra. Por exemplo, as pessoas que são apenas constituidas de bondade. Ou de maldade. Eu sou uma amálgama retorcida, traiçoeira. Sou um monstro e a minha monstruosidade é, a minha humanidade.
Sem ela seria menos que um suspiro, um pedaço de vento. Não seria nada.
Há qualquer coisa de incompleto numa frase.

sábado, julho 21, 2007

Inspiração matinal

No outro dia perguntaram-me o que é que eu fazia se soubesse que ía morrer. Respondi, escrevia, escrevia, escrevia. Dois ou três raios de sol saiem lá de fora e entram na sala, aquecem-me o espírito, inspiram-me, fazem-me descobrir o desespero, o pretensiosismo da resposta que dei à minha amiga. Se eu soubesse que ía morrer encostava-me a esta janela a olhar os cacilheiros, os veleiros, os navios que entram na barra e morria, morria, morria.
Não sem antes ter preenchido uma declaração a doar o meu corpo a uma qualquer ciência não exacta.

terça-feira, julho 17, 2007

O que mais escrever?

"Cuando dejo de escribir por un largo tiempo, me encuentro - a mi mismo - con el límite y la pregunta que gira en torno a la utilidad de lo que hago con este blog. Me digo que la pregunta sobre la utilidad no tiene mucho sentido, no todo tiene que ser útil. Sino que el sentido está precisamente ahí, en el sentido de lo que escribo. Es decir, en la necesidad profunda del decir y de manifestar lo doloroso que me resulta ver como la muerte y la injusticia gobiernan la vida de miles de niños, niñas,jóvenes, hombres y mujeres en mi país...y en muchos otros lugares del mundo, no se si encuentre mis referentes de manera persistente, también en esas otras realidades. Encuentro en mis archivos decenas de post sin publicar, me intereso mas en publicar y difundir las historias de los otros muertos y muertas. Parece como si tuviera dos blogs paralelos sobre aspectos fundamentales de mi vida, el que se escribo en los archivos de mi computadora y el que se deja devenir en lo efímero de la internet, con extraños visitantes que llegan de manera aleatoria o por accidente. Debo confesar que siento un enorme cansancio al escribir, cada muerte parece una historia repetida una y otra vez y la inevitable percepción de "nada pasa", de impotencia y de culpa por sentir que no pude hacer nada para impedirlo. Quizás, porque de manera ingenua, sienta que pueda ayudar a alguna cosa. La verdad, en el fondo, tengo la certeza de que al único que puedo salvar es a mi propio. Por lo menos salvarme de mi silencio. Y sin embargo, es inevitable estar referenciado en los otros, las otras, que me duelen, como a mi propio."
Roubado daqui, de um amigo. Encosto-me ao seu silêncio. O seu silêncio salva-me. Como a sua escrita. Ocorre-me a manhã fresca das nossas crianças. Eu sou, de entre aqueles que me rodeiam, dos que me fazem flor. E tenho a fortuna das minhas mortes serem quase todas elas as mortes que invento dentro de mim. Vivo num país tranquilo, bafejado pela brisa e pela orla.

sábado, junho 09, 2007

escrever-pensar

está calor, mas não muito. há uma aragem fresca, a medida certa. o rio, sempre, sempre. o riso de uma criança natural. sou pai de uma criança de riso farto e natural. é o meu filho. já tentei ter a mesma evidência no corpo e no espírito de uma mulher, por vezes consegui, percebo sempre, há qualquer coisa de precário no amor. neste preciso momento em que escrevo sou tão do mundo como tudo aquilo em que me deixo, suavemente, emergir. continuo sem acreditar em deus. a constituir-me sua criatura, à sua revelia. o pensamento é em mim, sempre o lugar. por vezes o mundo pesa-me, como se fosse uma bolha que fosse rebentar, e aí eu maldigo o pensamento, pensar. são lágrimas secas, provisórias. mais à frente hei-de lembrar-me novamente de reconstituir os laços, as teias, os nós, pelo ofício, ou será gesto, de pensar. não é um ser livre que recomendo, é o que me calhou. estavam os deuses, os espiritos, a jogar à bisca lambida com o desígnio do mundo, a mim calhou-me em sorte este preocupar-me e despreocupar-me através do pensamento. há uns anos atrás tive um privilégio quase divino: subi a um palco. fui actor. digo-o sem alguma nostalgia. eu nunca fiz nada para aprender um ofício que não fosse o do pensamento. um dia gostava de ser uma pedra, um cão, um pedaço de vento. apenas pela curiosidade imensa de saber como pensa um canídeo, um mineral ou um pedaço de sopro. era tanta a minha curiosidade que matei o rapaz tímido, complexado, inseguro que sempre fui. e descobri uma coisa importante, que me arrastou do território da loucura onde um ser, qualquer que seja, pode estar. o meu corpo pensa. o meu corpo é pensamento. o pensamento que articula estas palavras é pensamento mas não é o único-único pensamento. há mais pensar no mundo. há mais pensar no mundo quando me calo, quando me silencio, quando deixo de ouvir o eco em que me tornei. e esse pensamento transfigurado, desfigurado, sem rosto, é festa. a festa.

quarta-feira, abril 18, 2007

A doença como metáfora

" A doença é o lado sombrio da vida, uma cidadania bem pesada. Ao nascer, todos nós adquirimos uma dupla cidadania.: a do reino da saúde e a do reino da doença. E muito embora todos preferíssemos usar o bom passaporte, mais tarde ou mais cedo cada um de nós se vê obrigado, ainda que momentaneamente, a identificar-se como cidadão da outra zona.
O meu propósito não é tanto descrever o que significa relamente emigrar para o reino da doença e aí viver, mas antes as fantasias punitivas ou sentimentais que se constroem acerca dessa situação: não uma geografia real, mas antes estereótipos de carácter nacional. O meu tema não é a doença física em si, mas o uso que se faz da doença como figura ou metáfora.
A minha tese é de que a doença não é uma metáfora, e o modo mais honesto de olhar a doença - e o modo mais são de estar doente - é o olhar mais depurado, mais resistente ao pensamento metafórico. Mas é praticamente impossível fixarmos resid~encia no reino da doença incontaminados pelas sinistras metáforas que lhe desenharam a paisagem. Elucidar tais metáforas, sacudir o seu jugo, constitui o objectivo deste estudo. .../... Embora o modo como a mistificação de uma doença se processa tenha lugar num quadro de expectativas renovadas, a doença propriamente dita (a tuberculose antes, o cancro hoje) desperta um tipo de terrores completamente obsoletos.
Qualquer doença que seja vista como um mistério e seja profundamente temida será considerada moralmente, se não literalmente, contagiosa. E assim, um número surpreendentemente vastod e pessoas que sofrem de cancro ver-se-ão rejeitados por parentes e amigos, tornando-se objecto de medidas de descontaminação pelas pessoas da família, como se o cancro, à semelhança da tuberculose, fosse uma doença contagiosa. O contacto com alguém vitima de uma doença vista como um mal misterioso éinevitavelmente sentido como uma transgressão: pior, como a violação de um tabu. Os próprios nomes de tais doenças são considerados dotados de um poder mágico. "
A Doença como Metáfora, Susan Sontag, Quetzal Editores, 1998. Este ensaio foi escrito em 1978, quando a autora convalescia de um cancro. Anos mais tarde, com o aparecimento da SIDA, Sontag escreveria A Sida e as suas Metáforas.

A aventura totalitária

Uma das situações que considero mais inquietantes na nossa vida contemporânea é o modo como permeabilizámos os nossos sistemas de representação (social, cultural, política, etc) à avalanche de um novo tipo de totalitarismo e autoritarismo que se constituiu como discurso não assinalado pelos habituais detectores de signos totalitários. Conseguimos facilmente identificar a xenofobia, o racismo, o nacionalismo, as apologias dos diferentes movimentos de natureza neofascista, como manifestações emergentes de um discurso totalitário, mas temos uma grande dificuldade em apercebermos da forma como o modo como organizamos a nossa vida, como falamos de nós e dos outros, como constituímos pensamento, cria por um lado uma disponibilidade interior para a emergência dentro de nós do modo de ser-estar totalitário e por outro uma atitude negligenciadora e mesmo disciplicente em relação à critica dessa irrupção do totalitarismo. São dois momentos diferentes mas que parece obterem um estranho conluio, só que um, o primeiro, caracteriza-se por uma euforia, uma exaltação e o segundo por um medo de que ao pensarmos percamos a conexão com o real. O primeiro é a euforia da publicidade, das mitologias reinantes, do simulacro e da simulação, da realidade já sem marcas de real. Deveríamos um dia poder gravar as conversas sobre o quotidiano. Sobre o que vestimos, sobre o que vemos na televisão, sobre o sexo, sobre o género, sobre o que compramos, sobre o modo como nos divertimos, sobre os modos como porporcionamos divertimento aos nossos filhos. Depois iríamos à arrecadação buscar uma daquelas grelhas de análise estruturalistas e contaríamos quantos vocábulos que expressam uma ideia, um desejo, uma ânsia de totalidade utilizámos e qual a reacção do nosso interlocutor face a isso. Ou seja, a rapidez com que se identificou totalmente com aquilo que dissémos, muitas vezes alargando o contexto desse afecto totalitário. O eu penso ou o eu acho, quando muitas vezes nem houve tempo para aquela operação que pode qualificar o pensamento, a operação de vinculação a uma experiência, seja ela imaginária ou real, e muito menos a procura de uma identidade. Os nossos espaços quotidianos são muitas vezes múltiplos workshops interpessoais onde experimentamos a vivência do totalitarismo, naturalizando-o, interiorizando-o. Os jogos tipicos do desenvolvimento infantil como o mimetismo, levamo-los pela vida fora, sempre. Somos pequenos protótipos de mesmificação. E por outro lado, tentamos anular a nossa tendência para sermos acção e crítica da acção. Critica para quê, se é por ela que nos individualizamos e nós queremos tribalizarmo-nos? É de notar que as tribos modernas evoluiram muito, desenham-se na heterogeneidade, na multiplicidade, na diversidade. O grande problema: isso não é só falso, é também verdadeiro. Realmente as nossas tribos estão mais abertas ao diferente, ao diverso, tanto no plano discursivo como no plano pragmático. Só que nem sempre o tempo joga a favor da actividade crítica. É preciso formar opinião muito rapidamente. E como permanecem activos os dispositivos ideológicos do pós modernismo e do relativismo, tudo se tornou ficção, ficcionável. Para quê esse investimento na realidade então se tudo pode ser relativizado? Por exemplo, houve um caso muito falado recentemente sobre uma sentença de um julgamento que envolvia o Público e o Sporting. As posições de uns e outros estavam expressas no mesmo ciberespaço onde estavam o acordão do tribunal. Isso não impediu que, independentemente da divergência de pontos de vista, estes fossem formulados a partir de dados contraditórios uns com os outros. É apenas um exemplo. Todos nós * conhecemos essas marcas no real que habitamos.
O que eu quero dizer é que quando no plano ideológico e político nos apercebemos que se está a forjar uma dicotomia, um exarcerbar maniqueísta, que visa permitir aos sistemas ditos democráticos responderem de forma totalitária, já é demasiado tarde. Já, nos nossos dias, incorporámos de tal forma a aventura totalitária que perdemos a capacidade de nos ligarmos e conectarmos com o outro. Ele é uma ameaça.
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* Estava já a corrigir o post detectei esta marca de totalidade neste mesmo texto. Como é que eu sei que todos nós conhecemos estas marcas no real que habitamos? Fiz algum estudo, andei a perguntar?

domingo, abril 08, 2007

Manual de Sobrevivência

É quase sempre assim quando vamos somando decisões adiadas como quem colecciona conchas: quando temos que decidir, protelamos. Algumas protelamo-las conscientemente. Quase como represália pela indiferença que sentimos do outro lado. Isto acontece muitas vezes com coisas públicas que ora se tornam muito urgentes, ora parece que nunca existiram. E vamos assim protelando as coisas, uma a uma. Até que toda a nossa vida inexiste como decisão. Não fazemos a barba, não cortamos o cabelo, não vamos ao cinema, não lemos um livro, não escrevemos um texto, não arrumamos a casa, não organizamos o caixote das fotos. Não telefonamos a um amigo. Em estados mais avançados temos até alguma dificuldade em decidir o que é um amigo ou o que é um mero transeunte. Por vezes, em dias de total desespero entramos no eléctrico e sorrimos para o condutor ou para um passageiro como se ele fosse uma tábua de salvação, a nossa única e maior amizade neste mundo. E logo a seguir somos capazes de responder a um amigo com uma secura e uma dureza como se nunca se tivesse cruzado connosco ou como se ele fosse um vampiro. É dura a vida de um indeciso. Até porque a pressão que o envolve, tensifica-o nessa apoteose do decidir. Parece que a sua vida só voltará a sê-lo se ele decidir. E não devemos esquecê-lo, os quadros de referência que partilhamos em sociedade estão as mais das vezes, completamente virados do avesso. Chamamos decisão àquilo que afinal não é mais do que a pulsão mais mesquinha, mais igualitária e menos favorável á criação de uma identidade. Só que o indeciso não o pode saber. Náufrago da enorme lucidez que é, por momentos ter transviado, transfigura-o a angústia do decidir. É preciso escolher. Devemos por isso encarar com especial candura, no caso dos nossos amantes, familiares, amigos ou vizinhos, e auto-complacência, no caso próprio, o facto de, muito frequentemente, começarmos pelas decisões erradas.

quarta-feira, março 14, 2007

O pessimismo?

O mundo tornou-se um lugar deprimido. Não falo de cada um de nós. Digo o mundo. Nós, os que estamos entregues a esta loucura da normalidade, entristecemo-nos por vezes e alegramo-nos outras. É a nossa vida. Não falo disso. Digo que o mundo se tornou num lugar deprimido. Oferece pontos de fuga, esconderijos, oásis, resorts, condomínios fechados, lugares ecológicos mas tudo isso reforça a condição depressiva do mundo em que vivemos. Poderemos ser felizes individualmente, mas essa felicidade destrói-nos eticamente. Temos de ser felizes juntos. É a nossa maldição. Como sair daqui? Visconti sublinhava a natureza revolucionária do pessimismo. É através dele que sairemos deste impasse? O mundo não tem uma felicidade verdadeira desde o Muro de Berlim e a Perestroika. Precisamos de ser felizes. Ser felizes não é fecharmos os olhos, não queremos ver, não queremos pensar. Seremos felizes com todas as verdades inconvenientes. Fiquei animado com um comentário que assinalava a alegria que se desprendia dos meus últimos posts. Eu, à força de me ver triste, via-os tristes também. Afinal só eram tristes quando os escrevia. Quando se escreviam, autónomos, independendentes da sua tristeza originária, eram alegres. Estou muito mais animado. Não estou a aumentar a tristeza do mundo com os meus posts impregnados de desesperança. E como a tristeza é uma condição a que não me posso furtar, a menos que faça deste escrever um gesto ainda mais triste e desesperançado, posso continuar a escrever postes tristes e, aos poucos, enquanto os leio, forjar-me na alegria.