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quarta-feira, novembro 19, 2008
sexta-feira, outubro 24, 2008
Desgraça de me chamar Joaquim ou louvor de Amsterdam
Não gosto do blogue da Ana de Amsterdam. Poderia desfiar um conjunto de razões para isso. Não o faço. Nenhuma delas me livraria da sensação de que seria por um outro conjunto de não razões que não gosto do blogue dela. Poupo-vos ao enunciado tanto de umas como de outras. A única Ana de Amsterdam que conheci e que amo até às entranhas é a do Chico. O que interessa é que até hoje nunca a meti nas minhas ligações. Também não saberia bem onde. Blogues de todos os dias nem pensar. Gosto de ter aí os blogues que me devolvem uma ideia de blogosfera que, mesmo sendo cada vez mais dispersa, esparsa e incongruente, me tenta segredar que não é tempo perdido aquele em que ando por aqui. Dos amigos também não, claro, cruzes lagarto. A blogosfera activa é quase que um arquivo-morto onde quase nunca vou. E blogues de referência, que seria o mais natural pela forma admirável como aquela megera escreve, ainda não estava preparado. Até há segundos atrás quando descobri que ela chamou Joaquim ao seu filho. Não gosto do nome de Joaquim. Há quarenta e seis anos que o detesto. Que tenho de conviver com ele. Numa relação de amor-ódio. Durante muito tempo disfarçei-o com o Paulo. Para muito gente, especialmente os idos do DN-Jovem, eu era Joaquim Paulo. Confesso, a conjugação fez-me reencontrar uma certa ternura que pode haver no nome de Joaquim. E que me compensava dos suores frios sempre que ouvia o Quim Paulo, materno, aviso de que tinha feito asneira da grossa. Mais tarde, porque queria ser levado a sério como actor e um companheiro de tábuas me disse que isso não aconteceria se eu não tivesse um apelido, juntei o Nogueira, um apelido menos usado no extenso do meu nome. Curiosamente fui eu o primeiro a não me levar a sério enquanto actor, pelo que o enxerto onomástico não me deu nenhum benefício artístico. E hoje já estou mais habituado a ser Joaquim. Já não tenho nenhum ressentimento pelo meu padrinho, Joaquim, cujos muitos filhos homens foram todos Joaquins e a quem devo também o nome. É por isso com admiração que coloco a Ana de Amsterdam na minha lista de blogues de referência, saudando a sua coragem de em pleno mundo pós-moderno chamar a uma cria Joaquim.
sábado, outubro 04, 2008
O homem do lixo
Ele está na blogosfera mas não está na blogosfera. Por vezes atira as suas frases-bomba: 99% da blogosfera é lixo. Mesmo que esta conversa dos porcentos não tenha rigor nenhum, ele falava enquanto comentador político e não enquanto sociólogo, a imagem que Tomáz Vasques utilizou para ilustrar o seu comentário é bem inspiradora. É que já não vivemos no tempo dos aterros ao ar livre em que o lixo era um pesadelo para as gerações futuras. O lixo adquiriu alguma dignidade na nossa sociedade e então o lixo blogosférico sendo inodor, quimicamente neutro, deve ser tratado como uma parte deste vaivém ideológico que a blogosfera também é. Não sei se é 99%. O que sei é que grande parte das nossas ideias são contrafeitas e/ou recicladas e sendo a blogoesfera uma feira franca da expressão e da comunicação encontraremos aí, necessariamente, muito material reciclado. As hiperligações são aliás o paradigma desse trabalho laborioso do espírito recolector que anima o verdadeiro blogguer. Nesse sentido não percebo qual a carga pejorativa nas palavras de Pacheco Pereira. Melhor, não percebo a carga pejorativa que PP quis dar às suas próprias palavras. A não ser que o pobre coitado julgue que anda por aqui, pela blogosfera, pelas quadraturas do circulo ou pela imensa trabalheira mediática onde se mete, a produzir material ideológico original!
terça-feira, agosto 19, 2008
Os dias da Sarah
Nestes tempos de blogo pausa é bom ver que a espuma dos dias está actualizada. Aqui ao lado, nos blogues de todos os dias.
terça-feira, agosto 05, 2008
Agosto, perguntas tu
Já sei porque é que se passam semanas sem que vá ver o sitemeter. Venho de lá sempre confuso, com vontade de atirar o blogue por uma ribanceira abaixo. Supostamente esta aventura da blogosfera era para ser a aventura da criação de uma comunidade, indistinta, heterógenea, livre, mas comunidade. Vejo que na última semana cerca de cem pessoas vieram cá, diariamente, e que dessas, cerca de sessenta veio pela primeira vez. Nos comentários não há rasto perceptível desse movimento. Sinto-me mal. Quem são estes mirones que aqui andam? Como lhes explicar que as minudências de expressão intima são condições que julgávamos necessárias para uma determinada partilha comunitária? Como, se nem sei quem são? Não volto lá, ao sitemeter, tão cedo. Prefiro andar por aqui nesta ilusão de que somos uma comunidade.
quarta-feira, julho 02, 2008
Ler de manhã
Acordar assim, deliciado com a manhã dos blogues: A casa crua, na Ilustração do Vazio, e a Vingança da Gorda . A Isabela é uma repetente nestes pequenos deslumbramentos, claro. É o Apicultor que me surpreende. Há muitos anos atrás foi ele que me falou em primeiro lugar de um espaço onde podíamos escrever à vontade. Era o DN Jovem, onde também conheci a Isabela. Mandou dois textos talvez e levou com uma nega no Isto é Contigo. Entretido com a azáfama das crestas, o cheiro do rosmaninho no montado, as noites de céu aberto na casa crua a ver o mar e a Arrábida quando se podia, ah! e também com o Estragildo com cara de luga minguante, foi deixando os texticulos para os outros. Um dia sabe-se lá porquê, como se rebentos entre os dedos, a escrita começa-lhe a brotar assim, como os verbos e os substantivos que sempre me deliciaram nas nossas conversas. E sabe-me tão bem que aquilo que era só nosso, da mão cheia de amigos que o partilham, seja agora património de todos. Eu sei que é um amigo. Mas nestes dias falo dele como irmão.
segunda-feira, junho 30, 2008
domingo, junho 29, 2008
The blog must go on ( ou o ser em estado de blogger)
A génese da coisa técnica.
Há cinco anos atrás, estávamos em Junho de 2003, um grupo de autores de teatro, instigados pelo Nuno Nabais e pelo Abel Neves, ou melhor, pelo Abel Neves instigado pelo Nuno Nabais, reuniu-se nos festejos de São Boaventura, na rua do mesmo nome, onde pontificavam duas livrarias, a Ler Devagar e a Eterno Retorno, no Ciclo de Autores Dramáticos. Nessa altura eu tinha um site, Escrita Teatral onde me dedicava à divulgação da escrita de teatro. O interesse pelo ciberespaço era crescente. Falou-se entretanto, creio que foi o Carlos Alberto Machado, que havia uma nova coisa que dava para actualizar, que era à borla, o que era importante, o Possidónio tinha um, o Prazer Inculto. O Carlos avançou com a decifração dos scripts, dos htmls, e lá começámos a partilhar informações. Estávamos no inicio, os blogues eram dispositivos bem menos amigáveis, tínhamos de ir vendo aqui e acoli, para introdução de novas fontes, fotografias, e pouco mais. O Carlos Alberto Machado criou o seu Campo de Afectos, eu, com as dicas que ele me deu, o Respirar O Mesmo Ar. Ao princípio havia uma regra de ouro para evitar o grande desastre: saber começar e acabar uma frase html. Depois veio o resto. Lembro-me que foi a Sofia do Mal que me ensinou a colocar imagens sem distorcer o aspecto do blogue. Estou a falar da génese tecnológica. Agora o blogger é um amigo muito mais completo e dedicado: está estabilizado, fala português, edita imagens, vídeos, músicas, inquéritos, acompanha o que os nossos blogues de estimação fazem e ajuda-nos a ir buscar recursos externos. É um mundo muito sofisticado e tão próximo que parece quase natural.
A génese ainda, mas um pouco para além da tecné.
Quando aqui cheguei eu era o quê? Um animador, um animador sócio cultural, dramaturgo, um tipo interessado no teatro, que já tinha sido actor, com formação em comunicação, com alguma actividade pedagógica, outra tanta de animador teatral (ligado ao movimento nacional de expressão dramática, com alguns vínculos também a algumas práticas internacionais neste domínio, principalmente os que tinha criado no princípio da década de 90, aquando do Congresso Mundial de Teatro e Educação (Rivoli, 1992) e do 3º Congresso Internacional de Sociologia do Teatro (CAM-FCG, 1992), em cuja organização trabalhei activamente). E profissionalmente, estávamos em 2003, trabalhava num instituto público com fortes tradições na actividade cultural amadora. Digo isto para que se compreenda a dimensão da seguinte afirmação: eu estava totalmente comprometido - era mesmo a condição base do meu enquadramento neste mundo - com o trabalho que a expressão e a comunicação faz à vida das pessoas, quer entendidas de forma individual, quer de modo colectivo e nesse sentido a blogosfera era uma grande revolução, a revolução que faltava. Explicando-me melhor: até ter chegado a blogos eu tinha passado a melhor parte da minha vida fechado em salas com grupos de isto ou aquilo, crianças, professores, jovens, idosos, a fazer umas habilidades que aprendi no teatro, como a construção de personagens, no pressuposto de que cada um de nós tem dentro de si um universo de imagens, de ideias, de signos, com os quais organiza a sua percepção do mundo e que é desse trabalho, em grupo, que é feito um melhor mundo, uma melhor vida. A blogosfera era assim um sonho ampliado a mil: imagine-se que para além de ver toda a gente interessada em exprimir-se como se o planeta se tivesse tornado num imenso Hyde Park, a vejo interessada em exprimir-se através da escrita, que é um modo mais reflexivo, mais depurado, mais organizado. Uma vez, num encontro de playworkers lembro-me que alguém apresentou um painel sobre um projecto de escrita através de sms, feito ou na Suécia ou na Noruega, já não me recordo, com miúdos de idade escolar que apresentavam um grande divórcio em relação à expressão escrita. O grande trunfo do projecto era conseguir que, mesmo com frases minimalistas, redutoras, numa escrita abreviada, todos nós conhecemos traços dessa codificação, os miúdos passassem muito mais tempo a escrever. E se isso aconteceu assim agora imagine-se a grande esperança que é a blogosfera onde lemos mais, escrevemos mais, onde nos identificamos pela sedução que as nossas mais pequenas estratégias discursivas podem ter numa comunidade que vamos forjando ao passar do tempo. Era a grande democratização de tudo o que tem a ver com a expressão. Esse era o meu fascínio inicial. Mantenho-o em parte, não viria aqui dia após dia se não mantivesse essa utopia de uma aldeia global onde cada um é simultaneamente riso e expressão de si mesmo.
O grande problema que se defronta quem sente a necessidade de cultivar a expressão própria, é a da dificuldade de superar os imensos filtros, sociais, políticos, aristocráticos, que se colocam a quem se quer afirmar na actividade expressiva. Esse fosso enorme precisa de ser transposto por todos, é isso que pensava o animador que eu era e que tinha nesse acesso indiscriminado à expressão uma das fontes de qualificação da vida em comunidade. Se eu dizer que pensava que o ser oculto pela sua própria expressão inexistia, compreendemos de imediato o valor que eu atribuía à actividade expressiva. Digo que pensava porque suspeito que hoje já tenha um ponto de vista um pouco diferente sobre isso. O que me parece hoje é que esse dinamismo tensionado entre os filtros que condicionam a possibilidade de acesso à expressão livre de cada um e essa ideia de que é preciso transpô-los, é uma narrativa efabulada sobre o devir de cada um enquanto matéria publicável que, politicamente, é muito favorável à manutenção desse mesmo status quo. E que não deixa que nos concentremos noutras alternativas. A edição de cada um que a blogosfera e o ciberespaço nos propõem é uma dessas alternativas, uma nova possibilidade tão boa, ou melhor, que a edição tradicional. Por vezes há pessoas que para me elogiarem o escrevinhar dizem que eu deveria escrever um livro. É um dito amável. Tinha uns amigos do meu pai, pessoas muito humildes e sem instrução, que, quando ele começava a falar olhavam para mim a ver se eu estava cheio de orgulho e que depois me diziam, o teu pai devia ser primeiro-ministro. Cresci assim com a ideia de que a felicidade era não só sermos outra coisa do que aquilo que realmente somos como também termos alguém próximo que ache que nós merecemos sermos mais qualquer coisa do que aquilo que somos. Quanto a mim já tenho uma meia dúzia de peças publicadas e foram-me muito úteis durante algum tempo, principalmente no campo amoroso. Sempre que tinha uma nova relação, de uma forma mais ou menos disfarçada, e ao crescer da idade com a maior descrição possível, arranjava maneira de lhes levar os meus livros. Nunca nenhuma os leu, o que reputava de uma enorme bondade, porque assim pude manter intactas as minhas pretensões literárias. Mas durante alguns anos assim procedi com zelo e garbo. Também em termos familiares me foram muito úteis. O meu pai publicou o seu primeiro livro já depois de se ter reformado e eu nesse aspecto assumi a liderança editorial. Creio mesmo que é das minhas poucas façanhas que a minha mãe se gaba com as amigas. Digo isto para que fique claro que a única diferença entre o publicar no respirar o mesmo ar e numa chanfana qualquer por aí montada é que, e faço uma única excepção, a minha mãe, por enquanto, que ela já anda à roda do pc e no outro dia mandou-me um email mas dizia, a única diferença é que no respirar lêem-me, lêem-me as palavras, os sentidos, o que está lá, o que não está, o que poderia ter estado e eu não sei mesmo o que mais pode aspirar uma pessoa, uma pessoa de bem, a pessoa de bem com cujo devir sonho todas as noites quando me deito, de tal modo que hoje já não sei quem sou. O JPN? Quem é este ser em estado de estranha publicidade? Tenho algumas dúvidas. Tento vir aqui com a mesma naturalidade com que, aos quinze anos, me sentava à secretária e escrevia o meu diário, numa pasta de capa castanha sem alguma protecção, todos os meus vícios, os meus pecados, os meus sonhos, os meus fracassos e desesperos numa capa castanha à mercê do desfolhar de alguém mais curioso , apenas um distíco, uma mensagem, dizia, não mexer, tem jacaré lá dentro, mas por vezes penso, que loucura é esta? Não leio o que está para trás. Se o lesse apanhava um susto. Tenho uma amiga que aqui vem que diz que às vezes se sente ruborizada ao ler o detalhe da exposição das minhas entranhas. Sou um ser estranho em estado de blogger, somos todos seres estranhos em estado de blogger, havemos de descobrir. O teatro, o estar em cima de um palco, ensinou-me, sei lá se me ensinou, interiorizou-me esta ideia de que há uma circunstância exibicionista dentro de mim, dentro da minha alma de actor. Um instante de exibição, de vaidade, de querer ser, de querer ser reconhecido, de querer ser admirado, de querer que digam que eu sou o melhor escritor do meu prédio, nem que seja do meu andar, ou até da minha casa, mas que possa adormecer hoje com a sensação de que cumpri o meu dever de agiota dos meus próprios sentimentos. Mas também, e é tão rico e complexo o tempo do teatro, outro instante de revelação, de verdade revelada, de aproximação ao fugidio momento que é estarmos uns diante dos outros, de nos construirmos sem peneiras, sem maneirismos, sem merdas. Há nesse instante trémulo de actor, e é a extrema publicidade que alumia a folha branca digital onde escrevo, outro momento: o momento de raiva, de fúria solidária, o momento em que cada um de nós tenta ser alguma coisa para quem passa, e que depois leva essa indefinida coisa para outro lugar, um link, uma ligação, o mundo inteiro assim. Hoje já não sei quem sou e é esse estado de indecisão que me traz aqui. Como se o pudesse descobrir aqui, escrevendo, escrevendo-vos.
Metablogar
Tenho micróbios filosóficos desde a mais tenra idade, assim me disse a Xana, com quem partilhei carteira no primeiro ano de turmas mistas na escola Damião de Góis nos Olivais. Ela fez-me um desenho e no lugar da cabeça pôs-me um ponto de interrogação. Tenho essa circunstância especulativa que se debruça sobre o falar, o falar sobre o falar, sobre a falação, sobre os falantes, falatório incontinente: uma das primeiras iniciativas que tive foi criar o metablogue, onde eu recolhia fragmentos do pensamento blogosférico. Na altura era novo o fenómeno e estava ainda em constituição. Era por isso frequente que o falar na blogosfera, a criação de nomes como o da própria blogosfera, dessem espaço a inúmeras e acaloradas discussões. Havia quem quissesse fazer disto uma espécie de salão de chá, se tu me linkas tenho de te linkar - a conversa mais estrambólica que tive foi com uma blogguer hoje muito renomada, dando-me um raspanete por não lhe ter colocado o link, coisa que ela já tinha feito - ou as conversas com o blogguer do Cruzes Canhoto e também, claro, com o João Nogueira que se juntou comigo no metablogue e lhe arranjou casa no país weblog do Paulo Querido. O projecto morreu logo ali com a sua internacionalização, e com um novo look mas o pensar blogosférico foi-se estruturando de outras formas. Creio que ainda não tinham chegado blogguers como, entre outros, o Luís Carmelo, que se tem dedicado activamente a procurar um modo de pensar a rede. Disse atrás que para lá do meu fascínio por este novo meio há também um crescimento da minha posição crítica sobre esta presença, sobre a mesmificação dos discursos, sobre o aumento da disponibilidade para a manipulação das ideias, das realidades, dos comportamentos.
Há um tempo de fractura de paradigmas, da ruptura epistemológica - de que falava Bachelard e que tanto me fascinou nas aulas de filosofia de saída do secundário - de crise, crise no seu sentido mais produtivo, enquanto momento em que neste dinamismo ordem/caos que rege permanentemente os nossos dispositivos sociais a poeira ainda está toda no ar, há um tempo em que um novo meio - e o blogger é um novo meio - pode ainda ser tudo, tem em si a possibilidade de ser muitas coisas, de romper com o que já está estabelecido, de criar novos paradigmas, novos comportamentos, e é nesse momento, que é muito breve, que se constroiem ou não dispositivos que consigam acrescentar valor à dinâmica social. Antes de mais uma precaução: não se deixem iludir nem pelo tom sério nem pela hipotética utilização do sociologuês deste post, ele não tem nenhum autorização para utilização de qualquer tipo de terminologia científica, é um mero post-achismo que caracteriza tudo o que escrevo. E vamos então ao osso: embora o dispositivo ideológico de produção de sentido das nossas sociedades seja difuso, pluricentrado, e tenda para a incorporação dos seus procedimentos, tornando-se invisível, ele não só existe como tem uma capacidade muito rápida de se regenerar. Há um momento muito curto, que era daquilo que tentava falar, em que s epode criar a surpresa, confundir o sistema, baralhá-lo, levá-lo a criar respostas erradas, a reorganizar-se mas isso é o tempo de um ai, de um suspiro. É possível que um blogue dos gatos fedorentos abane o sistema e que num canal da sic radical possa ter criado a esperança de que iriam abanar a estrutura do fazer humor em Portugal mas passados os seus quinze minutos de glória soporífera eles estarão, sem coroa nem glória, a vender comandos da televisão por cabo. É a vida, a lei da vida, do terrível e impiedoso dispositivo ideológico que nos controla a todos.
Eu creio que foi isso que se passou com a blogosfera e o o modo muito rápido como ela funcionou à escala global surpreendeu o próprio sistema que a gerou, abanando, num ápice, estruturas ideológicas muito rígidas, como sejam aquelas que politicamente definem a questão da autoria, que é a pedra basilar de toda a investida das politicas de mercado ( a patente, a marca registada, o direito de autor, o direito de edição, como instrumentos do controle político muito forte sobre as questões da reprodução). Nós somos levados a pensar que a questão da autoria sempre foi tratada da mesma forma. E não é verdade, ou não será verdade assim. O autor foi uma realidade que se instituiu de uma forma absoluta, incontornável a partir da invenção da tipografia e do livro e pode ser entendida como uma medida do mercado para valorizar a produção editorial. E que poderá estar a sofrer, hoje, o mais violento golpe da sua existência com o hipertexto. Que é um texto esburacado, com viagens para fora dele, viagens que completam a autoria do texto. Ora que texto é que cumpre melhor a vocação do hipertexto do que o post? Olhem lá a barra de ferrramentas da edição do vosso blogguer: formatação, cores, indexação, corrector ortográfico, fotos e vídeos (mais elementos hipertextuais) e a corrente das ligações. O próprio título já vem com a sua indispensável ligação. Porque enquanto o Joaquim Paulo Nogueira se senta à sua secretária para escrever textos cuja viabilidade expressiva resultam de expressarem a sua individualidade, a sua marca autoral, aquilo que o JPN escreve é mais ou menos interessante conquanto abra para outros universos (posts, blogues, imagens, vídeos) que não o reducionismo da visão de quem escreve. O respirar está outro desde que faculta a leitura - como se numa banca de blogues - aos títulos dos seus blogues de estimação, de referência.
O Respirar a várias vozes
A primeira pessoa a escrever aqui assustou-se, deixou apenas um texto ou dois e foi construir casa própria: era a M. Depois veio a Lol Van Stein, escrita errante também. A Textura, a Celta e a Intérprete. Foi um período em que tive uma relação complicada com o Respirar, cheguei a sentir que já não era o meu espaço - puro sentimento de posse - criei até um outro, com admissão mais reservada, onde podia estar à vontade com os meus demónios e os meus duendes. Sinto uma enorme gratidão para com todas estas vozes que enriqueceram este espaço mas foi com alívio que me vi só outra vez, percebendo que este respirar é, mais para o mal do que para o bem, um palco para um longo monólogo.
A blogosfera, uma comunidade
Para mim aquilo que dinamiza a blogosfera é o facto de ser uma comunidade. Uma comunidade de leitores e de escritores de posts. Tal como os amigos do café. Ainda não perdi a excitação por fazer um novo amigo na blogosfera e tenho uma renovada atenção aos meus bloggers de estimação, amizades blogosféricas, termo confuso mas que aceito como expressão desta afeição, dessa disponibilidade para me interessar pelo que escrevem pessoas que na sua maioria só por acasos de cruzamentos na vida conheço para além dos seus nicknames: o Luís e a Sofia do Mal, o Luis Novaes Tito da Barbearia, o Bruno do Avatares, a Carla de Elsinore, a Mónica da Linha, o CBS, de La Force des Choses, a Cláudia do Blues Molleskin, a Cristina da Poeira, o Fernando Esteves Pinto, da Escrita Ibérica, a Princesa das Estrelas, a Amelie de Ninguna Parte.
Por outro lado vi chegar a este meio muitos amigos que conheço das bandas da realosfera, e que se misturam, na coluna de blogues d@s amig@s com os amigos virtuais. Esta mistura entre o virtual e o real não me embaraça, não concedo muitas taxas alfandegárias entre um e outro campo. São categorias de percepção, da nossa percepção do mundo às quais valorizamos mais ou menos conforme os nossos engajamentos ideológicos. Eu lembro-me sempre do meu grande amigo Pedro Alpiarça quando numa entrevista para o DN Jovem me dizia que fazer teatro era "brincar, brincar a sério, é é no brincar que está a seriedade da coisa". E por outro lado o ver a forma como a minha relação com amigos de há muitos ou poucos anos se completa através da presença aqui, é também mais um indicador para perceber como é que a blogosfera entrou nas nossas vidas. Gosto de saber que os meus amigos andam por aqui, pela blogosfera e gosto também de a blogos ter trazido uma realosfera perdida num buraco negro da memória como é o caso da Olivesaria, que me tornou ao bairro da minha juventude.
A vida, e a política, para além da blogosfera
Num aspecto a blogosfera desiludiu-me profundamente: eu pensava que também poderia haver aqui uma exponenciação da ideia da política, quer dizer, de um saber comunitário que se elaborasse e - da mesma forma que ao nível da expressão a blogosfera nos traz à luz, e ao negrume, da evidência expressiva - que a blogosfera pudesse servir para que, colectivamente, pensássemos mais e melhor sobre as coisas. Teremos de inventar uma outra coisa para isso: a politosfera, por exemplo. A blogosfera está construída à imagem e semelhança do indíviduo, e embora seja mais que um remake do individualismo pós-moderno é entendível enquanto exponenciação dos universos individuais. Não de cada um como autor mas de cada um enquanto câmara de eco do mundo onde se conecta. É ver o empobrecimento expressivo - tanto que mais vale a pena procurar outros meios de comunicação - quer em termos de temas que em termos de análise, quando algum mega-acontecimento une a vilória global. Há uma profusão de posts em que o mais interessante que eles manifestam é a vontade de estarem dentro, de partilharem, a agenda discursiva global.
Alegação final: Tinha pensado estar um dia inteiro a escrever, pensando sobre tudo o que me aconteceu nestes últimos cinco anos (e algumas destas coisas aconteceram-me não só quando estava online, também online). O escritor de posts que um blogger é existe como qualquer pessoa: não pode suspender a sua vida para escrever um post nem suspender um post para viver a sua vida. The blog must go on, é o lema para este antigo actor. E para além daquilo que com impúdica publicidade escarrapacho aqui há outras coisas que vem, forçosamente ter aqui ao blogue. Dá-me grande alegria saber que durante algum tempo este blogue funcionou como uma rede de amigos à volta com o luto de uma tragédia que lhes brutalizou a vida. Um obrigado a todos os que comigo têm partilhado esta minha ainda aventura de ser em estado de blogger.
quinta-feira, junho 26, 2008
Mais na Blogos de Referência
do écran. Escrita inteligente. Agora já ali ao lado. Onde também está o Tempo das Cerejas. Boas companhias.
terça-feira, junho 17, 2008
Caminhos da Memória
Saído da associação "Não Apaguem A Memória!", um novo blogue, Caminhos da Memória (*). Bastava que tivesse na redacção o Rui Bebiano para ser desde logo uma iniciativa a acompanhar de perto. Se me perguntarem por uma manifestação de internet inteligente, reflexiva, interpelativa respondo de imediato: NON e ZONA NON, e isto é só parte do que Rui Bebiano andou a fazer pela net nos últimos anos. Em pólos diferentes ele e o Paulo Querido são dois nomes que retenho para a minha própria elaboração do que é o modo de ser internauta crítico. Dizia eu, bastava que o RB estivesse por perto para ser iniciativa de se catrapiscar. Mas há mais. Não admira por isso que acabadinho de nascer vá logo para os blogues de referência. E espero que lá possa ler muitos textos como "Quando eu sentei Delgado ao lado de Sandokan" de João Tunes.
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(*) É coisa minha mas tudo o que à alembradura diz respeito atira-me para um dilema a que nem sempre consigo responder sem incomodidade: qual é o significado político do lembrar-me? e a memória o que é: aquilo de que me lembro ou aquilo de que não me esqueço?
quarta-feira, junho 11, 2008
Estante dos blogues: Blogos de Referência
Os novos dispositivos que me permitem ter a lista de actualização dos blogues aqui ao lado (para além dessa delícia de poder perceber há quanto tempo estão feitas as actualizações, gostei de ver no outro dia que o Zé Flávio Pimentel do Maschamba estava do outro lado do mundo a escrever quase ao mesmo momento que eu) fazem com que esteja muito mais atento ao que é escrito economizando tempo. Também por isso, e porque há estações de referência que vou deixando de ver, criei uma nova prateleira para os blogues de referência. É claro que nos blogues de todos os dias se encontram blogues como A Terceira Noite e A Natureza do Mal que são também já uma referência na nossa blogosfera e por isso eles também lá estariam não fosse essa estante, os blogues de referência, ser destinada a blogues com os quais a minha relação primeira não é o afecto.
terça-feira, junho 10, 2008
Poeira dos dias
A Mónica da Linha perguntava-me no outro dia novidades de cá de baixo, o que é que andamos a fazer. Fazemos blogues. Neste caso Poeira dos Dias, da Cristina GS e do Paulo B., que vai direitinho para a estante dos blogues de todos os dias, aqui ao lado.
segunda-feira, junho 09, 2008
Prateleira dos blogues
As novas funcionalidades do blogguer ainda: estou a estender a lista de blogues com actualizações a todos os blogues da lista da direita. Primeiro na estante dos Blogues de todos os dias, depois na de Amig@s na Blogosfera(alguns blogues não disponibilizam a possibilidade de referir as suas actualizações e só aparece o nome). A seguir irá a Blogosfera Activa. Para um blogguer em redução de tempo na blogosfera é uma revolução que só consigo comparar à sensação que tive quando o novo aparelho de tv veio com controlo remoto. Não ter que me levantar para mudar de canal. Poder olhar pelo canto do olho para a lista de blogues e ver num ápice quem anda ou não a cumprir os mínimos da manutenção do blogue.
quinta-feira, junho 05, 2008
Prateleira dos blogues
Para a estante d@s amig@s na blogosfera o Cocó na Fralda, da SMS e Tricotar na Vida da SCS. Também a nova morada da Blimunda foi actualizada. E - entusiasmo de quem remodela a casa - irei estar atento à lista dos links activos/inactivos porque já me apercebi que há aí algumas falhas.
sexta-feira, março 21, 2008
A matéria dos sonhos
"Acordei sobressaltada com um barulho de rua. Não consegui voltar a adormecer. Pus-me a puxar para fora o sonho interrompido. É uma tarefa delicada. A partir da última imagem consigo reconstruir um sonho. É preciso paciência. Ir puxando o sonho delicadamente com uma pinça, roubá-lo às catacumbas escuras onde dormita e trazê-lo para a luz. São animais estranhos, os sonhos. Deitada na cama, vou olhando as imagens com atenção, procurando pormenores e detalhes, cheiros e cores. A certa altura aparece-me a imagem do meu pai. É normal o meu pai aparecer-me nos sonhos. Só que, desta vez, o meu pai é o James Bond. Eu estou apaixonada pelo meu pai. Não é bem paixão. Sinto-me, isso sim, sexualmente atraída pelo meu pai. Este sonho não tem nada de especial. É banal. Por isso mesmo me aborrece. Tem um significado comezinho: projecto nos homens, por causa da pila, do falo, do pénis, a imagem do meu pai. E é por essa razão que sinto culpa durante o acto sexual. Que miséria. Que falta de originalidade. Pelo menos, podia sonhar-me sexualmente atraída pela minha mãe, pelo meu hamster soviético ou pelo abominável António José Seguro. Mas não. Tinha de me sonhar sexualmente atraída pelo meu pai. É triste ser-se em estereótipo psicológico."
Da Ana de Amsterdam.
terça-feira, março 18, 2008
Prateleira dos blogues
quinta-feira, março 06, 2008
O caso do Mundo Perfeito
Então a coisa é assim: às 18h ponho-me a andar, às 18h05 estou no eléctrico 28 e, espero, antes das 18h30 estarei a dar um abraço à Isabela . Pelo caminho cumprimentarei o Luís Carmelo, e se não tiver em momento de recolhimento ainda sou capaz de inventar com o Vasco M. Barreto alguma memória comum. O que eu não vou é faltar à apresentação do livro de Luís Carmelo, A Expressão na Rede - O Caso dos Blogues (Magna Editora) nem ao debate que se lhe seguirá com estes todos e ainda Paulo Gorjão (que modera), Carla Hilário Quevedo, e Pedro Rolo Duarte.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
O mundo perfeito
É o da Isabela. Li de uma enfiada uns trinta e tal posts seguidos. O humor, a lucidez, a ironia, o destravanço na língua e tudo isso com as qualidades de escrita que há quase trinta anos lhe conhecemos, desde aquelas páginas do DN Jovem onde ela arrebatava prémios atrás de prémios.
sexta-feira, dezembro 21, 2007
4 anos de Absorto
Andava eu absorto por outras paragens nem me apercebi de que o Absorto do Eduardo Graça tinha feito 4 anos. Tenho tido oportunidade de ao longo deste 4 anos manifestar o afecto especial que tenho por este blogue e pelo seu autor. Continuaremos a escrever, a pensar, a manifestarmo-nos, Eduardo.
terça-feira, novembro 06, 2007
A Linha do Norte
Desde miúdo que o meu lugar de viagem é a linha do norte. E sempre de Santa Apolónia para Campanhã, para baixo e para cima. Passando por Coimbra B, onde por vezes me deixava ficar, saboreando a ideia de Mondego que subsiste naquele rio. Aprecio as noites tranquilas do Hotel Astória, a Praça da República, o Gil Vicente. Quando surgiu por isso a Linha do Norte eu tive logo uma predisposição afectiva para este blogue. Ao longo do tempo fui construindo uma amizade com a Mónica, e um dia destapei, com surpresa, debaixo da identidade de H em Santa Apolónia, uma antiga companheira de escrita no DN Jovem. O David não o conhecia mas sempre senti que ficava ali tão bem, entre Helena e a Mónica. Hoje modificaram os nomes e deixaram cair as siglas. Eu sempre gostei muito das siglas atreladas, acasaladas aos lugares. Via atrás delas os nomes deles é certo, mas mais do que isso, via o nome e o lugar. M em Campanhã, H em Sta Apolónia, ou D em Coimbra B, eram para mim nomes inteiros, para serem ditos de uma só vez, com a magia que o lugar empresta àquele que o habita. Para mim nunca foram a M, a H ou o D, que têm nomes grandes, bonitos e que são próprios para serem soletrados de uma só vez. Foram o nome e o lugar. E serão sempre para mim essa ideia magnífica que organizou a construção do blogue, um dos meus lugares de todos os dias. E onde voltarei sempre, muito senhor que sou desta minha blogosfera dos afectos. Mesmo que agora possa ver, a olho nu, aquilo que tinha por um segredo meu.
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