Os Asian Dub Foundation, um dos grupos britânicos mais aventureiros, criativos, interventivos e - absolutamente! - fundamentais na mistura de géneros oriundos de variadas partes do mundo, do bhangra indo-paquistanês ao reggae jamaicano, do punk inglês e do hip-hop norte-americano às electrónicas universais, regressa a Portugal para um concerto único, dia 16 de Dezembro, no Santiago Alquimista, em Lisboa. Em tempo de promoção do recente álbum «Punkara» (onde os ADF contam com a colaboração de Iggy Pop e de Eugene Hutz, dos Gogol Bordello), a banda não deve esquecer no entanto temas mais antigos como o emblemático «Rebel Warrior» ou o mais recente, e absolutamente arrasador, «Flyover». Uma entrevista que eu fiz há alguns anos a Pandit G, dos ADF, pode ser lida neste blog, aqui.
Mostrar mensagens com a etiqueta Punk. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Punk. Mostrar todas as mensagens
11 novembro, 2008
Asian Dub Foundation no Santiago Alquimista
Os Asian Dub Foundation, um dos grupos britânicos mais aventureiros, criativos, interventivos e - absolutamente! - fundamentais na mistura de géneros oriundos de variadas partes do mundo, do bhangra indo-paquistanês ao reggae jamaicano, do punk inglês e do hip-hop norte-americano às electrónicas universais, regressa a Portugal para um concerto único, dia 16 de Dezembro, no Santiago Alquimista, em Lisboa. Em tempo de promoção do recente álbum «Punkara» (onde os ADF contam com a colaboração de Iggy Pop e de Eugene Hutz, dos Gogol Bordello), a banda não deve esquecer no entanto temas mais antigos como o emblemático «Rebel Warrior» ou o mais recente, e absolutamente arrasador, «Flyover». Uma entrevista que eu fiz há alguns anos a Pandit G, dos ADF, pode ser lida neste blog, aqui.
Etiquetas:
Asian Dub Foundation,
Bhangra,
Concertos,
Punk,
World Music
15 agosto, 2008
Gogol Bordello - O Regresso em Dezembro
Um post rápido, antes da viagem para o festival Eco Fest, em Odeceixe (ver notícia mais em baixo): o grupo punk-balcânico-taranteleiro-ska-louco-e-explosivo-e-'bora-lá-para-o-mosh-ouvir-melhor-o-raio-do-violino Gogol Bordello tem um concerto em nome próprio, dia 10 de Dezembro, no Campo Pequeno, em Lisboa.
Etiquetas:
Concertos,
Gogol Bordello,
Música Balcânica,
Punk,
Rock
16 novembro, 2007
Cromos Raízes e Antenas XXXI
Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)
Cromo XXXI.1 - The Pogues
The Pogues! Diz-se o nome e ouve-se logo a música: aquela música que tanto deve à folk de inspiração «celta» quanto ao punk, com uma energia imensa e uma beleza irrepetível... The Pogues! Diz-se o nome e ouvimos logo a voz de Shane MacGowan e o acordeão, o violino, o bandolim, a tin whistle a meterem-se pela chinfrineira rock adentro... The Pogues! Banda (bando!) de londrinos, muitos deles com raízes irlandesas, que começa em 1982 o seu trajecto sob a designação Pogue Mahone (que significa, em gaélico, «beija o meu cu»), os Pogues sempre se preocuparam em dar importância igual às suas canções de intervenção política, a baladas recuperadas à tradição e a fazer uma música única, pessoal, enorme!, em que o «celtismo» e o rock se cruzavam, de outras vezes, com a country, o cajun ou a música latino-americana. Separaram-se em 1996 (nessa altura já sem Shane) e reagruparam-se, para concertos dispersos, em 2001 (felizmente, com Shane).
Cromo XXXI.2 - Putumayo
Muitas vezes criticada por ser uma editora light que faz compilações «fáceis» e nem sempre exemplares de world music, a nova-iorquina Putumayo é, mesmo assim, uma das melhores portas de entrada de milhões e milhões de pessoas em todo o mundo para... as músicas do mundo. Fundada por Dan Storper em 1975 como uma empresa de roupa, a Putumayo transforma-se em 1993, via Michael Kraus, numa editora de sucesso. Colectâneas temáticas e conceptuais de muitas e variadas músicas - e um design gráfico coerente, comum a todos os discos, de Nicola Heindl - tornaram a Putumayo uma editora famosa não só em lojas de discos mas também em lojas de roupas, livros e até cafés um pouco por todo o mundo. Desde há alguns anos tem dois selos associados: a Putumayo Kids (colecções globais de música para crianças) e a Cumbancha (a editora dos Ska Cubano, The Idan Raichel Project e Andy Palacio).
Cromo XXXI.3 - Ofra Haza
Diva global improvável - e improvável porque vinda de um lugar, digamos, exótico e de uma arte que unia dois mundos desavindos -, a cantora israelita Ofra Haza tornou-se, mercê da sua apresentação num Festival Eurovisão da Canção (em 1983), numa mulher conhecida em todo o mundo. Ofra Haza (de nome completo Bat Sheva' Ofra Haza Bat Shoshana, nascida a 19 de Novembro de 1957 em Tel Aviv, Israel; falecida a 23 de Fevereiro de 2000, em Ramat Gan, Israel) era de origem iemenita, mais precisamente, de judeus radicados no estado árabe do Iémen. E a sua música reflectiu sempre essa dualidade: com um pé em Israel e outro nos países muçulmanos «inimigos»; e com um pé na tradição e outro na modernidade e numa música feita com recurso às electrónicas e a sonoridades ocidentais. A sua imparável e riquíssima carreira como cantora começou em 1980 e terminou vinte anos depois, numa trágica morte provocada pela SIDA.
Cromo XXXI.4 - Radio Tarifa
Às vezes há músicas tão próximas que não damos conta delas, por serem demasiado próximas e por serem tão óbvias as suas ligações. Mas os espanhóis, de Madrid, Radio Tarifa tiveram a inteligência e a arte suficientes para descobrir os elos escondidos entre a música espanhola (nomeadamente o flamenco) e a música do norte de África. Logo no seu primeiro álbum, «Rumba Argelina», de 1993, estabeleceram uma ponte que veio para ficar (de Espanha para o Magrebe e vice-versa) e que, de tão óbvia que é, estranho é ninguém a ter feito antes. Fundados no final dos anos 80 pelo vocalista e letrista Benjamín Escoriza, o guitarrista, percussionista e arranjador Faín S. Dueñas e o saxofonista Vincent Molino, os Radio Tarifa deixaram, em quatro álbuns de originais, uma música nova, excitante e valiosa que parece ter tido um fim: Escoriza lançou em 2006 o seu primeiro álbum a solo, «Alevanta!», e os Radio Tarifa entraram em «hibernação».
Etiquetas:
Cromos,
Editoras,
Folk,
Música Asiática,
Música de Fusão,
Música Espanhola,
Ofra Haza,
Punk,
Putumayo,
Radio Tarifa,
The Pogues,
World Music
16 outubro, 2007
Cromos Raízes e Antenas XXVIII
Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)
Cromo XXVIII.1 - Miriam Makeba
A sul-africana Miriam Makeba - considerada, sem grandes dúvidas, a mais importante cantora africana das últimas décadas - teve a sua vida marcada por uma extrema coerência em toda a sua carreira, pela visibilidade que deu à música africana e pelo seu empenhamento político. Miriam Makeba (aka Mama Afrika) nasceu nos subúrbios de Joanesburgo, a 4 de Março de 1932, e iniciou a sua carreira nos anos 50 com os Manhattan Brothers e The Skylarks, mas o ano de arranque a sério foi 1959, quando conheceu Hugh Masekela e participou no filme anti-apartheid «Come Back, Africa». Exilou-se no estrangeiro nesse mesmo ano e, a partir daí, foi uma voz activa contra o regime sul-africano. Pela mão do cantor Harry Belafonte, conquistou os Estados Unidos, de onde também sairia devido ao seu casamento com o activista dos Panteras Negras Stokely Carmichael. O racismo existe em todo o lado. Mas a música, felizmente, também. Voltou a viver no país-natal, a convite de Nelson Mandela, até à sua morte, a 10 de Novembro de 2008.
Cromo XXVIII.2 - Transglobal Underground
Saídos da mesma vaga de fundo de que também fazem parte os Asian Dub Foundation ou os Fun-Da-Mental, os Transglobal Underground são um dos exemplos mais felizes de como se podem misturar tantas músicas diferentes (hip-hop, electrónicas, música indiana e africana...). Criados em 1990 por Tim Whelan (aka Alex Kasiek), Hamid Mantu (aka Man Tu) - que se mantêm na banda - e Count Dubulah, pelos Transglobal Underground passaram também a cantora Natacha Atlas (que conta quase sempe com alguns dos seus ex-companheiros nos seus trabalhos a solo), Johnny Kalsi, o rapper Coleridge, TUUP, o percussionista Neil Sparkes (que sairia, juntamente com Dubulah, para formar os Temple of Sound) ou a sitarista Sheema Mukherjee. Ao longo da sua carreira trocaram colaborações e remisturas com os nossos Blasted Mechanism mas também com os Dreadzone, Youth, Banco de Gaia e Pop Will Eat Itself, entre outros. O laboratório global continua agora em pleno funcionamento.
Cromo XXVIII.3 - Chumbawamba
Os Chumbawamba são um exemplo curiosíssimo de como muitas músicas diferentes - do punk absoluto à pop mais límpida, passando por canções tradicionais - podem ser experimentadas em fases diferentes de um percurso musical, mas sempre coerentemente ao serviço de uma causa. Formados numa casa ocupada em Leeds, Inglaterra, em 1984, o grupo sempre se manteve fiel à sua ideologia anarquista (próxima dos seus ideólogos Crass) mesmo quando a sua música se açucarou ou quando assinaram por uma multinacional, a EMI, em 1997, e tiveram um grande sucesso com o single «Tubthumping». Anti-Thatcher no início, anti-censura e anti-fascistas sempre depois, os Chumbawamba envolveram-se (e envolvem-se) frequentamente em manifestações políticas e em concertos em... casas ocupadas. Em 1989 editaram o histórico, belíssimo e inesperado disco «English Rebel Songs 1391-1914», com canções tradicionais (e, surpresa!, de protesto) inglesas.
Cromo XXVIII.4 - Lord Kitchener
Lord Kitchener (nascido a 18 de Abril de 1922, falecido a 11 de Fevereiro de 2000) foi um dos mais conhecidos nomes do calipso e também, apesar de ter renegado essa música nova e considerada «bastarda» no início, da soca. De seu verdadeiro nome Aldwin Roberts, Kitchener nasceu em Arima, Trinidad e Tobago, mas chegou à fama em Inglaterra, nos anos 50, onde era um ídolo musical para os imigrantes das Antilhas. De regresso a casa, nos anos 60, Kitch (como também era conhecido) espalhou o seu talento por centenas de canções compostas ao longo da sua vida. E continua a ser o autor favorito de muitas steel-bands (as bandas que tocam em instrumentos feitos de bidões de gasolina) do seu país-natal. Durante trinta anos, geriu uma discoteca, a Calypso Revue, onde se lançaram as maiores vedetas desta música. Tem uma estátua em sua memória em Port of Spain.
Etiquetas:
Chumbawamba,
Cromos,
Folk,
Lord Kitchener,
Miriam Makeba,
Música Africana,
Punk,
Transglobal Underground,
World Music
01 novembro, 2006
Flogging Molly, Corvus Corax e Finntroll - Quando a Folk É Mesmo Rock (e Vice-Versa)
Exemplos bastante curiosos do cruzamento de linguagens folk com alguns géneros mais extremos do rock (desde o punk ao death-metal) são estes três grupos de que falo aqui: os punks Flogging Molly e, na área do metal, os Corvus Corax (na foto) e os Finntroll. Ou quando o mosh, o pogo e o stage-diving podem alternar com jigs, polskas e até música medieval...
FLOGGING MOLLY
«WITHIN A MILE OF HOME»
SideOneDummy
CORVUS CORAX
«VENUS VINA MUSICA»
Noir Records
FINNTROLL
«NATTFODD»
Spikefarm Records
Etiquetas:
Corvus Corax,
Discos,
Finntroll,
Flogging Molly,
Folk,
Metal,
Punk
15 setembro, 2006
Música Cigana dos Balcãs - Novos Caminhos
A Música Cigana dos países do leste europeu é um alfobre riquíssimo de ritmos, melodias, orquestras de metais em alta velocidade, alguns violinos que mais parecem metralhadoras sónicas, vozes dulcíssimas ou rudes e vindas do fundo dos tempos. E uma história, antiga, que só há poucas décadas começou a ter visibilidade fora das fronteiras (tantos anos fechadas) da Roménia, Hungria ou dos novos países que faziam parte da Jugoslávia. Nos últimos anos, esta música antiga começou a fundir-se, naturalmente, com outras músicas, exteriores, estrangeiras, modernas. Aqui deixo a crítica a três álbuns recentes de alguns dos fusionistas mais radicais que têm como raiz a música cigana do Leste: KAL, Gogol Bordello (na foto) e Shukar Collective. E isto numa altura em que também já andam por aí um álbum do grupo inglês de música de dança Basement Jaxx, «Crazy Itch Radio», que também vai lá beber inspiração e o segundo volume do álbum de remisturas «Electric Gypsyland».
KAL
«KAL»
Asphalt Tango/Megamúsica
SHUKAR COLLECTIVE
«URBAN GYPSY»
Riverboat Records/World Music Network/Megamúsica
GOGOL BORDELLO
«GYPSY PUNKS»
SideOneDummy
Etiquetas:
Discos,
Electrónica,
Gogol Bordello,
KAL,
Música Balcânica,
Punk,
Shukar Collective
09 agosto, 2006
(Outro) Cacharolete de Discos
E mais uma recuperação de algumas críticas de discos: uma colectânea dos Dropkick Murphys (a que interessa mais porque a primeira da série - «Singles Collection Volume 1» - é de temas mais facilmente encontráveis em álbum do que estes), DJ Dolores (na foto), Daby Balde e uma compilação de música balcânica.
DROPKICK MURPHYS
«SINGLES COLLECTION VOLUME 2 - 1998-2004»
Hellcat Records/Edel
Não sei se o documentário falava dos Dropkick Murphys (não o vi todo), mas se não falava, devia fazê-lo. Originários de Boston, estes americanos quase todos de origem irlandesa misturam muitas vezes a fúria do punk (nas vertentes oi e hardcore) com gaitas-de-foles, tin whistles, bandolins e letras de luta e contestação, mantendo a alma verde sobre um corpo de betão - e onde a influência dos Pogues (Shane MacGowan chegou a colaborar com eles) é evidente. Em «Singles Collection Volume 2 - 1998-2004», a banda dá-nos lados-B, versões e mais um conjunto de raridades (de singles, splits, colectâneas...), óptimo para juntar aos álbuns que já temos. Ouvir, por exemplo, «It's a Long Way To The Top (If you wanna rock'n'roll)», dos AC/DC, com uma gaita-de-foles a serpentear lá pelo meio é uma delícia. Mas há mais: vários originais e versões dos Creedence Clearwater Revival, The Misfits, Danzig ou Motorhead. Bem bom. (7/10)
DJ DOLORES
«APARELHAGEM»
Ziriguiboom/Crammed/Megamúsica
Prática: «Aparelhagem», o novo projecto do brasileiro DJ Dolores e designação que também dá título ao novo álbum, sucedendo à Orquestra Santa Massa, mostra o DJ e compositor novamente à frente de uma aventura global que - com coerência, elevadíssimo bom-gosto e muito saber (e aqui está a grande mais-valia de DJ Dolores em comparação com muitos outros) -, funde músicas tradicionais e/ou populares brasileiras (frevo, baião, forró, maracatú, ciranda, emboladas, música brega, bossa-nova, tropicalismo, samba...) com formas exteriores: jazz, funk, drum'n'bass, rock, hip-hop, surf music, dub, reggae, electrónica noisy e experimental e até a música klezmer (Frank London, o extraordinário trompetista dos Klezmatics, participa nalguns temas). E é sempre, sempre, uma música para dançar até cair, sem pudores nem papas na língua - a mensagem política está lá, quando se quiser escutá-la -, através das palavras cantadas por Isaar, a vocalista da «Aparelhagem», ou ditas por Dolores nalguns interlúdios. (9/10)
VÁRIOS
«BALKAN GYPSIES - THE ROUGH GUIDE»
World Music Network/Megamúsica
DABY BALDE
«INTRODUCING...»
World Music Network/Megamúsica
Cantor e guitarrista senegalês mistura koras com violino e acordeão. E dá-se bem.
Etiquetas:
Daby Balde,
Discos,
DJ Dolores,
Dropkick Murphys,
Electrónica,
Folk,
Música Africana,
Música Balcânica,
Música Brasileira,
Punk
04 agosto, 2006
The Pogues - O Trevo Como Símbolo de Rebeldia
O ano passado, a Warner reeditou a discografia completa dos Pogues, grupo seminal no cruzamento das sonoridades ditas celtas com o punk, o pub-rock e até músicas de outras partes do mundo (como o hit latino «Fiesta», country, cajun, música turca ou grega). E que influenciaram inúmeras outras bandas (os Dropkick Murphys, de quem se fala no post anterior são só um exemplo). Recupero aqui um texto, publicado originalmente no BLITZ em Março de 2005, a propósito dessas reedições (algumas delas cheias de bónus e surpresas)...
THE POGUES
«RED ROSES FOR ME»
Warner/Farol
(8/10)
«RUM SODOMY & THE LASH»
Warner/Farol
(10/10)
«IF I SHOULD FALL FROM GRACE WITH GOD»
Warner/Farol
(8/10)
«PEACE & LOVE»
Warner/Farol
(6/10)
«HELL'S DITCH»
Warner/Farol
(7/10)
«WAITING FOR HERB»
Warner/Farol
(3/10)
«POGUE MAHONE»
Warner/Farol
(4/10)
Acho que já contei isto, resumidamente, nas páginas deste jornal há alguns anos. Mas, contado agora, ainda faz mais sentido: foi por causa dos Pogues - um grupo londrino mas com músicos, e alma, irlandeses - que travei conhecimento com a música folk de inspiração «céltica» (irlandesa, escocesa, inglesa...). A minha pergunta, quando comecei a ouvir os Pogues, em meados dos anos 80 era: mas que raio de melodias são estas que se escondem aqui atrás da barragem de guitarras punk? De onde vêm este acordeão e esta flauta e estas melodias de voz, bruta sim, gutural sim, alcoolizada sim, mas que tinha lá dentro toda a suavidade e doçura das «airs» (baladas) irlandesas e que, muitas vezes, bailava à roda num jig ou num reel qualquer. Anos depois, descobri os Chieftains (e muitos dos outros) e parte da magia ficou explicada. Assim como ficou explicada a importância primordial dos Pogues no cruzamento do punk (do rock, se se preferir) com as músicas tradicionais de onde quer que seja, com influência directa em grupos britânicos e da Europa Continental (The Men They Couldn't Hang, Oysterband, Les Négresses Vertes, Essa Entente, Sétima Legião, Os Cempés...) ou indirecta em grupos como os Hedningarna ou os mergulhos de Kusturica e Bregovic nas raízes balcânicas (eles que vieram os dois do rock). E, passados vinte anos, apesar de ao longo do tempo ter percebido que o cruzamento de elementos das músicas tradicionais com outras músicas (a música erudita, o jazz, o rock...) não ter sido uma invenção dos Pogues, estes continuam, para mim, a ser a «invenção» que me levou a descobrir a música irlandesa (e, por arrasto, muita folk e música tradicional dos mais variados pontos do planeta). Abençoados sejam.
É, também por isso, uma grande festa (e não, não é trocadilho com um dos mais famosos temas dos Pogues) a reedição, com um porradão de bónus, da discografia completa de estúdio dos Pogues, de «Red Roses For Me» aos mal-amados «Waiting For Herb» e «Pogue Mahone» (os dois últimos da fase já sem Shane MacGowan).
Já sem Shane, os Pogues ainda editaram «Waiting For Herb» (1993) e «Pogue Mahone» (1995), ambos com o flautista Spider Stacy na voz principal, que ainda têm umas poucas boas canções (vide «Living In a World Without Her» ou o tema cajun, em francês, «Amadie», ambos de «Pogue Mahone») mas já não são, nem de longe, os Pogues como os conhecíamos e amávamos. Só para coleccionadores.
02 agosto, 2006
Dropkick Murphys - Quando o Celta É Mesmo Punk (ou Vice-Versa)
O post anterior - dedicado ao projecto A Naifa, fundado por dois rapazes com raízes no punk (Luís Varatojo nos Peste & Sida e João Aguardela nos Sitiados do início) - fez-me recuperar uma entrevista, publicada originalmente em 2001, com os Dropkick Murphys, banda norte-americana mais punk que os Pogues e tão celta - seja lá isso o que for - quanto eles...
DROPKICK MURPHYS
VERDE É O BETÃO
Uma banda punk com gaita-de-foles e tin whistle? Uma banda americana que vai à Irlanda em busca das raízes da música? Uma banda que fala de copos e de farra, de amigos mortos e de intervenção? E que convida Shane MacGowan para os coros? Ken Casey, voz e baixo dos Dropkick Murphys, explica tudo.
Os Dropkick Murphys tocam esta semana, pela primeira vez, em Portugal. É no Hard Club, em Gaia, dia 30. E quem estará à espera de um concerto punk na linha de uns Offspring ou Pennywise, bem pode tirar o cavalo da chuva. No último álbum, «Sing Loud, Sing Proud», os Dropkick Murphys dão um salto de gigante em relação a «The Gang's All Here» (mesmo assim, e apesar de mais «normalizado», um dos melhores álbuns punk da fornada da última década nos States). Em «Sing Loud...», a banda de Boston junta à fúria das guitarras eléctricas e à pulsão da secção rítmica, doses certas de melodia celta - ou doses celtas de melodia certa -, ritmos (jigs e reels) irlandeses, instrumentos acústicos como o bandolim, a gaita-de-foles ou a tin whistle. O caso só não é original porque houve uma banda chamada Pogues (e as que a ela foram buscar inspiração). E os Dropkick Murphys sabem-no. Tanto que foram buscar o semi-morto Shane MacGowan para cantar (orgulhosamente) em dois temas do álbum (dois no vinil, só num no CD).
Ken Casey é simpático, de voz pausada e ideias firmes. Nota-se no sotaque um ligeiro toque irlandês, ele que é americano. Nesta conversa, Casey começou por explicar como é que uma banda punk americana se transforma numa banda «irish folk punk». «Quase todos nós nascemos em Boston, numa comunidade formada por descendentes de irlandeses. É natural que tenhamos curiosidade em conhecer as raízes da nossa cultura e da nossa música. Ouvi muita música irlandesa quando era miúdo, muitas vezes contra a minha vontade. Não gostava; estava mais interessado em ouvir grupos rock e punk. Mas à medida que fui crescendo, fui começando a gostar mais. Quando era adolescente - e principalmente quando comecei a beber álcool (risos) - descobri que a música irlandesa, afinal, não era assim "tão má"».
A inclusão de instrumentos e sonoridades irlandeses no som dos Dropkick Murphys foi, segundo Casey, um processo gradual. «Esse desejo já existe há vários anos. E desde o início que nós procurámos incluir outros instrumentistas na banda, mas até há pouco tempo nunca tínhamos conseguido que eles tocassem connosco a tempo inteiro. Para além disso, a maior parte dos músicos que conhecemos e que fazem música irlandesa têm cerca de quarenta anos e não querem tocar com uma banda punk. Só para este álbum conseguimos ter os músicos que nós queríamos».
A inclusão permanente de um gaiteiro/flautista, de um acordeonista e de um bandolinista deu à banda «muito mais liberdade para criar e experimentar, dentro de cada canção, também no sentido de podermos transpor para palco a sonoridade do disco». Ken Casey foi o produtor do disco - depois de em «The Dropkick Murphys» e «The Gang's All Here» essa função ter sido confiada a Lars Frederiksen, dos Rancid - e, para ele, foi fácil e divertido cruzar os diferentes instrumentos e sonoridades. «Acho que precisava de ser eu a produzir este disco. Não acho que a nossa sonoridade neste momento seja demasiado "intelectual" para o Lars, que continua muito nosso amigo, mas eu precisava de mexer pessoalmente no som. Este é um álbum de uma nova formação e precisávamos de ser nós a fazer o disco todo».
Para Ken Casey, ter gravado com Shane MacGowan - a voz dos míticos Pogues, actualmente (quando os momentos de sobriedade o permitem) nos Popes -- «foi um grande motivo de orgulho. Ele é grande! Ele gostou muito da nossa maqueta da canção "Good Rats" e gravou a voz dele por cima. Estava um ambiente extraordinário; ele estava muito bêbado... (risos). O meu trabalho, durante a gravação foi servir-lhe de ponto, como no teatro, para as letras e segurar-lhe o cigarro na boca... (mais risos)». Os Pogues - até pelo seu cruzamento primordial entre a rudeza do punk e a pureza da música da Irlanda - são, sem dúvida, uma inspiração maior para os Dropkick Murphys. Mas há outras bandas que, no passado e no presente, marcam a música do grupo de Boston. Falo-lhe dos Clash. E Ken concorda, mas acrescenta mais nomes: «Os Clash?, sem dúvida. Até fizemos versões de temas deles. Mas também outras bandas britânicas da mesma altura como os Sham 69, Stiff Little Fingers, Buzzcocks, Angelic Upstarts...».
Curiosamente, apesar da filiação irlandesa da maior parte dos músicos da banda, o vocalista da banda, Al Barr (que substituiu Mike McColgan antes da gravação de «The Gang's All Here») tem origem escocesa e costuma actuar de kilt. Ken acha que, apesar das diferenças entre irlandeses e escoceses, «de facto temas raízes célticas comuns, mas o mais importante nem é isso... O que importa é que tanto uns como outros gostam imenso de beber álcool».
A conversa vira para o mote da canção «Fortunes of War». Diz Casey: «Essa canção é muito especial para nós porque é dedicada a um rapaz, a um punk, de uma pequena aldeia que foi assassinado há três anos porque os seus conterrâneos não aceitavam que ele fosse diferente. O que é incrível nesta história - para além do crime em si - é que nos velhos tempos os punks não eram aceites, mas na actualidade também não. O rapaz era visto como um "freak", no sentido de "esquisito", um "fora-da-lei". E ele foi assassinado por rapazes da mesma idade, jogadores de futebol americano. O gajo que o matou nem foi preso...». Antes da edição de «Sing Loud...», os Dropkick Murphys lançaram um split-álbum com os ingleses The Business, «Mob Mentality», em que, entre outras versões, reinterpretam «The Kids Are Allright», dos Who. Ken Casey recusa ligações ao movimento mod mas confessa que os Murphys são fãs de rock clássico: «Gostamos dos Who, dos AC/DC, de muitas coisas dos anos 60 e 70».
Para finalizar, pergunto a Ken o que é que aconteceu a James Lynch, guitarrista da banda que teve um acidente de automóvel, no dia 18 de Março, felizmente com consequências pouco graves. Ken ri-se e conta a história: «O James estava bêbado. Ele estava na parte de trás do carro e estava a gritar para o condutor: mais depressa, mais depressa. Então, abriu a porta e atirou-se para fora do carro. Fisicamente ele está quase bom; mas duvidamos que esteja bem mentalmente. Pelo menos, melhor do que já estava na altura do acidente» (risos)
Etiquetas:
Dropkick Murphys,
Entrevistas,
Folk,
Punk
Subscrever:
Mensagens (Atom)