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28 setembro, 2014
O Gesto Orelhudo - E Com Auriculares Numa Mão Cantante (e Contente!)
O Gesto Orelhudo -- mais uma das mil invenções da d'Orfeu, em Águeda, que eu tanto amo! -- está de rgresso com um elenco absolutamente maravilhoso. Aqui fica o programa (com destaque para o concerto "Liberdade" do enormíssimo Sérgio Godinho.
Festival “O Gesto Orelhudo”
ÁGUEDA, 1 a 4 Outubro 2014
http://www.dorfeu.pt/ogestoorelhudo
P R O G R A M A C O M P L E T O
Q U A R T A 1 O U T U B R O
19h00 | bard'O
“Hamlet em Pessoa”, André Gago e Carlos Barretto
Concerto poético que junta o contrabaixista e improvisador Carlos Barretto ao actor André Gago, numa viagem pelas palavras de poetas maiores. Ou como a poesia dita por um grande diseur se alia ao magnífico instrumento que é o contrabaixo. E logo nas melhores mãos.
21h30 | Cine-Teatro São Pedro
“Deixem o Pimba em Paz”, de Bruno Nogueira
Fascinado pelo universo pimba, Bruno Nogueira propôs-se dar uma oportunidade a essas canções, convidando grandes músicos a vesti-las com arranjos muito pouco prováveis, num registo jazz e pop de extremo bom gosto. No final, chega a pairar a ideia de que, afinal, a credibilização é possível. É que os novos arranjos fazem mesmo muita diferença.
Q U I N T A 2 O U T U B R O
19h00 | Johnny 101
“20Dizer”, Trigo Limpo teatro ACERT
A mestiçagem da declamação de José Rui Martins com a música da flautista e cantora Luísa Vieira celebram as palavras da lusofonia. Do calor sensual do Brasil à ainda mais quente África, passando pelo Portugal dos costumes, 20Dizer é pura ironia na ponta da língua.
21h30 | Cine-Teatro São Pedro
“The Best Of” Leo Bassi (Itália)
Eis que regressa Leo Bassi, o provocador, num especial que recompila os melhores números da sua carreira. Por Águeda apenas passaram duas das suas obras, mas as marcas do vendaval cómico deste italiano ficaram. Um espectáculo antológico do génio maior de uma estirpe de palhaços que fez do humor uma arma pacífica para a mudança de mentalidades.
23h15 | Tenda Espaço d'Orfeu
“Cita a Ciegas”, Murmuyo (Chile)
Em transgressão com o mimo clássico, o chileno Murmuyo não actua a solo: o público entra no espectáculo, quer queira quer não. A empatia é imediata, pela ternura da sua aparência de super-herói de banda desenhada, mas ele provoca e quer ser provocado. No meio da assistência, encontra sempre a sua vítima, que se torna protagonista. Um mimo.
S E X T A 3 O U T U B R O
19h00 | Fundação Dionísio Pinheiro
“Circo Mediático”, Américo Rodrigues, César Prata e Victor Afonso
Literatura tóxica por Américo Rodrigues, música em tempo real por César Prata e Victor Afonso. O circo mediático em que vivemos dinamita as regras de bom comportamento, também na criação artística. A espiral de palavras encontra conforto (e confronto) nos sons.
21h45 | Cine-Teatro São Pedro
“Liberdade”, Sérgio Godinho
Um dos mais importantes criadores do burgo revisita as últimas quatro décadas da sua obra, desde a música empenhada, bandeira de consciência colectiva, ao diário íntimo e plural. A visão incontornável de um artista maior. Muitos anos depois, tão inventivo quanto interventivo, regressa ao festival o músico Sérgio Godinho, um senhor actor em palco.
23h30 | Tenda Espaço d'Orfeu
“Que Raro, Verdad?”, Hermanos Infoncundibles (Espanha)
Os inconfundíveis Hermanos Infoncundibles – não confundir com Inconfundibles - são uma dupla clássica do novo circo andaluz. São músicos, malabaristas e comediantes e, neste seu espectáculo para todos os públicos, batem-se em acrobáticos duelos musicais. Estranho por todo o mundo, menos no Festival “O Gesto Orelhudo”, a casa da musicomédia.
S Á B A D O 4 O U T U B R O
21h45 | Cine-Teatro São Pedro
The Vocal Orchestra (Inglaterra)
The Vocal Orchestra apresenta, pela primeira vez em Portugal, a sua incrível performance musical. Uma celebração universal usando apenas sete vozes e sete microfones. Beatbox humano, harmonias vocais e gloriosas batidas. Nada de instrumentos. Espectáculo original criado pelo internacionalmente aclamado beatboxer britânico Shlomo. De tirar o fôlego.
23h30 | Tenda Espaço d'Orfeu
“Peter Punk e o Neno Imperdible” (Galiza, Espanha)
Descoberta recente do público d’Orfeu (no último Festival i), Peter Punk regressa com o seu mais orelhudo espectáculo, no qual compartilha o palco com o polivalente músico Brais das Hortas. Um artista de circo e um músico. Ambos palhaços, cada um à sua maneira, em constante reconciliação consigo próprios, para consciência da dimensão solidária do clown.
[ I N F O R M A Ç Ã O S O B R E B I L H E T E S ]
http://www.dorfeu.pt/ogestoorelhudo
[ L I B R E T O D I G I T A L ]
http://issuu.com/dorfeu/docs/programa_fogo2014/1?e=1027118/9157281
23 maio, 2012
Gaiteiros de Lisboa - Finalmente, O Novo Álbum!
Olhe-se só a bela da notícia (e, para mim, ainda mais especial já que fui eu que sugeri o namoro entre as partes envolvidas :)
«GAITEIROS DE LISBOA
NOVO DISCO "AVIS RARA"
d'Eurídice | 4 Junho 2012
http://www.dorfeu.pt/gaiteirosdelisboa
Diz-se de pessoa, embora benquista, que visita raramente. (in Dicionário Juridico de Latim)
Pessoa que raramente aparece ou difícil de encontrar.
Pessoa de raras qualidades ou de raro talento.
Eis o aguardado regresso em disco do grupo mais emblemático, original e provocador na reinvenção da música tradicional portuguesa.
Os Gaiteiros de Lisboa apresentam "Avis Rara", o novo trabalho discográfico onde a ousadia e originalidade são asas da imaginação, numa viagem pela Portugalidade em pleno século XXI. A acompanhá-los neste périplo, um elenco de convidados de luxo: Adiafa, Zeca Medeiros, Sérgio Godinho, Armando Carvalhêda e Ana Bacalhau.
Dizem-se de Lisboa, mas o reconhecimento vai além-fronteiras como embaixadores e memória viva da nossa identidade musical, com um historial de concertos e sucessos que fala por si. Editado sob a chancela da d'Eurídice, o braço editorial da d'Orfeu Associação Cultural, este novo disco "Avis Rara" confirma, uma vez mais, como os Gaiteiros de Lisboa têm uma extraordinária capacidade de renovação aliada à qualidade, cada vez mais rara, de artesãos criativos.
Segundo Carlos Guerreiro, «Avis Rara é um título que de certa forma traduz o conteúdo deste trabalho, não só pela estranheza de sons e arranjos que ele contém, como pela, originalidade e irreverência na abordagem do já tão explorado filão da Música Tradicional Portuguesa. É o seguimento natural de todos os que lhe antecederam, reafirmando a atitude pioneira do Grupo quanto ao experimentalismo sonoro e à consequente criação de instrumentos não convencionais.»
Um álbum de 10 novas canções, entre temas originais e cancioneiro popular, que aqui ganham novos voos e nos levam numa viagem por um mundo fascinante de polifonias, poemas e melodias.
Com data de lançamento a 4 de Junho de 2012, a edição de "Avis Rara" conta com o apoio oficial Disco Antena 1 e terá uma série de cinco concertos de apresentação no âmbito do próximo “Festim - festival intermunicipal de músicas do mundo”, concretamente em Estarreja (8 Junho), Ovar (22 de Junho), Sever do Vouga (23 de Junho), Albergaria-a-Velha (24 de Junho) e Águeda (26 de Julho). Toda a informação em http://www.festim.pt.
Material promocional:
http://www.dorfeu.pt/gaiteirosdelisboa
Alinhamento:
01 / Fez Sábado Quinta-Feira / 4’57’’ (com Adiafa)
02 / Pragas / 3’41’’ (com Zeca Medeiros)
03 / A Devota da Ermida / 3’52’’
04 / Avejão / 3’52’’ (com Sérgio Godinho e Armando Carvalhêda)
05 / Moinho de Mão / 4’48’’
06 / A uma Ingrata / 4’19’’
07 / Conde Ninho / 4’09’’
08 / Os Palácios da Rainha / 2’36’’ (com Ana Bacalhau)
09 / S. João / 4’02’’
10 / Proparoxitonias / 9’05’’
Ficha artística:
Carlos Guerreiro: Voz, Percussão, Sanfona, Clarinete, Clarinete baixo
José Manuel David: Voz, Sanfonocello, Mbiras, Trompa, Gaita-de-Foles, Flautas, Percussão
Paulo Marinho: Gaita-de-Foles, Flautas, Percussão, Voz
Rui Vaz: Voz, Gaita-de-Foles, Percussão
Pedro Casaes: Voz, Tambor de Cordas, Percussão
Pedro Calado: Percussão, Voz, Tubarões (imaginofone harmónico)
Ligações:
http://www.dorfeu.pt/gaiteirosdelisboa
http://www.gaiteirosdelisboa.com
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17 agosto, 2011
Festa do Avante 2011 - O Programa Completo
A Festa do «Avante» comemora 35 anos de existência e tem, mais uma vez, uma programação musical bastante apelativa. Dias 2, 3 e 4 de Setembro de 2011, na Quinta da Atalaia, Seixal -- e com a EP a custar 20 euros (até 01/09) e 30 euros (dias da festa) -- sobem aos palcos principais:
Sérgio Godinho (que comemora 40 anos de carreira discográfica)
Trovante (que comemoram 35 anos de carreiura, iniciada exactamente na primeira Festa do Avante)
X-Wife
Xutos & Pontapés
Virgem Suta
The Underdogs
Tim e Companheiros de Aventura
The Poppers
The Happy Mothers
Terrakota
Susana Santos Silva Quinteto
Rock Alentejano (comédia/música)
Ritinha Lobo (Cabo Verde)
Quempallou (Galiza)
Sean Riley & The Slowriders
Pé na Terra
Nuno Dias
Mosto
Mayra Andrade (Cabo Verde)
Mário Alves
Maria Anadon Latin Jazz Quartet
Marco Rodrigues
Luísa Rocha
Luís Rodrigues
La Chiva Gantiva (Colômbia)
L.U.M.E
João Pedro Cabral
Inês Thomas Almeida
Gattamolesta (Itália)
Júlio Resende International Quartet
Expensive Soul & Jaguar Band
David Rovics (Estados Unidos)
Dead Combo & Royal Orquestra das Caveiras
Clã (em conncerto normal e num espectáculo para crianças)
Coro do Tejo
Danças Ocultas
Coro da Câmara da Lisboa
Bela Nafa (Guiné-Bissau)
Budda Power Blues
Ana Paula Russo
Amor Eletro
Camané
Anxo Lorenzo (Galiza)
4uatro ao Sul
Ópera dos 5 Cêntimos
Caminhos do Mar
Che Sudaka (Argentina/Colômbia/Catalunha; na foto)
Daniel Shvetz Tango Trio
Gonçalo Sousa
Gala de Ópera (espectáculo de abertura)
01 julho, 2011
"Raízes e Antenas - Mistérios e Maravilhas da World Music" Re-apresentado no FMM de Sines
O livro que tem como base os duzentos "Cromos Raízes e Antenas" aqui publicados ao longo de dois anos foi o ano passado pré-apresentado no FMM de Sines. Este ano vai haver nova apresentação, já com o livro em papel e não em PDF. E vai haver, claro, conversas à solta. Segue o programa completo dos Encontros com Escritores do FMM deste ano:
Encontros com Escritores
Centro de Artes de Sines – Espaço de Periódicos | 23 a 30 de Julho | Ver horários abaixo | Entrada livre | Parceria Câmara Municipal de Sines / Livraria a das artes
23: ANTÓNIO PIRES (17H00)
Ao longo da carreira, o jornalista António Pires tem dedicado uma atenção especial às músicas do mundo. O livro “Raízes e Antenas”, que aqui apresenta, revela alguns dos seus mistérios e maravilhas.
24: LUÍS FILIPE CRISTÓVÃO (17H00)
“Afonso e o livro”, de Luís Filipe Cristóvão (texto) e Amélie Bouvier (ilustração), aborda a construção de um livro, do texto à paginação e à impressão. Para pais e filhos.
26: LÍDIA JORGE (18H30)
Lídia Jorge, nome central da literatura portuguesa contemporânea, apresenta o seu último romance, “A Noite das Mulheres Cantoras”, sobre o êxito e os seus custos.
27: SÉRGIO GODINHO (17H00)
Sérgio Godinho, um dos cantautores portugueses mais exigentes com a palavra, apresenta o seu novo livro de poesia, “O Sangue Por Um Fio”, edição da Assírio & Alvim.
29: JOSÉ DUARTE (17H00)
José Duarte, alcunha “Jazzé”, é um dos maiores divulgadores do jazz no nosso país. Vem ao FMM apresentar “Jazzé e outras músicas”, colectânea de textos publicados nos anos 80.
30: CARLOS CLARA GOMES E JOSÉ MOÇAS (17H00)
Apresentação do CD / livro “Auto da Fonte dos Amores”, ópera popular baseada na paixão de Pedro e Inês, com a presença do autor, Carlos Clara Gomes, e do editor, José Moças.
07 fevereiro, 2011
Colectânea de Textos no jornal "i" - XXII
Promessas, apostas e certezas de 2010
Publicado em 07 de Janeiro de 2010
Os críticos e jornalistas de música deveriam ter desistido de fazer apostas para o que de importante virá a seguir ("the next big thing", em inglês) desde que Jon Landau - célebre jornalista norte-americano - viu "o futuro do rock'n'roll e o futuro chama-se... Bruce Springsteen". Não que Landau estivesse errado, longe disso!, mas porque foi o único que acertou (totalista entre milhões de apostadores) numa infindável roda da sorte que só raras vezes, demasiado raras, acerta na mosca. Mesmo assim, arriscamos: o futuro próximo, imediato, urgente, da música portuguesa passa pelos blues renovados dos Nobody's Bizness (primeiro álbum de estúdio quase a sair); pela música tradicional portuguesa moída nos crivos das electrónicas dos Charanga; pela pop inteligente e livre dos peixe:avião; por um novo grupo de Castelo Branco, Ninho, que secretamente reinventa a tradição; pelos açorianos Bandarra (na foto), que, assombrados por alguns cantores de Abril, ainda acreditam numa música de intervenção (nas palavras e na própria música em si); pelos Anaquim, de Coimbra, que fazem a ponte, de modo particularmente inteligente, entre Sérgio Godinho, os Virgem Suta e um eventual e utópico indie rock islando-canadiano; e pelos Orelha Negra, veteranos da cena fusionista lisboeta (Cool Hipnoise e suas margens), com canções que são clássicos instantâneos da soul, do funk e do disco. Certezas absolutas: os novos álbuns do fadista Ricardo Ribeiro e dos revolucionários - cada uns à sua maneira - Deolinda e Gaiteiros de Lisboa (*).
3 pistas... mas muitos caminhos
Publicado em 14 de Janeiro de 2010
Henrique Amaro, há muitos anos o maior divulgador radiofónico de música portuguesa - e também responsável por várias colectâneas de música nacional (e brasileira), pelos "unpluggeds" da Antena 3, por álbuns de homenagem (nomeadamente, a Adriano Correia de Oliveira) e pela direcção artística da editora Optimus Discos - reincidiu agora numa outra excelente ideia: o segundo volume do "3 Pistas". É simples: cada banda ou artista dispõe apenas de três canais de gravação (podem usar três microfones ou um microfone e duas vias para instrumentos, por exemplo), e cada um deles interpreta um tema seu e uma versão. E o resultado deste segundo volume, tal como do primeiro, é um desfilar infindável de boas surpresas: do consagrado Sérgio Godinho a interpretar "Heat de Verão" (com letra dele, mas oferecida originalmente ao Gomo) aos d3ö a desconstruírem "Rehab", de Amy Winehouse, ou aos Noiserv a fazerem uma excelente versão de "Where Is My Mind", dos Pixies. Mas o mais curioso deste segundo "3 Pistas" é que a maior parte das versões são de temas de artistas e bandas portuguesas: os Linda Martini (na foto, de Paulo Leal) reinterpretam Fernando Tordo, Paulo Praça homenageia os GNR, Tiago Guillul e Margarida Pinto os Heróis do Mar, os Cindy Kat vão aos Sétima Legião e Os Pontos Negros atiram-se a... Armando Gama. A música portuguesa está a virar-se para o seu interior, redescobrindo-o e reinventando-o. E isso é um bom sinal.
A música portuguesa será exportável?
Publicado em 21 de Janeiro de 2010
O último número da revista "Ticketline" incluía uma reportagem com os Moonspell em digressão pelo Leste da Europa. E dava conta de como esta banda de metal portuguesa é acarinhada e respeitada por lá. Como em muitos outros países. Mas é um caso raro de exportação de sucesso de música portuguesa (ou, se se preferir, de música feita por portugueses). No passado, são poucos os exemplos de nomes portugueses que conseguiram saltar as fronteiras do rectângulo: Amália (claro!), mas também Luís Piçarra - que actuou em todo o mundo e vendeu muitos milhares de discos no estrangeiro (diz-se que um milhão de exemplares, só da sua versão de "Coimbra" em francês, "Avril au Portugal") -, o Duo Ouro Negro e os Madredeus. Mais recentemente, Dulce Pontes, Mísia e Mariza (e outros fadistas, incluindo desvios como os Deolinda) levaram o fado a todo o lado. No estrangeiro, aliás, o fado ainda é sinónimo de toda a música tradicional portuguesa, não havendo casos de sucesso (à excepção dos Dazkarieh, que juntam à tradição uma boa dose de distorção rock) de artistas ou grupos de música tradicional de inspiração rural. Noutros pequenos nichos de mercado - Fonzie, Rafael Toral, Les Baton Rouge, Blasted Mechanism, Parkinsons, Wray Gunn (na foto) e poucos mais -, os portugueses são igualmente bem aceites. Mas a pop/rock mainstream nunca o conseguiu. Segunda pergunta (subsidiária da do título): para quando a criação de uma estrutura oficial de apoio à promoção, divulgação e exportação da nossa música?
(*) - Infelizmente, mais de um ano depois da publicação deste texto, o álbum dos Gaiteiros de Lisboa continua sem ser editado. Quando o será?
12 julho, 2010
Colectânea de Textos no jornal «i» (VI)
Os Três Senhores
por António Pires, Publicado em 27 de Agosto de 2009
O encontro estava pensado há muito tempo, mas só agora se vai concretizar: José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto vão dar dois concertos em conjunto (um em Lisboa, a 22 de Outubro; outro no Porto, a 31 do mesmo mês), em que vão cantar canções próprias e dos outros companheiros em palco - e, aposto, também de José Afonso, o "pai" musical e ideológico deles todos -, a solo, em duo ou em trio. Os espectáculos - e não é preciso ser a Maya para prever que serão dos mais relevantes de sempre da música portuguesa - serão gravados para posterior edição em CD e DVD. Há cinco anos (Maio de 2004), a propósito da edição do álbum "Resistir É Vencer", em que participavam como convidados Sérgio Godinho e Fausto, fiz uma entrevista a José Mário Branco em que lhe perguntava: "Em que pé está a ideia de fazer um espectáculo conjunto dos três?" A resposta de José Mário Branco foi exemplar: "Para já é só um projecto. Mas é daquelas coisas que, como se costuma dizer, não gostaria de morrer sem fazer, sem que esse espectáculo conjunto acontecesse. Mas um espectáculo em que fizéssemos músicas originais não seria um espectáculo do género: 'Olha ali aqueles três velhinhos a olharem para o passado.'" E, a julgar pela influência que os três têm tido na música portuguesa actual - audível em inúmeros artistas e grupos de variadas famílias musicais -, não se duvida um só segundo que estes "Três Cantos" (na foto, de Augusto Brázio) vão ser dois concertos que também irão lançar muitíssimas sementes para o futuro.
Toquem Gaiteiros, que nós dançaremos
por António Pires, Publicado em 03 de Setembro de 2009
A chegar à "maioridade" - são já 18 anos de carreira! -, os Gaiteiros de Lisboa estão prestes a editar um novo álbum, onde terão a companhia de Ana Bacalhau (Deolinda), Sérgio Godinho, Zeca Medeiros e Adiafa. E este texto serve para celebrar, por um lado, a notícia de um disco novo dos Gaiteiros de Lisboa, sem dúvida a banda- -charneira da renovação da música tradicional portuguesa, fazendo a ponte entre José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto e GAC - Vozes na Luta e dezenas de novos grupos portugueses. E, por outro, para lhes fazer justiça num pormenor muitas vezes esquecido: a sua importância na transmissão pelo gosto da aprendizagem da gaita-de-foles às gerações mais novas. Curiosamente, um dos músicos dos Gaiteiros de Lisboa, Paulo Marinho, começou esse trabalho quando ainda fazia parte de uma banda de... rock, os Sétima Legião, que nos anos 80 levaram a gaita transmontana e galega ao conhecimento de muitos rapazes e raparigas dos grandes centros urbanos. Agora, em 2009, há gaiteiros em inúmeros grupos que não são só de gaitas-de-foles, mas também há outros - de Trás-os-Montes às regiões sulistas - que têm na gaita (e na caixa e no bombo) o seu instrumento preferencial: Galandum Galundaina, Roncos do Diabo, Lenga-Lenga, Velha Gaiteira, Gaiteiros de Alcochete, Cornes e Míscaros são apenas alguns deles. E - a atestar o crescimento do fenómeno - até há um grupo na Casa Pia. (*)
Roberto... Leal às raízes
por António Pires, Publicado em 10 de Setembro de 2009
Os músicos e cantores que mudam de rumo musical não são uma grande novidade. Só para nos cingirmos ao caso português, relembre-se como - entre tantos outros - José Cid já passou pela pop, pelo rock progressivo, pela música ligeira, pelo jazz ou pelo fado (é, sem dúvida, o maior "camaleão" da música nacional); Rão Kyao saltou do saxofone jazz para as flautas do mundo; Vítor Rua renegou a pop para se atirar à música arty e experimental. Até Amália Rodrigues tentou trocar o fado por outras coisas quaisquer (da música espanhola e italiana ao folclore ou àquele objecto não identificado chamado "O Sr. Extraterrestre"). Mas o caso de que falamos hoje é ainda mais extremo: Roberto Leal, o maior embaixador da música portuguesa no Brasil - e obedecendo quase sempre ao grande requisito desse estatuto (também sublinhado quando os malogrados Mamonas Assassinas assinaram o seu êxito "Vira-Vira") que é ser profundamente «'tuga» e... foleiro - deu, de há dois anos para cá, uma volta enorme na sua carreira. Fazendo apelo à sua condição de natural de Macedo de Cavaleiros, Leal editou "Canto da Terra" em 2007, um disco em que cantava temas tradicionais transmontanos, com músicos da Brigada Victor Jara e dos Galandum Galundaina. Ainda se pensou que era um capricho passageiro, mas agora surge "Raiç/Raiz", onde o reportório é um pouco mais alargado, mas em que Trás-os-Montes continua presente, e com um acentuado grau, se não de pureza, pelo menos de um respeito enorme. E com os mesmos bons músicos, também.
(*) - Nota... má: dez meses depois da publicação deste texto no "i", o novo álbum dos Gaiteiros de Lisboa ainda não foi editado - culpa da crise, da vontade da indústria discográfica, de outra (não) vontade qualquer... Um dia destes há-de existir, espero!
10 dezembro, 2008
Cantos na Maré - A edição 2008 Começa Hoje
Com direcção artística da cantora Uxía e direcção musical de Paulo Borges, a edição deste ano do Cantos na Maré - Festival Internacional da Lusofonía, inicia-se hoje, dia 10, em Pontevedra, Galiza, com uma mostra de cinema e continua nos próximos dias com um grande concerto que vai reunir Paulinho Moska (Brasil), Sara Tavares (Cabo Verde), Waldemar Bastos (Angola), Sérgio Godinho (Portugal) e Xabier Díaz (Galiza) - no dia 13 -, encontros com artistas lusófonos e a constituição de uma rede de agentes e produtores ligados à música do espaço lusófono.
Para quem não sabe, o Cantos na Maré - Festival Internacional da Lusofonía «é un proxecto cultural pioneiro e exclusivo no estado español, creado en Galiza cunha singular aposta cultural: trazar a través da lingua, da música, dos ritmos e dos sons un mapa común entre os territorios da lusofonía que comparten raíces.
CNM é unha iniciativa de aproximación de culturas e do fomento da diversidade, da interacción e da apertura de oportunidades á creación artística e ao intercambio.
O espectáculo musical, baseado na investigación e no enriquecemento, representa un dos eixes básicos da estrutura do proxecto. Este intercambio cultural activo é a base da filosofía, resultando un produto musical exclusivo de altísima calidade artística e humana».
Toda a informação, aqui.
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Waldemar Bastos,
Xabier Díaz
07 janeiro, 2008
Sérgio Godinho & Os Assessores - O Álbum ao Vivo
Com os arranjos de Nuno Rafael e a banda Os Assessores, a música de Sérgio Godinho rejuvenesceu, ficou ainda mais fresca e actual, ganhou nuances que nunca tinha tido e reforçou outras que tinha desde sempre. E quem viu os espectáculos de Godinho nos últimos anos sabe bem que isto é verdade. Agora, para tirar as dúvidas a quem não (ou)viu e para deleite de quem pode (re)ouvir vem aí o álbum ao vivo «Nove e Meia no Maria Matos», que é editado pela Universal em parceria com a EMI, dia 28 de Janeiro. No álbum, gravado ao vivo no Teatro Maria Matos, em Lisboa, entre os dias 16 e 20 de Maio de 2007, participam, para além de Godinho, Os Assessores: Nuno Rafael (direcção musical, guitarras, programação, máquina de escrever e coros), Miguel Fevereiro (guitarras, percussão e coros), João Cardoso (piano, teclados e coros), Nuno Espírito Santo (baixo e coros), Sérgio Nascimento (bateria, percussão e coros), Sara Côrte-Real (coros, teclados e percussão) e João Cabrita (sopros e coros). E no alinhamento estão presentes temas recentes (como os que Sérgio Godinho gravou com esta mesma banda no álbum «Ligação Directa») mas também muitos dos seus clássicos, incluindo uma surpresa bem-vinda: «É Tão Bom» (o tema principal da banda-sonora da série «Os Amigos de Gaspar»), primeiro single retirado de «Nove e Meia». As outras canções do álbum são «O Primeiro Gomo da Tangerina», «Dias Úteis», «A Deusa do Amor», «Às Vezes o Amor», «Arranja-me Um Emprego», «Marcha Centopeia», «Só Neste País», «O Velho Samurai», «Com um Brilhozinho nos Olhos», «Espectáculo», «O Rei do Zum Zum», «Dancemos no Mundo», «O Homem Fantasma», «A Democracia», «O Primeiro Dia», «Liberdade» e «Quatro Quadras Soltas».
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Sérgio Godinho
17 dezembro, 2007
Cristina Branco - As Voltas do Fado (Mudado)
Desde o início da sua carreira, Cristina Branco (na foto; de Luís Barros) nunca se deixou prender apenas nas malhas do fado. E surpreendeu, sempre, pelo reportório escolhido para os seus álbuns. Hoje, dia 17, Cristina Branco termina a primeira fase da sua digressão «Abril» no mesmo local em que o álbum homónimo, inteiramente dedicado à obra de José Afonso, nasceu: o Teatro Municipal de S.Luiz, em Lisboa. E, a acompanhar a notícia deste «intermezzo» da digressão, vem outra: no próximo álbum, já em preparação, Cristina Branco volta a surpreender, ao convidar compositores exteriores ao fado para escreverem as canções do disco. Com um mote comum que lhes foi dado pela cantora - o «Tempo» -, estão já arrolados para o álbum temas originais de Sérgio Godinho (letra e música), Jorge Palma (letra e música), Vitorino (letra e música), Pedro Abrunhosa (letra e música), Janita Salomé (música para um poema de Hélia Correia) e, ainda, uma participação do pintor Júlio Pomar (autor da capa?; fica a dúvida). Já a digressão «Abril» volta à estrada em... Maio.
03 dezembro, 2007
Sons em Trânsito - Tratados de Pastelaria Regional (e Global)
A última - e absolutamente maravilhosa - edição do Festival Sons em Trânsito terminou às tantas da manhã de sábado (já domingo), com uma prova aberta de doçaria regional aveirense e com os bolos a desaparecerem em pouquíssimos minutos. Eu, que tinha ido comprar tabaco à Praça do Peixe depois do fim do concerto do Capossela, já só rapei, digamos, o fundo ao tacho. Mas não me importei porque, na sala ao lado, a Raquel Bulha passava óptima música para dançar enquanto o José Carlos Fernandes desenhava e aguarelava as músicas e os músicos que se ouviam. Um docinho completo. Como de outros doces se pode falar em relação aos concertos todos (todos!) do festival.
Na quarta-feira, o imenso bolo de noiva cigano, com toques de zimbro, de canela e de pinhões da Fanfare Ciocarlia, festa imensa que não durou três dias mas durou o tempo de um concerto fabuloso - com a Fanfare a ser acompanhada pela rainha Esma Redzepova (abençoada voz!), pela princesa Florentina Sandu, pelos pagens Kaloome (a fazer a ponte entre os ciganos do sul e os do norte) e o gato das botas altas Jony Iliev - e um «after-hours» na rua, com os metais da Fanfare a bombarem dança e boa disposição durante muito tempo! Na quinta, com as castanhas assadas lisboetas que são os Deolinda, a queimarem nas mãos de tão novas e quentes que são, acompanhadas por um vinho novo que é um fado virado do avesso, alegre, vivo, simples e cheio de sentido de humor (as aletrias, perdão, as letras por Ana são deliciosas!). E, falando em letras, e aletrias, e aliterações, e frases feitas - as melhores frases feitas da música portuguesa -, Sérgio Godinho deu um concerto extraordinário, em que os inventivos e frescos arranjos de Nuno Rafael se estendem a canções novas (o «Só Neste País», repete-se aqui neste blog, devia ser o hino nacional) e antigas (de «O Charlatão» a «Quatro Quadras Soltas» ou ao delicioso e doce «O Primeiro Gomo da Tangerina», iluminadas por um som novo e actualíssimo.
Já na sexta, o degustar começou em África, com a música dulcíssima, lindíssima, com um travozinho de bom grogue, do compositor, guitarrista e cantor cabo-verdiano Tcheka, uma música sentida e pessoal que não é devedora de muita da música cabo-verdiana que nós conhecemos; antes uma música nova e que há-de, se tudo correr bem, ser importantíssima - só foi pena o concerto ter sido demasiado curto e ter, por isso, «sabido a pouco». Depois, um autêntico ovo mole, um concentrado explosivo e calórico inesperado com a anglo-francesa Jane Birkin: ela não canta quase nada, mas a maneira como interpreta (principalmente, as canções de Serge Gainsbourg, seu grande amor e o principal homenageado neste concerro) são de uma doçura, de uma candura, de uma simplicidade e de uma simpatia que é quase impossível não nos deixarmos encantar por ela. E o rebuçado que foi «O Leãozinho», de Caetano Veloso, desfez-se-nos na boca... E no sábado, a grande surpresa: o canadiano Gonzales (na foto), aqui em registo piano solo, num espectáculo em que a música erudita (ele é um pianista muitíssimo bom, virtuoso e divertidíssimo!) está lá, evidente ou como referência - de Chopin a Satie - mas estão lá também o «Somewhere Over The Rainbow» e... os Queen, os Bee Gees, os Soft Cell! Um cientista de luvas brancas na arte de preparar crepes em que os ingredientes são completamente inesperados. E, para final de festa, e para descongestionar de tanto doce, a cozinha ora pesada ora picante ora exótica ora feita de inúmeras nuances do italiano Vinicio Capossela, um fabuloso mestre-cozinheiro que doseia com sabedoria os momentos mais calmos (há canções de amor, mesmo canções de amor!, que são de uma beleza infinda), o humor («Maraja»), a música épica dos peplums («Al Colosseo») e o terror («Brucia Troia»). E há teatro - Capossela é também um performer (momento mais alto: quando se senta ao piano, abre um guarda-chuva e toda a gente na plateia começa a estalar os dedos imitando o som das gotas) e projecções (com imagens e... legendas em óptimo português) e uma banda competentíssima (onde brilha Vincenzo Vasi num theremin mágico). Saí do Teatro Aveirense e de Aveiro completamente alambazado mas com imensa vontade de repetir as doses todas...
27 novembro, 2007
Sons em Trânsito - Os Semáforos Passam a Verde Amanhã
O Festival Sons em Trânsito começa já amanhã, quarta-feira, no Teatro Aveirense, e logo com a celebração pan-europeia da grande família cigana presente em «Queens and Kings», o último álbum dos romenos Fanfare Ciocarlia, que em Aveiro se vão apresentar com muitos dos seus convidados que co-protagonizam este disco. Logo a seguir, na quinta-feira há concertos dos Deolinda - um dos mais interessantes novos projectos desviantes do fado - e de Sérgio Godinho, do qual basta dizer o nome para se saber ao que se vai. Na sexta-feira o palco é ocupado por um dos mais talentosos nomes da música cabo-verdiana, o cantor e guitarrista Tcheka, e pela diva anglo-francesa Jane Birkin, num espectáculo em que irá interpretar canções de Serge Gainsbourg (claro!) e dos álbuns «Rendez-vous» e «Fictions». Finalmente, na sexta, há concertos do canadiano Gonzales (num espectáculo para piano, câmara de filmar e... luvas) e do genial e inclassificável cantautor italiano Vinicio Capossela (na foto) e uma igualmente imperdível sessão de DJ de Raquel Bulha acompanhada pelos desenhos feitos em tempo real por José Carlos Fernandes, projecto nascido no MED de Loulé e agora já com nome: Disco Riscado. Mais informações aqui.
24 outubro, 2007
Sons em Trânsito 2007 - O Ano de Todas as Surpresas
A edição deste ano do Festival Sons em Trânsito - que decorre no Teatro Aveirense, em Aveiro, de 28 de Novembro a 1 de Dezembro - tem mais um programa de luxo, ecléctico e marcado por algumas surpresas. Este: dia 28, o festival arranca, em festa, com a música cigana de raiz dos romenos Fanfare Ciocarlia; dia 29 a noite é completamente portuguesa, preenchida com concertos do fado renovado dos Deolinda e a arte imensa de Sérgio Godinho; dia 30 há lugar para a nova música cabo-verdiana com Tcheka e, uma das grandes surpresas do festival, para a anglo-francesa Jane Birkin (na foto), ícone pop nos anos 60 que mais recentemente enveredou por uma leitura muito própria da música do norte de África com o álbum «Arabesque»; e dia 1, o festival tem mais uma surpresa, o pianista e mestre da electrónica (e não só!) canadiano Gonzales, e, para acabar em beleza, o festival termina com a música inclassificável e completamente imperdível do italiano Vinicio Capossela. A organização do SET é da empresa Sons em Trânsito, do Teatro Aveirense, da Câmara Municipal de Aveiro e da Rota da Luz.
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23 abril, 2007
Fausto, Godinho, Afonso, Vitorino, Branco - Barrigada de Boa Música na RTP
Hoje, segunda-feira, à noite, a RTP 2 transmite o histórico espectáculo «José Afonso ao Vivo no Coliseu» (gravado em Janeiro de 1983, no Coliseu dos Recreios de Lisboa). E no resto da semana, há ainda concertos de José Mário Branco (terça-feira; o concerto de apresentação de «Resistir É Vencer», de 2004, também no Coliseu de Lisboa), Sérgio Godinho (quarta-feira; o concerto «De Volta ao Coliseu», com Camané, Jorge Palma, Vitorino e David Fonseca como convidados), Fausto (quinta-feira; num concerto gravado em 1990) e Vitorino (sexta-feira; concerto gravado no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, em 1993). Sempre nas «Noites da 2». Por sua vez, a RTP 1 transmite, dia 24, o concerto de homenagem a José Afonso recentemente realizado na Galiza - «Sempre Abril» (Gala Homenaxe a Zeca) em que participaram artistas espanhóis, galegos, portugueses e africanos - Luis Pastor, Uxia, Faltriqueira, Antón Reixa, Dulce Pontes, Vitorino, Janita Salomé, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, Tito Paris e Manecas Costa, entre muitos outros. E no dia 25 de Abril, às 17h45, passa, também na RTP 1, o documentário «Não Me Obriguem a Vir Para a Rua Gritar/Tributo a Zeca Afonso», em que a «SubFilmes convidou vários artistas de áreas criativas contemporâneas para criarem uma obra de arte especialmente para Zeca Afonso», desafios aceites por músicos de estilos diferentes - Rádio Macau, Nancy Vieira, Couple Coffee, Vicious 5 e Raquel Tavares - e artistas de outras áreas: «a companhia de teatro Primeiros Sintomas, a dupla de videojamming Daltonic Brothers, Target e Mosaik no street art, Quebra-Diskos no turntablism», entre outras colaborações e tertúlias de reflexão à volta da obra de José Afonso.
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18 dezembro, 2006
Sérgio Godinho - «Só Neste País» a Hino Nacional, Já!
Estou a imaginar um estádio inteiro a assobiar o início da canção, qual «A Ponte do Rio Kwai», antes de um jogo da selecção. Estou a imaginar as deputadas da Assembleia da República a fazer a ladaínha sussurrada dos coros femininos da canção durante uma cerimónia oficial qualquer. Estou a imaginar os recrutas dos quartéis a fazer continência enquanto se ouve «E agora a Rima!», e a rirem entre dentes. Estou a imaginar a Banda dos Bombeiros Voluntários do Entroncamento - se existir - a atacar o final da canção, majestoso com ânimo. Estou a imaginar um país inteiro, o nosso, a cantar «Só Neste País», a canção que fecha o novo álbum de Sérgio Godinho e que é o mais perfeito retrato do nosso país em muitos anos. Merecia ser, desde já!, o nosso novo hino nacional (ver letra aqui em baixo, sff).
De resto - e isto não é uma crítica convencional ao disco - refira-se que não, «Ligação Directa» não é o melhor álbum de sempre de Sérgio Godinho - não podia!!! -, mas é muitíssimo bom... Nele há baladas puro-SG, um reggae arraçado à Police, uma marcha-ska-carrossel, um fake-country-chula (chula?), um tema («O Velho Samurai») cuja música parece saída de um misto de «banda-sonora» de Hollywood/anos 40 e Yann Tiersen, rock'n'roll de feira e circo (nos fabulosos «O Rei do Zum-Zum» e «No Circo Monteiro Nunca Chove», com mais dois grandes poemas, entre muitos, tantos outros, neste e noutros álbuns...), dois bons temas com músicas de Nuno Rafael e Hélder Gonçalves, e «Só Neste País» que, repete-se, é o Hino que todos nós merecíamos (para o bem e para o mal).
«SÓ NESTE PAÍS»
SÉRGIO GODINHO
Unamo-nos
Nós somos os famosos anónimos
Mesmo assim já cumprimos os mínimos
Somos todos únicos
Que mais vão querer de nós
Para provar quem vai à frente
Ou fica atrás
Se é por
Ir estabelecer um novo record
Compremos o Guinness
Ao preço que for
E fica o assunto homologado
E sai espumantes
Às vezes dá p'ra um banquete
Ou dele as sandes
Sempre
Complicamos a coisa mais simples
E simplificamos a complicada
Sai em rajada
O tiro pela culatra
Às vezes mata
Às vezes ressurreição
Foi de raspão
(Só neste país...)
Só neste país
É que se diz:
Só neste país
Só neste país
Só neste país
Só neste país
Só neste país
São muitos séculos em morna ebulição
A transitar entre o granizo e a combustão
E um qualquer hino
P'ra qualquer situação
A pessimista, a optimista...
E vai abaixo e vai acima
E vai abaixo, e vai acima
(e agora a rima):
Portugal é nosso p'ro bem e p'ro mal
E o mal que está bem
E o bem que está mal
E o bem que está bem
Juro
P'lo fado
P'lo baile e p'lo kuduro
Que este país 'inda tem futuro
É verde e maduro
Como a fruta, às vezes brota
Às vezes, consternação
Secou no chão
Por isso unamo-nos
Nós somos os famosos anónimos
Mesmo assim já cumprimos os mínimos
Somos todos únicos
Que mais vão querer de nós
Para provar
Quem vai à frente
Ou fica atrás...
(Só neste país...)
Só neste país
É que se diz:
Só neste país
Só neste país
Só neste país
Só neste país
Só neste país
(...)
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15 outubro, 2006
Sérgio Godinho - Com Novo Álbum e em Concertos
Seis anos depois do álbum de originais «Lupa» e três desde o álbum de duetos «O Irmão do Meio», Sérgio Godinho está de regresso aos discos com «Ligação Directa», que tem edição marcada para dia 23 deste mês. O álbum inclui dez temas, oito compostos por Godinho, um por Hélder Gonçalves (dos Clã, grupo com o qual Godinho gravou o álbum «Afinidades») e outro por Nuno Rafael, que também foi o produtor e director musical deste novo disco. O primeiro single retirado de «Ligação Directa» é «Às Vezes o Amor».
Os concertos de apresentação do álbum, «Sérgio Godinho (em) Ligação Directa», decorrem dia 30 de Novembro no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, e dia 7 de Dezembro na Casa da Música, Porto.
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05 setembro, 2006
Sérgio Godinho - O Elixir
Uma das coisas que continuam a maravilhar-me em Sérgio Godinho é a sua capacidade, levemente camaleónica, de se rejuvenescer, rejuvenescer sempre a cada ano que passa. Rejuvenescer a sua música, o seu público, as suas canções, as suas bandas, rejuvenescer-se a si próprio. O belíssimo concerto que Godinho deu na Festa do «Avante!» fez-me recuperar uma entrevista de Abril de 2003 a propósito da edição do álbum de duetos «O Irmão do Meio». Um novo álbum de originais («Lupa» é de 2000) já seria muito bem-vindo...
SÉRGIO GODINHO
MANO A MANO
Encontro de gerações, álbum de homenagem sem o ser, criações que se libertam do seu criador, um mostruário de algumas canções «enjeitadas», releituras livres, extraordinário exemplo da eterna juventude (com ou sem elixir) dos temas de Sérgio Godinho, tudo isto é «O Irmão do Meio», o álbum de duetos, trios e equipas inteiras em que Godinho lança as suas palavras ao vento. Com o sopro de Teresa Salgueiro, Xutos & Pontapés, Jorge Palma, Caetano Veloso, Da Weasel, Gabriel O Pensador, David Fonseca, Carlos do Carmo, Gaiteiros de Lisboa, Clã, José Mário Branco, Rui Veloso, Vitorino, Zeca Baleiro, Milton Nascimento, Tito Paris, Camané... Mano a mano.
Qual é o significado de «O Irmão do Meio»? Tem alguma coisa a ver com o facto de poderes ser considerado uma ponte entre gerações?
Sim. É esse o simbolismo evidente d'«O Irmão do Meio». E tenho, de facto, um irmão mais novo e um irmão mais velho... mas é evidente que tem esse simbolismo de diálogo inter-geracional. E isto, apesar de não gostar muito do termo «gerações»: primeiro, sinto-me em várias gerações e não me sinto agarrado a uma particularemente; fui evoluindo ao longo dos tempos. Em termos estritamente etários, neste disco há alguns que são mais velhos que eu, outros mais ou menos da minha idade e muitos que são muito mais novos. Durante a gravação deste disco houve trocas de experiências, aprendizagens... E em termos da música que está representada, as canções que ali estão correspondem a várias épocas e não foram, necessariamente, cantadas ou tocadas por pessoas das gerações que lhes correspondem. Houve uma troca muito grande, «bigamias tanto passageiras como sustentáveis, e o irmão do meio revolvendo feliz no turbilhão da família em permanente resolução», como escrevo na capa do disco.
Porque é que, o ano passado (em 2002 passaram 30 anos sobre a publicação do primeiro álbum de Godinho, «Os Sobreviventes»), recusaste - tanto quanto se sabe - a ideia de um álbum de homenagem na linha dos «tributos» normais, com outras pessoas a tratarem do processo todo?
Não. O que aconteceu é que houve a ideia de comemorar a efeméride - e efemérides são coisas a que não ligo muito. Se esse álbum de homenagem aparecesse não iria dizer que não, mas teria que me distanciar do processo... Mas preferi olhar para as minhas canções e encará-las quase como canções novas. E achei mais aliciante fazer uma escolha de interlocutores, das pessoas com quem canto, e um «casting» em que fiz corresponder as canções com os cantores e músicos.
Nesse «casting» deste mais importância às canções ou às pessoas que iriam interpretá-las contigo?
Às duas coisas. Fiz uma pré-lista de canções e de cantores, cantoras, bandas, músicos. E também dei importância a um conjunto de canções que iriam entrar no disco e que não seriam, necessariamente, das mais conhecidas. Aliás, a escolha, em certos casos, não é nada óbvia, porque havia canções que nunca tinham tido o seu justo papel na «sociedade» das minhas canções... Algumas delas, eu próprio deixei-as antes para trás, como é o caso do «Antes o Poço da Morte».
Foi por isso que ficaram de fora canções emblemáticas como «A Noite Passada», «O Primeiro Dia», «Com Um Brilhozinho nos Olhos» ou «É Terça-Feira»?...
Essas canções não aparecem porque não quis. Até o «Lisboa Que Amanhece» não estava no meu primeiro alinhamento de canções, mas quando pensei em duas ou três hipóteses para o Caetano Veloso, o «Lisboa Que Amanhece» emergiu, amanheceu, como qualquer coisa que tinha uma linguagem compatível com o universo e a maneira de cantar do Caetano... Mas não quis que esses «greatest hits» aparecessem para dar uma oportunidade às outras canções.
Já conversámos sobre isto uma vez e sei que não gostas de compartimentar as tuas canções em «canções de amor», «canções de intervenção», etc. Mas há uma boa maioria de canções neste disco que têm uma fortíssima carga social e política: entre outras, desde o «Pode Alguém Ser Quem Não É» ao «O Galo É o Dono dos Ovos», do «Barnabé» à «Fotos do Fogo», do «Que Força É Essa» a, pelo menos, uma quadra do «Dancemos no Mundo»...
Sim, são muitas... E o «Dancemos no Mundo» não é só numa quadra: essa canção nasceu depois de ter visto uma reportagem fotográfica de casamentos mistos em zonas em que isso era proibido, palestinianos com israelitas, brancos com negros na África do Sul... E a canção gira toda à volta disso. O nome de trabalho dessa canção era «Fronteiras». Parece uma canção muito andante mas, ao mesmo tempo, está a dizer coisas importantes. É um bom exemplo de uma canção que tem uma vertente política mas é também uma canção de amor. E é por isso que não gosto de fazer essas separações. As canções falam de tudo. O «Pode Alguém Ser Quem Não É» é uma canção que fala de amor mas também de emigração. Os géneros interpenetram-se.
Neste álbum, parece ter havido uma tentativa óbvia de adequação das canções ao universo dos convidados... Isto é, a «Antes o Poço da Morte» com os Xutos é obviamente rock, a «Isto Anda Tudo Ligado» com os Da Weasel e o Gabriel O Pensador é obviamente rap, a «Fotos do Fogo» com o Carlos do Carmo e o Camané é obviamente fado...
No caso da «Fotos do Fogo», tinha composto a canção já com um subtexto musical de fado, apesar de depois não ter sido tratada originalmente dessa maneira. Quis que essa origem fosse apenas subentendida. Posteriormente, num espectáculo com o Ricardo Rocha (NR: guitarra portuguesa), assumi o fado nessa canção e neste novo disco achei que era interessante também ir por aí, com o Carlos do Carmo e o Camané e eu como irmão do meio. Noutras canções, quis mandá-las para outros territórios, sempre sem violentar ninguém e estando eu confortável com a linguagem dos outros. No caso dos Xutos, a canção era, à partida, muito Xutos, com a ironia de que, quando apareceu, no «Canto da Boca», inícios dos anos 80, os Xutos estavam a começar. O universo um bocado duro do «Poço da Morte» tem a ver com os Xutos. Há o caso do Zeca Baleiro, em que sempre achei que o «Coro das Velhas» tinha algo de música nordestina brasileira, que tem muito a ver com o trabalho do Zeca Baleiro. E o «Isto Anda Tudo Ligado» - que é uma canção de que sempre gostei muito mas pensei que estava perdida para sempre -, de repente pensei que poderia ser cantada numa linguagem hip-hop comigo a fazer as partes melódicas...
Mas eu via mais os Da Weasel e o Gabriel O Pensador a reinterpretarem outras canções tuas, à partida mais «rapáveis» como, por exemplo, «Os Conquistadores»...
Ou «O Fugitivo», sim...
E via os Xutos a pegarem no «Maré Alta»...
É engraçado, porque houve de facto duas canções em que pensei para os Xutos. Esta que foi escolhida e o «Maré Alta». Só não usámos o «Maré Alta» porque era muito óbvio e o «Poço da Morte» tinha, no original, um tratamento jazzístico apesar do substrato rock: era um desafio maior, e mais enriquecedor, pegar nela. No caso dos Da Weasel, também era mais surpreendente fazer o «Isto Anda Tudo Ligado» do que as outras. E é curioso, porque eles pegam num sampler da versão original, com uma sanfona do Carlos Guerreiro (NR: agora nos Gaiteiros de Lisboa) e a transformam na linguagem deles. E o disco foi muito feito destes desafios... Depois, também há casos em que os convidados entram no universo do meu grupo, porque tiveram que se adaptar aos arranjos do Nuno Rafael... E este disco também acaba muito com aquela ideia que se tinha há anos atrás: «só Sérgio Godinho pode cantar Sérgio Godinho»...
Mas isso era dito com respeito, do género «só Bob Dylan pode cantar Bob Dylan» ou «só Leonard Cohen pode cantar Leonard Cohen»...
Sim, sei que era dito com respeito. Mas era limitador. E só timidamente começou a haver versões das minhas canções. No «Afinidades», com os Clã, a Manuela Azevedo provou de uma vez por todas que outras pessoas podem cantar canções minhas, pessoalizando-as mas não deixando de ser minhas. E este novo disco acabou de vez com esse mito.
A escolha dos produtores de cada tema também foi tua?
Sim, foi inteiramente minha. Há cinco canções que são produzidas pelo Nuno Rafael e pelo meu grupo - que agora, oficialmente, se chama Os Assessores (risos), porque tenho aquela canção em que falo do presidente e dos assessores - e noutros casos dei a produção a quem me pareceu mais indicado para cada tema, sejam os grupos - que têm o seu som próprio, como os Xutos, os Da Weasel, os Gaiteiros ou os Clã - sejam os artistas. No caso do José Mário Branco, foi ele que convidou o coro Canto Nono e resolveu fazer uma versão vocal. Ele nunca tinha produzido uma canção para mim, apesar de ter colaborado bastante n'«Os Sobreviventes». No caso do «Mudemos de Assunto» dei os arranjos ao Jorge Palma mas ele disse que gostava de os fazer com o Palma's Gang... E também houve casos diferentes: no tema com o Vitorino convidámos o Tomás Pimentel, que fez um arranjo brilhante, pontilhista, para o «Barnabé», e no «Fotos do Fogo», convidei o Ricardo Rocha, por quem tenho uma grande admiração. Tudo com uma grande confiança nas pessoas. E há o caso da canção com o David Fonseca, a partir de um arranjo que o Rui Costa já tinha feito para a «Balada da Rita» no concerto dos Silence 4 no Pavilhão Atlântico, em que eu colaborei, e que ele agora melhorou.
As únicas senhoras que entram -- tirando os coros -- abrem e fecham o disco. A Teresa Salgueiro a abrir e a Manuela Azevedo e os Clã a fechar...
Objectivamente, há aqui um défice de senhoras. Houve um caso que não aconteceu e que desequilibrou um bocadinho... E já que havia um desequilíbrio achei que podeia pôr as cantoras a abrir e a fechar o disco. Para além disso, o disco começa bem com o «Pode Alguém Ser Quem Não É?», uma interrogação. E o disco não começa logo com as charangas todas, começa com duas canções mid-tempo, essa e a do Caetano. Por outro lado, estava muito fresco, quando comecei este disco, o «Afinidades» com os Clã. E se os Clã entrassem as pessoas poderiam achar que era mais do mesmo. Mas também seria extremamente injusto se eles não colaborassem neste disco. E pensei no «Dancemos no Mundo», que não aparece no disco com eles mas já tinha aparecido como encore num espectáculo, com um arranjo fantástico - alternativo ao que aparecia no «Lupa» - do Hélder Gonçalves e que não poderia perder-se. Com o «Afinidades» eles iniciaram este ciclo e era justo encerrá-lo com eles. E acaba o disco de uma maneira festiva.
Como é que escolheste os convidados brasileiros e o cabo-verdiano?
Teve a ver com vários factores. O Milton já tinha trabalhado comigo - na «Barca dos Amantes» e noutra canção menos conhecida, «Ouro Preto» - e sempre fiquei com essa amizade activa com o Milton. Tinha mesmo que entrar neste disco e o «Enfim S.O.S.» tem texturas muito densas que jogam bem com a voz dele. O Caetano esteve para colaborar comigo no «Coincidências», isso não aconteceu, e tinha que entrar agora pela amizade - embora a amizade não esteja em causa, porque há amigos meus que não entraram no disco - e pela admiração que tenho por ele. A participação dele esteve tremida, porque andava por fora, em digressões, mas acabou por gravar a parte dele do «Lisboa Que Amanhece» - que tem algo de bossa, de lounge - em Salvador, no estúdio do Carlinhos Brown, quando teve um bocadinho de tempo livre para o fazer. O Zeca Baleiro é virtualmente desconhecido em Portugal e é, da nova geração de cantores brasileiros, um dos mais talentosos, com uma maneira peculiar de cantar. E já tinha colaborado com ele, há alguns anos, na Festa do «Avante!». Ele trouxe alguns músicos... e fico muito contente por ele ter contribuído para o disco. Com o Gabriel aconteceu uma coisa bonita: pediram-me para escrever algumas palavras para o livro dele que foi editado pela D. Quixote e, depois disso, ele mandou-me mails em que se notava que conhecia bem o meu trabalho e mantivemos contacto. Tivemos uma amizade repentina mas bonita. E o Tito Paris também era inevitável ele entrar: já tinha tocado no «Domingo no Mundo», trabalhamos na mesma «unit», a Praça das Flores, e neste caso quis ir para uma canção óbvia, uma canção que falasse da terra dele, Cabo Verde, escrita por um português. E aquela canção tem a ver com uma coisa que me aconteceu no Festival da Baía das Gatas, em Cabo Verde: estava na minha quarta canção e começou a chover. Ninguém ficou chateado, pelo contrário.
Estive a fazer as contas e neste disco não há temas dos álbuns «À Queima-Roupa», «De Pequenino É Que Se Torce o Destino», «Coincidências» e «Domingo no Mundo». Porquê?
Não houve nenhum motivo especial para isso acontecer. Escolhi as canções e não me preocupei com os discos a que pertenciam. Não houve discos enjeitados e essa escolha não significa que goste mais de uns discos do que doutros. Também não houve uma preocupação de abranger a discografia toda. Há bocado não referi isto, mas houve outro critério de escolha das canções: não quis massacrar as pessoas com canções que tenham sido muito interpretadas recentemente, nomeadamente no disco com os Clã. Não iria pôr o «Elixir da Eterna Juventude», que estava gravada com os Clã e num disco ao vivo passado... Também gosto muito do «Etelvina», mas também já tenho várias versões gravadas, nomedamente uma, acústica, que está no disco que não chegou a sair do «Porto Cantado».
«Fotos do Fogo» é um tema terrível de se ouvir em tempos de guerra, apesar da guerra de agora não ser a nossa guerra colonial...
É. Há guerras muito presentes, que estão acontecer. E o pior, talvez, é que vão acontecer outras à conta desta do guerra no Iraque. Incluí o «Fotos do Fogo» porque é um libelo, uma canção de que sempre gostei porque resume aquilo que está soterrado na nossa cabeça: um soldado que folheia um álbum de fotos e os traumas vêm ao cimo. É um tema importante para se reflectir sobre ele.
Não tiveste a tentação de incluir algum inédito?
Não. Vou começar a trabalhar num próximo álbum, de inéditos, mas neste momento não tinha nenhuma razão para pôr um inédito porque o propósito não era esse.
Para quando poderemos esperar esse álbum de originais?
Para o ano. Este ano ainda vai sair, espero, uma biografia musical, com uma componente de foto-biografia e que pode ter um «song-book» acoplado. Mas quando esse processo estiver terminado quero atirar-me a compor e para o ano ter um disco de originais.
Vai haver algum concerto com esta gente toda ou isso é impossível?
Não, não vai. Era bom, era um sonho, e toda a gente falou nisso. Mas é muito difícil juntar esta gente toda e também seria muito difícil em termos técnicos. Com grande pena minha. O que pode acontecer é num concerto ou noutro, com características específicas, eu ter alguns destes convidados.
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04 setembro, 2006
Festa do «Avante!» - Uma Música em Atalaia
Estar de atalaia é o mesmo que estar atento, vigilante, sentinela de algo de novo, que acontece ou está para acontecer. E é uma coincidência feliz que a Festa do «Avante!» - órgão oficial do Partido Comunista Português - se realize, desde há muitos anos, numa quinta com este nome. Porque a Festa continua a ser um óptimo ponto de descoberta e de observação (ainda outra maneira de dizer atalaia) da música que se faz em Portugal e noutros sítios. A 30ª edição da Festa do «Avante!» teve momentos altos suficientes para que permaneça por muito tempo na memória dos festeiros, avantereiros aventureiros. Aqui ficam algumas notas soltas sobre alguns dos concertos de folk/trad/world, o que se lhes quiser chamar...
Logo a começar, na sexta-feira, os Djumbai Jazz do cantor guineense Maio Coopé - com José Galissa numa kora deliciosa e baixo, bateria, saxofone, duas coralistas-dançarinas, percussionista... - instalaram a festa com uma mistura explosiva de afro-beat, mbalax, funk e música mandinga. Cor, dança, alegria. Uma festa que continuou, horas depois, ainda no Auditório 1º de Maio, com o fado cada vez menos fado da, paradoxalmente, cada vez mais fadista - no canto, na voz, no espírito, na presença - Cristina Branco, num concerto lindíssimo (apesar do som dos foguetes e da música de carrinhos-de-choque de um bar próximo terem estragado, de vez em quando, o ambiente) e em que não se sentiu a ausência de Custódio Castelo (bem substituído por outro guitarrista - Paulo Parreira?) e onde o pianista Ricardo Dias (da Brigada Victor Jara) dá um toque de modernidade e sensibilidade absolutas. E fim de festa, na primeira noite, com os Andarilhos, banda sem pretensões que faz versões de música tradicional e levou a dança aos resistentes no Café-Concerto.
O segundo dia, sábado, começou muito bem, no 1º de Maio, com os Mandrágora, diferentes - para melhor - dos Mandrágora que tinha visto pela última vez em Loulé: a banda tem agora um baixo eléctrico (em substituição do acordeão) e o som do grupo portuense está agora mais rude, mais rock, mais swingante. Nalguns temas mais lentos o baixista ainda tenta encontrar o seu espaço, mas quando aquilo acelera ele leva o resto da banda atrás de si. E isso é bom. Ainda no Auditório, A Naifa (na foto, de Mário Pires, da Retorta) deu o melhor concerto de todos os que vi nesta Festa: um concerto triunfal, com a banda de Mitó, João Aguardela, Luís Varatojo e, agora, Samuel Palitos na bateria, a saírem de palco, depois da sua versão de «Tourada» em encore, debaixo de uma tempestade de aplausos. E razões para os aplausos não faltaram: Mitó cantou como nunca a ouvi cantar (toda ela confiante, confidente, sensual, solta e livre e feliz), Aguardela está um mestre no baixo eléctrico, Varatojo está cada vez mais um melhor executante de guitarra portuguesa e Samuel Palitos deu um toque perfeito de fúria punk a alguns temas, que assim ganharam corpo e densidade rítmica. Depois, o reportório privilegiou o segundo álbum e nem faltou o irónico para a ocasião - mas bastante bem aceite - «Señoritas» ou o cada vez mais arrepiante, arrepiante mesmo!, «Todo o Amor do Mundo Não Foi Suficiente».
Não vi - só ouvi de perto, numa fila à espera de uma sandes de leitão... - os escoceses Peatbog Faeries, mas aquilo soa quase sempre bem - principalmente nos solos do violino - e às vezes mal, quando um rock manhoso entra pelos jigs e reels fora e arrasa aquilo tudo. Manhosice que não existe, e ainda bem, nos Gaiteiros de Lisboa, que deram mais um concerto magnífico (no palco 25 de Abril), que começou com a loucura de «Ciao Xau Macau» e continuou com temas do novo álbum (destaque, óbvio, para aqueles em que Manuel Rocha, da Brigada Victor Jara, entrou muito bem com o seu violino - «Comprei Uma Capa Chilrada» e «Chamarrita do Pico» -, e para as picantíssimas «As Freiras de Sta. Clara») e outros mais antigos que levaram ao coro ou ao espanto ou ao mosh ou ao pulo muitos dos fãs dos Xutos & Pontapés (que actuariam a seguir): «Mbira do Norte», «Subir Subir», «Quando o Judas Teve Sarampo» ou, já no encore, «Trângulo Mângulo».
Infelizmente só consegui ver parte do concerto dos Taraf de Haidouks: o espectáculo destes ciganos romenos estava magnífico, tal como sempre, mas o calor, a quantidade de gente amontoada num espaço cada vez mais exíguo (o Auditório 1º de Maio) para alguns concertos, os feedbacks constantes, fizeram-me zarpar para um bar próximo, com amigos e cervejas frescas. E, depois, já perto das três da manhã, para uma surpresa: os já mencionados Manuel Rocha (em violino) e Ricardo Dias (aqui em acordeão) tocavam «standards» de música tradicional portuguesa e de José Afonso («As Sete Mulheres do Minho», «Milho Verde», etc, etc, etc...), em cima de uma das mesas do restaurante de Coimbra, para deleite e festa e coro de dezenas de pessoas. E isto é tão bonito!!
No domingo falhei os concertos da tarde mas cheguei a tempo de confirmar, mais uma vez, o poder - dir-se-ia magnético - dos fabulosos Babylon Circus, no Palco 25 de Abril: centenas de pessoas aos saltos e em dança constante durante o seu concerto feito de tantas músicas quanto é lícito imaginar. Saí, estavam eles a cantar que a caravana passa, pelo meio de milhares de pessoas em direcção ao concerto de Sérgio Godinho, no 1º de Maio, a abarrotar lá dentro e com mais algumas centenas de pessoas a assistir de fora: um concerto em que Godinho - acompanhado por uma banda rejuvenescida e com músicos de escola de rock inteligente - fez apelo à memória de muitos dos rapazes e raparigas que o conheceram via «Os Amigos do Gaspar» (e isso foi perfeitamente audível no coro, lindíssimo, que recebeu a canção «É Tão Bom»), mas sem esquecer temas emblemáticos da sua carreira - todos eles também com direito a coro - como «Balada da Rita», «Arranja-me Um Emprego», «Quatro Quadras Soltas» ou «Com Um Brilhozinho nos Olhos», altura em que furei pela multidão pé ante pé, com licença, com licença, até ao Avan'Teatro para me despedir da Festa ao som dos Roncos do Diabo.
E foi uma bela despedida: a última vez que os vi (há dois anos, no Andanças) ainda se chamavam Gaitafolia e este grupo de gaiteiros e percussionista lisboetas ainda não tinham este sentir bárbaro, selvagem e, ao mesmo tempo, hiper-afinado que têm hoje. Uma versão violentíssima da «Saia da Carolina», um tema chamado «Quero É Que Tu Te Fodas» (é mesmo assim que se chama?) e um fandango asturiano, entre outros, puseram dezenas de pessoas (as que este pequeno espaço suportava e outras lá à porta) a dançar e a suar em bica, apesar do sol já não brilhar há algumas horas. De referir, a finalizar, que faltaram à chamada a fabulosa cantora cabo-verdiana Mayra Andrade, as brasileiras Mawaca e os inicialmente também previstos espanhóis Amparanoia, nomes que bem podiam aparecer na edição 31 da Festa, para alegria de todos nós...
22 julho, 2006
Festa do «Avante!» - Em Setembro, Sempre...
A Festa do «Avante!», órgão oficial do Partido Comunista Português, aposta mais uma vez nas músicas de raiz tradicional (e no rock, reggae, jazz, música experimental...). É no início de Setembro - dias 1, 2 e 3 -, na Quinta da Atalaia, Seixal, sede do festival nos últimos anos.
Na programação deste ano, o destaque vai para três homenagens: ao compositor Fernando Lopes Graça (com o Coro Lopes Graça, da Academia dos Amadores de Música, com a Sinfonietta de Lisboa e os pianistas Olga Prats e Miguel Borges Coelho), ao genial compositor de fados Alain Oulman (na voz dos fadistas António Zambujo, Carla Pires e Liana) e ao poeta popular algarvio António Aleixo (com os angolanos Kussondulola - expoentes do reggae em Portugal - a serem acompanhados, nesta homenagem, por Viviane, Prince Wadada e Kilandukilo).
E ainda há concertos de Sérgio Godinho, Gaiteiros de Lisboa (com o violinista Manuel Rocha, da Brigada Victor Jara), A Naifa, Mandrágora, Toque de Caixa, Contra3aixos (projecto que junta três dos mais importantes contrabaixistas de jazz nacionais: Carlos Bica, Carlos Barretto e Zé Eduardo), Telectu (o duo de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, em comemoração dos 25 anos de carreira, aqui acompanhados por duas luminárias: o guitarrista Fred Frith e o baterista Chris Cutler), Boss AC (com mais um leque luxuoso de convidados: Sam The Kid, Chullage, Melo D e Berg), Cristina Branco, Luísa Basto, Navegante (com a cantora cabo-verdiana Nancy Vieira e o projecto de percussões, liderado por Rui Júnior, O Ó Que Som Tem?), os deliciosos punks Vicious Five, Yellow W Van, Tim (o vocalista dos Xutos, a solo) e os próprios Xutos & Pontapés.
Para completar o ramalhete, o elenco internacional inclui os ska-klezmer-chanson-balcânicos-e-tudo-o-mais Babylon Circus (França), os cabo-verdianos Mayra Andrade e Tito Paris, Djumbai Jazz (Guiné-Bissau), os divertidíssimos escoceses Peatbog Faeries, as deliciosas brasileiras Mawaca, Obrint Pas (Catalunha) e, «last but not the least», o delírio balcânico dos Taraf de Haidouks (Roménia - e na foto que está no cimo deste blog, vénia!).
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