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29 junho, 2011

Viagem ao Norte de África (e de lés-a-lés!)


Hoje, o Raízes e Antenas recupera críticas (originalmente publicadas na Time Out) dedicadas à música do norte de África, do seu oeste ao seu leste e dos dois lados do deserto do Sahara. Mais especifiicamente de Marrocos à Eritreia, do Niger à Tunísia e à Argélia. Os nomes? Hasna El-Becharia, Ghalia Benali, Souad Massi (na foto), Etran Finatawa, Asmara All Stars e todos os que protagonizam mais uma colectânea dedicada à música árabe pela Rough Guide.




Hasna El-Becharia
"Smaa Smaa"
Lusafrica/Tumbao

Os gnawa, do sul de Marrocos, são o povo que descende dos escravos negros da África Ocidental levados para o norte do Sahara pelos árabes. Com uma música de transe – igualmente conhecida como gnawa – que traça a ponte entre os dois lados do grande deserto, no gnawa tradicional encontram-se os habituais gritos guturais das mulheres berberes, instrumentos típicos da música árabe (como as darabukas), mas também instrumentos próprios como as krakabs ou o guimbri, um baixo acústico. E Hasna El Becharia – um dos raros exemplos de argelinos a praticar esta música -, cantora de voz grave, exímia tocadora de guimbri e guitarrista, transporta sempre consigo esta tradição, mas nunca deixando de a levar para o futuro: como neste belo e novo álbum, "Smaa Smaa", em que o gnawa por vezes se aproxima do rai, outras vezes dos blues, outras até de um proto-flamenco. Uma lição. (****)



Ghalia Benali
"...Sings Om Kalthoum"
Zimbraz

Já há alguns anos, a cantora tunisina Ghalia Benali – então acompanhada pelo seu grupo Timnaa -, deu no saudoso Intercéltico do Porto um dos concertos obviamente menos “celtas” deste festival. Na altura ela fundia música árabe com flamenco, Balcãs e até havia lá uma... guitarra portuguesa. Agora, no seu novo álbum, Ghalia presta homenagem a uma das maiores cantoras de sempre do norte de África e Médio Oriente, a diva egípcia Umm Kulthum (ou Om Kalthoum ou outra das inúmeras maneiras ocidentalizadas de escrever o seu nome), que se notabilizou pela sua voz inimitável e pelos longuíssimos concertos que protagonizava. E Ghalia faz-lhe aqui justiça, recorrendo a um pequeno ensemble acústico, com arranjos descarnados e nenhuma tentativa de modernização da música de Umm. É um acto de amor e vale por isso. (****)


Etran Finatawa
"Tarkat Tajje/Let's Go!"
World Music Network/Megamúsica

A pouco e pouco, os Etran Finatawa – banda originária do Niger que agrupa músicos tuaregues e de etnia wodaabe (todos eles nómadas que já se cruzaram nos inúmeros caminhos do deserto do Sahara, ora combatendo e roubando esposas, ora convivendo pacificamente e participando nas festas familiares uns dos outros) – foram estabelecendo o seu nome, no sentido que Malcolm McLaren deu aos Sex Pistols, definitivamente no circuito da world music. Não são a coisa mais original do mundo (os Tinariwen, Tartit e Ali Farka Touré estão na sua base e inspiração maior), mas o desvio dado aos blues do deserto pelas harmonias vocais e os meneios musicais/transe quase “transgender” dos wodaabe fazem, e neste "Tarkat Taaje" ainda mais!, dos Etran Finatawa um objecto musical único. (****)


Vários
"The Rough Guide to... Arabic Lounge"
World Music Network/Megamúsica

Há centenas de colectâneas – e de variadíssimas editoras – de música árabe, do norte de África do próximo e médio Oriente... Umas mais electrónicas, outras mais chill out, outras mais pop, outras mais acústicas e jazzy. E "The Rough Guide to... Arabic Lounge" é uma amálgama disto tudo. Algo desequilibrado também por isso, o álbum contém no entanto algumas pérolas como a canção gainsbourguiana interpretada, logo a abrir, pelo libanês Ghazi Abdel Baki, alguns desvios jazz curiosos (outros, mais jazz de hotel, nem por isso) ou as vozes mágicas de Natacha Atlas e da palestiniana Rim Banna e, mais importante que o resto, traz como bónus o álbum de estreia de Akim El Sikameya, cantor e músico argelino que faz uma excelente ponte entre a Andaluzia e o norte de África. (***)


Asmara All Stars
"Eritrea's Got Soul"
Out Here Records/Megamúsica

Encravada entre o Sudão e a Etiópia, a Eritreia é – tal como os seus vizinhos próximos – um dos países mais pobres do mundo e, devido a sucessivos conflitos (incluindo uma longa guerra com a Etiópia), é igualmente um dos territórios mais isolados e imunes às influências das “antenas” viradas para o éter exterior. Talvez por isso, este álbum do super-grupo Asmara All Stars, gravado em Asmara (a capital do país) pelo produtor francês Bruno Blum, mostra uma música que poderia ter sido registada nos anos 70 e não em 2008 (data da gravação), onde, ao lado de sonoridades próximas do ethio-jazz tal como estabelecido por Mulatu Astatke se ouvem reggae, hard-rock, funk e soul. E, ao contrário de parecer requentado ou simplesmente retro, "Eritrea's Got Soul" soa a fresco e actualíssimo. (*****)


Souad Massi
"Ô Houria"
Island Records/Universal Music

Numa entrevista que deu a propósito do seu quarto álbum, "Ô Houria" – que significa “liberdade” –, a cantora argelina Souad Massi refere que continua a ter Leonard Cohen, Neil Young e Bruce Springsteen – ela começou a carreira num grupo rock – como principais referências musicais. Mas, ouvindo-se este novo álbum, pode dizer-se que nunca a sua música foi ao mesmo tempo tão argelina ou, se quisermos, magrebina (está aqui o fabuloso intérprete de oud Mehdi Habbad, dos DuOud e Speed Caravan) nem tão francesa (estão aqui, também bem presentes, Francis Cabrel e Michel Françoise), embora lá esteja também um “bife” inesperado: Paul Weller! Mas o que fica disto tudo é o melhor e mais maduro disco de Souad até à data: interventivo, apaixonado, sem fronteiras. (****)

07 janeiro, 2009

Melhores Álbuns (com) Raízes e Antenas - Parte II


O Raízes e Antenas continua hoje a publicação de uma nova série, os Melhores Álbuns (com) Raízes e Antenas, dedicada a álbuns editados em 2008 (ou até anteriores a 2008, mas só durante esse ano «descobertos» por este blog) e que têm estado muitas vezes, e por direito próprio, no leitor de CDs aqui de casa. Todos eles são acompanhados por uma breve ficha informativa.


Segunda Parte - Bons Rocks (e Electrónicas) Vindos do Oriente


Niyaz - «Nine Heavens» (Six Degrees)


Sem dúvida, um dos melhores álbuns editados o ano passado, «Nine Heavens», dos Niyaz, é um belíssimo exemplo de convivência de músicos de países considerados, à partida, «inimigos»: nos Niyaz convivem músicos iranianos e norte-americanos, que misturam com saber e à-vontade a música tradicional do médio-oriente, a música religiosa sufi - no disco encontram-se nove temas oriundos da tradição iraniana, turca e paquistanesa - e as electrónicas, sempre com uma elegância e um bom-gosto extremos, conduzidos pela voz sublime da cantora iraniana Azam Ali. E, para quem não vai lá muito à bola com as lectrónicas, o álbum reserva uma surpresa: um segundo CD com interpretações acústicas dos temas do álbum e com muitas percussões, digamos, verdadeiras, dos temas do álbum.





U-Cef - «Halalwood» (Crammed Discs/Megamúsica)


DJ marroquino radicado em Londres, U-Cef assina neste álbum «Halalwood» uma experiência de fusão quase sempre muitíssimo bem conseguida. Capaz de cruzamentos surpreendentes («MarhaBahia» é um notável encontro entre o gnawa e o samba!!), sem medo de juntar no mesmo caldeirão dub e sha'abi, guitarras eléctricas em voo livre e hip-hop «rapado» em árabe, «Halalwood» também junta muita gente boa à volta do projecto: Rachid Taha, Damon Albarn (dos Blur e de inúmeros projectos cada vez mais ligados à world music), Natacha Atlas, Steve Hillage, Amina Annabi, Dar Gnawa e Justin Adams, entre outros...






Speed Caravan - «Kalashnik Love» (Newbled Records)

Imagine-se o «Killing An Arab», dos Cure, interpretado, com humor, por músicos e instrumentos... árabes. Ou o «Galvanize», dos Chemical Brothers, transformado num hino à luta dos povos muçulmanos. E tudo movido a um fabuloso oud electrificado e demais quinquilharia musical do norte de África, com instrumentos rock à mistura. É isso que fazem os Speed Caravan (na foto), grupo liderado pelo argelino Mehdi Haddab (o do oud electrificado e muitas vezes em distorção) e radicado em França. No álbum colaboram Rachid Taha (sempre ele!), gente ligada aos Asian Dub Foundation, Abdulatif Yagoub (também em oud e já referido neste blog a propósito do seu álbum com os DuOud) e até Simone Alves, cantora portuguesa radicada na Bretanha.

06 janeiro, 2009

Melhores Álbuns (com) Raízes e Antenas - Parte I


O Raízes e Antenas inicia hoje a publicação de uma nova série, os Melhores Álbuns (com) Raízes e Antenas, dedicada a álbuns editados em 2008 (ou até anteriores a 2008, mas só durante esse ano «descobertos» por este blog, como é o caso do álbum «Le Moulassa», dos AntiQuarks, na foto) e que têm estado muitas vezes, e por direito próprio, no leitor de CDs aqui de casa. Todos eles são acompanhados por uma breve ficha informativa.



Primeira Parte - Os Maiores OVNIs World do(s) último(s) ano(s):


Big Blue Ball - «Big Blue Ball» (RealWold)

Gravado durante algumas das já míticas «semanas» de jam-sessions intensivas nos estúdios da RealWorld, com produção de Peter Gabriel (que também aparece em vários temas como cantor), Karl Wallinger e Stephen Hague, «Big Blue Ball» é uma explosão de originalidade, grandes canções e parcerias inesperadas mas que fazem sempre sentido umas com as outras. Oiça~se o álbum e descubra-se o que é a verdadeira world music e o que este género, que afinal são tantos géneros, tem de melhor: cruzamentos ímpares de nomes como Marta Sebestyen, Natacha Atlas, Sinéad O'Connor, Papa Wemba, Jah Wobble, Vernon Reid, Iarla O Lionaird, Joseph Arthur, Manu Katché, Justin Adams, Joji Hirota, etc, etc... Uma obra-prima.





AntiQuarks - «Le Moulassa» (Ed. Autor)

Estes gauleses são loucos!!! Dois músicos franceses - Richard Monségu (voz, bateria e percussões) e Sébastien Tron (sanfona eléctrica, voz, pedaleira) - inventam neste seu primeiro álbum, «Le Moulassa», uma música que é de todo o lado e de lado nenhum, de todas as épocas e de época nenhuma: está bem, há lá rock progressivo, música tradicional, experimentalismo, música antiga, mas tudo sempre sabiamente misturado para que nenhum destes géneros seja imediatamente reconhecível nem que se possa dizer, alguma vez, que a sua música é mais um género do que outro. Porque não é, mesmo quando parece...





Bibi Tanga et Le Professeur Inlassable - «Yellow Gauze» (L'Inlassable Édition)

O extraordinário cantor Bibi Tanga (nascido na República Centro-Africana mas radicado em França há muitos anos) e o produtor francês Le Professeur Inlassable, que parecem ter sido destinados um ao outro desde o início dos tempos tal é o brilhantismo do trabalho feito em conjunto, assinam em «Yellow Gauze» um verdadeiro hino à música negra, seja a música africana (nomeadamente o afro-beat, mas não só) seja a norte-americana, com o gospel, o jazz, a soul, os blues, o disco-sound e o hip-hop a confluírem, todos!, para um álbum mais que perfeito.

26 novembro, 2008

Natacha Atlas (de Surpresa!) no Estoril...


Assim, de surpresa, surge a notícia de que Natacha Atlas vai actuar no Centro de Congressos do Estoril. No comunicado da organização do concerto, a Everything Is New, pode ler-se:

«Natacha Atlas actua dia 7 de Dezembro no Auditório do Centro de Congressos do Estoril, onde apresentará o novo álbum, “Ana Hina”, editado no início do ano.

A cantora belga de origem egípcia, Natacha Atlas, começou a dar que falar como vocalista (e bailarina de dança do ventre) dos Transglobal Underground, um reputado projecto britânico que mistura electrónica com World Music.

A carreira a solo começou em 1995 com o álbum, “Diáspora”, também produzido pelos Transglobal Underground, que conferiu, imediatamente, à cantora o estatuto de artista de culto.

A tremenda voz de Natacha Atlas levou-a a colaborações com artistas tão importantes como Jean-Michel Jarre e Belinda Carlisle, bem como a versões únicas de grandes clássicos como “I Put a Spell on You” de Screamin' Jay Hawkins, celebrizada pelos Birthday Party de Nick Cave.

O oitavo disco a solo chegou em Maio deste ano. “Ana Hina” inclui várias versões acústicas de canções originais de Fairuz (cantora libanesa popularizada na década de 70) e Abdel Halim Hafez (um dos mais populares cantores e actores egípcios)».

Mais informações sobre este concerto de Natacha Atlas, aqui.

02 julho, 2007

Festival MED - O Tapete Voador, a Cadela Light Designer e a Maior Banda Rock do Mundo



Foi preciso ir ao último MED de Loulé para ver um verdadeiro tapete voador, cruzar-me todos os dias com quatro ovelhas num campo de papel de parede, conhecer uma cadela que é light designer, gostar de iogurte pela primeira vez na minha vida e ver a maior banda rock do mundo.

Para além da música, que é o prato principal, o Festival MED tem sempre mil outras coisas a acontecer. Pelo recinto passeiam figuras fascinantes: uma «andaluza» que conta a lenda das amendoeiras em flor com um dedal-princesa-nórdica e um dedal-príncipe-mouro perante um grupo de crianças fascinadas, uma «rainha egípcia» (Nefertiti?) em busca de par para o seu gato ou um «turco» que possui tapetes coçados, mas valiosíssimos, porque voam mesmo! Ou uma cadela loira, lindíssima e devotíssima ao seu dono (o técnico italiano responsável pela iluminação dos vários palcos do festival), que o segue por todo o lado, que entra em stress quando ele sobe à teia dos palcos e que transporta ao pescoço uma acreditação oficial que diz «Staff - Alandra, Light Designer». E há outras figuras que não se mexem mas encantam na mesma: dois dançarinos apanhados a meio de um complicado passo de corridinho algarvio, duas crianças e o seu cão a brincar numa praia do Mediterrâneo ou quatro ovelhas que nos sorriem sobre um padrão de papel de parede. E figuras híbridas, que se encontram algures entre a realidade, a arte e a ficção, como as marionetas que fazem de uma corda de roupa o seu mercado de trocas e vendas, as pulgas invisíveis que saltam de uma caixa de fósforos fosforescente ou o improvável casal burocrata de gravata/flor verde e amarela. E, por falar em flor, atrevi-me pela primeira vez na minha vida a juntar iogurte - matéria láctea que nunca entra na minha dieta - ao kebab, num dos muitos e excelentes restaurantes do recinto. Tinha muito picante por cima e aquilo até resultou bem. Até agora, tudo o que aqui foi escrito é a mais pura das verdades; mesmo que não pareça. E isso é importante dizer, para se perceber que também é verdade o que se vai escrever a seguir: no MED de Loulé tocou a maior banda de rock do mundo. Adeus Rolling Stones. Adeus U2. Adeus Metallica. Adeus aos outros todos em que se esteja a pensar. Olá Tinariwen!

Os Tinariwen (na foto; de Mário Pires, da Retorta) deram o melhor concerto do MED deste ano. E chamar-lhes «a maior banda rock do mundo» - mais ainda do que chamar-lhes «a melhor banda rock do mundo» - não é nenhum exagero. Basta assistir a um concerto desta nova fase da banda do Mali, a fase pós-«Aman Iman» - e o concerto em Loulé foi disso exemplar - para se perceber o elevadíssimo grau de verdade que a sua música atingiu. Uma verdade feita de muitas verdades, é certo, porque nela convivem muitas guitarras eléctricas e as sombras de Robert Johnson, de Jimi Hendrix ou dos Jefferson Airplane com a(s) música(s) que os tuaregues atravessam nas suas viagens - a música árabe, a música gnawa, a música mandinga, a sua própria música... -, mas ainda mais verdadeira por isso: a música de um povo que viaja por vários territórios geográficos mas também pelos territórios que as rádios e as televisões lhes dão a conhecer. E se umas e outras músicas estão ligadas por laços fortíssimos, históricos, como os blues e o rock o estão à zona de que são originários os Tinariwen, essa verdade, então, deixa de ser apenas verdade para passar a ser A Verdade. Uma Verdade maior da maior banda rock da actualidade (e quem não acredita ainda pode tirar as teimas, dia 5, quando os Tinariwen actuarem no S.Jorge, em Lisboa, ou dia 6, no Festival Évora Clássica).

O concerto dos Tinariwen foi o melhor de todo o MED. Mas houve outros que estiveram lá quase. O do italiano Vinicio Capossela, com a sua «orquestra» de cordofones (um «bandolinzinho», bouzouki, guitarra eléctrica, banjo, ele próprio na guitarra «dobro» quando não estava ao piano ou a assumir personagens míticas com a ajuda de máscaras...), a voar com o seu vozeirão de barítono entre o romantismo mais desesperado, a fúria incontida ou o humor sardónico, tudo servido sobre bases inesperadas que foram do alt.country dos Calexico ao caos sónico dos Sonic Youth, passando pela música do «Quo Vadis» ou do «Ben-Hur». O dos Bajofondo Tango Club, que encerraram o festival com o seu tango modernizado, orgânico, vivo, inventivo, pulsante, imaginário e que instalaram a festa entre o público (parte do qual foi convidado pela banda a subir ao palco para dançar); Gustavo Santaolalla tem neste projecto pessoal (onde canta e toca guitarra eléctrica) um laboratório de experiências que deixou de ser ciência para passar a ser arte (no que é coadjuvado belissimamente por músicos de primeira água - o violinista, o bandoneonista, o contrabaixista, o pianista e DJ... - e uma VJ extremanente original. O do Sergent Garcia, com a sua máquina de dança e intervenção política («Free your mind and your ass will follow», dizia George Clinton), onde nunca se percebe onde começa uma e acaba a outra, sendo por isso possível dançar uma cumbia enquanto se apoia os zapatistas mexicanos ou entrar num ragga estonteante enquanto se critica o Bush. E o de Aynur, onde a cantora curda da Turquia (ou turca só porque não a deixam ser curda de nacionalidade) arrebatou toda a gente, logo a abrir o festival, com a sua voz belíssima, canções tradicionais e um grupo de músicos soberbos em que sobressaíam o saz (que ela própria também tocou num momento a solo), o nay, o violino e as percussões árabes; e com uma enormíssima vantagem em relação ao concerto que dela vi na WOMEX de Sevilha: em Loulé não tinha sintetizadores a atrapalhar-lhe o brilho intenso da voz.

Bons concertos - mas sem atingirem o brilho dos já referidos - foram os de Natacha Atlas, ainda dona de uma voz belíssima e apresentando um reportório - grandemente baseado no último álbum, «Mish Maoul» - de um assinalável bom-gosto (desde antigos temas românticos egípcios ou libaneses até bossa-nova, uma canção folk inglesa e uma homenagem a... Nina Simone); de Sara Tavares, que cada vez mais faz mais e melhor a ponte entre várias músicas tradicionais e da contemporaneidade, para além de se sentir cada vez mais à-vontade em cima do palco (e o uso frequente da palavra «mais» aqui foi apenas uma coincidência); e dos Yerba Buena, profissionalíssimos na sua função de fazer chegar ao público uma música - feita de ritmos latino-americanos, hip-hop, funk, soul... - que lhe é atirada directamente aos pés e ao rabo, obrigando-o a dançar do princípio ao fim (e isto é um elogio). A meio caminho entre o bom e o mau concerto ficaram Akli D. - que deu um espectáculo muito pior do que na WOMEX de Sevilha, talvez porque vários problemas familiares assolaram um dos músicos da banda, um estado de espírito que também assombrou o resto dos seus amigos -; os L'Ham de Foc, fabulosos quando estavam a interpretar os seus temas de geografias e épocas distantes entre si mas que cortaram o ritmo ao concerto para afinar os instrumentos durante penosos minutos; e os Chambao, que têm em Mari uma cantora de elevadíssimos recursos que merecia uma banda melhor e mais empenhada do que aquela que a acompanha (e bastou assistir ao magnífico e contrastante encore para se perceber como o concerto poderia ter sido muito melhor). E pelo mau ficaram-se, surpreendentemente, os Taraf de Haidouks que, apesar de terem apresentado vários temas do seu novíssimo álbum «Maskarada» (em que pontificam peças clássicas de compositores como Bartók, Ketèlbey, Albéniz ou Manuel de Falla, todos inspirados na música cigana e, através dos Taraf, de volta a «casa»), se mostraram desconcentrados, desmotivados e alterados.

O texto já vai longo, mas - sem esquecer a referência a coisas óbvias como o aumento do recinto (que chega agora à igreja matriz de Loulé, ao lado da qual está um dos palcos principais), ao facto de por lá terem passado nestes dias muitos milhares de pessoas, com enchentes em pelo menos três dos dias) e à má notícia que foi o cancelamento da actuação de DJ Shantel - ainda há espaço para mais algumas notas finais: as belas surpresas que foram o trance orgânico, acústico e selvagem dos OliveTree; a consistência dos Rosa Negra com o seu fado sofisticado e que viaja pelo Mediterrâneo fora; a excelência dos espanhóis Estambul, fusão conseguidíssima de jazz com música árabe, turca e balcânica; e o como resultou belíssimo o cruzamento da música bem escolhida por Raquel Bulha com os desenhos feitos e projectados em tempo real pelo autor de BD José Carlos Fernandes - que, do vazio de um papel branco, fez nascer émulos de Nusrat Fateh Ali Khan, Lila Downs, Tinariwen, odaliscas e opulentas mulheres africanas. São outras figuras, umas vivas, outras mortas, umas reais, outras imaginárias - ou a meio caminho -, umas cinéticas, outras plasmadas... Mas todas Verdadeiras.

26 junho, 2007

Festival MED de Loulé Começa Já Amanhã!



A edição deste ano do Festival MED de Loulé começa já amanhã, dia 27, e continua até dia 1 de Julho, na zona do antigo Castelo de Loulé, com inúmeros concertos de artistas e grupos de várias zonas do Globo e de diversos géneros musicais. Dos artistas cabeças-de-cartaz do festival já antes o Raízes e Antenas tinha dado conta, mas desta vez fica-se aqui a saber todos os nomes do Med, separados por dias e palcos de actuação. Palco da Cerca: Aynur (Turquia) dia 27; Natacha Atlas (Egipto/Bélgica) dia 28; Akli D (Argélia) e Taraf de Haidouks (Roménia) dia 29), L'Ham de Foc (Espanha) e Yerba Buena (Estados Unidos; na foto) dia 30; Bajofondo Tango Club (Argentina/Uruguai) dia 1. Palco da Matriz: Quarteto de Cordas Intermezzo (Portugal) e Sara Tavares (Portugal/Cabo Verde) dia 27; Trio de Metais do Alentejo (Portugal) e Sergent Garcia (França) dia 28; Trio Lusitano (Portugal) e Tinariwen (Mali) dia 29; Eudoro Grade (Portugal) e Vinicio Capossela (Itália) dia 30; Duo Flacord (Portugal) e Chambao (Espanha) dia 1. Palco do Castelo: In-Canto (Portugal) dia 27; Estambul (Espanha) e DJ Shantel (Alemanha/Balcãs) dia 28; Toques do Caramulo (Portugal), Uxu Kalhus (Portugal) e DJ Single Again (Portugal) dia 29; Rosa Negra (Portugal), OliveTree (Portugal) e DJ Raquel Bulha (Portugal) dia 30; Amálgama - Tablao do Fado (Portugal) dia 1. Palco da Bica: Jazz Ta Parta (Portugal) e Al-Driça (Portugal) dia 27; Nanook (Portugal) dia 28; Quarteto Alma Lusa (Portugal) dia 29; Fadobrado (Portugal) dia 30; Cherno More Quartet (Bulgária/Síria/Sudão) e Duo Angola Brasil (Portugal) dia 1. Palco Classic (na Igreja Matriz): com alguns dos nomes já referidos em dose «reforçada». Exposições de artes plásticas relacionadas com a temática do festival, artesanato, gastronomia do Mediterrâneo, workshops, teatro, animação de rua, marionetas, performances e uma zona chill-out integram também o programa do festival. E há reportagem prometida neste blog lá mais para segunda-feira (ou terça, se o cansaço apertar).

19 maio, 2007

Festival MED - Tantos Mares em Loulé!



A 4ª edição do Festival MED de Loulé apresenta o melhor cartaz de todas as que até agora se realizaram, com concertos de importantes grupos e artistas vindos de variadíssimas zonas do globo e não só da baía do Mediterrâneo, mote primeiro do festival. E ainda bem! De 27 de Junho a 1 de Julho, a zona do antigo castelo de Loulé acolhe concertos, no primeiro dia, da cada vez mais madura e coerente Sara Tavares (Portugal/Cabo Verde) e da interventiva cantora curda Aynur (Turquia; na foto); no segundo, da ex-vocalista dos Transglobal Underground e diva da música de fusão Natacha Atlas (Bélgica/Egipto), do fusionista de punk, reggae e música latino-americana Sergent Garcia (França) e do principal misturador da música das fanfarras balcânicas com a electrónica, DJ Shantel (Alemanha); no terceiro há lugar para a música tuaregue infectada pelos blues e o rock dos Tinariwen (Mali), o misto único de melancolia e festa dos Taraf de Haidouks (Roménia) e a música da Kabilia revista à luz de vários géneros ocidentais do cantor Akli D. (Argélia); no quarto é a vez do genial e incatalogável cantor e compositor Vinicio Capossela (Itália), da mescla de muitas músicas modernas com a música latino-americana dos Yerba Buena (Estados Unidos) e do duo valenciano de folk, música medieval, música grega e tudo à volta L´Ham de Foc (Espanha); e, para fim de festival, dois projectos que juntam músicas tradicionais do seu país com a electrónica - o tango trazido para a contemporaneidade pelos Bajofondo Tango Club, de Gustavo Santaolalla (Argentina) e o flamenco-chill dos Chambao (Espanha). E, claro, nas ruas circundantes e nos outros palcos ainda há lugar para muitos outros concertos (principalmente de novos grupos de música tradicional, folk e de fusão portugueses), sessões de DJ a puxar a dança, inúmeras bancas de artesanato, restaurantes de variados sabores mediterrânicos, workshops e animação de rua. Mais informações aqui.

17 outubro, 2006

Gigi, Natacha Atlas e Brenda Fassie - World Pop Divas


Três espantosas cantoras. Duas africanas (Gigi Shibabaw - na foto - e Brenda Fassie), outra belga com raízes na África muçulmana, o Egipto (Natacha Atlas), e em Inglaterra. Uma que faleceu em 2004 (Brenda Fassie), as outras duas vivas e em actividade constante (Natacha Atlas, relembre-se, vem ao Porto para um concerto no dia 8 de Novembro). As três com carreiras riquíssimas na procura dos melhores cruzamentos entre as músicas tradicionais e a modernidade. Todas neste lote de discos imprescindíveis.


GIGI
«GOLD & WAX»
Palm Pictures

Primeiro, a relativa má notícia: «Gold & Wax» não é tão bom quanto o álbum do projecto Abyssinia Infinite, «Zion Roots», que Gigi (aka Ejigayehu Shibabaw) protagonizava ao lado de Bill Laswell. Não tem a mesma capacidade encantatória nem o mesmo espaço para o silêncio, a abstracção e a hipnose que esse álbum. Mas também é difícil, muito difícil, que algum disco o tenha depois do patamar de excelência que «Zion Roots» atingiu. Agora, as boas notícias: «Gold & Wax» é igualmente produzido por Bill Laswell e a mistura de rock, dub, algum jazz e electrónicas (aqui bastante presentes) com a música etíope, a música árabe, a música sefardita ou a música indiana, que Gigi e Laswell aqui mostram - repete-se, embora não estando ao nível de «Zion Roots» ou sequer do álbum anterior «Gigi» - é suficientemente excitante para fazer deste um dos melhores discos «world» deste ano. Além disso, Gigi continua a ter uma voz maravilhosa, que voa como uma ave-do-paraíso em temas como «Jerusalem», «Salam», «Utopia» (o único cantado em inglês), «Gomelayeye», «Hulu-Dane» ou o lindíssimo «Acha». Depois, o lote de músicos neste álbum é luxuoso: para além de Bill Laswell estão aqui Nils Petter Molvaer, Foday Musa Suso, Karsh Kale, Bernie Worrell e Ustad Sultan Khan, entre muitos outros. Gigi, etíope sediada nos Estados Unidos, é neste momento, provavelmente, o melhor exemplo de que é possível casar o antigo e o actual, o tradicional e as novas tecnologias, uma alma enraizada no mais profundo da Terra e umas antenas bem atentas a tudo à volta. (8/10)


NATACHA ATLAS
«MISH MAOUL»
Mantra Recordings

Em sentido contrário a «Gold & Wax», de Gigi, está «Mish Maoul», o novo álbum de Natacha Atlas. Não na qualidade musical, que é elevadíssima, mas porque Natacha Atlas está neste álbum num registo muito mais acústico do que é normal nela (tanto a solo como nos tempos em que fazia parte dos Transglobal Underground - e isto apesar de em «Mish Maoul» o dedo da sua antiga banda continuar presente através dos ex-companheiros Count Dubulah e Neil Sparkes, que produziram alguns temas). No novo álbum ainda há electrónicas e programações, sim, mas há um muito, muitíssimo maior, peso de instrumentos acústicos a envolver a sua voz, ainda e sempre uma voz fabulosa em maleabilidade e em riqueza tímbrica. Neste álbum ouvem-se, essencialmente, guitarras acústicas, piano, acordeão, alaúde, percussões árabes, ney, kanun... Mas o mais interessante é que, apesar de os instrumentos acústicos estarem em maioria, a linguagem musical de Natacha Atlas continua lançada para um futuro-mais-que-perfeito em que todas as músicas terão lugar. A música árabe está lá, sempre e bastante presente, a servir de cimento a tudo o resto, mas há muitas outras músicas lançadas para a betoneira: o hip-hop (no fantástico «Feen» e na voz do rapper libanês Clotaire K, em «La Lil Khouf», que também conta com a colaboração da cantora argelina Sofiane Saidi), o gnawa e a música tuaregue (em «Hayati Inta»), a bossa-nova (em «Ghanwah Bossanova» - o título não engana - e em «Bab El Janna», que termina... em português), uma pop fresquíssima (em «Bathaddak», com Princess Julianna num flow irresistível) ou o experimentalismo praticamente inclassificável de «Haram Aylek». «Mish Maoul» é outro muito bom exemplo de que há mundos (musicais e outros) que, em vez de colidir, podem coabitar e mesclar-se em perfeita harmonia. (8/10)


BRENDA FASSIE
«GREATEST HITS»
EMI

Se se não conhecer Brenda Fassie, basta ouvir o primeiro tema desta colectânea, o hit pan-africano «Vul'indlela», para se ficar fascinado com a voz e a música da cantora sul-africana: uma mistura brilhante de qualquer coisa parecida com o euro-disco com a música zulu, coroada com uma voz aberta, luminosa, belíssima. E o resto das canções presentes em «Greatest Hits» (com o sub-título «The Queen of African Pop - 1964-2004», sendo o ano de 1964 o do seu nascimento e não o de início de carreira) é a continuação, lógica, da descoberta de uma personagem incontornável da música africana e da fusão de elementos locais com inúmeras linguagens exteriores: a soul, o funk, o rock, o disco-sound, o tecno, o acid-jazz... Brenda Fassie - falecida em 2004, com apenas quarenta anos - foi uma heroína da música sul-africana. Diva pop, com um sucesso de vendas enorme - a revista «Time» chamou-lhe «A Madonna dos Guetos de Joanesburgo» (nascida na Cidade do Cabo, Brenda mudou-se para Joanesburgo na adolescência) - e com uma vida recheada de pormenores trágicos - depressões, tentativas de suicídio, dependência da cocaína... -, isso não a impediu de se ligar a inúmeras causas sociais e políticas (o Partido do Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela, usou «Vul'indlela» como hino nas eleições de 1999) e de lançar as bases de muita da modernidade da música sul-africana, tendo sido uma das pioneiras do kwaito (um riquíssimo género híbrido de que falarei proximamente neste blog). O «Greatest Hits» de Brenda Fassie é outro bom exemplo de como o tradicional (que está aqui bem presente em alguns temas, como em «Sum'bulala» ou nas maravilhosas polifonias vocais de «Black President» e de outros temas) pode andar de mãos dadas com outras músicas para, assim, criar novos e brilhantes sons. (7/10)

15 setembro, 2006

Natacha Atlas no Porto (& O Folktulha)



A cantora belga de origem anglo-egípcia Natacha Atlas (na foto) faz uma rara incursão pelos palcos portugueses com um concerto, dia 28 de Setembro, na Casa da Música, Porto. Com uma carreira feita, essencialmente, do lado da fusão das músicas orientais (árabe e anglo-indiana com os Transglobal Underground) com as novas tecnologias dançantes do ocidente, a cantora promete, no entanto, um concerto predominantemente acústico para a Invicta, onde apresenta o seu novo álbum a solo «Mish Maoul». Com um percurso riquíssimo na música, em Natacha Atlas sempre coabitaram, facilmente, o cha'abi egípcio ou o bhangra indiano com a electrónica, o rock, o hip-hop, o reggae e o dub (Natacha Atlas trabalhou, para além dos Transglobal Underground, com outro alegre fusionista, Jah Wobble). Uma ocasião única. Mais informações aqui.

E, agora, algo de completamente diferente: o Folktulha - Festival de Música Ibérica da Casa da Tulha, que decorre em Cepelos, Vale de Cambra, nos dias 22, 23 e 24 de Setembro. Com concertos dos Chuchurumel e Diabo a Sete (dia 22), Paddy B & Celtic Express e Ginga (dia 23) e um outro, ainda por definir, na tarde de dia 24. Mais informações neste site.