Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Bragança. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Bragança. Mostrar todas as mensagens

04 dezembro, 2011

A Naifa Vai Ter Novo Álbum... E Lança Um Desafio!


Mais importante do que comemorar a passagem (ou elevação?) do fado a Património Imaterial da Humanidade é perceber que o fado é uma música -- e um espírito, uma identidade, um estado maior que o Estado -- mutante e que é nessa mutabilidade que pode e deve sobreviver. Exemplos: Amália (sempre!), Carlos do Carmo, José Mário Branco, António Variações, Ocaso Épico, Anamar, Heróis do Mar, Nuno Rebelo, Paulo Bragança, Mísia, Ovelha Negra... E mais uns quantos mais recentes e que toda a gente conhece. E, agora, a boa notícia: A Naifa vai ter um novo álbum e, ainda melhor, um álbum em que todos podem participar criativamente... O comunicado oficial reza assim:


"A NAIFA REGRESSA COM NOVO ÁLBUM EM 2012

Depois de em 2010, ter editado o livro/DVD "Esta depressão que me anima", de homenagem a João Aguardela, A Naifa prepara agora o lançamento do quarto álbum de originais.

O novo disco, com 11 canções compostas a partir de textos de Adília Lopes, Ana Paula Inácio, Margarida Vale de Gato, Maria do Rosário Pedreira e Renata Correia Botelho, tem saída marcada para Fevereiro de 2012.

CONVITE A ARTISTAS GRÁFICOS PARA COLABORAÇÃO NO NOVO DISCO

A Naifa convida artistas plásticos, gráficos, ilustradores, fotógrafos e todos os interessados a desenvolverem propostas de intervenção gráfica com base nos 11 poemas que serão disponibilizados no Facebook d'A Naifa.

Os trabalhos escolhidos irão integrar a arte final do novo álbum"

Todos os detalhes desta iniciativa, aqui.

23 maio, 2010

Colectânea de Textos no jornal «i» (II)


A edição também é uma missão
por António Pires, Publicado em 05 de Junho de 2009

Numa altura de profunda crise da indústria discográfica, são cada vez mais os artistas e grupos musicais que optam pela edição às suas próprias custas. São as chamadas "edições de autor"; uma resposta de muita gente ao crescente desinvestimento em novos nomes por parte de grandes (e pequenas) companhias discográficas. Mas também há aqueles, artistas e músicos, que querem editar a música dos outros. Não que o fenómeno seja novo em Portugal: nos anos 80 surgiram em Portugal, entre outras, a Fundação Atlântica (criada por Pedro Ayres Magalhães, Ricardo Camacho e Miguel Esteves Cardoso), a Dansa do Som (ligada ao mítico Rock Rendez Vous e igualmente dirigida por Mário Guia, que tinha sido baterista d'Os Ekos) e a Ama Romanta (liderada por João Peste, vocalista dos Pop Dell'Arte). Em anos mais recentes - e deixando de parte também outros exemplos - Rui Veloso criou a Maria Records (que editou Os Azeitonas e Jorge Vadio), e já este ano, Pedro Abrunhosa apostou nos Varuna para inaugurarem o catálogo da sua editora Boom Studios. Mas, para o fim, ficam os melhores exemplos desta tendência: com um verdadeiro espírito de missão (não por acaso, ambas as editoras têm também motivações religiosas por trás), a FlorCaveira (do cantor e compositor Tiago Guillul: na foto) e a Amor Fúria (liderada por Manuel Fúria, agora n'Os Golpes) estão a provocar uma pequena revolução na música portuguesa com a sua quantidade - e qualidade! - de boas edições num muito curto espaço de tempo. Graças a Deus.


João Aguardela: uma homenagem
por António Pires, Publicado em 12 de Junho de 2009

Uma turma de Produção e Marketing de Eventos da Restart vai apresentar no dia 3 de Julho, no MusicBox (Lisboa), um espectáculo de homenagem a João Aguardela (na foto, de Alexandre Nobre), cantor, músico e compositor falecido há alguns meses, com apenas 40 anos e no auge da criatividade, fosse n'A Naifa, fosse no Megafone. O espectáculo - que vai incluir bandas e artistas a fazerem versões de temas dos vários grupos de Aguardela, além de DJ, projecções vídeo, um fanzine a ele dedicada ... - chama-se Evento Megafone. O Megafone, para quem não sabe - ou para quem conhecia apenas os trabalhos mais mediáticos de Aguardela nos Sitiados ou depois n'A Naifa - era mais uma, senão a maior, declaração de amor de João Aguardela às raízes da música portuguesa. Aí, geralmente, ele pegava em recolhas feitas nas aldeias por Michel Giacometti e outros e mergulhava-as num caldo de programações electrónicas e outros instrumentos, sempre com uma paixão enorme pela tradição, mas igualmente com os olhos postos no futuro. E, apesar de não ser o único a fazê-lo, nestes ou em moldes semelhantes - exemplos: antes, a Banda do Casaco e a Sétima Legião fizeram-no; mais recentemente, os Chuchurumel e os Omiri também... -, a verdade é que os CDs do Megafone são edições limitadas e que chegaram a menos gente do que aquilo que deviam. É obrigatória uma reedição alargada e cuidada desses discos.



Novo Fado antes do Novo Fado
por António Pires, Publicado em 19 de Junho de 2009

Muito antes d'A Naifa, Deolinda, OqueStrada, Donna Maria, Fado em Si Bemol, M-Pex, Atlantihda e outros projectos que procuram novos caminhos para o fado - um fado rejuvenescido por outras linguagens como o rock, as electrónicas, as influências mais acústicas do jazz ou de outras "músicas do mundo" -, já outros nomes faziam um caminho paralelo, e pioneiro, na busca de novos caminhos para o fado. Nos anos 80 e início dos anos 90, artistas como Anamar, Paulo Bragança (na foto, de Rui Vasco) e o projecto Ovelha Negra desenvolveram uma obra que abria o fado a outras linguagens musicais sem nunca deixarem de fazer uma música profundamente portuguesa, nossa e imediatamente reconhecível como fado, apesar dos desvios. Anamar, nas gravações para a Ama Romanta e em outras posteriores, abriu o fado à modernidade. Paulo Bragança - fadista trágico de corpo e alma - abriu completamente o peito às balas dos puristas. E os Ovelha Negra - projecto de Paulo Pedro Gonçalves (Corpo Diplomático/Heróis do Mar/LX-90/Kick Out The Jams) - puseram Miguel Gameiro (Pólo Norte) e Rita Guerra a cantar fado como nunca se ouviu e a cantar como nunca nenhum deles tinha cantado, e tão bem!, antes ou depois. Se calhar ou, de certeza, apareceram todos antes do tempo. E desaparecerem da vida pública quase a seguir. Os Ovelha Negra lançaram apenas um álbum. Bragança anda em parte incerta. E Anamar, apesar de editar de vez em quando, raramente tem a exposição que merece. Voltem todos, se faz favor.

19 maio, 2010

Colectânea de Textos no jornal «i» (I)

Faz este mês um ano que comecei a colaborar com o jornal «i», sendo o responsável por uma coluna de opinião sobre música portuguesa. Hoje e nos próximos tempos - a conselho de uma mente sábia - publicarei aqui muitos dos textos que, semanalmente, foram por lá nascendo em suporte papel-e-tinta. Não é só world music, tradição e folk, mas como este blog tem andado demasiado órfão sempre é uma maneira de ir ocupando aqui os pixéis disponíveis de uma forma, hermmmm, útil...


A vingança do kuduro
por António Pires, Publicado em 15 de Maio de 2009

Na longa lista de aberrações convidadas para os seus programas televisivos - o Vítor Peter, a Pomba Gira, a Natália de Andrade, o Professor Alexandrino... -, Herman José incluiu há alguns anos o duo de kuduro Salsicha & Vaca Louca, ridicularizando os seus ritmos selvagens e os seus requebros opulentos. Poucos anos depois, o kuduro, via Buraka Som Sistema (na foto, de Hilary Harris), mas não só,é um fenómeno de sucesso mundial. Angolano na sua origem mas com ligações ao miami bass, ao baile funk brasileiro, ao kwaito sul-africano, ao reggaeton porto-riquenho e ao dancehall jamaicano, o kuduro foi adoptado por vários produtores e músicos dos PALOPs e de Portugal (Dog Murras, DJ Znobia, Makongo, Batida ou o cabo-verdiano que junta funaná com kuduro Izé, entre muitos outros) e de fora da esfera lusófona como M.I.A. (a voz principal da oscarizada banda-sonora do filme "Quem Quer Ser Bilionário?"), o DJ e produtor francês Frédéric Galliano ou o norte-americano Diplo. E os Buraka Som Sistema actuam nos principais festivais do mundo (Glastonbury, Roskilde, Coachella...) e têm feito digressões, com tremendo sucesso, no Japão, na Europa, na Austrália e nos Estados Unidos. Os Buraka Som Sistema (uma mistura de portugueses, angolanos e indo-moçambicanos e um espelho perfeito do caldo de culturas em que Lisboa se transformou nos últimos anos) são, aliás, considerados - ao lado de Mariza, uma fadista nascida em Moçambique - os maiores embaixadores actuais da música... portuguesa. Está na altura de reescrever a entrada "kuduro" na "enciclopédia" do Herman.



Um musical para José Cid
por António Pires, Publicado em 22 de Maio de 2009

Aterra-se no aeroporto de Gatwick, chega-se a Londres de comboio e a primeira coisa que se vê é o enorme cartaz de "We Will Rock You", o musical dedicado aos Queen, em cena no Dominion Theatre, ali mesmo ao lado (e que tem no elenco um cantor e actor português, Ricardo Afonso, que, ao que parece, é uma emulação quase perfeita de Freddie Mercury). E, para além dos outros, milhentos, exemplos de musicais dedicados a grandes nomes da música, assistimos desde há alguns anos à febre "Mamma Mia": de repente os ABBA são a coisa melhor do mundo, há peças de teatro, filmes, concursos, karaokes e discos a mitificar as canções do grupo sueco. Agora, a circular na net, corre uma petição a pedir um musical dedicado à vida e obra de José Cid (na foto, de Rita Carmo). Sou suspeito quando falo dele - tive a honra de escrever a biografia do Quarteto 1111, que tinha como líder José Cid -, mas acho que posso dizer, em consciência, que era mais que justo fazer-se esta homenagem. Pelo 1111, pelos Green Windows, pela sua valiosíssima obra a solo, do disco "da palha" a "10 000 Anos depois entre Vénus e Marte" e muitos outros. E também pelos deslizes e apesar dos deslizes... Mas há uma diferença fundamental entre Cid e os outros: o Freddie Mercury já morreu, os ABBA acabaram há muito e sabe-se que nunca voltarão a reunir-se, mas José Cid está vivinho da costa! Logo, o actor principal que proponho para esse musical baseado no José Cid não poderia ser outro senão... o próprio José Cid.



O fado que há nos Joy Division
por António Pires, Publicado em 29 de Maio de 2009

Em alguns círculos mais apertados do fado continua a gritar-se "heresia!" sempre que há alguns desvios mais atrevidos ao género. O último caso deu-se com as canções dos Joy Division e dos Nine Inch Nails interpretadas - de forma excelente, digo eu - por Mísia (na foto, de Youssef Nabil) no álbum "Ruas": porque são cantadas em inglês; porque têm bateria e guitarra eléctrica a acompanhar; porque vêm de um reportório do rock, rock mesmo. Mas estas críticas perdem fulgor quando se pensa que a canção portuguesa de maior sucesso mundial é "Coimbra" - traduzida e adaptada para francês e inglês como "Avril au Portugal" e "April in Portugal", respectivamente, e cantada por Louis Armstrong, Bing Crosby, Eartha Kit ou Liberace - ou que Amália Rodrigues, que cantava frequentemente noutras línguas, gravou um álbum inteiro em inglês, "Amália na Broadway" (onde interpretava temas como "Long Ago and Far Away", "Blue Moon" ou "Summertime"). Mais alguns exemplos: a deliciosa versão de "Hey Jude", dos Beatles, por Carlos Bastos (editada no final dos anos 60, com arranjo para guitarra portuguesa de António Chainho e cantada por Carlos Bastos com uma pronúncia divertidíssima); a arrepiante versão de "Sorrow's Child", de Nick Cave, por Paulo Bragança; ou as "Outras Canções" de Camané, que já incluíram temas de Frank Sinatra ou Divine Comedy.

03 novembro, 2006

Paulo Bragança - As Agruras do Fado Mudado


Não sei por onde anda e bem que gostava de saber (e, por onde quer que ande, que Deus o proteja e o abençoe sempre). A última vez que estive com ele foi para esta entrevista (publicada originalmente no BLITZ em Dezembro de 2001), a propósito do álbum «Lua Semi-Nua» (onde tinha a colaboração de José Cid, João Aguardela, Amadeu Magalhães e Pedro Caldeira Cabral), álbum que passou praticamente despercebido a toda a gente mas que merecia ser tão conhecido quanto «Amai», o outro álbum de ruptura, reavaliação e revolução do fado assinado por Paulo Bragança.


PAULO BRAGANÇA
ISTO É A MINHA VIDA

«Lua Semi-Nua» é o segundo capítulo de «Amai», podendo a carreira de Paulo Bragança ser dividida em duas metades óbvias da mesma tangerina: os discos de fado «puro» - «Notas Sobre a Alma» (1992) e «O Mistério do Fado» (1996) - e os discos de ruptura, de aventura, de risco, em que o fado é mais um dos caminhos percorridos, linha vocal e mote de alma dos trabalhos - «Amai» (1994) e «Lua Semi-Nua» (2001). No novo álbum, Bragança assina letras e músicas, havendo outras de José Cid (produtor e teclista) e versões de Jorge Palma, Ala dos Namorados ou do «Fado Falado», aqui transformado em «Fado Mudado», ou do clássico coimbrão «Samaritana».

Bragança tem ideias bem definidas sobre o seu trabalho e a sua carreira: «Isto não é só música, não é só uma carreira. Isto é a minha vida. E a minha vida entra, sempre, para o bem e para o mal, pela minha carreira. No tempo que passou entre os discos, tive uma fase muito complicada da minha vida, nomeadamente devido à morte do Rui Vaz (produtor de "Amai"). Ele foi a pessoa perfeita para trabalhar comigo. E faz-me muita falta». No entanto, «Lua Semi-Nua» é quase uma continuação de «Amai», mesmo em termos de produção e arranjos: «Sim, porque eu, o Rui e o José Cid trabalhámos muitos anos juntos e temos ideias muito semelhantes. Mas o José surpreendeu-me com esta produção - ele é muito versátil e conseguimos trabalhar muito bem».

Versatilidade. É uma das palavras-chave para este álbum. O fado de Lisboa, o fado de Coimbra, Trás-os-Montes, a Galiza, as Beiras estão bem representados, por vezes cruzados, neste álbum onde o trip-hop, a pop e até um estranhíssimo tema de/com João Aguardela (Sitiados e Megafone) também têm lugar. «Esses vários caminhos são o espelho de uma eterna insatisfação, a procura de uma música que não é só fado. Ainda não cheguei à essência absoluta, ao limpar de pó, do universo da música portuguesa: fado, música tradicional, folclore... Interessa-me chegar a outros lados, mas por enquanto ainda estou na música portuguesa. Sou fadista - e isso foi uma coisa que não escolhi, está-me no sangue - mas não canto só o fado. Diz o "Fado da Adiça": não é fadista quem quer, só é fadista quem calha; e a mim calhou-me ser fadista. Se eu pudesse, não o era».

O álbum anterior, «O Mistério do Fado», era «um álbum de fado tradicional, completamente tradicional. Para mostrar aos puristas que também sou capaz de cantar os vários fados clássicos, só com guitarra e viola. Querem fado? Tiveram o fado». Os puristas do fado de Lisboa raramente viram com bons olhos um fadista como Bragança: maquilhado, andrógino, com roupas diferentes e, muitas vezes, com uma postura iconoclasta, «punk», perante a tradição. O mesmo pode acontecer agora, mas em Coimbra, quando se ouvir a «Samaritana» com beats trip-hop/drum'n'bass: «O fado de Coimbra está estagnado há trinta anos. É uma vergonha ouvir sempre os mesmos fados, cantados da mesma maneira. Para quê?». Igualmente surpreendente é a abordagem que Bragança faz ao «Fado Falado», de João Villaret, com a letra adaptada para o mote «Fado Mudado», que fala de drogas duras e do Casal Ventoso. E, diz Bragança, para poder «mudar» o fado, «tive que passar por lá».