Mostrar mensagens com a etiqueta Memória. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Memória. Mostrar todas as mensagens

domingo, janeiro 10, 2010

A vida dos simples

É a fotografia mais antiga que tenho do meu pai, uma descoberta do último natal. Não são coincidentes os testemunhos sobre o momento que retratam. Teria sido ou no dia em que o meu avô morreu, tinha o meu pai treze anos, ou no dia em que ele entrou para o seminário. É dificil dizer, não só porque nos dois casos o luto carregado não permite distinguir momentos, era o único fato que o meu pai tinha, também, como a sua história veio a mostrar, a extensão da sua expressão de pesar adequava-se, tal como o fato, tanto a um como a outro momento.

sexta-feira, maio 15, 2009

Extra- corrente: se bem me lembro?

Anda por aí uma corrente de bloga sobre os momentos de televisão de que nos lembramos. Não gosto de correntes, embora as de escrita me agradem, mas o tema provoca-me e por isso aproveito-a para mim. Vai assim, sem ordem que não aquele em que me surgiram na memória: Antes do 25 de Abril:
Transmissão directa do enterro do Salazar Conversas em família, de Marcelo Caetano Notícias sobre a guerra do Vietname O Fugitivo Daniel Boone Skippy Lassie Zip Zip Poesia com João Villaret Teatro na televisão Se bem me lembro Bonanza Mensagens dos soldados em África Folclore com Pedro Homem de Melo TV Rural Casei com uma Feiticeira O Santo OO7 Agente especial Descida do homem na lua Depois do 25 de Abril:
o 25 de Abril Manifestação de apoio ao Pinheiro de Azevedo 1º Discurso do Spínola Morte de um caixeiro viajante (teatro) Português, escritor, 45 anos de idade, teatro Jogos Olimpicos de Munique Visita da Cornélia Debate político entre Soares e Cunhal Carlos Cruz Entrevistas Desencadear da Guerra do Golfo, emissão do José Rodrigues dos Santos Praça Pública Casos de Polícia Arte de ser Português do Alberto Pimenta Cinema de animação do Vasco Granja Desenhos animados dos Filinstones, Mr. Magoo e Pantera Cor de Rosa Julio César, com Marlon Brando (cinema) -

sexta-feira, junho 20, 2008

Victor Wengorovius - a vida vísivel

As nossas vidas seriam mais vidas se fossêmos mais vezes aos jardins - nem que seja aos da nossa memória - povoá-los com o ritual da evocação. Evocar não será recordar. Foi um encontro de fim de tarde de verão como o deveriam ser todos os encontros. Havia verde, havia silêncio e houve também quem o rompesse. Havia um círculo mas fora do circulo havia outro e ainda outro. E havia gente que tinha ali ido só para sorrir em comum ao evocarem um de entre eles. Um pedaço da história ao vivo: a ditadura, as prisões, a revolta dos estudantes, a resistência. Estava ali o poder, governo, oposição, esquerdas disto, esquerdas daquilo, sindicalistas, juristas, deputados, intelectuais, mas não estava nada disso. O que de mais forte vi, foi uma consciência de que houve um momento em que a nossa vida podia ser outra coisa e que esse momento é quase agora outra vez, de outra maneira, com outras pessoas, mas quase agora outra vez. E que para o reconhecermos precisamos de voltar aos fins de tarde no jardim, ao desatar dos laços da gravata, ao deslaçar dos nós que são aliás a nossa própria vida, de tal forma que os deslaçamos com novos nós e um dia a morte será isso, os laços que persistem. Só me lembro que era tarde, ao fim da tarde, estava calor, sentei-me na relva, a olhar todos aqueles que estavam ali para estar com o seu amigo Vitor, soube, o da voz cheia, o que nunca se calava. Na esquina do outro lado as mesas estavam postas para o jogo, as pessoas postas para as mesas mas a cinquenta metros ainda estávamos num outro país.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Elisa
conta esta história deliciosa. Também eu fui sensível à força desta voz canora. Tinha doze anos, uma túnica castanha e o Duarte ofereceu-me um pin com estas cores de amarelo tórrido com as letras vermelhas, MRPP que ficava tão bem naquela farpela. Esqueci-me de colocar isto no meu curriculum. Fui jornalista com doze anos de idade. Fiz uma edição de discursos que transcrevi do grande educador do proletariado português. Utilizei a Princess, teclado hcesar, do meu pai. Sobre o comunismo, sobre a descolonização, sobre o proletariado, sobre o fim da exploração. Na última página tinha notícias do MIAP . O MIAP era o movimento independente de apoio às porteiras que ainda hoje está assinalado, a risco de canivete, na entrada do número 6, antigo 87. Tinha começado por ser o Movimento Independente Anti-Porteiras, que se dedicava à luta armada, com acções de sabotagem do carro do marido da porteira do 88, com batatas, com tomates, mas que não aguentara mais do que dois dias porque um dia o pai do Luís Costa, que era militante do PC, desceu cá baixo e perguntou se achávamos muito digno andarmos a prejudicar uma mulher simples, trabalhadora. Olhámos para a nossa cara de pequeno burgueses, e em uníssono mudámos a designação e o comportamento. Era desta última fase heróica, de exaltação operária que rezava o meu boletim. O MIAP teve um fim triste, entregue sem dúvida a meritórias acções cívicas, mas também, chatas, sensaboronas, sem nenhuma aventura revolucionária. O movimento acabou tempos depois por ser extinto, por tédio. Quanto a mim, a mãe do Duarte comprou-me este boletim por sete escudos e quinhentos e eu, por uma tarde, fui um empresário de sucesso na comunicação social.