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18 julho, 2010

Cacharolete de Álbuns (Híbridos e Sem Ligações Aparentes)


As músicas, cada vez mais, viajam livremente entre várias épocas e vários continentes e vários géneros. E ainda bem. Hoje aqui ficam mais quatro bons exemplos de músicas híbridas, rafeirosas (e todos nós sabemos que os melhores bichos também o são), abertas... Senhoras e senhores, os Tribeqa, Carolina Chocolate Drops, ErsatzMusika e Cibelle (na foto,de Socrates Mitsios), tal como vistos por mim há alguns meses na "Time Out Lisboa".


Tribeqa
"Tribeqa"
Underdog/Massala
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A base da sua música é o jazz, mas os franceses Tribeqa juntam-lhe funk, bossa-nova, soul, hip-hop (está aqui DJ Greem, dos C2C e Hocus Pocus, no scratch), música árabe e um quase omnipresente balafon mandinga (e a flauta do marfinense Magic Malik num dos temas) a levar tudo para África. Liderados pela compositora, vocalista e percussionista (incluindo o balafon e o vibrafone) Josselin Quentin, os Tribeqa partem de Nantes para visitar variadíssimas “músicas do mundo” mas com um som muito próprio e original. Um dos treze temas de "Tribeqa" – álbum homónimo e de estreia do grupo - tem título em português, “O Bêbado”, e, de facto, é o delírio alcoólico-musical mais perfeito que alguma vez se fez; que nos perdoem Tom Waits, Shane MacGowan, Janis Joplin, Hanggai e Serge Gainsbourg.




ErsatzMusika
"Songs Unrecantable"
Asphalt Tango/Megamúsica
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Grupo formado maioritariamente por músicos russos, embora a viverem na Alemanha, os ErsatzMusika são um objecto (muito) estranho no meio musical da actualidade: a cantora, multi-instrumentista e compositora de muitos dos temas, Irina Doubrovskja, canta como se tivesse na voz Marlene Dietrich, Nico e Marianne Faithfull; e o som da banda vai – sem pudores nenhuns e como se todos pudessem conviver livremente - ao cabaret berlinense dos anos 30 e aos Velvet Underground, à música cigana do leste europeu e aos Echo and The Bunnymen, à Penguin Cafe Orchestra ou aos Doors. Mas em “Oy, Pterodactyl” soam como se os B-52's fizessem uma versão circense de um tema qualquer do Elvis Presley. Faz confusão? Sim. Mas depressa desaparece quando a paixão fala mais alto.



Carolina Chocolate Drops
"Genuine Negro Jig"
Nonesuch/Warner
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Produzido por Joe Henry, "Genuine Negro Jig" é o quarto álbum do fabuloso trio Carolina Chocolate Drops, um grupo que recria as antigas canções para cordas (banjo, rabeca, por vezes guitarra e autoharpa) da zona do Piedmont, transversal à Carolina do Sul e Carolina do Norte. Mas o trio, que apresenta ainda duas magníficas vozes (uma masculina e outra feminina), não usa só esses instrumentos para recriar temas de dixieland, blues, country e até folk inglesa e irlandesa: garrafões (soprados à velha maneira das “jug bands”), colheres percutidas, kazoo, invenções vocais (de beatbox a uma imitação das vozes guturais de Tuva) estão também presentes nesta música ao mesmo tempo muito antiga e absolutamente actual (não por acaso, um tema de Tom Waits encaixa que nem uma luva no restante conjunto).




Cibelle
"Las Vênus Resort Palace Hotel"
Crammed Discs/Megamúsica
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Apesar de ser brasileira, Cibelle tem-se afastado cada vez mais do carimbo “Brasil” e optado por um percurso próprio, pessoal, cada vez mais reconhecível como uma marca “Cibelle”. E isso é bom. No seu novo álbum, lindíssimo e hiper-equilibrado, Cibelle é ela mesma armada com o alter-ego Sonia Khalecallon, a mesma que nos dá as boas-vindas ao seu "Las Vênus Resort Palace Hotel"... E, como se pode por isso compreender, este é um álbum conceptual – onde nem faltam passarinhos e relógios a unir as faixas – cheio de belíssimas canções muito bem cantadas e onde a música exotica convive com a alt-country, electrónicas elegantes, o cabaret, lounge tropical, versões inesperadas ("007", "Os Marretas"...), a freak-folk e, sim, também alguma música brasileira, embora, “mutante”.

28 maio, 2010

Festim - Segunda Edição Arranca na Próxima Semana


Aproxima-se mais uma edição do Festim, festival de world music com epicentro em Águeda (d'Orfeu) e braços estendidos a vários municípios vizinhos. O último comunicado oficial reza assim:

«Terem Quartet (Rússia), Rare Folk (Espanha), Renato Borghetti (Brasil), Kilema (Madagáscar), Mahala Raï Banda (Roménia), Minyeshu (Etiópia), Serenata Guayanesa (Venezuela)

Todo o mundo no Festim, a partir de 2 Junho!


O Festim - festival intermunicipal de músicas do mundo apresenta, este ano, sete nomes em cartaz, registando-se duas estreias absolutas em Portugal: Terem Quartet e Minyeshu. Do Índico ao Mediterrâneo, do Cáucaso ao Chifre de África, dos Balcãs à América Latina, esta programação em rede aposta no fascínio da diversidade.

A partir de 2 Junho, o mundo em música, nos palcos e plateias do Festim! Cinco municípios vizinhos partilham um cartaz comum: Águeda, Sever do Vouga, Estarreja, Ovar e Albergaria-a-Velha. A iniciativa da d’Orfeu Associação Cultural, além da parceria intermunicipal como factor decisivo, conta ainda com o apoio do Ministério da Cultura / Direcção-Geral das Artes.

O festival inicia a 2 de Junho com os russos Terem Quartet e inclui ainda, até 17 de Julho, concertos de Rare Folk (Espanha), Renato Borghetti (Brasil), Kilema (Madagáscar) - que substitui os Narasirato, cuja tournée europeia foi cancelada - , Mahala Raï Banda (Roménia), Minyeshu (Etiópia) e Serenata Guayanesa (Venezuela). Os bilhetes para os concertos de sala estão já à venda. Toda a informação está disponível em www.festim.pt, sítio oficial do festival.

Universidade de Aveiro estuda impactos do Festim

A Universidade de Aveiro vai desenvolver, por ocasião desta 2ª edição do festival intermunicipal, um Estudo de Impactos e caracterização de públicos do Festim. Muito além do objecto artístico, interessa aprofundar um conhecimento sobre a dimensões socioeconómicas do evento e as mais-valias que um festival desta natureza aporta a cada um dos Municípios. Esta parceria da Universidade de Aveiro surge ao segundo ano do quadriénio previsto para o Festim - festival intermunicipal de músicas do mundo, com edições garantidas até 2012.

Programa dos 19 concertos no sítio oficial:
http://www.festim.pt/»

26 março, 2009

Cromos Raízes e Antenas XLIX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo XLIX.1 - Serge Gainsbourg


Polémico, provocador, alcoólico, pianista, pederasta, poeta genial, namorado de algumas das mulheres mais bonitas do mundo, realizador de cinema, fumador compulsivo, pintor, actor, compositor de muitas e desvairadas músicas (e com flirts... musicais variadíssimos, da chanson ao rock, ao reggae e ao jazz), Serge Gainsbourg (de verdadeiro nome Lucien Ginsburg, nascido a 2 de Abril de 1928; falecido a 2 de Março de 1991) foi uma das personagens mais importantes da música francesa do Séc.XX. Nascido numa família de judeus russos exilados em França, Gainsbourg iniciou a sua carreira como pianista em bares mas, durante os anos 60 e 70, firmou o seu nome como um dos cantores e, principalmente, compositores mais criativos da sua geração. Compôs - e com elas por vezes fez duetos e com elas, muitas vezes, se envolveu sentimentalmente - para cantoras e actrizes como Brigitte Bardot, Jane Birkin, Juliette Gréco, Françoise Hardy, Catherine Deneuve, Vanessa Paradis e, para disfarçar, para alguns homens como Alain Bashung ou Jacques Dutronc. Canções inesquecíveis: a sexualmente explícita «Je T'Aime... Moi Non Plus», «Bonnie and Clyde», «La Javanaise» ou a sua versão reggae, «Aux Armes et cetera», do hino francês.


Cromo XLIX.2 - «Il Canto di Malavita»


Envolta em controvérsia quando foi editada em Itália (e também, junto da comunidade italo-americana, nos Estados Unidos) por alegadamente fazer a apologia da Máfia, a colectânea «Il Canto de Malavita - La Musica Della Mafia» não deixa, por isso, de ser um extraordinário mostruário de uma música antiga, secreta, também ela cheia de códigos internos - à semelhança da organização que canta - e, sempre, de uma grande beleza. Feitas de raiva e tristeza, vingança e amor, sangue e honra, interpretadas muitas vezes num calão próprio, as canções de «Il Canto di Malavita» (editada em 2000 pela PIAS) foram resgatadas às ruas, casas e caves da Calábria pelos produtores Francesco Sbano, Maximillian Dax e Peter Cadera. Em «Il Canto di Malavita» ouvem-se ecos de tarantelas e canções napolitanas, rembetika e fado, amplificados pela voz de alguns intérpretes extraordinários como El Domingo, F. Cimbalo, Franco Caruso ou Salvatore Macheda. Uma segunda colectânea com a mesma temática, «Omertà, Onuri e Sangu — La Musica della Mafia Vol.2», foi editada dois anos depois.


Cromo XLIX.3 - DJ Dolores


Na música do brasileiro DJ Dolores, os géneros musicais do seu país, tradicionais ou não - frevo, baião, forró, maracatú, emboladas, música brega, ciranda, tropicalismo, samba, bossa-nova e muito mais... - cruzam-se com géneros exteriores - reggae, funk, rock, hip-hop, dancehall, surf music, klezmer, dub, house... - como se tivessem surgido, desde sempre!, para se cruzarem assim. DJ Dolores (de seu verdadeiro nome Helder Aragão) é DJ, produtor, compositor, chefe de «orquestra» - são inesquecíveis as suas actuações com a Orquestra Santa Massa - e faz isso tudo por igual e muitíssimo bem. Começando a sua carreira, no Recife, como designer gráfico, produtor de cinema e autor de bandas-sonoras, foi como DJ que o seu nome se tornou mundialmente conhecido, tendo - para além da sua obra em nome próprio - feito remisturas para nomes como os Taraf de Haidouks, Gilberto Gil, Fernanda Porto ou Tribalistas. Audição aconselhada: os álbuns «Contraditório» (2002), «Aparelhagem» (2005) e «1 Real» (2008).


Cromo XLIX.4 - L'Ham de Foc



Objecto raro e originalíssimo no meio da folk feita em Espanha, o duo valenciano L'Ham de Foc atirou-se com saber e mestria - e sempre ao longo dos seus vinte anos de existência - a uma música que vai beber a sua inspiração à música medieval, árabe, grega e sefardita transportando-as para a modernidade, podendo ser encontrados vários pontos de contacto entre o grupo e os Dead Can Dance, os Hedningarna ou até os Corvus Corax. Criados em 1998, em Valência, pela cantora e multi-instrumentista Mara Aranda e o multi-instrumentista Efrén López, os L'Ham de Foc fizeram um percurso sempre ascendente nos meandros da folk europeia, mercê da sua coerência na utilização apenas de instrumentos acústicos - sanfonas, alaúdes, sitar, harpa, vários saltérios e gaitas-de-foles a inúmeras percussões, europeias, asiáticas ou norte-africanas (num total de mais de trinta instrumentos). Em 1999 editaram o álbum de estreia, «U», seguido por «Cançó de Dona i Home» (2002) e «Cor de Porc» (2005). Desfeita a dupla, os seus membros encontram-se agora ligados a grupos como os Aman Aman, Sabir, Saba, Capella de Ministrers, Mara Aranda & Solatge ou Al Andaluz Project. (1)

(1) - Texto adaptado de um outro escrito por mim para o Festival MED de 2007.

07 outubro, 2008

Deolinda, Kimmo Pohjonen, Varttina e Cristóbal Repetto em Concertos Próximos


Os portugueses Deolinda, as finlandesas Varttina (na foto), o igualmente finlandês Kimmo Pohjonen - com o seu projecto Kluster - e um dos nomes mais importantes do novo tango, Cristóbal Repetto, têm todos concertos e digressões marcados para Portugal nas próximas semanas, com organização da Sons em Trânsito. É (para) ver:

Deolinda

17 Outubro - Teatro Aveirense, Aveiro
18 Outubro - Aula Magna, Lisboa
23 Outubro - Teatro José Lúcio da Silva, Leiria
05 Novembro - CAEP, Portalegre
13 Dezembro - Casa das Artes, Famalicão


Kimmo Pohjonen "Kluster"

30 Outubro - Teatro Aveirense, Aveiro
01 Novembro - Fundação Oriente, Lisboa
02 Novembro - Casa da Música, Porto


Varttina

02 Novembro - Casa da Música, Porto


Cristóbal Repetto

03 Novembro - Culturgest, Lisboa

10 setembro, 2008

Adeus Hector Zazou...


Soube da notícia através do Juramento Sem Bandeira. Uma notícia que me deixou particularmente triste: Hector Zazou faleceu anteontem, dia 8, com a idade de 60 anos. Cheguei a conhecer Hector Zazou pessoalmente, quando esteve em Portugal a produzir um álbum de Né Ladeiras que nunca foi acabado. Há alguns meses dediquei-lhe um texto na série «Cromos Raízes e Antenas» (aqui)... E, como não conseguiria expressar melhor do que o Vítor o que me vai na alma - e, mais a mais, partilhando com ele a mesma paixão pelos discos referidos -, aqui fica a notícia publicada ontem no Juramento:

«Hector Zazou (1948-2008)

Depois de duas notícias óptimas, uma que não é nada agradável. Faleceu ontem Hector Zazou. Ao longo de mais de trinta anos, o compositor e produtor francês deixou obras que foram um marco na produção europeia e mundial. Ao longo do percurso, trabalhou na companhia de um notável conjunto de vozes e músicos. Entre os mais conhecidos, constam, por exemplo, Laurie Anderson, Peter Gabriel, John Cale, Brian Eno, Björk, Kronos Quartet, Suzanne Vega, Lisa Germano, Jane Birkin, Värttina, Siouxsie Sioux, Ryuichi Sakamoto, Khaled, Brendan Perry e Lisa Gerard dos Dead Can Dance, Jane Siberry, Robert Fripp, Peter Buck, Mimi Goese dos Hugo Largo, Sainkho, Nils Petter Molvær, Carlos Nuñez e muitos outros. Musicou Rimbaud (no incontornável "Sahara Blue"), musicou a "La Passion de Jeanne d’Arc" de Dreyer, trabalhou a música clássica, a electrónica, a tradicional, aventurou-se pelas tradições nórdicas, irlandesas ou asiáticas e deu à voz feminina um tratamento que poucos souberam dar tão bem. Nesta altura, o luto vive-se também na Crammed, a editora belga por onde fez sair uma dezena discos e que agora lhe dedica algumas palavras. É, aliás, pela Crammed que vai sair brevemente "In the House of Mirrors", que foi este ano gravado na Índia.
Permitam-me acrescentar esta nota pessoal: "Chansons des Mers Froides" (1994), disco composto a partir de tradições nórdicas relacionadas com o mar, e "Sahara Blue" (1992), música para poemas de Rimbaud, na comemoração do seu 100º aniversário, foram discos que eu ouvi compulsivamente um atrás do outro há pouco mais de uma década atrás, e estou certo que contribuíram para o meu desenvolvimento auditivo, seja o que for que isto signifique. Quando morre o autor de dois discos da nossa vida, é triste.»

15 abril, 2008

Think of One, El Tanbura e Bedouin Jerry Can Band - O Deserto Já Chega à Bélgica


As visões mais catastróficas sobre o aquecimento global prevêem que daqui a algumas dezenas de anos todo o sul da Europa será um deserto: a Península Ibérica, sim, mas também partes de França, Itália, Grécia... Mas, pelo menos para já, em termos musicais o norte de África já chegou à Bélgica há alguns anos, via Think of One (na foto), banda que depois das derivações «brasileiras» volta agora a uma paixão antiga: a música norte-africana. E, para lhes fazer companhia neste texto, do norte de África mesmo - mais especificamente do Egipto - vêm os fabulosos El Tanbura e a surpreendente Bedouin Jerry Can Band.


THINK OF ONE
«CAMPING SHAÂBI»
Crammed Discs/Megamúsica

O grupo belga, de Antuérpia, Think of One - um dos mais consistentes e respeitados projectos da chamada world music, uma designação que neles assenta que nem uma luva, mercê da quantidade de cruzamentos musicais em que já estiveram envolvidos ao longo da sua carreira - está de volta a um território que conhece particularmente bem, a música magrebina, depois de dois álbuns em que namorou mais intimamente com a música brasileira. Neste «Camping Shaâbi», a música berbere, o gnawa e o sha'abi são a pedra de toque para uma música que, como habitualmente, envolve os géneros tradicionais em muitos outros géneros como o rock, o hip-hop (oiça-se o fortíssimo e interveniente «Oppressor»), o dub, o jazz, a música latino-americana ou o funk, tudo misturado com a sabedoria de quem já faz isto há muitos anos - «Camping Shaâbi» é o oitavo álbum do grupo - e sempre com um sentido global e de aventura notáveis. Rodeados de inúmeros músicos e cantores do norte de África, incluindo a cantora Ghalia Benali, e mais alguns convidados especiais - do trio belga Laïs e ao mentor da Crammed, Marc Hollander (que toca piano num dos temas) -, os Think of One atingem neste álbum alguns picos musicais notáveis como a faixa de abertura, «J'Étais Jetée», o já referido «Oppressor», o hipnótico «Gnawa Power», o inesperado «Hamdushi Five», o festivo «Où Tu Vas?» (na linha de Manu Chao) ou o fabuloso «Antwaarpse Shaâbi». (9/10)


EL TANBURA
«BETWEEN THE DESERT AND THE SEA»
World Village/Harmonia Mundi

E de sha'abi também se pode falar quando se fala de «Between The Desert and The Sea», o maravilhoso álbum dos El Tanbura, grupo egípcio de Port Said, ali no Mediterrâneo e ao lado do Canal do Suez. Com uma música em que entram vários instrumentos tradicionais (com destaque para a simsimiyya, uma harpa cuja origem remonta ao tempo dos faraós e que foi usada como instrumento de... exorcismos!, mas também flautas e muitas percussões) e variadas harmonias vocais, os El Tanbura misturam música sufi com canções de pescadores e sha'abi, criando melodias belíssimas, quase sempre hipnóticas e circulares mas bastante ricas em nuances e variações harmónicas. Canções tradicionais e alguns originais - essencialmente compostos por Zakaria Ibrahim, o líder do grupo - que falam de amor, de guerra ou de religião (como na mágica «Dundarawi», um tradicional sufi), mas também da convivência entre vários povos (como em «Sar A Lay», cantada num dialecto de beduínos e em núbio). Umas vezes mais acelerado - quando as percussões tomam a dianteira e levam as vozes e os outros instrumentos atrás -, de outras mais ambiental e contemplativo - principalmente quando a simsimiyya e outra harpa, a gandouh, estão em destaque -, «Between The Desert and The Sea» é uma experiência sonora lindíssima e difícil de esquecer. (9/10)


BEDOUIN JERRY CAN BAND
«COFFEE TIME»
30IPS/El Mastaba Center

Vizinhos dos El Tanbura, e com uma música que muitas vezes lhes é semelhante, os músicos e cantores da Bedouin Jerry Can Band habitam no deserto do Sinai, onde o norte de África se encontra com o Médio Oriente. Não por acaso, os El Tanbura colaboram neste álbum de estreia da BJCB, «Coffee Time», e um dos instrumentos usados pelo grupo é também a simsimiyya - ao lado de flautas, da magroona (gaita), rababa (um violino de uma corda só) e percussões inusitadas (jerrycans, sim!, e também caixas de munições abandonadas no deserto aquando das várias guerras que assolaram a região, bilhas de água, cafeteiras de metal...). Beduínos semi-nómadas fixados no oásis de El Arish, pertencentes a uma tribo de religião sufi, Suwarka - mas incluindo também membros de outras origens étnicas, como o poeta Soliman Agman Mohamed Agmaan -, os músicos da BJCB assinam neste álbum uma música pura, de raiz, riquíssima de ritmos e harmonias, aproximando-se aqui e ali de formas ocidentais conhecidas como... o rock (oiçam-se «Wesh Melek» ou «Mareia»). Tendo como manager Zakaria Ibrahim - pois, o líder dos El Tanbura e o mentor do El Mastaba, um centro para o desenvolvimento da música tradicional egípcia -, a Bedouin Jerry Can Band está, ao lado dos El Tanbura, a fazer um trabalho precioso de preservação das antigas tradições musicais daquele país. E nós só temos que lhes estar agradecidos por isso. (8/10)

24 março, 2008

Fest-i-Ball - Em Lisboa Também Se Dança


Os amantes das danças tradicionais têm este fim-de-semana uma boa oportunidade para desenferrujar as pernas e dar corda aos sapatos (ou não-sapatos) durante a quinta edição do Fest-i-Ball, que decorre de 28 a 30 de Março no Teatro da Luz, em Carnide, Lisboa. Durante os três dias de festival há workshops de tango e concertos/bailes dos Tanira e Dancing Strings (dia 28); workshops de saltos bascos, danças dos Ribatejo, danças a pares, danças portuguesas e gaita-de-foles e concertos/bailes dos No Mazurka Band e dos belgas Naragonia (dia 29; na foto); workshops de expressão corporal, danças búlgaras, «ceili dances», e acordeão diatónico e concerto/baile dos Naragonia (dia 30). Mais informações aqui.

29 janeiro, 2008

DJ Click, [dunkelbunt] e Gaetano Fabri - Quando o Mundo É a Pista de Dança (e Vice-Versa)


No passado fim-de-semana, depois dos concertos de Emir Kusturica, houve sessões after-hours «balcânicas» em Lisboa, no Santiago Alquimista, e no Porto, no Contagiarte, com vários DJs a passar música cigana de Leste. E, um pouco por todo o lado, há cada vez mais gente a fazer remisturas ou a especializar-se como DJs de variadíssimos géneros «locais» e/ou «globais». Podem-se citar alguns nomes, entre uma miríade de outros: Shantel, DJ Dolores, Mercan Dede, o menos conhecido mas excelente Uptown Joji (Daladala Soundz), etc, etc... Desta vez fala-se aqui de três outros DJs há muito rendidos à world music: DJ Click (na foto com a violinista de klezmer Estelle Goldfarb), Gateano Fabri e [dunkelbunt].


DJ CLICK
«FLAVOUR»
No Fridge

Membro do colectivo electro-jazz-world UHT, director da editora No Fridge, DJ e remisturador apaixonado por inúmeras músicas do mundo - e como ele as conhece bem, raios o partam! -, o francês DJ Click é um dos melhores, talvez mesmo o melhor, exemplo de como se podem transportar muitas músicas tradicionais para um futuro em que a música de judeus e muçulmanos, de ciganos espanhóis e do leste da Europa, de negros, de brancos e de mestiços de várias origens conseguem todas conviver, cruzar-se e obrigar toda a gente a dançar numa nave espacial utópica e cheia de músicas novas. Músicas novas como o dub, o electro, o drum'n'bass. Neste álbum estão cá, em estado puro ou muitas vezes remisturados por DJ Click, temas do turco Burhan Öçal, da espantosa cantora húngara Mitsoura, do alemão [dunkelbunt] - de quem falaremos a seguir -, dos Transglobal Underground, dos espanhóis Laxula, do argelino Rachid Taha, do projecto balcânico (produzido por DJ Click) Tziganiada, entre muitos outros. Uma festa pegada, sempre futurista mas sem deixar de ter, lá bem funda, a tradição. (9/10)


[DUNKELBUNT]
«MORGENLANDFAHRT»
Chat Chapeau/Soulseduction

Outro excelente álbum!... «Morgenlandfahrt» é apresentado, conceptualmente, como uma viagem ao longo do dia por vários países (Hungria, Sérvia, Turquia, Bulgária...), com gravações feitas nos locais pelo próprio [dunkelbunt]. Conceito à parte, o álbum é um cocktail sempre impecavelmente misturado num «shaker» onde convivem imensos sabores, de muita música original do alemão sediado na Áustria [dunkelbunt] a música já conhecida - ou especialmente feita para este álbum - de gente como a Amsterdam Klezmer Band, a Fanfare Ciocarlia, Ostblocket, Orient Expressions ou os 17 Hippies. Com vários MCs a puxar, e bem, pelas vozes e a dar pujança ao conteúdo da música, a música dos Balcãs, o klezmer, a música turca surgem aqui mergulhados num caldo onde o dub, o reggae, o jazz ou o trip-hop alteram marcadamente as músicas de raiz, sempre com o fito de criar uma música nova e original. Um objectivo mais que conseguido por [dunkelbunt], nome artístico de Ulf Lindemann. (8/10)


GAETANO FABRI
«NUIT TSIGANE»
Le Divan du Monde/Crammed Discs/Megamúsica

Embora seja o álbum musicalmente menos interessante deste lote, «Nuit Tsigane - Gypsy Night at Le Divan du Monde» é aquele que é capaz de ter mais apelo comercial: nele, o DJ belga Gaetano Fabri faz uma selecção avassaladora dos nomes mais - e alguns, menos - conhecidos da música cigana dos Balcãs, reunindo-os num todo homogéneo e, sempre, dançável. Com subtis alterações de pitch, acelerações, algum uso e abuso do dub, um ou outro efeito electrónico, Gateano Fabri remistura temas dos KAL, da Koçani Orkestar, da Fanfare Ciocarlia, dos Balkan Beat Box e dos Taraf de Haidouks, juntando ainda ao lote temas assinados por DJ Eastender, Beltuner, Romashka ou... o já referido DJ Click, aqui em parceria com a cantora Rona Hartner. E este álbum é o resultado, passado ao suporte CD, de muitas sessões de DJing de Gaetano Fabri no mítico teatro Le Divan du Monde, em Paris, um resultado que pode não ser absolutamente brilhante mas é uma boa fonte de referências para os apaixonados da música balcânica e uma mina de «pilhagens» possíveis para sets de DJ dos outros DJs todos. (7/10)

18 janeiro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XXXVI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXVI.1 - Inti-Illimani


Nascidos no caldeirão da «nueva canción» chilena, em 1967, ao lado de Victor Jara ou dos Quilapayún, entre outros, os Inti-Illimani cedo se destacaram como uma das vozes mais importantes da esquerda revolucionária do Chile. Com uma música assente na tradição sul-americana mas também com ecos da folk vinda dos Estados Unidos, e com letras de intervenção política e social - bem presentes no seu álbum de estreia, homónimo, em 1968, e em «Canto al Programa», de 1969, que era uma adpatação musical do programa político de Salvador Allende -, os Inti-Illimani começaram a levar as suas canções a muitos países do mundo. E foi exactamente durante uma das suas digressões que aconteceu o golpe de estado de extrema-direita em Santiago do Chile, liderado por Pinochet, em 1973. O grupo estava em Itália, país do qual fizeram a sua base de actuação até 1988, quando regressaram ao país-natal.


Cromo XXXVI.2 - Zulya


Mais um excelente exemplo de como se pode fundir a música tradicional com outras músicas - neste caso, o rock, o jazz, leves pitadas de electrónicas... - é o da espantosa cantora Zulya (aka Zulya Kamalova), de origem tártara e russa mas radicada na Austrália desde 1991. Na sua música - espalhada por álbuns como «Aloukie», «The Waltz of Emptiness (and Other Songs on Russian Themes)» ou «3 Nights» -, boa parte dela constituída por originais seus e dos seus companheiros nos Children of The Underground, há quase sempre ecos de uma música antiga, vinda das estepes, mas também uma modernidade assumida sem medos nem complexos. Ao longo da sua carreira tem colaborado com artistas como Bob Brozman, Nikola Parov, Slava Grigoryan, Sirocco, Llew Kiek e Epizo Bangoura, tendo também encetado parcerias com músicos aborígenes australianos.


Cromo XXXVI.3 - Ba Cissoko


A kora é um dos instrumentos musicais mais emblemáticos da cultura mandinga. Tocada há séculos por milhares de griots da África Ocidental, é um cordofone acústico, mágico, sagrado. Mas há quem se atreva a... electrificá-la e com isso a aproximá-la do rock e dos blues. Quem o faz são os Ba Cissoko, grupo liderado pelo intérprete de kora com o mesmo nome, Ba Cissoko, que canta e toca kora acústica e deixa para o seu primo Sékou Kouyaté a kora eléctrica. Os outros elementos deste grupo da Guiné-Conacri, Kourou Kouyaté (bolon e baixo) e Ibrahim Bah (percussões), contribuem para um som novo, cheio, arrebatador, em que as referências maiores são a música tradicional mandinga e... Jimi Hendrix. Não por acaso, o segundo (e extraordinário) álbum dos Ba Cissoko chama-se «Electric Griot Land» (2006), numa alusão directa a Hendrix. O álbum de estreia, «Sabolan», tinha sido editado em 2004.


Cromo XXXVI.4 - Kimmo Pohjonen


Ele tem um passado feito em grupos punk... e talvez assim se perceba toda a energia, fúria, inventividade, gosto em quebrar barreiras que ele tem. Ele, o acordeonista Kimmo Pohjonen (na foto, de Maxim Gorelik), é finlandês, nasceu a 16 de Agosto de 1964 e é um dos mais inclassificáveis artistas do circuito da chamada world music. E está tão à vontade neste circuito como poderia estar no do rock, do jazz de vanguarda, da música erudita contemporânea, da electrónica experimental. E como está, de facto! Hiper-activo, sempre inconformado e sempre à procura de novos sons, Pohjonen grava e apresenta-se a solo mas também com muitos outros projectos: Kluster (em duo com Samuli Kosminen), Uniko (os Kluster com o Kronos Quartet), KTU (com Pat Mastelotto e Trey Gunn, ambos dos King Crimson), Animator (com a videasta Marita Liulia), entre outros.

18 dezembro, 2007

Festival da Passagem d'Ano - Bailes Tradicionais (e Não Só) em Coimbra


O final de ano no Centro Norton de Matos, em Coimbra, não se vai resumir a um simples réveillon, sendo antes um autêntico festival de música e danças tradicionais que se estende por vários dias. Com organização da Tradballs e do Rodobalho, o Festival de Passagem d'Ano 2007-2008 decorre nos dias 28, 29, 30 e 31 de Dezembro (e, naturalmente, com entrada dia 1 de Janeiro dentro...) com muitos grupos a lançar o baile, workshops de danças e instrumentos musicais, cinema e farto convívio. Dia 28, o festival arranca à noite com uma «tertúlia trad» conduzida pelos Mosca Tosca (no Café Xuven). E, dia 29, já no Centro Norton de Matos, durante a tarde, há workshops de danças - bourrées, portuguesas, poitou e tango -, de instrumentos - concertina e adufe - e uma «tertúlia trad» com os belgas Triple-X, enquanto à noite passa o filme «11 Burros Caem no Estâmago vazio», de Tiago Pereira e há bailes/concertos com os Diabo a Sete (na foto; de Fábio Teixeira) e os Fol&ar. Dia 30 há mais workshops de danças - irlandesas, mazurka e «portuguesas d'arroba» (isto é, as danças «mandadas» pelos Alfa Arroba) -, de expressão dramática e de instrumentos - sanfona e gaita-de-foles - e uma «tertúlia trad» pelos Alfa Arroba, ficando para a noite o filme sobre o Andanças «Arritmia», de Tiago Pereira, e bailes/concertos com os Triple-X e os Bailebúrdia. Dia 31 aprende-se a bailar mais danças irlandesas, scottischs, danças ribatejanas, valsa mandada e danças de grupo, a tocar bandolim e acordeão e há uma «tertúlia trad» com Celina da Piedade, enquanto a noite de passagem d'ano fica por conta de mais um filme de Tiago Pereira, «Manda Adiante», e bailes/concertos pelos Alfa Arroba e Triple-X. Mais informações aqui e aqui.

02 novembro, 2007

17 Hippies, Di Grine Kuzine e Polkaholix - É Folk Alemão, Pois Então!


Três bons exemplos de como a folk - de influências várias - está bem viva na Alemanha são os três grupos de que se fala hoje no Raízes e Antenas: os 17 Hippies (na foto), os Polkaholix e os Di Grine Kuzine, todos eles com a sua base estabelecida em Berlim. Com uma música quase sempre muito boa, quase quase sempre para dançar e de preferência com grandes canecas de cerveja a acompanhar.


17 HIPPIES
«HEIMLICH»
Hipster Records

Os 17 Hippies são uma trupe berlinense nascida em 1995 que consegue - e usando apenas um naipe alargadíssimo de instrumentos acústicos (desde europeus a asiáticos e africanos) e de vozes - fazer uma música hiper-diversificada, que soa a mil estilos misturados mas sempre muitíssimo bem. Em «Heimlich», o seu álbum deste ano, pode encontrar-se música balcânica com blues e klezmer e loucura free-jazz, uma balada em francês que ora soa a Pink Floyd ora a Penguin Cafe Orchestra, música ranchera mexicana mas tocada como se o México ficasse situado algures no meio da Europa (se é que isto faz algum sentido), um country bem-disposto que soa perfeito cantado em alemão, um misto de cajun e de polka passado pelo crivo psicadélico dos Beatles, entre muitas outras surpresas, constantes e sempre frescas e originais. O álbum é composto por originais do grupo, à excepção de «Teschko» - um tradicional sérvio aqui numa versão lenta, triste, lindíssima - e «Apache», o clássico dos Shadows, nos 17 Hippies a soar a uma espécie de Michael Nyman... do médio-oriente. Com um pé no virtuosismo - são todos músicos extraordinários - e outro na desbunda pelo prazer da desbunda (no último tema do álbum soam a uma fanfarra punk!), os 17 Hippies são uma máquina musical que está sempre muito perto da perfeição. Era tão bom que viessem cá tocar um dia destes! (9/10)


POLKAHOLIX
«DENKSTE!»
HeiDeck Records

Apesar de terem um álbum mais recente - «The Great Polka Swindle» (com o título a ser obviamente inspirado no nome do álbum dos Sex Pistols) -, foi este «Denkste!» que estabeleceu os Polkaholix como os senhores absolutos de um «novo» estilo: a «Berlin Speed Polka», que, é claro como água, é a velha polka injectada por uma energia, uma força e uma velocidade devedoras do punk, do funk, do ska, do speed-metal ou de músicas tradicionais como o klezmer e a música cigana dos Balcãs... A teoria é fácil de compreender, mas é preciso ouvir a música destes berlinenses para se entender completamente como esta música é feita de uma alegria, de um sentido de humor e de uma apurada noção de festa (sendo aqui «festa» sinónimo de muita dança, ainda mais cerveja e muita muita música, mesmo que a música seja por vezes um bocado... palerma). A polka - género que nasceu na Boémia em meados do séc. XIX e continua viva no centro da Europa (Alemanha, República Checa, Polónia...) e tem também um público alargado nos Estados Unidos - é nos Polkaholix objecto de inúmeras transformações e sujeita a tratamentos variados, mas a ideia de festa e de se fazer música para festa e dança é sempre a preocupação maior. Mesmo que a palavra «preocupação» pareça não colar muito bem com este bando de foliões que parecem não ter preocupação alguma. Ou, talvez e apenas, a de terem sempre uma grande caneca de cerveja à mão. (8/10)


DI GRINE KUZINE
«BERLIN WEDDING»
Skycap/Tumbao

É curioso constatar, ouvindo estes três discos de seguida, como há influências comuns a todos eles, embora seguindo vias próprias e assumindo fontes de inspiração diversificadas. Géneros comuns são sem dúvida o klezmer (música dos judeus do centro europeu) e a música cigana dos Balcãs, curiosamente músicas malditas e consideradas de povos «menores» durante o regime nazi. Não quero entrar aqui em análises sociológicas ou até psicológicas, mas é curioso constatar como, no início do séc. XXI, estes géneros são especialmente acarinhadas pelos músicos alemães ou por uma mistura de músicos alemães com músicos vindos do leste europeu, como é o caso dos Die Grine Kuzine. A banda, que foi criada em Berlim em 1993, caracteriza-se em «Berlin Wedding» por uma aproximação moderna e orgânica ao klezmer e à música balcânica, fundindo-a com muitíssimas outras músicas: cabaret berlinense, dub, rap, mambo, ska, polka, swing, surf-rock, música latino-americana, canções que parecem saídas do reportório do Exército Vermelho Soviético, quase todas cantadas pela vocalista Alexandra Dimitroff em alemão, espanhol, russo... Os Die Grine Kuzine fazem uma música global, centrada na Europa mas aberta a muitas outras músicas, numa demonstração inequívoca de universalidade. (8/10)

04 outubro, 2007

Festival Acordeões do Mundo - Correntes de Ar em Torres Vedras


De 28 de Outubro a 11 de Novembro decorre no Teatro-Cine de Torres Vedras, o IV Festival Acordeões do Mundo, com mais um excelente programa em que o acordeão é rei e senhor. Dia 28 de Outubro, o festival começa com o acordeonista francês Jean-Louis Matinier, seguindo-se, dia 31, o também francês, mas de origem portuguesa, René Sopa; ambos praticantes de um jazz colorido com muitas outras músicas. Dia 3 de Novembro, actua o celebradíssimo acordeonista italiano Riccardo Tesi acompanhado pela sua Banditaliana. Dia 6, é a vez do pianista e acordeonista Tomás San Miguel & Txalaparta (Espanha/País Basco), para mostrar que a arte do acordeão no país vizinho não começa nem acaba na trikitixa de Kepa Junkera. E dia 9, o festival encerra - mas apenas no «palco principal» - com o excelente tango aberto (jazz, rock, música erudita...) e de contornos electrónicos dos Tango Crash (na foto), colectivo que reúne músicos da Argentina, Alemanha e Suiça. Paralelamente, decorrem os «bailes do acordeão», com dois grupos portugueses: os Alfa Arroba (dia 1 de Novembro, à tarde, na Adega do Maxial) e os Fol&Ar (um dia depois, também à tarde, no Clube Artístico e Comercial), oficinas musicais (nos fins-de-semana de 3 e 4 e 10 e 11 de Novembro) e um concurso de tocadores de acordeão. Mais informações aqui.

24 setembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXVI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXVI.1 - Aisha Kandisha's Jarring Effects



O rock é uma realidade global que «contaminou» - assim como muitos dos seus derivados - muita da música que se faz hoje em dia. E, no interminável mundo das fusões de músicas locais com o rock (e derivados), os marroquinos Aisha Kandisha's Jarring Effects são um dos exemplos mais interessantes: começando por fazer música tradicional shabee, durante os anos 80, o seu primeiro álbum, «El Buya», de 1990 foi produzido pelo suiço Pat Jabbar (o mesmo que trabalha agora com os Maghrebika), que mergulhou a música do grupo num molho de dub, rock e electrónicas, com excelentes resultados. No álbum seguinte, «Shabeesation», de 1992, os Aisha Kandisha's Jarring Effects tiveram a colaboração do incansável Bill Laswell (o homem das mil colaborações e produções), álbum em que também colaboraram membros dos Last Poets e dos Parliament. Hoje, os A.K.J.E. continuam de boa saúde e a trilhar os mesmos caminhos.

Cromo XXVI.2 - Tsinandali Choir



Tentar fazer a viagem dos cantos polifónicos europeus é uma experiência fascinante: pode começar-se pelo Alentejo, seguir pela Córsega e a Sardenha, parar para beber da beleza das vozes femininas na Bulgária e acabar na Geórgia, antiga república da União Soviética. Aqui, na Geórgia, o ponto de paragem obrigatório é a cidade de Tsinandali (na região da Kakhetia), conhecida no exterior pelo seu vinho e, desde que Peter Gabriel editou na Real World o único álbum do Tsinandali Choir, em 1993 (reedição de um disco originalmente lançado em 1988 apenas na Geórgia), também pela sua maravilhosa música. Grupo apenas de homens, que cantam a capella, o Tsinandali Choir faz justiça à sua origem e neste disco interpreta as chamadas «canções de mesa», isto é, odes ao vinho que congregam os amigos nas noites frias do Leste, depois de uma noite de muita comida e ainda mais bebida. É belíssimo!


Cromo XXVI.3 - Mickey Hart



Ao longo dos tempos, muitos foram os artistas anglo-saxónicos que se apaixonaram pelas chamadas «músicas do mundo». George Harrison, Robert Plant, Brian Jones, David Byrne, Paul Simon ou Peter Gabriel estão do lado dos mais conhecidos... Mas houve e há muitos outros, menos conhecidos, mas tão ou mais importantes que estes no cruzamento de variadíssimas linguagens musicais. Entre eles está, na linha da frente, o baterista, percussionista, escritor e musicólogo norte-americano Mickey Hart (nascido a 11 de Setembro de 1943). Membro dos Grateful Dead entre 1967 e 1971, e, depois, entre 1974 e 1995, Hart teve no mítico percussionista Babatunde Olatunji uma das suas maiores influências. E, ao longo da última década e meia, gravou álbuns importantíssimos com alguns dos mais importantes percussionistas mundiais. A conhecer (pelo menos estes álbuns): «Planet Drum», «Mystery Box» e «Supralingua».


Cromo XXVI.4 - Chavela Vargas



Nascida na Costa Rica (em San Joaquín de Flores, a 17 de Abril de 1919), mas mexicana por adopção e paixão, Chavela Vargas - de verdadeiro nome Isabel Vargas Lizano - é a maior lenda viva da música tradicional do México, especialmente da música ranchera, um estilo feito de canções de amores fatais e geralmente reservada aos homens. Há poucos anos, Chavela revelou numa entrevista aquilo de que muita gente suspeitava devido ao facto de quase sempre se ter vestido como um homem: ser lésbica. Assim como se ficou a saber que, durante a sua juventude, foi amante da pintora Frida Khalo (e ironicamente, ou talvez não, Chavela tem um dos seus momentos de maior reconhecimento internacional ao cantar no filme «Frida», de Julie Taymor). Mas isto são apenas pormenores, se bem que reveladores, da vida de uma mulher cuja força maior está na sua voz marcante, pessoal, inesquecível. A Mulher do Poncho Vermelho.

07 junho, 2007

Águeda - Um Cheirinho do Festival Temático de Músicas do Mundo



A Associação d'Orfeu não pára e está já a preparar o seu festival temático das Músicas do Mundo, marcado para meados de Julho, no Largo 1º de Maio, em Águeda. Um festival que inclui vários «festivais» e ainda outros acontecimentos culturais a que eles preferem chamar )estival - assim mesmo, com um parêntesis no lugar do F e uma alusão directa ao Verão. Para já, para já, a d'Orfeu tem asseguradas as presenças no Festival Temático do grupo Talisman (formado por músicos da Ucrânia, Moldávia, Bielorrúsia e Alemanha), que actuam dia 16 de Julho na secção dedicada às «Músicas do Mundo Cigano», dos algarvios e fusionistas Marenostrum, dia 17, na secção «Mestiçal Peninsular», e do grupo folk italiano Abnoba (na foto), dia 18, na «Cimeira do Fole». Outros nomes se seguirão... E, imediatamente antes disso, a d'Orfeu apresenta, dias 13 e 14, o projecto Rio Povo, «uma criação inter-associativa efémera, com dois espectáculos a ter lugar em pleno Rio Águeda, marcando de forma indelével a síntese entre a tradição local (fortemente associada ao rio, na sua função cultural transmissora entre a serra e o litoral) e o discurso artístico contemporâneo que se lhe quer associar pela acção e reacção dos novos agentes culturais», numa confluência de várias estruturas, organizações e associações de Águeda, incluindo uma «orquestra, coros, uma banda filarmónica, tocatas, músicos, actores, dançarinos e bailarinos, outros performers e ainda toda uma série de recursos visuais e multimédia (vídeo-projecção sobre volumes, pintura em tempo real e pirotecnia),numa produção de grande impacto». Mais informações sobre esta iniciativa aqui.

06 janeiro, 2007

Discos 2006 - Os Melhores do Raízes e Antenas


Exercício sempre falível, pessoal e passageiro (as escolhas de agora podem não ter sido as de há alguns meses e as que não serão daqui por algum tempo), aqui ficam alguns topes avulsos do Raízes & Antenas construídos a partir de discos editados durante o ano de 2006. E sem regras muito rígidas (no Top nacional, por exemplo, entre muitos álbuns de estúdio com temas originais, também se encontram um EP dos Buraka Som Sistema, um álbum dos Nobody's Bizness gravado ao vivo e uma colectânea de Rodrigo Leão, esta porque os temas originais que inclui seriam suficientes, de tão bons que são, para lhe garantir um lugar neste Top de qualquer maneira). Como é óbvio, há discos que não ouvi e, por isso, não podem constar nestas listas e outros de que já me esqueci, não havendo, em relação a estes, quaisquer desculpas... Resta referir que por vezes as secções também não são tão óbvias quanto parecem (por exemplo: o primeiro lugar no Top do Brasil é do grupo semi-belga semi-brasileiro Think of One; os Toubab Krewe são norte-americanos e estão no Top de África; e Bruce Springsteen está no Top das Américas e não no de Rock) e que muitos dos discos incluídos nestas listas já foram criticados neste blog, outros ainda o serão nos tempos mais próximos e outros nem por isso...


20 ÁLBUNS DA EUROPA CONTINENTAL

1 - Accordion Tribe - «Lunghorn Twist»
2 - Ojos de Brujo - «Techarí»
3 - Mari Boine - «Idjagiedas»
4 - KAL - «Asphalt Tango»
5 - Moussu T e lei Jovents - «Forever Polida»
6 - Gjallarhorn - «Rimfaxe»
7 - Kepa Junkera - «Hiri»
8 - OMFO - «We Are the Shepherds»
9 - Amparanoia - «La Vida Te Da»
10 - Klezmofobia - «Tantz!»
11 - Haydamaky - «Ukraine Calling»
12 - Darko Rundek & Cargo Orkestar - «Mhm A-Ha Oh Yeah Da-Da (Migration Stories and Love Songs)»
13 - Di Grine Kuzine - «Berlin Wedding»
14 - Gogol Bordello - «Gypsy Punks»
15 - Kachupa Folk Band - «Gabrovo Express»
16 - Kerekes Band - «Pimasz - Magyar Funk»
17 - Ludovico Einaudi - «Divenire»
18 - Ilgi - «Saules Meita»
19 - Abnoba - «Vai Facile»
20 - Juan Mari Beltran - «Orhiko Xoria»


10 ÁLBUNS DA FOLK BRITÂNICA

1 - Bert Jansch - «The Black Swan»
2 - Bellowhead - «Burlesque»
3 - Kathryn Tickell & Corrina Hewat - «The Sky Didn't Fall»
4 - Uiscedwr - «Circle»
5 - Tim Van Eyken - «Stiffs Lovers Holymen Thieves»
6 - The Devil's Interval - «Blood and Honey»
7 - Waterson:Carthy - «Holy Heathens and the Old Green Man»
8 - Karine Polwart - «Scribbled In Chalk»
9 - Rachel Hair - «Hubcaps & Potholes»
10 - Chumbawamba - «A Singsong and a Scrap»

20 ÁLBUNS DE ÁFRICA

1 - Ali Farka Touré - «Savane»
2 - Mayra Andrade - «Navega»
3 - Rachid Taha - «Diwan 2»
4 - Tartit - «Abacabok»
5 - Ba Cissoko - «Electric Griot Land»
6 - Natacha Atlas - «Mish Maoul»
7 - Nuru Kane - «Sigil»
8 - Toumani Diabaté's Symmetric Orchestra - «Boulevard De L’Independance»
9 - Gigi - «Gold & Wax»
10 - Etran Finatawa - «Introducing...»
11 - Toubab Krewe - «Toubab Krewe»
12 - Souad Massi - «Mesk Elil»
13 - K'naan - «The Dusty Foot Philosopher»
14 - Vieux Farka Touré - «Vieux Farka Touré»
15 - Afel Bocoum & Alkibar - «Niger»
16 - Lura - «M'Bem di Fora»
17 - Akli D - «Ma Yela»
18 - Cheikh Lô - «Lamp Fall»
19 - El Tanbura - «Between The Desert And The Sea»
20 - Maghrebika - «Neftakhir»


10 ÁLBUNS DA ÁSIA

1 - Mercan Dede - «Breathe»
2 - Boom Pam - «Boom Pam»
3 - Fun-Da-Mental - «All Is War»
4 - Karsh Kale - «Broken English»
5 - Yashila - «Drive East»
6 - Burhan Oçal & Istanbul Oriental Ensemble - «Grand Bazaar»
7 - Anoushka Shankar - «Rise»
8 - The Idan Raichel Project - «The Idan Raichel Project»
9 - Asha Bhosle - «Love Supreme»
10 - Susheela Raman - «Music For Crocodiles»


10 ÁLBUNS DO BRASIL

1 - Think Of One - «Tráfico»
2 - Cordel do Fogo Encantado - «Transfiguração»
3 - Seu Jorge - «The Life Aquatic Studio Sessions»
4 - Cibelle - «The Shine of Dried Electric Leaves»
5 - Caetano Veloso - «Cê»
6 - Forro In The Dark - «Forro In The Dark»
7 - Badi Assad - «Wonderland»
8 - Tom Zé - «Danç-Êh-Sá»
9 - Marisa Monte - «Universo Ao Meu Redor»
10 - Chico Buarque - «Carioca»

10 ÁLBUNS (DO RESTO) DAS AMÉRICAS

1 - Lila Downs - «La Cantina: Entre Copa Y Copa»
2 - Cristóbal Repetto - «Cristóbal Repetto»
3 - Tanya Tagaq - «Sinaa»
4 - Bruce Springsteen - «We Shall Overcome - The Seeger Sessions»
5 - Los de Abajo - «LDA V The Lunatics»
6 - Free Hole Negro - «Superfinos Negros»
7 - Susana Baca - «Travesias»
8 - Charanga Cakewalk - «Chicano Zen»
9 - Senõr Coconut - «Yellow Fever»
10 - Ska Cubano - «Ay Caramba!»


10 COLECTÂNEAS

1 - Vários - «World Circuit Presents»
2 - Vários - «Electric Gypsyland 2»
3 - Vários - «The Rogue's Gallery»
4 - Vários - «The Rough Guide To Planet Rock»
5 - Vários - «No Child Soldiers»
6 - Vários - «Angola»
7 - Vários - «Congotronics 2»
8 - Vários - «Acorda!»
9 - Vários - «Roots Of Rumba Rock: Congo Classics 1953-1955»
10 - Vários - «Musiques Métisses - Océan Indien»


20 DISCOS DE PORTUGAL

1 - Dazkarieh - «Incógnita Alquimia»
2 - A Naifa - «3 Minutos Antes de A Maré Encher»
3 - Dead Combo - «Quando a Alma não é Pequena»
4 - Uxu Kalhus - «A Revolta dos Badalos»
5 - Brigada Victor Jara - «Ceia Louca»
6 - Gaiteiros de Lisboa - «Sátiro»
7 - Buraka Som Sistema - «From Buraka To The World»
8 - Lúmen - «Fogo Dançante»
9 - Sérgio Godinho - «Ligação Directa»
10 - Rodrigo Leão - «O Mundo»
11 - Nobody's Bizness - «Ao Vivo Na Capela da Misericórdia»
12 - Arrefole - «Veículo Climatizado»
13 - Houdini Blues - «F de Falso»
14 - Aldina Duarte - «Crua»
15 - Kussondulola - «Guerrilheiro»
16 - Célio Pires - «Molinos de l Brosque»
17 - Ovo - «Ovo»
18 - José Peixoto com Maria João - «Pele»
19 - Claud - «Contradições»
20 - Garoto - «Garoto»


10 ÁLBUNS DE ROCK & DERIVADOS

1 - Joanna Newsom - «Ys»
2 - Beirut - «Gulag Orkestar»
3 - Final Fantasy - «He Poos Clouds»
4 - Tom Waits - «Orphans: Brawlers, Bawlers and Bastards»
5 - Sufjan Stevens - «Avalanche»
6 - A Hawk and A Hacksaw - «The Way The Wind Blows»
7 - Scott Walker - «The Drift»
8 - Mi and L'au - «Mi and L'au»
9 - Sonic Youth - «Rather Ripped»
10 - Beck - «The Information»

06 dezembro, 2006

Cromos Raízes e Antenas VI



Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo VI.1 - Lee «Scratch» Perry


Lee «Scratch» Perry (nascido a 20 de Março de 1936, em Kendal, Jamaica) é um dos nomes mais importantes da música jamaicana, estando o seu nome associado a estilos como o ska, o reggae e o o dub. Com uma profícua carreira iniciada nos anos 50, funda a sua própria editora em 1968, a Upsetter, que também daria nome à sua banda acompanhante, The Upsetters. E o seu primeiro single editado através desta etiqueta, «People Funny Boy» é por muita gente considerado como o primeiro tema verdadeiramente reggae, para além de ter ficado para a história da música por conter um dos primeiros exemplos de samples (o choro de uma criança). No seu estúdio, o lendário The Black Ark, lançou as fundações daquilo que viria a ser a arte do dub. E produziu discos de Bob Marley & the Wailers, Max Romeo, Junior Byles e The Heptones, entre outros. Mais recentemente colaborou com Adrian Sherwood, Beastie Boys e Mad Professor. Boa porta de entrada na sua música: a magnífica caixa «Arkology».


Cromo VI.2 - Berrogüetto


Os Berrogüetto - cujos fundadores tinham pertencido, na sua maior parte, aos seminais Matto Congrio - são um dos exemplos mais originais da música feita pelos nossos irmãos galegos. Editaram o seu álbum de estreia, «Navicularia», em 1996 e rapidamente se impuseram como uma voz própria e poderosa na cena musical da Galiza, misturando na sua música elementos tradicionais, sim, mas muitas outras linguagens sonoras. Logo a seguir à saída do seu primeiro álbum iniciaram um périplo internacional que os trouxe a Portugal e também os levou à Alemanha, França e Reino Unido. Três outros excelentes álbuns se seguiram, «Viaxe por Urticaria», «Hepta» (este baseado num conceito à volta do número sete: sete é o número de músicos do grupo, sete são as notas musicais, sete são as cores do arco-íris...) e «10.0». Os Berrogüetto são Anxo Pintos, Guillermo Fernandez, Quico Comesaña, Santiago Cribeiro, Isaac Palacín, Quim Farinha e Xabier Díaz, tendo a sua emblemática vocalista e gaiteira Guadi Galego deixado a banda em 2008.


Cromo VI.3 - Pã


O deus grego Pã é uma das primeiras divindades europeias directamente associadas à música. Semi-homem semi-carneiro (tem deste animal os cornos, as orelhas e as pernas), Pã é o deus protector dos pastores e dos rebanhos, mas é também muitas vezes apresentado como um ser vingativo, violento e um predador sexual - muitas das suas representações mostram-no com o falo erecto. Filho de Zeus (noutras fontes, de Hermes ou de Cronos) e de uma ninfa, Pã conseguia, com a sua música, provocar sensações de calma, medo ou desejo sexual. A sua flauta - hoje conhecida como Flauta de Pã - tem, segundo a lenda, origem na tentativa falhada de sedução de uma ninfa, Siringe, que para se lhe escapar se transformou num canavial. Dessas canas - nas quais o vento provocava um som terno e triste -, Pã faria o seu instrumento musical. Ficou famoso um duelo entre a flauta tocada por Pã e a lira de Apolo, que a lira viria a ganhar (numa das versões desta lenda, a lira ganhou porque ambos os tocadores estavam de cabeça para baixo e é impossível tirar som da flauta de Pã nessa posição).


Cromo VI.4 - Laïs


As Laïs são três espantosas cantoras flamengas (originárias de Kalmthout) que iniciaram a sua carreira discográfica em 1998, rejuvenescendo velhas canções folk belgas com a adição de sonoridades sacadas ao norte da Europa (nomeadamente a Bulgária), à chamada música celta, ao rock e às electrónicas. Constituídas por Jorunn Bauweraerts, Annelies Brosens e Nathalie Delcroix - esta formação manteve-se estável ao longo de toda a sua carreira -, as Laïs têm entre os seus fãs gente graúda como Emmylou Harris, Sting e Daniel Lanois. O seu álbum de 2008, «Documenta», editado este ano, é um triplo que inclui um CD ao vivo, outro com interpretações à capella e outro com as Laïs a serem acompanhadas por outros músicos e pode ser um bom cartão-de-visita do grupo para quem não as conhece. Mas outros discos como os anteriores «Dorothea» (2000), «Douce Victime» (2004) e os posteriores «The Ladies' Second Song» (2007) e «Laïs Lenski» (2009) são também bastante aconselháveis.

21 outubro, 2006

Cromos Raízes e Antenas I


Este blog inicia hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagen (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo I.1 - Abraão



Pondo à prova a sua fé, Deus propôs a Abraão que sacrificasse o seu filho Isaac em holocausto. Abraão (aqui representado num quadro de Marc Chagall) obedeceu mas, quando se preparava para baixar a faca sobre Isaac, Deus compadeceu-se dele e propôs-lhe que, em vez do filho, sacrificasse antes um carneiro (Livro do Génesis, Cap. 22). Dos cornos desse animal, Abraão fez um instrumento musical - o shofar - que ainda hoje é um instrumento sagrado para os judeus, usado em boa parte das suas cerimónias religiosas como o Rosh Hashanah e o Yom Kippur. E o poder (sagrado) deste instrumento é tal, conta também o Antigo Testamento, que o sopro de muitos shofars, usado pelo exécito de Josué, derrubou as muralhas de Jericó, permitindo assim a conquista desta cidade.


Cromo I.2 - Real World


Nascida no seio da WOMAD, e igualmente dirigida por Peter Gabriel, a editora discográfica britânica Real World é, desde 1989, uma das mais activas no lançamento de álbuns de músicas do mundo, desde as mais tradicionais a vários cruzamentos da tradição com a modernidade. Do seu catálogo fazem parte nomes tão diversos quanto Nusrat Fateh Ali Khan ou os Afro Celt Sound System, Yunghen Lhamo ou as Varttina, Doudou N'Diaye Rose ou os Eyuphuro, Geoffrey Oryema ou Joseph Arthur, Sheila Chandra
ou o próprio Peter Gabriel. Com uma filosofia musical aberta, aventureira, muitas vezes visionária, a Real World tem também um excelente estúdio onde muitos dos seus artistas de todo o mundo se juntam para gravar durante uma semana. O resultado destas sessões está reunido em vários discos, nomedamente no editado recentemente - e fabuloso! - «Big Blue Ball».



Cromo I.3 - Uilleann Pipes


As uilleann pipes (também conhecidas como union pipes ou, em gaélico, phìob uilleann) são as gaitas-de-foles irlandesas, que se distinguem facilmente de muitas outras porque não precisam que o ar seja transmitido pela boca aos foles. Nas uilleann pipes - criadas no início do séc. XVIII - é o movimento do cotovelo («uillean» significa excatemente «cotovelo» em gaélico) que transmite o ar ao fole. E a lenda diz que, assim, os irlandeses ficam com a boca livre para cantar, fumar, beber whisky ou... beijar as raparigas. Intérpretes famosos de uilleann pipes são, entre muitos outros, Davy Spillane ou Paddy Moloney, o líder dos Chieftains.



Cromo I.4 - «Le Mystère des Voix Bulgares»


A génese de um dos maiores fenómenos de popularidade de músicas «locais» veio, em finais dos anos 80, de onde não se esperaria: a editora 4AD (dos Cocteau Twins, Dead Can Dance, Pixies...) lançou dois álbuns da série «Le Mystère des Voix Bulgares», que incluíam canções interpretadas pelo coro feminino da Rádio e Televisão Nacional da Bulgária - gravadas pelo etnomusicólogo Marcel Cellier - e o mundo descobriu, fascinado, as polifonias maravilhosas da tradição búlgara. De registo, fica ainda a curiosidade de que teria sido o vocalista dos Bauhaus, Peter Murphy, a mostrar uma cassete com essas gravações a Ivo Watts-Russell, patrão da editora. Depois disso, inúmeros grupos capitalizaram a designação «Mistério das Vozes Búlgaras», apresentando reportório semelhante ao ouvido nesses dois álbuns pioneiros. Um dos grupos mais aconselháveis desse lote é o colectivo Angelite.