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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sobre começos e fins

A esta altura todos já devem estar sabendo que a Gourmet vai sair do mercado - novembro será a última edição da revista, publicada desde 1941. A crise foi o grande fator por trás desta radical decisão da editora Condé Nast, que também publica a Bon Appétit (esta sim, será poupada, já que grande parte de suas páginas são publicidades).

Eu já publiquei aqui dezenas de receitas reproduzidas da Gourmet, que para mim sempre foi a revista mais séria e bonita do mercado. Se eu já estava sentindo falta dela aqui no Brasil, onde só chega importada, agora então... Quem acompanha o twitter da editora Ruch Reichl sabe também que pelo menos o site da Gourmet será mantido e expandido com conteúdo interativo e curiosidades sobre edições passadas.

Mas nem tudo são notícias ruins no mundo das edições culinárias. Passando por uma banca em São Paulo me deparei com o primeiro número de uma revista novíssima da editora Globo, chamada Casa e Comida, focada principalmente em receber bem. A revista conta com a celebrada chef Carla Pernambuco entre as colunistas e tem um projeto editorial bem interessante.


Ainda não testei nenhuma das receitas propostas, mas fiquei com vontade de fazê-lo o mais rápido possível, tão bonitas são as fotos. Espero que o mercado editorial brasileiro seja mais gentil do que o americano, e que a Casa e Comida tenha uma vida longa o suficiente para se estabelecer.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Julie & Julia: enfim, o filme

Foto montagem: abc.com

Acho que todos os foodies do universo estavam - ou ainda estão, dependendo do hemisfério em que se encontrem - esperando pelo lançamento do filme Julie & Julia com a mesma ansiedade que eu. E, claro, todos ficarão igualmente tentados a escrever sobre o filme porque, bem, o filme é muito bom, e não só pelas cenas envolvendo comida.

Primeiro, acredito que todos os blogueiros irão se identificar em algum momento com os percalços sofridos pela Julie Powell no decorrer do seu projeto de reproduzir todas as receitas da bíblia Mastering the Art of French Cooking, co-escrito por Julia Child. As cenas da moça preparando pratos sofisticados em sua micro cozinha novaiorquina são impagáveis - e prova de que não é preciso mais do que uma boa panela e muita força de vontade para cozinhar maravilhas.

Além disso, a história de Julie e sua salvação culinária rendeu um bom enredo de comédia romântica, com direito às previsíveis reviravoltas do gênero - que, diga-se de passagem, não sei se estavam no livro original pois este eu não li, uma vez que não queria nenhuma influência externa na minha própria relação imaginária com a Julia (ciumenta, eu? imagina).

Então, como era de se esperar, para mim o que fez o filme brilhar mesmo foi a história de Julia e seus anos vividos na França, que são narrados paralelamente ao enredo de Julie nos tempos modernos. Fiquei muito contente ao constatar que a história paralela ganhou tanto destaque no filme quanto a principal, pois para mim ela é a mais interessante. Eu já cansei de falar por aqui sobre Julia Child e o livro de memórias dela, My Life in France, no qual o filme também foi baseado. O engraçado é que eu me emocionei no filme nas mesmíssimas partes que me fizeram chorar no livro, como se estivesse vendo uma encenação dos eventos que antes só existiam na minha imaginação.

Meryl Streep faz uma interpretação tão boa que a partir de agora duas imagens me virão à cabeça quando eu pensar em Julia Child: a dela e a da Julia de verdade nos programas de TV. O filme faz uma belíssima homenagem à uma mulher de personalidade fascinante, tanto na perseverança de sua carreira como na bela história de amor com o marido. Tenho certeza que aqueles que não a conheciam irão se apaixonar à primeira vista, e a eles fica a dica dos livros - aliás, já ando lendo notícias de que as vendas do Mastering the Art of French Cooking estão disparando, o que me deixa muito feliz.

domingo, 21 de junho de 2009

Kitchen Stories


Foi o título deste simpático filme norueguês que me seduziu, mas terminei gostando dele por assuntos não somente culinários.

O enredo fala sobre uma pesquisa antropológica conduzida por pesquisadores suecos para observar e aprimorar a famosa eficiência das donas de casa norueguesas - e descobriram que os saracoteios diários de uma típica dona de casa na cozinha equivalem a uma ida à pé da Suécia até o Congo. O filme narra então o que acontece quando os cientistas decidem aplicar a mesma pesquisa em homens solteiros.


O detalhe é que, para comprovar a eficiência da pesquisa, o cientista não pode interferir na rotina da pessoa observada, ou seja, nada de falar, comer ou se movimentar enquanto o outro faz suas coisas na cozinha. A situação, claro, é absurda - o cientista observando do seu pedestal "neutro" enquanto o outro homem solitário faz café e fuma seu cachimbo em total silêncio -, mas eu não conseguia parar de pensar em como seria engraçado - e constrangedor - ter alguém observando as trapalhadas que eu faço na minha cozinha.

No fim das contas pouco se cozinha no filme, mas ele me deixou pensando sobre as idiossincrasias da ciência humana, sobre como é (im)possível compreender uma coisa tão misteriosa quanto o comportamento humano, assim, apenas observando. Mas por outro lado é isso o que fazemos o tempo todo, observamos um ao outro, comparamos hábitos e tentamos entender mais um pouco daquilo que nos é diferente.

Kitchen Stories (Salmer fra kjøkkenet), direção de Bent Hamer, Noruega, 2003.

domingo, 7 de junho de 2009

Acarajé made in Montreal? Oui!


Os baianos que se acumulam em Montreal - com dois casais de amigos que chegaram recentemente - ouviram falar de um lugar que supostamente vendia acarajé autêntico. Mas seria mesmo cem por cento verdadeiro? Eu fui uma das que duvidaram, afinal só conseguir os ingredientes já seria complicado. Mas fomos lá para conferir e vimos que eram, de fato, autênticos, feitos por um brasileiro, fritos no azeite de dendê e servidos com vatapá.

Só os camarões secos que ele preferiu evitar, talvez para agradar ao paladar internacional, trocando por frescos. Se quisesse usar os secos era só dar um pulo em Chinatown. Aliás, qualquer tentativa de reproduzir a culinária brasileira por aqui leva você a uma peregrinação multinacional de lojinhas e mercados portugueses, asiáticos e africanos. Assim se vê como a comida é um troço global.

Sobre os acarajés eu não posso emitir opinião, pois não sou nenhuma especialista no assunto e, para ser sincera, nem gosto do "original", ou seja, aquele servido pelas mãos da baiana na beira da praia. Mas os baianos aprovaram, dizendo que o bolinho não era lá muito crocante mas o vatapá estava muito gostoso. De qualquer modo disseram que serviu para matar a saudade.

Os acarajés estão sendo servidos no restaurante Lelê da Cuca, do simpático senhor Ed. Fica na Rua Marie-Anne Est, número 70, em Montreal.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

The thing about wine

"Wine is a living liquid containing no preservatives. Its life cycle comprises youth, maturity, old age, and death. When not treated with reasonable respect it will sicken and die." - Julia Child




quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Copia






Nossa primeira parada antes de seguir para as vinícolas de Napa Valley foi no Copia - American Center for Wine, Food and the Arts, uma espécie de museu que informa o visitante sobre a rica cultura gastronômica dessa região dos Estados Unidos. Além de um jardim com variados legumes e frutas, o museu tem ainda estações de degustação de queijos e vinhos e uma parte interativa onde você descobre mais sobre a origem dos alimentos, a estreita relação entre paladar e memória (e onde descobri que meu olfato não é lá essas coisas).

Como não poderia deixar de ser, fui logo atraída pelo restaurante que funciona dentro do instituto, chamado "Julia's Kitchen" em homenagem à musa Julia Child, uma das figuras que incentivaram a fundação do Copia. Infelizmente, como era de manhã o restaurante estava fechado e não pude ver dentro (onde ficam expostas panelas e outros acessórios da cozinha de JC) nem ficar para almoçar, mas já fiquei emocionada só de passar pela porta.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Hollywood cocktails

Confesso que comprei o livro mais por causa das fotos - takes lindíssimos dos filmes dos anos 50 que eu adoro - do que dos drinks. Mas, por outro lado, o que seriam dos clássicos do cinema norte-americano sem a famosa hora do cocktail? Pense bem: quase todo filme daquela época tem pelo menos uma cena em que alguém beberica, prepara ou fala sobre alguma bebida, com mais naturalidade e menos frescura do que hoje em dia.

O livro "Hollywood Cocktails", de Tobias Steed, é recheado de fotos em preto e branco de filmes inesquecíveis e receitas para drinks igualmente classudos - dry martini, rusty nail, brandy alexander, shirley temple, bloody mary. Cada cocktail vem com a receita e uma explicação: ou eles foram usados no filme, em alguma cena específica, ou foram inspirados por ele ou eram as bebibas preferidas das estrelas da época. Tudo o que você precisa saber para servir um drink ao estilo Hollywoodiano.





quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Bottle Shock


O filme é baseado na história real do famoso blind tasting ocorrido em 1976, quando os vinhos da Califórnia foram eleitos os melhores do mundo por especialistas franceses de nariz empinado. Que a Califórnia - e outros integrantes do chamado Novo Mundo - produzem vinhos que rivalizam com os melhores franceses hoje é lugar-comum, mas na época o resultado do tasting deu o que falar.

Infelizmente, o diretor não conseguiu traduzir a interessante história em filme. Mesmo para quem, como eu, está com viagem marcada para a Califórnia para daqui a dois meses e anda respirando vinhos californianos, o filme deixa a desejar. Como acontece com muitos filmes baseados em histórias verídicas, o roteiro terminou simplificando demais as coisas, formatando personagens complexos em simples heróis e vilões. E o trabalho de câmera, embora caprichado, podia ter sido bem mais, hum, apetitoso.

Eu esperava sair da sessão com aquela vontade implacável de tomar um vinho californiano, mas não rolou. Neste quesito, ainda fico com o clássico Sideways, que consegue fazer isso mesmo quando o vinho é apenas o pano de fundo para a história.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Como comer menos carne

Seja por razões econômicas, éticas, de saúde, ecológicas, nutricionais ou kármicas, hoje em dia a idéia de comer menos carne é largamente aceita e divulgada, mas fazer isso não é tão fácil quanto parece. Quase todas as nossas refeições são organizadas em torno da carne, de modo que às vezes pode ser mais difícil cortar a quantidade de carne do cardápio do que eliminá-la de uma vez.

Esta semana o Mark Bittman, colunista do New York Times, dá algumas dicas práticas de como comer menos carne sem atrapalhar a vida das pessoas ao seu redor e sem mudar completamente seus hábitos alimentares. Como eu estou surfando essa onda ultimamente, achei as dicas muito interessantes. Segue um resumo do que ele diz:

1. Esqueça o mito da proteína. Se você comer carne, digamos, dia sim dia não, isso não vai te deixar com déficit de proteínas. Sem falar que alimentos variados, como legumes e ovos, também contém proteínas que nosso corpo precisa.

2. Compre menos carne. Segundo regulações americanas, uma porção de carne equivale a 120 gramas (4 ounces), mas nós tendemos a comer o dobro disso facilmente. Os norte-americanos comem uma média de meio quilo de carne por dia, o que é muito (em algumas regiões do Brasil imagino que essa quantidade deva ser ainda maior).

3. Use carne como condimento, não como foco do prato. Muitos métodos tradicionais de cozinhar usam carne como condimento, misturada a vegetais ou molhos (pense em curry, arroz con pollo, couscous marroquino, macarrão bolognese). Dessa maneira, a carne é vista como um "treat", um presente que só se tem de vez em quando, e não algo dado como garantido.

4. Tire a carne do centro do prato. Concentre suas atenções nos acompanhamentos, e sirva porções menores de carne. Pense "vegetais grelhados com carne" ao invés de "carne grelhada com vegetais": simplesmente invertendo essa proporção você já está a caminho de uma alimentação mais balanceada, e não precisa se aventurar no mundo dos tofus e carnes de soja, se essa não é a sua praia.

5. Compre mais vegetais e aprenda a cozinhá-los. Muita gente se volta para a carne como um ponto de apoio na hora que bate aquela dúvida: o que vamos comer no jantar? Se a sua cozinha estiver sempre cheia de vegetais e você souber maneiras de deixá-los tão deliciosos quanto um filézão (sim, isso é possível), essa dúvida ocorrerá mais raramente até desaparecer. Também é uma boa idéia planejar suas refeições com antecedência levando isso em consideração - por exemplo, se você comeu carne (branca ou vermelha) no almoço, planeje um jantar vegetariano. Vale até criar regras, como "sextas-feiras vegetarianas" ou coisa do tipo.

6. Torne alimentos vegetarianos mais práticos. Aproveite o forno e asse vários vegetais que se comportam bem na geladeira por alguns dias, e você terá opções variadas para uma salada a qualquer hora. Feijões e lentilhas cozidos também ficam bem na geladeira para uma refeição rápida. Estoque sua despensa com couscous, arroz integral e macarrões.

7. Olhe para os menus nos restaurantes de uma maneira diferente. Tudo bem que se você vai a uma steakhouse é porque você quer comer um belo steak, mas deixe isso para ocasiões especiais. Em outros casos, não tenha medo de pedir uma salada ou dois pratos de vegetais como refeição. Não pense que isso vai diminuir sua experiência de comer fora, porque não vai.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Agricultura local na mídia

Foram duas ocorrências na mesma semana, o que me fez pensar que alguém, lá de dentro da mega-indústria do entretenimento, está tentando passar mensagens sutis sobre a importância da agricultura local, orgânica e sustentável. O primeiro foi no seriado Brothers & Sisters, que eu adoro e assisto religiosamente todo domingo. No último episódio Scotty, que é chef em treinamento, falou para o namorado, Kevin Walker, trocar os sacos plásticos pela sacola de lona. Lá pras tantas Kevin liga para Scotty e pergunta: "pelo menos você comeu algo orgânico hoje? Eu só tive tempo de comer um pretzel". Fofo, né?

A segunda ocorrência eu não vi, mas fiquei sabendo que foi ainda mais notável. Foi no seriado Law & Order: SVU, no qual Robin Williams fez uma participação especial. Ao ser preso como suspeito de um crime ocorrido num restaurante de fast-food, Robin diz que não poderia ter sido ele pois ele é um "locavore": "eu só como comida orgânica e sazonal criada por agricultores locais. O agrobusiness quer que a gente coma tomates verdes vindos do Chile em janeiro. Eu espero e como os meus perfeitamente maduros vindos de Jersey em julho".

Eu sei que tudo isso pode ter sido mera coincidência, ou - o mais provável - uma estratégia de marketing já que agora ser ecológico está na moda. Pode ser. Mas ouvir esta frase, com estas palavras, em pleno horário nobre da TV norte-americana me deixou extremamente feliz. Talvez seja um sinal de que as coisas estejam mesmo começando a mudar.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Comendo em Paris


O filme não era nada de maravilhoso - Ingrid Bergman presa num triângulo amoroso com um francês galinha (quase um pleonasmo, pelo menos no cinema) e um moço mais jovem (vivido por Anthony Perkins, que depois de Psicose sempre terá um ar disturbing pra mim). Mas, como o filme se passava em Paris, claro que comida tinha um papel importantíssimo. Sim, porque mesmo os corações despedaçados têm um apetite... Então entre uma discussão e outra, "Vamos sair para jantar? Sim, aonde? Que tal o Escargot? Será que conseguimos uma mesa sem reserva?". Impressionou-me o tempo gasto com detalhes aparentemente dispensáveis deste tipo, e fiquei me perguntando se os nomes dos restaurantes não seriam mesmo verídicos. É capaz de serem. E eles sentam no restaurante, olham cardápio, pedem caviar e blinis, chamam o sommelier e assim por diante. Quando o Tony Perkins finalmente seduz a Ingrid Bergman, não tem cena de sexo, mas tem ele fazendo um sanduíche depois e perguntando "cadê a manteiga"...nada mais francês.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Em casa com o chef

Tenho reparado que a mais nova moda dos programas culinários na TV é de mostrar o chef em casa, só que de um jeito cada vez mais íntimo (ou invasivo, em alguns casos). Deve ter havido alguma pesquisa de opinião recente mostrando que o povo queria mesmo era ver seu celebrity-chef favorito no conforto do seu lar, vendo como suas receitas são mesmo fáceis e aproveitando para dar uma olhadinha na sua intimidade, mesmo que seja falsa. Quase todo programa agora termina com uma festinha ou um jantar romântico, e eu fico cá só pensando tá, tudo bem, mas quem são essas pessoas? Será que o marido da Ina Garten ou da Ana Olson (celebrity-chef canadense) ensaiam antes o que vão dizer? Será que os amigos da Nigella ou da Giada são mesmo amigos, ou são atores contratados? E se forem mesmo amigos, como deve ser engraçado ser convidado para um jantarzinho para seis e mais uma equipe de televisão! Eu é que não ia querer embarcar numa dessas... Tudo bem que este tipo de programa deixa o espectador mais à vontade para tentar as receitas (bem, se fulano fez isso em casa, eu também posso...), passa uma idéia mais natural e espontânea e ainda acata os desejos voyerísticos de todos nós, mas daí a dedicar cinco preciosos minutos de televisão ao maridão chegando em casa com flores (eles sempre trazem flores, estes maridos cenográficos), trocando de roupa e sentando para a janta, com direito a provar e comentar a comida, acho exagero. Temos que lembrar que, em televisão, tudo é falso, então eu tendo a preferir os programas que pelo menos tentam minimizar a falsidade em nome da simplicidade e clareza das receitas (até hoje não vi as pimpolhas do Jamie Oliver correndo pelo jardim..).

segunda-feira, 24 de março de 2008

Michael Pollan em ação


Quem está curioso para ouvir a voz do Michael Pollan ou quer saber mais informações sobre o que ele tem a dizer, o youtube está cheio de videos com as palestras e entrevistas dele.

terça-feira, 18 de março de 2008

The Darjeeling Limited



Quando vi este chá me lembrei imediatamente de um filme ótimo que vi há pouco tempo, e comprei sem pestanejar. Adoro o estilo e o universo narrativo do Wes Anderson e este filme, além de engraçado, oferece uma visão bem peculiar da Índia. O Darjeeling chá, uma variedade de chá preto mais suave que o tradicional, também estava muito bom.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Into the wild


Acabo de ver um filme belíssimo dirigido pelo Sean Penn chamado Into the Wild (obrigada, Dani, pela dica). É baseado na história real de um jovem norte-americano, Christopher McCandless, que, depois de se formar para agradar aos pais, abandona tudo para ir morar na selva. Ele dá todo o dinheiro que tem para caridade, queima seus documentos, abandona o carro e cai na estrada, numa aventura que o leva cada vez mais para o lado "selvagem" da vida, ou seja, o mais longe possível da civilização.

O filme é maravilhoso e me deu arrepios em alguns momentos. O que justifica falar dele por aqui é justamente a relação do protagonista com a natureza. As cenas mais impressionantes são as que o mostram completamente sozinho, tendo que se virar para comer catando frutas silvestres e caçando pequenos animais. O filme parece ter uma preocupação particular com isso, pois o mostra trabalhando num Burger King para juntar um dinheirinho, e também numa fazenda de (Michael Pollan ia gostar) milho. A cena na qual ele caça um alce e fica sem saber o que fazer depois me emocionou muito, e me fez lembrar do Dilema do Onívoro.

Acho que o que atraiu McCandless para esta aventura, além de seu espírito rebelde, foi o mistério que este estado natural de vida exerce sobre a gente. Tem uma passagem no In Defense of Food que diz que nossa relação com os animais e com a natureza é inteiramente baseada neste mistério, pois são criaturas e coisas que não criamos e as quais não controlamos. O fato deles serem independentes e às vezes contrários ao que a gente chama de civilização - e, ainda assim, dependemos deles para viver - nos intriga de maneira sedutora. É preciso manter em mente esse mistério quando comemos algo que vem da natureza, e acho que o filme transmite isso de maneira belíssima.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Comida para ver o Oscar

O site Epicurious criou um especial com menus inspirados nos filmes que estão concorrendo ao Oscar deste ano. De cara já gostei da combinação de duas coisas que ocupam uns 80% da minha vida: cinema e comida. Entretanto, não vi lá muita relação entre as comidas, elaboradíssimas, e os filmes nos quais elas supostamente foram inspiradas (o menu de "Juno", por exemplo, deveria ter um macaroni & cheese e outras junk-foods em homenagem aos adolescentes - e porque Juno chama o namoradinho de "cheese" do macaroni dela).

Acho que um menu para assistir ao Oscar deveria ser algo mais simples e prático para se beliscar vendo a cerimônia na TV, que, vamos lembrar, é bem longa. Eu, que já dei muito plantão sozinha na redação do jornal até as 3 da manhã para cobrir a cerimônia, vou ficar em casa de pijamas, torcer para o maravilhoso "There Will Be Blood" e fazer uma coisa bem simples, caseira e stress-free: pizza. Se bem que agora me animei para pensar em recheios inspirados nos filmes... alguém tem alguma sugestão?

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Eu não sou a única

Depois que eu expliquei porque eu não compro vinagrete pronta, o Mark Bittman conta em sua coluna no New York Times que ele também não.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Beleza e destruição

"We butcher, grind, chop, grate, mince and liquefy raw ingredients, breaking down formerly living things so that we might recombine them in new, more cultivated, forms.(...) In 'The Hungry Soul' Leon Kass calls this the great paradox of eating: 'that to preserve their life and form living things necessarily destroy life and form'. If there is any shame in this destruction, only we humans seem to feel it, and then only on occasion. But cooking doesn't only distance us from our destructiveness, turning the pile of blood and guts into a savory salami, it also simbolically redeems it, making good our karma debts: look what good, what beauty, can come of this! Putting a great dish on the table is our way of celebrating the wonders of form we humans can create from this matter - this quantity of sacrificed life - just before the body takes its first destructive bite."

Trecho do Dilema do Onívoro, de Michael Pollan, que me levou às lágrimas e o qual copiei num pedaço de papel e grudei na minha cozinha, como uma espécie de oração.

De fato, como disse a Fer um dia desses, depois de ler este livro sua vida muda um pouco. E todo mundo devia lê-lo, mesmo sabendo que, na prática, quem vai ler é quem já se preocupa com alimentação e quer ter certeza de que está fazendo a coisa certa, num exercício válido, mas meio egoísta, de reafirmação. Mas quem deveria mesmo lê-lo são as outras pessoas, aquelas que raramente param para pensar de onde vem esta comida que estamos colocando na boca ou nos carrinhos de mercado todos os dias. E porque é mesmo que nos preocupamos tão pouco com uma coisa que é tão básica e fundamental?

Pollan não é um guru da alimentação natureba. Ele é jornalista, e tenta manter a imparcialidade e o olho clínico com a melhor das intenções. Para além da crítica da industrialização da agricultura (até mesmo a orgânica) e da cultura fast-food, ele promove uma reflexão filosófica sobre a nossa relação com a comida, com os bichos e plantas que nos sustentam. O capítulo final, sobre a refeição que ele fez só de coisas que plantou, colheu, caçou, catou e cozinhou, é absolutamente lindo.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O melhor, o pior e o mais ou menos da Food Network (Canadá)


A Food Network é um assunto meio tabu entre os blogs de culinária anglófonos, porque (quase) todo mundo assiste, só que (quase) todo mundo mete o pau. É aquele tipo da coisa que todo mundo ama odiar, sabe?

Os mais entendedores criticam o lado didático da emissora, que insiste nas mesmas técnicas e receitas básicas o tempo todo; realmente, deve ser muito bê-a-bá para quem é profissional (ou quase). Outros gostam mesmo é de fuxicar sobre a aparência ou a vida íntima dos chefs-celebridade, o que me parece levar sempre uma pontinha de inveja – quanto mais pessoal e baixaria for a critica, mais inveja. É verdade que os celebrity-chefs jamais terão o mesmo tipo de respeito que os chefs “de verdade” no mundinho gastronômico, mas eu considero que são duas profissões diferentes, e chefs que aparecem na televisão têm que ter um pouco de star-power (se os chefs do FN tem esse carisma todo, aí já é outra questão...).

Alguns poucos, na maioria os que se consideram amadores, confessam que assistem mesmo e gostam de algumas coisas, e não de outras. Eu me encaixo nessa última categoria. Já disse aqui antes que aprendi muita coisa vendo este canal. Sim, tem muita besteira, mas também tem muitas dicas importantes e receitas interessantíssimas. Aliás, para qualquer pessoa que gosta de comida, um canal com programas de culinária 24h no ar a princípio já é legal. Eu prefiro assistir o FN, mesmo que seja um programa meia-boca, do que ver outra besteira qualquer na TV. Mas esta é apenas a minha opinião.

Aqui no Canadá a programação é ligeiramente diferente, pois existem alguns programas locais que não passam nos EUA (e vice-versa). Resolvi comentar o que mais e o que menos gosto do canal, mesmo sabendo que isso pode não interessar a muita gente. Se bem que a maioria dos chefs-celebridades que circulam pela minha tevê são os mesmos que, provavelmente, circulam pela sua também. Então vamos lá.

O pior

Paula’s Home Cooking
Taí um dos poucos programas do FN que faço questão de passar longe. Nem estou falando da voz irritante com aquele sotaque sulista norte-americano, nem das risadas histéricas, nem do cabelo assustador da apresentadora. Estou falando mesmo é das receitas desta senhora que deveria representar a “típica” dona-de-casa americana. Nunca vi uma comida tão gordurosa, tão pouco saudável e tão pouco apetitosa – tudo o que ela faz leva ingredientes bizarros como shortening, queijo processado e que tais. Na minha opinião, este programa promove um desserviço à sociedade e devia ser proibido.

Rachel Ray’s 30-minute meals
Outro programa cujas receitas simplesmente não me apetecem. Em trinta minutos qualquer pessoa é capaz de fazer comida muito melhor do que a dela, que quase sempre consiste em picar um monte de cebolas, abrir uma lata de tomates e jogar um monte de carne numa panela. Não vou nem entrar no mérito da chatice da RR, que virou uma celebridade na televisão americana, apesar de ninguém gostar dela. É muito chato ter que ouvir aquele carisma forçado, a invenção gratuita de palavras (acho que o tal do E.V.O.O. – extra virgin olive oil entrou até para os dicionários!), e a falta total de técnica. Tudo bem que ela não é chef treinada, mas pelo tempo que ela cozinha já devia ter aprendido a manusear melhor uma faca.

O melhor

Jamie at Home
Eu tenho um problema com o Jamie Oliver. Acho ele meio antipático, um tanto megalomaníaco, e super-exposto na mídia. Mas uma coisa eu não posso negar: ele AMA comida, e está fazendo esforços legítimos para passar um pouco desse amor para o resto do mundo. Dos mil e um programas nos quais ele aparece atualmente, o Jamie at Home é de longe o melhor. Do seu quintal ele dá dicas sobre como plantar ervas e vegetais, faz receitas maravilhosas que parecem facílimas, e às vezes até comanda um churrascão improvisado. Tudo bem que algumas receitas parecem improvisadas demais (mão suja de terra nos ingredientes!?!), mas isso dá para abstrair numa boa.

Barefoot Contessa
Eu já gostava do programa e das receitas clássicas de Ina Garten, mas depois que eu soube que ela comandava o departamento de energia nuclear da Casa Branca, e largou tudo para abrir uma loja de produtos de comer, me apaixonei. Ela é carismática sem ser chata, as receitas são clássicos que todo mundo deveria ter no repertório, e aquela casa dela nos Hamptons é muito chique. Meu marido gosta de brincar dizendo que ele é meu Jeffrey, o maridão gente boa que aparece no final, sempre sorridente, para saborear as guloseimas da Contessa, e eu não me incomodo de tê-los como casal ideal para daqui a alguns anos.

Everyday Italian
Quando eu vi a patricinha italiana Giada de Laurentiis na cozinha pela primeira vez, logo pensei que não devia ser lá muito interessante. Mas ela me conquistou aos poucos com receitas simples, saborosas, e um foco sempre especial para as sobremesas (acho que ela ama chocolate tanto quanto eu). Tem coisas no programa dela que eu não gosto, como o lado étnico meio fake (ela é tão italiana quanto os Sopranos), mas nenhuma receita dela jamais me deixou na mão.

Os mais ou menos

Nigella Feasts
Com Nigella aconteceu o contrário de Giada de Lantentiis: eu tentei, de toda maneira, gostar dela, mas não teve jeito. Admiro muitíssimo o modo como ela descreve os ingredientes, ressaltando a beleza e a sensualidade das cores, formas e aromas, mas detesto as receitas. Muito raramente tenho vontade de fazer algo que ela faz, e quando tentei confesso que me decepcionei com o resultado. Nigella é vista como defensora da comida verdadeira por não ser magérrima e comer de tudo, mas eu já a ouvi dizendo que sua filosofia é “se tem gosto bom, eu como”. E eu definitivamente não concordo com isso.

Chef at Home
Este é um dos programas canadenses que provavelmente não são exibidos nos EUA. O apresentador, Michael Smith, já foi chef profissional dos melhores e, hoje em dia, cozinha “de casa” para a família, mostrando como todo cozinheiro amador pode incrementar a janta do dia-a-dia com algumas técnicas básicas. Adoro a premissa do programa, e gosto ainda mais de reconhecer as marcas dos ingredientes na telinha, mas falta algo para este programa ser realmente bom. Michael Smith pode ser um excelente cozinheiro, mas suas habilidades em frente à câmera são limitadíssimas, o que me deixa um pouco constrangida.

Não-diretamente relacionado a receitas, tem dois programas que considero geniais no FN Canadá. Um deles é o Food Jammers, onde três rapazes inventam maneiras pouquíssimo convencionais de matar a larica -quer dizer, a fome. Além de ser extremamente engraçado, este programa é bem criativo e diferente dos programas sobre comida e ciência que já existem por aí (tipo o Good Eats, com Alton Brown, que lembra o Mundo de Beakman que eu via quando era criança). O segundo é Glutton for Punishment, onde Bob Blummer se joga de cabeça no mundo das competições insanas de comida. Enquanto ele brinca de domar abelhas e comer japapeños, a gente vai aprendendo sobre as loucuras que existem nesse mundo culinário.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Minha mãe é uma sereia

Eu sempre gostei muito desse filme (Mermaids, 1990) com Cher, Winona Ryder e Christina Ricci (quando esta era apenas uma pirralha). Cher interpreta uma mulher meio maluquete dos anos 60, mãe solteira de uma adolescente obcecada com coisas de Igreja e uma menininha que adora nadar. Gosto de como o conflito entre mãe e filha é tratado de maneira leve e criativa; da trilha sonora e dos figurinos retrôs. Outro dia eu reparei em mais uma coisa interessante: a única coisa que a Cher cozinha para suas filhas são hors-d'oeuvre, ou finger food para comer em festa. Do café da manhã até o peru do thanksgiving, tudo o que ela faz é servido em bandejas de festa, enfiado em palitos de dente decorados ou cortado em forma de estrela com o cortador de biscoito. E ela faz refeições inteiras dessas coisas! Isso diz muito sobre a personagem, mas é um detalhe que eu mesma nunca havia notado (e gostei de notar agora).