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04 março, 2008

Bassekou Kouyate, KTU e Justin Adams & Juldeh Camara no FMM de Sines


À medida que os dias passam, mais e mais nomes vão chegando para encher - e bem! - o cartaz da 10ª edição do FMM de Sines. Desta vez, e via Crónicas da Terra e Juramento Sem Bandeira chegam-nos mais três nomes de peso para o alinhamento final: o maliano Bassekou Kouyate (na foto, de Manfred Schweda), o extraordinário intérprete de n'goni que acompanhou Ali Farka Touré, fez parte da Symmetric Orchestra de Toumani Diabaté e editou o ano passado o álbum, com o seu grupo Ngoni Ba, «Segu Blue» (ver crítica ao disco, no Raízes e Antenas, aqui); o regresso dos KTU, incendiário projecto do acordeonista finlandês Kimmo Pohjonen acompanhado pela secção rítmica dos King Crimson (o baixista Trey Gunn e o baterista Pat Mastelotto); e a estreia em Portugal do duo de Justin Adams (guitarrista que já colaborou, ou ainda colabora, com Brian Eno, Jah Wobble, Natacha Atlas, Tinariwen, Sinéad O'Connor, Robert Plant...) com Juldeh Camara, um griot da Gâmbia que canta e toca o violino de uma corda só ritti, ambos acompanhados pelo percussionista Salah Dawson Miller, que fez parte dos míticos 3 Mustaphas 3. Datas das actuações: Bassekou Kouyate a 17 de Julho (em Porto Covo); Justin Adams & Juldeh Camara a 23 de Julho; KTU a 25 de Julho.

18 janeiro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XXXVI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXVI.1 - Inti-Illimani


Nascidos no caldeirão da «nueva canción» chilena, em 1967, ao lado de Victor Jara ou dos Quilapayún, entre outros, os Inti-Illimani cedo se destacaram como uma das vozes mais importantes da esquerda revolucionária do Chile. Com uma música assente na tradição sul-americana mas também com ecos da folk vinda dos Estados Unidos, e com letras de intervenção política e social - bem presentes no seu álbum de estreia, homónimo, em 1968, e em «Canto al Programa», de 1969, que era uma adpatação musical do programa político de Salvador Allende -, os Inti-Illimani começaram a levar as suas canções a muitos países do mundo. E foi exactamente durante uma das suas digressões que aconteceu o golpe de estado de extrema-direita em Santiago do Chile, liderado por Pinochet, em 1973. O grupo estava em Itália, país do qual fizeram a sua base de actuação até 1988, quando regressaram ao país-natal.


Cromo XXXVI.2 - Zulya


Mais um excelente exemplo de como se pode fundir a música tradicional com outras músicas - neste caso, o rock, o jazz, leves pitadas de electrónicas... - é o da espantosa cantora Zulya (aka Zulya Kamalova), de origem tártara e russa mas radicada na Austrália desde 1991. Na sua música - espalhada por álbuns como «Aloukie», «The Waltz of Emptiness (and Other Songs on Russian Themes)» ou «3 Nights» -, boa parte dela constituída por originais seus e dos seus companheiros nos Children of The Underground, há quase sempre ecos de uma música antiga, vinda das estepes, mas também uma modernidade assumida sem medos nem complexos. Ao longo da sua carreira tem colaborado com artistas como Bob Brozman, Nikola Parov, Slava Grigoryan, Sirocco, Llew Kiek e Epizo Bangoura, tendo também encetado parcerias com músicos aborígenes australianos.


Cromo XXXVI.3 - Ba Cissoko


A kora é um dos instrumentos musicais mais emblemáticos da cultura mandinga. Tocada há séculos por milhares de griots da África Ocidental, é um cordofone acústico, mágico, sagrado. Mas há quem se atreva a... electrificá-la e com isso a aproximá-la do rock e dos blues. Quem o faz são os Ba Cissoko, grupo liderado pelo intérprete de kora com o mesmo nome, Ba Cissoko, que canta e toca kora acústica e deixa para o seu primo Sékou Kouyaté a kora eléctrica. Os outros elementos deste grupo da Guiné-Conacri, Kourou Kouyaté (bolon e baixo) e Ibrahim Bah (percussões), contribuem para um som novo, cheio, arrebatador, em que as referências maiores são a música tradicional mandinga e... Jimi Hendrix. Não por acaso, o segundo (e extraordinário) álbum dos Ba Cissoko chama-se «Electric Griot Land» (2006), numa alusão directa a Hendrix. O álbum de estreia, «Sabolan», tinha sido editado em 2004.


Cromo XXXVI.4 - Kimmo Pohjonen


Ele tem um passado feito em grupos punk... e talvez assim se perceba toda a energia, fúria, inventividade, gosto em quebrar barreiras que ele tem. Ele, o acordeonista Kimmo Pohjonen (na foto, de Maxim Gorelik), é finlandês, nasceu a 16 de Agosto de 1964 e é um dos mais inclassificáveis artistas do circuito da chamada world music. E está tão à vontade neste circuito como poderia estar no do rock, do jazz de vanguarda, da música erudita contemporânea, da electrónica experimental. E como está, de facto! Hiper-activo, sempre inconformado e sempre à procura de novos sons, Pohjonen grava e apresenta-se a solo mas também com muitos outros projectos: Kluster (em duo com Samuli Kosminen), Uniko (os Kluster com o Kronos Quartet), KTU (com Pat Mastelotto e Trey Gunn, ambos dos King Crimson), Animator (com a videasta Marita Liulia), entre outros.

28 dezembro, 2007

Rabih Abou-Khalil, Mari Boine, Balanescu Quartet... - Os Primeiros Concertos de 2008


O ano de 2008 promete muitos e bons concertos, muitos e ainda melhores festivais. O 10º aniversário do FMM de Sines - que decorre de 17 a 26 de Julho e para o qual está já confirmada a presença dos congoleses Kasai Allstars -, o crescimento sustentado de outros festivais como o MED de Loulé ou o Intercéltico de Sendim, só para referir alguns dos mais óbvios, são garantias de doze meses de programação variada e rica de surpresas nestas «áreas» da world music, da folk e das músicas tradicionais. Mas, para já - e fazendo uso de informações já disponibilizadas pelas Crónicas da Terra -, para os primeiros meses do ano novo estão previstos concertos com o mestre do alaúde libanês Rabih Abou-Khalil (na foto), dia 18 de Janeiro no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, e um dia depois, na Culturgest, em Lisboa; com a fabulosa cantora norueguesa Mari Boine (ver «Cromo» de há alguns dias neste blog), dia 15 de Fevereiro no Teatro Municipal da Guarda e um dia depois na Culturgest, em Lisboa; com o ecléctico quarteto de cordas Balanescu Quartet, também em Fevereiro, dia 7 no Centro Cultural de Belém, dia 8 no Theatro-Circo de Braga e dia 9 no Cine-Teatro de Alcobaça; e com o multi-instrumentista norueguês Karl Seglem, dia 15 de Maio, na Casa da Música, Porto. Lá mais para a frente, a Casa da Música recebe também a visita de outro colectivo congolês, os Konono Nº1, dia 29 de Junho, durante o Festival Mestiço, colectivo que se apresenta também em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, dia 1 de Agosto.

10 dezembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXXIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXIII.1 - Mari Boine


A extraordinária cantora norueguesa Mari Boine (nascida a 8 de Novembro de 1956, em Finnmark, Noruega) é, ao mesmo tempo que carrega consigo as tradições mais antigas do povo sami (a designação correcta dos lapões), uma criadora aberta a diversas influências - rock, jazz, electrónicas -, que inclui na sua música. Dona de uma voz moldada no estudo e na prática do canto yoik - comum ao povo sami, que se espalha pela Noruega, Finlândia, Suécia e Rússia -, Boine soube sempre fazer a ponte entre músicas diferentes e, sempre também, pôr o todo ao serviço da defesa do seu povo, vítima de abusos por parte das diversas autoridades escandinavas, à semelhança do que se passa com os índios da Amazónia e da América do Norte ou os aborígenes australianos. O seu primeiro álbum internacional, «Gula Gula» (1989), foi editado pela Real World e parte do mundo tomou conhecimento dela, e através dela, da música dos samis.


Cromo XXXIII.2 - Antibalas Afrobeat Orchestra


Grupo nova-iorquino, de Brooklyn, mas com músicos de várias origens, a Antibalas Afrobeat Orchestra (agrupamento também conhecido, simplesmente, como os Antibalas e, mesmo no início, como Conjunto Antibalas) foi formada em 1998 por músicos que tinham tocado na banda Africa 70 (do lendário Fela Kuti) e da Eddie Palmieri's Harlem River Drive Orchestra. E, naturalmente, a base da sua sonoridade é o afro-beat tal como desenhado por Kuti, mas integrando também outras influências (música mandinga, música cubana, funk, jazz, dub, hip-hop...). Incluindo nas letras dos seus originais fortes mensagens políticas - à semelhança do seu «mentor» nigeriano -, os Antibalas editaram o seu primeiro álbum, «Liberation Afrobeat Vol. 1», em 2000, ao qual se seguiram «Talkatif» (2002), «Who is This America?» (2004) e «Security» (2007), este último surpreendentemente produzido John McEntire (dos Tortoise).


Cromo XXXIII.3 - Nitin Sawhney


Nitin Sawhney (nascido em Rochester, Kent, em 1964) é inglês mas de origem indiana e um verdadeiro cidadão do mundo, no sentido em que busca inúmeras sonoridades para as incluir na sua música. Nitin é um mago das electrónicas mas também toca piano, guitarra clássica (chegou a estudar flamenco na sua juventude), sitar e tablas. É produtor, compositor, DJ, arranjador, remisturador... e sempre com um bom-gosto acima de qualquer suspeita. A sua chegada à alta-roda musical deu-se quando começou a fazer parte do grupo de acid-jazz The James Taylor Quartet, do qual saiu para formar a sua própria banda The Jazztones. Outro marco fundamental da sua carreira foi a colaboração com outra luminária, Talvin Singh, no Tihai Trio. Depois, chegou a fazer comédia - com sucesso - na BBC, antes de se ter lançado numa frutuosíssima carreira musical a solo, em 1993, com o álbum «Spirit Dance». Temas de Sting, Natacha Atlas, Nusrat Fateh Ali Khan ou Paul McCartney - que também canta num tema do seu último álbum, «London Undersound» (2008) - já foram remisturados por ele.


Cromo XXXIII.4 - Spaccanapoli


Spaccanapoli é a enorme avenida que separa Nápoles em duas metades. Mas é também o nome de uma banda musical que tem as suas origens longínquas num grupo operário de intervenção criado durante os anos 70, o ‘E Zezi, de Pomigliano D’Arco, onde se reuniam trabalhadores da indústria automóvel para fazer teatro, música, política... E a base teórica da sua música é a pesquisa exaustiva de canções tradicionais napolitanas, de outras regiões italianas e da bacia do Mediterrâneo. Mas dizer isso é dizer muito pouco para se caracterizar a música dos Spaccanapoli: uma música viva, pulsante, actualíssima. Formados por Marcello Colasurdo (voz e tammorra - uma enorme pandeireta), Monica Pinto (voz), Antonio Fraioli (violino e percussão), Oscar Montalbano (baixo e guitarra) e Emilio De Matteo (guitarra), os Spaccanapoli tiveram no seu álbum «Lost Souls - Aneme Perze», publicado pela Real World, um marco da folk europeia.

26 setembro, 2007

Júlio Pereira, Diabo a Sete e Stockholm Lisboa Project - As Viagens da Música Portuguesa


Uma nova fornada de discos portugueses ocupa hoje o - agora recuperado depois de uma intensa época de festivais - espaço de «crítica» discográfica do Raízes e Antenas: o novo álbum de Júlio Pereira e os álbuns de estreia dos Diabo a Sete (na foto; de Santos Simões) e do Stockholm Lisboa Project. Todos a porem a música portuguesa - de raízes variadas - em diálogo com outras músicas.


JÚLIO PEREIRA
«GEOGRAFIAS»
Som Livre/Valentim de Carvalho

Júlio Pereira é um dos mais importantes músicos e compositores portugueses dos últimos trinta anos. Começando a sua carreira em grupos rock dos anos 60 e princípios de 70, torna-se depois presença constante nas gravações de alguns dos nomes incontornáveis da música popular portuguesa (José Afonso, Fausto...) e assina, já nos anos 80, um álbum genial de nome «Cavaquinho», em que recupera esse instrumento «perdido» do nosso património e para ele inventa (ou reinventa, através de versões pessoalíssimas de temas tradicionais) um novo lugar na hierarquia dos cordofones portugueses. E o mesmo faz com o bandolim no álbum «O Meu Bandolim». Bandolim que - muitos discos depois e uma fama que existe mais junto dos seus colegas de ofício, em Portugal e na Galiza, do que junto do grande público - é o instrumento central do seu novo álbum, «Geografias», mas com uma novidade absoluta na carreira de Júlio Pereira: neste álbum, Júlio Pereira - que geralmente grava quase todos os instrumentos dos seus discos - partilhou a gravação com outros dois músicos em permanência, Bernardo Couto (em guitarra portuguesa) e Miguel Veras (em viola acústica), e, a espaços, com Quico Serrano (sintetizadores e percussões) e três cantoras - Sara Tavares, Marisa Pinto e Isabel Dias - que no álbum têm a função mais de «instrumentistas da voz» do que propriamente de «vocalistas». E o álbum mostra, para além de um leque de soluções harmónicas muito mais aberto do que é normal nos discos de Pereira, uma música mais orgânica, mais verdadeira (de banda!) e - mercê de composições de Júlio Pereira especialmente inspiradas - a viajar entre a música portuguesa (seja o fado ou a música tradicional rural) e a música de outros lugares: o Magrebe, a África negra, o Brasil, o País Basco... E há no álbum uma luz, uma alegria e uma vivacidade que há muito não se ouviam em Júlio Pereira. É tudo bom? Não, há aqui e ali uns pós de sintetizadores - ora pomposos, ora apenas deslocados - que não faziam falta nenhuma. Mas não chegam para estragar o conjunto. (8/10)


DIABO A SETE
«PARAINFERNÁLIA»
Açor/Megamúsica

É uma coincidência feliz falar do (lindíssimo!, diga-se desde já) álbum de estreia dos Diabo a Sete a seguir ao novo álbum de Júlio Pereira. E é-o porque Pereira é, sem dúvida, uma influência decisiva na música deste grupo de Coimbra: tanto no uso dos cordofones como na sua abordagem à música tradicional portuguesa e na sua abertura a outras músicas. Mas essa influência, se bem que importante, é apenas um dos elementos da música feita pelos Diabo a Sete. Partindo muitas vezes do cancioneiro popular (Madeira, Trás-os-Montes, Alentejo, Algarve...) mas aventurando-se também em muitos temas originais mas de inspiração tradicional - quase todos de Pedro Damasceno (o homem dos cordofones e da concertina) -, os Diabo a Sete seguem depois por inúmeros caminhos que tanto os levam ao rock como ao reggae como à chamada «música celta» como às «danças europeias», mas sempre com um bom-gosto, uma leveza, uma facilidade (no bom sentido da palavra, isto é, no sentido de «naturalidade») e uma beleza genuínos. Peças fundamentais no som do grupo são, para além dos instrumentos tocados por Damasceno, a voz e a sanfona de Julieta Silva (ela também dos Chuchurumel), a gaita-de-foles de Celso Bento e uma secção rítmica rara neste tipo de projectos: o baixo eléctrico de Eduardo Murta e a bateria de Miguel Cardina, que se remetem quase sempre a uma posição discreta mas fundamental para a coesão do resultado final. E se não destaco aqui um ou outro tema, a razão é simples: porque este é um álbum para ouvir do princípio ao fim, sem pontos mortos ou temas menos interessantes. Um álbum importante. (8/10)


STOCKHOLM LISBOA PROJECT
«SOL»
Nomis Muzik

Aventura interessantíssima - se bem que resulte muito melhor na prática do que na teoria, e já vamos a essa questão -, o Stockholm Lisboa Project é essencialmente o projecto de um grupo de músicos amigos de dois países separados por milhares de quilómetros de distância: os portugueses Luís Peixoto (também dos Dazkarieh; em bandolim e bouzouki) e Sérgio Crisóstomo (ex-At-Tambur; em violino) e o sueco Simon Stalspets (em bandola e harmónica), aos quais se juntou numa fase posterior a fadista Liana. Do gosto comum em fazer música passou-se para a procura, não sistemática, de possíveis e eventuais pontos em comum entre a música portuguesa e a música sueca, de que são exemplos neste disco o original, mas com cheiro a corridinho algarvio, «Sol de Janeiro» com uma polska tradicional escandinava, ou exemplo ainda mais feliz, o «Fado do Ribatejo» com uma valsa, a «Hopers Vals». Mas são «filhos» quase únicos desta tentativa de ligação entre músicas tão distantes. E nisso, a «teoria» falha. Mas, agora a parte boa: se ouvirmos o álbum sem pensarmos nesta questão formal, se o ouvirmos pelo simples prazer de ouvir música, e boa música!, o álbum resulta espantosamente bem, com os instrumentos - e as músicas que eles transportam, sejam lá de onde for - a encaixarem-se na perfeição e a voz de Liana (muito boa cantora!), quando aparece e seja em fados ou não, a coroar com distinção esta música viva e solarenga, mesmo que por vezes melancólica. A propósito: «sol» quer dizer o mesmo em português e em sueco. (7/10)

28 fevereiro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XIII.1 - Salif Keita



O maliano Salif Keita (nascido a 25 de Agosto de 1949, em Djoliba) é na actualidade um dos mais famosos cantores e compositores africanos, com a sua junção única - e por vezes mal-amada - de música mandinga, pop, soul, funk, jazz, etc, etc... Mas a sua origem não fazia adivinhar uma carreira na música: nascido albino - sinal de azar e desgraças iminentes na sua região - e no seio de uma família nobre (Salif descende do fundador do Império Mandinga, Sundiata Keita), as suas ambições musicais foram no início tolhidas pela família, que via a música como uma actividade menor, reservada aos griots. Mas tudo muda quando, em 1967, se instala em Bamako e começa a actuar com grupos como a Rail Band (ao lado de Kante Manfila) e, na continuação, Les Ambassadeurs. Em 1984 muda-se para Paris e a sua carreira internacional cresce, fulgurante. Audições aconselhadas: «Soro», «Destiny of a Noble Outcast» e «M'Bemba».


Cromo XIII.2 - Värttinä



Grupo fundamental da folk escandinava, as finlandesas Värttinä iniciaram a sua carreira em 1983, em Raakkyla, na região da Karelia. Fundado pelas irmãs Sari e Mari Kaasinen (que continua a liderar o grupo), as Värttinä tiveram variadíssimas formações ao longo dos anos (chegaram a incluir um coro de 21 crianças), cantoras entraram e saíram, as portas abriram-se aos homens (actualmente, as Värttinä incluem seis músicos homens na sua formação), mas nunca perderam o contacto com a música tradicional da sua Karelia-natal, apesar de nos últimos anos a sua música se ter aproximado perigosamente da pop, principalmente quando o grupo trocou os temas tradicionais pelas suas próprias canções. Mais recentemente, trabalharam com o famoso compositor indiano A.R. Rahman (o mesmo da banda-sonora de «Quem Quer ser Bilionário») no musical «O Senhor dos Anéis». Audições aconselhadas: os álbuns «Värttinä» e «Oi Dai».


Cromo XIII.3 - Michel Giacometti



Às vezes, há estrangeiros que são mais portugueses do que muitos portugueses. E Michel Giacometti (na foto, durante as gravações com um gaiteiro) é disso um dos maiores e melhores exemplos. O etnomusicólogo corso (nascido em 1929, falecido em 1990) foi o responsável pela recolha de centenas de obras musicais portuguesas achadas nas aldeias de norte a sul do país, pela gravação de cantos, aboios, música de instrumentos em vias de desaparecimento, pela captação escrita e fotográfica de uma realidade e diversidade portuguesa riquíssima. Andarilho do mundo (Córsega, África, Suécia, Paris...), Giacometti fixou-se em Portugal em finais dos anos 50. Material de audição aconselhado: a caixa de CDs «Antologia da Música Regional Portuguesa» (em conjunto com Fernando Lopes-Graça), também conhecida originalmente, aquando da sua edição em vinil, como os «Discos da Serapilheira», e a histórica série televisiva «Povo Que Canta».


Cromo XIII.4 - Culcha Candela



Os Culcha Candela são um grupo multi-racial berlinense que se tem destacado com uma poderosa e irresistível mistura de hip-hop, reggae, música latina e dancehall. Cantando em três línguas - espanhol, alemão e inglês - os Culcha Candela formaram-se em 2002, tendo na sua formação os cantores e MCs Jonny Strange (Uganda), Mr.Reedoo (Alemanha), Larsito (Colômbia), Don Cali (Colômbia), Lafrotino (Colômbia) e Itchyban (Polónia) e o DJ Chino con Estilo (Coreia). Com uma fortíssima componente de intervenção política (vd. o seu DVD «Kein Bock auf Nazis», em que confrontam directamente os movimentos nacionalistas e neo-nazis alemães), os Culcha Candela são senhores de um culto cada vez mais alargado na Alemanha e noutros países europeus. Audições aconselhadas: os álbuns «Union Verdadera» e «Next Generation».

14 novembro, 2006

Mari Boine, Frigg, Suden Aika e Gjallarhorn - Auroras Boreais


A música folk escandinava assiste, desde há muitos anos, a uma constante renovação e reinvenção, sempre feita a partir das raízes mais profundas das suas músicas tradicionais mas sempre, também, com os olhos postos no futuro. Hedningarna, Garmarna, Vasen, Varttina e Kimmo Pohjonen são apenas alguns exemplos dessa revolução. Outros quatro nomes fundamentais - a veterana Mari Boine, os Gjallarhorn (na foto), as Suden Aika e os mais novinhos Frigg, todos com álbuns recentes - contribuem bastante para esta belíssima e eterna aurora boreal.


MARI BOINE
«IDJAGIEDAS»
Lean/Universal Music Norway

A cantora e compositora norueguesa Mari Boine é a maior embaixadora da música do povo sami, da Lapónia, levando a todo o mundo este canto ancestral, o yoik, por vezes próximo do dos índios norte-americanos e dos esquimós, e sempre, sempre, extremamente belo. Dada a conhecer noutros países da Europa e nos Estados Unidos pelo álbum «Gula Gula» (1989), editado pela Real World, a música de Mari Boine tem-se afastado, em termos de arranjos, da tradição pura e dura, nunca temendo incluir na sua música elementos do jazz, do rock ou das electrónicas. No seu novo álbum, «Idjagiedas», o seu canto parece voltar a um estado de pureza inicial (as canções foram escritas na sua maioria por Rauni Magga Lukkari e Karen Anne Buljoe, duas importantes poetisas bastante empenhadas - tal como Mari Boine - nos direitos do povo sami), mas a sua envolvência está aberta a muitas outras formas musicais: andam por aqui electrónicas mas nunca em demasia e, entre outros instrumentos, uma guitarra eléctrica nas mãos do mago do jazz Terje Rypdal, koras, darabukas e kissanges vindos de África, um cavaquinho (!) e duas vozes femininas adicionais a contribuir decisivamente para o efeito final (estas duas principalmente no estranho e lindíssimo tema bleep-hop-experimental «Uldda Nieida»). Mas todo o álbum está, sempre, num nível altíssimo. (9/10)


FRIGG
«KEIDAS»
North Side Records

Grupo instrumental em que se juntam músicos noruegueses e finlandeses, os Frigg mostram ao segundo álbum uma maturidade e um bom-gosto raramente atingíveis. Com três (por vezes quatro) violinos incendiários, o septeto parte da música tradicional da Kaustinen (na Finlândia) e Nord-Trondelag (Noruega) para se atirar a polskas, valsas e outras danças tradicionais, adicionando-lhes pitadas de jazz, country, música do Québec e folk de inspiração «céltica», com a ajuda dos violinos e de outros instrumentos como bandolim, contrabaixo, bouzouki, nickelharpa, viola d'arco, saltério, guitarra, órgão de igreja, algumas percussões e uma gaita-de-foles no último tema. Sempre com uma alegria, um saber e um sentido de divertimento enormes (a que também não falta bastante sentido de humor: o tema-título «Keidas», que significa «oásis», tem como comentário «don't look back in Tanger», trocadilho com o famoso tema dos... Oasis). E sempre, também, com um apuramento técnico ao alcance de pouquíssimos músicos - a conferir, por exemplo, na velocidade estonteante de «Fantomen» ou «Solberg» -, fruto dos seus estudos na respeitadíssima Academia Sibelius e junto de Mauno Jarvela, dos JPP, pai de dois dos membros dos Frigg. (8/10)


GJALLARHORN
«RIMFAXE»
Vindauga Music/Westpark Music

Finlandeses - mas com as canções a serem interpretadas em sueco -, os Gjallarhorn são, cada vez mais, o projecto pessoalíssimo da fabulosa cantora (e flautista) Jenny Wilhelms. Neste quarto álbum, «Rimfaxe», quase todos os músicos, à excepção, claro, de Jenny, têm pouco tempo de grupo - até Tommy Mansikka-Aho, que com o seu didgeridoo dava os drones mágicos de muita da música dos Gjallarhorn, foi recentemente substituído por Goran Manssonjoined num estranho, mas por vezes com um efeito próximo do didgeridoo, «sub contrabass recorder». Mas isso não impede que a música dos Gjallarhorn - quarteto que é completado por Adrian Jones (violino e bandola) e Petter Berndalen (percussões) - continue a ser uma maravilha onde vale quase tudo e tudo é bem-vindo. Da pop do tema-título às recriações da música tradicional sueca (ou nascida na região da Finlândia em que o sueco é a língua dominante) à maneira dos Hedningarna (como no segundo tema, «Kokkovirsi»), de uma folk que evoca Sandy Denny e os Fairport Convention em «Systrarna» ao rock progressivo de «Blacken», do encantamento hipnótico de «Hymn» à beleza pura de ««Norafjelds», do estranhíssimo mas vibrante «aboio» de «iVall» à música irlandesa em «Graning» (cantada por Jenny em gaélico)... Muitos dos temas do álbum vêm directamente da Idade Média mas, através dos Gjallarhorn, já estão num futuro qualquer. (9/10)


SUDEN AIKA
«UNTA»
Zen Master/Rockadillo Records

Ouvir «Unta», das Suden Aika, é ouvir um rio que corre e salta sem parar, quatro sereias a tirar férias das coisas más que as sereias fazem usualmente, o som de mil pássaros escondidos numa floresta cerrada estranhamente cheia de sol, o reflexo de raios estelares a baterem num vitral com imagens rendilhadas de cavaleiros heróicos, sangrentos e galãs, runas decifradas em canto gregoriano... As finlandesas Suden Aika são quatro cantoras - Tellu Turkka (ela que já foi Tellu Virkkala, quando cantava nos suecos Hedningarna; também em moraharpa, sanfona, saltério, oud e percussões), Liisa Matveinen (que substituiu Tellu nos Hedningarna e que com ela - depois do regresso de Tellu ao grupo sueco - protagonizou duelos vocais inesquecíveis; também em saltério), Nora Vaura (também em flauta) e Katariina Airas. «Unta» é o terceiro álbum das Suden Aika, grupo que se formou a partir do álbum a solo com o mesmo nome que Tellu protagonizou depois da sua saída (e antes do seu regresso, depois seguido por nova saída...) dos Hedningarna, álbum em que Liisa Matveinen já colaborava e que marcou o início de uma profícua colaboração entre as duas: os «duelos» nos Hedningarna e a composição repartida pelas duas dos temas das Suden Aika. E «Unta», apesar de ter alguns momentos fracos, é na sua maior parte de uma beleza única, frágil e incisiva. (7/10)

29 outubro, 2006

Cromos Raízes e Antenas II


Na ressaca da WOMEX, em Sevilha (notas soltas sobre os concertos do festival ficam prometidas para os próximos dias), este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo II.1 - Master Musicians of Jajouka



Circular, hipnótica, antiga, a música dos Master Musicians of Jajouka, das montanhas do norte de Marrocos, foi tema de análise por parte de escritores - Paul Bowles, Brion Gysin e William S. Burroughs (que deles disse serem uma «banda de rock'n'roll com quatro mil anos de existência») - antes de serem «mostrados» ao ocidente através de Brian Jones, guitarrista dos Rolling Stones, que editou o álbum «Brian Jones Presents The Pipes Of Pan At Jajouka» (1971). A partir daí têm editado regularmente até agora, inclusive um disco - «Master Musicians of Jajouka Featuring Bachir Attar» (2000) - em que experimentam cruzamentos da sua música com as electrónicas de Talvin Singh. Misto de música berbere e música árabe, os Masters Musicians of Jajouka usam como instrumentos primordiais a voz, percussões, flautas, a rhaita (gaita) e o guimbri (baixo acústico rectangular).


Cromo II.2 - Alan Lomax


O musicólogo e etnólogo norte-americano Alan Lomax (nascido a 31 de Janeiro de 1915; falecido a 19 de Julho de 2002) foi um dos mais importantes recolectores de música tradicional do século XX, tendo feito trabalho no terreno principalmente nos Estados Unidos, Ilhas Britânicas, Itália, Espanha e Caraíbas. Filho de John Lomax - que foi um dos pioneiros na recolha de canções tradicionais norte-americanas -, Alan seguiu os passos do pai e gravou milhares de temas musicais e entrevistas com músicos (Jelly Roll Morton, Leadbelly, Woody Guthrie...), tendo começado essa actividade com o registo de cantos de trabalhadores negros dos campos de algodão e de prisioneiros no Texas, Louisiana e Mississippi. Alan é também o autor de uma teoria de análise musical aplicada à música tradicional, «cantometrics», que ele desenvolveu a partir de 1959 em conjunto com o departamento de Antropologia da Universidade de Columbia.


Cromo II.3 - Hedningarna


Precursores de muitos dos projectos que cruzam a música tradicional com linguagens musicais mais recentes, o grupo sueco Hedningarna lançou em 1987 um explosivo cocktail que, ao longo dos anos, tem incluído música tradicional de várias regiões da Escandinávia (o grupo chegou a viver muito da criatividade de duas cantoras finlandesas e um cantor de yoik), rock e electrónicas. Construindo alguns dos seus instrumentos - réplicas de instrumentos antigos como a sanfona, moraharpa, nickelharpa ou gaitas-de-foles - e muitas vezes electrificando-os, os Hedningarna lançaram o seu primeiro álbum, homónimo, dois anos depois, e são considerados, mais que justamente!, o mais importante grupo folk da Escandinávia das últimas duas décadas. Outros álbuns aconselhados: «Kaksi!», «Trä» e «Karelia Visa».


Cromo II.4 - Didgeridoo


Inventado pelos aborígenes australianos, que o usam como instrumento de eleição para fins recreativos mas essencialmente em rituais religiosos, e agora adoptado por milhares de músicos em todo em mundo (nomedamente em inúmeras bandas rock e folk), o didgeridoo é um aerofone feito de madeira (maioritariamente de eucalipto), um tubo oco e comprido (entre um a dois metros de comprimento) que pode amplificar naturalmente a voz, que a transforma e que serve muitas vezes para criar drones (bordões) intermináveis. Há quem diga que é o instrumento de sopro mais antigo que se conhece, mas não há provas da veracidade desta afirmação embora estudos arqueológicos refiram a existência de didgeridoos desde há, pelo menos, mil e quinhentos anos.