foto by Lu C
*particularidade: Esta foto não é de São Paulo e sim de Águas de Lindóia quando lá estive no feriado
de Corpus Christi, mas ilustra bem o texto abaixo.
É de
manhã, quase aurora. Eu sei! Estou ainda enrodilhada em sonhos e edredons, mas
mesmo assim encontro em meus vãos o som de algum pássaro espiando o ar gélido
do dia que vem parido sem sofrimento porque as horas são curtas e prósperas
para a mãe invernal.
Há
luzes acesas em alguns cômodos e tilintares longínquos envolvidos no aroma
talvez de canela ou camomila, nem sei.
Não me
importo se a porta da rua se fecha e volto a dormir. Quem sabe eu sonhe com
campos de margaridas...
Depois
de passear por jardins imaginários meu relógio de cabeceira cochicha que são 9
horas da manhã. Manhã escura, sem moldura nem aquarela... Só ipês florescendo -
graças a Deus.
A
paisagem vai aos poucos se tingindo de
um azul antigo, quase mudo de tão triste. É inverno e as ruas ainda sentem o
gosto do orvalho serenado por entre gentes, árvores desamparadas e toda sorte
de sons que começam a bagunçar o coreto do meu labirinto.
Vou
então reorganizando minhas ideias e uma enxurrada de tarefas cai sobre meu
corpo ainda desengonçado e amassado. Levanto e alinho a coluna. Giro o pescoço
devagar para os dois lados e encontro comigo no espelho - “Olá, bom dia!”
Logo
mais vou abrindo as janelas para que a vida retome seus passos, dentro e fora
da minha casa. Estou órfã de gentes e tenho por companhia minha calopsita que
já começa a cantarolar seus assovios gentis.
Café na
mesa. Lápis e papel do lado caso alguma frase ou palavra ouse saltar desta
mente que nunca descansa. Pão tostadinho com manteiga derretida, suco de laranja,
queijo branco e frutas.
Olho na
agenda e me parece que hoje o dia é livre. Ninguém quer fazer limpeza de pele,
o frio re(pele). Todo ano é sempre igual. Então fico de boa e vou atinando no
serviço braçal que é doméstico e fiel porque ele fica a te esperar e não sai do
lugar enquanto você não chega.
Caminho
até a varanda da frente e não me atrevo a sair. O vento vem cortando e meu
canteiro sofre consequências desastrosas. Os últimos raminhos de hortelã deram
o fora, deixando somente uma haste seca e abandonada. Os imponentes antúrios brancos dormem transparentes, deixando somente as folhas sofrerem o frio congelante da madrugada.
O céu
de Sampa é neblina neste momento. Volto pra cozinha e termino meu café em
companhia de Vinicius de Moraes e sua infinita particularidade para en(cantar) deixando
o ar romântico neste dia com face e olhos gris.
São
Paulo - 21/06/2012
Recebendo
um senhor carrancudo chamado inverno, para uma estadia longa fazendo-me sonhar
com girassóis e margaridas que abrigam minhas fadinhas interiores.by LU C.
A Cidade em Progresso
(V. de Moraes)
A cidade mudou. Partiu para o futuro
Entre semoventes abstratos
Transpondo na manhã o imarcescível muro
Da manhã na asa dos DC-4s
Comeu colinas, comeu templos, comeu mar
Fez-se empreiteira de pombais
De onde se vêem partir e para onde se vêem voltar
Pombas paraestatais.
Alargou os quadris na gravidez urbana
Teve desejos de cúmulos
Viu se povoarem seus latifúndios em Copacabana
De casa, e logo além, de túmulos.
E sorriu, apesar da arquitetura teuta
Do bélico Ministério
Como quem diz: Eu só sou a hermeneuta
Dos códices do mistério...
E com uma indignação quem sabe prematura
Fez erigir do chão
Os ritmos da superestrutura
De Lúcio, Niemeyer e Leão.
estendeu ao sol as longas panturrilhas
De entontecente cor
Vendo o vento eriçar a epiderme das ilhas
Filhas do Governador.
Não cresceu? Cresceu muito! Em grandeza e miséria
Em graça e disenteria
Deu franquia especial à doença venérea
E à alta quinquilharia.
Tornou-se grande, sórdida, ó cidade
Do meu amor maior!
Deixa-me amar-te assim, na claridade
Vibrante de calor!
Oi LU,
ResponderExcluirPude imaginar o cenário, tão lindamente descrito.
O frio de Sampa é cortante e desconsertante. Não suporto frio.
E São Paulo ainda costuma trazer uma garoa de brinde nessa época.
Ir a São Paulo no inverno, para mim, é desejar ficar "enrodilhada" em edredons (rsrsrsrs). Ou pior, sair comprando casacos sem nenhum utilidade posterior (Ô louco!)
Seu texto é lindo e delicioso de ler. E salve Vinícius!
Beijão.
Oi Verinha, hehe... verdade. Sampa é frio e a garoa é a cortesia da casa rsrs!! Mas sabe, Vera eu amo Sampa e naum sei se sairia daqui, embora algumas vezes tenha vontade.
ResponderExcluirTb não gosto muito do frio, mas nessa época a gente inventa de tomar chá e ler a fumaça, arruma gavetas, aproveita pra terminar o livro que deixou com a página marcada, faz pipoca e aproveita mais nosso cobertor de orelha rssss
Mas minha preferência é primavera, adoro! E gosto tb do fascínio do outono.
beijo linda
Fiquei feliz que tenha vindo
Olá, amiga. Saudades!!! Olha! Fiquei feliz ao abrir o blog e ver vc. Obrigada pela carinhosa visita...estou voltando, pois tive uma pane total no pc. adorei o texto! Vc descreve de forma tão bonita. Parabéns! Vivenciei a sena. Perfeito! Deixo um bjo carinhoso e uma ótima sexta pra vc.
ResponderExcluirLeitura agradabilíssima, daquelas que faz com que o leitor veja-se no (con)texto! Adoro o inverno, e quando ele chega, eu relaxo...
ResponderExcluirDegustei. Se motivos outros não houvessem, bastaria este teu texto para justificar o suntuoso e vetusto (assim o vejo) inverno paulistano.
ResponderExcluirAbraços, Lu.
PS: Você terá suas razões... mas essa verificação de palavras é um saco. E "Prove que você não é um robô" me faz sentir no banco dos réus do tribunal de Kafka...
OI Cidinha, que bom que vieste. Vc é um doce de pessoa!
ResponderExcluirAhhh essas panes no PC são um saco. rs
Obrigada pela leitura. Venha sempre que tua visita muito me agrada.
bacios
Oi Ana, valeu a leitura cara mia!
ResponderExcluirGosto do inverno, mas não amo.
Tomara que ele passe bem rápido!
bacios e obrigada pela leitura!
:D
kkkkkkkk RR, já modifiquei lá nos coments esse porre dessa verificação de palavras. Tb detesto e eu naum sabia que estava assim. Obrigada por me alertar.
ResponderExcluirFico feliz que leia meus rabiscos. Tua apreciação é sempre importante pra mim. E o frio tá de lascar aqui. Hoje tem VENTANIA , parece que tudo vai sair voando. Um saco.
bacios caríssimo!
:)
Posso até imaginar o nascer do dia, como mencionou. Mas o fez de forma tão poética, que me encantou. Saí de São Paulo, gosto de BH, mas tenho muita saudade da grande metrópole.
ResponderExcluirNão há estação que faça os paulistanos desanimarem de aproveitar todas as coisas boas que lhe são oferecidas. Grande beijo!