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25 setembro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLIV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XLIV.1 - Björk


Cantora, compositora, instrumentista, mulher de olhos e ouvidos abertos para as músicas e o mundo, Björk Guðmundsdóttir - nascida a 21 de Novembro de 1965 em Reykjavík, na Islândia - é uma das mais geniais e fundamentais artistas pop da actualidade. E uma artista que à pop - ou o que lhe queiram chamar, do rock indie às electrónicas - não se confina, abrindo o espaço da sua música à música erudita, ao experimentalismo, à world music. Tem colaborações com nomes como Hector Zazou - cantando um tema tradicional nórdico no álbum «Chansons des Mers Froids»» (1995) -, a cantora esquimó Tanya Tagaq - no álbum «Medúlla» (2004), o seu disco onde a tradição dialoga com a modernidade absoluta -, ou, mais recentemente, com o mestre maliano da kora Toumani Diabaté e os congoleses Konono Nº1 - ambos presentes em «Volta» (2007). Oiça-se «Earth Intruders», deste álbum, e oiça-se assim a world do futuro.


Cromo XLIV.2 - Gaiteiros de Lisboa


Os Gaiteiros de Lisboa (foto de Mário Pires) são o mais importante grupo de música tradicional portuguesa - e da sua renovação - dos últimos vinte anos. Com uma sabedoria funda, feita de muitos anos de estudo e de prática da música, mas com o génio suficiente para da tradição fazer uma outra coisa - viva, actual, sentida, muitas vezes divertida e selvagem, de outras de uma beleza etérea e profunda - os Gaiteiros de Lisboa nasceram em 1991, com um núcleo base formado por Paulo Marinho, Carlos Guerreiro, José Manuel David, Rui Vaz, José Salgueiro (recentemente susbstituído por José Martins) e, na altura, José Mário Branco. Já sem José Mário, o grupo alargou-se a outros músicos, como Pedro Casaes e Pedro Calado. E, ao longo destes anos, mostraram que - entre originais e adaptações de temas tradicionais, com instrumentos «normais» ou por eles construídos - a música portuguesa de raiz pode dar as árvores que se quiser.


Cromo XLIV.3 - «Éthiopiques»


Garimpeiro de discos de vinil antigos, aventureiro apaixonado pela música africana, Francis Falceto - da editora Buda Musique, baseada em Paris - é o responsável por uma das mais maravilhosas colecções que a world music já viu: a série «Éthiopiques», dedicada à reedição em CD de gravações feitas nos anos 60 e 70 por músicos da Etiópia e da Eritreia e o lançamento de alguns álbuns de originais gravados recentemente para a editora. Uma série que já ultrapassou os vinte volumes e que, entre colectâneas e álbuns inteiros dedicados a artistas específicos, deu a conhecer ao mundo artistas como Mahmoud Ahmed, Mulatu Astatke, Alemayehu Eshete, Asnaketch Worku, Tilahun Gessesse, Orchestra Ethiopia, Alemu Aga ou Getachew Mekurya. Para além da série «Éthiopiques», a Buda tem ainda outras colecções relevantes: «AfricaVision», «Ethiosonic», «Zanzibara», «Musique du Monde», «Stars de la World», «Voix du Passé», «Transes Européennes» e «Echos».

Cromo XLIV.4 - Ali Hassan Kuban



Nome pioneiro da fusão da música ocidental - nomeadamente do jazz e do funk, mas também da música cubana - com a música norte-africana, Ali Hassan Kuban (nascido em Gotha, na Núbia, em 1929; falecido em 2001) deu a esta zona do Egipto uma visibilidade musical que nunca alguém tinha conseguido até então. Dono de uma voz de excepção e um homem do seu tempo, embora sempre com um pé firme na tradição da sua região e do seu povo, Hassan Kuban introduziu guitarras eléctricas, teclas, acordeão e uma secção de metais na sua música durante os anos 50. Cantor, clarinetista, tocador de gibra (gaita-de-foles local), Ali Hassan Kuban viu o seu valor ser reconhecido internacionalmente durante os anos 90, quando actuou em festivais como o WOMAD, Midem ou o festival de jazz de Montreal. Álbuns mais relevantes: «From Nubia To Cairo» (1980), «Walk Like A Nubian» (1994) e «Nubian Magic» (1995).

10 setembro, 2008

Adeus Hector Zazou...


Soube da notícia através do Juramento Sem Bandeira. Uma notícia que me deixou particularmente triste: Hector Zazou faleceu anteontem, dia 8, com a idade de 60 anos. Cheguei a conhecer Hector Zazou pessoalmente, quando esteve em Portugal a produzir um álbum de Né Ladeiras que nunca foi acabado. Há alguns meses dediquei-lhe um texto na série «Cromos Raízes e Antenas» (aqui)... E, como não conseguiria expressar melhor do que o Vítor o que me vai na alma - e, mais a mais, partilhando com ele a mesma paixão pelos discos referidos -, aqui fica a notícia publicada ontem no Juramento:

«Hector Zazou (1948-2008)

Depois de duas notícias óptimas, uma que não é nada agradável. Faleceu ontem Hector Zazou. Ao longo de mais de trinta anos, o compositor e produtor francês deixou obras que foram um marco na produção europeia e mundial. Ao longo do percurso, trabalhou na companhia de um notável conjunto de vozes e músicos. Entre os mais conhecidos, constam, por exemplo, Laurie Anderson, Peter Gabriel, John Cale, Brian Eno, Björk, Kronos Quartet, Suzanne Vega, Lisa Germano, Jane Birkin, Värttina, Siouxsie Sioux, Ryuichi Sakamoto, Khaled, Brendan Perry e Lisa Gerard dos Dead Can Dance, Jane Siberry, Robert Fripp, Peter Buck, Mimi Goese dos Hugo Largo, Sainkho, Nils Petter Molvær, Carlos Nuñez e muitos outros. Musicou Rimbaud (no incontornável "Sahara Blue"), musicou a "La Passion de Jeanne d’Arc" de Dreyer, trabalhou a música clássica, a electrónica, a tradicional, aventurou-se pelas tradições nórdicas, irlandesas ou asiáticas e deu à voz feminina um tratamento que poucos souberam dar tão bem. Nesta altura, o luto vive-se também na Crammed, a editora belga por onde fez sair uma dezena discos e que agora lhe dedica algumas palavras. É, aliás, pela Crammed que vai sair brevemente "In the House of Mirrors", que foi este ano gravado na Índia.
Permitam-me acrescentar esta nota pessoal: "Chansons des Mers Froides" (1994), disco composto a partir de tradições nórdicas relacionadas com o mar, e "Sahara Blue" (1992), música para poemas de Rimbaud, na comemoração do seu 100º aniversário, foram discos que eu ouvi compulsivamente um atrás do outro há pouco mais de uma década atrás, e estou certo que contribuíram para o meu desenvolvimento auditivo, seja o que for que isto signifique. Quando morre o autor de dois discos da nossa vida, é triste.»

13 março, 2008

A Naifa - A Cortar Pela Terceira Vez


Depois dos (excelentes) álbuns «Canções Subterrâneas» e «3 Minutos Antes de a Maré Encher», A Naifa edita agora um novo álbum, «Uma Inocente Inclinação Para o Mal», desta vez - e ao contrário dos anteriores, em que apostou na divulgação de variadíssimos novos poetas portugueses - recorrendo apena à poesia de um único autor, a escitora Maria Rodrigues Teixeira. O novo álbum d'A Naifa - Mitó (voz), Luís Varatojo (guitarra portuguesa), João Aguardela (baixo eléctrico) e Paulo Martins (bateria) - tem como primeiro single a canção «Filha de Duas Mães», sendo os restantes temas «Um Feitio de Rainha», «Na Página Seguinte», «Esta Depressão Que Me Anima», «Um Rapaz Mal Desenhado», «Dona de Muitas Casas», «O Ferro de Engomar», «Apenas Durmo Mal», «Pequenos Romances», «Na Aula de Dança», «O Ar Cansado dos Meus Vestidos», «Nas Tuas Mãos Vazias», «Uma Ligeira Indisposição» e «Apanhada a Roubar». O álbum estará disponível, a preço de lançamento, a partir de dia 15 de Março (depois de amanhã), nas bilheteiras dos teatros por onde vai passar a digressão de apresentação. Uma digressão que tem datas marcadas para Abril - Coimbra (Teatrão, dias 3 e 4), Horta (Cine-Teatro Faialense, dia 5), Guarda (Teatro Municipal, dia 11), Tondela (ACERT, dia 12), Lisboa (Teatro Maria Matos, dias 18 e 19), Sesimbra (Fortaleza de Santiago, dia 24) e Portalegre (CAE, dia 26) - e Maio - Santarém (Teatro Sá da Bandeira, dia 3), Águeda (Cine-Teatro S. Pedro, dia 9), Setúbal (Fórum Luísa Todi, dia 10), Moita (Fórum J.M. Figueiredo, dia 16), Montemor-o-Novo (Cine-Teatro Curvo Semedo, dia 17), Loulé (Convento de Sto. António, dia 23), Aveiro (Teatro Aveirense, dia 30) e Braga (Theatro Circo, dia 31). Mais informações aqui.

07 março, 2008

DeVotchka, Vampire Weekend e Yeasayer - O Rock, Cada Vez Mais World Music


A atracção de músicos pop/rock anglo-saxónicos por músicas de outros lados do mundo não é uma coisa nova... A história - e a linhagem - é mais que conhecida: Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Peter Gabriel, David Byrne (com e sem os Talking Heads), Brian Eno, Sting, Paul Simon, Jah Wobble, Ry Cooder, boa parte do pós-punk/no wave nova-iorquino de inícios dos anos 80, etc, etc... E, nos últimos anos, essa tendência tem, em vários grupos e artistas, tomado diversas direcções: dos Animal Collective aos Beirut, dos Tindersticks aos Calexico e aos Firewater... Desta vez, a fornada é feita com mais três grupos norte-americanos de rock, digamos assim, que se deixaram cativar por músicas de outros lados do mundo: os DeVotchKa (na foto), os Yeasayer e os Vampire Weekend.


DEVOTCHKA
«A MAD AND FAITHFUL TELLING»
Anti- Records

Em tempos que já lá vão, os DeVotchKa foram a banda de apoio dos espectáculos burlescos de... Dita von Teese (pois, a ex-mulher de Marilyn Manson). Mas alguns anos, várias digressões e um punhado de discos depois, o grupo de Denver, Colorado, acabou por chegar à fama absoluta em nome próprio quando Jonathan Dayton e Valerie Faris o convidou para a banda-sonora do filme «Little Miss Sunshine». E o seu novo álbum, este «A Mad and Faithful Telling», mostra-nos uma banda seguríssima nos caminhos para onde quer levar a sua música, uma música em que ao rock indie e à folk se juntam, sem problemas e de forma absolutamente consistente, doses reforçadas de música cigana balcânica, klezmer, mariachis mexicanos, um irresistível balanço swing, valsas arrancheradas ou completamente parisienses e até um tema que poderia ser uma jam de Johnny Cash com os Tindersticks algures no Texas («Undone»). E, sendo apenas quatro, os DeVotchKa cantam e tocam variadíssimos instrumentos (guitarra, trompete, theremin, bouzouki, violino, acordeão, piano, sousafone, percussões...), numa variedade de timbres e sonoridades notável. «A Mad and Faithful Telling» vai agradar, de caras, aos fãs dos Gogol Bordello, Beirut, A Hawk and A Hacksaw, Calexico, Ry Cooder e Tarnation, por um lado, e aos fãs de Sufjan Stevens e Arcade Fire, por outro. (8/10)


VAMPIRE WEEKEND
«VAMPIRE WEEKEND»
XL Recordings

Ouve-se tão bem e é tão fresquinha a música deste disco!! Imagine-se: um pop/rock leve e saltitante que tanto vai aos Smiths quanto aos R.E.M., aos Feelies ou aos Squeeze, que aqui e ali se atreve a ir à música erudita (oiçam-se «M79» ou «The Kids Don't Stand a Chance») mas também a um ska e a um punk que tem mais, muito mais, de Green Day do que de Sex Pistols ou Clash, mas em que as canções são mergulhadas em variadíssimos condimentos de música africana: há lá ritmos que se colam imediatamente aos dos Konono Nº1 ou do afro-beat estabelecido por Fela Kuti, guitarras eléctricas que vão buscar a inspiração directamente a Johnny Clegg ou ao highlife do Gana (nomeadamente aos Osibisa) ou à marrabenta moçambicana ou a King Sunny Adé... e uns órgãos semi-manhosos que só poderiam ter saído de África nos anos 70. Novinhos, nova-iorquinos, os Vampire Weekend apontam como uma das suas maiores influências o álbum «Graceland», de Paul Simon, e isso faz todo o sentido, mas no meio de uma das suas letras, a do seu grande êxito até agora, «Cape Cod Kwassa Kwassa», falam também de Peter Gabriel (o que continua a fazer sentido). Curiosamente, «Cape Cod Kwassa Kwassa» faz lembrar, estranhamente!, o tema «Almadrava», dos nossos Marenostrum. «Vampire Weekend» é, acima de tudo, uma declaração de amor de quatro branquelas ianques pela música africana. Não é tão absoluta como a dos Toubab Krewe, por exemplo, mas é igualmente bonita. (8/10)


YEASAYER
«ALL HOUR CYMBALLS»
We Are Free

Apesar de serem o grupo deste lote menos obviamente contaminado pela chamada world music, a verdade é que os Yeasayer assinam o álbum mais interessante de todos. Com uma visão global de muitas décadas de rock - principalmente das suas margens mais psicadélicas e mais experimentais -, este novíssimo grupo nova-iorquino (formado em 2006!) faz uma música hiper-excitante e actualíssima, onde tanto podem conviver alusões aos Talking Heads como aos Flaming Lips, aos Beatles, aos Beach Boys, aos Pink Floyd do início ou a um hipotético heavy-metal feito no norte de África (cf. em «Wait For The Wintertime», que tem tanto de gnawa como de Black Sabbath). Com letras muitas vezes pessimistas e carregadas de um negrume indisfarçável - «2080», por exemplo, é uma visão apocalíptica do futuro -, a música dos Yeasayer é, no entanto, quase sempre de uma luminosidade rara e ofuscante. Uma música em que há lugar para o psicadelismo, o rock progressivo, uma freak-folk encantada e com o melhor que a palavra «freak» pode conter, o experimentalismo, o gospel, polirritmias africanas, celebrações tribais - para pôr mesmo ao lado das melhores dos Animal Collective ou dos Akron/Family -, uma sitar indiana (em «Wait For The Summertime») e até algo vindo do leste europeu (no maravilhoso «Germs»). Os Yeasayer dizem-se influenciados pelas bandas-sonoras de filmes de Bollywood, por Thomas Mapfumo e pela música «celta» (o seu myspace refere, com imensa piada, que eles soam a «Enya com tomates»!), mas o melhor mesmo é ouvir este fabuloso álbum e cada um tirar as suas conclusões. (9/10)

19 dezembro, 2007

Novembro - «À Deriva» Mas... Com Rumo


Há algum tempo que tenho prometido um post sobre projectos portugueses «desviantes» ao fado... Ainda não é desta que esse post vai aparecer, mas um dos nomes previstos para esse texto é o dos Novembro, grupo lisboeta que anuncia agora a edição do seu álbum de estreia. Com sugestões de fado pela ambiência e envolvimento (e anda por lá uma guitarra portuguesa), da pop melancólica e triste dos Joy Division e dos Durutti Column e com uma voz que faz lembrar, por vezes, António Variações, os Novembro prometem ser uma das maiores revelações da música portuguesa dos últimos anos. «À Deriva», o álbum de estreia do grupo - formado por Miguel Filipe (voz e guitarra portuguesa), Mark William Harding (bateria), Luís Aires (baixo) e João Portela (guitarras) - foi produzido por Tiago Lopes e Miguel Filipe e tem edição marcada para dia 28 de Janeiro, através da Lisboa Records. Já amanhã, dia 20 de Dezembro, o álbum é pré-apresentado ao vivo no Frágil, em Lisboa. Para saber um pouco mais sobre os Novembro, aqui.

14 dezembro, 2007

Yashila, Alms For Shanti e Transglobal Underground - Quando o Ocidente Chega à Índia (e Vice-Versa)


A «contaminação» musical entre o Ocidente e o Oriente é uma coisa antiga e bastante conhecida. Mas, mais recentemente, essas «contaminações» são cada vez mais evidentes e generalizadas - tanto em nomes indianos que vêm ao Ocidente buscar instrumentos e inspirações - como nos casos dos Yashila e dos Alms For Shanti (na foto), mesmo que estes dois grupos tenham sonoridades completamente diferentes - como em grupos fixados no Ocidente mas que têm membros de origem indiana (e/ou paquistanesa) como os seminais Transglobal Underground. Três excelentes exemplos de como as músicas estão cada vez mais misturadas, e ainda bem.


YASHILA
«DRIVE EAST»
Sense World Music

Os Yashila são um maravilhoso grupo indiano formado pela violinista Kala Ramnath e pelos percussionistas Abhijit Banerjee e Somnath Roy. E o título do álbum de estreia do projecto, «Drive East», é logo uma «carta de intenções» - porque no álbum estão lá, fundas, a música tradicional e erudita indianas mas também alusões a muitas outras músicas - flamenco e música latino-americana, música árabe... -, numa atitude assumida de fusão cujo resultado é uma música viva, sempre em mutação, variadíssima. Os dois percussionistas - Abhijit mais nas tablas (embora também toque outros instrumentos) e Somnath mais numa bilha de barro da qual tira sonoridades inacreditáveis (e noutros instrumentos) - são muito bons, mas quem brilha mais neste álbum é mesmo a violinista Kala, pertencente a uma família que há várias gerações toca o violino ocidental (igualzinho ao europeu), mas adaptando-o à música indiana, sendo tocado numa posição diferente e com uma afinação diferente daquela a que estamos habituados. E o resultado final é um deslumbramento completo, em que, no cruzamento de músicas indianas e ocidentais (tanto de raiz tradicional quanto clássica), se adivinham muitas músicas de um futuro utópico, pacificado, global. (9/10)


ALMS FOR SHANTI
«KASHMAKASH»
Blue Flame Records

É curioso ouvir «Kashmakash», o primeiro tema e tema-título deste álbum dos Alms For Shanti, a seguir ao álbum dos Yashila: o tema começa com percussões tradicionais indianas e um... violino antes de avançar para um rock musculado, e, a seguir, funks pulsantes e electrónicas poderosas ou ambientais e que fazem lembrar, por vezes, os U2, de outras os New Order, de outras os Chemical Brothers ou os Air. Mas sempre com ligações óbvias e profundas às músicas indianas. E basta ver os instrumentos tocados pelos dois membros deste grupo de Bombaim - Jayesh Gandhi (guitarras eléctricas e acústicas, slide guitar, teclas, programações) e Uday Benegal (voz, teclas, programações mas também percussões tradicionais) - e pelos seus inúmeros convidados neste álbum, que tocam instrumentos indianos como tablas, bansuri, ghungroo ou sarangi, para se perceber até onde o grupo leva a sua música. Mas é preciso ouvir-se a música (do irresistível tema dançante «Superbol», presença constante em muitos dos meus sets de DJ, até ao canto konokol locomovido a funk de «Nag Ghum»), para se perceber a riqueza desta música, híbrida sim, misturada sim, mas com tudo a fazer sentido e a soar sempre, sempre, a verdadeiro. (8/10)


TRANSGLOBAL UNDERGROUND
«MOONSHOUT»
Mule Satellite Recordings/Tumbao

Desde há muitos anos na linha da frente da «invasão» indo-paquistanesa na música produzida em Inglaterra - juntamente com os Fun-da-Mental, os Asian Dub Foundation, Nitin Sawhney... -, os Transglobal Underground regressam este ano com um álbum fabuloso, este «Moonshout», em que levam o seu riquíssimo conceito de fusão ainda mais longe. A música do local de origem de alguns dos seus membros continua bem presente (do bhangra a drones mágicos directamente vindos das ragas e aos musicais de Bollywood) assim como o dub, o rock (oiçam-se as fabulosas guitarras shoegazing de «Quit Mumblin'»), a música árabe, o hip-hop, numa mistura sólida, hiper-consistente, de tantas músicas diferentes. Mas estão lá também algumas novidades deliciosas: a primeira, claro!, é a colaboração entre os Transglobal Underground e os «nossos» Blasted Mechanism no fortíssimo «Total Rebellion» (tema comum a este «Moonshout» e a «Sound In Light», dos Blasted Mechanism, e um entre outros dos muitos líbelos políticos de «Moonshout»); outra, igulamente surpreendente, é a participação da cantora búlgara Yanka Rupkina (do Trio Bulgarka) no belíssimo tema «Spice Garden». E, quase inevitavelmente, também a «velha» companheira Natacha Atlas participa num tema, «Awal», ao lado do rapper iraquiano Naufalle. Excelentíssima música esta que põe em confronto - e em união - tantas músicas, tantos lugares, tantas gentes. (9/10)

19 outubro, 2007

Taraf de Haidouks, Shantel e Balkan Beat Box - A Música Cigana Por Veredas e Auto-Estradas


A explosão de sucesso da música cigana dos Balcãs no circuito da world music está a criar a necessidade de «desvios» à fórmula original, riquíssima na sua base mas - nota-se, ao fim de alguns anos - limitada em termos de amplitude tímbrica e de soluções harmónicas e melódicas; o que, aliás, acontece também com inúmeras outras músicas «regionais». Não é, portanto, de estranhar que este filão esteja a ser sujeito a adaptações e cruzamentos com outras músicas, percorrendo novos caminhos - sejam as veredas enviesadas em que os Taraf de Haidouks levam a música cigana de regresso a casa, sejam as modernas auto-estradas trilhadas por Shantel (na foto) e os Balkan Beat Box.


TARAF DE HAIDOUKS
«MASKARADA»
Crammed Discs/Megamúsica

«Maskarada», o novo álbum dos seminais Taraf de Haidouks, parte de uma ideia óptima - fazer versões de peças clássicas do Séc. XX inspiradas pela música cigana, numa atitude de reapropriação de uma herança glosada por muita gente exterior ao universo da música tradicional balcânica (e não só). Nesse sentido, os Taraf atiram-se a peças de Béla Bártok (claro!, ele que foi um investigador incansável da música tradicional romena e húngara), Aram Kachaturian, Manuel de Falla (numa aproximação aos primos da Andaluzia), Albert Ketèlbey, Isaac Albéniz e Joseph Kosma, fazendo versões primorosas do ponto de vista técnico mas falhando, quase sempre, na ideia de reapropriação e retradicionalização dos temas: as peças estão quase sempre muito próximas dos originais e nem a presença recorrente do acordeão ou do cimbalom chegam para dar uma cor «aldeã» ao conjunto. E é pena, porque se há grupo que poderia virar esta música de cabeça para baixo e fazê-la beber do leite original seria exactamente este bando de aldeões de Clejani, na Roménia. E um bom exemplo do que poderia ter sido este álbum é o cruzamento livre de «In a Persian Market» de Ketèlbey com «Les Feuilles Mortes» de Joseph Kosma na faixa 5. Fica a intenção e, mais e melhor, os seis temas dos próprios Taraf de Haidouks que aqui aparecem, se calhar inconscientemente para mostrar como a sua música ainda continua viva e próxima das raízes apesar... dos desvios. (6/10)


SHANTEL
«DISKO PARTIZANI»
Essay Recordings/Crammed Discs/Megamúsica

Muitos desvios - e saudáveis! - é o que faz Shantel no seu novo álbum de originais, o primeiro em muitos anos e depois de muitas remisturas para variadíssimos grupos de música cigana (os aqui em cima referidos Taraf de Haidouks incluídos), várias compilações (em que ao lado dos seus temas e das suas remisturas deu a conhecer muitos artistas de Leste) e inúmeras actuações como DJ solitário ou com a sua trupe do Bucovina Club. «Disko Partizani» é uma viagem pela música cigana dos Balcãs mas também por músicas mais ou menos próximas da Grécia, Turquia, Israel, Albânia, Bulgária, Macedónia... e misturando tudo, de forma brilhante e com um sentido pop apuradíssimo, com rock, ska, disco-sound, electrónicas variadas e mais o que se possa imaginar, criando com isso uma música nova, excitante e sempre mais que dançável. Sem espinhas! Depois, neste álbum - em que Shantel também se revela como um mais que razoável vocalista - está um leque de convidados impressionante: da cantora sérvia Vesna Petkovic aos surf-klezmers israelitas Boom Pam, passando pelo trompetista sérvio Marko Markovic, pelo clarinetista Filip Simeonov (dos Taraf de Haidouks), o cantor grego Jannis Karis, o acordeonista francês François Castiell (dos Bratsh) ou a cantora canadiana Brenna MacCrimon, entre muitos outros, numa celebração contínua de música viva e capaz de derrubar todas as barreiras e preconceitos. Brilhante! (9/10)


BALKAN BEAT BOX
«NU-MED»
Crammed Discs/Megamúsica

Trilhando um caminho paralelo ao de Shantel, o novo álbum dos Balkan Beat Box, «Nu-Med», também cruza a música cigana dos Balcãs com inúmeras outras músicas (do hip-hop ao rock e à música jamaicana - dub, dancehall... -, passando pelo klezmer e a música árabe). E se é algo estranho assistir a uma música feita por um alemão (mas com ascendência na região de Bucovina) que vai aos Balcãs, como é Shantel, ainda mais estranho poderia parecer o que leva uma dupla de israelitas sediados em Nova Iorque (Tamir Muskat e Ori Kaplan), os Balkan Beat Box, a viajar pelos caminhos do Leste da Europa. Mas, como é sabido, a música é universal e, se o primeiro álbum dos BBB era já um bom exemplo de como as fanfarras ciganas podiam cruzar-se com liberdade e criatividade com muitas outras músicas, «Nu-Med» mostra o grupo a fazer uma música ainda mais verdadeira e orgânica, ao mesmo tempo que ainda mais aberta a outras sonoridades. Mais: os BBB costumam referir o passado comum de muitos judeus e de muitos ciganos do Leste Europeu - e não há dúvidas quanto às proximidades da música cigana e da música klezmer - antes do estabelecimento do estado de Israel. Mas nem este aval teórico/histórico seria necessário para se perceber que esta música contém suficientes elementos de verdade para que possa ser ouvida sem que soe a falso ou artificial. Sem fronteiras (a inclusão de colaboradores sírios no álbum é também um «statement» político e, não por acaso, «Nu-Med» é o desejo de um «novo Mediterrâneo», em paz) e sem barreiras. (8/10)

18 outubro, 2007

Tinariwen e Vieux Farka Touré - O Deserto Aqui Tão Perto


E mesmo que não se possa ir ao deserto, o deserto pode vir até nós: é já amanhã, dia 19, que a fabulosa banda de músicos tuaregues Tinariwen (na foto) regressa a Lisboa para um concerto integrado na extensão que passa pela Europa e pelos Estados Unidos do Festival au Désert. Mas, como é sabido, não vêm sozinhos: na primeira parte terão o músico e cantor maliano Vieux Farka Touré, filho de Ali Farka Touré mas já senhor de uma voz própria e que o destaca da sombra tutelar do seu pai. Prevê-se mais uma noite inesquecível de música africana, desta vez no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, num fim-de-semana a que o CCB chama 3=6 (3 Dias, 6 Concertos, Muitas Músicas) e que inclui ainda espectáculos do flautista português Rão Kyao acompanhado pelo intérprete chinês de peipá Yanan (amanhã, no Pequeno Auditório), da pianista clássica Anne Kaasa (sábado, no Pequeno Auditório), do pianista de jazz Chick Corea (sábado, no Grande Auditório), do fadista Pedro Moutinho (domingo, no Pequeno Auditório) e da pop inteligente e encantatória do antigo vocalista dos Japan, David Sylvian (domingo, no Grande Auditório). Ainda antes do concerto em Lisboa, os Tinariwen e Vieux Farka Touré apresentam-se hoje, dia 18, no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria.

11 outubro, 2007

Manu Chao, Sergent Garcia e Yerba Buena - Som Mestiço (e Música de Intervenção, Sempre!)


Diferentes abordagens da música latino-americana ou, se se preferir, do «som mestiço» - naquilo que este conceito tem de mais global e alargado, principalmente se se olhar ao facto de ser música feita por franceses ou norte-americanos que vão à América Latina buscar a sua inspiração principal - e, nos três casos, uma necessidade de intervenção política activa, são a sugestão de hoje do Raízes e Antenas. Com álbuns de Sergent Garcia, de Manu Chao (na foto) e dos Yerba Buena.


MANU CHAO
«LA RADIOLINA»
Radio Bemba/Farol

Diga-se, logo para começar, que «La Radiolina» não tem a frescura, o brilho e a alegria de «Clandestino» ou do seu quase gémeo «Proxima Estación: Esperanza». Muitos anos passaram e Manu Chao está agora ainda mais atento às coisas do mundo, mais furioso com as políticas globais, mais centrado num activismo que o faz dar mais importância à mensagem do que às nuances musicais. É uma opção válida, generosa, solidária - e é importante que Manu Chao transmita as mensagens presentes em «Politik Kills», «Rainin In Paradize», «Mundo Révès» ou «Panik Panik» - mas a música fica a perder... Em «La Radiolina» continuam, claro, as habituais influências de Chao desde os tempos dos Mano Negra: a música latino-americana (desde o son cubano aos mariachis mexicanos...), o ska, o reggae, o punk à Clash, mas agora também com algumas aproximações ao country e ao rock FM (principalmente no tratamento dado às guitarras eléctricas) que ou não acrescentam grande coisa ao seu som ou, pura e simplesmente, o estragam por vezes. Mas não se pense que não há grandes momentos de música em «La Radiolina». Há! E o melhor de todos é, sem dúvida, o tema cheio de flamenco «Me Llaman Calle», logo seguido de «La Vida Tombola» (uma lindíssima homenagem a Maradona) e do lento e encantatório «Otro Mundo». E, apesar de ser bastante desequilibrado, «La Radiolina» é, mesmo assim, um bom álbum. (7/10)


SERGENT GARCIA
«MASCARAS»
Labels/EMI

Para os fãs de Manu Chao que ficaram desiludidos (ou semi-desiludidos) com o seu novo álbum, há uma boa solução: ouvir o último álbum de Sergent Garcia, «Mascaras», uma obra de excelentíssimo artesanato urbano, no sentido de se inspirar em variadíssimos géneros tradicionais da América Latina (dos quase óbvios salsa, cumbia, cha-cha-cha, rumba a vários estilos argentinos e mexicanos) mesclando-os com sabedoria com rock, reggae, dancehall, rap; e sem esquecer o lado da intervenção política como o fortíssimo líbelo anti-Bush «Guantanamo City». Curiosamente, Sergent Garcia (de verdadeiro nome Bruno Garcia) tem uma carreira paralela à de Manu Chao: fez parte de um grupo punk francês, os Ludwig von 88 (a letra de «Guantanamo City» é, curiosamente, de Karim Berrouka, seu ex-companheiro nesta banda), antes de começar a desenvolver, a solo, o seu conceito próprio de «salsamuffin». E em «Mascaras», o seu quinto álbum a solo, a fórmula está de tal forma apurada e personalizada que o álbum é um contínuo perfeito de música festiva, viva, hiper-orgânica, sempre dançável e com as coordenadas das várias músicas perfeitamente alinhadas num «equador» ficcional mas tão verosímil que parece verdadeiro. Oiça-se, por exemplo, o irresistível «Me Voy Pa' La Cumbia», e veja-se como já não há barreiras entre variadíssimos géneros musicais. E ainda bem. (9/10)


YERBA BUENA
«FOLLOW ME»
Fun Machine/Wrasse Records

Numa linha paralela à de Manu Chao e de Sergent Garcia - embora com um local de origem geográfica diferente - os Yerba Buena são uma invenção do produtor Andres Levin, que a partir da sua base em Nova Iorque partem para o mundo, em busca de géneros - essencialmente latino-americanos como a guajira, a cumbia, a soca, o boogaloo, a música brasileira (o próprio Levin nasceu no Brasil)... - que possam ser vestidos depois com doses reforçadas de funk, soul, hip-hop, afro-beat ou até flamenco... «Follow Me», este álbum de que se fala aqui, é a primeira edição dos Yerba Buena no mercado europeu e reúne muitos temas anteriormente editados nos álbuns «President Alien» (de 2003) e «Island Life» (de 2005) e, apesar de ter alguns momentos em que se sente bastante o «peso» dos efeitos de estúdio, há outros - bastantes, mesmo assim! - em que se assiste a uma música bastante coerente, divertida, dançável e em que a ideia de fusão está muitíssimo bem conseguida. Ah, sem esquecer - outro traço comum a estes três álbuns, para além da música latino-americana - a intervenção política no irónico «Bla Bla Bla», que inclui samples da voz de Bush. E, pormenor também não dispiciendo, o álbum inclui ainda algumas colaborações de luxo como, entre outros, Carlinhos Brown, o mítico Joe Bataan, Orishas, Diego «El Cigala», Célia Cruz, Les Nubians e... os Gogol Bordello. (7/10)

05 outubro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXVII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXVII.1 - Amália Rodrigues



Considerada unanimemente como a maior das cantadeiras de fado - e também actriz e... compositora - Amália Rodrigues (de nome completo Amália da Piedade Rebordão Rodrigues) nasceu em Lisboa, a 1 (ou 23) de Julho de 1920, e morreu na mesma cidade, a 6 de Outubro de 1999. Mas, se Lisboa foi o palco do seu nascimento e da sua morte e a música tradicional de Lisboa, o fado, a sua expressão maior, muitos outros palcos por todo o mundo acolheram a sua-voz-maior-que-a-vida e a sua arte, que partia do fado mas podia ir desembocar a muitas outras músicas. As suas actuações em prestigiadas salas do Brasil, de França, de Espanha, dos Estados Unidos, do Japão e até da antiga União Soviética (e numa altura em que o regime salazarista português tinha no comunismo o seu maior inimigo) fizeram dela uma das primeiras divas globais da agora chamada «world music» e abriram o caminho para muitos outros artistas, portugueses e não só. Um Mito.


Cromo XXVII.2 - Yothu Yindi



O rock, é sabido, anda por todo o lado. E até em locais dos antípodas, como a Austrália, terra de muito bom rock (de Nick Cave aos Go-Betweens, passando pelos, pois, AC/DC e os... Dead Can Dance). Mas já será mais estranho (ou não?) saber-se de uma importante banda rock cujo líder e maioria de elementos é constituída por aborígenes. Mas essa banda, Yothu Yindi, existe e não é a única. Mas é a pioneira de uma música que junta a música tradicional dos aborígenes com a pulsão do rock e uma ligação fortíssima a temáticas políticas (cantam, muitas vezes, sobre a repressão a que os aborígenes são sujeitos e também defenderam a causa de Timor-Leste, ali ao lado). Liderados pelo cantor e compositor Mandawuy Yunupingu, os Yothu Yindi têm na sua formação aborígenes e não aborígenes e tanto usam guitarras eléctricas e acústicas e bateria quanto o inevitável didgeridoo ou os também tradicionais «paus de percussão».


Cromo XXVII.3 - Atahualpa Yupanqui



Atahualpa Yupanqui (pseudónimo de Héctor Roberto Chavero Haram, nascido a 22 de Janeiro de 1908, em Pergamino, Argentina, falecido a 23 de Maio de 1992) é a mais importante personagem da música argentina extra-tango. Cantor, guitarrista, compositor, poeta, Yupanqui foi também a influência maior de muitos cantores e compositores argentinos e de outros países da América Latina, nomedamente da cantora sua conterrânea Mercedes Sosa, que muitas vezes interpretou as suas canções. Incansável recuperador e reinventor das canções tradicionais do interior da Argentina; activista político durante várias décadas (Yupanqui pertenceu ao Partido Comunista Argentino durante bastante tempo, tendo-se exilado no Uruguai por isso) e um símbolo da preservação de culturas antigas (o seu pseudónimo presta homenagem a dois reis incas), a sua arte permanece ainda nas vozes de muitos dos seus seguidores.


Cromo XXVII.4 - Paul Simon



Paul Simon (de nome completo Paul Frederic Simon, nascido a 13 de Outubro de 1941, em Newark, Nova Jérsia, Estados Unidos) foi um dos artistas de maior sucesso dos anos 60 e 70, mercê de uma parceria bastante frutuosa com Art Garfunkel e de canções inesquecíveis como «The Sound of Silence» ou «Bridge Over Troubled Water». Mas se Garfunkel era a «carinha laroca» do duo, Paul Simon era o principal compositor e o homem das ideias, ideias que ao longo do tempo o levaram, a solo, para caminhos alternativos ao seu habitual folk-rock: o reggae na canção «Mother and Child Reunion» ou, já na década de 80 e inícios de 90, a música sul-africana no álbum «Graceland» - em que foi acompanhado pelos Ladysmith Black Mambazo - e a música brasileira em «The Rhythm of the Saints» - onde, entre outros, colabora Milton Nascimento. Dois álbuns que, só por si, lhe garantiriam um lugar nestes Cromos.

13 setembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXV.1 - Ali Farka Touré



Um dos maiores músicos e cantores das últimas décadas, Ali Farka Touré (Ali Ibrahim «Farka» Touré, nascido a 31 de Outubro de 1939, em Kanau, Mali, de etnia djerma/songai, e falecido a 7 de Março de 2006 em Bamako, Mali) foi o homem que fez a ponte entre a música tradicional da África ocidental e os blues, demonstrando - na prática e não só na teoria - onde nasceu a grande música negra norte-americana. Instrumentista de génio - na njarka e nas guitarras acústicas e eléctricas-, Ali Farka foi também um homem de acção, tendo contribuído decisivamente para o desenvolvimento da sua localidade de residência, Niafunké (o seu nascimento, vida e morte sempre balizados pelas margens do rio Niger). Para a história ficam muitos álbuns gravados a solo ou em parceria com gente como Ry Cooder, Toumani Diabaté ou Taj Mahal, e um concerto extraordinário e inesquecível no África Festival, em Lisboa, em 2005.


Cromo XXV.2 - Blowzabella



Pergunte-se a qualquer músico (ou quase) do circuito de recuperação das danças tradicionais europeias qual o grupo que mais o influenciou e a resposta só pode ser uma: os Blowzabella, grupo inglês nascido em 1978, em Whitechapel, Londres, pelas mãos de dois gaiteiros e flautistas (o australiano Bill O’Toole e o inglês Jon Swayne). Destes dois, foi Swayne que continuou a banda ao longo destas três décadas, tendo os Blowzabella sofrido numerosas mudanças de formação até ao actual line-up, um super-grupo formado, veja-se só, por Andy Cutting, Jo Freya, Paul James, Gregory Jolivet, David Shepherd, Barn Stradling e o próprio Jon Swayne. Ferozmente acústicos, usando e abusando de gaitas-de-foles, sanfonas e violinos, muitos tradicionais recuperados e muitíssimos originais entretanto compostos pelo grupo recriaram e criaram um reportório que agora é comum a milhares de outros músicos. Siga a dança!

Cromo XXV.3 - Esquivel



Esquivel - ou Esquivel!, com ponto de exclamação -, de nome completo Juan García Esquivel (nascido em Tampico, Tamaulipas, México, a 20 de Janeiro de 1918, falecido a 3 de Janeiro de 2002) foi um dos maiores representantes da música exotica e da música lounge, baptizado com epítetos como «The King of Space Age Pop» ou «The Busby Berkley of Cocktail Music». Pianista, fortemente influenciado pela música do seu país e de outros territórios da América Latina, Esquivel era também um apaixonado pelo jazz e pelo experimentalismo sonoro, nomeadamente com as possibilidades da emergente estereofonia. Tudo junto contribuiu para a sua criação de uma música nova e excitante que ficou conhecida como «Space Age Bachelor Pad Music». Em meados dos anos 90, e depois de décadas de apagamento, Esquivel foi reabilitado por muitos novos músicos das correntes electrónicas e ambientais que viram nele um dos seus maiores gurus.


Cromo XXV.4 - Nouvelle Vague



Os Nouvelle Vague são um dos melhores exemplos de como a pop pode coabitar pacificamente, de forma coerente e com frutos saborosos, com a chamada world music. A fórmula é simples: pegar em temas punk, new wave e pós-punk, todos eles emblemáticos, de finais dos anos 70 e dos anos 80 - de gente como os Joy Division, The Clash, Buzzcocks, Blondie, Depeche Mode, Tuxedo Moon, Dead Kennedys, The Cure, XTC, Echo and The Bunnymen, Cramps, etc, etc... - e afogar tudo em arranjos que vão beber essencialmente à bossa-nova brasileira mas também, pontualmente, a outros géneros latino-americanos. O resultado é quase sempre de elevadíssimo bom-gosto e faz justiça aos seus inventores, na primeira metade desta década: os franceses Marc Collin e Olivier Libaux, bem acolitados por excelentes cantoras como Anaïs Croze, Camille, Phoebe Killdeer, Mélanie Pain ou Marina Celeste.

06 agosto, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXIV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXIV.1 - Crioulo




É comum ler-se ou saber-se que um determinado artista «canta em crioulo». Mas qual crioulo? E que raio é isso da língua crioula?... A verdade é que há muitos crioulos - estão identificados e estudados cerca de 80 - e que o «crioulo» está espalhado por vários continentes. Historicamente, o primeiro crioulo identificado como tal foi a chamada «língua franca», baseada no italiano e falada pelos Cruzados na Idade Média. Mas, depois disso, muitos crioulos nasceram, principalmente nas zonas em que escravos africanos (ou outros) de várias origens pegaram na língua dos «senhores» e as transformaram numa língua híbrida, entendível por falantes oriundos de várias etnias. Para resumir - e apesar da complexidade do tema - digamos que, na origem, os actuais crioulos têm geralmente uma língua-base «dominante» (o inglês, o francês, o português...) e elementos de outras línguas da zona natal ou de origem dos seus falantes.


Cromo XXIV.2 - George Harrison




É agora um dado adquirido que os blues - e por arrasto, o rock - nasceram na zona mandinga de África. Assim como se percebe cada vez melhor como «outras músicas» influenciaram os primeiros tempos do rock'n'roll: da música mexicana em Ritchie Valens à música do Médio Oriente no surf-rock de Dick Dale. Mas, nos anos 60, o primeiro contacto de milhões de fãs de rock com músicas «estranhas» deu-se através dos Beatles e, mais concretamente, de George Harrison, que incluiu a sitar e a tambura indianas no som do grupo. Fascinado pela música de Ravi Shankar, George Harrison introduz a sitar na música anglo-saxónica na canção «Norwegian Wood (This Bird Has Flown)», do álbum «Rubber Soul» (1965), converte-se ao hinduísmo e arrasta os outros Beatles para a Índia. Foi ele o responsável pela presença de Shankar no festival de Monterey e o produtor do single «Hare Krishna Mantra», do London Radha Krishna Temple.


Cromo XXIV.3 - Osibisa



Muitas vezes considerados como os «padrinhos da world music», os Osibisa nasceram em 1969 em Londres, liderados pelo cantor e saxofonista ganês Teddy Osei, ladeado por mais dois músicos do Gana - Sol Amarfio (bateria) e Mac Tontoh (trompete) -, um nigeriano - o percussionista e saxofonista Lasisi Amao - e três caribenhos: Spartacus R (baixo; de Granada), Robert Bailey (teclas, de Trinidad) e Wendell Richardson (guitarras; de Antígua). Ao longo dos anos, outros músicos - como os ganeses Darko Adams Potato e Kiki Djan - passaram pela banda mas foi essa primeira formação que os lançou para a fama mundial, mercê de uma mistura explosiva e hiper-dançável de highlife, música das Caraíbas, funk, R&B e jazz. Álbuns como «Osibisa» e «Woyaya» (ambos de 1971), «Superfly TNT» e «Osibirock» (ambos de 1974) e canções como «Sunshine Day» ou «Ojah Awake» são ainda hoje clássicos abslutos. Ainda andam por aí.


Cromo XXIV.4 - The Klezmatics



A música klezmer - que tem as suas raízes remotas no séc. XV, no seio das comunidades judaicas do centro europeu, e é fixada como género na primeira metade do séc. XX - tem hoje num grupo nova-iorquino, os Klezmatics, o seu maior expoente mundial. É justo: os Klezmatics, judeus pouco ortodoxos que defendem a paz entre Israel e a Palestina, que cantam loas ao haxixe e dedicam discos a rabinos homossexuais, fazem da melhor música da actualidade, juntando a música klezmer ao jazz, ao punk, ao ska, à música árabe e, mais recentemente, à folk norte-americana, via canções de Woodie Guthrie (cf. em «Wonder Wheel», de 2006). Nascidos em 1986, em Nova Iorque, Estados Unidos, encabeçados pelo trompetista Frank London e pelo vocalista e acordeonista Lorin Sklamberg, assinaram desde aí alguns álbuns geniais, dos quais se podem destacar «Rhythm and Jews», «Possessed», «The Well» (com Chava Alberstein) e «Rise Up!».

13 junho, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXII.1 - Os Tubarões



Grupo seminal da música cabo-verdiana, Os Tubarões nasceram em 1973 e revelaram-se ao mundo depois da independência de Cabo Verde, em 1975, trazendo consigo coladeiras, mornas e funanás envoltas em guitarras bailantes, um saxofone em voo livre e percussões arrebatadoras. Os Tubarões transportavam, bem fundo, a alma da música cabo-verdiana mas nunca se esquecendo de fazer pontes subtis com músicas anglo-saxónicas como a soul ou o jazz, e sempre com uma mensagem política subjacente nas suas letras cantadas em crioulo. Com uma voz magnífica a coroar a sua música, a do saudoso Ildo Lobo, Os Tubarões deixaram-nos os fabulosos álbuns «Djonsinho Cabral», «Tchon Di Morgado», «Pépé Lopi», «Tabanca», «Tema Para Dois», «Os Tubarões ao Vivo», «Terra Bô Sabé» e «Porton D'Nós Ilha». Depois do fim d'Os Tubarões, Ildo Lobo gravou três álbuns a solo: «Nôs Morna», «Intelectual» e «Incondicional».


Cromo XXII.2 - Jah Wobble



Baixista genial (com escola feita junto do mestre do dub jamaicano Robbie Shakespeare), compositor imaginativo, congregador de muitos músicos e cantores à volta dos seus projectos, Jah Wobble (de seu verdadeiro nome John Wardle, nascido em Stepney, Inglaterra, em 1958) é uma personagem que, muitas vezes, se deixou contaminar pelos apelos exóticos da «world music» e assinando, por isso, álbuns em que a música latino-americana, indiana ou do norte de África têm uma presença fundamental, como nos importantíssimos «Rising Above Bedlam» (1991) e «Take Me to God» (1993). Chegado à fama como baixista dos PiL (liderados por John Lydon, ex-Sex Pistols), Wobble enceta depois - e ao longo dos últimos 25 anos - parcerias com gente tão diversa quanto The Edge (dos U2), Holger Czukay e Jaki Liebezeit (ambos dos Can), Brian Eno, Sinéad O'Connor, Natacha Atlas, Baaba Maal ou Bill Laswell.


Cromo XXII.3 - Alan Stivell



O músico bretão Alan Stivell (Alan Cochevelou, nascido a 6 de Janeiro de 1944) foi o grande responsável pela introdução da harpa na música dita «celta», principalmente nos seus álbuns de início dos anos 70, «Reflets» (1970) e «Renaissance de la Harpe Celtique» (1972). Mas a sua carreira tinha começado muito antes quando, ainda adolescente, o pai dele fabricou uma harpa ao velho estilo bretão e o jovem Alan começou a tocar nela, tendo gravado um single logo em 1959 e um LP, «Telenn Geltiek», em 1960. A sua fama, principalmente junto da comunidade «celta» das ilhas britânicas, da Bretanha e Galiza é crescente durante os anos 70, mas as últimas décadas têm assistido a um esmorecer da sua estrela criativa. Isso não o impediu, no entanto, de colaborar activamente com Kate Bush, Shane MacGowan (Pogues), Doudou N'Diaye Rose, Paddy Moloney (Chieftains), Jim Kerr (Simple Minds), Khaled, John Cale ou Youssou N'Dour.


Cromo XXII.4 - Bhangra



Apesar de mais facilmente conectado com um estilo musical nascido nas comunidades indo-paquistanesas de Inglaterra nos anos 70, a verdade é que o bhangra começou por ser uma dança nascida no Punjab (região fronteiriça comum à Índia e ao Paquistão), essencialmente praticada por homens e associada às Vaisakhi (as ancestrais festas das colheitas). Transformado em espectáculo de palco depois da divisão do Punjab pelos dois países, em 1947, a música tradicional que acompanha o bhangra teve a sua grande evolução, nos últimos trinta anos, nas comunidades imigrantes no Reino Unido, com a sua fusão de bhangra com rock, reggae, hip-hop, tecno, etc. Pioneiros dessa fusão foram os Alaap (nascidos em 1977) e nesse «movimento» podem agora incluir-se nomes como os de Punjabi MC, Bally Sagoo, Apache Indian, Nitin Sawhney, Safri Boyz ou Dippa.

11 junho, 2007

Eugénia Melo e Castro - Na Pop... de Portugal



Eugénia Melo e Castro é a cantora portuguesa mais brasileira depois de Carmen Miranda (ainda ia escrever «é talvez a cantora...» mas o «talvez» não é mesmo necessário), fazendo sempre pontes entre a música do nosso país e a música do Brasil. É, por isso, uma surpresa o álbum que Eugénia Melo e Castro edita dentro de uma semana. Um disco gravado no Brasil, sim - em São Paulo, nos meses de Abril e Maio deste ano - e com músicos brasileiros, sim - Eduardo Queiroz (guitarras e teclados), Emílio Mendonça (piano), Christiano Rocha (bateria), Cláudio Machado (baixo eléctrico), Renato Consorte (guitarra) e Daniel Alcântara (flugelhorn) -, mas com um título e um alinhamento que não deixam dúvidas. O álbum chama-se «PoPortugal» e a lista de canções presentes inclui «Se Quiseres Ouvir Cantar» (TóZé Brito, 1972), «Asas (Eléctricas)» (GNR, 2000), «Amor» (Heróis do Mar, 1984), «O Sopro do Coração» (Clã, 2000), «Romaria» (Jáfumega, 1983), «Põe os Teus Braços à Volta de Mim» (Gabriela Shaff, 1978), «Eu Sou» (Doce, 1981), «Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar» (Pedro Abrunhosa, 1995), «Sonho Azul» (Né Ladeiras, 1984) e «Sozinha Pelas Ruas» (Pilar Homem de Mello, 2001). O álbum é editado via Universal Music no dia 18 e, dois dias antes, a 16, Eugénia Melo e Castro faz a sua apresentação num concerto no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

26 maio, 2007

Cromos Raízes e Antenas XX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XX.1 - Robert Johnson



Mito maior dos blues, o cantor e guitarrista norte-americano Robert Johnson (de nome completo Robert Leroy Johnson, nascido a 8 de Maio de 1911 em Hazlehurst, Mississippi, falecido a 16 de Agosto de 1938), foi um compositor, músico e cantor tocado pela mão de Deus, apesar de, como alegadamente conta a lenda, ele ter vendido a alma ao diabo numa encruzilhada, de modo a poder ser o maior guitarrista do mundo. Lenda faustiana à parte, a verdade é que Robert Johnson fez a ponte entre os blues rurais do delta do Mississippi e outros sons que ia ouvindo na rádio, lançando as sementes daquilo que vinte anos depois da sua morte viria a ser o rock'n'roll. Morto muito jovem (na idade «fatal» dos 27 anos), Johnson deixou apenas 29 canções originais gravadas, mas as suficientes para que se tornasse o ídolo de gente como Bob Dylan, Jimi Hendrix, Phish, Fleetwood Mac, Eric Clapton, Rolling Stones, White Stripes ou os nossos Nobody's Bizness.


Cromo XX.2 - Madredeus



Os Madredeus foram, nos últimos vinte anos, a maior exportação da música portuguesa, numa escala só comparável à da diva Amália Rodrigues, muitos anos antes deles. Criados em 1985 pelo guitarrista Pedro Ayres Magalhães (Heróis do Mar) e o teclista Rodrigo Leão (Sétima Legião), a eles juntaram-se o acordeonista Gabriel Gomes (Sétima Legião), o violoncelista Francisco Ribeiro e a cantora Teresa Salgueiro, que gravaram um ano depois «Os Dias da Madredeus», um álbum que lançava logo as pistas pelas quais a música do grupo se viria a reger depois: uma mistura de fado, música popular portuguesa e os ensinamentos globais da Penguin Cafe Orchestra. Apesar de ao longo dos anos terem tido profundas alterações na formação - numa segunda fase, Leão, Gomes e Ribeiro saíram, entrando o teclista Carlos Maria Trindade, o guitarrista José Peixoto e o baixista Fernando Júdice; e numa terceira, Teresa Salgueiro, Peixoto e Júdice deixaram o grupo, que reencarnou em 2008 como Madredeus & A Banda Cósmica -, os Madredeus contam com centenas de concertos em Portugal e no estrangeiro e com um pico de glória: a música e participação no filme «Lisbon Story», de Wim Wenders.


Cromo XX.3 - Cheikha Rimitti



Antes de Khaled, Cheb Mami ou Rachid Taha terem feito a ligação entre o género argelino rai e as músicas ocidentais, a fabulosa cantora argelina Cheikha Rimitti (de verdadeiro nome Saadia El Ghizania, nascida a 8 de Maio de 1923, em Tessala, falecida a 15 de Maio de 2006, em Paris), cultivou este género, o rai, na sua forma mais pura e excitante mas também, em anos mais recentes, com outras fusões, como quando gravou com Flea, dos Red Hot Chili Peppers. Órfã, a jovem Saadia iniciou a sua carreira musical aos 15 anos, quando se estreou como cantora e dançarina num grupo de música tradicional argelina. Atrevendo-se a cantar temas brejeiros e de uma sexualidade implícita - interditos às mulheres em público -, a sua fama começou a espalhar-se por toda a Argélia durante a segunda guerra mundial. Compositora prolífica - estimando-se o seu espólio em cerca de 200 canções originais -, Cheikha gravou o seu primeiro disco em 1952 e chegou à fama internacional apenas nos anos 80. Ainda a tempo de a conhecermos e amarmos.


Cromo XX.4 - Peter Gabriel



Cantor, músico, compositor e performer único, Peter Gabriel (aqui numa pintura de Neal Hamilton) é uma das mais importantes personagens do longo e belo filme de amor entre o rock e a world music. Começando a sua carreira como vocalista do fundamental grupo de rock progressivo Genesis, em 1967, Gabriel (Peter Brian Gabriel, nascido a 13 de Fevereiro de 1950 em Chobham, no Surrey, Inglaterra) envereda em 1976 por uma carreira a solo que o levaria gradualmente à descoberta de muitas músicas e de muitos músicos que existem por esse mundo fora. O pico dessa descoberta é o álbum «Passion», de 1989 (banda-sonora do filme «A Última Tentação de Cristo») e o seu álbum-irmão «Passion - Sources», compilação de música da Arménia, Egipto, Senegal, Índia, Irão, Marrocos, etc, que o inspirou para o álbum de originais. A criação do festival WOMAD, da editora Real World e da organização de direitos humanos Witness fizeram, e fazem, o resto da sua história.