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17 julho, 2012

FMM: Staff Benda Bilili Substituem Gurrumul

A má notícia: o concerto de Gurrumul no FMM foi cancelado, devido a doença do cantor australiano. A boa notícia: os Staff Benda Bilili (na foto) são os substitutos. «Staff Benda Bilili, um dos melhores grupos musicais de África, substitui Gurrumul em Sines O grupo congolês Staff Benda Bilili regressa a Sines no dia 26 de julho, quinta-feira, no âmbito da 14.ª edição do FMM Sines – Festival Músicas do Mundo, que se realiza entre 19 e 28 de julho. Staff Benda Bilili, que deu um dos melhores concertos da história do festival, em 2010, volta à capital portuguesa das músicas do mundo na sequência do cancelamento do concerto do australiano Gurrumul, por motivo de doença. Um dos maiores casos de sucesso da música africana dos últimos anos, o grupo Staff Benda Bilili nasceu em Kinshasa, República Democrática do Congo, e é formado por músicos deficientes motores que dormiam e ganhavam a vida na rua a cantar e tocar para os transeuntes. Musicalmente, Staff Benda Bilili é uma mistura de ritmos tradicionais, funk e a versão local da rumba. Os músicos cantam, dançam e tocam em guitarras e instrumentos criados pelos próprios com os objetos que encontram na rua. As letras das suas músicas são verdadeiras crónicas da vida da capital congolesa. O álbum de estreia do grupo, “ Très Très Fort” (Crammed), gravado no zoo de Kinshasa por Vincent Kenis, produtor de Konono n.º 1, Kasaï Allstars e de toda a série Congotronics, chegou ao 1.º lugar da World Music Charts Europe em maio de 2009, foi considerado o melhor desse ano pela fRoots e foi eleito o melhor álbum de “world music” de 2009 pela Mojo. O prémio Womex, normalmente só entregue a músicos no final de uma longa carreira, foi-lhes atribuído em 2009 em reconhecimento do seu exemplo extraordinário de dedicação à música. Em 2010, foi eleito o melhor grupo do ano nos prémios Songlines Music Awards. Os Staff Benda Bilili acabam de gravar o seu novo álbum, intitulado “Bouger le Monde” (“Make the World Shake”), que será lançado em setembro, na Crammed Records, já sendo conhecido o seu primeiro single, “Osali Mabe”. A presença dos Staff Benda Bilili obriga à alteração do alinhamento dos concertos da noite em que realiza, que passa a ser o seguinte: Castelo | Quinta, 26 de julho 21h45 – ASTILLERO (Argentina) 23h15 – FATOUMATA DIAWARA (Mali) 00h45 – STAFF BENDA BILILI (R. D. Congo)»

03 agosto, 2010

FMM de Sines - Cada Vez Mais a Acabar Com Preconceitos


O FMM de Sines deste ano foi mais um belíssimo festival de música e, também, mais um excelentíssimo exemplo de como se pode dar completamente cabo de preconceitos recorrendo apenas à música. Tendo começado, na quarta-feira, com o rejuvenescimento do aparentemente intocável cante alentejano por Vitorino e Janita Salomé, e terminado na madrugada de sábado para domingo com a luso-angolana Batida, outro projecto de cruzamento de sonoridades antigas - gravações dos anos 60 e 70 feitas em Angola - trazidas para a modernidade com a ajuda de kuduros, hip-hops e bailes funk, o FMM 2010 ajudou a quebrar estas barreiras temporais e/ou espaciais, mas também muitas outras... Só mais alguns exemplos: a bandeira palestiniana agitada durante todo o maravilhoso concerto da cantora israelita, judia, Yasmin Levy; o amor com que foram recebidos os fabulosos Barbez, que só muito vagamente poderão eventualmente inscrever-se naquilo que é normalmente considerado world music (a repetição do "mente" é propositada); a classe das vozes de formação clássica de Las Rubias del Norte, aqui posta ao serviço de outras músicas; o surpreendente - e tão bem conseguido! - cruzamento da música da Bretanha com a música do Mali do colectivo N'diale; os genuínos Galaxy, rapazes timorenses que têm as antenas apontadas para o reggae e o metal; e, acima de todos, os Staff Benda Bilili (na foto; de Mário Pires/FMM de Sines), que deram o melhor concerto do festival e um dos melhores de todos os FMM, e símbolo maior do que é lutar contra todos os preconceitos: musicais, de cor de pele, de forma do corpo, de estatuto social. O FMM faz-nos sentir melhores pessoas ou, pelo menos, ajuda-nos a sê-lo. E isso nunca teve, nem terá, preço.

Nota: o pré-lançamento do livro "Raízes e Antenas" correu muito bem! Estive rodeado de muitos e bons amigos; tive direito a um abraço prévio do Carlos e da Marta; o Paulo Faustino, da Media XXI, esteve lá a dar-me todo o apoio necessário e a ajudar-me na apresentação do livro que, sim!, está mesmo muito bonito. A todos o meu muito obrigado! Um agradecimento extensível, e ainda maior, a quem me acompanhou desde o início, e cada um à sua maneira, neste processo todo: o Guilherme Pires, o Rodrigo Madeira e a Laura Alves.

16 junho, 2010

FMM de Sines - O Programa Completo!


Aqui vai!

"FMM SINES 2010

Entre 28 e 31 de Julho, a grande música do mundo volta a Sines,
capital nacional da “world music”

Considerado “o mais arriscado festival nacional” na sua programação
(Público, 2009), o FMM Sines – Festival Músicas do Mundo prepara-se
para voltar a surpreender os espectadores com os 26 espectáculos da
12.ª edição, marcada para quatro intensos dias de música - 28, 29, 30
e 31 de Julho de 2010 - nos palcos do Castelo medieval e da Praia
Vasco da Gama, em pleno coração do centro histórico de Sines.

Os congoleses Staff Benda Bilili, o mais premiado grupo do ano, a
lenda do reggae U-Roy, The Mekons, banda britânica que partiu do
pós-punk para a fundação do movimento alt-country, e Tinariwen (na foto),
expoente contemporâneo dos blues do deserto, são alguns destaques da
programação.

Menção especial ainda às norte-americanas Las Rubias del Norte e aos
timorenses Galaxy, que fazem em Sines a sua estreia europeia, e aos
vários projectos que pisam no FMM pela primeira vez palcos nacionais,
conjunto em que se incluem o fenómeno brasileiro Forro in the Dark,
uma das maiores “cantaoras” do flamenco, Lole Montoya, os peruanos
Novalima, o “joiker” finlandês Wimme e a mais subversiva orquestra
latina da actualidade, Grupo Fantasma.

ALINHAMENTO COMPLETO DE CONCERTOS

28 de Julho (quarta-feira)

Em 2010, cabe a Vitorino, um dos maiores criadores e intérpretes da
música portuguesa, iniciar o alinhamento de concertos com um
espectáculo na quarta-feira, dia 28 de Julho, às 18h00, no Castelo.
Nesta presença no FMM, Vitorino faz a estreia nacional do seu novo
projecto, dedicado ao cante alentejano, na companhia de um grupo coral
do Redondo. É também a estreia dos concertos vespertinos no Castelo,
que ao longo do FMM 2010 permitirão ao público desfrutar de uma das
horas em que este palco tem maior beleza cénica, o cair da tarde, em
espectáculos de entrada livre.

A Vitorino segue-se a banda luso-moçambicana Cacique ’97, que actua às
19h30, no palco da Av. Vasco da Gama, marginal da praia do mesmo nome.
Uma das grandes revelações recentes da música feita em Portugal,
Cacique’97 celebra a mestiçagem lisboeta através do cruzamento do
afrobeat de Fela Kuti com várias tradições lusófonas.

Às 21h30, o palco do Castelo recebe o projecto Nat King Cole en
Espagnol. Dirigido pelo saxofonista e director David Murray, figura
central do jazz contemporâneo, celebra a veia latina da obra de Nat
King Cole com a participação de um grupo de elite de músicos cubanos e
da Sinfonieta de Sines, uma orquestra de cordas formada no seio da
Escola das Artes de Sines. Trata-se de um concerto integrado no
Programa de Regeneração Urbana de Sines.

Às 23h00, é a vez das nova-iorquinas Las Rubias del Norte, que fazem
em Sines a sua estreia em palcos europeus. Com “Ziguala”, o disco que
lançaram em Março, na bagagem, mostram a sua visão de como seria hoje
a expressão global da música se a revolução do rock n’ roll não
tivesse derrubado o poder latino de meados do séc. XX.

Na melhor tradição da MPB, em diálogos com o reggae e a música
electrónica, Céu é uma estrela da nova música brasileira, aclamada
pela crítica e responsável pela melhor posição de um artista
brasileiro na tabela principal da Billboard desde Astrud Gilberto, nos
anos 60. Às 00h30, mostra no palco do Castelo o seu novo disco,
“Vagarosa”.

O primeiro dia de música termina na praia, no palco da Av. Vasco da
Gama, às 02h30, com Novalima, projecto peruano que junta um grupo de
músicos da nova geração aos melhores músicos tradicionais da
comunidade negra para trazer para as pistas música de dança assente na
rica herança afro-peruana. É uma estreia em Portugal.

29 de Julho (quinta)

Na quinta-feira, 29 de Julho, o concerto vespertino do Castelo
(18h00), traz-nos tango. O quinteto argentino 34 Puñaladas regressa a
Sines para apresentar “Bombay Bs.As.” (2009), um dos discos do género
mais aclamados dos últimos anos.

A seguir, com o sol ainda a pôr-se no horizonte, o público desce à
praia para ouvir o finlandês Wimme. Revelação dos “charts” europeus de
música do mundo em 2010, com o disco “Mun”, o “joiker” Wimme Saari e o
seu grupo transportam para o palco da Av. Vasco da Gama o poder
xamânico do canto do povo Sami, num concerto marcado para as 19h30.
Estreia nacional.

A segunda noite de música no Castelo arranca às 21h30 com uma grande
diva das músicas do mundo. Considerada “uma das melhores cantoras do
Médio Oriente” (The Guardian), a israelita Yasmin Levy promove o
encontro entre a música de tradição judaico-espanhola e o flamenco. O
repertório do seu último disco, “Sentir” (2009), estará em evidência.

Às 23h00, é a vez de uma aposta do FMM 2010, o projecto de fusão
N’Diale, onde o quarteto do violinista Jacky Molard, um dos maiores
músicos bretões, se junta ao trio da cantora maliana Founé Diarra num
espectáculo acústico de excelência. O disco de estreia, que tem o nome
do projecto, foi lançado em Março, e será a base do espectáculo. Mais
uma estreia em Portugal.

Às 00h30, sobe ao palco uma banda que marca a música popular dos
últimos 35 anos. Grupo de vanguarda do pós-punk e, numa segunda vida,
fundadores do movimento alt-country, os britânicos The Mekons são
conhecidos pelas suas grandes apresentações ao vivo e este concerto já
deverá trazer canções do seu 27.º disco, a lançar nos próximos meses.

Como de costume, a música acaba na praia, às 02h30. Do Texas para o
mundo, Grupo Fantasma, a mais subversiva orquestra latina da
actualidade, “versão séc. XXI do groove latino” (Boston Globe), faz a
festa com a sua mistura explosiva de “latinidad”, jazz, funk e rock
psicadélico, bem patente no seu quinto disco “El Existencial”, que
editaram em Maio. É a primeira vez que actuam em Portugal.

30 de Julho (sexta)

Sexta-feira, dia 30, a música começa com Kimi Djabaté, às 18h00, no
Castelo. Um dos artistas emergentes do circuito das músicas do mundo,
o cantor e guitarrista guineense sobe ao palco com o disco “Karam” na
mão para demonstrar por que está a conseguir colocar a Guiné-Bissau na
1.ª divisão do panorama competitivo da música de tradição mandinga.

Responsável por “Music Maelström”, um dos discos surpresa de 2010, a
jovem artista francesa Dorothée (que tem no anagrama The Rodeo o seu
nome artístico) apresenta, às 19h30, no palco da praia, uma
reinterpretação muito pessoal da grande tradição musical
norte-americana.

Às 21h30, no Castelo, o guitarrista nova-iorquino Dan Kaufman e a sua
banda Barbez, formada em 1997 por músicos com um percurso no jazz, no
rock e na música clássica, oferecem um espectáculo com música de
ambientes nocturnos que busca inspiração em referências tão diferentes
quanto Kurt Weill, Black Sabbath e Godspeed You! Black Emperor.

Considerada a melhor artista asiática nos prémios da BBC Radio 3 em
2008, Sa Dingding é uma das vozes mais importantes da música chinesa
contemporânea com raízes na tradição. O álbum que a traz ao FMM,
“Harmony” (2009), centra-se na relação entre os homens e a natureza e
junta as raízes chinesas com a música electrónica. A descobrir a
partir das 23h00.

Os tuaregues malianos Tinariwen hipnotizam o Castelo às 00h30.
Superando Bob Dylan, Animal Collective e Grizzly Bear, entre outros,
para conquistar o prémio da revista Uncut para melhor disco de 2009,
“Imidiwan”, a mais genial banda do deserto do Sahara faz a síntese
entre as músicas da África Ocidental e do Magrebe, o rock e os blues.

A noite continua às 02h30, na praia, com mais uma estreia nacional.
Formado por quatro músicos brasileiros a viver em Nova Iorque, o grupo
Forro in the Dark abriu os horizontes do forró nordestino, cruzando-o
com o dub, o indie rock, o funk e outras músicas para produzir um som
que já é um fenómeno global. O disco “Light a Candle” (2009) é o prato
forte.

Às 04h00, o palco da praia encerra com o trio de DJ’s português
Bailarico Sofisticado, conhecido pelos seus “sets” eclécticos, onde as
músicas do mundo dialogam sem complexos com outras vertentes da música
popular, numa presença que é já habitual nas noites de dança do FMM e
que este ano traz como convidada a Dj Selecta Alice.

31 de Julho (sábado)

O último dia do FMM 2010 começa no Castelo, às 18h00, com Guadi
Galego. Autora de “Benzón”, vencedor do prémio de disco folk do ano
nos prémios Opinión da Música, em 2009, a antiga cantora dos
Berrogüetto, grupo de referência da folk europeia, é a grande voz
galega da nova geração.

Na praia, o concerto das 19h30 é especial. Mistura de ritmos
tradicionais do povo Fataluku, clássicos da resistência, reggae, rap,
funk e rock, Galaxy é o grupo mais importante da música moderna
timorense e faz a sua estreia portuguesa e europeia em Sines, com o
alto patrocínio da Presidência e do governo de Timor-Leste.

Uma das maiores “cantaoras” da história do flamenco, par de Manuel
Molina no duo mítico Lole y Manuel e no arranque do movimento Novo
Flamenco, Lole Montoya apresenta no FMM o seu projecto a solo, no
Castelo, a partir das 21h30. “Metáfora”, o seu disco mais recente,
nomeado para um Grammy latino, é a base do alinhamento. Estreia em
Portugal.

Às 23h00, o maliano Cheick Tidiane Seck, o maior teclista da música
africana, além de um excelente cantor e guitarrista, junta-se a Mamani
Keita, uma das melhores vozes do seu país, numa fusão entre as raízes
mandingas e a música afro-americana, do jazz à música soul e ao
hip-hop. O disco “Sabaly” (2008) é o ponto de partida do espectáculo.

Às 00h30, o Castelo recebe, mais do que um concerto, um acontecimento.
Formado por músicos de rua paraplégicos, o grupo congolês Staff Benda
Bilili, Prémio Womex 2009, é uma das grandes revelações da música
africana da última década. Considerado o grupo do ano pela revista
Songlines, apresentam em Sines as canções de “Très Très Fort”, o
melhor disco editado em 2009 na opinião das publicações de referência
fRoots e Mojo. Estreia nacional.

A apoteose de Staff Benda Bilili prolonga-se no palco da praia. Depois
de ter acolhido nomes como Black Uhuru feat. Sly & Robbie, The
Skatalites e Lee ‘Scratch’ Perry, o FMM prossegue a sua história
ilustrada do reggae, às 02h30, com U-Roy, o expoente máximo do
“toasting”, o estilo artístico de DJing que o colocou entre os grandes
da música da Jamaica.

Ainda na praia, às 4h00, o projecto luso-angolano Batida, nascido no
seio do colectivo Radiofazuma, leva a dança até ao sol nascer. O
milagre mais recente da produção afro-lusitana, Batida traz para o
século XXI a melhor música angolana dos anos 60 e 70 e proporciona o
encerramento perfeito para o 12.º Festival Músicas do Mundo.

Os bilhetes para as noites de música no Castelo (a partir das 21h30)
custam 12,5 euros por dia, com opção de aquisição de passe de 40 euros
para os quatro dias. Todos os concertos na Av. Vasco da Gama são de
entrada livre, o mesmo acontecendo com os três concertos das 18h00 no
Castelo."

03 junho, 2009

Música Africana - Três Edições Fundamentais


Nos últimos meses foram editados - ou distribuídos - em Portugal três álbuns importantíssimos de música africana: o álbum de estreia do grupo congolês Staff Benda Bilili (na foto), o terceiro do grupo semi-queniano semi-norte-americano Extra Golden e a caixa «Memórias de África», que agrupa muitas gravações antigas efectuadas nas ex-colónias portuguesas de África nos anos 60 e 70. A propósito de todos eles, aqui recupero três textos meus editados originalmente na «Time Out Lisboa» há algum tempo.

Extra Golden
«Thank You Very Quickly»
Thrill Jockey/Edel

No já longo namoro do pop/rock anglo-saxónico com músicas «estranhas» ou «exóticas» - de George Harrison, Brian Jones, Mickey Hart, Robert Plant, Peter Gabriel, David Byrne, Paul Simon ou Jah Wobble aos... Beirut e aos Vampire Weekend -, os Extra Golden assumem agora a dianteira de um movimento que, neles, é tão natural quanto a soma aritmética das partes: dois norte-americanos e dois quenianos (os primeiros com circuito feito no rock indie ianque; os outros dois herdeiros directos da música benga do Quénia e continuadores dos ensinamentos de um dos fundadores dos Extra Golden, Otieno Jagwasi, entretanto falecido) chegam a este terceiro álbum com o seu som apuradíssimo: doses semelhantes de benga, juju music, merengue, por um lado, e funk, rock psicadélico (e há ali um órgão saído dos Doors!) e guitarras eléctricas em distorção, por outro. *****


Staff Benda Bilili
«Trés Trés Fort»
Crammed Discs/Megamúsica

Mais um OVNI musical a sair de Kinshasa, na República Democrática do Congo - a juntar aos Kasai Allstars, Konono Nº1 e outros grupos da fornada Congotronics -, o Staff Benda Bilili é um grupo de músicos de rua, sem-abrigo, que costuma actuar para os turistas e visitantes do Jardim Zoológico de Kinshasa. Paraplégicos, vítimas de poliomelite, pedintes... Vistas assim as coisas até parece que o efeito «Dona Rosa» está a render no circuito da world music. E rende! Mas há aqui, no Staff Benda Bilili, qualquer coisa mais: uma música verdadeira e eléctrica, rude mas bela muitas vezes, que não se envergonha de citar descaradamente músicas exteriores (James Brown, de maneira óbvia... e o reggae, o ié-ié francês dos anos 60, o rock'n'roll...) nas suas canções, em tudo o resto profundamente africanas - com acento óbvio na rumba congolesa tal como prescrita por Franco. ****


Vários
«Memórias de África»
Difference/Farol

A crise da indústria discográfica, inclusive na chamada world music, até tem um lado muito bom: a necessidade de garimpagem de gravações perdidas em arquivos de editoras, rádios, estúdios, etnomusicólogos ou museus. E, dessa garimpagem, já muitas pérolas musicais esquecidas regressaram à luz do dia. Há milhentos exemplos mas, só para se situar, pode-se falar da série «Éthiopiques», das redescobertas da Mr Bongo ou das sucessivas reedições de gravações antigas de música jamaicana da Soul Jazz Records. E isso é bom! Assim como tem sido muito bom a esforço de estruturas nacionais que estão a pôr no mercado objectos historicamente irrepreensíveis como a caixa «Angola» ou a colectânea «Os Reis do Semba», ou exteriores, como o álbum «Rádio Mindelo», de Cesária Évora enquanto jovem. Agora, e através do trabalho de pesquisa incansável da Difference, surge outro marco, ainda maior, desta busca por uma música antiga que quer ser ouvida nos dias de hoje: os quatro CDs «Memórias de África» reúnem dezenas de gravações feitas em todas as ex-colónias portuguesas de África nos anos 60, 70 e inícios de 80, que lançam pontes óbvias, e necessárias, entre nomes do passado e as músicas do presente. Ouvem-se os merengues e os sembas de Elias Kimuezo ou Carlos Lamartine e já se imaginam kizombas e kuduros. Ouvem-se as mornas e as coladeiras de Bana ou Ana Firmino e já se estão a ouvir as canções de Orlando Pantera e as vozes de Tcheka e Mayra Andrade. Ouvem-se as marrabentas moçambicanas e sabe-se logo onde os Gorwhane, Mabulu ou Massukos foram beber a inspiração. E ouvem-se as músicas, estas ainda mais desconhecidas, da Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe, e agradece-se a quem deu voz a estas memórias... *****