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19 setembro, 2006

Folk em Portugal - Mergulho em 2002


Mais uma descida à memória recente da música folk - e híbridos e escapadelas e paralelos - feita em Portugal. Desta vez, com álbuns saídos em 2002 e criticados nesse ano, em conjunto, no BLITZ: Dazkarieh, Roldana Folk, Terrakota (na foto), Macacos das Ruas de Évora e Manuel d'Oliveira. E, como adenda, uma entrevista com os Terrakota, também de 2002, a propósito do seu álbum de estreia.


TRADICIONAL EXTRA

A história de uma possível música de fusão - e usemos o termo sem o sentido, redutor, de jazz de fusão dos anos 70 - em Portugal, já é longa, rica e excitante o suficiente para que dela se dê aqui - e a propósito de cinco novos discos editados nos últimos meses - apenas uma breve pincelada. E, passando por cima de mistérios mais ou menos insolúveis como «de onde vem o fado?», «o cante alentejano deve mais à música árabe ou ao canto gregoriano?» ou «a música transmontana é celta ou nem por isso?», vêm-nos à memória, como possível quadro geral da «fusão», nomes como Amália Rodrigues, José Afonso, Sérgio Godinho, Banda do Casaco, Heróis do Mar, Sétima Legião, Ocaso Épico, Trovante, entre outros artistas e grupos que nunca se limitaram a um estilo (e tivessem ou não como base a música portuguesa de «raiz», urbana ou rural... e com todas as dúvidas ou confusões ou intersecções que estas palavras implicam). Mais recentemente, os Gaiteiros de Lisboa - os mais fantásticos estilhaçadores de barreiras da actual música portuguesa -, Amélia Muge, Né Ladeiras (a solo), Vai de Roda ou Realejo, começaram também a inscrever o seu nome no rol dos aventureiros.

E, já em 2002, há cinco discos de estreia que vão - corajosamente - pelo mesmo caminho. Quer venham do emergente movimento folk do Porto (os Roldana Folk), do cadinho de mistura de culturas de Lisboa (os Terrakota e os Dazkarieh), de uma escola de jazz em Évora (Os Macacos das Ruas de Évora) ou do Minho (o fado/flamenco/e tudo o mais que se verá de Manuel d'Oliveira), em todos eles se nota uma vontade imensa de saltar fronteiras - estilísticas, geográficas... - e, quase sempre, quando as saltam, não deixam que o corpo toque na fasquia e sejam, por isso, eliminados. Saltam mesmo, com distinção, paixão, estilo, amor, e uma vontade, óbvia, de saltar ainda mais alto (ou longe), um dia. Fala-se, aqui, portanto, de mistura, fusão, sincretismo ou miscigenação.


ROLDANA FOLK
«VOAR NO FOLE»
Açor

Do Porto - e tendo como base músicos que passaram, ou ainda passam, pelos Frei Fado D'el Rei e Ceia dos Monges -, os Roldana Folk avançam para uma área (estranhamente ainda pouco visível em termos de edições discográficas nacionais) próxima da chamada música celta e de algumas sonoridades comuns ao norte de Portugal, Galiza, Bretanha, Irlanda... Mas «Voar no Fole», o álbum, não se limita a ser um repositório de ensinamentos colhidos nesse universo. Com o acordeão de Helena Soares (que faz lembrar, por vezes, a liberdade dos foles de Kepa Junkera) e a voz, suave, de Isabel Martinho (também dos Chamaste-m'ó?) como as faces mais em evidência da sua música, os Roldana Folk passeiam, com estilo, pelo «celtismo», sim, mas também vão a nomes da música portuguesa como os Trovante e Adriano Correia de Oliveira («Barca do Mar»), à Penguin Cafe Orchestra («À Luz do Sol»), a África e à América Latina, aos blues e ao reggae («Baila a Dor»), a José Afonso, Banda do Casaco e a algum folk-punk à la Oysterband («Sem Convite»). E, aqui e ali, há cheirinhos de jazz, de África, de rumbas, merengues, cumbias e bachatas. Sem medos e com alegria. Há até um aflorar, tímido, da música de dança em «Barca do Mar (versão remix)». E a folk - mesmo quando realmente entendida como uma ida ao folclore (de Trás-os-Montes, da Irlanda...) - é apresentada com bom-gosto e saber. (7/10)


TERRAKOTA
«TERRAKOTA»
Zona Música

Trezentos quilómetros a sul, os Terrakota são produto daquele enorme caldeirão de culturas que, cada vez mais, é a cidade de Lisboa. Com músicos de origem portuguesa, angolana, moçambicana e italiana, os Terrakota deram que falar nos inúmeros concertos e festivais em que participaram (arrastando consigo um assinalável grupo de fãs) antes de se atirarem à gravação de «Terrakota», aquele que é, até ao momento, o melhor álbum de música portuguesa (com todas as dúvidas que, aqui, se podem colocar à palavra «portuguesa») do ano. Usando, por vezes quase «abusando», da fusão - ou com «tudo na mesma panela» (como os Terrakota explicam, em jeito de manifesto, logo no primeiro tema do álbum, «Curruputu») -, os Terrakota socorrem-se de sons vindos um pouco de todo o mundo, com particular incidência na música africana (desde a música mandinga do Senegal e arredores até à música gnawa marroquina) e num dos seus afluentes maiores, o reggae jamaicano. Em «Inch Allah» há música árabe que desce até ao Mali e evolui para um reggae cantado em francês e italiano. Em «Sonhador» mistura-se África com Cuba, em «Bouge de Lá» há mais música árabe, uma parte da vocalização que parece, estranhamente, um fado tal como soaria na voz de Anabela Duarte e funk rasgado, em «Mali» há uma inspiração óbvia que é Ali Farka Touré (numa descida à eventual nascente dos blues), e em «Bolomakoté» há música mandinga em luta permanente com a escola jamaicana toda - ska, dub, reggae, ragga -, tudo numa celebração absoluta de liberdade estilística. Aqui e ali, a América Latina, o rock, os Balcãs, juntam-se à festa. E à riqueza tímbrica do conjunto - os instrumentos étnicos (djembé, steel drum, balafon, kissange ou sabar) e os instrumentos típicos do rock - somam-se letras (em várias línguas) de intervenção: contra a «xenofobia, nacionalismo, racismo», por uma Terra-Mãe mais justa, mais igual, mais limpa, mais bela, mais aquilo que queremos que uma mãe seja. (9/10)


DAZKARIEH
«DAZKARIEH»
Bigorna

Ainda em Lisboa, e num caminho paralelo ao dos Terrakota (passa-palavra, concertos cheios de admiradores...), os Dazkarieh assinam um disco, «Dazkarieh», vivo, solto, livre, em que as músicas vêm de muitas músicas e há um espaço deixado para o silêncio, para ambientes (sons de água, o crepitar de uma fogueira...), para experimentações e misturas. Em «Dazkarieh», a música nunca está muito tempo no mesmo lugar, há dinâmica e variações, há viagens constantes. E há uma vontade evidente de transmitir estados próximos da magia e do encantamento a quem ouve a sua música. E o que é a sua música? É, em «Abour Safar», música árabe com algo aparentado a fado (uma eventual boa banda-sonora para um filme sobre a batalha de Alcácer-Kibir). É, em «Kriamideah», ora ambiental e suave - a lembrar Dead Can Dance e Banda do Casaco da primeira metade dos anos 80 - ora feito de percussões frenéticas em competição com uma tin whistle pastoril. É, em «Elgtue», uma gaita-de-foles encantatória, vagamente transmontana, com uma voz (a de Marie Beatriz) a voar lá dentro. É, em «Troligh Ol'jighil», música medieval, folk das ilhas britânicas tal como poderia ter sido tocada, repete-se o nome, pela Banda do Casaco, uma batucada africana e uma dança irlandesa estranhamente arraçada de flamenco. É, em «Miafarê Boi», uma viagem cinemática pelo Mar Negro (Grécia, Turquia, Balcãs). «Dazkarieh» é beleza em estado quase puro. (8/10)


MACACOS DAS RUAS DE ÉVORA
«MACACOS DAS RUAS DE ÉVORA»
Associ'arte

E agora, uma banda de metais portuguesa!... Outra coisa rara. É que, apesar da tradição dos «cavalinhos», das bandas de bombeiros (e outras) e das charangas de aldeia, há pouquíssima música gravada de bandas de metais portuguesas e, se pensarmos bem, temos quase a ideia de que ela não existe. Mas existe (lembro-me agora, já com saudade, da fabulosa e divertidíssima Bandinha da Alegria, que actuou nas últimas Cantigas do Maio). E Os Macacos das Ruas de Évora (no disco sem o artigo «Os») são um belíssimo exemplo do que pode ser uma «brass band» à portuguesa (apesar de o grupo ter mais estrangeiros que portugueses). Os Macacos fazem animação de rua e, no disco, esse lado festivo está bem vincado. Neles, o jazz está, obviamente, presente, mas a improvisação não apaga a base celebratória e as linhas melódicas, imediatamente reconhecíveis, das canções que eles interpretam. Canções como «Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades», de José Mário Branco, aqui transformada numa festa semi-klezmer, semi-ska, semi-jazzy, o tradicional alentejano «Passarinho» (numa versão divertidíssima, com assobios a imitar passarinhos, ou serão passarinhos a sério?), «Dona» (dos Ena Pá 2000!), duas de José Afonso - «Os Vampiros» em be-bop e «Grândola, Vila Morena» numa versão cool -, mas também «Janko Partner» (sacado ao carnaval de Nova Orleães, um dos berços do jazz e das «brass bands») ou «Fiju Fiju Kolo» (uma homenagem, natural digamos, às bandas de metais dos Balcãs), entre muitos outros. Os arranjos são alegres e os instrumentos brilham à vez, geralmente sobre uma base rítmica dada pelas percussões e pela tuba. «Macacos das Ruas...» tem dezanove temas (!), mas mais espaço houvesse no CD e mais temas estariam lá, por certo, numa viagem interminável. (7/10)


MANUEL D'OLIVEIRA
«IBÉRIA»
Ultimatum

Finalmente, uma surpresa: «Ibéria», de Manuel d'Oliveira, guitarrista que se atreveu a fazer a ponte entre o fado, a música tradicional portuguesa e o flamenco, num álbum instrumental que tem como vedetas a guitarra acústica e a viola braguesa, tocadas por d'Oliveira com virtuosismo - mas não em demasia, isto é, sem aquele «demais» que é «de menos» e que impede os virtuosos de captar a «alma» nas cordas das guitarras, sentindo-lhes apenas o «corpo». Em «Ibéria», d'Oliveira mistura a saudade do fado e o sangue na guelra do flamenco, com a ajuda de apontamentos, dispersos, de bossa-nova, música «celta», música tradicional portuguesa (obviamente com vantagem para o Minho, a terra da braguesa), a pop, o jazz (a sombra de um Pat Metheny apaixonado pelo flamenco paira sobre o tema «Viagens») e do tratamento dado por Júlio Pereira aos cordofones tradicionais portugueses (o cavaquinho ou a própria braguesa). Trabalhando com a ajuda de uma banda fixa que lhe dá outras guitarras (acústicas e eléctricas, um baixo acústico, bateria e percussões) e de alguns convidados especiais - António Chaínho (na guitarra portuguesa), dois espanhóis (ligados ao flamenco e ao jazz), Carles Benavent (baixo) e Jorge Pardo (saxofone), e o acordeonista Ricardo Dias (da Brigada Victor Jara) -, d'Oliveira mostra neste disco, pelo menos, três temas fantásticos: «O Momento Azul» (perto do fado; também muito à custa da presença de mestre Chaínho), «Obrigado Paco» (presumível homenagem a Paco deLucia, com os dois espanhóis no barco; entre o flamenco e o jazz) e «Nicolinas» (um tema inspirado numa festa vimaranense em honra de S.Nicolau, e aqui numa fusão dos dois universos - fado/flamenco - bastante bem conseguida). Como curiosidade - e como mais um exemplo da largueza de vistas de d'Oliveira - , refira-se que «Brisa Mediterrânea» (a faixa-extra) é uma remistura jazzy, electrónica e dançante do guitarrista dos Rádio Macau, Flak, e de Carlos Morgado (isto é, os dois Micro Audio Waves). (7/10)


TERRAKOTA
ESPALHAR A PALAVRA

A palavra passou. Ensaio a ensaio, concerto a concerto, festival a festival, uma maqueta roufenha ali, um tema numa compilação acolá. E a palavra cresceu: Terrakota. Sempre com público à frente. É um grupo hippie, ou então são freaks, sei lá, diziam uns. É reggae, garantiam outros. Não, aquilo é mais música africana - tem djembés e kora e balafon e kissanges. É world, é fusão, é uma máquina de dança. É um grupo de intervenção política&ecológica&social. E é muito alegre e policromático... Etc, etc. O tira-teimas chama-se «Terrakota» e pode agora ser levado para casa, em digipack colorido, com treze canções lá dentro. A entrevista - outras palavras que passam - é com Romi, Alex, Humberto e Francesco.

O álbum «Terrakota» é um bom espelho do trabalho de dois ou três anos do grupo?

É claro que, como músicos, sonhamos sempre com grandes meios, uma grande produção... E pensámos em quem poderia trabalhar connosco naqueles pormenores e em todos os sons que nós temos. E acabámos por trabalhar com o Dominique Borde, que nos acompanhou do princípio ao fim - foram muitas horas de trabalho e ele foi inexcedível. Não foi um trabalho fácil, principalmente ao nível da equalização da dinâmica dos instrumentos - principalmente os acústicos... A nossa grande dúvida era saber se conseguíamos passar a energia, o calor que conseguimos transmitir ao vivo para uma rodela de plástico. E, no geral, estamos satisfeitos, embora tenha havido coisas que não resultaram como nós queríamos.

Para quem não conhece os Terrakota, poderiam dizer de onde vem esta música que se ouve no disco?

Vem da Terra (risos). E esta é apenas uma pequena parte de estilos de músicas de vários lugares do mundo que nós queremos tentar abarcar no futuro. Nós partimos de estudos no terreno ou, pelo menos, de muitas audições de discos em casa de cada um de nós. Precisamos de estudar as rítmicas, de estudar técnicas - por exemplo, se queremos usar um baixo da música gnawa, temos que ir a Marrocos para estudar como se toca da maneira certa; neste momento tocamos esse instrumento mas ainda não correctamente.

Os Terrakota nasceram de uma viagem a África que alguns de vocês fizeram...

Mas antes da viagem já havia a ideia de iniciar qualquer coisa musicalmente. Ainda não sabíamos exactamente o que era, nem como seria, mas sabíamos que algo iria acontecer. Os três que fizemos essa viagem - Alex, Humberto e Júnior - já estávamos ligados à música há alguns anos, como percussionistas, e tínhamos um contacto grande com músicos da Guiné-Bissau que estavam aqui em Portugal. Depois fomos à origem...

E porquê esse gosto específico por África?

É uma questão de afinidade. Um de nós nasceu em Moçambique, outro em Angola... Há música e instrumentos riquíssimos em Portugal - a guitarra portuguesa, as gaitas-de-foles... - mas nós não temos que nos restringir a um território demarcado. E sentimos a necessidade de descobrir de onde vinha este calor, esta energia que nos faz ficar alegres.

Quando viajam, não se sentem por vezes como o ocidental que vai roubar a música dos outros?

Não. Para nós, o fundamental é a relação humana. Não vamos com aquela ideia de ir lá roubar os sons ou comprar um instrumento barato. Em África, fizemos amigos, que ficaram amigos, com quem partilhámos músicas e emoções. E agora ainda fazemos trocas de instrumentos, e ainda lhes enviamos coisas... Mas sabemos de histórias de roubos absolutos, de gente que vai para lá gravar em estúdios móveis, que promete pagar-lhes e depois não paga nada.

Disseram há bocado que muitos de vocês foram percussionistas... A base dos Terrakota é o ritmo - ou vários ritmos - e tudo o resto vem por acréscimo?


Muitas vezes é, mas outras não. Podemos começar a trabalhar numa canção com uma base de percussão mandinga, mas também podemos partir de uma frase de guitarra. E, depois, experimenta-se muito. Dá-nos um grande gozo partir de um estilo e começar a ir para outros, mesmo com grandes discussões entre nós. Por exemplo, o tema «Sonhador» parte de uma base africana mas surgiu uma zona do meio que é cubana. Levámos seis meses a chegar aí.

Quando vocês estão em cima do palco nota-se uma grande cumplicidade entre todos vós. Vocês funcionam mesmo em colectivo?

Há muito trabalho colectivo. Existe um grande equilíbrio entre nós e temos uma grande ligação uns aos outros. Há uns mais amigos que outros, mas quando trabalhamos estamos todos a trabalhar para o mesmo... Fomos três vezes a Itália, numa carrinha, e vamos voltar agora, com passagem por Espanha (NR: a entrevista foi feita antes da última partida do grupo para o estrangeiro), para uma digressão de seis ou sete datas. E isto só pode acontecer quando há uma grande unidade entre todos nós. Nós tratamos de quase tudo: para além da música, há os contactos, backlines, PAs, transportes, um stress constante... Neste momento já temos pessoas que nos estão a ajudar, mas durante dois anos vivemos quase em exclusivo para os Terrakota. E nos concertos as pessoas sentem o amor que nós pomos nisto tudo.

Há várias canções vossas que falam de questões políticas e ecológicas...

Quando formámos os Terrakota, para além de todo o colorido musical que queríamos transmitir, também tivemos a preocupação de falar de uma série de problemas que nos afectam pessoal e colectivamente. A Romi (Nota: vocalista principal do grupo) é discriminada por ser africana e teve problemas para se legalizar em Portugal... Não nos vamos «queixar» dessas coisas directamente, mas tentamos arranjar uma maneira de falar delas de uma forma eficaz. Não usamos slogans nem frases feitas, mas as ideias estão lá. Às vezes partimos de questões que nos dizem respeito directamente, outras vezes, há notícias que nos sugerem outros temas como o «Inch Allah» - que tem que ver com o Afeganistão - ou o «Dear Mama», que fala de questões ecológicas. Depois, cada música é cantada em duas ou três línguas diferentes. Usamos o inglês, francês, português, italiano, árabe, espanhol, dialectos africanos e o terrakotense, que é uma língua que nós inventámos. Às vezes, para transmitir uma emoção não é preciso falar numa língua conhecida.

A capa do vosso álbum é extraordinária...

A capa demorou imenso tempo a fazer. Foi um trabalho do Feijão (Nota: pintor e gráfico que trabalha habitualmente com os Terrakota), em conjunto connosco, que também tem que ver muito com viagens. Ele esteve seis meses no Brasil e trazia aquelas cores todas na cabeça.

Há pouco falaram dos vossos concertos no estrangeiro. Vocês estão a começar a tocar mais vezes lá fora do que em Portugal.

Mas isso também se deve à situação política que se vive em Portugal, com muitas Câmaras a acabar com festivais de música. O Santana Lopes, em Lisboa, acabou com montes de coisas, incluindo o Multimúsicas, que era um festival importantíssimo e que estava a crescer. Mas acabou. Ele está mais preocupado com as festas da noite e discotecas do que com qualquer outra coisa qualquer. Quando é preciso cortar, corta-se nas verbas para a cultura. Nós tínhamos concertos marcados antes das eleições que foram desmarcados depois...

Em contrapartida, estão a aumentar os convites lá de fora.

Sim, nós queremos viajar com este projecto... E é possível que consigamos licenciar o álbum para outros países europeus. Em Portugal o disco sai pela Zona Música, mas é possível que em Itália saia por uma subsidiária da Sony. E também é possível que seja licenciado para Espanha e França.

10 julho, 2006

Folk em Portugal - Há Um Ano Era Assim


Os textos que se seguem foram publicados originalmente no BLITZ em Junho do ano passado, num dossier que pretendia tomar o pulso ao estado da folk em Portugal. Um ano depois continuam a fazer sentido. Isto se descontarmos o facto de alguns dos discos indicados no texto como tendo edição iminente na altura ainda não terem sido editados um ano depois: Uxu Kalhus (com edição prevista para breve através da HeptaTrad), Brigada Victor Jara (na foto - com álbum também para breve, na Universal) e Realejo (não se sabe quando). Deles trataremos brevemente, juntamente com outros entretanto publicados (dos Lumen, Andarilhos, Moçoilas e Ginga). A juntar aos textos e às críticas publicados no dossier estão também duas críticas (a álbuns dos Mu e dos Chuchurumel) publicadas posteriormente.


DOSSIER FOLK/TRADICIONAL PORTUGUESA
INTRODUÇÃO

E, de repente, a primeira metade de 2005 está cheia de discos novos de grupos portugueses de música tradicional ou folk ou inspirada nas raízes ou o que se lhe quiser chamar. Este ano, e até agora saíram discos dos Galandum Galundaina, Marenostrum, Mandrágora, Roldana Folk, Trovas ao Vento, Notas & Voltas e Belaurora. E para breve está prevista a edição de álbuns dos Mu, Uxu Kalhus, Realejo, Brigada Victor Jara e Moçoilas, entre outros. E se os cépticos poderão dizer que isto não é um «movimento», o que dizer então de fenómenos como os festivais Andanças e Entrudanças - que, no conjunto, movimentam milhares de pessoas que dançam músicas tradicionais -, da proliferação de festivais de world music ou étnica ou o que se lhe quiser chamar (desde o histórico Intercéltico do Porto e da visibilidade dada a estas áreas pela Festa do Avante aos mais recentes em Aveiro, Sendim, Sines, Loulé, Coimbra, Águeda, o itinerante Sete Sóis Sete Luas, etc, etc...); o que dizer das centenas de jovens «recrutados» para as orquestras de tambores tradicionais portugueses (Tocá Rufar, Tocándar, Bardoada, etc, etc); da proliferação de grupos, muitos deles não consultados neste dossier porque ele se limita aos lançamentos desta altura (por isso, e só por isso, ficam de fora os Gaiteiros de Lisboa, Dazkarieh, Segue-me à Capela, Monte Lunai, At-Tambur, Toques do Caramulo, Cramol, Gaitafolia, Chuchurumel, Beltane, etc, etc, ou artistas como Né Ladeiras, Amélia Muge, Janita...); dos encontros de gaiteiros e de tocadores que se organizam todos os anos com participantes de todas as idades e de várias regiões do país; da Associação d'Orfeu; do concurso para novas bandas Arribas Folk; do facto, simples e natural, do último festival Termómetro Unplugged ter uma percentagem esmagadora de grupos destas áreas na final; do trabalho de editoras discográficas (a Açor, a Tradisom, a Sons da Terra...) vocacionadas para as músicas de raiz; ou os sites que se debruçam sobre o fenómeno (o at-tambur, o crónicas da terra, etc); ou da reedição em CD de velhos LPs de grupos como os Terra a Terra ou os Raízes; ou a passagem pela RTP (embora escondida e sem promoção) do novo «Povo Que Canta»?

Nas páginas que se seguem, alguns dos grupos referem as razões do «boom», quem está na sua origem, e algumas das suas características - que vão desde os projectos de recolha na sua região (os Galandum Galundaina e os Belaurora) aos grupos urbanos que recriam a música portuguesa pondo-a em confronto com outras músicas, de variadíssimas proveniências.

ELES ANDAM AÍ...

O BLITZ enviou a vários grupos de música folk/tradicional (não englobando aqui o fado) um questionário comum a que responderam os Belaurora, Galandum Galundaina, Roldana Folk, Mu, Brigada Victor Jara, Marenostrum, Realejo, Uxu Kalhus e Mandrágora. As suas respostas dão uma visão global do que é o «movimento» em Portugal, da sua diversidade estilística e instrumental e dos seus «gurus».

Quando se fala de folk, de música tradicional, de músicas étnicas, de world music, de música popular, chega-se geralmente à conclusão que qualquer destes termos é bastante limitativo, não passando cada um deles de uma «gaveta» ou «etiqueta» fácil para o enquadramento da música de um grupo ou artista. O BLITZ quis ser um pouco mais objectivo e perguntou «o que é que na vossa música é especificamente de raiz tradicional portuguesa?». Os açorianos Belaurora respondem que «praticamente tudo o que interpretamos é de raiz tradicional. Aliás, mais de 90 por cento do nosso repertório é mesmo música tradicional, recriada pelo grupo». Paulo Meirinhos, dos transmontanos Galandum Galundaina vai pelo mesmo caminho: «A nossa música baseia-se exclusivamente na música tradicional das Terras de Miranda, tanto em relação ao repertório como aos instrumentos musicais que usamos. Temos o privilégio de termos nascido e crescido neste meio tradicional rico em cultura e desde pequenos nas nossas aldeias (Fonte de Aldeia e Sendim), ouvimos os gaiteiros nas festas e em casa, ao lume, as músicas. A música que fazemos vem-nos no sangue». Já os Roldana Folk, do Porto, dizem que utilizam «padrões rítmicos tradicionais portugueses, nomeadamente o dos Zés Pereiras e as versões dos temas mirandeses "La Çarandilhera" e "Cirigoça"». Paulo Machado e José Francisco Vieira, dos Marenostrum, referem «os ritmos ou géneros musicais como o corridinho e o baile mandado»; e Vasco Ribeiro Casais, d'Uxu Kalhus, diz que «são os temas que intrepertamos como "Erva Cidreira", "Malhão", "Mat'aranha", "Regadinho" e também alguns instrumentos». Por sua vez, os Mandrágora afirmam que «nada na nossa música é estritamente tradicional, servindo esta, acima de tudo, de inspiração. O facto de todos os membros da banda ouvirem e apreciarem música tradicional acaba por se reflectir no som que criamos». E Manuel Rocha, dos pioneiros Brigada Victor Jara - com álbum novo, comemorativo de 30 anos de carreira do grupo de Coimbra, a sair brevemente -, diz que transformam os temas recolhidos: «A matéria-prima que "transformamos" é a melodia e o texto. Claro que a natureza da canção (ou do tema instrumental) é assumido como condicionante do arranjo (não há que pôr muita "festa" numa cantiga de embalar)».

As recolhas de música tradicional - feitas por Michel Giacometti (na foto), José Alberto Sardinha, etc. - são fundamentais para muitos deles. Manuel Rocha diz que «a maior parte do nosso trabalho baseia-se em recolhas de M. Giacometti. Usamos ainda recolhas de Margot Dias, do GEFAC, de Ernesto Veiga de Oliveira entre outros, e algumas (poucas) nossas». Giacometti é também referido pelos Marenostrum - «Na primeira fase de vida do grupo, fazíamos versões de música tradicional e usámos recolhas de Giacometti, entre as quais se conta um corridinho do Algarve» - e por Fernando Meireles, dos Realejo (também com novo disco a caminho): «Giacometti, Sardinha, e também Lopes Graça, Ernesto Veiga de Oliveira, Júlio Gomes, enfim, o que se cruzar connosco e for do nosso agrado». Meirinhos refere que «o repertório que apresentamos e em que nos baseamos, é principalmente do nosso ambiente familiar onde sempre se cantaram as músicas tradicionais. E sempre contactámos com os velhos gaiteiros para pedir conselhos. Na medida do possível, ouvimos gravações antigas do José Alberto Sardinha, Domingos Machado e mais recentes do Mário Correia onde contactamos com músicos que já não existem e repertórios menos conhecidos». Sardinha é ainda referido pelos Roldana Folk - «No último trabalho discográfico fizemos uso de recolhas do José Alberto Sardinha» - e Mandrágora - «Apesar de fazermos maioritariamente originais, desde sempre tivemos uma ou outra música inspirada em recolhas, nomeadamente de José Alberto Sardinha. Actualmente, tocamos uma versão nossa da "Galandum"». Já os Belaurora dizem: «Usamos essencialmente recolhas publicadas por outros, como Tavares Canário (1901), Padre José Luís de Fraga e Júlio Andrade (1960), Pedro Homem Machado (anos 90), Ten. Francisco José Dias (anos 80) e outros. Alguns temas resultaram de recolha directa feita pelo grupo». E Uxu Kalhus referem os ranchos folclóricos como fonte principal de recolha.

Como áreas geográfico-musicais prefenciais, os Belaurora referem, naturalmente, os Açores, os Marenostrum, o Algarve, e os Galandum Galundaina «as Terras de Miranda e algum repertório da zona de Bragança e Vinhais». Miranda e restantes Trás-os-Montes são também referidos como zonas de preferência dos Roldana Folk, Mandrágora e até da Brigada Victor Jara. Diz Manuel Rocha que «a região mais "sedutora" será, porventura, Trás-os-Montes. Pela variedade de romances, cantigas de trabalho, de festa. Mas julgo que, de algum modo, fomos "usando" cantigas de todo o território português continental e insular». Sem uma área definida de interesse principal estão os Realejo - «Sempre adaptamos as músicas por elas se nos apresentarem interessantes do ponto de vista melódico e rítmico» -, Uxu Kalhus (com álbum de estreia previsto para breve) e os portuenses Mu (cujo álbum de estreia, «Mundanças», está prestes a ser editado). Osga, dos Mu, afasta a música que fazem das raízes portuguesas referindo que tocam, essencialmente, originais mas acrescentando que «estamos abertos a toda a música. Inconscientemente temos muita influência dos países do leste europeu, talvez por a nossa acordionista conhecer muito bem esse universo musical».

FUSÕES, INFLUÊNCIAS, GLOBALIZAÇÕES

Num mundo globalizado e em que a informação circula livremente, é quase impossível fazer uma música «pura». Entre os grupos consultados pelo BLITZ, alguns tentam manter-se fiéis às raízes. Mas outros admitem facilmente a fusão com outros géneros musicais, desde o rock e jazz a músicas tradicionais de outros países. Os Belaurora dizem que só usam «música tradicional dos Açores», mas os Galandum confessam a dificuldade em manter essa «pureza»: «Neste projecto tentamos ser de alguma forma livres de outras influências, o que é muito difícil». Já Manuel Rocha refere que «nunca calhou andarmos intencionalmete por outros lados. Só neste disco incluíremos uma cantiga sefardita (da diáspora hebraica mediterrânica) que no-la "deu" o João Paulo Esteves da Silva», mas acrescenta: «O processo de aculturação a que nos deixamos sujeitar leva-nos sempre os dedos para outros "dizeres" musicais. Também fomos, aqui e ali "infectados" pelo vírus "celta", aquela estirpe que faz o público saltar...». Os outros assumem abertamente a fusão. Os Realejo falam de «músicas étnicas europeias». Os Roldana Folk «de ritmos de outros lugares do mundo distantes entre si e do recurso a linhas melódicas inspiradas em estéticas musicais tradicionais de outras culturas (árabe, sul-americana, europeia); jazz, rock, pop, fado, barroco, folclore europeu (Balcãs, Irlanda), samba, bossa». Os Mu das «recolhas que fizemos de temas tradicionais de países como a França, Croácia, etc. Tocamos desde valsas, mazurcas até músicas ciganas e nesses mesmos temas tocamos instrumentos de lugares tão distintos como as tablas da Índia ou o didgeridoo da Austrália». Os Marenostrum incluem na sua música «motivos e elementos rítmicos e melódicos de músicas étnicas de vários lugares: Norte de África, klezmer e Cabo Verde. De uma outra forma, pela energia com que tocamos certos temas e pelo prazer que temos em improvisar, temos que reconhecer que a nossa música também integra o rock e a música improvisada». Já os Mandrágora referem que «a nossa música resulta, principalmente, da forma de tocar de cada um, visto que todos os membros da banda têm gostos e influências musicais bastante diferentes». E Uxu Kalhus dizem que não têm «qualquer tipo de barreira», usando «jazz, funk, metal, música barroca, pop, mandinga, gnawa, árabe, ska, etc».

Manuel Rocha dá uma achega curiosa a este tema: «Sempre tivemos consciência (desde o primeiro registo) de estarmos a "roubar" a música rural, deslocando-a do seu lugar "natural" para a colocar em mãos alheias (as nossas). Mas a "fusão" ou "deslocalização" é inevitável, mesmo no contexto rural, no processo de transmissão oral». Noutros casos, a fusão de vários géneros foi crescendo ao longo do tempo para os Mu, os Marenostrum, os Realejo - «Foi crescendo porque o Realejo começou a frequentar festivais europeus», diz Meireles - e Uxu Kalhus - «Foi crescente de acordo com a entrada de novos músicos no projecto, mas deste o início do projecto que está presente e que é incentivada pelos membros do grupo», diz Casais. E para os Roldana Folk a fusão foi «mesmo um objectivo». Já para os Mandrágora, «a fusão entre diferentes estilos musicais, a existir, sempre foi inconsciente e involuntária, pois nunca foi nosso objectivo criar um estilo musical catalogável, muito menos directamente a partir de outros estilos já existentes».

INSTRUMENTOS DAQUI & DALI

Curioso é também verificar a diversidade de instrumentos que estes grupos usam, embora quase sempre em consonância com os géneros musicais por onde passeiam. Os Belaurora usam instrumentos tradicionais - «Viola da terra (Açores), violão, cavaquinho, bandolim, adufe, pandeiro...» - à mistura com outros - «Acordeão, violino, flauta, clarinete, flautim, contrabaixo» e, mais raramente, «violoncelo, fagote, tuba, saxofone, trompete e harmónica». Os Galandum usam «vários instrumentos musicais, alguns específicos da nossa região, como a gaita-de-fole mirandesa, com características bem definidas (timbre mais grave e aveludado). Usamos a flauta pastoril ou de tamborileiro e o músico toca em simultâneo um tamboril com a outra mão. Caixa de guerra, bombo, tamboril, pandeireta, pandeiro ou adufe, castanholas, conchas de Santiago, triângulo (ferrinhos)... E objectos de casa que quando bem explorados, conseguem-se sonoridades únicas como a garrafa, o cântaro ou bilha, a çaranda... Recentemente introduzimos no grupo a sanfona, que é um instrumento de origem medieval e permite-nos a abordagem de um repertório diferente como os rimançes. Utilizamos também a gaita-de fole-galega». Os Roldana Folk usam «bandola e paus mirandeses», mas também «flauta, tin-whistle, acordeão, guitarra, baixo, bateria, percussão e sequenciação (electrónica)». Os Mu usam os instrumentos portugueses «adufe e ferrinhos» e também «acordeão, serrote musical, didgeridoo, flauta, bombo, caixa, kazoos, colheres, pandeireta, tablas, percussões diversas, contrabaixo, violino, viola d'arco, udu» e um instrumento só deles, o «osgofone». Já os Marenostrum atiram-se a «bandolim, cavaquinho, adufe e caixa de guerra», mas também ao «acordeão, baixo eléctrico, guitarra acústica, bateria e um velhinho sintetizador analógico Korg». Uxu Kalhus utilizam «bombo e adufe» e «ralch fifen, acordeão, bouzouki, baixo eléctrico, guitarra eléctrica, bateria, flauta doce, flauta transversal, darbuka, bombo, djembé, tama, pandeiro, cabaça, etc». Os Realejo optam por «cavaquinhos, bandolins, adufes, sanfona» e pelos estrangeiros «concertina, gaita galega e guitarra folk». Os Mandrágora confessam que, «apesar de usarmos alguns instrumentos tradicionais portugueses (como bombo, adufe ou pandeireta), estes não são instrumentos centrais na nossa música», dando o protagonismo a «flautas, saxofone, gaita-de-foles, guitarras de seis e doze cordas, violoncelo, baixo eléctrico, moraharpa e percussões diversas». A maior panóplia de instrumentos vai, naturalmente, para a Brigada Victor Jara, que utiliza os nacionais «violas braguesa e beiroa, cavaquinho, bandolim, flautas de latão, de madeira e de cana, bombos e caixas da Beira Baixa e de Trás-os-Montes, gaita-de-foles, adufes, percussões de pequena dimensão (trancanholas, chincalho, ferrinhos, paulitos, conchas, pinhas, reco-reco, matracas da Semana Santa, etc.), concertina» e ainda «guitarras acústicas e semi-acústicas, violino, piano, sintetizador, alguns elementos de bateria de jazz, baixo acústico e eléctrico, acordeões de teclas e de botões».

O «BOOM» VISTO POR QUEM O FAZ

O recente aumento de números de gravações musicais destas áreas é encarado como natural e positivo por quase todos. «(Isto é) muito bom! Temos uma tradição musical fortíssima, com uma grande variedade de sonoridades, estilos, instrumentos. É importante recuperar todo este património musical tradicional e apresentá-lo da mesma forma que antes ou de outra diferente com arranjos novos, outros instrumentos», diz Paulo Meirinhos. Osga acrescenta uma simples frase: «Ufa, finalmente». Os Roldana Folk dizem que «é positivo. Demonstra uma maior sintonia, por parte especialmente de jovens criadores, com a cultura tradicional portuguesa e europeia, no sentido de afirmar uma identidade cultural genuína e, por isso, fortemente comunicativa». Já os Belaurora vêem o «boom» «com redobrado entusiasmo, já que é a mais perene das músicas que teima, por força e trabalho destes grupos, em perpetuar-se no tempo e nas consciências. Hoje é mais fácil gravar e editar e ainda bem pois, de contrário, muito do precioso trabalho que se vai produzindo voltaria ao esquecimento e à perda definitiva», enquanto Fernando Meireles acha que «é a evolução natural do que se vem passando por todo o mundo. Aqui na Europa já há muitos anos que estas músicas têm os seus locais de grande culto». Por sua vez, Casais diz que vê o movimento «com bons olhos; é sinal que as pessoas estão cada vez mais viradas para a sua tradição».

Os Mandrágora consideram que «sempre houve grandes bandas e discos que ficarão na história da música portuguesa por muitos anos. Na nossa opinião, este "boom" de edições deve-se ao facto de haver, da parte das pessoas, um interesse crescente por este tipo de música (cansados que estão da música "a granel")», mas também alertam: «Temos esperança que este interesse genuíno do público seja acompanhado também por outros meios de comunicação social, nomeadamente rádios e televisões». No mesmo sentido, perguntam os Marenostrum: «Em que rádios podemos ouvir o nosso disco ou os discos dos At-Tambur, Dazkarieh, Roldana Folk, já para não falar de grupos de peso como a Ronda dos Quatro Caminhos, a Brigada Victor Jara, os Gaiteiros de Lisboa... Quando voltaremos a ouvir na rádio a voz da Né Ladeiras, a flauta do Rão Kyao, o bandolim do Júlio Pereira ou as percussões do Rui Júnior? Um "boom" ou movimento musical forte não se pode reduzir a algumas edições discográficas que se aguentam nas prateleiras das FNACs apenas algumas semanas e depois são devolvidas aos editores, porque não têm compradores informados e cultivados por falta de divulgação da rádio, da imprensa e da televisão». Manuel Rocha vai ainda mais longe e explica que «os movimentos "revivalistas" são um produto da globalização: são a afirmação da "localidade". Não deixam, de qualquer modo, de ser um grupo "marginal", preterido pelas editoras e pelos meios de comunicação, o que indicia o seu baixo valor comercial para a indústria portuguesa. Mas a indústria portuguesa ainda não entendeu sequer o fenómeno do "novo fado" (que, de resto, não existe já que o mais - diria mesmo o único - revolucionário dos fadistas portugueses, é o "velho" Carlos do Carmo) e o seu potencial exportador. De qualquer modo, os booms são bons ou maus consoante a música que produzem seja boa ou má (não o saberei definir mas julgo saber identificar)».

TRIBUTOS, GURUS, PIONEIROS
Todos os grupos contactados fizeram questão de apontar aqueles que eles consideram ser os grandes responsáveis por tudo o que está a acontecer agora. Dos Belaurora, as homenagens vão para a «Brigada Victor Jara, Maio Moço, José Afonso (na foto), Giacometti, os citados dos Açores, a que podem acrescentar-se o Professor Artur Santos e Emiliano Toste (da editora Açor)». Os Galandum consideram que «um grande contributo para este estado de coisas deve-se aos festivais que apresentam esta vertente da música tradicional. Os festivais têm influenciado muito os gostos de quem hoje trabalha nesta área. Fizeram ver uma forma diferente de música tradicional. Estou-me a lembrar do Festival Intercéltico do Porto e todos os outros que se seguiram, o Andanças, a Festa do Avante que sempre apostou muito nesta vertente da música». Para os Roldana Folk, «o desenvolvimento destas áreas em Portugal é, sobretudo sustentado por uma alta qualidade de composição, interpretação e performance musical, gerada por artistas como o Carlos Paredes, a Amália, entre tantos. Esta situação torna possível o aparecimento, mais recentemente de bandas/artistas como, por exemplo, os Gaiteiros de Lisboa que abrem um caminho de modernidade/novidade no espectro estético musical português». Por sua vez, os Mu referem «o festival Andanças» como «o principal motor de divulgação da cena tradicional europeia em Portugal» e «o site dos At-tambur, que também tem uma importância fundamental na divulgação dos eventos relacionados com música étnica», para além «do Mário Correia, com o Festival Intercéltico de Sendim e o Sons da Terra, a Gaitafolia e o Encontro Nacional de Gaiteiros, todas as bandas...». Os Marenostrum avançam com uma lista de homenagens - «Fernando Lopes Graça, Michel Giacometi, Afonso Albuquerque, Brigada Victor Jara, Danças Ocultas, Uxu Kalhus, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho e Lua Extravagante», enquanto os Mandrágora referem «musicólogos como Michel Giacometti, José Alberto Sardinha ou o Abade Baçal, bem como a influência de Fausto ou dos Gaiteiros de Lisboa no desenvolvimento não só destas áreas mas de toda a história musical portuguesa. Há que destacar também o papel de inúmeras associações culturais que, por gosto e até por teimosia, apostam em manter viva a nossa herança musical e cultural» e os Realejo falam de «Fausto, José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Brigada Victor Jara, Júlio Pereira, Trovante, Pedro Caldeira Cabral, Carlos Paredes, Ernesto Veiga de Oliveira, Giacometti, Lopes Graça, Alberto Sardinha». A Brigada Victor Jara insiste em Giacometti: «Embora contra-vontade (ele chamava a esta música "música em segunda mão") foi Giacometti que, editando a música do povo, deu-a a conhecer a toda a gente que não se revia no "ranchismo" da "política do espírito" do regime fascista (o onomasticamente doce Estado Novo). Depois foram os grupos musicais que, "urbanamente", divulgaram esta música em versão "domesticada". Pecado de que, também nós, teremos que prestar contas no Juízo Final. Mas valeu a pena». E Uxu Kalhus consideram que «os Gaiteiros de Lisboa fizeram um óptimo trabalho. De resto existem associações com a PédeXumbo, a Associação Gaita de Foles, a D'Orfeu e os sites Attambur.com e Crónicas da Terra, que têm feito uma boa divulgação e organização de eventos e que têm levado muita gente ao encontro da tradição».

SETE DISCOS (E MAIS DOIS EM ACRESCENTO...)

Sete-álbuns-sete é o resultado da colheita de discos nas áreas da música tradicional portuguesa/folk que o ano de 2005 nos deu até agora. É pouco? Não é, se verificarmos que durante todo o ano de 2004 foram editados apenas três ou quatro. E para os próximos tempos anunciam-se mais uns quantos.

«Modas i Anzonas» (Açor/Megamúsica) é o novo álbum dos Galandum Galundaina, que mostram aqui uma evolução enorme em relação ao passado. As músicas das Terras de Miranda (lhaços, romances, modas locais...) continuam lá, e com um grau de pureza e verdade assinaláveis, mas o grupo apresenta agora uma variedade harmónica muito maior: a somar às gaitas, flauta pastoril e tambores, introduziram uma sanfona, mais percussões e atiram-se agora sem temor a jogos de vozes mais arrojados. Um hit de rádio obrigatório: «Dona Tresa».

Também bastante «localizados» na música da sua região, mas com uma abordagem mais comum a muitos grupos de MPP, os Belaurora fazem, no álbum «O Cantar Que nos Embala» (Açor/Megamúsica), versões simples e sem maneirismos de muitos temas de várias ilhas açorianas, não faltando aqui canções como «Chamarrita» (em duas versões diferentes), «Olhos Negros» ou «Samacaio».


No Algarve, os Marenostrum também pegam, no álbum «Almadrava» (Som Livre), em música da sua região (corridinhos, bailes mandados...), mas embrulham-nos em arranjos devedores de muitas outras músicas: a música árabe, o klezmer, o jazz, a música cabo-verdiana. O resultado é, na grande maioria dos casos, bastante entusiasmante e inovador (oiça-se, por exemplo, «Fado da Ilha», uma skazada fadista/klezmer e com picante africano).

Do Porto, os Mandrágora mostram no seu álbum «Mandrágora» (Zounds/Sabotage) como a folk em Portugal está a evoluir. Interpretando na sua grande maioria, originais - a excepção é a sua versão de «Galandum» -, os Mandrágora fundem folk, digamos, «céltica» (e uma excelente gaita-de-foles está lá para fazer a ligação) com bons delírios do rock progressivo, experimentalismos que os levam para territórios próximos dos Hedningarna, uma aproximação ao throat-singing de Tuva única em Portugal, e influências, benéficas, dos Sétima Legião (com Trás-os-Montes no pensamento). Só como exemplos, os temas «O Aranganho», «E Pia o Mocho» e «Trangalhadanças» são uma maravilha.

Também do Porto, os Roldana Folk fazem, em «Gincana» (Açor/Megamúsica), uma abordagem pop de muitos temas inspirados por várias músicas tradicionais: de raiz portuguesa, sim (cf. na excelente e surpreendente versão de «Cirigoça»), mas também a viajar em direcção ao Oriente, ao flamenco, aos Balcãs... Imagine-se um estranho cruzamento dos Mler Ife Dada com a Banda do Casaco e ter-se-á uma ideia vaga do que se pode ouvir aqui. «Templo do Som», «Arabiando», «Querer o Que Já Temos», «1,2,3» ou o animadíssimo «Balcânico» também são belíssimas surpresas deste disco.

De Guimarães, os Trovas ao Vento lançam agora o seu terceiro álbum, «Moinhos de Vento» (Tradisom/Megamúsica), com José Barros, dos Navegante, a dar uma ajuda na produção e arranjos. Aliando originais e alguns tradicionais, o grupo mostra um som despretencioso e baseado nas sonoridades dos instrumentos tradicionais. Uma bonita versão do tema medieval «Ai Ondas do Mar de Vigo», «Ponte das Bruxas» (com um violino lindíssimo), «Murinheira de Guimarães» (a fazer a ponte entre o Minho e a Galiza) e o arrepiante «Atirei C'uma Laranja» (com as cantadeiras de Briteiros) ficam como momentos mais altos deste álbum.

Finalmente, «Decantado» (Tradisom/Megamúsica), dos Notas & Voltas, é uma excelente prova de que a música tradicional é uma paixão comum a muita gente. Formados por trabalhadores do Banco de Portugal que têm a música como hobby, os Notas & Voltas têm aqui um álbum desigual e, por vezes, com demasiado «folclorismo» e excesso de instrumentação, mas têm também alguns belíssimos momentos: «Chin-glin-din» (de Trás-os-Montes), «Senhora dos Remédios/Nossa Senhora da Graça» (Beira Baixa) e «Cartinha de Amores» (Beira Alta). As adaptações e arranjos são de Vítor Reino (dos Maio Moço).

CHUCHURUMEL
«NO CASTELO DE CHUCHURUMEL»

Ed. de Autor

Grupo folk da cidade do Porto vai ao campo.

A Banda do Casaco fê-lo com a cantora Ti Chitas; a Sétima Legião fê-lo no álbum «Sexto Sentido»; o projecto Megafone, de João Aguardela, fá-lo quase sempre. O aproveitamento de recolhas de temas tradicionais para inclusão em discos de grupos musicais urbanos - mesmo que, muitas vezes, de inspiração rural – é uma «fórmula» que pode resultar melhor ou pior consoante o talento e a arte de quem o faz. Em «No Castelo de Chuchurumel», o duo de Julieta Silva e César Prata (ambos em vozes e instrumentos tradicionais portugueses e estrangeiros, como a darabuka árabe ou a txalaparta basca, e programações) reinterpretam bem e com coragem temas tradicionais portugueses, entremeando-os (raramente «misturando-os») com recolhas no terreno. E o único problema do álbum é exactamente esse: estão aqui um excelente álbum folk dos Chuchurumel e um excelente álbum de recolhas, mas muitas vezes sem ligação aparente entre os «dois». (7/10)

MU
«MUNDANÇAS»

Açor/Megamúsica

Grupo do Porto às voltas com as danças tradicionais europeias.

O recente boom de grupos influenciados pelas músicas tradicionais está a revelar alguns exemplos de inventividade absoluta e, até há alguns tempos, completamente inesperada. O grupo portuense Mu – dois rapazes e quatro raparigas – mergulha neste caldeirão (e no caldeirão-irmão dos grupos que fazem música para bailes tradicionais) de cabeça e sem temores, fundindo bem os seus originais, músicas de Leste (Rússia, Croácia, Macedónia...), da Suécia e dos países do centro da Europa (França, Bélgica), klezmer e sabores orientais (um imenso Oriente que vai de Marrocos à Índia). Com um picante adicional: o som do grupo está entre uma charanga manhosa e uma treinada formação de música clássica (com o equilíbrio entre os dois «lados» a personalizar fortemente a sua identidade). Um único senão: não há quase nada de português lá pelo meio. (8/10)