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05 novembro, 2010

Roda de Choro de Lisboa - Conexões Luso-Brasileiras


Quando se sabe que o álbum de estreia da Roda de Choro de Lisboa, "Lusofolias" , tem edição marcada para Dezembro de 2010, aqui fica a entrevista que fiz a este grupo publicada originalmente na "Time Out Lisboa" em Agosto de 2009. É para dançar enquanto se lê.

Roda de Choro de Lisboa
Os Músicos que Mais Trabalham na Cidade

O local é um típico clube de bairro popular lisboeta: tem uma bar “atascado”, uma sala de bilhares - numa das mesas está uma viola adormecida; na outra dois pintas esgrimem os tacos - com ditos sábios nas paredes («Deus dá as nozes, mas não as parte») e, atracção maior dessa noite de terça-feira, um salão de baile onde já e amontoam, à porta, dezenas de tias e betos, muitos freaks e estudantes universitários em férias e ainda uma quantidade apreciável de turistas, mais turistas no feminino do que no masculino, diga-se. O local chama-se Lusitano Clube de Alfama e a razão para tamanha animação é mais um concerto/baile abrilhantado pela Roda de Choro de Lisboa, grupo ainda sem disco gravado mas com nome feito em centenas de concertos e no passa-palavra dos muitíssimos fãs angariados nos últimos anos.

O concerto/baile da Roda de Choro de Lisboa dá razão à sua fama: a meio caminho entre o ambiente gaiato e apaixonado das danças tradicionais europeias e o calor e a sensualidade das aulas de kizomba, os casais que dançam esta música deixam-se levar por uma festa que é muito maior e mais alegre do que aquilo que o nome do género que dançam, o choro, poderia fazer supor. O guitarrista Nuno Gamboa (que toca um violão de... sete cordas) explica que o choro nasceu no Brasil, “por volta de 1850, quando houve uma explosão de músicas populares por todo o mundo: o jazz nos Estados Unidos mas também, no espaço da lusofonia, a morna em Cabo Verde, o fado em Lisboa e o chorinho no Rio de Janeiro. Estas três têm todas elementos em comum: a modinha e o lundum. No caso do chorinho, tem o lundum e a modinha mais as danças de salão europeias: mazurkas, polkas, valsas... “. Gamboa acrescenta um pormenor histórico importante que ajuda a compreender estes cruzamentos musicais no universo lusófono: “Quando o rei português chega ao Rio de Janeiro para aí estabelecer a corte (NR: D.João VI partiu para o Brasil em Novembro de 1807, fugindo das tropas de Napoleão), não foi só ele que chegou ao Brasil: foram 15 mil pessoas, orquestras, músicos com instrumentos como o cavaquinho, o violão ou o bandolim...”. Quando se fala de choro, também se fala de chorinho e de chorão. Gamboa explica: “o chorão é o músico que toca choro. E o choro foi chamado durante muitos anos, popularmente, chorinho. Mas os intelectuais brasileiros defenderam a utilização de choro e não chorinho: os americanos não chamam jazzinho ao jazz ou rock'n'rollinho ao rock'n'roll”. Fica assim explicado.

A Roda de Choro de Lisboa é formada por cinco músicos, três portugueses – Nuno Gamboa, Luís Bastos (clarinete) e Carlos “Bisnaga” Lopes no acordeão – e dois brasileiros – Múcio Sá no bandolim e cavaquinho e Alexandre “Barriga” Santos nas percussões. “A Roda de Choro de Lisboa tem uma pré-história, por volta do ano 2000, quando alguns músicos se reuniram no espaço Fala-Só para tocar chorinhos”, conta Gamboa. “Foi aí que eu e o Luís Bastos tivemos contacto com o chorinho. Posteriormente, a Roda de Choro de Lisboa, já com a formação actual, estabeleceu-se no Sítio do Cefalópede, em 2005”. Já com centenas de concertos no seu currículo (o ano passado deram para cima de 120 em Lisboa, mas também em muitos outros locais), a Roda de Choro de Lisboa faz justiça à palavra Choro do seu nome mas também à palavra Lisboa, pelo lado português que a sua música contém. Luís Bastos, o clarinetista, sublinha que, embora tendo como base o choro, o grupo integra nesse género «ritmos portugueses como o malhão, o fandango, o fado, o corridinho, para termos um produto diferente do choro de S.Paulo ou do Rio de Janeiro”. O resultado dessa fusão poderá ser ouvido dentro de alguns meses no primeiro álbum da Roda (já em gravação) ou, se não se quiser esperar, todas as terças-feiras no Lusitano ou, no início de Setembro, no Palco 1º de Maio da Festa do Avante.

18 julho, 2010

Cacharolete de Álbuns (Híbridos e Sem Ligações Aparentes)


As músicas, cada vez mais, viajam livremente entre várias épocas e vários continentes e vários géneros. E ainda bem. Hoje aqui ficam mais quatro bons exemplos de músicas híbridas, rafeirosas (e todos nós sabemos que os melhores bichos também o são), abertas... Senhoras e senhores, os Tribeqa, Carolina Chocolate Drops, ErsatzMusika e Cibelle (na foto,de Socrates Mitsios), tal como vistos por mim há alguns meses na "Time Out Lisboa".


Tribeqa
"Tribeqa"
Underdog/Massala
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A base da sua música é o jazz, mas os franceses Tribeqa juntam-lhe funk, bossa-nova, soul, hip-hop (está aqui DJ Greem, dos C2C e Hocus Pocus, no scratch), música árabe e um quase omnipresente balafon mandinga (e a flauta do marfinense Magic Malik num dos temas) a levar tudo para África. Liderados pela compositora, vocalista e percussionista (incluindo o balafon e o vibrafone) Josselin Quentin, os Tribeqa partem de Nantes para visitar variadíssimas “músicas do mundo” mas com um som muito próprio e original. Um dos treze temas de "Tribeqa" – álbum homónimo e de estreia do grupo - tem título em português, “O Bêbado”, e, de facto, é o delírio alcoólico-musical mais perfeito que alguma vez se fez; que nos perdoem Tom Waits, Shane MacGowan, Janis Joplin, Hanggai e Serge Gainsbourg.




ErsatzMusika
"Songs Unrecantable"
Asphalt Tango/Megamúsica
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Grupo formado maioritariamente por músicos russos, embora a viverem na Alemanha, os ErsatzMusika são um objecto (muito) estranho no meio musical da actualidade: a cantora, multi-instrumentista e compositora de muitos dos temas, Irina Doubrovskja, canta como se tivesse na voz Marlene Dietrich, Nico e Marianne Faithfull; e o som da banda vai – sem pudores nenhuns e como se todos pudessem conviver livremente - ao cabaret berlinense dos anos 30 e aos Velvet Underground, à música cigana do leste europeu e aos Echo and The Bunnymen, à Penguin Cafe Orchestra ou aos Doors. Mas em “Oy, Pterodactyl” soam como se os B-52's fizessem uma versão circense de um tema qualquer do Elvis Presley. Faz confusão? Sim. Mas depressa desaparece quando a paixão fala mais alto.



Carolina Chocolate Drops
"Genuine Negro Jig"
Nonesuch/Warner
*****


Produzido por Joe Henry, "Genuine Negro Jig" é o quarto álbum do fabuloso trio Carolina Chocolate Drops, um grupo que recria as antigas canções para cordas (banjo, rabeca, por vezes guitarra e autoharpa) da zona do Piedmont, transversal à Carolina do Sul e Carolina do Norte. Mas o trio, que apresenta ainda duas magníficas vozes (uma masculina e outra feminina), não usa só esses instrumentos para recriar temas de dixieland, blues, country e até folk inglesa e irlandesa: garrafões (soprados à velha maneira das “jug bands”), colheres percutidas, kazoo, invenções vocais (de beatbox a uma imitação das vozes guturais de Tuva) estão também presentes nesta música ao mesmo tempo muito antiga e absolutamente actual (não por acaso, um tema de Tom Waits encaixa que nem uma luva no restante conjunto).




Cibelle
"Las Vênus Resort Palace Hotel"
Crammed Discs/Megamúsica
****

Apesar de ser brasileira, Cibelle tem-se afastado cada vez mais do carimbo “Brasil” e optado por um percurso próprio, pessoal, cada vez mais reconhecível como uma marca “Cibelle”. E isso é bom. No seu novo álbum, lindíssimo e hiper-equilibrado, Cibelle é ela mesma armada com o alter-ego Sonia Khalecallon, a mesma que nos dá as boas-vindas ao seu "Las Vênus Resort Palace Hotel"... E, como se pode por isso compreender, este é um álbum conceptual – onde nem faltam passarinhos e relógios a unir as faixas – cheio de belíssimas canções muito bem cantadas e onde a música exotica convive com a alt-country, electrónicas elegantes, o cabaret, lounge tropical, versões inesperadas ("007", "Os Marretas"...), a freak-folk e, sim, também alguma música brasileira, embora, “mutante”.

31 março, 2009

Sky Fest - Com Lila Downs, Nneka, Edson Cordeiro e The Dynamics


Na sua segunda edição, o Sky Fest, mini-festival que decorre no Casino de Lisboa, de 14 a 17 de Maio, apresenta desta vez concertos com Lila Downs, Nneka (na foto), Edson Cordeiro e The Dynamics. Não se sabe ainda se, à semelhança do ano passado, haverá outros nomes nas primeiras partes, mas seria desejável que sim. O texto de apresentação do festival:


«SKY FEST - 14 a 17 MAIO - Casino Lisboa

Horário

Concertos às 22h

Preço

25€ e 30€

Local de Venda


Casino Lisboa, FNAC, Worten, El Corte Inglés, Bliss, Bulhosa, Abreu, Megarede
WWW.TICKETLINE.SAPO.PT
RESERVAS 707 234 234


Depois do sucesso em Abril de 2008, o SKY FEST está de regresso ao Casino Lisboa para uma 2ª edição.

Um festival multicultural que junta o Jazz, a World Music e o Blues no mesmo espaço, o SKY FEST reúne nomes consagrados com novos talentos, garantindo grande abrangência de sonoridades e revelação de novas tendências nas áreas musicais em destaque.

14 Maio - Edson Cordeiro & Klazz Brothers
Auditório dos Oceanos

Edson Cordeiro é um daqueles casos raros de sucesso, considerado por muitos um "músico de culto", devido à sua abrangência e à-vontade em géneros tão diversos como a ópera, o rock, a MPB, o funk, o gospel, o jazz, o flamenco e o samba, cantando em português, inglês, francês, espanhol e alemão. Com os Klazz Brothers, 3 virtuosos músicos de Dresden, Edson Cordeiro apresenta um espectáculo de fusão onde Konigin der Nacht, de Mozart, e Garota de Ipanema, de Jobim, se harmonizam com grande perfeição num alinhamento surpreendentemente encantador.


15 Maio - Nneka
Auditório dos Oceanos

Cantora e compositora, a nigeriana Nneka está de regresso com um novo álbum, No Longer at Ease, um projecto que evidencia os seus instintos criativos, explorando-os num vasto leque de sonoridades inovadoras, numa verdadeira odisseia Afrobeat. Com produção de DJ Farhot, este álbum é muito pessoal e, apesar de musicalmente mais ambicioso, não se afasta do estilo ou rumo habituais de Nneka.


16 Maio - The Dynamics
Arena Lounge - Entrada gratuita

Existem desde 2004 e o seu sucesso internacional já bateu recordes. Com origem em Lion, França, a música dos Dynamics é fortemente marcada pelo soul americano harmonizado com os ritmos jamaicanos. O seu estilo único caracteriza-se pela fusão de sonoridades estabelecidas com as mais modernas técnicas de produção, permitindo um sabor vintage que surpreende qualquer público, por muito exigente que seja.


17 Maio - Lila Downs
Auditório dos Oceanos

De origem mexicana, Lila Downs é um fenómeno internacional. Em parceria com o músico e produtor americano, Paul Cohen, Lila Downs assina as próprias composições caracterizadas pela mescla perfeita entre o tradicional folclore mexicano (charangos, kenachos e zampoñas) e os sons modernos das guitarras eléctricas, baixos e baterias. Com 7 álbuns editados, Lila Downs tem conseguido anular fronteiras, apresentando-se como uma cantora e compositora global capaz de esgotar salas por todo o mundo. No Auditório dos Oceanos no Casino Lisboa, apresenta Ojo de Culebra, o seu mais recente projecto.

26 março, 2009

Cromos Raízes e Antenas XLIX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo XLIX.1 - Serge Gainsbourg


Polémico, provocador, alcoólico, pianista, pederasta, poeta genial, namorado de algumas das mulheres mais bonitas do mundo, realizador de cinema, fumador compulsivo, pintor, actor, compositor de muitas e desvairadas músicas (e com flirts... musicais variadíssimos, da chanson ao rock, ao reggae e ao jazz), Serge Gainsbourg (de verdadeiro nome Lucien Ginsburg, nascido a 2 de Abril de 1928; falecido a 2 de Março de 1991) foi uma das personagens mais importantes da música francesa do Séc.XX. Nascido numa família de judeus russos exilados em França, Gainsbourg iniciou a sua carreira como pianista em bares mas, durante os anos 60 e 70, firmou o seu nome como um dos cantores e, principalmente, compositores mais criativos da sua geração. Compôs - e com elas por vezes fez duetos e com elas, muitas vezes, se envolveu sentimentalmente - para cantoras e actrizes como Brigitte Bardot, Jane Birkin, Juliette Gréco, Françoise Hardy, Catherine Deneuve, Vanessa Paradis e, para disfarçar, para alguns homens como Alain Bashung ou Jacques Dutronc. Canções inesquecíveis: a sexualmente explícita «Je T'Aime... Moi Non Plus», «Bonnie and Clyde», «La Javanaise» ou a sua versão reggae, «Aux Armes et cetera», do hino francês.


Cromo XLIX.2 - «Il Canto di Malavita»


Envolta em controvérsia quando foi editada em Itália (e também, junto da comunidade italo-americana, nos Estados Unidos) por alegadamente fazer a apologia da Máfia, a colectânea «Il Canto de Malavita - La Musica Della Mafia» não deixa, por isso, de ser um extraordinário mostruário de uma música antiga, secreta, também ela cheia de códigos internos - à semelhança da organização que canta - e, sempre, de uma grande beleza. Feitas de raiva e tristeza, vingança e amor, sangue e honra, interpretadas muitas vezes num calão próprio, as canções de «Il Canto di Malavita» (editada em 2000 pela PIAS) foram resgatadas às ruas, casas e caves da Calábria pelos produtores Francesco Sbano, Maximillian Dax e Peter Cadera. Em «Il Canto di Malavita» ouvem-se ecos de tarantelas e canções napolitanas, rembetika e fado, amplificados pela voz de alguns intérpretes extraordinários como El Domingo, F. Cimbalo, Franco Caruso ou Salvatore Macheda. Uma segunda colectânea com a mesma temática, «Omertà, Onuri e Sangu — La Musica della Mafia Vol.2», foi editada dois anos depois.


Cromo XLIX.3 - DJ Dolores


Na música do brasileiro DJ Dolores, os géneros musicais do seu país, tradicionais ou não - frevo, baião, forró, maracatú, emboladas, música brega, ciranda, tropicalismo, samba, bossa-nova e muito mais... - cruzam-se com géneros exteriores - reggae, funk, rock, hip-hop, dancehall, surf music, klezmer, dub, house... - como se tivessem surgido, desde sempre!, para se cruzarem assim. DJ Dolores (de seu verdadeiro nome Helder Aragão) é DJ, produtor, compositor, chefe de «orquestra» - são inesquecíveis as suas actuações com a Orquestra Santa Massa - e faz isso tudo por igual e muitíssimo bem. Começando a sua carreira, no Recife, como designer gráfico, produtor de cinema e autor de bandas-sonoras, foi como DJ que o seu nome se tornou mundialmente conhecido, tendo - para além da sua obra em nome próprio - feito remisturas para nomes como os Taraf de Haidouks, Gilberto Gil, Fernanda Porto ou Tribalistas. Audição aconselhada: os álbuns «Contraditório» (2002), «Aparelhagem» (2005) e «1 Real» (2008).


Cromo XLIX.4 - L'Ham de Foc



Objecto raro e originalíssimo no meio da folk feita em Espanha, o duo valenciano L'Ham de Foc atirou-se com saber e mestria - e sempre ao longo dos seus vinte anos de existência - a uma música que vai beber a sua inspiração à música medieval, árabe, grega e sefardita transportando-as para a modernidade, podendo ser encontrados vários pontos de contacto entre o grupo e os Dead Can Dance, os Hedningarna ou até os Corvus Corax. Criados em 1998, em Valência, pela cantora e multi-instrumentista Mara Aranda e o multi-instrumentista Efrén López, os L'Ham de Foc fizeram um percurso sempre ascendente nos meandros da folk europeia, mercê da sua coerência na utilização apenas de instrumentos acústicos - sanfonas, alaúdes, sitar, harpa, vários saltérios e gaitas-de-foles a inúmeras percussões, europeias, asiáticas ou norte-africanas (num total de mais de trinta instrumentos). Em 1999 editaram o álbum de estreia, «U», seguido por «Cançó de Dona i Home» (2002) e «Cor de Porc» (2005). Desfeita a dupla, os seus membros encontram-se agora ligados a grupos como os Aman Aman, Sabir, Saba, Capella de Ministrers, Mara Aranda & Solatge ou Al Andaluz Project. (1)

(1) - Texto adaptado de um outro escrito por mim para o Festival MED de 2007.

09 julho, 2008

Terrakota e Ponto de Equilíbrio - Pontes Luso-Afro-Brasileiras


É uma grande festa do reggae (e uma grande festa para além do reggae...): dia 15 de Julho, no Domus, em Braço de Prata, Lisboa, há concertos dos afro-italo-portugueses Terrakota (na foto) e dos brasileiros Ponto de Equilíbrio, seguindo-se depois um sound-system e DJs que também fazem do reggae (e de outras músicas) o pretexto perfeito para continuar a dançar nestas quentes noites de Verão. Mas o melhor mesmo é deixar a nota de imprensa desta grande festa - organizada pela Crew Hassan e pelos Terrakota - na íntegra:

«No dia 15 de Julho, o espaço Domus vai ser palco do encontro explosivo de duas bandas muito especiais, de coração aberto e consciência elevada : os

TERRAKOTA, banda referência de "World mestiça" e os PONTO DE EQUILÍBRIO, grupo de reggae roots brasileiro que está a explodir agora no Brasil e no Mundo. Dois grupos irmãos que nunca deixaram de colaborar, apesar da distância desde o seu primeiro encontro em finais de 2005. Finalmente, conseguiram criar-se as condições para se cruzarem na estrada durante as suas intricadas tournées de verão: juntos ao vivo, pela 1ª vez, num evento organizado pelos TERRAKOTA e a CREW HASSAN.

Os TERRAKOTA, já bem conhecidos do público português, são um grupo pioneiro em Portugal pelo carisma e multiculturalidade do seu trabalho. A energia quente e cativante dos seus espectáculos transformam-nos em autênticas celebrações de um Mundo sem Fronteiras em perfeita sintonia com o planeta. Esta grande festa marca o regresso da banda aos palcos lisboetas, após cerca de um ano em tournée europeia, com passagem por uma dezena de países e por importantes festivais de worldmusic.

O álbum "Oba Train", terceiro de originais e o primeiro disco do colectivo a ter distribuição mundial, tem sido muito bem acolhido pelos media e pelo público em geral: registou entrada no World Music Europe Chart e foi classificado como um plot de culturas rico e surpreendente. A publicação britânica FRoots acaba de dedicar-lhes um artigo de 3 páginas intitulado "Novos sons de Lisboa". Fruto de um longo trabalho e espírito de sacrifício desmedido, os TERRAKOTA conseguem agora espalhar a sua mensagem mestiçada - o respeito pela mãe Natureza e a crença num Mundo diferente, em harmonia e sem fronteiras - por palcos europeus, reflectindo e expandindo a grande mistura de povos que caracteriza Lisboa, mostrando que de Portugal não vem só o Fado.

Mais informações:

www.myspace.com/terrakota

Os PONTO DE EQUÍLIBRIO, nascidos e criados em Vila Isabel (zona norte carioca), são hoje uma das principais referências do Reggae no Brasil ao resgatarem as suas raízes e utilizarem a música com arma socio-cultural. O próprio nome da banda revela tudo: "o equílibrio entre o céu e a terra, o positivo e o negativo, o bem e o mal. Esse é o ponto que todos nós buscamos e para onde todos retornaremos, quando for terminada nossa missão nessa vida" explicam os músicos.

O grupo acabou de lançar o segundo álbum de originais intitulado "Abre a janela", que surge como uma continuidade natural do primeiro, um roots reggae genuíno, com grande clareza e frontalidade ao nível da mensagem e um instrumental muito rico e enérgico. Um excelente disco que marca também a estreia do selo próprio da banda – Kilimanjaro – com edição em Portugal pela Warner Music.

Um concerto de Ponto de Equilibrio é tambem uma grande celebração de positividade e da crença num Mundo sem diferenças, movendo já grandes massas de pessoas no nosso país irmão. Para ouvir alguns dos êxitos da banda brasileira – "Janela da favela", "Verdadeiro valor" ou "Coisa feia", visite

www.bandapontodeequilibrio.com.br e www.myspace.com/pontodeequilibrio

Pela visão do mundo que comungam, a paixão por África, a forte ligação à Mãe Terra, este espectáculo promete ser uma grande celebração numa noite plena de boas vibrações. Depois dos concertos, e porque o calor já convida à festa, preparem-se para dançar pela noite dentro, ao som do reggae, funk, worldbeat power dos colectivos Riddim Culture Sound System (www.myspace.com/riddimculturesound) e DJ 2 Old4School/Dj Parkinson (www.crewhassan.org)».

01 abril, 2008

Festival S.I.R.E.N.E.S. - Sonoridades Singulares


Há um novo festival no horizonte: o Festival S.I.R.E.N.E.S., que pretende ser itinerante mas, para já, tem a sua primeira apresentação marcada para o Cine-Teatro de Estarreja, dias 25 e 26 de Abril, datas escolhidas a dedo pelo seu simbolismo. O festival «quer ser uma mostra de sonoridades singulares no panorama musical» e a sigla S.I.R.E.N.E.S. significa «Soluções Irreverentes Revelam Ao Espectador Novos Estilos Sonoros». Do elenco do festival constam Jorge Cruz (o ex-Superego, agora com um novo disco a solo, «Poeira»), os Deolinda (em tempo de lançamento do seu álbum de estreia, «Canção ao Lado») e as Tucanas (também com álbum de estreia fresquinho, «Maria Café»), todos no primeiro dia, e Couple Coffee (com JP Simões como convidado) e Jacinta (na foto; a interpretar temas do seu álbum «Convexo», dedicado ao reportório de José Afonso), no segundo dia. Integrada no festival está também a exposição «A Cor do Som Português», com fotografias de Jorge Neto. Mais informações aqui e aqui.

26 fevereiro, 2008

Couple Coffee and Band - E Agora, A Bossa-Nova


Depois terem editado o ano passado do maravilhoso álbum «Co'as Tamanquinhas do Zeca», de homenagem a José Afonso, os Couple Coffee vão agora gravar um álbum de comemoração do 50º aniversário da bossa-nova. O álbum, de nome «Young and Lovely - 50 Anos de Bossa Nova» será gravado ao vivo no Musicbox, em Lisboa, dias 1 e 2 de Março, e com os Couple Coffee - Luanda Cozetti (voz) e Norton Daiello (baixo eléctrico) - estarão mais uma vez os seus cúmplices Ruca Rebordão (percussões) e Sérgio Zurawski (guitarra eléctrica), interpretando temas de António Carlos Jobim, João Gilberto, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Roberto Menescal e Nilton Mendonça, entre outros. E, a julgar pelo que os Couple Coffee fizeram antes nos álbuns «Puro» e «Co'as Tamanquinhas do Zeca», a juntar a uma rodagem de palco fabulosa (em duo e em quarteto), o novo disco está já a deixar água na boca.

07 fevereiro, 2008

DJ Dolores no Santiago Alquimista


Vi-o duas vezes: uma delas no Festival do Meco, com a Orquestra Santa Massa, e de outra na WOMEX, em Sevilha, como DJ, numa sessão histórica em que centenas de pessoas dançaram à chuva até de madrugada. E de ambas as vezes, o homem foi um espectáculo total: o brasileiro DJ Dolores (na foto, de Barbara Wagner) é DJ, produtor, compositor, chefe de «orquestra» e faz isso tudo, sempre, muito bem. Na sua música entram ritmos tradicionais brasileiros - frevo, baião, forró, maracatú, emboladas, música brega, tropicalismo, samba... - e muitas músicas exteriores - electrónicas variadas, reggae, funk, rock, hip-hop, surf music e até klezmer, juntando todos os componentes num caldo único e pessoalíssimo. E sempre com mensagens políticas explícitas ou implícitas nas letras das suas canções, como se poderá confirmar no concerto que DJ Dolores tem marcado para dia 21 deste mês, em Lisboa, no Santiago Alquimista. Um concerto que servirá de apresentação ao seu novíssimo álbum «1 Real», mas onde não deverão ficar esquecidos alguns temas mais emblemáticos dos álbuns «Contraditório» (2002) e «Aparelhagem» (2005).

25 janeiro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XXXVII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXVII.1 - Caetano Veloso


O cantor, músico, letrista e compositor brasileiro Caetano Veloso (na foto, de Thereza Eugenia) é um dos maiores génios da música mundial. De nome completo Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, nascido em Santo Amaro da Purificação, Bahia, a 7 de Agosto de 1942, Caetano é um dos maiores paradigmas de uma música que vai às raízes populares do seu local de origem para a fundir com a música que as «antenas» lhe trazem. Não por acaso, o seu nome confunde-se com o conceito de «tropicalismo» - a corrente musical brasileira de finais dos anos 60 em que as origens africanas, o caldeirão de culturas que era a Bahia e expressões musicais como a pop, o rock ou o jazz se uniam num todo magnífico, original, vivo. Ao longo de quarenta anos de carreira, Caetano Veloso mudou a música brasileira e influenciou de uma maneira ou outra muitos artistas não brasileiros (de David Byrne a Sérgio Godinho, de Devendra Banhart a Lila Downs).


Cromo XXXVII.2 - Ojos de Brujo


Nascidos no borbulhante movimento do «som mestiço» - que tem como papa Manu Chao -, os Ojos de Brujo formaram-se em 1996, em Barcelona, Catalunha, com uma ideia de música bem-definida e incrivelmente consistente desde o início: fundir o flamenco, e mais especificamente um dos seus «palos» (géneros), a rumba catalã, com muitas outras músicas. Uma aposta que, apesar de não ser completamente original, tem nos Ojos de Brujo o seu expoente máximo. Na sua música - espalhada pelos álbuns «Vengue» (1999), «Barí» (2002), «Techarí» (2006) e «Aocaná» (2009) - o flamenco surge transfigurado, renovado, em contacto com o hip-hop, o funk, o reggae, as electrónicas, a música árabe, latino-americana e indiana. O grupo, que tem à frente a maravilhosa cantora Marina «La Canillas», tornou-se, com mérito, um dos mais importantes do circuito da world music.


Cromo XXXVII.3 - Googoosh


Neste momento é difícil acreditar que no Irão tenha havido divas da música pop e estrelas do cinema equiparáveis às suas congéneres de outros países (norte-americanas, europeias, indianas...). Mas a verdade é que as houve. E o maior e melhor exemplo de uma cantora-actriz, a estrela mais brilhante de um firmamento muito próprio - o Irão ocidentalizado do Xá Rheza Pahlevi - é o de Googoosh, nascida com o nome Faegheh Atashin, em 1950, em Teerão. De origem azeri, Googoosh chegou ao estrelato muito jovem, durante os anos 60, protagonizando filmes e discos que a transformaram, já durante a década seguinte, na maior vedeta iraniana. Na sua música houve - e há - elementos de música persa, azeri, rock, blues, jazz, disco-sound! Com a chegada ao poder do Ayatollah Khomeini, em 1979, Googoosh foi presa durante alguns meses e proibida de cantar. Mas permaneceu no Irão e, vinte anos depois, voltou à ribalta internacional.


Cromo XXXVII.4 - SambaSunda

A expressão máxima, mais genuína e verdadeira, da música indonésia é o gamelão: orquestras de percussões em que campânulas metálicas (ou, por vezes, de bambu) são percutidas de uma forma repetitiva, hipnótica, intrincada. E esta é uma música mágica, ancestral, em que é raro haver desvios. Mas que os há, há: os SambaSunda são um extenso grupo de músicos (geralmente catorze) de Bandung, na ilha de Java, liderados pelo multi-instrumentista e compositor Ismet Ruchimat e com uma cantora, Rita Tila, a traçar surpreendentes melodias sobre uma música feita de tradição - os ensinamentos dos gamelões e o canto tradicional kecak - misturada com reggae, música brasileira (a palavra «samba» em SambaSunda não está lá por acaso), jazz e a energia do rock. «Rawhana's Cry», álbum editado em 2006, lançou-os ao Mundo... E o Mundo agradece.

19 novembro, 2007

Couple Coffee - De Tamanquinhas no CCB


Na minha humilde opinião, o melhor álbum de homenagem a José Afonso - entre os muitos que foram editados este ano - tem o nome de «Co'as Tamanquinhas do Zeca» e é assinado pelo duo brasileiro Couple Coffee, Luanda Cozzetti (voz) e Norton Daiello (baixo eléctrico), neste álbum acompanhados por Sérgio Zurawsky (guitarra eléctrica)e Ruca Rebordão (percussões). E é esta formação, Couple Coffee & Band - reforçada com um convidado de peso, Júlio Pereira - que vai apresentar novamente o fabuloso espectáculo baseado neste álbum (o segundo do grupo, depois de «Puro»), amanhã, dia 20 de Novembro, desta vez no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Um espectáculo imperdível, com as canções de José Afonso a serem sujeitas a transformações, torções, invenções que, longe de as desvirtuar, lhes dão um brilho e uma vivacidade completamente novos. Mais informações aqui e aqui.

08 outubro, 2007

Anamnesis - Música e Tradição Oral no Cinema



O Anamnesis - Encontro de Cinema, Som e Tradição Oral, que decorre em Vimioso, de 1 a 4 de Novembro, é uma interessante mostra de documentários (e não só) focados na música tradicional (e, bis, não só) de países como Portugal, Brasil e São Tomé e Príncipe. Entre o rol de filmes a apresentar contam-se «Arritmia», de Tiago Pereira, «Cante Alentejano», da Associação MODA, «Chá da Terra», de Gonçalo Mota, «Levê Levê Non Caba Ué», de Raquel Castro, «Tocadores – Brasil Central», de Lia Marchi, «O Espírito do Lugar», de Parícia Porção, «O Rap é Uma Arma», de Kiluanje Liberdade, «International Lucky People Center», de Johan Söderberg, «Os Narradores de Javé», de Eliane Caffé, «11 Burros Caem no Estômago Vazio», de Tiago Pereira, «Tocadores- Litoral Sul», de Lia Marchi, e «Ainda há Pastores» (na foto), de Jorge Pelicano. Mas o Anamnesis não é feito só de cinema: uma palestra de Raquel Castro sobre «Som e Identidade Sonora», uma visita à aldeia de Caçarelhos, uma mesa-redonda com a presença de Ana Carrapato, Domingos Morais e Tiago Pereira, um «media live act/VJing narrativo» de Tiago Pereira, conversas com os realizadores e outras actividades fazem também parte do programa do Encontro. Para que não se perca a memória colectiva ou, nas palavras do texto de apresentação: «A tradição oral nesta luta contra a extinção, passa também, pela carga emocional que carrega. O lado interpretativo de cada som, melodia ou mesmo cantiga, traz consigo uma forma muito pessoal e reveladora da forma em que se está na vida. As senhoras isoladas nas aldeias do planalto Mirandês ou da serra da Arada, são autoras e simultaneamente intérpretes de cantigas e histórias; que algumas vêm com os seus pais e com os seus avós e outras que aprenderam no outro dia; o que as torna singular é a sua visão única e pessoal daquele som, ou daquela história. Ora nas artes visuais é a mesma coisa, o cinema de autor, o documentário de autor é também a interpretação única de um tema ou de uma realidade. Com este encontro, procuramos fomentar uma interacção real destes dois exemplos, durante quarto dias podemos ver, discutir, observar, criar e principalmente ouvir». Mais informações aqui.

08 junho, 2007

Tom Zé, Cordel do Fogo Encantado e Bebel Gilberto - O Brasil Tem Tantos Brasis!



A música brasileira é um mundo inteiro dentro da música do mundo inteiro. E, dentro do mundo que é a música brasileira, ainda há continentes, ilhas, arquipélagos, e neles - se o foco do telescópio se aproximar mais e do mundo se fizer país - florestas e rios, modernas cidades de betão e favelas de lata e cartão, aldeias perdidas e minas de ouro, árvores de raízes profundas e imensas antenas parabólicas. Hoje, o Raízes e Antenas fala de mais três discos de artistas brasileiros em que as músicas locais se fundem com a música global mas sempre com uma fortíssima identidade própria e tão diferentes entre si: os novos álbuns de Tom Zé, Cordel do Fogo Encantado (na foto; eles que vão por certo protagonizar mais um momento inesquecível no festival Viseu a 15 do 6) e de Bebel Gilberto.


TOM ZÉ
«DANÇ-ÊH-SÁ»
Irará/Trama

Quando se parte para a escuta de um álbum de Tom Zé já se sabe de antemão que temos que estar de espírito aberto e disponíveis para quaisquer surpresas que dali possam vir. E «Danç-Êh-Sá - Dança dos Herdeiros do Sacrifício» não foge à regra, antes a sublinha. Álbum surpreendente, de som novo, de músicas feitas essencialmente de ritmos (mesmo quando há instrumentos melódicos por lá) e sem as habituais letras fabulosas de Tom Zé - há muitas vozes neste disco (masculinas, femininas) mas sempre em exercícios monossilábicos, onomatopeias, interjeições, explosões guturais... Musicalmente, o álbum é extraordinário, fazendo pontes entre variadíssimos ritmos antigos e recentes, brasileiros ou anglo-saxónicos. Samba e forró e outros ritmos nordestinos, hip-hop, drum'n'bass, pós-punk (oiça-se «Triú-Trii» e «Cara-Cuá» e veja-se se não era disto mesmo que grupos como os Talking Heads ou os A Certain Ratio andavam à procura), tudo embrulhado numa liberdade formal que faz mais lembrar o free-jazz que outra coisa qualquer. Longe do espartilho do formato canção - formato a que Tom Zé, de qualquer maneira, há muito tempo não dá grande importância -, «Danç-Êh-Sá» é mais uma etapa seguríssima deste génio de 70 anos de idade, cantor-maldito do tropicalismo e um dos «loucos» mais lúcidos que existem neste mundo. É um álbum de tese, mas quem nos dera que todos os álbuns de tese fossem assim. (9/10)


CORDEL DO FOGO ENCANTADO
«TRANSFIGURAÇÃO»
Escambo/Rec Beat

O grupo brasileiro Cordel do Fogo Encantado é uma mistura fabulosa de música, teatro, performance, artes circenses, luminotecnia, um espectáculo total que só pode ser bem fruído e apreendido quando tudo isto é observado num palco - tal como se viu o ano passado em Sines e, presumivelmente (mas com um grau de certeza quase absoluto), em Viseu, na próxima semana. Ouvida em disco, a música do Cordel perde muita da sua magia e encanto. Mas não perde tanto quanto se poderia temer: porque é, agora, uma música sólida, madura, personalizada e que vale por si mesma mesmo quando o elemento «visual» ou o elemento «ao vivo» não estão presentes. Em «Transfiguração», Lirinha - o talentosíssimo cantor-poeta e cantor/intérprete de outros poetas como Manoel Filó, cujas palavras dão o mote a este disco logo no início - e seus companheiros dão-nos a ponte perfeita entre músicas nordestinas brasileiras e géneros como o funk, o rock psicadélico, o progressivo ou o «renascimento do rock americano» oitentista dos Green on Red, Guadalcanal Diary ou Violent Femmes (cf. em «Pedra e Bala»), sempre com as palavras únicas de Lirinha como fio-condutor da «narrativa» musical. Por vezes, ao ouvir «Transfiguração», podemos pensar em tropicalismo - nomeadamente d'Os Mutantes - ou em álbuns conceptuais dos anos 70, mas isso é bom, sempre bom. (9/10)


BEBEL GILBERTO
«MOMENTO»
Ziriguiboom/Crammed Discs/Megamúsica

Filha do mestre da bossa-nova João Gilberto e da cantora Miúcha, sobrinha de Chico Buarque, Bebel Gilberto tinha o destino traçado desde o berço (e só não escrevo dourado porque a rima seria terrível). Estando a assumir-se a pouco e pouco como a principal candidata a nova Diva do Brasil, com uma carreira curta mas feita de passos seguros e parcerias bem escolhidas - até Mike Patton, dos Faith No More e de tudo o resto, já se rendeu a ela -, Bebel chega a «Momento» com ideias bastante bem definidas acerca da música que quer protagonizar: uma mistura consistente, elegante, contemporânea, de música brasileira - com a bossa-nova a servir, naturalmente, de base teórica ou estrutural a várias canções - e de novas sonoridades, tudo envolto numa leve patine electrónica que nunca estraga o conjunto e levando-a para caminhos próximos de Cibelle, dos Forro In The Dark e de mais alguns nomes que tentam uma fórmula semelhante. Mas com a vantagem de ter uma voz lindíssima, aveludada, quente, maleável... Cantando em português e em inglês, Bebel atreve-se neste álbum a compor ou co-compor vários temas, para além de fazer versões de «Caçada» (de Chico Buarque), «Tranquilo» (de Kassin) e «Night and Day» (de Cole Porter), uma «cover» maravilhosa que leva a canção de Porter para Ipanema, nos anos 50 (e oiça-se o saxofone e pense-se imediatamente em... Stan Getz). (8/10)

06 abril, 2007

Cromos Raízes e Antenas XVI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XVI.1 - João Gilberto



Há uma lenda que conta que o gato de João Gilberto (na foto, com Astrud Gilberto) se suicidou, atirando-se de uma janela, por já não poder ouvir o seu dono ensaiar mais vezes, e de forma obsessiva, a canção «O Pato» (uma outra versão diz que o gato apenas fugiu de casa). Mas, como todas as lendas, esta serve pelo menos para mostrar como o brasileiro João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (nascido a 10 de Junho de 1931, perto da Bahia) é um maníaco da perfeição. Inventor da bossa-nova (ao lado de Tom Jobim e de Vinicius de Moraes), cantor e guitarrista, João Gilberto notabilizou-se essencialmente pela sua interpretação pessoalíssima de muitas das canções compostas por Jobim e Vinicius. Ponto muito alto da sua carreira foi o maravilhoso álbum «Getz/Gilberto» (1964), com o saxofonista de jazz norte-americano Stan Getz, Jobim e a sua mulher Astrud Gilberto.


Cromo XVI.2 - Sainkho Namtchilak



A fabulosa cantora Sainkho Namtchylak é uma das principais embaixadoras da música de Tuva (juntamente com os Yat-Kha, os Huun-Huur-Tu e os Chirgilchin), embora muitas vezes seja acusada de se estar a afastar gradualmente das suas raízes - o que, de certo modo, é verdade, não tanto pela inclusão de electrónicas na sua música mas mais pela sua crescente tendência em abandonar o «throat-singing» da sua região natal em favor de uma voz mais «normal». Mas isso não impede que Sainkho (nascida em 1957 numa aldeia do Sul da Mongólia) tenha uma carreira em que soube levar - às cavalitas numa voz que abrange sete oitavas - a música de Tuva aos quatro cantos do mundo, mesmo que misturada com electrónicas, jazz de vanguarda ou música experimental. Álbuns aconselhados: «Tunguska-guska», «Lost Rivers», «Out of Tuva» e «Who Stole The Sky».


Cromo XVI.3 - Juju Music



A «juju music» é a forma musical mais conhecida da Nigéria, descendendo directamente dos ritmos tradicionais da etnia Yoruba e fixando-se nos anos 20 do século passado como uma forma autónoma da «palm-wine music» (popular em países como a Serra Leoa ou Libéria), tendo artistas como Tunde King e Ojoge Daniel gravado discos de juju nessa década. Com o advento dos instrumentos eléctricos, a «juju music» avança numa nova direcção, mais ocidentalizada mas sem por isso perder as suas principais características rítmicas originais, sendo dada a conhecer no exterior por artistas como o importantíssimo King Sunny Adé (na foto), I.K. Dairo, Ebenezer Obey ou J.O. Araba. Mas outros nomes da juju são também de realçar como Admiral Dele Abiodun, Comfort Omoge, Shina Peters, Wale Thompson (que funde juju com hip-hop), Emperor Wale Olateju, Chief Zebulon Omoranmowo ou Lady Balogun.


Cromo XVI.4 - Dead Can Dance



O duo Dead Can Dance é, provavelmente, um dos grupos rock que mais gente levou (juntamente com os Pogues) a interessar-se por outros géneros musicais, nomeadamente a chamada «world music». Formado por Lisa Gerrard e Brendan Perry, o duo iniciou a sua carreira em Melbourne, na Austrália, em 1981, mas pouco tempo depois fixou-se em Londres engrossando os quadros da histórica 4AD. Fundindo, ao longo dos tempos, géneros musicais tão diferentes quanto a pop, a folk, música medieval e renascentista e inspirações vindas um pouco de todo o mundo, os Dead Can Dance foram por vezes erradamente enfiados nas correntes gótica e dark-wave devido à beleza intemporal, fluida, etérea de muitos dos seus temas, muitos deles coroados pela voz mágica de Lisa Gerrard. O fim chegou, oficialmente, em 1999 (o último álbum, «Spiritchaser», é de 1996), mas em 2005 os dois ainda fizeram uma digressão conjunta.

27 fevereiro, 2007

O Meu Nome É João... Maria João



O trocadilho jamesbondiano, vulgar, deste título justifica-se assim: o novo álbum da cantora Maria João, desta vez sem o seu habitual cúmplice Mário Laginha, chama-se... «João» (por sua vez, um título justificado, diz ela, «porque é assim que a tratam os amigos e as pessoas que lhe são mais próximas). O que o título não explica imediatamente é o que o álbum tem dentro: catorze canções brasileiras, de «Tico Tico no Fubá», de Zequinha de Abreu, a «Canto de Ossanha», de Baden-Powell e Vinicius de Moraes, «Dor de Cotovelo», de Caetano Veloso, «No Tabuleiro da Baiana», de Ary Barroso, cinco canções de Chico Buarque (três delas em parceria com Edu Lobo) e ainda canções de Lenine, Carlinhos Brown e Marisa Monte. Nas gravações, Maria João foi acompanhada por Mário Delgado (guitarras), Yuri Daniel (baixo), Alexandre Frazão (bateria), Eleonor Picas (harpa), com produção e direcção de arranjos de Miguel Ferreira, teclista dos Clã, e co-produção de Nélson Carvalho. A edição é da Universal Music. Ao longo da sua frutuosa carreira, Maria João interpretou diversas vezes música brasileira, e, de uma forma mais evidente, no álbum «Chorinho Feliz», em conjunto com Mário Laginha.

22 fevereiro, 2007

Maria de Medeiros Atira-se à Música... Brasileira



É uma moda ou, finalmente, o reconhecimento de que a música brasileira é ouvida e amada há muito tempo em Portugal?... O primeiro álbum a solo a sério de Teresa Salgueiro, «Você e Eu», é dedicado à música brasileira, o próximo álbum da cantora Maria João (desta vez sem Mário Laginha) também é preenchido por canções brasileiras, o primeiro a solo de JP Simões (ex-Quinteto Tati e ex-Belle Chase Hotel), «1970», tem originais dele mas assombrados pela obra de Chico Buarque. E agora a actriz Maria de Medeiros (ela de filmes de culto portugueses como «Silvestre» ou de «blockbusters» como «Pulp Fiction») estreia-se com um álbum cuja maioria de canções é também de Chico Buarque e com o resto do alinhamento a ser servido com temas de Caetano Veloso e Ivan Lins, entre outros. O álbum, «A Little More Blue», editado pela Universal, saca o título ao tema-homónimo de Caetano Veloso (de quem também canta «O Quereres»), mas é de Chico Buarque o grosso das versões - «Joana Francesa», «O Que Será», «Samba e Amor», «Tanto Mar», «Acorda amor», «Samba de Orly», «Acalanto», «Outros Sonhos» e o bastante apropriado «Ela Faz Cinema» -, com o resto do ramalhete a ser ocupado por «O Seu Amor», de Gilberto Gil, «Começar de Novo», de Ivan Lins e Vitor Martins, e «A Noite do Meu Bem», de Dolores Duran. Maria de Medeiros, recorde-se, é filha do maestro, pianista e compositor António Victorino d'Almeida e teve uma pequena participação vocal no álbum «Drama Box», da fadista Mísia.

07 fevereiro, 2007

Lenine - Cantar, Cantar Sempre



Um dos mais criativos e talentosos cantores-compositores brasileiros, Lenine, apresenta o seu novo álbum «Acústico MTV», no Teatro Tivoli, em Lisboa, dia 28 de Março. Gravado com o seu grupo habitual - Jr. Tostoi (guitarra), Guila (baixo) e Pantico Rocha (bateria) - este é o primeiro álbum ao vivo do cantor. Com um leque de convidados de luxo - da cantora e acordeonista mexicana Julieta Venegas ao cantor e baixista camaronês Richard Bona, passando pelo ex-baterista dos Sepultura Iggor Cavalera e pelo rapper GOG -, o disco foi gravado em S.Paulo e já está à venda há alguns meses. Os convidados não vêm a Lisboa, mas esta é sempre uma boa oportunidade para ouvir canções como «O Atirador», «Hoje Eu Quero Sair Só» ou «Jack Soul Brasileiro».

18 janeiro, 2007

Cromos Raízes e Antenas X



Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo X.1 - Os Mutantes


Exemplo maior e pioneiro de como as músicas locais se podem fundir na perfeição com músicas «globais», o movimento brasileiro do tropicalismo (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé...) teve no grupo Os Mutantes a sua expressão mais radical. Os Mutantes nasceram em 1966, em São Paulo, pela mão de Rita Lee (voz), Sérgio Dias (guitarra e voz) e Arnaldo Baptista (baixo, teclados e voz) e cedo se destacaram com a sua mistura de música brasileira com o psicadelismo, o garage, o experimentalismo (inclusive na criação de instrumentos próprios, como as «guitarras de ouro» construídas por Cláudio César). Depois, colaboram com Gilberto Gil, criam espectáculos cénicos completos (entre os Beatles e os Velvet Underground/Andy Warhol o seu coração balança), atiram-se ao rock progressivo, mudam de formação várias vezes... até acabarem em 1978. Agora fazem parte das brumas de uma belíssima lenda; uma lenda que renasceu durante alguns meses para uma digressão internacional em 2006 (com Zélia Duncan no lugar de Rita Lee).


Cromo X.2 - Sandy Denny


Voz inesquecível da folk britânica, Sandy Denny (Alexandra Elene MacLean Denny; nascida a 6 de Janeiro de 1947 e falecida a 21 de Abril de 1978) será para sempre recordada como a cantora da fase de ouro dos Fairport Convention. Em meados dos anos 60 fez parte dos Strawbs e gravou um álbum a solo antes de ingressar nos Fairport Convention, com os quais gravou três álbuns fundamentais da folk britânica. Em 1969 Sandy forma a sua própria banda, Fotheringay, que tem uma existência fugaz, antes de gravar alguns álbuns a solo, com músicos convidados dos... Fairport Convention, banda a que regressa em 1972 para a gravação de um álbum genial, «Rising for the Moon». No interim é o contraponto perfeito de Robert Plant no dueto de «The Battle of Evermore», dos Led Zeppelin. Continua a gravar nos anos 70 mas a sua estrela vai-se apagando - Sandy foi, durante muitos anos, dependente de álcool e drogas duras - até à sua morte.


Cromo X.3 - Bouzouki


Instrumento-símbolo da música tradicional grega - mas adoptado também pela música balcânica e por uma miríade de grupos folk britânicos (principalmente na sua variante irlandesa) e não só... -, o bouzouki é um cordofone com o corpo em forma de pêra e um braço bastante longo. Descendente do alaúde e irmão da bandola e do saz (da Turquia), o bouzouki foi chamado na antiguidade «pandouris» ou «pandourion» e é geralmente considerado o primeiro cordofone conhecido (há documentos do séc. IV A.C. a ele referentes). No séc. XX, o bouzouki fica indelevelmente ligado ao género musical grego por excelência, a rembetika, e chega à fama internacional através do filme «Zorba, O Grego». Mas antes disso, no início do século, foi perseguido porque era associado ao mundo do crime, tendo alguns intérpretes de bouzouki sido presos por tocá-lo.


Cromo X.4 - Hoba Hoba Spirit


Originários de Casablanca, em Marrocos, os Hoba Hoba Spirit são os líderes da «hayha music», género que mistura músicas ocidentais (punk, funk, reggae...) e do norte de África (châabi, rai, gnawa...) com mensagens de paz e tolerância. Os Hoba Hoba Spirit nasceram em 1998, um pouco à imagem do «DIY»: dois amigos, vagamente músicos, o guitarrista e letrista Reda Allali e o percussionista e cantor Aboubakr Zehouani, juntaram-se para fazer música apenas por divertimento, aos quais se juntou depois outro guitarrista, Anouar (irmão de Aboubakr). Mas a história dos Hoba Hoba Spirit só começa a sério em 2002: sem Aboubkar, o duo remanescente (Reda e Anouar) recruta músicos profissionais para o projecto e lança-se à conquista de vários palcos (Marrocos, França, Alemanha...). Escuta aconselhada: «Blad Sziko», álbum de 2005.

06 janeiro, 2007

Discos 2006 - Os Melhores do Raízes e Antenas


Exercício sempre falível, pessoal e passageiro (as escolhas de agora podem não ter sido as de há alguns meses e as que não serão daqui por algum tempo), aqui ficam alguns topes avulsos do Raízes & Antenas construídos a partir de discos editados durante o ano de 2006. E sem regras muito rígidas (no Top nacional, por exemplo, entre muitos álbuns de estúdio com temas originais, também se encontram um EP dos Buraka Som Sistema, um álbum dos Nobody's Bizness gravado ao vivo e uma colectânea de Rodrigo Leão, esta porque os temas originais que inclui seriam suficientes, de tão bons que são, para lhe garantir um lugar neste Top de qualquer maneira). Como é óbvio, há discos que não ouvi e, por isso, não podem constar nestas listas e outros de que já me esqueci, não havendo, em relação a estes, quaisquer desculpas... Resta referir que por vezes as secções também não são tão óbvias quanto parecem (por exemplo: o primeiro lugar no Top do Brasil é do grupo semi-belga semi-brasileiro Think of One; os Toubab Krewe são norte-americanos e estão no Top de África; e Bruce Springsteen está no Top das Américas e não no de Rock) e que muitos dos discos incluídos nestas listas já foram criticados neste blog, outros ainda o serão nos tempos mais próximos e outros nem por isso...


20 ÁLBUNS DA EUROPA CONTINENTAL

1 - Accordion Tribe - «Lunghorn Twist»
2 - Ojos de Brujo - «Techarí»
3 - Mari Boine - «Idjagiedas»
4 - KAL - «Asphalt Tango»
5 - Moussu T e lei Jovents - «Forever Polida»
6 - Gjallarhorn - «Rimfaxe»
7 - Kepa Junkera - «Hiri»
8 - OMFO - «We Are the Shepherds»
9 - Amparanoia - «La Vida Te Da»
10 - Klezmofobia - «Tantz!»
11 - Haydamaky - «Ukraine Calling»
12 - Darko Rundek & Cargo Orkestar - «Mhm A-Ha Oh Yeah Da-Da (Migration Stories and Love Songs)»
13 - Di Grine Kuzine - «Berlin Wedding»
14 - Gogol Bordello - «Gypsy Punks»
15 - Kachupa Folk Band - «Gabrovo Express»
16 - Kerekes Band - «Pimasz - Magyar Funk»
17 - Ludovico Einaudi - «Divenire»
18 - Ilgi - «Saules Meita»
19 - Abnoba - «Vai Facile»
20 - Juan Mari Beltran - «Orhiko Xoria»


10 ÁLBUNS DA FOLK BRITÂNICA

1 - Bert Jansch - «The Black Swan»
2 - Bellowhead - «Burlesque»
3 - Kathryn Tickell & Corrina Hewat - «The Sky Didn't Fall»
4 - Uiscedwr - «Circle»
5 - Tim Van Eyken - «Stiffs Lovers Holymen Thieves»
6 - The Devil's Interval - «Blood and Honey»
7 - Waterson:Carthy - «Holy Heathens and the Old Green Man»
8 - Karine Polwart - «Scribbled In Chalk»
9 - Rachel Hair - «Hubcaps & Potholes»
10 - Chumbawamba - «A Singsong and a Scrap»

20 ÁLBUNS DE ÁFRICA

1 - Ali Farka Touré - «Savane»
2 - Mayra Andrade - «Navega»
3 - Rachid Taha - «Diwan 2»
4 - Tartit - «Abacabok»
5 - Ba Cissoko - «Electric Griot Land»
6 - Natacha Atlas - «Mish Maoul»
7 - Nuru Kane - «Sigil»
8 - Toumani Diabaté's Symmetric Orchestra - «Boulevard De L’Independance»
9 - Gigi - «Gold & Wax»
10 - Etran Finatawa - «Introducing...»
11 - Toubab Krewe - «Toubab Krewe»
12 - Souad Massi - «Mesk Elil»
13 - K'naan - «The Dusty Foot Philosopher»
14 - Vieux Farka Touré - «Vieux Farka Touré»
15 - Afel Bocoum & Alkibar - «Niger»
16 - Lura - «M'Bem di Fora»
17 - Akli D - «Ma Yela»
18 - Cheikh Lô - «Lamp Fall»
19 - El Tanbura - «Between The Desert And The Sea»
20 - Maghrebika - «Neftakhir»


10 ÁLBUNS DA ÁSIA

1 - Mercan Dede - «Breathe»
2 - Boom Pam - «Boom Pam»
3 - Fun-Da-Mental - «All Is War»
4 - Karsh Kale - «Broken English»
5 - Yashila - «Drive East»
6 - Burhan Oçal & Istanbul Oriental Ensemble - «Grand Bazaar»
7 - Anoushka Shankar - «Rise»
8 - The Idan Raichel Project - «The Idan Raichel Project»
9 - Asha Bhosle - «Love Supreme»
10 - Susheela Raman - «Music For Crocodiles»


10 ÁLBUNS DO BRASIL

1 - Think Of One - «Tráfico»
2 - Cordel do Fogo Encantado - «Transfiguração»
3 - Seu Jorge - «The Life Aquatic Studio Sessions»
4 - Cibelle - «The Shine of Dried Electric Leaves»
5 - Caetano Veloso - «Cê»
6 - Forro In The Dark - «Forro In The Dark»
7 - Badi Assad - «Wonderland»
8 - Tom Zé - «Danç-Êh-Sá»
9 - Marisa Monte - «Universo Ao Meu Redor»
10 - Chico Buarque - «Carioca»

10 ÁLBUNS (DO RESTO) DAS AMÉRICAS

1 - Lila Downs - «La Cantina: Entre Copa Y Copa»
2 - Cristóbal Repetto - «Cristóbal Repetto»
3 - Tanya Tagaq - «Sinaa»
4 - Bruce Springsteen - «We Shall Overcome - The Seeger Sessions»
5 - Los de Abajo - «LDA V The Lunatics»
6 - Free Hole Negro - «Superfinos Negros»
7 - Susana Baca - «Travesias»
8 - Charanga Cakewalk - «Chicano Zen»
9 - Senõr Coconut - «Yellow Fever»
10 - Ska Cubano - «Ay Caramba!»


10 COLECTÂNEAS

1 - Vários - «World Circuit Presents»
2 - Vários - «Electric Gypsyland 2»
3 - Vários - «The Rogue's Gallery»
4 - Vários - «The Rough Guide To Planet Rock»
5 - Vários - «No Child Soldiers»
6 - Vários - «Angola»
7 - Vários - «Congotronics 2»
8 - Vários - «Acorda!»
9 - Vários - «Roots Of Rumba Rock: Congo Classics 1953-1955»
10 - Vários - «Musiques Métisses - Océan Indien»


20 DISCOS DE PORTUGAL

1 - Dazkarieh - «Incógnita Alquimia»
2 - A Naifa - «3 Minutos Antes de A Maré Encher»
3 - Dead Combo - «Quando a Alma não é Pequena»
4 - Uxu Kalhus - «A Revolta dos Badalos»
5 - Brigada Victor Jara - «Ceia Louca»
6 - Gaiteiros de Lisboa - «Sátiro»
7 - Buraka Som Sistema - «From Buraka To The World»
8 - Lúmen - «Fogo Dançante»
9 - Sérgio Godinho - «Ligação Directa»
10 - Rodrigo Leão - «O Mundo»
11 - Nobody's Bizness - «Ao Vivo Na Capela da Misericórdia»
12 - Arrefole - «Veículo Climatizado»
13 - Houdini Blues - «F de Falso»
14 - Aldina Duarte - «Crua»
15 - Kussondulola - «Guerrilheiro»
16 - Célio Pires - «Molinos de l Brosque»
17 - Ovo - «Ovo»
18 - José Peixoto com Maria João - «Pele»
19 - Claud - «Contradições»
20 - Garoto - «Garoto»


10 ÁLBUNS DE ROCK & DERIVADOS

1 - Joanna Newsom - «Ys»
2 - Beirut - «Gulag Orkestar»
3 - Final Fantasy - «He Poos Clouds»
4 - Tom Waits - «Orphans: Brawlers, Bawlers and Bastards»
5 - Sufjan Stevens - «Avalanche»
6 - A Hawk and A Hacksaw - «The Way The Wind Blows»
7 - Scott Walker - «The Drift»
8 - Mi and L'au - «Mi and L'au»
9 - Sonic Youth - «Rather Ripped»
10 - Beck - «The Information»

03 janeiro, 2007

Teresa Salgueiro e Sal - Madredeus em Novos Caminhos


Os Madredeus entraram agora em «ano sabático», segundo as palavras de Pedro Ayres Magalhães ao desmentir a dissolução do grupo, e começam a saber-se novidades sobre os novos projectos de alguns dos elementos do grupo. Para já, a mais «bombástica» é a do novo rumo da carreira da cantora Teresa Salgueiro (na foto, de Daniel Blaufuks), que estreia nos próximos dias em S.Paulo, Brasil, o seu reportório dedicado à bossa-nova e à música popular brasileira, reportório que também integra o seu primeiro álbum a solo (se considerarmos que «Obrigado» era um álbum de colaborações e duetos e não um verdadeiro disco a solo), com edição marcada para Março. A outra, mais discreta mas não menos excitante (pelo que promete musicalmente), é a do projecto «Sal», com José Peixoto e Fernando Júdice a bordo.

Teresa Salgueiro apresenta-se ao vivo no Golden Cross Jazz Club/Tom Jazz, em S.Paulo, dias 10, 11, 12 e 13 de Janeiro, interpretando «standards» de bossa-nova e de MPB compostos por Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Pixinguinha, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Dolores Duran, Luiz Bonfá, Ismael Neto, Antonio Maria, Carlos Lyra e Henricão, entre outros, sendo acompanhada pelos músicos João Cristal (piano), Nailor Proveta (saxofone e clarinete), Marcos Paiva (baixo acústico), Paulo Dafilin (guitarra), Daniel de Paula (bateria) e Maria Diniz e Adriana Dré nos coros. Os mesmos músicos que participam no álbum em que Teresa Salgueiro interpreta 22 temas brasileiros e que a EMI portuguesa edita em Março deste ano. Em Abril, Teresa Salgueiro inicia uma digressão mundial com espectáculos baseados neste alinhamento.

Entretanto, os seus colegas José Peixoto (guitarra) e Fernando Júdice (baixo acústico) - eles que já tinham protagonizado o álbum «Carinhoso», também dedicado à música brasileira (chorinhos) - estão envolvidos num novo projecto de nome Sal, em que também participam a fadista Ana Sofia Varela e o percussionista Vicky. O projecto apresenta-se dia 4 de Março na Casa da Música, Porto, e segundo o press-release inserido no site desta sala de espectáculos, «Sal cruza música de raiz ibérica com a dimensão atlântica do percurso lusófono» e «surge como herdeiro de um legado fadista, recusando‑se a sê‑lo pela diferença da instrumentação e (por) um sentimento onde o convívio da diferença se alia despreocupadamente à mestiçagem da forma».

02 outubro, 2006

Caetano Veloso, Seu Jorge e Think of One - Rock'n'Brasil, Brasil'n'Roll


Se a bossa nova foi uma junção mais que perfeita de música brasileira com o jazz (acabando por influenciar o rumo deste género nascido nos Estados Unidos), o tropicalismo foi - e é, porque o tropicalismo continua vivo... - a reunião de muito do que de melhor tinha a música brasileira e do melhor que tinha o rock. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes foram os pioneiros de uma fusão que deu frutos no Brasil e este país nunca mais deixou de estar virado para as linguagens pop/rock e seus derivados (com o movimento «contrário» a ser feito, também, por inúmeros artistas: David Byrne, A Certain Ratio, Liquid Liquid, Paul Simon, Sting, Everything But The Girl ou, mais recentemente, inúmeros projectos de música electrónica alemães, belgas, ingleses, japoneses, a irem ao Brasil buscar os ritmos que faltam nos computadores e sequenciadores). E, no Brasil, bom rock nunca faltou, de Rita Lee a Fernanda Abreu, dos Legião Urbana e Paralamas do Sucesso aos Sepultura, dos Ratos de Porão a Carlinhos Brown. Às vezes com mais Brasil, outras vezes com mais rock. Os álbuns de aqui se fala - Caetano Veloso (na foto), Seu Jorge e o colectivo belga-brasileiro Think of One - são bons exemplos, recentes, de como os dois universos estão tão próximos...


CAETANO VELOSO
«CÊ»
Universal Music

Um dos papas - o Papa? - do tropicalismo, Caetano Veloso, regressa aos álbuns de originais com um disco, no mínimo, surpreendente. Sem a «muleta» (muitas vezes uma bela muleta, diga-se) das orquestrações de Jaques Morelenbaum, Caetano atira-se a um álbum rock nas suas mais diversas coordenadas: o funk, o pós-punk, o punk, o psicadelismo, alguma coisa de noise e experimental. Mas, claro, também com outras referências aqui e ali. O segundo tema do álbum, «Minhas Lágrimas», tem essência de fado, perfume de ranchera, fragrância de alt.country e é de uma tristeza inacreditável. «Waly Salomão» é psicadelismo a dar mais para os cogumelos (com açafrão marinado em sitares indianas) do que para os ácidos. «Não Me Arrependo» é uma belíssima balada sixties com citação de «Walk On The Wild Side». «Odeio» faz lembrar... Xutos & Pontapés. «Porquê?» (a tal que tem sotaque português de Portugal e em que ele repete várias vezes «estou-me a vir» - talvez como eco onírico da sua inveja dos orgasmos múltiplos das mulheres na canção anterior, «Homem») é um divertimento inconsequente. «O Herói» é um rap sobre como crescer na favela com guitarras de Sonic Youth. Quer dizer, «Cê» é um álbum obviamente desequilibrado, mas com alguns temas lindíssimos e é mais interessante quando não é tão rock. Mas uma coisa continua a ser verdade: ninguém tem esta voz de veludo mais veludo não há, são raros os que têm esta capacidade de dizer mil coisas num jogo de três ou quatro palavras (seja a falar de sexo, de separações traumáticas, de atentados terroristas ou de desequilíbrios sociais) e são cada vez mais raros os artistas que, ultrapassados os 60 anos de idade, ainda conseguem fazer um álbum de que ninguém está à espera e que será motivo de discussão durante muito tempo. (7/10)


SEU JORGE
«THE LIFE AQUATIC STUDIO SESSIONS FEATURING...»
Hollywood Records/EMI

O último tema do novo álbum de Caetano Veloso, «O Herói», faz o raccord quase perfeito com a personagem que é Seu Jorge: cantor e actor nascido numa favela da Baixada Fluminense que escapou a um destino, digamos, previsível (Seu Jorge viveu nas ruas do Rio de Janeiro durante três anos) quando se revelou como compositor de talento nos Farofa Carioca ou, a solo, nos álbuns «Samba Esporte Fino» e «Cru». Curiosamente, em «The Life Aquatic Sudio Sessions Featuring Seu Jorge», o compositor apaga-se para realçar as capacidades interpretativas (re-interpretativas) do cantor Seu Jorge: neste álbum, Seu Jorge recria (nas inventivas letras em português e nos arranjos, só para voz e guitarra acústica) variadíssimos temas de sucesso de David Bowie - de «Rebel Rebel» a «Rock'n'Roll Suicide», de «Life On Mars» a «Changes», de «Ziggy Stardust» a «Suffragette City» -, com um amor, uma inventividade e um bom gosto inacreditáveis. Seu Jorge inventa aqui vários espécimenes musicais novos, do glam-samba à acid-bossa nova e ao pagode psicadélico, com letras que falam da realidade brasileira e de sentimentos pessoais, sempre com o truque adicional de incluir as palavras em inglês do título original (ipsis verbis ou ligeiramente adaptadas foneticamente) na canção. O último tema é um original divertido, «Team Zissou», e todos eles pertencem à banda-sonora do filme «The Life Aquatic with Steve Zissou», de Wes Anderson (filme em que Seu Jorge participa como actor, ele que se tinha dado a conhecer ao mundo em «A Cidade de Deus»). Pois é, falta «Heroes» para o raccord ser completamente perfeito. (7/10)


THINK OF ONE
«TRÁFICO»
Crammed Discs/Megamúsica

Os Think of One são uma divertidíssima trupe de Antuérpia que sempre procurou o cruzamento de inúmeras linguagens derivadas da música anglo-saxónica (o rock, o funk, o reggae, o jazz..) com muitas outras músicas. Editaram, entre outras aventuras, três álbuns de fusão da música ocidental com a música marroquina (especialmente gnawa e houara) no projecto Marrakech Emballage Ensemble e viraram-se, desde «Chuva em Pó», para a música brasileira. «Tráfico», o álbum mais recente, é um grande, grandíssimo, exemplo de coabitação (os Think of One gostam de lhe chamar «multiculturalismo) de muitas músicas «modernas» com o samba, o forró, o baião, o pagode, o cavalo-marinho ou o maracatú numa festa interminável que mete ao barulho, sempre de forma coerente e orgânica, funk, electrónicas, salsa, reggae e dub, punk ou uma estranhíssima citação do genérico do «Bonanza». É cantado em francês, flamengo e português, com músicos belgas e muitas colaborações de músicos brasileiros recrutados no Recife para o álbum e para os espectáculos (quem os viu em concerto em Loulé sabe que o resultado é absolutamente incendiário). E ouvir uma senhora velhinha - a extraordinária cantora D.Cila do Côco - apelar ao consumo de maconha e de cachaça em «Tirar Onda» é tão surpreendente quanto ouvir Caetano Veloso a dizer que se está a vir. Com a diferença de que aqui se dança mais... (9/10)