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11 novembro, 2008

Asian Dub Foundation no Santiago Alquimista


Os Asian Dub Foundation, um dos grupos britânicos mais aventureiros, criativos, interventivos e - absolutamente! - fundamentais na mistura de géneros oriundos de variadas partes do mundo, do bhangra indo-paquistanês ao reggae jamaicano, do punk inglês e do hip-hop norte-americano às electrónicas universais, regressa a Portugal para um concerto único, dia 16 de Dezembro, no Santiago Alquimista, em Lisboa. Em tempo de promoção do recente álbum «Punkara» (onde os ADF contam com a colaboração de Iggy Pop e de Eugene Hutz, dos Gogol Bordello), a banda não deve esquecer no entanto temas mais antigos como o emblemático «Rebel Warrior» ou o mais recente, e absolutamente arrasador, «Flyover». Uma entrevista que eu fiz há alguns anos a Pandit G, dos ADF, pode ser lida neste blog, aqui.

15 agosto, 2008

Gogol Bordello - O Regresso em Dezembro


Um post rápido, antes da viagem para o festival Eco Fest, em Odeceixe (ver notícia mais em baixo): o grupo punk-balcânico-taranteleiro-ska-louco-e-explosivo-e-'bora-lá-para-o-mosh-ouvir-melhor-o-raio-do-violino Gogol Bordello tem um concerto em nome próprio, dia 10 de Dezembro, no Campo Pequeno, em Lisboa.

16 novembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXXI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXI.1 - The Pogues


The Pogues! Diz-se o nome e ouve-se logo a música: aquela música que tanto deve à folk de inspiração «celta» quanto ao punk, com uma energia imensa e uma beleza irrepetível... The Pogues! Diz-se o nome e ouvimos logo a voz de Shane MacGowan e o acordeão, o violino, o bandolim, a tin whistle a meterem-se pela chinfrineira rock adentro... The Pogues! Banda (bando!) de londrinos, muitos deles com raízes irlandesas, que começa em 1982 o seu trajecto sob a designação Pogue Mahone (que significa, em gaélico, «beija o meu cu»), os Pogues sempre se preocuparam em dar importância igual às suas canções de intervenção política, a baladas recuperadas à tradição e a fazer uma música única, pessoal, enorme!, em que o «celtismo» e o rock se cruzavam, de outras vezes, com a country, o cajun ou a música latino-americana. Separaram-se em 1996 (nessa altura já sem Shane) e reagruparam-se, para concertos dispersos, em 2001 (felizmente, com Shane).


Cromo XXXI.2 - Putumayo


Muitas vezes criticada por ser uma editora light que faz compilações «fáceis» e nem sempre exemplares de world music, a nova-iorquina Putumayo é, mesmo assim, uma das melhores portas de entrada de milhões e milhões de pessoas em todo o mundo para... as músicas do mundo. Fundada por Dan Storper em 1975 como uma empresa de roupa, a Putumayo transforma-se em 1993, via Michael Kraus, numa editora de sucesso. Colectâneas temáticas e conceptuais de muitas e variadas músicas - e um design gráfico coerente, comum a todos os discos, de Nicola Heindl - tornaram a Putumayo uma editora famosa não só em lojas de discos mas também em lojas de roupas, livros e até cafés um pouco por todo o mundo. Desde há alguns anos tem dois selos associados: a Putumayo Kids (colecções globais de música para crianças) e a Cumbancha (a editora dos Ska Cubano, The Idan Raichel Project e Andy Palacio).


Cromo XXXI.3 - Ofra Haza


Diva global improvável - e improvável porque vinda de um lugar, digamos, exótico e de uma arte que unia dois mundos desavindos -, a cantora israelita Ofra Haza tornou-se, mercê da sua apresentação num Festival Eurovisão da Canção (em 1983), numa mulher conhecida em todo o mundo. Ofra Haza (de nome completo Bat Sheva' Ofra Haza Bat Shoshana, nascida a 19 de Novembro de 1957 em Tel Aviv, Israel; falecida a 23 de Fevereiro de 2000, em Ramat Gan, Israel) era de origem iemenita, mais precisamente, de judeus radicados no estado árabe do Iémen. E a sua música reflectiu sempre essa dualidade: com um pé em Israel e outro nos países muçulmanos «inimigos»; e com um pé na tradição e outro na modernidade e numa música feita com recurso às electrónicas e a sonoridades ocidentais. A sua imparável e riquíssima carreira como cantora começou em 1980 e terminou vinte anos depois, numa trágica morte provocada pela SIDA.


Cromo XXXI.4 - Radio Tarifa


Às vezes há músicas tão próximas que não damos conta delas, por serem demasiado próximas e por serem tão óbvias as suas ligações. Mas os espanhóis, de Madrid, Radio Tarifa tiveram a inteligência e a arte suficientes para descobrir os elos escondidos entre a música espanhola (nomeadamente o flamenco) e a música do norte de África. Logo no seu primeiro álbum, «Rumba Argelina», de 1993, estabeleceram uma ponte que veio para ficar (de Espanha para o Magrebe e vice-versa) e que, de tão óbvia que é, estranho é ninguém a ter feito antes. Fundados no final dos anos 80 pelo vocalista e letrista Benjamín Escoriza, o guitarrista, percussionista e arranjador Faín S. Dueñas e o saxofonista Vincent Molino, os Radio Tarifa deixaram, em quatro álbuns de originais, uma música nova, excitante e valiosa que parece ter tido um fim: Escoriza lançou em 2006 o seu primeiro álbum a solo, «Alevanta!», e os Radio Tarifa entraram em «hibernação».

16 outubro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXVIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXVIII.1 - Miriam Makeba


A sul-africana Miriam Makeba - considerada, sem grandes dúvidas, a mais importante cantora africana das últimas décadas - teve a sua vida marcada por uma extrema coerência em toda a sua carreira, pela visibilidade que deu à música africana e pelo seu empenhamento político. Miriam Makeba (aka Mama Afrika) nasceu nos subúrbios de Joanesburgo, a 4 de Março de 1932, e iniciou a sua carreira nos anos 50 com os Manhattan Brothers e The Skylarks, mas o ano de arranque a sério foi 1959, quando conheceu Hugh Masekela e participou no filme anti-apartheid «Come Back, Africa». Exilou-se no estrangeiro nesse mesmo ano e, a partir daí, foi uma voz activa contra o regime sul-africano. Pela mão do cantor Harry Belafonte, conquistou os Estados Unidos, de onde também sairia devido ao seu casamento com o activista dos Panteras Negras Stokely Carmichael. O racismo existe em todo o lado. Mas a música, felizmente, também. Voltou a viver no país-natal, a convite de Nelson Mandela, até à sua morte, a 10 de Novembro de 2008.


Cromo XXVIII.2 - Transglobal Underground


Saídos da mesma vaga de fundo de que também fazem parte os Asian Dub Foundation ou os Fun-Da-Mental, os Transglobal Underground são um dos exemplos mais felizes de como se podem misturar tantas músicas diferentes (hip-hop, electrónicas, música indiana e africana...). Criados em 1990 por Tim Whelan (aka Alex Kasiek), Hamid Mantu (aka Man Tu) - que se mantêm na banda - e Count Dubulah, pelos Transglobal Underground passaram também a cantora Natacha Atlas (que conta quase sempe com alguns dos seus ex-companheiros nos seus trabalhos a solo), Johnny Kalsi, o rapper Coleridge, TUUP, o percussionista Neil Sparkes (que sairia, juntamente com Dubulah, para formar os Temple of Sound) ou a sitarista Sheema Mukherjee. Ao longo da sua carreira trocaram colaborações e remisturas com os nossos Blasted Mechanism mas também com os Dreadzone, Youth, Banco de Gaia e Pop Will Eat Itself, entre outros. O laboratório global continua agora em pleno funcionamento.


Cromo XXVIII.3 - Chumbawamba


Os Chumbawamba são um exemplo curiosíssimo de como muitas músicas diferentes - do punk absoluto à pop mais límpida, passando por canções tradicionais - podem ser experimentadas em fases diferentes de um percurso musical, mas sempre coerentemente ao serviço de uma causa. Formados numa casa ocupada em Leeds, Inglaterra, em 1984, o grupo sempre se manteve fiel à sua ideologia anarquista (próxima dos seus ideólogos Crass) mesmo quando a sua música se açucarou ou quando assinaram por uma multinacional, a EMI, em 1997, e tiveram um grande sucesso com o single «Tubthumping». Anti-Thatcher no início, anti-censura e anti-fascistas sempre depois, os Chumbawamba envolveram-se (e envolvem-se) frequentamente em manifestações políticas e em concertos em... casas ocupadas. Em 1989 editaram o histórico, belíssimo e inesperado disco «English Rebel Songs 1391-1914», com canções tradicionais (e, surpresa!, de protesto) inglesas.


Cromo XXVIII.4 - Lord Kitchener


Lord Kitchener (nascido a 18 de Abril de 1922, falecido a 11 de Fevereiro de 2000) foi um dos mais conhecidos nomes do calipso e também, apesar de ter renegado essa música nova e considerada «bastarda» no início, da soca. De seu verdadeiro nome Aldwin Roberts, Kitchener nasceu em Arima, Trinidad e Tobago, mas chegou à fama em Inglaterra, nos anos 50, onde era um ídolo musical para os imigrantes das Antilhas. De regresso a casa, nos anos 60, Kitch (como também era conhecido) espalhou o seu talento por centenas de canções compostas ao longo da sua vida. E continua a ser o autor favorito de muitas steel-bands (as bandas que tocam em instrumentos feitos de bidões de gasolina) do seu país-natal. Durante trinta anos, geriu uma discoteca, a Calypso Revue, onde se lançaram as maiores vedetas desta música. Tem uma estátua em sua memória em Port of Spain.

01 novembro, 2006

Flogging Molly, Corvus Corax e Finntroll - Quando a Folk É Mesmo Rock (e Vice-Versa)


Exemplos bastante curiosos do cruzamento de linguagens folk com alguns géneros mais extremos do rock (desde o punk ao death-metal) são estes três grupos de que falo aqui: os punks Flogging Molly e, na área do metal, os Corvus Corax (na foto) e os Finntroll. Ou quando o mosh, o pogo e o stage-diving podem alternar com jigs, polskas e até música medieval...


FLOGGING MOLLY
«WITHIN A MILE OF HOME»
SideOneDummy

Abençoados Pogues que tantas sementes deitaram à terra e em tantos países do mundo... Septeto liderado pelo irlandês Dave King, os norte-americanos (de Los Angeles) Flogging Molly são mais um muito bom exemplo de como o punk mais visceral e agressivo pode servir de fato feito à medida para jigs e reels, canções de piratas, cajun («Tomorrow Comes a Day Too Soon», com um acordeão a levar a canção directamente para os pântanos do sul dos Estados Unidos), baladas («The Spoken Wheel», «Don't Let Me Die Still Wondering») e até uma excelente aproximação à country («Factory Girls», com a colaboração da enormíssima Lucinda Williams). E muitas delas com letras de forte pendor político (contra a intervenção norte-americana no Iraque, por exemplo). Menos violentos que os Dropkick Murphys e sem serem tão delirantes e inventivos quanto os Black 47, os Flogging Molly têm os Pogues como referência máxima, claro, mas também bebem (não é piada!) nos Waterboys, na fase «céltica» dos Dexys Midnight Runners e, claro, na escola centenária de riquíssimas melodias irlandesas e escocesas. (8/10)


CORVUS CORAX
«VENUS VINA MUSICA»
Noir Records

É isto que é tão bonito na música: poder usar todas as músicas e mais algumas para criar novas músicas. Os alemães Corvus Corax misturam com saber música medieval (desde canções de menestréis franceses até qualquer coisa muito próxima do canto gregoriano - e não, não têm nada a ver com os Il Divo!), folk «céltica», música árabe, doom-metal e punk, tudo em boas proporções, usando gaitas-de-foles, sanfonas, alaúdes, saltério, harpa, violino e um carregamento inteiro de percussões. Umas vezes mais violentos, outras mais épicos, outras ainda mais melancólicos e paisagísticos, os Corvus Corax (nome científico do corvo) fazem por vezes lembrar os Dead Can Dance, as aproximações à folk dos Led Zeppelin, os Hedningarna ou os L'Ham de Foc, mas têm quase sempre um estilo único e fortemente personalizado. A banda - composta por sete músicos e cantores, exímios executantes dos seus instrumentos; neste álbum com a adição de dois convidados em violino e harpa céltica - nasceu em finais dos anos 80, tem reputação de assinar excelentes espectáculos e a música que fazem, repete-se, é quase sempre muito boa. (8/10)


FINNTROLL
«NATTFODD»
Spikefarm Records

Tenho muito mais dificuldade em falar de «Nattfodd», dos Finntroll, do que dos dois álbuns anteriores. As áreas mais extremas do metal - como o black-metal e o death-metal... - são-me praticamente desconhecidas e, confesso, tive tendência a saltar partes deste álbum (as das guitarras mais duras e assustadoras, as dos berros guturais...) para chegar às partes, e estas são muitas, imensas, em que os finlandeses Finntroll entram a sério, e bem, pelas humppas e polskas tradicionais escandinavas (das quais os Hedningarna também usam e abusam) e maravilhar-me como eles conseguem fazer isto tão bem e sem que o resultado seja alguma vez ridículo ou mal conseguido. E, apesar de haver muitos projectos folk que, de vez em quando, se atrevem a ir ao metal, não conheço muitos mais casos em que a fusão seja permanente ou tão bem conseguida como nestes Finntroll. Nascidos em 1997, pela mão de Somnium (ex-Impaled Nazarene, uma das bandas de ponta do black-metal nórdico), os Finntroll fazem-me delirar e imaginar malhões, viras e corridinhos armados com guitarras a abrir e em distorção (ok, os Uxu Kalhus também são capazes de fazer isto, mas não é a mesma coisa...) ou os meus amigos António Freitas e José Rodrigues aos pulos no Andanças. (7/10)

15 setembro, 2006

Música Cigana dos Balcãs - Novos Caminhos


A Música Cigana dos países do leste europeu é um alfobre riquíssimo de ritmos, melodias, orquestras de metais em alta velocidade, alguns violinos que mais parecem metralhadoras sónicas, vozes dulcíssimas ou rudes e vindas do fundo dos tempos. E uma história, antiga, que só há poucas décadas começou a ter visibilidade fora das fronteiras (tantos anos fechadas) da Roménia, Hungria ou dos novos países que faziam parte da Jugoslávia. Nos últimos anos, esta música antiga começou a fundir-se, naturalmente, com outras músicas, exteriores, estrangeiras, modernas. Aqui deixo a crítica a três álbuns recentes de alguns dos fusionistas mais radicais que têm como raiz a música cigana do Leste: KAL, Gogol Bordello (na foto) e Shukar Collective. E isto numa altura em que também já andam por aí um álbum do grupo inglês de música de dança Basement Jaxx, «Crazy Itch Radio», que também vai lá beber inspiração e o segundo volume do álbum de remisturas «Electric Gypsyland».


KAL
«KAL»
Asphalt Tango/Megamúsica

Originários da Sérvia, os Kal são liderados pelo cantor e guitarrista cigano Dragan Ristic, cuja visão musical tanto lhe permite mergulhar na tradição genuína da música romani como experimentar outros territórios como o drum'n'bass, o jazz, ska, klezmer, música turca ou o hip-hop, todos presentes em «Kal» em doses pequenas e equilibradas, especiarias de exotismo e/ou modernidade que nunca estragam, antes sublinham, o carácter autêntico e antigo desta música. Este primeiro álbum do grupo com difusão internacional foi produzido por Mike Nielsen (Underworld, Jamiroquai, Natacha Atlas...), que soube - na mesma linha - balancear os dois lados do som Kal - a tradição e o futuro. Em «Kal» há violinos em voo picado, um acordeão que navega, por vezes, em diracção à Argentina, uma voz que tanto cavalga a tradição como se atira a estilizações de crooner ou de jazz, e vários temas fantásticos como «Boro Boro» (este com uma bonita voz feminina), o alegre e divertido instrumental «Mozzarella» ou o Piazzolla-meets-Havai-music-in-Belgrade «Gurbetski Tango». (9/10)


SHUKAR COLLECTIVE
«URBAN GYPSY»
Riverboat Records/World Music Network/Megamúsica

Menos interessante do que o álbum homónimo dos Kal, o álbum «Urban Gypsy» dos Shukar Collective perde-se demasiado na repetição da fórmula em que esta banda da Roménia embarcou há alguns anos: a interpretação de antigas canções ursari (dos ciganos que exibiam ursos amestrados nas feiras romenas, prática violenta entretanto caída em desuso mas ainda existente em alguns países, tal como o grupo refere no livreto), com uma base electrónica, jazzy e experimental. Andam por aqui ritmos house, mid-tempo e drum'n'bass, algum dub, algum industrial e temas mais ambentiais, à mistura com as canções dos ursari, cantos próximos do konnokol indiano, daraboukas e colheres percutidas. E, se o resultado disto tudo, durante as primeiras canções do álbum, impressiona pela vivacidade e até coerência interna, o agradável efeito de surpresa vai desaparecendo à medida que o álbum vai avançando para a sua conclusão e se vai notando alguma repetição de processos. Fazendo justiça aos Shukar Collective, a sua música nunca descamba para o lado azeiteiro, mas, paradoxalmente, às vezes quase que apetecia que descambasse, para nos divertirmos mais um bocadinho. (6/10)


GOGOL BORDELLO
«GYPSY PUNKS»
SideOneDummy

Diversão é coisa que não falta, bem pelo contrário, nos Gogol Bordello. Banda de ucranianos imigrados em Nova Iorque (não são balcânicos mas a música que fazem é lá que vai buscar a essência), liderada por uma espécie de Shane MacGowan tresloucado de nome Eugene Hutz, os Gogol Bordello são qualquer coisa como os Pogues em versão cigana, os Clash armados em surfistas prateados a deslizar a 300 à hora sobre o Muro de Berlim, Manu Chao a voar sobre a música de todo o antigo Bloco de Leste em vez de o fazer sobre os países da América Latina. Nos Gogol Bordello há skazadas, punkalhadas, surfbillyzadas, metaladas, espaço para o rap e para algumas frases em espanhol. Sexo, bebedeiras, revolução, a condição dos imigrantes. Palavras de ordem em inglês e ucraniano. Gritos oi em luta com violinos supersónicos, baladas assassinas sobre acordeões afogados em vodka, folias e tragédias variadas. E «Gypsy Punks» é um álbum quase sempre muito bom, apesar de se deixar ir abaixo um bocadinho nos últimos temas (à excepção do extraordinário «Underdog World Strike»). Ah, só um pormenor: a produção é de Steve Albini (pois, o produtor de álbuns dos Nirvana, Sonic Youth, etc, etc...). (7/10)

09 agosto, 2006

(Outro) Cacharolete de Discos



E mais uma recuperação de algumas críticas de discos: uma colectânea dos Dropkick Murphys (a que interessa mais porque a primeira da série - «Singles Collection Volume 1» - é de temas mais facilmente encontráveis em álbum do que estes), DJ Dolores (na foto), Daby Balde e uma compilação de música balcânica.


DROPKICK MURPHYS
«SINGLES COLLECTION VOLUME 2 - 1998-2004»
Hellcat Records/Edel

O canal por cabo Mezzo apresentou a semana passada um excelente documentário sobre a música de intervenção irlandesa - que tem as suas raízes nas canções que surgiram durante a Grande Fome do séc. XIX e, mais recentemente, no reforço da ocupação militar inglesa no final dos anos 60 do séc.XX. São canções ancoradas na tradição irlandesa e com uma forte carga lírica anti-Inglaterra, pró-independência da Irlanda e de apoio à resistência e, muitas vezes, ao IRA (um dos hinos apresentados é de Bobby Sands). O documentário passa depois para o lado de lá do Atlântico, onde a comunidade imigrante de origem irlandesa nos Estados Unidos representa 40 milhões de pessoas, grande parte dela ainda com um enorme grau de ligação à terra-mãe (as paradas do dia de S.Patrício com cartazes que dizem «England out of Ireland»; um casal de rappers que misturam hip-hop com música irlandesa...).

Não sei se o documentário falava dos Dropkick Murphys (não o vi todo), mas se não falava, devia fazê-lo. Originários de Boston, estes americanos quase todos de origem irlandesa misturam muitas vezes a fúria do punk (nas vertentes oi e hardcore) com gaitas-de-foles, tin whistles, bandolins e letras de luta e contestação, mantendo a alma verde sobre um corpo de betão - e onde a influência dos Pogues (Shane MacGowan chegou a colaborar com eles) é evidente. Em «Singles Collection Volume 2 - 1998-2004», a banda dá-nos lados-B, versões e mais um conjunto de raridades (de singles, splits, colectâneas...), óptimo para juntar aos álbuns que já temos. Ouvir, por exemplo, «It's a Long Way To The Top (If you wanna rock'n'roll)», dos AC/DC, com uma gaita-de-foles a serpentear lá pelo meio é uma delícia. Mas há mais: vários originais e versões dos Creedence Clearwater Revival, The Misfits, Danzig ou Motorhead. Bem bom. (7/10)

DJ DOLORES
«APARELHAGEM»
Ziriguiboom/Crammed/Megamúsica

Teoria: E se todas as músicas fossem apenas uma e tivessem todas uma mesma raiz, perdida algures perto do Lago Vitória, no momento em que Lucy, a Australopithecus Afarensis, se encontrou com o Ardipithecus Ramidus e trocaram canções guturais, alguns ritmos percutidos num tronco e dançaram os dois?... E se as fronteiras de géneros e estilos não tivessem importância nenhuma mas tivessem todos a mesma importância relativa entre si? E se, coisa rara, muitas e desvairadas e diferentes músicas - às dezenas, sem vergonha e sem preconceitos -, se encontrassem num único disco?

Prática: «Aparelhagem», o novo projecto do brasileiro DJ Dolores e designação que também dá título ao novo álbum, sucedendo à Orquestra Santa Massa, mostra o DJ e compositor novamente à frente de uma aventura global que - com coerência, elevadíssimo bom-gosto e muito saber (e aqui está a grande mais-valia de DJ Dolores em comparação com muitos outros) -, funde músicas tradicionais e/ou populares brasileiras (frevo, baião, forró, maracatú, ciranda, emboladas, música brega, bossa-nova, tropicalismo, samba...) com formas exteriores: jazz, funk, drum'n'bass, rock, hip-hop, surf music, dub, reggae, electrónica noisy e experimental e até a música klezmer (Frank London, o extraordinário trompetista dos Klezmatics, participa nalguns temas). E é sempre, sempre, uma música para dançar até cair, sem pudores nem papas na língua - a mensagem política está lá, quando se quiser escutá-la -, através das palavras cantadas por Isaar, a vocalista da «Aparelhagem», ou ditas por Dolores nalguns interlúdios. (9/10)

VÁRIOS
«BALKAN GYPSIES - THE ROUGH GUIDE»
World Music Network/Megamúsica

A música cigana dos países do Leste da Europa foi, durante séculos, um segredo bem guardado (por contingências históricas, geográficas, políticas...). Mas nos últimos 20 anos a sua música está, cada vez mais, em todo o mundo: nas lojas de discos, em festivais, em filmes, na cabeça de muita gente. «The Rough Guide To The Music of Balkan Gypsies» é mais uma boa amostra que pode abrir as portas desta música riquíssima a quem não a conhece: da festa e alegria dos metais da Mahala Rai Banda, Boban Markovic Orkestar e Fanfare Ciocarlia às vozes cruzadas com violinos e acordeões dos Taraf de Haidouks, do diálogo de voz com o clarinete de Ivo Papapsov e o saxofone de Yuri Yunakov ao jazz-klezmer de Nikolae Simion, da espantosa voz da diva Esma Redzepova a extensões «óbvias» à Grécia, Albânia e Turquia. (7/10)

DABY BALDE
«INTRODUCING...»
World Music Network/Megamúsica

Cantor e guitarrista senegalês mistura koras com violino e acordeão. E dá-se bem.

Originário de Casamance, região do sul do Senegal paredes-meias com a Guiné-Bissau, a Guiné e a Gâmbia, o cantor e guitarrista Daby Balde apresenta-se internacionalmente com este álbum, «Introducing... Daby Balde», um disco aberto, alegre, vivo, em que Balde faz conviver koras e percussões com a sua voz e guitarra, coros femininos e alguns instrumentos menos habituais na música africana como o violino ou o acordeão. Instrumentos que aqui dão uma riqueza e variedade de timbres fundamental para a luminosidade desta música cantada por Daby em fula, mandinga, wolof e francês. O segundo tema, «Heli», tem um início igual ao do «Fadinho Simples» (António Chaínho e Marta Dias). Há, lá pelo meio, um blues-flamenco fabuloso, «Waino Blues». E há, sempre, música muito boa. (8/10)

04 agosto, 2006

The Pogues - O Trevo Como Símbolo de Rebeldia



O ano passado, a Warner reeditou a discografia completa dos Pogues, grupo seminal no cruzamento das sonoridades ditas celtas com o punk, o pub-rock e até músicas de outras partes do mundo (como o hit latino «Fiesta», country, cajun, música turca ou grega). E que influenciaram inúmeras outras bandas (os Dropkick Murphys, de quem se fala no post anterior são só um exemplo). Recupero aqui um texto, publicado originalmente no BLITZ em Março de 2005, a propósito dessas reedições (algumas delas cheias de bónus e surpresas)...


THE POGUES

«RED ROSES FOR ME»
Warner/Farol
(8/10)

«RUM SODOMY & THE LASH»
Warner/Farol
(10/10)

«IF I SHOULD FALL FROM GRACE WITH GOD»
Warner/Farol
(8/10)

«PEACE & LOVE»
Warner/Farol
(6/10)

«HELL'S DITCH»
Warner/Farol
(7/10)

«WAITING FOR HERB»
Warner/Farol
(3/10)

«POGUE MAHONE»
Warner/Farol
(4/10)


Acho que já contei isto, resumidamente, nas páginas deste jornal há alguns anos. Mas, contado agora, ainda faz mais sentido: foi por causa dos Pogues - um grupo londrino mas com músicos, e alma, irlandeses - que travei conhecimento com a música folk de inspiração «céltica» (irlandesa, escocesa, inglesa...). A minha pergunta, quando comecei a ouvir os Pogues, em meados dos anos 80 era: mas que raio de melodias são estas que se escondem aqui atrás da barragem de guitarras punk? De onde vêm este acordeão e esta flauta e estas melodias de voz, bruta sim, gutural sim, alcoolizada sim, mas que tinha lá dentro toda a suavidade e doçura das «airs» (baladas) irlandesas e que, muitas vezes, bailava à roda num jig ou num reel qualquer. Anos depois, descobri os Chieftains (e muitos dos outros) e parte da magia ficou explicada. Assim como ficou explicada a importância primordial dos Pogues no cruzamento do punk (do rock, se se preferir) com as músicas tradicionais de onde quer que seja, com influência directa em grupos britânicos e da Europa Continental (The Men They Couldn't Hang, Oysterband, Les Négresses Vertes, Essa Entente, Sétima Legião, Os Cempés...) ou indirecta em grupos como os Hedningarna ou os mergulhos de Kusturica e Bregovic nas raízes balcânicas (eles que vieram os dois do rock). E, passados vinte anos, apesar de ao longo do tempo ter percebido que o cruzamento de elementos das músicas tradicionais com outras músicas (a música erudita, o jazz, o rock...) não ter sido uma invenção dos Pogues, estes continuam, para mim, a ser a «invenção» que me levou a descobrir a música irlandesa (e, por arrasto, muita folk e música tradicional dos mais variados pontos do planeta). Abençoados sejam.
É, também por isso, uma grande festa (e não, não é trocadilho com um dos mais famosos temas dos Pogues) a reedição, com um porradão de bónus, da discografia completa de estúdio dos Pogues, de «Red Roses For Me» aos mal-amados «Waiting For Herb» e «Pogue Mahone» (os dois últimos da fase já sem Shane MacGowan).

Curiosamente, o último recupera a designação original dos Pogues, Pogue Mahone (que significa «beija o meu cu» em gaélico). Como Pogues - e com o carismático vocalista Shane, um poeta punk bebedolas e politicamente empenhado - editam, em 1984, o álbum de estreia, «Red Roses For Me», já um excelente mostruário da sua arte. Incluindo temas originais de Shane e tradicionais, os Pogues atiram-se a jigs, reels, baladas quase sempre com um apurado grau de rudeza e diversão punk, lançando também pontes com a country norte-americana via um banjo saltitante e quase sempre presente. Nele se encontram temas como «Boys From The County Hell», «Dark Streets of London» ou «Streams of Whiskey» mas também o violentíssimo e quase assustador «Down In The Ground Where the Dead Men Go». Como bónus, a reedição inclui «And the Band Played Waltzing Matilda» (lado B do primeiro single do grupo, «Dark Streets of London», e repegada em álbum no segundo da banda), «The Leaving of Liverpool», «Repeal of the Licensing Laws», «Muirshin Durkin» e mais alguns docinhos (quase todos com recheio de algo alcoólico) recuperados aos arquivos.

No ano seguinte, ao segundo álbum, «Rum Sodomy & the Lash», levaram o conceito ainda mais longe e Shane revelou-se definitivamente como um dos mais talentosos escritores de canções dos anos 80. As raízes irlandesas continuavam lá - o que provocou violentas reacções dos puristas do género «vocês estão a abastardar a música irlandesa» -, os Pogues vestiam-se de piratas e atiravam-se a canções próprias de tasca de marinheiros mas cada vez mais apuradas harmonicamente: «The Sickbed of Cuchulaim», o instrumental (se exceptuarmos os gritos de guerra) «Wild Cats of Kilkenny», a belíssima «I'm a Man You Don't Meet Every Day» (curiosamente cantada pela baixista, Cait O'Riordan, que viria depois a casar com Elvis Costello), os clássicos absolutos «A Pair of Brown Eyes», «Sally MacLennane», «Dirty Old Town» (um original do escocês Ewan MacColl), numa sequência genial e de tirar o fôlego a toda a gente. A produção esteve a cargo de Costello, que deixou a banda à solta em estúdio. Fez bem. Os bónus trazem a western à Morricone e inédita «A Pistol For Paddy Garcia», os fabulosos «Rainy Night In Soho» e «Body of an American» e mais alguns temas (estes e outros estavam quase todos no EP «Poguerty In Motion»).

Não gosto tanto de «If I Should Fall From Grace With God» (1988) como gosto de «Rum...», talvez porque o som está mais polido, mais amansado, mais, digamos, pop (?!), cortesia do produtor Steve Lillywhite. Mas as canções, essas, continuam muito lá em cima: «If I Should Fall From Grace», «Turkish Song of the Damned» (com ambientes arabizantes), «Bottle of Smoke», a lindíssima «Fairytale of New York» (com Shane e Kirsty MacColl em dueto), «Thousands Are Sailing», o quentíssimo e tropicalíssimo «Fiesta», a politicamente empenhada «Streets of Sorrow/Birmingham Six» (baseado na mesma história de homens injustamente condenados por pertencerem ao IRA que viria a dar origem ao filme «Em Nome do Pai») ou «The Broad Majestic Shannon». Nos bónus há espaço para, entre outras raridades, dois temas em colaboração com os Dubliners, «Irish Rover» e o autêntico bombonzinho para coleccionadores «Mountain Dew».

E, de repente, «Peace & Love» (1989) mostra uns Pogues em crise: de crescimento, de criatividade, de motivação (Shane andava, por esta altura, encharcado num cocktail de álcool e drogas). E o quarto álbum do grupo é disso prova mais que evidente. O primeiro tema até é uma boa surpresa: um swingãozão divertido entre as big-bands americanas e John Barry, mas as canções que se seguem não estão ao nível do que os Pogues tinham gravado até ali (talvez porque muitas delas já não tinham a marca autoral de Shane). Salvam-se, mesmo assim, alguns temas: «White City», «USA» (rock'n'roll, cajun, western...), «Gartloney Rats» (muito próxima das raízes irlandesas), «London You're a Lady» e pouco mais. Bónus: «Star of the County Down» (nova versão, desta vez pela voz de Andrew Ranken), a lindíssima «Every Man Is a King» (de Terry Woods e Ron Kavana), a incontornável «Yeah Yeah Yeah Yeah Yeah Yeah» e uma versão divertida de «Honky Tonk Women» (dos Rolling Stones), entre outras.

E abre-se o livreto de «Hell's Ditch» (1990) e dá-se de caras com uma foto dos Pogues em Gaia (lá mais para a frente há outra). Isso é bom. Como também é bom que o produtor deste álbum seja Joe Strummer (o Sr. Clash). Mas este não é um álbum punk, apesar da voz cada vez mais afanada de Shane quase o levar para aí. Tem excelentes canções (muitas delas novamente de Shane): «The Sunnyside of the Street», «Sayonara», «Hell's Ditch» (que vai à rembetika grega), «Lorca's Novena» (com sabor a Espanha), o fabuloso «Summer in Siam», o festivo «Rain Street» e algumas das outras são o Imenso Adeus (na voz ou como compositor) de Shane ao grupo. Bónus: o popular «Whiskey In the Jar» e «Jack's Heroes» (ambos com os Dubliners) e uma versão nova de «Rainy Night In Soho» estão incluídos.

Já sem Shane, os Pogues ainda editaram «Waiting For Herb» (1993) e «Pogue Mahone» (1995), ambos com o flautista Spider Stacy na voz principal, que ainda têm umas poucas boas canções (vide «Living In a World Without Her» ou o tema cajun, em francês, «Amadie», ambos de «Pogue Mahone») mas já não são, nem de longe, os Pogues como os conhecíamos e amávamos. Só para coleccionadores.

02 agosto, 2006

Dropkick Murphys - Quando o Celta É Mesmo Punk (ou Vice-Versa)



O post anterior - dedicado ao projecto A Naifa, fundado por dois rapazes com raízes no punk (Luís Varatojo nos Peste & Sida e João Aguardela nos Sitiados do início) - fez-me recuperar uma entrevista, publicada originalmente em 2001, com os Dropkick Murphys, banda norte-americana mais punk que os Pogues e tão celta - seja lá isso o que for - quanto eles...


DROPKICK MURPHYS
VERDE É O BETÃO

Uma banda punk com gaita-de-foles e tin whistle? Uma banda americana que vai à Irlanda em busca das raízes da música? Uma banda que fala de copos e de farra, de amigos mortos e de intervenção? E que convida Shane MacGowan para os coros? Ken Casey, voz e baixo dos Dropkick Murphys, explica tudo.

Os Dropkick Murphys tocam esta semana, pela primeira vez, em Portugal. É no Hard Club, em Gaia, dia 30. E quem estará à espera de um concerto punk na linha de uns Offspring ou Pennywise, bem pode tirar o cavalo da chuva. No último álbum, «Sing Loud, Sing Proud», os Dropkick Murphys dão um salto de gigante em relação a «The Gang's All Here» (mesmo assim, e apesar de mais «normalizado», um dos melhores álbuns punk da fornada da última década nos States). Em «Sing Loud...», a banda de Boston junta à fúria das guitarras eléctricas e à pulsão da secção rítmica, doses certas de melodia celta - ou doses celtas de melodia certa -, ritmos (jigs e reels) irlandeses, instrumentos acústicos como o bandolim, a gaita-de-foles ou a tin whistle. O caso só não é original porque houve uma banda chamada Pogues (e as que a ela foram buscar inspiração). E os Dropkick Murphys sabem-no. Tanto que foram buscar o semi-morto Shane MacGowan para cantar (orgulhosamente) em dois temas do álbum (dois no vinil, só num no CD).

Ken Casey é simpático, de voz pausada e ideias firmes. Nota-se no sotaque um ligeiro toque irlandês, ele que é americano. Nesta conversa, Casey começou por explicar como é que uma banda punk americana se transforma numa banda «irish folk punk». «Quase todos nós nascemos em Boston, numa comunidade formada por descendentes de irlandeses. É natural que tenhamos curiosidade em conhecer as raízes da nossa cultura e da nossa música. Ouvi muita música irlandesa quando era miúdo, muitas vezes contra a minha vontade. Não gostava; estava mais interessado em ouvir grupos rock e punk. Mas à medida que fui crescendo, fui começando a gostar mais. Quando era adolescente - e principalmente quando comecei a beber álcool (risos) - descobri que a música irlandesa, afinal, não era assim "tão má"».

A inclusão de instrumentos e sonoridades irlandeses no som dos Dropkick Murphys foi, segundo Casey, um processo gradual. «Esse desejo já existe há vários anos. E desde o início que nós procurámos incluir outros instrumentistas na banda, mas até há pouco tempo nunca tínhamos conseguido que eles tocassem connosco a tempo inteiro. Para além disso, a maior parte dos músicos que conhecemos e que fazem música irlandesa têm cerca de quarenta anos e não querem tocar com uma banda punk. Só para este álbum conseguimos ter os músicos que nós queríamos».

A inclusão permanente de um gaiteiro/flautista, de um acordeonista e de um bandolinista deu à banda «muito mais liberdade para criar e experimentar, dentro de cada canção, também no sentido de podermos transpor para palco a sonoridade do disco». Ken Casey foi o produtor do disco - depois de em «The Dropkick Murphys» e «The Gang's All Here» essa função ter sido confiada a Lars Frederiksen, dos Rancid - e, para ele, foi fácil e divertido cruzar os diferentes instrumentos e sonoridades. «Acho que precisava de ser eu a produzir este disco. Não acho que a nossa sonoridade neste momento seja demasiado "intelectual" para o Lars, que continua muito nosso amigo, mas eu precisava de mexer pessoalmente no som. Este é um álbum de uma nova formação e precisávamos de ser nós a fazer o disco todo».

Pergunto-lhe se as letras e o imaginário (até na capa do disco) têm alguma coisa a ver com o nacionalismo irlandês. Ken diz que não: «Não, primeiro somos uma banda americana. Depois, "nacionalismo" é uma palavra que pode ser assustadora. O nosso imaginário tem mais a ver com uma homenagem às raízes do que com nacionalismo». Na mesma ordem de ideias, Ken admite a filiação de alguns membros da banda no movimento skinhead, mas recusa vigorosamente qualquer ligação com a extrema-direita: «O movimento skinhead começou por ser protagonizado por trabalhadores, operários, e começou por ser anti-racista, já que a música que se ouvia era essencialmente jamaicana. Só depois é que os fascistas se apropriaram de parte, diria uma pequena parte apesar da maior visibilidade nos meios de comunicação, do movimento. Temos músicos na banda - e algum público nosso - que são skinheads de esquerda, redskins anti-racistas e anti-fascistas».

Para Ken Casey, ter gravado com Shane MacGowan - a voz dos míticos Pogues, actualmente (quando os momentos de sobriedade o permitem) nos Popes -- «foi um grande motivo de orgulho. Ele é grande! Ele gostou muito da nossa maqueta da canção "Good Rats" e gravou a voz dele por cima. Estava um ambiente extraordinário; ele estava muito bêbado... (risos). O meu trabalho, durante a gravação foi servir-lhe de ponto, como no teatro, para as letras e segurar-lhe o cigarro na boca... (mais risos)». Os Pogues - até pelo seu cruzamento primordial entre a rudeza do punk e a pureza da música da Irlanda - são, sem dúvida, uma inspiração maior para os Dropkick Murphys. Mas há outras bandas que, no passado e no presente, marcam a música do grupo de Boston. Falo-lhe dos Clash. E Ken concorda, mas acrescenta mais nomes: «Os Clash?, sem dúvida. Até fizemos versões de temas deles. Mas também outras bandas britânicas da mesma altura como os Sham 69, Stiff Little Fingers, Buzzcocks, Angelic Upstarts...».

Curiosamente, apesar da filiação irlandesa da maior parte dos músicos da banda, o vocalista da banda, Al Barr (que substituiu Mike McColgan antes da gravação de «The Gang's All Here») tem origem escocesa e costuma actuar de kilt. Ken acha que, apesar das diferenças entre irlandeses e escoceses, «de facto temas raízes célticas comuns, mas o mais importante nem é isso... O que importa é que tanto uns como outros gostam imenso de beber álcool».

A conversa vira para o mote da canção «Fortunes of War». Diz Casey: «Essa canção é muito especial para nós porque é dedicada a um rapaz, a um punk, de uma pequena aldeia que foi assassinado há três anos porque os seus conterrâneos não aceitavam que ele fosse diferente. O que é incrível nesta história - para além do crime em si - é que nos velhos tempos os punks não eram aceites, mas na actualidade também não. O rapaz era visto como um "freak", no sentido de "esquisito", um "fora-da-lei". E ele foi assassinado por rapazes da mesma idade, jogadores de futebol americano. O gajo que o matou nem foi preso...». Antes da edição de «Sing Loud...», os Dropkick Murphys lançaram um split-álbum com os ingleses The Business, «Mob Mentality», em que, entre outras versões, reinterpretam «The Kids Are Allright», dos Who. Ken Casey recusa ligações ao movimento mod mas confessa que os Murphys são fãs de rock clássico: «Gostamos dos Who, dos AC/DC, de muitas coisas dos anos 60 e 70».

Para finalizar, pergunto a Ken o que é que aconteceu a James Lynch, guitarrista da banda que teve um acidente de automóvel, no dia 18 de Março, felizmente com consequências pouco graves. Ken ri-se e conta a história: «O James estava bêbado. Ele estava na parte de trás do carro e estava a gritar para o condutor: mais depressa, mais depressa. Então, abriu a porta e atirou-se para fora do carro. Fisicamente ele está quase bom; mas duvidamos que esteja bem mentalmente. Pelo menos, melhor do que já estava na altura do acidente» (risos)