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16 outubro, 2008

Festival Sons em Trânsito Cancelado


Às vezes, por entre notícias boas lá vem uma má. E esta é mesmo má: o Festival Sons em Trânsito deste ano foi cancelado devido a falta de financiamento, segundo noticia o blog Crónicas da Terra, que por sua vez cita o jornal «Diário de Aveiro», mais a mais quando o cartaz iria incluir concertos da dupla de Camille com Pascal Comelade, dos Ladysmith Black Mambazo, de Camané e dos Son de La Frontera (na foto), entre outros. A notícia das CdT, na íntegra:

«Os rumores que existiam à volta da não realização da sétima edição do Festival Sons em Trânsito tornaram-se uma infeliz e incontornável realidade. A edição desta segunda-feira do jornal local Diário de Aveiro noticia que o SET não se realiza este ano devido a dificuldades financeiras.

Recorde-se que a sexta edição do SET, de 2007, que registou lotação esgotada em todas as noites de espectáculos no Teatro Aveirense, tinha corrido idêntico risco pelas mesmas razões.

Apesar da falta de apoios institucionais e de patrocícios (conforme se pode ler na referida notícia), o Teatro Aveirense já tinha anunciado as datas de 27 a 30 de Novembro para a realização do SET de 2008 e o programa prometia voltar a esgotar os quatro dias de espectáculos, incluindo no apetitoso cartaz Camané, os renovadores do flamenco Son de La Frontera (que este ano efectuaram uma belíssima e empolgante actuação no Rotas e Rituais de Lisboa), o espectáculo conjunto de Pascal Comelade e Camille, as guitarras acústicas explosivas do dueto mexicano Rodrigo y Gabriela, a instituição sul-africana Ladysmith Black Mambazo e os mongóis Egschighen.

Na mesma notícia fica a esperança de um SET revigorado. "O município planeia compensar a perda da edição deste ano do SET com um número especial em 2009, data em que se assinala os 250 anos da elevação de Aveiro a cidade". Assim seja».

03 dezembro, 2007

Sons em Trânsito - Tratados de Pastelaria Regional (e Global)


A última - e absolutamente maravilhosa - edição do Festival Sons em Trânsito terminou às tantas da manhã de sábado (já domingo), com uma prova aberta de doçaria regional aveirense e com os bolos a desaparecerem em pouquíssimos minutos. Eu, que tinha ido comprar tabaco à Praça do Peixe depois do fim do concerto do Capossela, já só rapei, digamos, o fundo ao tacho. Mas não me importei porque, na sala ao lado, a Raquel Bulha passava óptima música para dançar enquanto o José Carlos Fernandes desenhava e aguarelava as músicas e os músicos que se ouviam. Um docinho completo. Como de outros doces se pode falar em relação aos concertos todos (todos!) do festival.

Na quarta-feira, o imenso bolo de noiva cigano, com toques de zimbro, de canela e de pinhões da Fanfare Ciocarlia, festa imensa que não durou três dias mas durou o tempo de um concerto fabuloso - com a Fanfare a ser acompanhada pela rainha Esma Redzepova (abençoada voz!), pela princesa Florentina Sandu, pelos pagens Kaloome (a fazer a ponte entre os ciganos do sul e os do norte) e o gato das botas altas Jony Iliev - e um «after-hours» na rua, com os metais da Fanfare a bombarem dança e boa disposição durante muito tempo! Na quinta, com as castanhas assadas lisboetas que são os Deolinda, a queimarem nas mãos de tão novas e quentes que são, acompanhadas por um vinho novo que é um fado virado do avesso, alegre, vivo, simples e cheio de sentido de humor (as aletrias, perdão, as letras por Ana são deliciosas!). E, falando em letras, e aletrias, e aliterações, e frases feitas - as melhores frases feitas da música portuguesa -, Sérgio Godinho deu um concerto extraordinário, em que os inventivos e frescos arranjos de Nuno Rafael se estendem a canções novas (o «Só Neste País», repete-se aqui neste blog, devia ser o hino nacional) e antigas (de «O Charlatão» a «Quatro Quadras Soltas» ou ao delicioso e doce «O Primeiro Gomo da Tangerina», iluminadas por um som novo e actualíssimo.

Já na sexta, o degustar começou em África, com a música dulcíssima, lindíssima, com um travozinho de bom grogue, do compositor, guitarrista e cantor cabo-verdiano Tcheka, uma música sentida e pessoal que não é devedora de muita da música cabo-verdiana que nós conhecemos; antes uma música nova e que há-de, se tudo correr bem, ser importantíssima - só foi pena o concerto ter sido demasiado curto e ter, por isso, «sabido a pouco». Depois, um autêntico ovo mole, um concentrado explosivo e calórico inesperado com a anglo-francesa Jane Birkin: ela não canta quase nada, mas a maneira como interpreta (principalmente, as canções de Serge Gainsbourg, seu grande amor e o principal homenageado neste concerro) são de uma doçura, de uma candura, de uma simplicidade e de uma simpatia que é quase impossível não nos deixarmos encantar por ela. E o rebuçado que foi «O Leãozinho», de Caetano Veloso, desfez-se-nos na boca... E no sábado, a grande surpresa: o canadiano Gonzales (na foto), aqui em registo piano solo, num espectáculo em que a música erudita (ele é um pianista muitíssimo bom, virtuoso e divertidíssimo!) está lá, evidente ou como referência - de Chopin a Satie - mas estão lá também o «Somewhere Over The Rainbow» e... os Queen, os Bee Gees, os Soft Cell! Um cientista de luvas brancas na arte de preparar crepes em que os ingredientes são completamente inesperados. E, para final de festa, e para descongestionar de tanto doce, a cozinha ora pesada ora picante ora exótica ora feita de inúmeras nuances do italiano Vinicio Capossela, um fabuloso mestre-cozinheiro que doseia com sabedoria os momentos mais calmos (há canções de amor, mesmo canções de amor!, que são de uma beleza infinda), o humor («Maraja»), a música épica dos peplums («Al Colosseo») e o terror («Brucia Troia»). E há teatro - Capossela é também um performer (momento mais alto: quando se senta ao piano, abre um guarda-chuva e toda a gente na plateia começa a estalar os dedos imitando o som das gotas) e projecções (com imagens e... legendas em óptimo português) e uma banda competentíssima (onde brilha Vincenzo Vasi num theremin mágico). Saí do Teatro Aveirense e de Aveiro completamente alambazado mas com imensa vontade de repetir as doses todas...

27 novembro, 2007

Sons em Trânsito - Os Semáforos Passam a Verde Amanhã


O Festival Sons em Trânsito começa já amanhã, quarta-feira, no Teatro Aveirense, e logo com a celebração pan-europeia da grande família cigana presente em «Queens and Kings», o último álbum dos romenos Fanfare Ciocarlia, que em Aveiro se vão apresentar com muitos dos seus convidados que co-protagonizam este disco. Logo a seguir, na quinta-feira há concertos dos Deolinda - um dos mais interessantes novos projectos desviantes do fado - e de Sérgio Godinho, do qual basta dizer o nome para se saber ao que se vai. Na sexta-feira o palco é ocupado por um dos mais talentosos nomes da música cabo-verdiana, o cantor e guitarrista Tcheka, e pela diva anglo-francesa Jane Birkin, num espectáculo em que irá interpretar canções de Serge Gainsbourg (claro!) e dos álbuns «Rendez-vous» e «Fictions». Finalmente, na sexta, há concertos do canadiano Gonzales (num espectáculo para piano, câmara de filmar e... luvas) e do genial e inclassificável cantautor italiano Vinicio Capossela (na foto) e uma igualmente imperdível sessão de DJ de Raquel Bulha acompanhada pelos desenhos feitos em tempo real por José Carlos Fernandes, projecto nascido no MED de Loulé e agora já com nome: Disco Riscado. Mais informações aqui.

24 outubro, 2007

Sons em Trânsito 2007 - O Ano de Todas as Surpresas


A edição deste ano do Festival Sons em Trânsito - que decorre no Teatro Aveirense, em Aveiro, de 28 de Novembro a 1 de Dezembro - tem mais um programa de luxo, ecléctico e marcado por algumas surpresas. Este: dia 28, o festival arranca, em festa, com a música cigana de raiz dos romenos Fanfare Ciocarlia; dia 29 a noite é completamente portuguesa, preenchida com concertos do fado renovado dos Deolinda e a arte imensa de Sérgio Godinho; dia 30 há lugar para a nova música cabo-verdiana com Tcheka e, uma das grandes surpresas do festival, para a anglo-francesa Jane Birkin (na foto), ícone pop nos anos 60 que mais recentemente enveredou por uma leitura muito própria da música do norte de África com o álbum «Arabesque»; e dia 1, o festival tem mais uma surpresa, o pianista e mestre da electrónica (e não só!) canadiano Gonzales, e, para acabar em beleza, o festival termina com a música inclassificável e completamente imperdível do italiano Vinicio Capossela. A organização do SET é da empresa Sons em Trânsito, do Teatro Aveirense, da Câmara Municipal de Aveiro e da Rota da Luz.

03 dezembro, 2006

Sons em Trânsito - O Futuro É o Novo Passado


A quinta edição do Festival Sons em Trânsito, em Aveiro, terminou esta madrugada a sua viagem de união de muitos lugares distantes, sim, mas também de músicas que vão muito longe, no tempo, buscar a sua forma ou inspiração. Unindo, num continuum temporal - que pode durar centenas de anos ou apenas alguns minutos -, antiquíssimas ragas indianas com Jimi Hendrix, a memória de Carlos Gardel e velhos violinos do tempo dos gramofones, ecos de Nino Rota e de Hermínia Silva, tudo incarnando em cantores e músicos lançados para um futuro utópico em que o passado e o futuro, ou o aqui e o muito longe, deixam de ter importância alguma.

Sempre com casa cheia - só no sábado a lotação não esteve esgotada -, o SET abriu na quarta-feira com um furacão chamado Cristóbal Repetto (na foto), argentino de 24 aninhos que transporta na voz o grão fantasmático de Carlos Gardel. São tangos e milongas, músicas campesinas e os sons das pampas numa canção de Atahualpa Yupanqui, cantados por Repetto numa voz quente, vibrante, emocional. A acompanhá-lo estiveram três guitarristas competentes e um músico extraordinário: Javier Casalla num arrepiante violinofone (ou violino-corneta ou violino Stroh, assim chamado em honra do seu inventor, Johannes Stroh, instrumento que esteve em voga no início do século XX e em que no violino um sistema de amplificação substituía a caixa de ressonância).

Depois, a entrada do maliano Ballaké Sissoko para um belíssimo solo de kora fez crescer água na boca para um concerto que não correspondeu às expectativas geradas por esse momento inicial: o italiano Ludovico Einaudi, durante o resto do espectáculo, afogou a kora de Sissoko com o seu piano, não deixando espaço para o diálogo entre os dois instrumentos. Foi um concerto bonito, sim - a música de Einaudi navega águas próximas das de Philip Glass, Michael Nyman ou Wim Mertens, indo aqui e ali ao jazz e aos blues - mas em que a kora apenas serviu de apontamento exótico.

Na segunda noite, a melhor do festival, o indiano Debashish Bhattacharya usou duas guitarras-slide semelhantes às ocidentais mas com um timbre muito próximo do das sitars para, partindo de uma longa e hipnótica raga tradicional, avançar depois em direcção aos blues do Mississippi, ao rock - houve momentos que lembraram Jimi Hendrix, outros Led Zepellin - à música havaiana, mexicana e andina, numa viagem fabulosa. A acompanhá-lo esteve outro músico fantástico, Subhasis Bhattacharjee - cujas tablas, em que por vezes se adivinhavam drum'n'bass e música africana, forneceram crescendos de intensidade e velocidade quase assustadores (é um elogio), e Christian Ledoux numa tambura discreta.

Depois... Kepa Junkera! E é sempre um prazer enorme ver o mestre da trikitixa (acordeão diatónico). Os anos passam, os discos sucedem-se, os espectáculos também, mas há sempre uma emoção especial quando se vê e ouve este extraordinário músico basco em palco. E essa magia voltou a acontecer no Teatro Aveirense, com Kepa a viajar pelas danças tradicionais do seu país - se não ainda real, pelo menos sonhado - mas também por inúmeros outros lugares, da Argentina ao norte de África. A txalaparta - tocada por dois percussionistas inventivos e competentíssimos - e a alboka (a gaita-sem-foles, piada!, basca) reforçavam a ligação às raízes. Mas, durante o concerto de Kepa, as antenas estiveram também sempre no ar.

Na terceira noite, Sara Tavares mostrou ao vivo aquilo que já tinha mostrado em disco: que já está muito, muito, longe dos concursos televisivos e de um início de carreira oscilante entre géneros mais mainstream e algumas paixões pessoais, como o gospel. Agora, Sara está o que sempre foi e que pareceu estar esquecido durante alguns anos: que é uma cantora luso-cabo-verdiana, ainda por cima uma belíssima cantora (e, acrescente-se, compositora). Nela ainda habitam ecos de soul, funk, pop, r'n'b, reggae, mas isso é bom, muito bom, quando assim integrado em música que vai a Cabo Verde (e a outros lugares de África) buscar a sua inspiração. Mais a mais, quando Sara Tavares é acompanhada por uma banda que inclui o guitarrista e cantor com frutuosa carreira em nome próprio Boy Gê Mendes (e que com ela fez um dueto durante o concerto) e para o discreto mas seguríssimo baterista N'dú.

E, a seguir, a festa que se esperava com os franceses Lo'Jo não chegou a acontecer. O concerto foi bom mas esteve longe de ser a folia pegada que foi da última vez que os vi, no MED de Loulé. Mesmo assim - e no meio de alguns temas menos conseguidos -, Denis Péan e a sua trupe mirabolante (que inclui duas cantoras multi-instrumentistas) serviram-nos um sempre interessante cocktail de rock progressivo, jazz de fusão, chanson (Brel, Brassens e Ferré erguem-se na sombra de Péan), música gnawa, mandinga, árabe, brasileira... Uma música em que melódicas convivem com koras, um harmonium indiano com baixo eléctrico, njarkas com piano, qraqabas com talking drum, saxofone com programações electrónicas. Com papéis mas... sem fronteiras.

A última noite começou com a fadista Aldina Duarte e com o seu fado cru, descarnado, sentido, longe, tão longe (uuups!) dos trinadinhos, dos floreados e dos agudíssimos de outras cantoras. E, apesar de em Aveiro ter demorado algum tempo até encontrar o rumo da voz, quando engatou fê-lo com uma alma e um espírito e um coração enormes. E com uma característica que a diferencia de muitas outras cantoras contemporâneas: em Aldina não está... Amália Rodrigues. Antes estão lá Hermínia Silva, Beatriz da Conceição, Lucília do Carmo, Argentina Santos. Amália, nunca. E com outra, esta felizmente comum a muitas outras cantoras: as letras (dela ou de João Monge) são sempre muito boas. E só assim, com letras tão boas, se pode imaginar que se pode pegar nas pontas do arco-íris e fazer dele um cachecol...

Para fechar a programação da sala principal do Teatro Aveirense estava reservada uma excelentíssima surpresa: o compositor e multi-instrumentista (bandolim, banjo, guitarra... e voz num tema do concerto) francês René Aubry deu outro fabuloso concerto. Na sua música - muita dela feita para filmes e bailados, nomeadamente de Pina Bausch - coabitam Nino Rota e Pascal Comelade, Michael Nyman e rembetika grega, a Penguin Cafe Orchestra e fado, música napolitana e um catálogo completo mas não ortodoxo de compositores clássicos. Toda ela sempre apresentada com uma originalidade e um brilho extraordinários e bem servida por uma «orquestra» maravilhosa.

O fim do festival foi protagonizado pelos Dazkarieh, que actuaram no Salão Nobre perante uma plateia completamente rendida à sua folk eléctrica e electrizante. Pena foi o péssimo som durante grande parte do concerto. Como pena foi que as sessões de contos não tenham decorrido à tarde ou, em alternativa, num espaço diferente do do bar do Teatro, com o burburinho natural circundante. Mas isto são apenas pormenores menores de mais um SET inesquecível.

02 novembro, 2006

Sons em Trânsito - Romaria a Aveiro


Aproxima-se uma nova e previsivelmente excelente (pelos nomes seleccionados) edição do Festival Sons em Trânsito - SET - em Aveiro. Quatro dias - 29 e 30 de Novembro, 1 e 2 de Dezembro - com muita da melhor música que se faz por esse mundo fora, de Portugal à Índia, do País Basco à Argentina, de França a Itália e ao Mali. Sempre no Teatro Aveirense.

Dia 29, o festival abre com concertos do argentino Cristóbal Repetto, jovem cantor de tango, e com a fusão de piano e da kora mandinga protagonizada pelo italiano Ludovico Einaudi e pelo jali maliano Ballaké Sissoko. Dia 30 é a vez de outros dois mestres nos seus instrumentos: o indiano Debashish Bhattacharya (em guitarras-slide inspiradas em instrumentos tradicionais como a sitar ou a veena) e o regresso do basco Kepa Junkera (na foto), com a sua trikitixa (acordeão diatónico) mágica. Dia 1, a luso-cabo-verdiana Sara Tavares apresenta o seu novo e belíssimo álbum «Balancê» enquanto os franceses atravessados pelo espírito do norte de África Lo'Jo ficam a prometer festa parecida à que assinaram, o ano passado, em Loulé. Para terminar, dose tripla com o fado em carne-viva de Aldina Duarte, as bandas-sonoras de René Aubry e a folk electrizante dos Dazkarieh. Para além dos concertos, a quinta edição do Sons em Trânsito inclui também as já habituais sessões de contos e uma feira do disco. Mais informações aqui.