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29 junho, 2009

Med de Loulé - Rokia N'Roll!


Ainda mal refeito de mais cinco dias no Med de Loulé, as primeiras memórias fotográficas que me saltam aos olhos (às meninges?) nem são musicais: são, primeiro que tudo, os amigos - os de Lisboa e de outros lugares (Aveiro, Porto, Algarve, Alentejo...), uns que vou vendo durante o ano, outros que só encontro ali... E, depois, relâmpagos fugazes que me mostram um piano coberto a crochet ao lado de uma tarântula de pano e lantejoulas e coração de plástico negro; uma menina feliz de tranças loiras, com margaridas e purpurina a darem ainda mais brilho ao seu cabelo; uma «sevilhana» de óculos de fundo de garrafa que desmaia à minha frente; a tribal e magnificamente bem coreografada dança do fogo dos Satori; um rapazinho que regateia o preço do djembé - «são 70 euros?», «75!», «70», «75!»...; o reencontro com a Alandra, a cadela mais bonita do mundo a seguir à minha, claro; ou as imperiais e as sopas de tomate e as sardinhas albardadas que nos são servidas à hora da ceia, por pura simpatia...

E, a música... Sem ordem cronológica aparente (nem outra, sequer), mas com uma ordem que vem da ordem do coração: Rokia Traoré, em mais um fabuloso concerto afro-rock, mais conciso mas nem por isso menos intenso, que passou por temas do último álbum - exemplos: as maravilhosas «Zen» e «Kounandi» ou a versão de «The Man I Love» - e seguiu até ao habitual encore final de homenagem aos seus heróis, desta vez com a «Mama Africa» Miriam Makeba ao lado de apontamentos de temas do recém-falecido Michael Jackson. Os Moriarty e a sua (aliteração!) arte, a arte de saber transformar uma simples sequência de três canções - as versões de «Enjoy The Silence» (Depeche Mode), «Chocolate Jesus» (Tom Waits) e o seu original «Jimmy» - em algo tão valioso quanto um concerto inteiro. Os meus queridos (todos eles!) Mu e as suas músicas europeias transmutadas numa celebração das músicas de todo o mundo e, raios, com muito rock lá dentro, também. O mesmo rock que assombrou, e ainda bem!, outros momentos do Med deste ano: os Led Zeppelin em versão África mandinga - e tudo isto é elogioso - de Justin Adams e Juldeh Camara (aquele riti, espécie de njarka/espécie de violino de uma corda só é arrepiante de belo) ou os tangófilos e tangófonos Bajofondo de um oscarizado de Hollywood, Gustavo Santaolalla, a guitarrar alegremente na sua banda ao lado de outros génios do violino e bandoneón; ou um dos maiores ícones da bateria rock, o agente Stewart Copeland (ele o autor de um dos álbuns fundadores da world music, o fabuloso «The Rhythmatist»), a partilhar tarantelas e pizzicas italianas e rebemtikas gregas com um grupo onde, felizmente, o Sting não está mas onde o Andy Summers nem destoaria. E, só para destoar, onde também se esperava algum rock infectado pela world (ou vice-versa), ele não apareceu: o Med fechou com o acordeonista Kimmo Pohjonen e, dando uma volta muito bem-vinda ao seu som, neste concerto não houve rock progressivo nem electrónicas nem experimentalismos já gastos mas, sim, momentos de uma beleza imensa que devem mais a Philip Glass ou a Debussy do que a qualquer dos géneros já visitados por este visionário finlandês.

Outros momentos bons de recordar: Camané, as suas sílabas e o seu trio/caixinha de música maravilha. Os cada vez melhores Diabo a Sete e a sua reinvenção júliopereiriana (mas não só!) de uma música nossa, portuguesa. A, igualmente, reinvenção de outros temas nacionais pela cantora Filipa Pais com o bandolinista Edu Miranda. Os Ojos de Brujo e uma festa cada vez mais global, dançante, profissional. O vozeirão de Ricardo Ribeiro - apesar de não tão vozeirão quanto nos seus fados mas em bonita pose Nusrat Fateh Ali Khan - ao lado de Rabih Abou-Khalil. O à-vontade. domínio de palco e beleza astral de Lura, num dos mais quentes concertos do Med. Um calor que se estendeu ao fabuloso DJ set travestido, mas com muita pinta!, de concerto protagonizado por DJ Click (na foto; cortesia Câmara Municipal de Loulé) mais os seus músicos ciganos e judeus e as suas bailarinas e/ou cantoras. Ou os surpreendentes Ramudah, uma banda lisboeta de jazz ambiental (e com caixa-de-ritmos!) que soa muito melhor que parece esta descrição.

Momentos fracos? Também os houve, claro: a Orquesta Buena Vista Social Club, e apesar da marca registada que acompanha o seu nome, é apenas um eco pálido e esbatido da banda original reunida por Ry Cooder e Juan de Marcos González. E Pitingo, actualmente uma das maiores vedetas da música espanhola, é afinal um rapazinho birrento e, pior!, tem uma versão de uma das mais peganhentas e irritantes músicas de sempre: «Mamy Blue». Mas não chegou para estragar um festival que esteve quase sempre cheio de gente. E de gente feliz.

23 junho, 2009

OqueStrada, Lhasa e Ojos de Brujo - Mais Um Cacharolete de Discos


E mais um «triunvirato» de discos cujas críticas foram há algum tempo publicadas na «Time Out Lisboa»: o álbum de estreia dos OqueStrada (anteriormente conhecidos como... O'QueStrada) e os novos de Lhasa de Sela (na foto; de Hibou) e dos Ojos de Brujo.


OQUESTRADA
«TASCA BEAT - O SONHO PORTUGUÊS»
Sony Music Portugal

São, finalmente, sete anos de 'strada plasmados num CD. E muito bem! Para quem já acompanha há muito tempo os concertos - e mais do que concertos, os espectáculos, happenings, festas, celebrações... - dos OqueStrada (que deixaram cair o apóstrofo), este era um álbum, o de estreia, há muito aguardado. E, se não defrauda os fãs, agora imagine-se o que fará a quem nunca os viu ao vivo. Em «Tasca Beat - o Sonho Português» está lá tudo o que faz deste grupo multinacional de Almada um dos melhores e mais imaginativos projectos nacionais desde há muito tempo: o fado tomado como conceito, matriz ou ideia-base mas também mil e outras músicas - hip-hop, ska, música brasileira (está lá a sua fabulosa versão de «Se Esta Rua Fosse Minha», com um assobio e uma trompete extraordinárias), valsa ou morna, entre muitas outras, mas sempre com umas letras, uma postura e uns desvios absolutamente deliciosos (com Roberta Flack e Billy Idol incluídos). (*****)


LHASA DE SELA
«LHASA»
Audigram/Warner

Acabei de ouvir o álbum e pensei, que álbum extraordinário, vou dar-lhe a nota máxima. Depois recuei: mas é todo cantado em inglês! Preconceito de gajo da world music, que amou profundamente o primeiro e fabuloso álbum de Lhasa (aka Lhasa de Sela), «La Llorona», editado há doze anos, todo cantado em espanhol e cheio de releituras actuais de rancheras, mariachis e do som da areia do deserto a enroscar-se nas raízes dos cactos. Com um tempo de edição muito próprio, este seu álbum homónimo é apenas o terceiro. Mas a verdade é que é tão bom quanto o primeiro e com a voz dela a soar ainda melhor. Com canções belíssimas feitas da melhor alt-country, blues, folk, pitadinhas de jazz e até com um tema que remete para Marianne Faithfull ou Patti Smith («1001 Nights»). Ficou mesmo com a nota máxima. (******)


OJOS DE BRUJO
«OACANÁ»
Diquela Records/Warner Music/Farol


De um bando de freaks catalães que se atreveram a misturar os vários «palos» (géneros) do flamenco e a rumba catalã com hip-hop, rock e várias «músicas do mundo», aos mais respeitados embaixadores de uma cidade - Barcelona - em que nascem todos os dias músicos nas esquinas das ramblas, os Ojos de Brujo chegam ao seu quarto álbum, «Oacaná», com a sua fórmula de sempre mas cada vez mais rica, orquestrada e apurada. Estão lá as suas paixões habituais (rumba, rap, funk, música indiana, muita música latino-americana e um flamenco cada vez mais aberto e libertário) mas com um bocadinho mais, por vezes, de electrónicas, de outras de elementos acústicos em diálogo irresistível - a secção de metais é arrebatadora! - e até um pouco de ciganadas dos Balcãs. Los Van Van, percussionistas do Karnataka, o rapper andaluz Tote King e o violinista húngaro Zoltan Lantos são alguns dos convidados. (****)

28 maio, 2009

Med de Loulé 2009 - A Ementa Principal


E mais uma grande notícia! Os dois palcos principais do Med de Loulé - que se realiza mais uma vez em finais de Junho - incluirão concertos de Rabih Abou-Khalil (Líbano) com o fadista Ricardo Ribeiro (Portugal), Moriarty (Estados Unidos) e Bajofondo Tango Club (Argentina/Uruguai), no dia 24; Eneida Marta (Guiné-Bissau), Ojos de Brujo (Catalunha) e Horace Andy & Dub Asante (Jamaica), no dia 25; Donna Maria (Portugal), Orquestra Buena Vista Social Club (Cuba), Pitingo (Espanha) e DJ Click (França), no dia 26; Siba e a Fuloresta (Brasil), Camané (Portugal), Lura (Cabo Verde) e o duo de Justin Adams & Juldeh Camara (Inglaterra/Gâmbia), no dia 27; Kluster - um dos inúmeros projectos de Kimmo Pohjonen (na foto, de Vertti Teräsvuori) - com o Proton String Quartet (Finlândia), Stewart Copeland (o ex-baterista dos Police) com La Notte Della Taranta (Inglaterra/Itália/Grécia) e, finalmente, Rokia Traoré (Mali). De lamentar, apenas, a ausência forçada da cantora argentina Mercedes Sosa, devido a doença. Entretanto, para os sempre activos e cheios de música palcos secundários do Med estão confirmados oficialmente os Mu e Filipa Pais, mas as Crónicas da Terra avançaram já com outros nomes: Son De Nadie, N’Sista, Phillarmonic Weed, Mariária e Oco.

25 janeiro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XXXVII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXVII.1 - Caetano Veloso


O cantor, músico, letrista e compositor brasileiro Caetano Veloso (na foto, de Thereza Eugenia) é um dos maiores génios da música mundial. De nome completo Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, nascido em Santo Amaro da Purificação, Bahia, a 7 de Agosto de 1942, Caetano é um dos maiores paradigmas de uma música que vai às raízes populares do seu local de origem para a fundir com a música que as «antenas» lhe trazem. Não por acaso, o seu nome confunde-se com o conceito de «tropicalismo» - a corrente musical brasileira de finais dos anos 60 em que as origens africanas, o caldeirão de culturas que era a Bahia e expressões musicais como a pop, o rock ou o jazz se uniam num todo magnífico, original, vivo. Ao longo de quarenta anos de carreira, Caetano Veloso mudou a música brasileira e influenciou de uma maneira ou outra muitos artistas não brasileiros (de David Byrne a Sérgio Godinho, de Devendra Banhart a Lila Downs).


Cromo XXXVII.2 - Ojos de Brujo


Nascidos no borbulhante movimento do «som mestiço» - que tem como papa Manu Chao -, os Ojos de Brujo formaram-se em 1996, em Barcelona, Catalunha, com uma ideia de música bem-definida e incrivelmente consistente desde o início: fundir o flamenco, e mais especificamente um dos seus «palos» (géneros), a rumba catalã, com muitas outras músicas. Uma aposta que, apesar de não ser completamente original, tem nos Ojos de Brujo o seu expoente máximo. Na sua música - espalhada pelos álbuns «Vengue» (1999), «Barí» (2002), «Techarí» (2006) e «Aocaná» (2009) - o flamenco surge transfigurado, renovado, em contacto com o hip-hop, o funk, o reggae, as electrónicas, a música árabe, latino-americana e indiana. O grupo, que tem à frente a maravilhosa cantora Marina «La Canillas», tornou-se, com mérito, um dos mais importantes do circuito da world music.


Cromo XXXVII.3 - Googoosh


Neste momento é difícil acreditar que no Irão tenha havido divas da música pop e estrelas do cinema equiparáveis às suas congéneres de outros países (norte-americanas, europeias, indianas...). Mas a verdade é que as houve. E o maior e melhor exemplo de uma cantora-actriz, a estrela mais brilhante de um firmamento muito próprio - o Irão ocidentalizado do Xá Rheza Pahlevi - é o de Googoosh, nascida com o nome Faegheh Atashin, em 1950, em Teerão. De origem azeri, Googoosh chegou ao estrelato muito jovem, durante os anos 60, protagonizando filmes e discos que a transformaram, já durante a década seguinte, na maior vedeta iraniana. Na sua música houve - e há - elementos de música persa, azeri, rock, blues, jazz, disco-sound! Com a chegada ao poder do Ayatollah Khomeini, em 1979, Googoosh foi presa durante alguns meses e proibida de cantar. Mas permaneceu no Irão e, vinte anos depois, voltou à ribalta internacional.


Cromo XXXVII.4 - SambaSunda

A expressão máxima, mais genuína e verdadeira, da música indonésia é o gamelão: orquestras de percussões em que campânulas metálicas (ou, por vezes, de bambu) são percutidas de uma forma repetitiva, hipnótica, intrincada. E esta é uma música mágica, ancestral, em que é raro haver desvios. Mas que os há, há: os SambaSunda são um extenso grupo de músicos (geralmente catorze) de Bandung, na ilha de Java, liderados pelo multi-instrumentista e compositor Ismet Ruchimat e com uma cantora, Rita Tila, a traçar surpreendentes melodias sobre uma música feita de tradição - os ensinamentos dos gamelões e o canto tradicional kecak - misturada com reggae, música brasileira (a palavra «samba» em SambaSunda não está lá por acaso), jazz e a energia do rock. «Rawhana's Cry», álbum editado em 2006, lançou-os ao Mundo... E o Mundo agradece.

15 julho, 2006

Ojos de Brujo, Macaco e Amparanoia - Som Mestiço em Dose Tripla


Do caldeirão em ebulição permanente que é o «movimento» do Som Mestiço de Barcelona e de outras zonas da Catalunha e de Espanha, saíram nos meses mais recentes novos álbuns de três dos seus grupos mais emblemáticos: os Ojos de Brujo, Macaco e Amparanoia. Aqui se recupera a crítica publicada originalmente no BLITZ a «Techarí», dos Ojos de Brujo (e uma entrevista com Xavi, percussionista da banda - na foto), e se dá conta, em notas breves, dos novos álbuns de Macaco, «Ingravitto», e Amparanoia, «La Vida Te Da».

OJOS DE BRUJO
«TECHARÍ»
PIAS/Edel

A mais excitante banda catalã de fusão do flamenco com muitas outras músicas. E cada vez mais.

A fusão de músicas tradicionais com outras linguagens musicais - digamos, «modernas» - pode redundar para a foleirada absoluta (os Deep Forest são um bom, de tão mau, exemplo) ou para exemplos maiores de arte musical – e aqui entram facilmente propostas tão díspares como os Hedningarna ou DJ Dolores, os Gaiteiros de Lisboa ou Lhasa, Manu Chao ou os Asian Dub Foundation. E são grupos e artistas como estes que nos levam a questionar o que é, na realidade, a música tradicional, agora: uma entidade sagrada que não se pode alterar ou uma entidade em permanente mutação e que, desde sempre, incorporou elementos estranhos àquilo que veio, mercê de uma «verdade» histórica, etnográfica ou antropológica qualquer, a chamar-se «tradição».

Os Ojos de Brujo são, hoje, um dos exemplos maiores – o mais diversificado mas ao mesmo tempo o mais coerente e rico de cores - de como é possível modernizar o flamenco, a rumba catalã, as bulerias, as soleás, sem perder o duende (o espírito, a alma, a possessão) do flamenco e mantendo um alambique de sangue quente a borbulhar em permanência. E se já Bari, o seu segundo álbum, mostrava a banda de Marina e sus muchachos a misturar, muito bem, géneros musicais de raiz andaluza e catalã com hip hop, funk, ritmos latino-americanos, etc, etc, o novo álbum Techarí leva o conceito ainda mais longe e incorporam cada vez mais músicas nas suas canções. Aqui, uma buleria pode conviver facilmente com o funk; o banghra anglo-indiano pode namorar com o tango; o hip-hop, o drum’n’bass e as electrónicas podem aparecer onde menos se espera (isto se não se conhecer o grupo); e - sem hierarquias - o jazz latino, a música cubana e mexicana, o reggae, o thrash metal e a música árabe também podem entrar ali como faca em manteiga e como se sempre tivessem feito parte do flamenco. E, sempre, sempre, com o flamenco e seus derivados a servirem de base aos delírios fusionistas ou -- como no segundo tema do álbum, «Sultanas de Merkaillo», no sexto, «Tanguillos Marineros», no nono, «Bailaores» ou no 14º, «Nana» (em que o flamenco rima com música do norte de África) - a serem tratados com paixão e respeito e nestes quatro exemplos mais próximos de uma raiz, de uma verdade primordial, qualquer (relembre-se: o flamenco é uma música híbrida inventada há cerca de quinhentos anos por ciganos, muçulmanos e judeus, todos fugidos à Inquisição espanhola).

Junte-se a isto letras intervenientes e convidados de luxo como Nitin Sawhney, Faada Freddy do grupo rap senegalês Daara J, Prithpal Rajput dos Asian Dub Foundation, o guitarrista Pepe Habichuela ou a cantora Martirio (outra renovadora do flamenco) e estamos novamente (porque «Bari» já era muito bom!) em presença de um dos melhores álbuns dos últimos tempos da chamada, palavrão!, world music. (9/10)

MACACO
«INGRAVITTO»
EMI

«Com os pés na terra e as mãos no ar»: a isto chama Macaco (e a sua banda homónima) «Ingravitto». Ou é só uma outra maneira de dizer «Raices y Antenas» (pois!). E isso faz todo o sentido: o novo álbum de Macaco é como se fosse o disco 3 do duplo «Entre Raices y Antenas», que estava dividido numa primeira rodela, «Raices», e uma outra, «Antenas», se bem que nem sempre fosse completamente perceptível essa separação. Aqui, no novo álbum, as raízes e as antenas, a terra da Terra e os satélites do céu misturam-se definitivamente para uma viagem por várias culturas - oiça-se o espantoso «Brazil 3000», com os brasileiros B-Negão e Nação Zumbi, «Como El Agua Cale», com flamenco, jazz, música árabe e ragga em luta permanente, ou o igualmente fortíssimo «Bajo Un Mismo Sol» -, em que este lado bom da globalização é, ao mesmo tempo, um meio (musical e artístico) e um fim (político, de intervenção social, ecológica, humana...). Não por acaso, as letras são cantadas em espanhol, português, inglês, francês... A destoar, só alguma moleza e preguiça pop em alguns temas... (7/10)

AMPARANOIA
«LA VIDA TE DA»
Wrasse Records/Harmonia Mundi

Moleza e preguiça são coisas que não existem em «La Vida Te Da», o novo álbum dos Amparanoia, grupo que ganhou o ano passado o prestigiado prémio da BBC para melhor grupo world music da Europa. Neste quinto álbum, Amparo Sanchez e os seus rapazes abrem o baile com uma rumba poderosíssima, «La Vida Te Da», e seguem depois em viagem por variadíssimos lugares, às vezes numa mesma canção: ska e mariachis, salsa e outros géneros cubanos com fartura e também muito reggae (não falta, num dos bónus, uma lindíssima versão de «Redemption Song», de Bob Marley, mas já antes, em «Me Voy Lejos», há um reaggaezinho delicioso). «La Vida Te Da» é um álbum maduro, adulto, riquíssimo musicalmente e com letras cada vez mais apuradas na junção dos sentimentos pessoais de Amparo e da sua visão, empenhada e activa, do mundo que a rodeia. (9/10)


ENTREVISTA
OJOS DE BRUJO
O FLAMENCO E TUDO O RESTO

Os catalães Ojos de Brujo estão de volta com o seu cocktail, cada vez mais bem apurado, de flamenco com muitas outras músicas lá dentro. «Techarí», o terceiro álbum do grupo, foi o mote para a conversa com Xavi Turull (aka Capitán Cresten), o percussionista que levou para a banda sons de tablas indianas, percussões afro-cubanas e a técnica do cajón aprendida na escola do flamenco.

Numa entrevista recente, alguém dos Ojos de Brujo disse, a propósito de Techarí, que este é um disco mais flamenco que os outros... Concorda?

Não somos nós que o dizemos. Toda a gente o diz. Mas, ao mesmo tempo, creio que é um disco muito mais aberto e variado do que os outros. Neste há mais diferenças entre todas as canções, há muitos estilos diferentes em diferentes canções. O que se passa é que a actual formação dos Ojos de Brujo tem como elementos muita gente que trouxe o flamenco de experiências anteriores. No primeiro disco, por exemplo, só o Ramon, a Marina e eu é que tínhamos essa base. Agora, todos nós temos essa raiz flamenca... A nossa música não está mais flamenca, mas quando é flamenco é mais flamenco.

Como é entendido o flamenco em Barcelona? Como uma coisa externa, da Andaluzia, ou como uma coisa de todas as regiões de Espanha, mesmo as mais independentistas como a Catalunha?

Há zonas de Barcelona, as mais catalãs, em que o flamenco em geral não se sente tanto. Mas sente-se muito um «palo» flamenco (NR: os «palos» são os sub-géneros em que se divide o flamenco, como as bulerias ou as soleás, cada um deles com características próprias embora sendo todos eles flamenco), que é a rumba catalã, que nasceu na Catalunha. É um «palo» mais de festa e não tão profundo como outros «palos» do flamenco.

Nasce na Catalunha mas tem influências latino-americanas, ao que julgo...

Sim, o flamenco, quando sai de Espanha viaja para a América Latina, e quando volta, regressa pelo porto de Barcelona. A rumba catalã tem parentescos com a salsa cubana.

Há três ou quatro anos vi um concerto dos Ojos de Brujo em Sevilha – na Womex e na Feira do Flamenco. E a reacção dos andaluzes ao vosso concerto foi extraordinária. O público aficcionado do flamenco aceita bem os desvios à sua música?

Não. E é por isso que é surpreendente que os nossos melhores públicos, e os mais entusiastas, estejam na Andaluzia e também em Madrid, zonas de forte influência do flamenco mais tradicional. Mas acho que há uma razão para isso: nós nunca pretendemos fazer flamenco puro. Não somos um grupo de flamenco, somos um grupo de experimentação musical, que temos o flamenco como raiz, mas passado pelos filtros de músicas de todo o mundo, desde a música indiana ao rock, funk, punk, hip-hop...

Os Ojos de Brujo sempre misturaram o flamenco com funk, hip-hop, música árabe, indiana, etc... Mas em «Techarí» ainda metem mais coisas como o jazz latino ou o drum’n’bass. Como é que integram estas músicas quando compõem?

Cada canção é um mundo diferente. Não temos uma fórmula concreta... Cada canção vem de uma maneira diferente. Podem vir de um ritmo, por exemplo. O «Silencio», que é o tema do álbum com drum’n’bass, nasceu quando o Max (NR: o outro percussionista dos Ojos de Brujo) começou a fazer um ritmo de drum’n’bass no cajón (NR: o caixote de madeira que é o principal instrumento de percussão no flamenco). E foi divertido ver que se podia fazer drum’n’bass com um cajón! Então, o baixista começou a tocar por cima, a Marina começou a cantar... As canções são um trabalho colectivo, de grupo; não há um director musical. É um trabalho muito lento mas muito democrático, e é isso que nos dá essa riqueza.

Essa riqueza de que fala, essa variedade, é consequência de habitarem em Barcelona – uma cidade cosmopolita e aberta - ou é consequência dos vossos percursos musicais anteriores?

É a consequência de termos encontrado as pessoas que encontrámos. Todos nós tivemos experiências anteriores, importantes, de fusão do flamenco com outras músicas. Há, em Barcelona, quem se dedique ao flamenco puro, mas nós não. Um estava experimentado misturar o flamenco com heavy-metal, outro com punk, outro com funk, eu com música indiana, latino-americana e árabe, a Marina com teatro e electrónica, o Paco e Ramon com hip-hop... E essa foi a magia: termo-nos encontrado uns aos outros.

Neste álbum também «encontraram» outras pessoas, exteriores à banda. E convidaram músicos e/ou cantores como Nitin Sawhney, Faada Freddy (do grupo rap senegalês Daara J), Prithpal Rajput (aka Cyber, dos Asian Dub Foundation) ou Martirio. Convidaram-nos porque faziam sentido nas canções ou porque são artistas que admiram?

A participação de todos eles é fruto das nossas viagens e de encontros que, emocionalmente, nos marcaram e significaram muito para nós. Por exemplo, conhecemos os Asian Dub Foundation num festival na Bélgica e foi mágico. Nasceu uma grande amizade e, infelizmente, só pôde participar o percussionista porque eles estão sempre muito ocupados. No caso de Nitin Sawhney, há muito tempo que temos uma admiração mútua e ele colaborou connosco à borla. Foi uma troca: nós participamos no disco dele e ele no nosso. Com os Daara J encontrámo-nos nos prémios da BBC, em Edimburgo, e foi mágico: apanhámos uma bebedeira todos juntos nas ruas de Edimburgo, enquanto tocávamos na rua. Os músicos cubanos que participam, eu já os conhecia de antes (NR: nas suas viagens pelo mundo, Xavi passou algum tempo em Cuba antes de voltar à Catalunha) e reencontrei-os, o ano passado, em Cuba, e ter ido lá foi muito importante para todos nós.

Há poemas de canções dos Ojos de Brujo com uma forte componente de intervenção política e social. É importante intervir através da vossa arte?

A nossa vida é assim. Sempre fomos assim. Se pudermos contribuir para que as coisas mudem para melhor, fazêmo-lo. E essa intenção manifesta-se nas nossas letras. Vem da nossa experiência diária. A Marina (NR: cantora e letrista do grupo) tem um dom natural para escrever. Faz uma poesia muito bonita e não muito directa e crua. E ela transmite, muitas vezes, essa vivência nossa do dia-a-dia. E isso reflecte-se também noutras coisas: não aceitamos patrocínios de empresas multinacionais que prejudicam as pessoas, não pensam no nosso planeta e só têm o lucro dos ricos como meta. E também temos uma estrutura independente, Diguela, para editar os nossos discos...