Eu quero o mapa das nuvens e um barco bem vagaroso
(Mário Quintana)



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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Um rosto Nevoento


foto by Lu C

*particularidade: Esta foto não é de São Paulo e sim de Águas de Lindóia quando lá estive no feriado
de Corpus Christi, mas ilustra bem o texto abaixo.


É de manhã, quase aurora. Eu sei! Estou ainda enrodilhada em sonhos e edredons, mas mesmo assim encontro em meus vãos o som de algum pássaro espiando o ar gélido do dia que vem parido sem sofrimento porque as horas são curtas e prósperas para a mãe invernal.

Há luzes acesas em alguns cômodos e tilintares longínquos envolvidos no aroma talvez de canela ou camomila, nem sei.

Não me importo se a porta da rua se fecha e volto a dormir. Quem sabe eu sonhe com campos de margaridas...

Depois de passear por jardins imaginários meu relógio de cabeceira cochicha que são 9 horas da manhã. Manhã escura, sem moldura nem aquarela... Só ipês florescendo - graças a Deus.

A paisagem vai aos poucos  se tingindo de um azul antigo, quase mudo de tão triste. É inverno e as ruas ainda sentem o gosto do orvalho serenado por entre gentes, árvores desamparadas e toda sorte de sons que começam a bagunçar o coreto do meu labirinto.

Vou então reorganizando minhas ideias e uma enxurrada de tarefas cai sobre meu corpo ainda desengonçado e amassado. Levanto e alinho a coluna. Giro o pescoço devagar para os dois lados e encontro comigo no espelho - “Olá, bom dia!”

Logo mais vou abrindo as janelas para que a vida retome seus passos, dentro e fora da minha casa. Estou órfã de gentes e tenho por companhia minha calopsita que já começa a cantarolar seus assovios gentis.

Café na mesa. Lápis e papel do lado caso alguma frase ou palavra ouse saltar desta mente que nunca descansa. Pão tostadinho com manteiga derretida, suco de laranja, queijo branco e frutas.

Olho na agenda e me parece que hoje o dia é livre. Ninguém quer fazer limpeza de pele, o frio re(pele). Todo ano é sempre igual. Então fico de boa e vou atinando no serviço braçal que é doméstico e fiel porque ele fica a te esperar e não sai do lugar enquanto você não chega.
Caminho até a varanda da frente e não me atrevo a sair. O vento vem cortando e meu canteiro sofre consequências desastrosas. Os últimos raminhos de hortelã deram o fora, deixando somente uma haste seca e abandonada. Os imponentes antúrios brancos dormem transparentes, deixando somente as folhas sofrerem o frio congelante da madrugada.
O céu de Sampa é neblina neste momento. Volto pra cozinha e termino meu café em companhia de Vinicius de Moraes e sua infinita particularidade para en(cantar) deixando o ar romântico neste dia com face e olhos gris.

São Paulo - 21/06/2012
Recebendo um senhor carrancudo chamado inverno, para uma estadia longa fazendo-me sonhar com girassóis e margaridas que abrigam minhas fadinhas interiores.

by LU C.



A Cidade em Progresso
(V. de Moraes)

A cidade mudou. Partiu para o futuro
Entre semoventes abstratos
Transpondo na manhã o imarcescível muro
Da manhã na asa dos DC-4s

Comeu colinas, comeu templos, comeu mar
Fez-se empreiteira de pombais
De onde se vêem partir e para onde se vêem voltar
Pombas paraestatais.

Alargou os quadris na gravidez urbana
Teve desejos de cúmulos
Viu se povoarem seus latifúndios em Copacabana
De casa, e logo além, de túmulos.

E sorriu, apesar da arquitetura teuta
Do bélico Ministério
Como quem diz: Eu só sou a hermeneuta
Dos códices do mistério...
E com uma indignação quem sabe prematura
Fez erigir do chão
Os ritmos da superestrutura
De Lúcio, Niemeyer e Leão.
estendeu ao sol as longas panturrilhas
De entontecente cor
Vendo o vento eriçar a epiderme das ilhas
Filhas do Governador.

Não cresceu? Cresceu muito! Em grandeza e miséria
Em graça e disenteria
Deu franquia especial à doença venérea
E à alta quinquilharia.

Tornou-se grande, sórdida, ó cidade
Do meu amor maior!

Deixa-me amar-te assim, na claridade
Vibrante de calor!



quinta-feira, 14 de junho de 2012

Delicados poemas para almas sensíveis

Pessoal, o Retratos em Degradê é um blog suave, poético e sempre faz questão de lançar mão de arco-íris e lirismo. Hoje eu trouxe até vocês alguns poeminis que faziam morada no falecido blog "CANTEIRO POEMINIS"  - o qual foi detonado pelo blogger a despeito de seu sumiço. Contudo, fui prudente e salvei todos eles, porque são meus xodós.

Compartilho  e dedico a todos que amam a poesia!



























segunda-feira, 4 de junho de 2012

Receita de Família




"Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema...Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir...Mas a vida... sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente...Já estão aí? Todos? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.

 Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa. Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto: é um verdadeiro desastre.

 Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada. O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini, Família à Belle Meunière; Família ao Molho Pardo (em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria). Família é afinidade, é à Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.

Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.

Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro.

Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete."

Trechos do livro "O Arroz de Palma" de Francisco Azevedo.
nota da Lu* - esse trecho é para vocês, meus amigos blogueiros, afinal também formamos uma família!