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15 dezembro, 2010

Colectânea de Textos no jornal "i" - XXI


Cinco canções no Natal 2009
Publicado em 17 de Dezembro de 2009

Não são propriamente canções de Natal tal como as conhecemos, mas como não passam nas rádios e vão, quase de certeza e injustamente, passar ao lado da fama que merecem, aqui ficam cinco sugestões de temas portugueses recentes para ouvir numa consoada mais consolada: "Tango do Vilão Rufia", tema gingão do grupo portuense As Três Marias (com vozes de Cristina Bacelar e do convidado Sérgio Castro, dos Trabalhadores do Comércio), para dançar e sorrir enquanto o peru cozinha - do álbum "Quase a Primeira Vez". "Os Loucos Estão Certos", dos Diabo na Cruz, para fazer um eventual coro gospel iconoclasta enquanto se ouve a frase "Na igreja de S. Torpes hoje há bacanal" - do álbum "Virou". A lindíssima caixinha-de-música pop, juvenil e semi-africana que é "Mariazinha Luz", de Margarida Pinto (dos Coldfinger, aqui a solo) e, esta sim, com uma citação natalícia óbvia ("brilha, brilha lá no Céu, a estrelinha que nasceu") - do EP "A Aprendizagem de...". Já na voz da luso-cabo-verdiana Danae (na foto), "Bu Rosto" é uma morna nada tradicional, para ouvir quando a consoada já chegou aos doces, e que faz a ponte entre este ritmo de Cabo Verde, o jazz, os blues e algo de absolutamente etéreo e indizível - do álbum "Cafuca". Finalmente, a divertidíssima "Kit de Prestidigitação", de B Fachada, é perfeita para a altura em que se abrem as prendas porque é de prendas que a canção fala... embora sejam aquelas (incluindo velhos LPs do Zeca) que se "herdam" nos divórcios! - do álbum "B Fachada".





Porque é que os protestantes cantam tanto?
Publicado em 24 de Dezembro de 2009

Fui viver para o Barreiro quando tinha quatro anos. O primeiro amigo que lá tive chama-se Jorge Samuel e a sua família é protestante, mais especificamente pentecostal. Eu era miúdo do outro lado, dos católicos e - apesar de o Barreiro ter tido padres bastante progressistas (do padre Fanhais, cantor!, ao saudoso padre Sobral) -, havia uma coisa que me fazia espécie: os meus vizinhos passavam boa parte do dia a cantar. Hinos, salmos, espirituais, etc. Bastante novo, o Jorge aprendeu a tocar guitarra e, se bem me lembro, órgão. Só muitos anos depois percebi a importância que o gospel e os espirituais negros tiveram no desenvolvimento de várias correntes protestantes dos Estados Unidos, passando ainda pelos hinos das lutas pelos Direitos Civis, e a sua transmissão a outras igrejas evangélicas em todo o mundo, sem esquecer que alguns dos maiores cantores e guitarristas de blues eram também pregadores ou pastores (o grande Reverendo Gary Davis, por exemplo, era pastor baptista). Tudo isto para falar, mais uma vez, da trupe da Flor Caveira - e da razão por que dali, do seio dos protestantes, sai tanta música e tão boa. E com uma fé, uma ironia, uma verve, um sentido crítico, uma lucidez e até uma certa iconoclastia que só ficam bem a artistas e bandas de cristãos... mas que também vêm do punk roque. E agora o lead, virado ao contrário: oiça-se com urgência o fabuloso primeiro álbum-síntese de Samuel Úria: "Nem Lhe Tocava". Está lá isto tudo, resumido.




O Balanço (possível) do ano musical português
Publicado em 31 de Dezembro de 2009

Em tempo de balanços, esta coluna semanal que dá conta do que se vai passando na música portuguesa - pelo menos daquela que o seu autor conhece ou mais aprecia - não foge à tradição, e também aqui deixa a lista dos melhores (e de um dos piores) momentos do ano. Canção Mais Surpreendente do Ano: a versão de "Júlia Florista" por Dulce Pontes, pelo seu tio rebaptizada "Júlia Galdéria" e incluída no álbum "Encontros". Melhor Canção do Ano Mesmo: "Mariazinha Luz", de Margarida Pinto (na foto), do EP "A Aprendizagem de Margarida Pinto". Melhor Versão de Um Êxito Obscuro da Década de 60 do Ano: "A Borracha do Rocha", pelo Real Combo Lisbonense. Álbum mais Surpreendente do Ano: "Luminismo", de Ricardo Rocha, com um CD de originais dele (e versões de temas de Artur e Carlos Paredes e de Pedro Caldeira Cabral) para guitarra portuguesa e outro com peças suas para piano. Editora do Ano: a Flor Caveira e a Mbari, ex-aequo, com lançamentos de excelentes discos (às vezes com artistas comuns) dos Diabo na Cruz, B Fachada, Samuel Úria, João Coração, Norberto Lobo e do já referido Ricardo Rocha. Banda mais Popular do Ano ainda sem Disco Editado: Roda de Choro de Lisboa. Canção Que já Não Há Pachorra para Ouvir Mais Este Ano (e Nos Próximos): "Gaivota", de Amália Rodrigues, pelo projecto Amália Hoje, que tornou uma canção simples, sentida e acústica num fogo-de-artifício de estúdio e em que aquilo que no peito "bateria" será mesmo mais uma caixa-de-ritmos.

10 dezembro, 2010

Ricardo Rocha - Um Prémio e... Um Tributo


A notícia já tem umas semanas, mas serve de mote possível ao que vem a seguir: Ricardo Rocha foi o vencedor do Prémio Carlos Paredes 2010, atribuído pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, pelo seu último álbum, "Luminismo". Um prémio mais que apropriado e que me serve de justificação para recuperar aqui a crítica a esse disco e a entrevista que fiz com Ricardo Rocha a propósito deste álbum desviante, revolucionário e, por isso mesmo, absolutamente sedutor. Os textos originais foram publicados na revista "Time Out".


Ricardo Rocha
"Luminismo"
Mbari Música

Num ano (2009) de excelente produção discográfica portuguesa, o prémio de álbum mais surpreendente (e, de certa forma, também o mais marado) de todos vai, sem dúvida, para Ricardo Rocha. Mestre, embora relutante, da guitarra portuguesa, Ricardo Rocha editou o histórico "Voluptuária" em 2003, seguindo-se "Tributo à Guitarra Portuguesa" – em que visita os grandes guitarristas do fado de Lisboa. Agora, no duplo-álbum "Luminismo" faz os seus originais viajarem pelo fado, a folk livre à maneira de John Fahey/Norberto Lobo ou o serialismo e apresenta versões pessoais de temas de Carlos Paredes (oiça-se “Canto do Trabalho” em speed-metal!), Artur Paredes e Pedro Caldeira Cabral. O segundo CD, ainda mais surpreendente!, são temas dele compostos para... piano, interpretados por Ingeborg Baldaszt. *****


Entrevista
Eu Tenho Dois Amores...

Que em nada são iguais: um é a guitarra portuguesa mas é o piano que amo mais. Nesta conversa com António Pires, Ricardo Rocha assume a bigamia.

A letra da célebre canção de Marco Paulo, embora aparentemente desajustada neste contexto, pode aplicar-se na perfeição a Ricardo Rocha, um génio da guitarra portuguesa mas igualmente perdido de amores pelo piano. No seu novo álbum, "Luminismo", o CD1 inclui originais e versões de temas de Artur Paredes, Carlos Paredes e Pedro Caldeira Cabral, interpretadas por ele na guitarra portuguesa, enquanto o CD2 inclui peças para piano compostas por ele e tocadas por Ingeborg Baldaszti.

Há um pequeno pormenor neste novo álbum, "Luminismo", que não existe nos outros dois que gravaste, "Voluptuária" e "Tributo à Guitarra Portuguesa": ouve-se a tua respiração, como se ouvia a respiração do Carlos Paredes nos discos dele.

E também se ouve a minha voz (como acontecia com o pianista Glenn Gould).

Mas isso leva-me a uma questão de que falaste há alguns anos noutra entrevista: a dificuldade que é, para ti, tocar guitarra portuguesa.

Sim, continua a ser doloroso. E quanto mais dificuldade técnica tiver a peça, mais esforço físico está implícito.

No "Voluptuária" tinhas, para além de inúmeros originais, versões de Carlos Paredes e Pedro Caldeira Cabral. Neste repetes estes dois nomes mas também tens um tema de Artur Paredes (pai de Carlos Paredes).

Fiz uma adaptação – não gosto da palavra “arranjo” - de uma peça dele, “Passatempo”, que é muito bonita e que é fantástica para abordar a solo dentro de um esquema muito clássico, o que é interessante.

A referência a estes três nomes – os Paredes e Caldeira Cabral – leva-nos a outra questão inevitável: há pouquíssimos compositores para guitarra portuguesa a solo. São eles e poucos mais e, numa geração muito mais nova, existes tu. Achas que há preguiça ou falta de vontade dos outros guitarristas?

Não, não acho que seja preguiça ou falta de vontade. A guitarra está é tão associada a um género musical específico, o fado, que não são duas ou três pessoas que a conseguem resgatar ao seu papel de instrumento de acompanhamento (da voz). Eu sozinho não consigo. O Carlos Paredes não conseguiu, o Pedro não conseguiu, eu não irei conseguir...

Mas isso já aconteceu noutros géneros musicais: o bandoneón foi resgatado ao tango, a kora está agora a ser assumida como um instrumento solista...

Mas o bandoneón teve o Piazzolla, com uma projecção internacional fortíssima... Em Portugal, a guitarra portuguesa só há poucos anos entrou no meio académico, em alguns Conservatórios. Estas iniciativas são saudáveis. E talvez, por causa disso, daqui por dez, quinze anos, poderá vir a dar frutos e possamos vir a ter solistas e compositores para guitarra portuguesa.

Falando dos teus temas originais no novo disco, aquilo que sinto é que, embora havendo aqui e ali umas alusões ao fado, há ali muitas outras coisas: o serialismo, a música minimal-repetitiva, a influência da guitarra clássica aplicada à free-folk...

Não acho que aquilo que faço seja original. Acho é que se está a ouvir pela primeira vez uma guitarra portuguesa fora do contexto que é esperado. A surpresa para as pessoas é “estou a ouvir uma música que reconheço mas os sons são emitidos por um instrumento diferente daqueles a que estou habituado”. E de fado não tem nada. Só, talvez, por ser o instrumento que é. Uma coisa de que tenho a certeza é a de que, se não tocasse piano – e toco mal piano -, e se não conhecesse o seu reportório, não comporia para guitarra portuguesa como componho. A minha visão e abordagem racional da música, vinda do piano, é muitas vezes transposta para a guitarra. Adoro o piano.

Concordarias comigo se dissesse que a guitarra portuguesa é a tua mulher e o piano é a tua amante?

(risos) Essa é uma visão engraçada. Mas, sim, pode ser encarado dessa forma. E isto, com o máximo respeito para as mulheres.

Este álbum é duplo e, surpreendentemente, o segundo CD tem peças tuas compostas para piano. Foi uma maneira de mostrar que há vários Ricardos Rocha no Ricardo Rocha?

Não. E quase aconteceu por acaso. Fui convidado para tocar num programa, extraordinário, do António Victorino d'Almeida que passou há dois anos na televisão mas que ninguém viu – aquilo era transmitido às duas da manhã! E nesse programa conheci a Ingeborg, que é uma pianista absolutamente genial. Isso inspirou-me a compor algumas novas peças a pensar nela como intérprete, às quais juntei três que já tinha composto antes. Na editora, quando ouviram o piano, perguntaram-me se era eu a tocar. Eu? Quem me dera tocar assim!

22 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 3º Fascículo


Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


GUITARRA PORTUGUESA
DISCOGRAFIA BÁSICA

A guitarra portuguesa está, quase sempre, escondida atrás de um fadista ou de uma fadista. E não são muitos os registos discográficos existentes que dêem ao instrumento o protagonismo absoluto. O BLITZ foi à procura dos discos que julga serem os que mais e melhor justiça fazem à nossa guitarra:

António Brojo e António Portugal - «Variações Inacabadas» (CD 1994 EMI). Dois dos mais importantes guitarristas de Coimbra colaboram num álbum que foi deixado inacabado devido ao falecimento dos dois intervenientes. Neste disco, Brojo e Portugal interpretam temas próprios e de Artur Paredes, Gonçalo Paredes, Augusto Hilário e Flávio Rodrigues, entre outros.

António Chaínho - «A Guitarra e Outras Mulheres»(CD 1998 Movieplay). Acompanhante de fadistas como Maria Teresa de Noronha, Lucília do Carmo e Carlos do Carmo, entre outros, Chaínho mostra neste disco que também é um talentoso compositor de originais. É aqui acompanhado por cantoras como Teresa Salgueiro, Marta Dias, Elba Ramalho ou Filipa Pais e músicos como Fernando Alvim, Vinicius Cantuária, Greg Cohen, Peter Sherer e Eyvind Kang.

Artur Paredes - «Artur Paredes» (LP 1961 Alvorada, CD 2003 Movieplay). Filho de Gonçalo Paredes e pai de Carlos Paredes, Artur Paredes foi «o génio revolucionário da guitarra coimbrã» (diz José Niza). Neste disco, Artur Paredes interpreta originais seus acompanhado por Carlos Paredes (também na guitarra portuguesa) e Arménio Silva (viola).

Carlos Paredes - «Guitarra Portuguesa» (LP 1968 Columbia, CD 1987 EMI-VC) e «Movimento Perpétuo» (LP 1971 Columbia, CD 1988 EMI-VC). Se Artur Paredes, pai de Carlos, revolucionou a guitarra coimbrã, Carlos Paredes revolucionou toda a música nacional e fez da guitarra portuguesa um instrumento maior na galáxia dos sons. Génio absoluto, Carlos Paredes - acompanhado nestes dois álbuns pela viola de Fernando Alvim - lança as sementes do futuro para o instrumento em temas imortais por si compostos e interpretados («Canção Verdes Anos», «Movimento Perpétuo», «Mudar de Vida»...).

Domingos Camarinha e Santos Moreira - «Guitarras Portuguesas» (LP 1960 Decca, CD 2001 EMI-VC). O guitarrista Domingos Camarinha (neste disco acompanhado à viola por Santos Moreira) foi acompanhante e autor de músicas para Amália Rodrigues e um dos mais importantes intérpretes de guitarra de Lisboa. Neste álbum toca temas de Lisboa mas também de Coimbra e do folclore nacional.

José Nunes - «O Melhor de José Nunes» (CD 2001 EMI-VC). Acompanhador de fadistas (nomeadamente Amália) mas também solista, José Nunes foi o melhor exemplo de como a guitarra portuguesa é mesmo... portuguesa. Nascido no Porto, é tido como um genial fusionista entre os estilos de Coimbra e Lisboa. Neste disco interpreta temas seus e de outros (Raul Ferrão, Max, populares...).

Pedro Caldeira Cabral - «Memórias da Guitarra Portuguesa/A Guitarra do Século XVIII» (CD 2003 Tradisom). Instrumentista, investigador, especialista em música antiga, Pedro Caldeira Cabral (na foto) é também um apaixonado pela guitarra portuguesa. Neste disco duplo, Cabral vai em busca de formas clássicas/eruditas (embora não se resuma a isto) interpretadas em guitarra portuguesa: pavanas, sonatas, tocatas, minuetos...

Ricardo Rocha - «Voluptuária» (CD 2003 Vachier & Associados) e «Tributo à Guitarra Portuguesa» (CD 2004 Público/Vachier & Associados). O mais talentoso guitarrista de Lisboa da nova geração, Ricardo Rocha tanto inova, revoluciona e leva a guitarra para novos e inexplorados territórios (no álbum em solo absoluto - excepto quando é acompanhado por cravo e violino - e maioritarimente com composições suas, «Voluptuária») como é respeitoso e reverente na transmissão de temas de compositores do passado como Armandinho, José Nunes, Domingos Camarinha, José Cavalheiro ou Jaime Santos (em «Tributo à Guitarra Portuguesa», em que é acompanhado pela viola de Paquito).

Vários - «Guitarra Diversa» (CD 2004 Músicactiva). Álbum editado com o apoio de Coimbra - Capital Nacional da Cultura, inclui participações de Ricardo Rocha, Pedro Caldeira Cabral, Nuno Rebelo, Cândido Lima e Paulo Soares.

Vários - «Guitarras do Fado - Ao Vivo na Aula Magna» (CD 2001 EMI-VC). Inclui gravações ao vivo de Fontes Rocha, Carlos Gonçalves, Mário Pacheco, Manuel Mendes, Paulo Parreira e Ricardo Rocha.

20 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 2º Fascículo


Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


A INCLINADA GERAÇÃO (II)
TOCAR GUITARRA PORTUGUESA É DOLOROSO

No ano passado, quando Ricardo Rocha editou o seu álbum a solo «Voluptuária», o guitarrista referiu em várias entrevistas uma relação de amor/ódio com o instrumento. Relação que ele agora clarifica: «Quando falo um bocado mal da guitarra, isso tem a ver simplesmente com a parte técnica e a parte física do instrumento. É um instrumento que exige não só boas condições técnicas como uma boa condição física para tocar, pela tensão e dureza das cordas. Tudo aquilo exige uma forma muscular muito boa para se conseguir tocar, porque tudo é duro, muito tenso. Isso dificulta a técnica, a articulação. É uma grande canseira. É um desporto radical». E também Marta Costa refere a dificuldade que é tocar o instrumento: «É difícil para qualquer pessoa, mas para uma mulher é ainda mais difícil. Temos uma pele mais fina do que a dos homens, temos que criar calos nos dedos, as cordas são muito finas e têm uma tensão enorme - é um bocado doloroso. Quando os calos chegam está tudo bem».

INFLUÊNCIAS, REFERÊNCIAS, OS PAREDES E ARMANDINHO...

E quem é que ouvem os guitarristas da nova geração? Quais são as suas principais influências e referências?... Diz Ricardo Rocha: «O Carlos Paredes e o Pedro Caldeira Cabral são uma referência pela sua actividade de solistas. Mas há outras pessoas que são uma referência fundamental na linguagem da guitarra tradicional: Jaime Santos, Domingos Camarinha, Armandinho, são guitarristas fundamentais para quem aprende guitarra portuguesa e se interessa pelo instrumento. Eles tocavam com uma complexidade enorme e já ninguém toca aquela linguagem, porque é muito difícil».

Por sua vez, Paulo Soares contrapõe com a escola de Coimbra: «A minha grande influência é, sobretudo, dos Paredes, porque na música deles - Artur e Carlos - existe uma energia anímica e de aproveitamento sonoro do instrumento que não encontramos em mais nenhum guitarrista. E sempre procurei essa energia. Mas também admiro muito o trabalho de Octávio Sérgio, que podemos pôr ao lado do de Carlos Paredes, em termos de qualidade da composição e da adaptação ao instrumento. O Pedro Caldeira Cabral faz um trabalho extraordinário, com influências da música erudita, e isso leva-nos a sofisticar o uso que se faz da guitarra». E lança algumas farpas ao estilo de Lisboa: «Historicamente, houve uma tentativa de se adaptar a construção do instrumento ao uso e ao estilo de cada cidade. Mas essas diferenças estão a atenuar-se cada vez mais e de uma forma geral é o modelo físico de guitarra de Coimbra que tende a prevalecer. Mas do ponto de vista da técnica, e da forma como o reportório se desenvolveu, as principais diferenças são que a guitarra de Lisboa procurou muitos rodriguinhos, muitos ornamentos, cantar as melodias mas ornamentá-las com um certo jeito malabarista, algum virtuosismo exibicionista, que caracterizava o Armandinho, que serve de modelo inicial a esse estilo de guitarra. Na guitarra de Coimbra, temos outra atitude, representada pelo Artur Paredes, onde não são os efeitos sonoros que estão em causa, mas a sonoridade intrínseca, completa, cheia, do instrumento e da música que nele se faz».

Farpas que são repegadas por Varatojo: «Não posso dizer que tenha influências, porque tenho tão pouca experiência no instrumento que não consigo avaliar se a minha maneira de tocar tem mais a ver com este ou aquele. Gosto de ouvir alguns guitarristas, mas gosto de descobrir os meus próprios caminhos... Gosto das coisas simples e a guitarra portuguesa tocada de uma forma clássica é uma coisa muito rendilhada, muito barroca, muito promenorizada, e gosto de "passar isso a ferro" e fazer umas coisas um bocado mais cubistas. Já fazia isso com a guitarra eléctrica». Por sua vez, Marta, humilde, refere: «Gosto muito do Mário Pacheco, do Fontes Rocha, do Ricardo Rocha - que ao seu estilo é genial. E é mais a essas pessoas com quem me dou a quem eu me agarro. Tenho poucos CDs, é uma vergonha...».

O PRESENTE E O FUTURO

Neste momento, e entre outros projectos, Nuno Rebelo (na imagem, um dos esboços de uma «guitarra portuguesa mutante») está envolvido no grupo Mark Lewis & The Standards, mas As Guitarras Portuguesas Mutantes!!! continuam vivas, quanto mais não seja através da projecção de filmes originalmente feitos para o projecto a serem exibidos num festival em Atenas. Para além disso, diz Rebelo, «não está nada encerrado no capítulo As Guitarras Portuguesas Mutantes!!!; é bem possível que volte a acontecer. É preciso apenas chegar o momento certo e a ocasião ideal».

Ricardo Rocha está a trabalhar em originais para um novo álbum, embora ainda não saiba quando será editado: «Eu também acompanho o Carlos do Carmo, mas prefiro ficar sozinho a gravar, nem sequer é a tocar em público». E, diz, sente «uma solidão e uma tristeza muito grande» por ser dos poucos a compor para o instrumento: «E isso só se passa em Portugal. Portugal é único em tudo: na decadência, na miséria e na pobreza. Existir aqui um instrumento como este, único no mundo, e só haver um ou dois compositores que o encaram de uma forma solística e compor e fazer peças para o instrumento a solo. E mesmo noutras gerações, houve só o Pedro Caldeira Cabral e o Carlos Paredes e pouco mais. É caricato e absurdo».

Paulo Soares tem um álbum na forja: «Tenho um álbum gravado, mas não gostei da captação de som e vou gravá-lo outra vez. O disco tem a ver com toda a guitarra de Coimbra, desde o Gonçalo Paredes até aos dias de hoje, incluindo composições minhas». Para já, dedica-se a «recitais a solo, acompanhado por uma viola, com um reportório baseado na guitarra de Coimbra, e também com composições mais recentes, algumas minhas. E também tenho feito alguns espectáculos com a Orquestra de Câmara de Coimbra e com a Orquestra do Norte». O ano passado fez um espectáculo, no encerramento do Festival da Guitarra, integrado em Coimbra - Capital da Cultura, estreando um concerto para guitarra portuguesa e orquestra da autoria de Fernando Lapa.

Por estes dias, Luís Varatojo continua a apresentar ao vivo o projecto A Naifa - que partilha com João Aguardela, a cantora Mitó e o baterista Vasco Vaz - e os temas do álbum «Canções Subterrâneas», cujos originais «foram todos construídos, de base, por mim na guitarra portuguesa e pelo João no baixo eléctrico. As minhas partes de composição nasceram na guitarra portuguesa, e isso foi propositado porque acabei por descobrir ali uma série de coisas, inclusive fazer acordes que não estão correctos mas que me soam bem e que não soariam dessa maneira se tivesse composto noutro instrumento qualquer... A guitarra portuguesa é um instrumento acústico, mas eu electrifico-a e uso efeitos, tanto em estúdio como ao vivo... Mantenho algumas características acústicas - o timbre e a ressonância -, mas dando algum cunho eléctrico ao instrumento». E num próximo álbum do projecto, lá continuará a guitarra portuguesa, também, à sua maneira, mutante.

Marta Costa está no último ano de Engenharia Civil, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, mas, depois de terminado o curso, promete dedicar-se mais à guitarra do que às engenharias: «Desde pequena que gosto imenso de música». E esta frase de Marta ilumina na perfeição tudo o que ficou para trás e as declarações dos outros todos.

15 dezembro, 2006

Dossier Guitarra Portuguesa - 1º Fascículo


Um dos trabalhos que mais prazer me deu fazer durante os meus muitos anos de BLITZ foi este dossier sobre a Guitarra Portuguesa, em finais de 2004. Ao longo destas semanas, e espaçadamente (para não cansar e porque há outras coisas para falar), aqui vão ficar entrevistas com guitarristas da nova geração e um construtor de guitarras que com ele transporta o saber de gerações, uma possível História da Guitarra Portuguesa, uma discografia básica, etc... Fiz este trabalho com muito amor. Leiam-no também assim, por favor.


GUITARRA PORTUGUESA
A INCLINADA GERAÇÃO

Ricardo Rocha. Paulo Soares. Marta Costa. Luís Varatojo (na foto - de Mário Pires, da Retorta). Nuno Rebelo. Cada um à sua maneira, todos eles se apaixonaram pela guitarra portuguesa. São uma nova geração de músicos que, pegando na tradição, dela se aproximam ou afastam consoante os gostos e personalidades e intenções próprias. O BLITZ falou com eles.

O que leva as pessoas a interessar-se por um instrumento difícil de tocar e raramente procurado pelos mais novos, mais interessados em guitarras eléctricas ou baterias, djembés ou «laptops»?... Cada caso é um caso, mas a verdade é que, como refere Paulo Soares, intérprete de guitarra de Coimbra, compositor, professor de guitarra portuguesa e autor de um manual («Método de Guitarra Portuguesa») dedicado ao ensino do instrumento, «o interesse na guitarra portuguesa está a crescer bastante entre os jovens. E o que é curioso é que em Coimbra quase ninguém se interessa pela guitarra de Lisboa, mas em Lisboa há muita gente interessada na guitarra de Coimbra, nomeadamente no Museu do Fado, onde na escola, 50 por cento dos pedidos de aprendizagem têm a ver com a música de Carlos Paredes, ou seja, com a guitarra de Coimbra. Mas há aprendizes dos dois géneros em todo o país». Paulo começou a tocar guitarra portuguesa na Tuna Académica da Universidade de Coimbra, em 1983, quando tinha 16 anos, e porque havia um grupo de fados: «Aprendi essencialmente como autodidacta, apesar de ter procurado mestres. Desses mestres, os mais importantes foram Jorge Gomes - pela forma como me apresentou a guitarra e me motivou - e Octávio Sérgio, que foi o último guitarrista a acompanhar o José Afonso. Mas também estudei e tenho estudado, através da audição e da observação dos mais diversos guitarristas, toda a obra da guitarra de Coimbra, apesar de não enjeitar estudar outras obras, mormente a de Pedro Caldeira Cabral e a guitarra de Lisboa. Mas o meu maior interesse é mesmo a guitarra de Coimbra, onde incluo a obra dos Paredes todos - Gonçalo, Artur e Carlos».

Dos outros, todos oriundos de Lisboa, Ricardo Rocha - um dos pouquíssimos novos intérpretes de guitarra portuguesa a fazer recitais a solo baseados nas suas próprias composições; autor do álbum «Voluptuária» -, chega à guitarra por influência familiar, tendo aprendido com o avô, Fontes Rocha: «Não aprendi numa escola, porque não havia essa escola. Nos conservatórios havia e há disciplinas de guitarra clássica e violoncelo, por exemplo, mas não de guitarra portuguesa. Uma pessoa para aprender tem que ter um interesse natural. É um tipo de aprendizagem que muitas vezes acontece de geração em geração». Marta Costa (um raríssimo exemplo de intérprete de guitarra portuguesa no feminino, que costuma tocar em espectáculos de Mário Pacheco e no Clube do Fado, onde acompanha fadistas como Joana Amendoeira, Ana Sofia Varela, Rodrigo Costa Félix, José da Câmara, Maria da Nazaré ou Alcindo Carvalho) também começa a tocar por influência familiar, se bem que aqui indirecta: «De inicio não gostava de fado nem conhecia a guitarra portuguesa. Desde os cinco anos que toco piano, mas o meu pai, que adora fado, convenceu-me a tocar guitarra portuguesa. Comecei a aprender com o Carlos Gonçalves, que foi guitarrista da Amália, há cinco anos, e comecei a descobrir o instrumento e a entusiasmar-me. Depois mostrei a minha evolução ao guitarrista Mário Pacheco, do Clube do Fado, e ele achou piada - nos últimos anos tenho estudado com ele».

QUANDO O ROCK
E A MÚSICA IMPROVISADA VÃO À GUITARRA PORTUGUESA

Com uma abordagem diferente da guitarra, menos purista e mais longe da tradição, estão dois nomes saídos do rock - Luís Varatojo (ex-Peste & Sida e Despe e Siga; que agora toca guitarra portuguesa n'A Naifa) e Nuno Rebelo (que foi dos Street Kids e dos Mler Ife Dada antes de enveredar pela nova música improvisada e por uma aventura chamada As Guitarras Portuguesas Mutantes!!!). Varatojo começou a tocar guitarra portuguesa «há dois anos e pouco. E por dois motivos: um, a curiosidade, e outro, eu e o João (Aguardela) andávamos a discutir umas ideias em relação à Naifa e pareceu-me apropriado pegar na guitarra portuguesa para desenvolver este projecto», sendo essencialmente autodidacta: «Fiz uma tentativa de aprender com um mestre, conforme o método clássico, mas as aulas eram demasiado caras. E optei por averiguar e apanhar por aí alguns manuais, que são raros. O Museu do Fado e da Guitarra Portuguesa disponibilizou-me fotocópias de um manual dos anos 50...». Mas a escola do rock e da pop ainda está lá: «A minha forma de tocar guitarra acaba por ser um misto da técnica mais clássica - porque faço os acordes e as posições dos dedos de acordo com essa linha - e o trabalho que tinha feito para trás com a guitarra eléctrica. Mas ainda tenho muito a desbravar...».

Ainda mais longe do convencional está Nuno Rebelo, que se meteu na aventura de transformar o próprio instrumento: «A exploração que eu andava a levar a cabo (e que continuo a desenvolver) na guitarra eléctrica integra-se, à escala internacional, num universo constituído por imensos guitarristas, cada qual com a sua linguagem e abordagem, ou seja, somos todos um entre muitos. Quis aplicar essa abordagem do instrumento à guitarra portuguesa, com a certeza de que seria um dos poucos senão o único a transfigurar este instrumento. Mas também confesso que me moveu o facto de estar a subverter um ícone da nação com uma carga de memória ligada ao passado, à tradição, à saudade. Quis pôr a guitarra portuguesa a olhar para o futuro». Nuno Rebelo chamou à sua aventura As Guitarras Portuguesas Mutantes!!!: «Fiz as primeiras experiências e os primeiros concertos, a solo, em 1993 [ver CD "Way Out, New Music from Portugal – Vol 1", editado pela Ananana; o tema "Pink Pong" foi gravado num concerto solo de guitarra portuguesa mutante em 93]. O projecto As Guitarras Portuguesas Mutantes!!! aparece mais tarde, em 1998», no âmbito da Expo'98.

Questionado sobre a reacção de outros guitarristas às suas «invenções», Rebelo diz: «Os dois guitarristas que trabalharam comigo neste projecto foram o Júlio Pereira e o Ricardo Rocha. Ambos se dedicaram ao projecto com ânimo e abertura de espírito e penso que terá sido uma boa experiência para eles. O papel que lhes coube foi o de fazer a ponte entre a linguagem e técnicas da guitarra portuguesa tradicional e a "nova música" que eu pretendia fazer, ou seja, tocando em harmonias pouco usuais no repertório deste instrumento. Neste aspecto o cunho pessoal do Ricardo Rocha foi uma grande contribuição. Quanto ao Júlio Pereira, não sendo um especialista da guitarra portuguesa mas antes de outros cordofones nacionais, teve um papel mais discreto, mas igualmente importante, de contraponto à guitarra do Ricardo Rocha». Os restantes músicos do projecto «eram todos bateristas, os Tim Tim Por Tim Tum – Marco Franco, José Salgueiro, Alexandre Frazão e Acácio Salero. Cada um dispunha de duas guitarras portuguesas mutantes, colocadas na horizontal. Estas eram tocadas simultaneamente com baquetas, arcos de violino ou simplesmente com as mãos, numa abordagem percussionística».

05 dezembro, 2006

Ricardo Rocha - Em Defesa... da Guitarra Portuguesa


Se Ricardo Rocha, o futebolista, joga sempre à defesa (apesar de agora andar a marcar uns golitos jeitosos) - raios!, tinha jurado a mim próprio nunca falar de futebol neste blog! -, Ricardo Rocha, o músico e compositor, joga sempre ao ataque, um ataque único das cordas da guitarra portuguesa, um génio mesmo que contra a sua vontade, um revolucionário mesmo quando sente nele, e sente-o, um amor profundo pelos guitarristas que vieram antes de si. Mas sempre, também, em defesa da guitarra. E é tão raro ouvi-lo num concerto em nome próprio que o espectáculo marcado para dia 15 de Dezembro, na Casa da Música, Porto, é motivo de celebração.

Nascido em 1974, neto do guitarrista Fontes Rocha, Ricardo Rocha aprendeu a tocar guitarra portuguesa na infância e começou a acompanhar fadistas com apenas 14 anos. Gravou e tocou com Sérgio Godinho, Vitorino, Carlos do Carmo, Pedro Caldeira Cabral, Maria João e Mário Laginha, entre outros. Em 1996 edita, juntamente com Maria Ana Bobone (voz), João Paulo Esteves da Silva (cravo) e Mário Franco (contrabaixo), o álbum de fusão de fado, música barroca e jazz «Luz Destino». Em 2003 edita o fabuloso álbum «Voluptuária», em que apresenta originais seus e também temas de Carlos Paredes e Pedro Caldeira Cabral. Em 2004, no álbum «Tributo À Guitarra Portuguesa», editado na colecção de discos de fado do jornal Público, Ricardo Rocha e Paquito (viola) interpretam temas clássicos de Armandinho, José Cavalheiro, Francisco Carvalhinho, Domingos Camarinha, José Nunes e Jaime Santos.