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06 janeiro, 2009

Melhores Álbuns (com) Raízes e Antenas - Parte I


O Raízes e Antenas inicia hoje a publicação de uma nova série, os Melhores Álbuns (com) Raízes e Antenas, dedicada a álbuns editados em 2008 (ou até anteriores a 2008, mas só durante esse ano «descobertos» por este blog, como é o caso do álbum «Le Moulassa», dos AntiQuarks, na foto) e que têm estado muitas vezes, e por direito próprio, no leitor de CDs aqui de casa. Todos eles são acompanhados por uma breve ficha informativa.



Primeira Parte - Os Maiores OVNIs World do(s) último(s) ano(s):


Big Blue Ball - «Big Blue Ball» (RealWold)

Gravado durante algumas das já míticas «semanas» de jam-sessions intensivas nos estúdios da RealWorld, com produção de Peter Gabriel (que também aparece em vários temas como cantor), Karl Wallinger e Stephen Hague, «Big Blue Ball» é uma explosão de originalidade, grandes canções e parcerias inesperadas mas que fazem sempre sentido umas com as outras. Oiça~se o álbum e descubra-se o que é a verdadeira world music e o que este género, que afinal são tantos géneros, tem de melhor: cruzamentos ímpares de nomes como Marta Sebestyen, Natacha Atlas, Sinéad O'Connor, Papa Wemba, Jah Wobble, Vernon Reid, Iarla O Lionaird, Joseph Arthur, Manu Katché, Justin Adams, Joji Hirota, etc, etc... Uma obra-prima.





AntiQuarks - «Le Moulassa» (Ed. Autor)

Estes gauleses são loucos!!! Dois músicos franceses - Richard Monségu (voz, bateria e percussões) e Sébastien Tron (sanfona eléctrica, voz, pedaleira) - inventam neste seu primeiro álbum, «Le Moulassa», uma música que é de todo o lado e de lado nenhum, de todas as épocas e de época nenhuma: está bem, há lá rock progressivo, música tradicional, experimentalismo, música antiga, mas tudo sempre sabiamente misturado para que nenhum destes géneros seja imediatamente reconhecível nem que se possa dizer, alguma vez, que a sua música é mais um género do que outro. Porque não é, mesmo quando parece...





Bibi Tanga et Le Professeur Inlassable - «Yellow Gauze» (L'Inlassable Édition)

O extraordinário cantor Bibi Tanga (nascido na República Centro-Africana mas radicado em França há muitos anos) e o produtor francês Le Professeur Inlassable, que parecem ter sido destinados um ao outro desde o início dos tempos tal é o brilhantismo do trabalho feito em conjunto, assinam em «Yellow Gauze» um verdadeiro hino à música negra, seja a música africana (nomeadamente o afro-beat, mas não só) seja a norte-americana, com o gospel, o jazz, a soul, os blues, o disco-sound e o hip-hop a confluírem, todos!, para um álbum mais que perfeito.

26 maio, 2007

Cromos Raízes e Antenas XX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XX.1 - Robert Johnson



Mito maior dos blues, o cantor e guitarrista norte-americano Robert Johnson (de nome completo Robert Leroy Johnson, nascido a 8 de Maio de 1911 em Hazlehurst, Mississippi, falecido a 16 de Agosto de 1938), foi um compositor, músico e cantor tocado pela mão de Deus, apesar de, como alegadamente conta a lenda, ele ter vendido a alma ao diabo numa encruzilhada, de modo a poder ser o maior guitarrista do mundo. Lenda faustiana à parte, a verdade é que Robert Johnson fez a ponte entre os blues rurais do delta do Mississippi e outros sons que ia ouvindo na rádio, lançando as sementes daquilo que vinte anos depois da sua morte viria a ser o rock'n'roll. Morto muito jovem (na idade «fatal» dos 27 anos), Johnson deixou apenas 29 canções originais gravadas, mas as suficientes para que se tornasse o ídolo de gente como Bob Dylan, Jimi Hendrix, Phish, Fleetwood Mac, Eric Clapton, Rolling Stones, White Stripes ou os nossos Nobody's Bizness.


Cromo XX.2 - Madredeus



Os Madredeus foram, nos últimos vinte anos, a maior exportação da música portuguesa, numa escala só comparável à da diva Amália Rodrigues, muitos anos antes deles. Criados em 1985 pelo guitarrista Pedro Ayres Magalhães (Heróis do Mar) e o teclista Rodrigo Leão (Sétima Legião), a eles juntaram-se o acordeonista Gabriel Gomes (Sétima Legião), o violoncelista Francisco Ribeiro e a cantora Teresa Salgueiro, que gravaram um ano depois «Os Dias da Madredeus», um álbum que lançava logo as pistas pelas quais a música do grupo se viria a reger depois: uma mistura de fado, música popular portuguesa e os ensinamentos globais da Penguin Cafe Orchestra. Apesar de ao longo dos anos terem tido profundas alterações na formação - numa segunda fase, Leão, Gomes e Ribeiro saíram, entrando o teclista Carlos Maria Trindade, o guitarrista José Peixoto e o baixista Fernando Júdice; e numa terceira, Teresa Salgueiro, Peixoto e Júdice deixaram o grupo, que reencarnou em 2008 como Madredeus & A Banda Cósmica -, os Madredeus contam com centenas de concertos em Portugal e no estrangeiro e com um pico de glória: a música e participação no filme «Lisbon Story», de Wim Wenders.


Cromo XX.3 - Cheikha Rimitti



Antes de Khaled, Cheb Mami ou Rachid Taha terem feito a ligação entre o género argelino rai e as músicas ocidentais, a fabulosa cantora argelina Cheikha Rimitti (de verdadeiro nome Saadia El Ghizania, nascida a 8 de Maio de 1923, em Tessala, falecida a 15 de Maio de 2006, em Paris), cultivou este género, o rai, na sua forma mais pura e excitante mas também, em anos mais recentes, com outras fusões, como quando gravou com Flea, dos Red Hot Chili Peppers. Órfã, a jovem Saadia iniciou a sua carreira musical aos 15 anos, quando se estreou como cantora e dançarina num grupo de música tradicional argelina. Atrevendo-se a cantar temas brejeiros e de uma sexualidade implícita - interditos às mulheres em público -, a sua fama começou a espalhar-se por toda a Argélia durante a segunda guerra mundial. Compositora prolífica - estimando-se o seu espólio em cerca de 200 canções originais -, Cheikha gravou o seu primeiro disco em 1952 e chegou à fama internacional apenas nos anos 80. Ainda a tempo de a conhecermos e amarmos.


Cromo XX.4 - Peter Gabriel



Cantor, músico, compositor e performer único, Peter Gabriel (aqui numa pintura de Neal Hamilton) é uma das mais importantes personagens do longo e belo filme de amor entre o rock e a world music. Começando a sua carreira como vocalista do fundamental grupo de rock progressivo Genesis, em 1967, Gabriel (Peter Brian Gabriel, nascido a 13 de Fevereiro de 1950 em Chobham, no Surrey, Inglaterra) envereda em 1976 por uma carreira a solo que o levaria gradualmente à descoberta de muitas músicas e de muitos músicos que existem por esse mundo fora. O pico dessa descoberta é o álbum «Passion», de 1989 (banda-sonora do filme «A Última Tentação de Cristo») e o seu álbum-irmão «Passion - Sources», compilação de música da Arménia, Egipto, Senegal, Índia, Irão, Marrocos, etc, que o inspirou para o álbum de originais. A criação do festival WOMAD, da editora Real World e da organização de direitos humanos Witness fizeram, e fazem, o resto da sua história.

21 outubro, 2006

Cromos Raízes e Antenas I


Este blog inicia hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagen (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo I.1 - Abraão



Pondo à prova a sua fé, Deus propôs a Abraão que sacrificasse o seu filho Isaac em holocausto. Abraão (aqui representado num quadro de Marc Chagall) obedeceu mas, quando se preparava para baixar a faca sobre Isaac, Deus compadeceu-se dele e propôs-lhe que, em vez do filho, sacrificasse antes um carneiro (Livro do Génesis, Cap. 22). Dos cornos desse animal, Abraão fez um instrumento musical - o shofar - que ainda hoje é um instrumento sagrado para os judeus, usado em boa parte das suas cerimónias religiosas como o Rosh Hashanah e o Yom Kippur. E o poder (sagrado) deste instrumento é tal, conta também o Antigo Testamento, que o sopro de muitos shofars, usado pelo exécito de Josué, derrubou as muralhas de Jericó, permitindo assim a conquista desta cidade.


Cromo I.2 - Real World


Nascida no seio da WOMAD, e igualmente dirigida por Peter Gabriel, a editora discográfica britânica Real World é, desde 1989, uma das mais activas no lançamento de álbuns de músicas do mundo, desde as mais tradicionais a vários cruzamentos da tradição com a modernidade. Do seu catálogo fazem parte nomes tão diversos quanto Nusrat Fateh Ali Khan ou os Afro Celt Sound System, Yunghen Lhamo ou as Varttina, Doudou N'Diaye Rose ou os Eyuphuro, Geoffrey Oryema ou Joseph Arthur, Sheila Chandra
ou o próprio Peter Gabriel. Com uma filosofia musical aberta, aventureira, muitas vezes visionária, a Real World tem também um excelente estúdio onde muitos dos seus artistas de todo o mundo se juntam para gravar durante uma semana. O resultado destas sessões está reunido em vários discos, nomedamente no editado recentemente - e fabuloso! - «Big Blue Ball».



Cromo I.3 - Uilleann Pipes


As uilleann pipes (também conhecidas como union pipes ou, em gaélico, phìob uilleann) são as gaitas-de-foles irlandesas, que se distinguem facilmente de muitas outras porque não precisam que o ar seja transmitido pela boca aos foles. Nas uilleann pipes - criadas no início do séc. XVIII - é o movimento do cotovelo («uillean» significa excatemente «cotovelo» em gaélico) que transmite o ar ao fole. E a lenda diz que, assim, os irlandeses ficam com a boca livre para cantar, fumar, beber whisky ou... beijar as raparigas. Intérpretes famosos de uilleann pipes são, entre muitos outros, Davy Spillane ou Paddy Moloney, o líder dos Chieftains.



Cromo I.4 - «Le Mystère des Voix Bulgares»


A génese de um dos maiores fenómenos de popularidade de músicas «locais» veio, em finais dos anos 80, de onde não se esperaria: a editora 4AD (dos Cocteau Twins, Dead Can Dance, Pixies...) lançou dois álbuns da série «Le Mystère des Voix Bulgares», que incluíam canções interpretadas pelo coro feminino da Rádio e Televisão Nacional da Bulgária - gravadas pelo etnomusicólogo Marcel Cellier - e o mundo descobriu, fascinado, as polifonias maravilhosas da tradição búlgara. De registo, fica ainda a curiosidade de que teria sido o vocalista dos Bauhaus, Peter Murphy, a mostrar uma cassete com essas gravações a Ivo Watts-Russell, patrão da editora. Depois disso, inúmeros grupos capitalizaram a designação «Mistério das Vozes Búlgaras», apresentando reportório semelhante ao ouvido nesses dois álbuns pioneiros. Um dos grupos mais aconselháveis desse lote é o colectivo Angelite.

12 setembro, 2006

Peter Gabriel - O Guru


Peter Gabriel é um dos gurus da chamada world music. Não só pela integração na sua música de elementos estranhos - e de variadíssimas proveniências (da música indiana à sul-africana ou árabe) - ao que era comum no rock, mas também através da visibilidade que deu a dezenas de artistas através da WOMAD e da Real World. Aqui ficam dois textos antigos acerca de obras de Gabriel: a crítica ao álbum «Up» (publicada originalmente em Outubro de 2002) e ao DVD «Still Growing Up/Live & Unwrapped» (de Dezembro de 2005). Só uma ressalva: gosto muito mais de «Up» agora, passados estes anos, do que quando o ouvi quando saiu: a minha relativa frustração em relação ao álbum era a frustração de um fã que esteve dez anos à espera de uma obra-prima e só teve uma boa-obra.


PETER GABRIEL
«UP»
RealWorld/Virgin/EMI-VC

O novo álbum de Peter Gabriel, «Up», é um bom disco. Mas é só isso, um bom disco. Não chega a ser genial nem sequer muito bom. E para quem esteve dez anos à espera de um novo álbum de um dos poucos génios vivos da música pop, ser bom é pouco, é curto, é uma decepção. Entendamo-nos: se um Zé da Esquina ou um Manel do Beco qualquer - com três anos de carreira, um split-single lançado a meias com a Maria da Curva e uma demo pela etiqueta do bairro dele nos subúrbios de Vila Nova de Nenhures (olá Rushdie!) - editar um bom álbum, isso é motivo de festa, foguetes, garrafas de espumante a explodir, etc, etc. Mas o Zé da Esquina não tem trinta e tal anos de carreira, nem passou pelos Genesis, nem tem uma carreira a solo fabulosa, nem fundou a Real World, nem é acompanhado por alguns dos melhores músicos do mundo. A Peter Gabriel - como a Leonard Cohen, a Tom Waits, a Bob Dylan, a Laurie Anderson, a Nick Cave, a Lou Reed, a David Byrne ou, em gerações mais próximas, a Björk, Beck, Radiohead, Will Oldham, PJ Harvey e alguns mais é, sempre, exigida a Excelência, o Génio, o Brilho dos Escolhidos, a Chama dos Eleitos. E quando o brilho e a chama estão lá - nós vêmo-los lá! -, mas baços, mortiços, apenas um fio de luz amarelada quando se esperava um incêndio capaz de destruir Roma pela segunda vez, a decepção é enorme.

«Up», repito, é um bom disco. Nele, Gabriel mistura memórias dos seus álbuns dos primeiros anos da década de 80 - aqui e ali surgem ecos fantasmados de temas como «Intruder», «Family Snapshot», «I Don't Remember», «Rhythm of the Heat», «Shock the Monkey», «This Is The Picture (Excellent Birds)» e, claro, «Games Without Frontiers», que faz parte do mesmo universo anti-monstro-televisivo que «The Barry Williams Show» - com a sua progressiva paixão pela world-music, pondo a render nomes que ele próprio tornou universalmente conhecidos através da Real World como o grupo gospel Blind Boys of Alabama, o queniano Ayub Ogada ou o falecido Nusrat Fateh Ali Khan. Para além disso, durante as gravações fez-se rodear de uma constelação de estrelas como Youssou N'Dour, Peter Green (Fleetwood Mac), Danny Thompson (Pentangle), Daniel Lanois e músicos que há muito tempo trabalham com ele como os inevitáveis Tony Levin no baixo, David Rhodes na guitarra ou Manu Katche na bateria e percussões. Quer dizer, é Peter Gabriel no seu melhor, mas um melhor que já antes fora ouvido, experimentado, ensaiado. Dez anos de estúdio poderiam (deveriam?) ter servido para lançar as bases de uma revolução, de uma obra fundamental, de uma tese musical qualquer nunca antes imaginada. Mas não: saiu «Up», o bom álbum, que fala da vida e da morte, de rios exteriores (Nilo, Amazonas...) e de rios interiores, de programas de televisão degradantes para as pessoas («The Barry Williams Show», o primeiro single, baseado naquele vomitório catódico chamado «Jerry Springer»).

Nestes dez anos que medeiam entre «Us» e «Up», Gabriel não esteve parado: a Real World tornou-se cada vez mais a mais respeitada etiqueta de world-music, o festival WOMAD cresceu em espaços e tempos, Gabriel lançou o projecto Witness - que fornece câmaras de vídeo a organizações não governamentais que possam documentar abusos em termos de direitos humanos -, fez a ecologicamente correcta banda-sonora para o Millenium Dome londrino (que deu origem a «OVO») e outra banda-sonora, para o filme «Rabbit-Proof Fence», de Philip Noyce (que deu origem ao disco «Long Walk Home»). E tudo isto já anunciava «Up» (na banda-sonora para «Rabbit...», por exemplo, já estavam os Blind Boys of Alabama, Nusrat, Rhodes, etc...). Mas «Up» é um projecto mais ambicioso, disco sem rede ou sem motivo exterior, um álbum com música nova. E que música é essa?... É tensão e medo em estado bruto que explodem, ruidosos, logo no primeiro tema de «Up», «Darkness»; são cordas melancólicas em luta com beats house em «Growing Up»; é a miragem de um céu aberto a nossos pés ou de um deserto habitado, passe o paradoxo, em «Sky Blue»; é o pesadelo jazzy-surf-industrial de «No Way Out»; é a atmosfera densa e fúnebre, mas com uma leve esperança soul, de «I Grieve»; são as celebrações pop-abba-foleiras que podem dar bons jingles promocionais de «Vidas Reais» em «The Barry Williams Show»; é o robertwyattiano e progressivo «My Head Sounds Like That»; são os tiques rock 80s óbvios, com breakbeats pelo meio, de «More Than This»; é o intimismo de um segredo, boca colada à orelha, de «Signal To Noise» (com o fantasma de Nusrat a soprar-nos sílabas desconhecidas); é o exercício descarnado e ambiental, pianístico, de «The Drop», lindíssimo e sem dúvida o melhor tema de «Up».

Nos últimos meses, Gabriel - conhecido pela defesa activa de causas ecológicas, políticas e sociais - entrou em mais uma aventura: estudar as possibilidadades de comunicação entre grandes primatas e o homem, através, por exemplo, de instrumentos de percussão. Pergunta: «se acaso o ouviram, os macacos terão ficado chocados com "Up"»? Para o bem e para o mal, eu fiquei. (7/10)


PETER GABRIEL
«STILL GROWING UP/LIVE & UNWRAPPED»
DVD Real World/Warner/Farol

«Still Growing Up/Live & Unwrapped» é um bom documento para juntar a «Growing Up On Tour – A Family Portrait» (editado no início deste ano), como se duas faces da mesma moeda se tratassem. Mas, enquanto «Growing Up On Tour» trata da parte da digressão com o mesmo nome em grandes espaços, «Still Growing Up» debruça-se sobre a digressão de 2004 destinada a pequenos anfiteatros e salas de espectáculos (e, talvez por isso, não há imagens do concerto de Gabriel no Rock In Rio-Lisboa, apesar deste espectáculo estar integrado na digressão-pequeno-formato). E é, também por isso, um espectáculo mais pobre visualmente, apesar da teatralização e da cenografia se manterem em muitos pontos intactas: lá estão a trotinete em «Games Without Frontiers» ou o casaco de lâmpadas em «Sledgehammer». E há canções que não apareceram na primeira parte da digressão: o hino anti-apartheid «Biko», «San Jacinto» (a história do índio que, aos 14 anos, tem a sua iniciação e é mordido por uma cobra...), «Come Talk To Me» (num dueto arrepiante com a sua filha Melanie Gabriel), o rock «The Tower That Ate People», «Burn You Up, Burn You Down» e o já referido «Games Without Frontiers», para além de temas como o clássico absoluto «Solsbury Hill», «White Ashes» ou «Red Rain».

E é bonito ver – como se tinha visto no Rock In Rio-Lisboa – como Gabriel consegue continuar a ser um dos pouquíssimos exemplos de músicos do rock progressivo que resistiram bem à passagem do tempo (a outra excepção são os King Crimson e, se calhar, não é por acaso que na banda que acompanhou Gabriel nesta digressão, o baixista Tony Levin é a outra grande estrela do grupo, a juntar ao líder). E, também não por acaso, a grande paixão de Gabriel dos últimos 20 anos, a chamada world music, também está lá: está lá uma doudouk (flauta), está lá um bandolim, estão lá sonoridades «celtas» em «Biko» e em «Come Talk To Me». O CD-2, «Live & Unwrapped» inclui entrevistas, outras actuações, ensaios e uma pérola rara e lindíssima: «Downside Up», no «Later...With Jools Holland», cantado por Elizabeth Fraser (Cocteau Twins) e Paul Buchanan (Blue Nile). (7/10)