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20 março, 2009

E Mais Um (Grande) Nome Para Sines: Chucho Valdés no FMM!


Pois!!!!...

«A “big band” do pianista cubano Chucho Valdés, um dos nomes fundamentais do jazz latino dos últimos cinquenta anos, é a segunda confirmação oficial do programa do Festival Músicas do Mundo de Sines 2009. Apresenta-se no Castelo de Sines no dia 23 de Julho.

Filho de Bebo Valdés, um dos mais destacados pianistas e compositores cubanos do século XX, Chucho não é menos importante na história da música cubana das últimas décadas, com mais de 50 discos gravados e cinco Grammys conquistados, entre 14 nomeações.

Nascido em Quivicán, província de Havana, em 1941, Chucho começou a tocar piano de ouvido aos 3 anos de idade e formou o seu primeiro trio de jazz aos 15 anos.

Gravou o seu primeiro disco, “Chucho Valdés y su Combo”, em 1963, e sete anos mais tarde, em 1970, é considerado um dos cinco melhores pianistas de jazz do mundo, juntamente com Bill Evans, Oscar Peterson, Herbie Hancock e Chick Corea.

Em 1973, funda o grupo mítico do jazz cubano, Irakere, sendo seu pianista, compositor, arranjador e director até aos dias de hoje.

Contando na sua formação inicial com músicos do calibre de Arturo Sandoval e Paquito d’Rivera, Irakere foi o primeiro grupo cubano a ganhar um Grammy, em 1980, e foi no seu seio que Chucho Valdés consolidou a sua carreira nos melhores palcos de todo o mundo.

Em 1996, integrado numa banda chamada Crisol, que formou com o trompetista Roy Hargrove, ganhou, com o disco “Habana”, o seu segundo Grammy.

Num outro agrupamento, o quarteto que formou em 1998, gravou quatro discos para a Blue Note (“Bele Bele en La Habana”, “Briyumba Palo Congo”, “Live at the Village Vangard” e “New Conceptions”), todos eles nomeados para Grammys e dois deles vitoriosos.

O quinto Grammy foi obtido em 2002 com o disco “Canciones Inéditas”, álbum a solo com obras da sua autoria gravado para a editora Egrem.

Detentor das principais distinções culturais concedidas pelo seu país, incluindo a máxima, a Medalha Felix Varela, Chucho Valdés tem as chaves das cidades de Ponce (Porto Rico), Los Angeles, San Francisco, Nova Orleães e Madison, nos EUA, e, numa cerimónia realizada em Los Angeles, junto a Tito Puente, Eddie Palmieri e Lalo Shiffrin, foi inscrito no “Hall of Fame” do Jazz Latino.

No concerto de Sines será acompanhado pela voz de Mayra Valdés, o baixo de Lázaro Alarcón, a bateria de Juan Carlos Castro Rojas, a percussão de Yaroldi Abreu, o sax alto de German Velazco , o sax tenor de Carlos Manuel Miyares Hernandez e os trompetes de Alexander Abreu e Maikel Gonzalez.

Depois de Lee “Scratch” Perry (Jamaica), Chucho Valdés Big Band (Cuba) é o segundo nome oficialmente confirmado da programação do Festival Músicas do Mundo 2009.

Realizado todos os meses de Julho, em vários espaços da cidade e do concelho de Sines, o FMM é o maior evento nacional no seu género, tendo já acolhido um total de 164 projectos musicais, vistos por mais de 325 mil espectadores, ao longo de dez anos».

11 fevereiro, 2009

Morreu Cachaito - O Bater do Coração do Buena Vista Social Club


Orlando «Cachaito» López, o contrabaixista do Buena Vista Social Club, faleceu esta semana devido a problemas cardíacos - ele que era tido como o «pulsar do coração» do colectivo e de muitos discos a solo dos seus colegas do Buena Vista. Em homenagem à sua vida e à sua arte, a Megamúsica - distribuidora dos discos da World Circuit em Portugal - enviou-nos o texto que se pode ler em baixo e um link para o pequeno filme que se pode ver em cima: um ensaio de Cachaito com Miguel «Angá» Díaz, o percussionista do Buena Vista Social Club (também ele já falecido; em 2006).

«É com imenso pesar que comunicamos a morte de Cachaito López, vítima de paragem cardiaca aos 76 anos. Orlando Cachaito Lopez de seu nome completo, era baixista do projecto Buena Vista Social Club incluindo este último duplo cd ao vivo no Carnegie Hall editado no passado mês de Novembro. Cachaito López era considerado o(bater do) coração do BVSC e o único totalista, tocando em todos os CDs/LPs "Buena Vista Social Club presents... Omara Portuondo, Ibrahim Ferrer, Ruben Gonzalez, Guajiro Mirabal etc. Ultimamente integrava a Orquestra Buena Vista Social Club, a qual tinha aberto uma digressão europeia, para Abril e Maio, estando previsto 2 datas em Portugal. Para além de todos os discos BVSC em que participou, Cachaito tem um disco de originais, de título genérico "Cachaito", de 2001, em que o artista cruza o "son cubano" com a música electrónica, num trabalho, por alguns considerado experimental, mas verdadeiramente aclamado por todos. Eis a nossa homenagem neste "footage" enviado pela World Circuit».

28 outubro, 2008

Ry Cooder e o Buena Vista Social Club - O Meu Coração É Cubano


Ouvir agora o álbum gravado ao vivo pelo colectivo Buena Vista Social Club no Carnegie Hall em Nova Iorque é voltar a sentir o mesmo arrepio que se teve quando se ouviu pela primeira vez o álbum de estúdio do «grupo» e se viu pela primeira vez o documentário de Wim Wenders com o mesmo nome. Há algumas semanas, na «Time Out Lisboa», foram publicados estes meus dois trabalhos a propósito dessa edição: uma entrevista com Ry Cooder (na foto), produtor do «Buena Vista Social Club», e uma crítica ao álbum ao vivo recentemente editado pela World Circuit.


RY COODER
O MEU CORAÇÃO É CUBANO

Este título é mentira. Ou é só uma semi-mentira. Nunca, ao longo desta entrevista, Ry Cooder disse a frase. Mas sente-se - no decorrer de toda a conversa que tem como mote a edição em disco do mítico concerto do Buena Vista Social Club no Carnegie Hall, em Nova Iorque - que Cooder está quase, quase a dizê-la.

Quem viu o filme «Buena Vista Social Club», de Wim Wenders, sabe bem do que se está a falar aqui: o concerto que juntou velhas e novas glórias da música cubana - as mesmas que protagonizaram o disco homónimo editado um ano antes - no palco do Carnegie Hall, em Nova Iorque, em Julho de 1998. O encantamento, o espanto, de muitos daqueles músicos e cantores perante a grandeza da cidade; o encantamento, o espanto, de quem os ouvia no concerto - «gringos», centenas de «gringos», rendidos à verdade e à beleza daquela música antiga que vinha dali de tão perto, de Cuba, e dali de tão longe - a Cuba inimiga de Fidel. No centro do palco, mas lá atrás, de óculos e discreto, está Ry Cooder - o padrinho da iniciativa, produtor do álbum que então começava a tornar-se no maior best-seller da história da world music e um exemplo maior de que a música pode muitas vezes derrubar muros políticos e ultrapassar fronteiras geográficas.

No início deste processo está uma ideia de Nick Gold, director da editora World Circuit, que, recorda Ry Cooder nesta conversa, «queria gravar um álbum de colaboração entre guitarristas africanos - nunca cheguei a saber quem eles eram! - com músicos cubanos. Mas os músicos africanos nunca conseguiram os vistos para poder ir a Cuba na altura e tivemos que mudar o foco do disco». O próprio Ry Cooder teve que deslocar-se a Cuba através do México, devido ao embargo norte-americano à ilha. «Mas tivemos a felicidade de conseguir juntar em estúdio os melhores músicos e cantores cubanos que, em 1996, ainda podíamos encontrar. E todo o processo de gravação foi muito improvisado, gravando com quem ia aparecendo no estúdio. Não houve um plano». Questionado sobre se se teria apercebido, durante as gravações em Havana, de que estava envolvido num disco que viria a tornar-se histórico, Ry Cooder diz que «não. Estava ali a divertir-me, a conhecer pessoas maravilhosas - e, acima de tudo, a aprender com elas - e a tentar fazer o meu trabalho o melhor possível». O resultado comercial deste disco que deu a conhecer ao mundo artistas como Ibrahim Ferrer, Compay Segundo ou Omara Portuondo foi uma coisa que surpreendeu Ry Cooder e o próprio Nick Gold. Diz Ry Cooder que «o Nick, optimista como é (risos), apontou as vendas para a ordem dos cem mil. E acho que já vendeu mais de oito milhões de exemplares até agora...».

Passados todos estes anos, alguns dos músicos presentes em «Buena Vista...» já não se contam no reino dos vivos (Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Pio Levya, Rubén González...). Ry Cooder relembra-os com saudade e diz-se «um homem de sorte por tê-los conhecido. Tenho um grande orgulho por ter estado com eles, por tê-los visto tocar e cantar. Tenho tido a sorte de tocar e colaborar com muita gente ao longo destes anos, gente deste calibre, com quem aprendi imenso». Em sentido contrário, as gravações em Havana tiveram consequências perversas na vida de Ry Cooder, cidadão norte-americano: «O Departamento de Estado - cheio de reaccionários anti-cubanos - ameaçou-me com a prisão, escreveu-me uma carta a dizer que eu estava "sob suspeita". Isto não teria acontecido se o disco ("Buena Vista...") não tivesse tido sucesso, mas como estava a ter aquela visibilidade toda, isso virou-se contra mim. Felizmente, tive o apoio do presidente Clinton que, apesar do embargo, não se opunha a trocas culturais com Cuba». Essa abertura de Clinton possibilitou a realização do concerto do colectivo Buena Vista Social Club no Carnegie Hall, cujo registo discográfico é por estes dias posto à venda, e a deslocação de Ry Cooder a Cuba para a gravação de discos em nome individual de algumas das estrelas reveladas pelo álbum original. Mas este estado de graça terminou em 2001, quando George W Bush e a sua administração - a quem Ry Cooder chama «evil clowns» - chegaram ao poder. E deixa o desejo de que, nas próximas eleições, seja o Partido Democrata a vencer.

Ao longo de uma carreira longa e riquíssima de experiências em várias áreas musicais - do rock aos blues, passando pelas bandas-sonoras de vários filmes, as trocas com músicos extraordinários (a sua parceria com Ali Farka Touré também foi recordada com saudade durante a entrevista) -, Ry Cooder tem, nos anos mais recentes, flirtado de forma mais aberta com a música mexicana e com as suas ligações à música norte-americana (numa fabulosa trilogia de álbuns: «Chávez Ravine», «My Name Is Buddy» e «I, Flathead»), preparando-se agora para, de certa forma, continuar essa aventura produzindo um álbum que vai juntar o mais prestigiado grupo folk irlandês, The Chieftains, com músicos mexicanos.


BUENA VISTA SOCIAL CLUB
«AT CARNEGIE HALL»
World Circuit/Megamúsica

«Buena Vista Social Club», o álbum de estúdio - gravado em 1996, em Havana, com produção executiva de Nick Gold (o patrão da World Circuit), produção musical de Ry Cooder e com Juan de Marcos González como ligação no local aos outros músicos cubanos, novos ou antigos -, veio a ser o maior fenómeno de vendas da história da chamada world music, com mais de oito milhões de cópias vendidas pouco mais de dez anos sobre a sua edição. E, para além de ser um campeão de vendas, tornou-se também um paradigma para outras produções semelhantes - já há um disco chamado «Samba Social Club»; já há outras aproximações à «fórmula» feitas com músicos de outras latitudes, incluindo em Portugal com o projecto «Cabelo Branco É Saudade»... Mas nada disto - nem as vendas, nem o paradigma - são importantes quando se ouve, se ouve mesmo!, o álbum: um registo em que a verdade absoluta de uma música, e quase sempre de um género entre os muitos géneros cubanos, o son, transparece em cada nota, em cada palavra respirada, em cada silêncio...

E agora, os fãs do «Buena Vista...» original já podem deliciar-se, de novo, com a voz de Ibrahim Ferrer, de Omara Portuondo, de Pio Levya, de Compay Segundo ou de Eliades Ochoa, com o piano mágico de Rubén González e com a trompete falante de Manuel «Guajiro» Mirabal porque é editada, finalmente, a gravação do mítico concerto que este grupo de cantores e músicos cubanos - mais os outros que também por lá estão - deram no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 1998; o mesmo do qual temos algumas imagens no documentário homónimo de Wim Wenders. E o que é que ganhamos neste álbum ao vivo que não há no original de estúdio?... Resposta fácil: uma maior dose de improvisação em alguns dos temas (oiça-se González brilhar no seu solo do tema-título «Buena Vista Social Club»), algumas canções que não estavam no original - como «Mandinga», ponte feita entre Cuba e a África Ocidental, uma deliciosa versão de "Quizás, Quizás" ou a belíssima "Silencio". E, acima de tudo, a certeza de que o álbum de estúdio não foi apenas um milagre de... estúdio mas que tudo aquilo, principalmente «ao vivo», é música da melhor e da mais genuína que alguma vez existiu. (******)

17 outubro, 2008

Auto-Promoção (ou World DJing no DocLisboa)


Em contacto de última hora - mas nem por isso menos bem-vindo -, o autor deste blog e DJ nas horas vagas António Pires foi convidado para pôr música no festival de cinema documental DocLisboa, amanhã (sábado) à noite e na próxima quinta-feira, com ambas as sessões a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa. A primeira sessão tem como mote a música cubana e o documentário «Black Tears» («Lágrimas Negras»), dedicado ao mítico grupo Vieja Trova Santiaguera (na foto). A segunda sessão, que parte da música moçambicana para outras músicas africanas, terá como pedra de toque os filmes de temática moçambicana «Hóspedes da Noite», de Licínio de Azevedo, e «Kuxa Kanema: O Nascimento do Cinema», de Margarida Cardoso.

Programação completa e demais informações sobre o DocLisboa, aqui.

25 março, 2008

Cachao - Morreu Um dos Reis do Mambo


O contrabaixista e compositor cubano Israel «Cachao» López, um dos inventores do mambo, morreu este fim-de-semana em Coral Gables, na Flórida, Estados Unidos. Tinha 89 anos e deixou atrás de si um rasto de centenas de canções compostas por ele - a solo ou em parceria com o pianista e violoncelista Orestes López, seu irmão. A aceleração, inventada por Chachao e Orestes, do ritmo tradicional cubano danzón daria origem ao mambo ainda nos anos 30 do séc.XX - o mambo que, por sua vez, estaria na origem da salsa e de outros ritmos modernos cubanos. Outra inovação de Cachao foi a introdução das «descargas» nos anos 50: as «descargas» eram jam-sessions em que os músicos misturavam ritmos afro-cubanos, canções tradicionais cubanas e jazz, um «cocktail» que viria a influenciar a salsa mas igualmente muito do jazz latino que se seguiria. Morreu uma lenda.

20 fevereiro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XXXIX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXIX.1 - Calexico


Influenciados por Ennio Morricone, Ry Cooder, country, fado, surf rock, jazz, música andina e mexicana, os Calexico são um dos mais interessantes exemplos de como várias músicas podem conviver numa música nova e excitante. Formados por Joey Burns na guitarra e voz e John Convertino na bateria e percussões (ambos envolvidos nos Friends of Dean Martinez e, ainda antes, nos Giant Sand), em Tucson, Arizona, Estados Unidos, em 1996, os Calexico tornaram-se - logo ao primeiro álbum, «The Black Light» (1998)- um dos nomes de ponta do alt-country norte-americano, sendo também bastante apreciados por largas franjas dos cultores do rock indie. Ao longo dos anos, os Calexico - actualmente uma banda alargada a seis músicos - têm tocado e gravado com gente como Victoria Williams, Howe Gelb (ex-«patrão» do duo nos Giant Sand), Iron & Wine ou Mariachi Luz de Luna.


Cromo XXXIX.2 - Celia Cruz


Por muitos considerada como a maior cantora cubana do último século, Celia Cruz - Úrsula Hilaria Celia Caridad Cruz Alfonso, nascida a 21 de Outubro de 1925, em Havana, falecida a 16 de Julho de 2003 - dedicou a sua vida à divulgação no exterior do seu país natal de vários géneros musicais cubanos, principalmente a salsa. Com uma carreira de enorme sucesso - no seu historial contam-se 23 discos de ouro -, é difícil imaginar que a sua vida artística começou como cantora de um bar de strip-tease e que teve como primeiro salário... um bolo. O seu primeiro disco, gravado na Venezuela, foi editado em 1948. Mas foi dois anos depois que começou a dar nas vistas, quando integrou a orquestra Sonora Matancera. E, nas décadas que se seguiram, Celia teve frutuosas parcerias com músicos como Tito Puente, Johnny Pacheco ou Ray Barretto, para além de ter pertencido ao mítico super-grupo latino-americano Fania All-Stars.


Cromo XXXIX.3 - Alim Qasimov


Dono de uma voz poderosíssima, extraordinariamente bem timbrada e transmissora de emoções únicas, Alim Qasimov (ou Gasimov) é o intérprete mais conhecido de um género raro e difícil de música, o mugam, um estilo próprio do Azerbaijão e de alguns países vizinhos em que a forma de cantar tem que estar directamente conectada, emocionalmente, com as palavras que se cantam. E, no mugam, tanto o cantor quanto os músicos que o acompanham, podem e devem improvisar a partir dos poemas da base de cada canção. Alim Qasimov nasceu em 1957, em Shamakha, no Azerbaijão, e tem tido uma assinalável carreira de sucesso internacional, nos últimos anos também ao lado da sua filha Fargana Qasimova. Um dueto de Alim com o malogrado Jeff Buckley - gravado no álbum «Live a L'Olympia», de Buckley - é uma maravilhosa porta aberta entre dois mundos.


Cromo XXXIX.4 - Farafina


Nome maior da música do Burkina Faso, os Farafina são um grupo de músicas e danças tradicionais fundado em 1978, na cidade de Bobo Dioulasso, por Mahama Konaté, que fazia parte, tocando balafon, do Ballet Nacional do Alto Volta (o antigo nome do Burkina Faso). Com uma música que partilha afinidades com a de outros países do antigo Império Mandinga, na África Ocidental, os Farafina usam essencialmente instrumentos tradicionais (balafon, djembé, kora, flauta, doum-doum...) para criar uma sonoridade pulsante, dançável, quentíssima. E no seu currículo contam com actuações históricas (Festival de Jazz de Montreux; o concerto de aniversário de Nelson Mandela no Estádio de Wembley, em Londres; Festival Womad...) e colaborações em álbuns de músicos e grupos como os Rolling Stones (em «Steel Wheels»), Jon Hassell (em «Flash of The Spirit») ou Ryuichi Sakamoto (em «Beauty»).

30 outubro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXIX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXIX.1 - Buena Vista Social Club


Se a música cubana já era internacionalmente bem conhecida na altura da edição do álbum «Buena Vista Social Club» (1997), este projecto elaborado pelo norte-americano Ry Cooder veio ainda dar-lhe maior visibilidade e levou-a ao topo de preferências de inúmeros amantes das «músicas do mundo». Muito justamente, já que a música presente no álbum é absolutamente extraordinária e tem ainda o mérito de ter voltado a pôr na ribalta muitos músicos e cantores cubanos entretanto esquecidos, para além de uma excelente selecção de jovens músicos. No barco estavam a cantora Omara Portuondo, o cantor Ibrahim Ferrer, o pianista Rubén González, o guitarrista Eliades Ochoa, o trompetista Manuel «Guajiro» Mirabal e o percussionista Angá Díaz - alguns deles entretanto já falecidos -, entre outros. E «Buena Vista Social Club» foi o cadinho, feliz, de onde saíram muitos e bons álbuns individuais dos seus membros, para além de um filme, com o mesmo nome, de Wim Wenders.


Cromo XXIX.2 - Yat-Kha


Na vanguarda do rejuvenescimento da arte do «throat-singing» (o canto difónico, gutural, de Tuva), os Yat-Kha são um grupo extraordinário que mistura a música tradicional desta região russa do norte da Ásia com as linguagens do rock, muitas vezes um punk-rock eficientíssimo e abrasador. Liderados por Albert Kuvezin (guitarrista e cantor no velho estilo «kanzat kargyraa»), os Yat-Kha nasceram em 1991 como um duo de Albert com Ivan Sokolovsky (perito em electrónicas), mas evoluiu para uma banda de características mais rock quando Ivan saiu do projecto, depois da gravação do primeiro álbum, «Priznak Greyushii Byedi» (1991), e chegaram outros músicos ao grupo. Vários álbuns e inúmeras digressões por todo o mundo depois, o último álbum, «Re-Covers» (de 2005 e assinado Albert Kuvezin & Yat-Kha) mostra-os a fazer versões de muitos grupos rock, dos Joy Division aos Kraftwerk e Led Zeppelin.


Cromo XXIX.3 - Cajón


À semelhança do que acontece com o bouzouki - que, apesar de ser um instrumento associado à música «celta», nasceu na Grécia -, também o cajón não é um instrumento originalmente espanhol, mais especificamente uma «invenção» dos percussionistas do flamenco, mas sim um instrumento peruano, tendo entrado em Espanha apenas em meados dos anos 70, quando Paco de Lucia o incorporou no seu naipe de instrumentos depois de uma digressão na América Latina. O cajón é um instrumento afro-peruano sobre o qual existem documentos desde o Séc. XIX, sendo uma criação dos escravos africanos do Peru que - devido ao facto de serem proibidos os tambores nas suas festas e para comunicar entre si - começaram a usar um objecto de uso corrente, os caixotes (cájons) de madeira de transporte de mercadorias, como instrumento de percussão. Um instrumento que, depois, evoluiu para o cajón tal como o conhecemos agora.


Cromo XXIX.4 - Tarika


Os Tarika - palavra que significa simplesmente «o grupo» - são o mais importante grupo da riquíssima música de Madagáscar, uma ilha que se situa ao largo da costa de África, perto de Moçambique, mas que desenvolveu uma música muito própria que inclui elementos africanos, indianos e malaio-polinésios (estes os primeiros povos a colonizar a ilha). E, ouvindo-se a música dos Tarika - também conhecidos como Tarika Bé -, tudo isso faz sentido. Liderados pela fabulosa cantora Hanitra (aka Rasoanaivo Hanitrarivo), sempre bem acolitada pela sua irmã Noro, os Tarika fazem uma música excitante, riquíssima em «nuances» e com uma energia que põe toda a gente a dançar. E com a ajuda de instrumentos tradicionais - marovany, valiha, kabosy, jejy voatavo... - e também de guitarra e baixo, os Tarika já levaram a sua música a todo o mundo, tanto com esse nome como com o super-grupo paralelo Vakoka Project.

26 março, 2007

Ibrahim Ferrer, Kékélé e Africando - Entre África e Cuba



A música cubana tem raízes em África. Mas os africanos também sabem, desde há muitas décadas, ir buscar a sua inspiração à música cubana, muitas vezes adaptando-a, naturalmente, à sua própria música (como na rumba congolesa, por exemplo). Aqui fala-se de três álbuns recentes em que a salsa, a rumba, os boleros, a guajira andam de mão em mão entre África e Cuba, com o grande Ibrahim Ferrer (na foto) à cabeça e com os congoleses Kékélé e os «transatlânticos» Africando como acólitos perfeitos.


IBRAHIM FERRER
«MI SUEÑO»
World Circuit Records/Megamúsica

Há um arrepio enorme que nos desce pela espinha quando ouvimos este novo álbum do cantor Ibrahim Ferrer, de tão bonito que ele é. De tão novo e ao mesmo tempo tão antigo, de tão puro e ao mesmo tempo tão sofisticado, de tão bem cantado e tocado e ao mesmo tempo tão sentido. Neste álbum póstumo de Ibrahim Ferrer (falecido em Agosto de 2005), dedicado a um género que era da sua especial predilecção, o bolero, a velha glória da música cubana dada a conhecer pelo projecto Buena Vista Social Club conta com a presença de um maravilhoso pianista, Roberto Fonseca, e de dois músicos do «colectivo» Buena Vista - Orlando «Cachaíto» López (baixo), Manuel Galbán (guitarra) - na sua banda acompanhante e ainda de outros convidados de luxo: os também BVSC Rubén González (piano em «Melodía del Río»), entretanto também já falecido, a cantora Omara Portuondo (no delicioso dueto de «Quizás, Quizás») e Amadito Valdés (timbales em «Alma Libre»). A voz de Ibrahim - e apesar de muitas destas gravações da sua voz serem maquetas e o álbum estar longe de ficar terminado quando ele morreu - está como peixe na água nestas canções de amores e desamores, de traições e fidelidades loucas, quase fados mergulhados em água a ferver e servidos disfarçados de rum borbulhante e muito, muito alcoólico. (9/10)


KÉKÉLÉ
«KINAWANA»
Sterns Music/Megamúsica

Há uma rumba congolesa? Há, tal como os Kékélé explicaram bem no seu álbum de estreia, «Rumba Congo». Tal como há blues na zona mandinga de África, merengue angolano, hip-hop em todo o continente... E a razão já é sabida: essas formas musicais norte ou latino-americanas tiveram a sua origem em várias zonas de África e, muitas vezes, a ela voltaram como eco de um eco anterior. E é isso também que faz a riqueza de muita música híbrida africana, como no caso dos Kékélé, que vão à rumba latino-americana e dela se apropriam para a enfeitar, sempre bem, com harmonias que só podiam nascer em África. E com uma explicação histórica para a re-apropriação: segundo os Kékélé, a rumba teve a sua origem no ritmo congolês nkumba, levado pelos escravos para Cuba há centenas de anos e até mais recentemente (no séx.XIX ainda havia tráfico de escravos entre a África Central e Cuba). Em «Kinawana», o seu terceiro álbum, o quinteto - ao qual está de volta Papa Noel - adapta canções cubanas conhecidas (todas elas compostas ou gravadas pelo lendário compositor e cantor cubano Guillermo Portabales), dá-lhes outros nomes porque cantadas em lingala e serve uma festa interminável de guajiras, rumbas e outros ritmos latino-americanos, que também metem ao barulho Manu Dibango (que toca saxofone em cinco temas) e a cantora Mbilia Bel. (8/10)


AFRICANDO
«KETUKUBA»
Sterns Music/Megamúsica

E agora, uma frase feita: o melhor dos dois mundos costuma encontrar-se nas gravações dos Africando e «Ketukuba», o novo álbum deste super-grupo, não foge à regra (outra frase feita). Os Africando são um projecto afro-cubano que reúne cantores de várias nacionalidades africanas (e um porto-rqieunho) com músicos na sua maioria cubanos, sob a direcção visionária de Ibrahima Sylla (o homem por trás da Syllart). E o que se pode ouvir em «Ketukuba» são salsas - mesmo que num dos casos, «Viens Danser Sur Le son Africando», seja chamada salsa-mandinga, o que se percebe bem quando se ouve a canção -, rumbas, guaguancos e guajiras cantadas em wolof, mandinga, lingala, por vezes francês e espanhol, que apelam a um baile global, transcontinental, total. Sem o cantor Gnonnas Pedro (a quem é dedicado o álbum), entretanto falecido, e com três temas arranjados pelo pianista cubano Alfredo Rodriguez (que morreu durante as gravações do álbum), as vozes dos Africando são agora Sékouba Bambino, Amadou Balake, Medoune Diallo e os novos recrutas Basse Sour, Pascal Dieng (ambos do Senegal) e o porto-riquenho Joe King, tendo como convidados o congolês Madilou System e Lodia Mansour, filho de Medoune Diallo. E os novos não ficam a dever nada aos mais velhos, ficando assim assegurada uma continuidade brilhante a este grupo que já vai no seu sétimo álbum. (8/10)

10 novembro, 2006

«Rhythms del Mundo» - O Rock Vai a Cuba


Coldplay (na foto), U2, Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs, Sting, Jack Johnson, Franz Ferdinand e Radiohead, todos, de uma maneira ou de outra, presentes neste álbum que também é protagonizado pela Sra. Omara Portuondo, inclui as última gravações do enorme Ibrahim Ferrer e tem lá dentro muitos dos músicos do «Buena Vista Social Club». O álbum não é nenhuma maravilha mas tem uma boa causa à mistura e também vale por isso.


VÁRIOS
«RHYTHMS DEL MUNDO»
Universal Music


O início é delicioso: «Clocks», dos Coldplay, com a voz e o piano originais e o resto em metais e percussões em divagações salseiras. A continuação, porém, com Jack Johnson em registo baladeiro/son fraquinho indicia logo que a fórmula vai ser, quase sempre, esta e limitada: a mistura nem sempre feliz de temas de sucesso de artistas anglo-saxónicos com ritmos cubanos, aqui representados por muitos dos intervenientes em «Buena Vista Social Club»: Barbarito Torres, Amandito Valdes, Virgilio Valdes, Angel Terri Domech, Manuel «Guajiro» Mirabal, Orlando «Cachaito» Lopez e Demetrio Muniz. Para além, claro, do saudoso Ibrahim Ferrer (numa versão arrepiante de «As Time Goes By», cantado em espanhol) e de Omara Portuondo (em «Killing Me Softly», também cantada em espanhol, e, em duo com Ferrer, numa segunda versão ainda melhor que a primeira de «As Time Goes By»). E são de Omara e Ibrahim os melhores momentos do disco... De resto, o rock rugoso dos Arctic Monkeys pouco é infectado por Cuba; Dido com os Faithless não estão aqui a fazer nada; a versão de Coco Freeman com os U2 de «I Still Haven't Found What I'm Looking For» (em espanhol) é forçada; os Maroon 5 são assustadores; e Sting não consegue, uma vez mais, salvar a canção «Fragile» (aqui «Fragilidad»). Mas no disco ainda há bastantes coisas boas, a juntar a Omara, Ferrer e os Coldplay: a versão «cubanizada» de «Modern Way», dos Kaiser Chiefs, não é nada má (com metais em brasa a sublinhar o refrão); Vanya Borges dá outro sentido - um melhor sentido - a «Ai No Corrida», de e com Quincy Jones; Aquila Rose e Idana Valdes são excelentes em «Hotel Buena Vista»; Coco Freeman e os Franz Ferdinand assinam uma deliciosa versão, também em espanhol, de «The Dark of The Matinee»; e Abel «Lele» Rosales, dos históricos Los Van Van, agarra pelas tripas - e aqui isto é um elogio - «High and Dry», dos Radiohead, transformando-a na banda-sonora de um filme latino-americano estranho, escuro e trágico. (6/10)

(Cerca de três euros obtidos com a venda de cada álbum será destinado pela Artists' Project Earth a organizações e programas de ajuda a zonas afectadas por desastres naturais; o site da APE pode ser encontrado aqui)

06 setembro, 2006

Cacharolete de Discos (Parte 741)


Mais uma selecção aleatória de críticas de discos publicadas há alguns meses no BLITZ: de Thione Seck, de Souad Massi (na foto) e dos Sierra Maestra. O de Sinéad O'Connor é mais antigo mas é o álbum mais interessante da cantora nos últimos muitos anos, daí a sua inclusão no lote...


THIONE SECK
«ORIENTISSIME»
Syllart/PIAS/Megamúsica

Cantor senegalês encontra os sons do Oriente.

Na chamada world music há cada vez mais exemplos de fusões aparentemente disparatadas mas que acabam, umas vezes melhor outras pior, por fazer sentido ou, pelo menos, soar bem. Os Ska Cubano misturam ska com géneros cubanos, os MacUmba mesclam samba e gaitas-de-foles escocesas, os Salsa Celtica nem é preciso explicar. Em «Orientissime», o respeitado cantor senegalês Thione Seck (que fez parte da Orchestra Baobab) propõe-se descobrir, ou inventar, alguns elos perdidos entre a música negra africana e músicas «orientais». E sai-se a contento da tarefa quando funde o mbalax senegalês com a música árabe – já não há grandes dúvidas que a música da zona mandinga e dos vizinhos do norte de África tem ligações ancestrais de troca e contaminação. Mas é, apenas, curioso quando se atira à música do Paquistão e da Índia (mesmo que as tablas e as sitars soem muito bem em diálogo com a voz de Seck e coros femininos). (6/10)


SOUAD MASSI
«MESK ELIL»
Wrasse/Harmonia Mundi

E ao terceiro álbum, a cantora argelina Souad Massi dá um passo gigantesco em direcção ao restrito clube das grandes divas da chamada world music. Ainda não está lá completamente, mas a cantora, guitarrista e compositora já está lá muito perto com o seu novo álbum «Mesk Elil». Com uma voz cada vez mais personalizada (quente, maleável, cheia de espírito...), Souad faz agora uma música que tanto vai às raízes do rai como continua o seu gosto particular pelo flamenco ou se atira a outras paragens: a música árabe-andaluza, a música negra sub-sahariana (não se estranhando a presença de músicos que costumam acompanhar Salif Keita ou um dueto com o mauritano-maliano Daby Touré, a música dos tuaregues ou uma colaboração com Pascal Danae, de Guadalupe). Muito bom! (8/10)


SIERRA MAESTRA
«SON: SOUL OF A NATION»
World Music Network/Megamúsica

Clássicos do son cubano revistos com rigor.

Os Sierra Maestra – grupo cubano que nos anos 70 revivificou o son, género maior da música da ilha (se descontarmos a bem mais moderna salsa), nascido do cruzamento de guajiras, changuis e guarachas – fazem neste seu último álbum uma homenagem sentida aos grandes autores e aos grandes temas do son das primeiras décadas do séc. XX. Clássicos de compositores como Ignacio Piñeiro, Arsénio Rodriguez, Ñico Saquito ou Beny Moré são aqui interpretados com amor e um respeito imenso. Por isso mesmo, não se ouvem os nove Sierra Maestra em todos os temas. Ganha-se em rigor, perde-se em chavascal. (7/10)


SINÉAD O'CONNOR
«SHE WHO DWELLS...»
Vanguard

O nome completo do álbum é compridíssimo («She Who Dwells in the Secret Place of the Most High Shall Abide Under the Shadow of the Almighty») e o disco também: apresentado como o último álbum (mesmo o último!) de Sinéad O'Connor, o duplo-CD contém cerca de duas horas e meia de música, dividida num primeiro CD com raridades, lados B, versões variadas, alguns inéditos, num total de 19 temas (!) e um segundo CD com a gravação de um concerto na sua terra-natal, Dublin, o ano passado. E, espantemo-nos, apesar da variedade de estilos e registos presentes nos dois CDs, «She Who Dwells...» é um álbum coeso, maduro, um fabuloso «testamento» da cantora irlandesa.

Quase sempre mal-amada e incompreendida - relembre-se a carequice, o apoio ao IRA, o rasgar da foto de João Paulo II, a bissexualidade, o auto-sagrar-se padre... -, Sinéad dá aqui uma chapada (com as duas mãos e com aquela voz imensa que Deus lhe deu) aos seus detractores, provando mais uma vez que tem uma das melhores vozes da pop e do rock dos últimos 15 anos.

No CD 1, o destaque vai para as versões - mais ainda que para os originais -, com Sinéad a tornar decentes canções péssimas na sua origem como «Chiquitita» (dos Abba!) ou «Love Hurts» (alguém se lembra dos Nazareth a cantar isto?!), a dar «luta», e à altura, à versão de Aretha Franklin de «Do Right Woman», a iluminar «Ain't It A Shame», dos B-52's, e a cantar divinalmente tradicionais irlandeses... Ainda no CD1, há presenças marcantes (Asian Dub Foundation, Robert del Naja, Adrian Sherwood..).

No CD2, o encanto continua: tradicionais irlandeses (sacados ao álbum anterior, «Sean-Nós Nua»), ainda, e algumas interpretações soberbas de «canções de sempre» de Sinéad, como a sua versão de «Nothing Compares 2 U» (de Prince), «Fire on Babylon» ou «I Am Stretched on Your Grave»... Brilhante. (8/10)

12 julho, 2006

Híbridos (Recuperados a 2004), Parte 2


Bis, bis, bis, bis...........

WORLD EXTRA

O álbum já tem um ano, mas só agora é distribuído em Portugal, à boleia da actuação do rapaz no próximo festival aveirense Sons em Trânsito - fala-se de Jim Moray e do seu disco de estreia, «Sweet England» (Niblick Is a Giraffe/Megamúsica), uma pedrada no charco, demasiadas vezes estagnado, da folk britânica. E um álbum que é uma surpresa constante e absoluta, já que Moray consegue de facto inovar a partir da tradição. E pegar em temas tradicionais, atirá-los contra a parede, transformá-los e cantar, produzir e tocar quase todos os instrumentos (é muito jogo para quem tinha apenas 19 ou 20 anos quando gravou o disco). Em «Sweet England» ouvem-se violinos nascidos nos campos do Yorkshire convivendo com programações de clube de dança selecto, pianos de recorte clássico a servir canções muito antigas, delírios psicadélicos às voltas com a country norte-americana e a música cigana com a música irlandesa e os Radiohead. Com este álbum, Moray ganhou os prémios de «Melhor Álbum» e «Revelação» dos BBC Folk Awards 2004. Foram merecidos. (8/10)

Como merecida é também a inclusão de Jim Moray noutro clube selecto, desta feita aquele que a Oysterband (na foto, com os amigos) «abriu» a um porradão de convidados para a gravação de «The Big Session - Volume 1» (WestPark/Megamúsica). Na gravação deste disco estão lá Moray, a Oysterband (John Jones e restante pandilha são os mentores do projecto) e, veja-se só, a enormíssima June Tabor, Eliza Carthy, os Show of Hands e os «primos» norte-americanos Brett e Rennie Sparks (isto é, os Handsome Family). E é um excelente álbum (gravado ao vivo perante uma pequena audiência) recheado de bons momentos: quando a folk britânica se cruza, naturalmente, com a alt.country do casal Sparks; quando June Tabor eleva a sua voz para uma versão superlativa de «Lowlands»; quando todos (todos, mesmo) cantam a capella «The New Jerusalem»; quando Moray transforma «The Cuckoo's Nest» num fabuloso tema de rock progressivo (!). Grande decepção, só uma: a versão de «Love Will Tear Us Apart», dos Joy Division, que começa muitíssimo bem com June Tabor mas continua muitíssimo mal na voz de John Jones. (9/10)

E por falar em versões estranhas e em canções tristes: imagine-se (depois de «Love Will Tear Us Apart») uma versão, deste vez em ritmo de salsa, alegre (!!) e saltitante (!!!), de outra canção desesperada: «Ne Me Quitte Pas», de Jacques Brel. Pois é, essa versão existe mesmo e foi gravada pelo salsero colombiano Yuri Buenaventura, que agora edita o seu «best of» «Lo Mejor de...» (Mercury/Universal). Uma colectânea onde há ainda lugar para outras surpresas: uma versão lounge-salsa-bossa de «Insensatez» (de Tom Jobim e Vinicius); uma outra - que puxa completamente o pé para a pista de dança - de «Mala Vida», de Manu Chao; uma colaboração bastante bem conseguida com os cubanos Orishas (rap-son-salsa-rumba); e um exercício de cruzamento da latino-americana salsa com o rai do norte de África, «Salsa Rai» (pois, o título não engana), em que Yuri contracena com o franco-argelino Faudel. (7/10)

E - fazer raccord, se faz favor - da salsa para o... rai: um dos nomes maiores deste género argelino, Cheb Mami, está de volta com um álbum ao vivo, «Live au Grand Rex - 2004» (Virgin/EMI), em que o cantor e compositor interpreta grandes sucessos da sua carreira («Parisien du Nord», «Meli Meli», «Zarartou») e aproveita para convidar alguns amigos. E o álbum começa muito bem, com Cheb Mami a cruzar a música árabe com a música «celta» da Bretanha francesa e ataca, depois, o rap-rai pulsante de «Parisien du Nord». Mas, depois, há muitos momentos em que os sintetizadores e as programações afogam aquilo quase tudo em proto-foleirada-etno (e o dueto com o italiano Zucchero é calamitoso). Salvam-se, nesta parte do disco, as colaborações com Moss e Hakim («Des 2 Côtés»), uma bonita versão de «Desert Rose» (de Sting) e um dueto lindísimo com a cantora indiana Susheela Raman. (5/10)

Também cantora e também indiana (outro raccord), Asha Bhosle é a mais respeitada (juntamente com a sua irmã, Lata Mangeshkar) das cantoras que dão voz às canções da indústria cinematográfica indiana, conhecida como Bollywood. E dão voz e não o corpo: as actrizes e dançarinas que aparecem nos filmes fazem playback sobre a trilha sonora previamente gravada pelas cantoras verdadeiras, como Asha. Em «The Very Best Of... The Queen of Bollywood» (Nascente/Megamúsica), Asha Bhosle protagoniza 26 das canções que gravou ao longo de mais de 40 anos de carreira (ela que gravou, dizem as estatísticas, cerca de 30 mil - sim, 30 mil! - canções). Mas chegam para se perceber que a voz de Asha - fresquinha fresquinha como um gelado de menta e açafrão - se sente tão à-vontade em temas clássicos indianos quanto em variadíssimos géneros importados do ocidente ao longo das últimas décadas: da música latino-americana ao rock'n'roll, do jazz ao funk, do disco-sound ao tecno. Muitos dos temas deste duplo-álbum são de RD Burman, um dos mais importantes directores musicais dos filmes de Bollywood e marido de Asha, mas o momento mais alto do disco é, sem dúvida, a versão acelerada de «Thodasa Pagla», do paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan - e um belo exemplo de aproximação entre duas nações desavindas. (7/10)

E de uma senhora indiana que participou em centenas de filmes para um senhor cubano a quem bastou ter participado num filme - «Buena Vista Social Club», de Wim Wenders - para ficar mundialmente conhecido: o trompetista Manuel Guajiro Mirabal. E, como noutros casos não por acaso, o seu álbum de estreia em nome próprio (apesar de mais de 40 anos de carreira!) tem por título «Buena Vista Social Club Presents...» (World Circuit/Megamúsica). No disco - quase todo ele preenchido por temas compostos por Arsenio Rodríguez (aka El Ciego Maravilloso) - Guajiro surge acompanhado por uma equipa de luxo: Orlando Cachaíto Lopez, Manuel Galbán, Papi Oviedo e a voz de Carlos Calunga, entre outros, e como convidados outros «buena vistas» ilustres como o cantor Ibrahim Ferrer e o pianista Rubén González. E o álbum é uma festa irresistível, permanente e belíssima, feita de son, mambo, rumba, guajira, bolero, jazz... Aos 71 anos, é obra. (8/10)