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28 fevereiro, 2008

Donna Maria, M-PeX e Novembro - Ou Como Passar Tangentes ao Fado


De Amália Rodrigues a Carlos do Carmo - nomes que agora já ninguém se atreveria a não associar imediatamente ao fado -, dos Madredeus a Paulo Bragança, dos Ovelha Negra a Lula Pena, de Liana aos Sal, d'A Naifa* aos Fado em Si Bemol, de Cristina Branco aos Deolinda**, muitos são os artistas e grupos que, em alturas variadas e em contextos diferentes, têm levado o fado para alguns desvios saudáveis e territórios que não são exclusivos do fado. Nos últimos meses, três álbuns voltam a colocar a questão: pode o fado fundir-se com outras músicas? E como?... As respostas vêm dos Donna Maria, de M-PeX e dos Novembro (na imagem, desenhada por Miguel Filipe, cantor e guitarrista dos próprios Novembro).


DONNA MARIA
«MÚSICA PARA SER HUMANO»
EMI Music Portugal

É uma pena, mas não consigo gostar da música dos Donna Maria. Não tinha gostado no primeiro álbum, «Tudo É Para Sempre», e continuo a não gostar no segundo, o recente «Música Para Ser Humano», apesar de haver neste um peso menor das electrónicas - embora as electrónicas por lá continuem bem presentes - e um recurso maior a instrumentos acústicos, mais caminhos sonoros percorridos, um alargado leque de convidados de luxo (Rui Veloso, Luís Represas, Rão Kyao, Raquel Tavares, Júlio Pereira, Ricardo Parreira na guitarra portuguesa...). Mas muitas das canções do álbum continuam a soar demasiado a pompa e circunstância, a um artificialismo qualquer, a uma mistura de Madredeus com Gotan Project, sem grandes acrescentos de originalidade a essa fórmula. E é pena porque, se a voz de Marisa Pinto nem sempre se sente à vontade em algumas canções, há outras em que ela já voa livremente sobre as composições dos dois colegas de grupo - Miguel Ângelo Majer (samples, bateria e voz) e Ricardo Santos (piano acústico, sintetizadores e voz). E é pena porque o fado - e a música portuguesa em geral - precisava de um grande projecto de fusão do fado com as electrónicas, projecto que os Donna Maria não são e, infelizmente, ainda não existe. E é pena, finalmente, porque há no álbum alguns temas bastante bons, como o divertidíssimo «Zé Lisboa», onde ao fado se juntam a música brasileira e indiana, num exercício pop sem pudores, ou a bonita versão de «Pomba Branca», de Max. (5/10)



M-PEX
«PHADO»
This.co

M-PeX é o nome de um curiosíssimo projecto protagonizado, em solo absoluto, por Marco Miranda (guitarra portuguesa, guitarra clássica e programações). Um disco em que às bases electrónicas se junta uma guitarra portuguesa bastante bem tocada por Marco Miranda - ele também o compositor de todos os temas -, uma guitarra portuguesa que deve alguma coisa a Carlos Paredes (cf. em «Melodia da Saudade») mas, ainda mais, aos grandes mestres da guitarra de Lisboa, essencialmente a Armandinho. Tendo aprendido guitarra portuguesa com o seu avô, Luís Tomás Pinheiro, a quem o álbum «Phado» é dedicado, Miranda embrulha belíssimos ecos e memórias de fado - e de fados - em invólucros pouco usuais: o rock progressivo, o ambientalismo à Brian Eno, o drum'n'bass, o dub, o electro ou algumas invenções deliciosas (oiça-se o vocoder de «The Cloud's Whispering Song», a fazer lembrar os Air). Com a guitarra portuguesa usada em estado puro ou sujeita a transformações, cortes, distorções, manipulações, o que é estranho - e muito bom! - em «Phado» é que esta música nunca deixa, por uma vez que seja, de ser música portuguesa, mesmo quando as sonoridades de base estão muito longe daquilo que nós entendemos como «fado» ou como «música portuguesa». Uma excelente surpresa! (8/10)


NOVEMBRO
«À DERIVA»
Lisboa Records

Outra boa surpresa é o álbum de estreia dos Novembro, grupo liderado por Miguel Filipe - que compôs a totalidade dos temas do álbum «À Deriva», excepto «Algemas» e «Gastei Contigo as Palavras» -, que canta, toca guitarra portuguesa e guitarras acústicas e eléctricas, para além de ser o responsável pelas programações, e do qual também fazem parte Mark William Harding (bateria), Luís Aires (baixo eléctrico) e, só ao vivo, João Portela (guitarras), aos quais se juntaram em alguns temas do álbum Rodrigo Leão, Guto Pires e Tiago Lopes, entre outros. E uma boa surpresa porque, nos Novembro, conseguem coabitar muitas sonoridades que há alguns anos seria impensável conciliar: o fado, sim, mas também a abordagem desviante do fado encetada há vinte e tal anos por António Variações, aliados a um rock inteligente e fundo, que deve quase tudo ao movimento indie dos anos 80: os Joy Division, os Cocteau Twins, os Clan of Xymox, os Kitchens of Distinction... E, por aqui, já se pode ter uma ideia que os ambientes percorridos pelos Novembro estão, quase sempre, associados a conceitos como nostalgia, tristeza, saudade, ausência, desespero ou depressão. E isto tem tudo a ver com o fado, ou não tem? (7/10)

Notas:

* O terceiro álbum d'A Naifa, «Uma Inocente Inclinação Para o Mal», é editado no dia 31 de Março.

** O álbum de estreia dos Deolinda, «Canção ao Lado», está agora a ser finalizado nos estúdios Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, e sairá dentro de mês e meio. Amanhã, dia 29, os Deolinda dão o seu último concerto - no Auditório Carlos Paredes, em Benfica, Lisboa - antes da digressão de apresentação do álbum.

23 janeiro, 2008

Auto-Promoção - O Regresso ao Formato Papel


A partir de hoje, quarta-feira, os leitores deste blog também podem ler outros textos meus na revista «Time Out - Lisboa», onde comecei a colaborar numa base regular e semanal, a convite do meu camarada Jorge Manuel Lopes. E, confesso, já tinha saudades de algumas pequenas rotinas a que isto está a obrigar-me (como, por exemplo... cumprir prazos de entrega de textos!). Hoje pode ler-se uma antevisão ao concerto de Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra no Coliseu de Lisboa e uma crítica à caixa de três CDs e um DVD dos Kussondulola, «Mayombe». Para a semana será publicada uma entrevista com Miguel Filipe, mentor dos Novembro, projecto que está agora a editar o seu álbum de estreia, «À Deriva».

19 dezembro, 2007

Novembro - «À Deriva» Mas... Com Rumo


Há algum tempo que tenho prometido um post sobre projectos portugueses «desviantes» ao fado... Ainda não é desta que esse post vai aparecer, mas um dos nomes previstos para esse texto é o dos Novembro, grupo lisboeta que anuncia agora a edição do seu álbum de estreia. Com sugestões de fado pela ambiência e envolvimento (e anda por lá uma guitarra portuguesa), da pop melancólica e triste dos Joy Division e dos Durutti Column e com uma voz que faz lembrar, por vezes, António Variações, os Novembro prometem ser uma das maiores revelações da música portuguesa dos últimos anos. «À Deriva», o álbum de estreia do grupo - formado por Miguel Filipe (voz e guitarra portuguesa), Mark William Harding (bateria), Luís Aires (baixo) e João Portela (guitarras) - foi produzido por Tiago Lopes e Miguel Filipe e tem edição marcada para dia 28 de Janeiro, através da Lisboa Records. Já amanhã, dia 20 de Dezembro, o álbum é pré-apresentado ao vivo no Frágil, em Lisboa. Para saber um pouco mais sobre os Novembro, aqui.

28 novembro, 2006

«Acorda!» - 60 Bandas Portuguesas em MP3


Quase a caminho de Aveiro para o Sons em Trânsito (ver programação mais em baixo, neste blog, sff) aqui deixo o alerta para aquele que deve ser o disco português mais barato de sempre. Por uns míseros sete ou oito euros estão na colectânea «Acorda!» sessenta - sessenta! - grupos e artistas portugueses, cada um representado por duas canções. De todos os géneros, latitudes musicais e feitios. A selecção dos grupos esteve a cargo de Henrique Amaro (da Antena 3), o melhor divulgador de música portuguesa desde há muitos anos. E o resultado da venda reverte para a Pediatria do Instituto Português de Oncologia em Lisboa.

VÁRIOS
«ACORDA!»
Cobra Discos/Antena 3

Espelho panorâmico, alargado, riquíssimo, de muita da nova música que se faz em Portugal, a colectânea «Acorda!» integra projectos que vão da folk ao noise, do experimental ao punk, da pop ao reggae, do afro-beat ao jazz, do pós-rock ao hip-hop, do electro ao metal... Um apanhado sem fronteiras nem preconceitos, em MP3, de modo a caber muita informação, e tão boa que ela é... A pop infectada por Sérgio Godinho dos maravilhosos Ovo, o kuduro estilizado e novíssimo dos Buraka Som Sistema, a folk descarnada e bela de Old Jerusalem, o afro-funk-reggae-rap dos Nigga Poison e ecos de música agolana na modernidade excitante de Coca o F.S.M., o afro-beat dos Cacique'97, a explosão klezmer-Balcãs-Ena Pá 2000 da Kumpa'nia Al-gazarra (na foto), o reggae dos Sativa, One Sun Tribe e de Freddy Locks, o rock-globe-trotter dos Houdini Blues, a charanga de coreto/surf em ácidos dos Fat Freddy, o jazz infectado por muitas outras músicas da Tora Tora Big Band, a alt-country/free-folk indíssima dos Partisan Seed, a memória de muita MPB e MPP n'O Projecto É Grave, o inesperado (e tão bom!) electro-rocksteady-hip-hop dos Cartell 70, os ecos de fado, Durutti Column e António Variações nos surpreendentes Novembro, os blues de mais uma boa surpresa, The Soaked Lamb, o divertimento e a liberdade nos instrumentos de brincar dos Munchen, o rock livre (com Herbie Hancock, John Zorn e... klezmer lá dentro) dos Gnu... E ainda: 2008, 1 Uik Project, Alex Fx, At Freddy's House, Camarão & Dk, Electric Willow, Erro!, Frequency, GaiaBeat, Genius Loki, Green Machine, Hiena, Intermission, L-Hyo, Linda Martini, Mazgani, Micro Audio Waves, Monstro Mau, Nicorette, Nuno Prata, Oddawn, Orangotang, Rock Group Tiger, Rocky Marsiano, Sagas, SAMP, Sir Scratch, Sizo, Soma, SP&Wilson, Spartak!, StereoBoy, Tatsumaki, The Boy With the Broken Leg, The Ultimate Architects, The Weatherman, Veados com Fome, Vicious 5 e Woman in Panic - e espero não ter saltado nenhum... (9/10)

(o álbum pode ser pedido à cobrança na Cobra Discos, aqui)