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14 julho, 2008

Festa China Pop no Museu do Oriente


A cantora Sa Dingding (na foto) e o cantor, guitarrista e compositor Cui Jian - que, para quem vai ao FMM, também pode ser visto no Castelo de Sines, dia 25 de Julho - são os protagonistas da Festa China Pop, que decorre no Museu do Oriente, em Alcântara, Lisboa, nos dias 20, 25 e 26 de Julho. O comunicado do festival, na íntegra:

«A Festa China Pop anima o Museu do Oriente, em Julho, com muita música e espectáculos tradicionais, proporcionando um olhar sobre a cultura chinesa, que combina tradição, modernidade e diversão para toda a família.

As festividades começam a 20 de Julho, na doca Rocha Conde d’Óbidos, com a Taça Fundação Oriente em barcos-dragão, com a participação de várias equipas provenientes de todo o país. A anteceder as corridas, a Escola de Artes Marciais She Si, do Porto, realiza um espectáculo de Dança do Dragão.

A 25 de Julho, a Festa China Pop tem como protagonista Sa Dingding, vencedora do BBC Award para “Melhor Artista Asiática” de 2007, que apresenta o seu último álbum, "Alive", no Auditório do Museu do Oriente. Neste espectáculo imperdível, a estrela chinesa do momento será acompanhada por bailarinos de kung-fu.

A animação prossegue, a 26 de Julho, com os sons modernos da China, interpretados por Cui Jian, o “pai” do rock chinês.

O cantor, que simboliza a crescente abertura e modernização da sociedade chinesa, começou a carreira no início da década de 80, enquanto trompetista na Orquestra Filarmónica de Beijing. Mas tarde, interessou-se pelo rock e, inspirado por nomes como Bob Dylan e Simon & Garfunkel, formou uma das primeiras bandas pop da China.

Em 1986, num concerto comemorativo do Ano da Paz, subiu ao palco em traje camponês para cantar "Nothing To My Name", que se tornou num hino progressista da juventude chinesa. Em 1990, edita New Long March, o álbum mais vendido da história da China.

Mais recentemente, em 2002, Cui Jian produziu um festival de música rock nas montanhas de Yunnan, considerado pela imprensa internacional como o “Woodstock” da China. No ano seguinte, abriu o espectáculo dos Rolling Stones, em Beijing e, em 2005, apresentou-se, ao vivo, no estádio de Beijing, num concerto que assinalou o final da proibição das suas actuações na capital chinesa.

PROGRAMA

TAÇA FUNDAÇÃO ORIENTE – CORRIDAS DE BARCOS-DRAGÃO

Data: 20 Julho

Local: Doca Rocha Conde d’Óbidos, Alcântara

Horário: 15h00-18h00

Colaboração: Associação Naval Amorense/ Administração do Porto de Lisboa


SA DINGDING

Data: 25 Julho

Local: Auditório

Horário: 21h30

Preço: € 15,00 (€ 24,00 incluindo o espectáculo de dia 26 de Julho)

Duração aproximada: 1 hora e 15 minutos, sem intervalo

Co-produção: Fundação Oriente/ Sons em Trânsito

M/ 6

Sa DingDing (cantora), Huo Yonggang (voz, horse hair, violino, erhu, jinghu, gaohu, percussão), Peng Fei (voz, teclado, violino electrónico), Christopher Trzcinski (voz, percussão), Zhang Yi (voz, pipa zheng, ruan, sanxian), Zhou Qing (voz, flauta de Bambu, xiao), Zhang Lei (kung fu), Tian Zhijun (kung fu), He Lei (bailarino).


CUI JIAN

Data: 26 Julho

Local: Auditório

Horário: 21h30

Preço: € 15,00 (€ 24,00 incluindo o espectáculo de dia 25 de Julho)

Duração aproximada: 1 hora e 15 minutos, sem intervalo

Co-produção: Fundação Oriente/ Sons em Trânsito

M/ 12

Cui Jian (cantor, guitarra, trompete), Liu Yuan (saxofone, flauta), Liu Yue (baixo), Eddie Randriamampionona (guitarra), Wu Yongheng (percussão), Zhang Yongguang (percussão), Xia Jia (teclas)».

Mais informações, aqui.

11 julho, 2008

Festival Al'Buhera - Outras Músicas em Albufeira


E mais um festival: o Festival Al'Buhera - Encontro de Culturas, que decorre em Albufeira de 23 a 27 de Julho, com um cartaz bastante diversificado: Xaile, Lura, Marenostrum, A Banda Alhada, Oojami (na foto) e Lila Downs. Toda a informação, já a seguir:


«Festival Al'Buhera
Encontro de Culturas

Entre 23 e 27 de Julho, impõe-se uma visita ao centro de Albufeira. O Festival Al'Buhera está diferente e vai proporcionar 5 noites de grande riqueza cultural.

Uma Feira de Artesanato, Mostras Gastronómicas e variadíssimos espectáculos a decorrer na Praça dos Pescadores, Avenida 25 de Abril e Largo Eng.º Duarte Pacheco, compõem este Festival que irá, certamente, ocupar um espaço próprio no futuro da animação de época balnear, em Albufeira.

Mostra de Artesanato
Todos os dias das 20h00 às 24h00

23 de Julho - Quarta - 22h30
Xaile (Portugal)

Eis uma das maiores revelações da música nacional dos últimos anos. Lília, Marie e Bia são instrumentistas e donas de pessoalíssimas vozes e personalidades.
O trio faz-se acompanhar por um grupo de músicos que contribui para um espectáculo cheio de festa e de mistério, de força e de sentimento, com uma linguagem poética e musical, totalmente portuguesa porém universal, que ao mesmo tempo que nos enche os olhos e os ouvidos, também nos anima a alma.

24 de Julho - Quinta - 22h30
Lura (Cabo Verde)

Dona de uma voz e talento repletos de elementos poderosos e estimulantes, Lura é actualmente uma das principais embaixadoras da cultura de Cabo Verde. A sua voz mistura-se nas gentes e na música daquele povo. Uma oportunidade para contactar de perto com uma cultura à qual estamos ligados pela nossa História.


25 de Julho - Sexta - 22h00
Marenostrum (Portugal)

Band'Alhada (Portugal)

Os Marenostrum são uma banda fundada em 1994, oriunda do sotavento algarvio. Os seus instrumentistas apostam numa sonoridade que funde algumas características da música popular portuguesa e em particular do Algarve (corridinho e baile mandado), com influências bem diversas, que vão desde a música árabe do Magreb até às tradições celtas, Klezmer e de Cabo Verde.

O Grupo Band'Alhada surgiu, em Albufeira, em meados dos anos 90, em torno de Zé Maria, antigo elemento da Brigada Victor Jara. Juntaram-se ao som dos adufes, sarronca, ferrinhos, pandeireta e bombos, as harmonias da viola clássica, da braguesa, do cavaquinho, dos acordeões, do baixo e do bandolim, para transmitir uma dinâmica diferente aos cantares tradicionais.

26 de Julho - Sábado - 22h30
Oojami (Inglaterra / Turquia)

Oojami, é um projecto original de Necmi Cavli, natural de Bodrum – um popular resort turco, situado no Mar Egeu. Nos anos noventa, Necmi emigrou para Londres. Nos últimos 6 anos, os Oojami produziram 3 álbuns e tocaram centenas de vezes um pouco por todo o mundo. Recentemente, Necmi começou a escrever bandas-sonoras para grandes filmes de Hollywood e a sua música foi licenciada pela EMI Arabia – a maior editora do Médio Oriente.

27 de Julho - Domingo - 22h30
Lila Downs (México)

De volta a Albufeira está aquela que é certamente uma das maiores artistas latino-americanas: Lila Downs. Nascida no México, a cantora não renega as suas raízes “rancheras”. Em palco, Lila encarna os personagens que habitam as suas canções de uma forma muito cénica, não apenas através da sua poderosa linguagem corporal mas também através da sua extraordinária habilidade como mímica aliada à sua fabulosa capacidade vocal».

02 junho, 2008

Rabih Abou-Khalil e Ricardo Ribeiro - O Fado Encontra a Música Árabe


Independentemente das teorias que se tenham sobre as origens do fado - se veio de África, do Brasil, dos países árabes, da Europa do norte ou de muitas e desconhecidas ondas perdidas em mares e oceanos... -, a verdade é que uma experiência como a de que aqui damos conta hoje é extremamente importante para se tentar perceber as pontes que o fado já teve, ou tem agora ou terá um dia, com outras músicas suas familiares. O álbum que reúne o fadista Ricardo Ribeiro e o mestre do oud Rabih Abou-Khalil (na foto, de Markus Lackinger) sai já esta semana, através da Enja, segundo dá conta uma notícia da agência Lusa que aqui publicamos na íntegra:

«À música do libanês Rabih Abou-Khalil juntou-se pela primeira vez uma voz, a do fadista Ricardo Ribeiro, que escolheu poemas em português de autores como José Luís Gordo, Mário Raínho ou Rui Manuel, originando um disco invulgar.

O projecto começou o ano passado por intermédio do encenador Ricardo Pais que os apresentou, seguiram-se dois espectáculos em Lisboa e no Porto, e esta semana surge o álbum, "Rabih Abou-Khalil em português".

"É um projecto que me enche de orgulho pela satisfação que foi trabalhar com um extraordinário músico, e pela forma como o trabalho fluiu, sem forçar nada, correndo tudo muito naturalmente", disse à Lusa Ricardo Ribeiro.

Pela primeira vez, Abou-Khalil juntou voz à sua música.

Os poemas, todos inéditos, foram propositadamente escolhidos para o projecto, à excepção de "Casa da Mariquinhas", de Silva Tavares, que Alfredo Marceneiro popularizou.

"Escolhi letras de poetas com os quais me identificava, todos os autores são contemporâneos e estão vivos, exceptuando Silva Tavares", disse o fadista.

"Casa da Mariquinhas", "Adolescência perdida", de autoria do fadista António Rocha, "Já não dá como está", de Rui Manuel, e "No mar das tuas pernas", de Tiago Torres da Silva, são os favoritos de Ricardo, de um grupo de 12 temas.

"Na realidade gosto de todos os poemas, por isso os escolhi, mas estes têm um gosto especial", justificou.

"`No mar das tuas pernas` surgiu porque o Rabih queria uma letra erótica, quase pornográfica, como indicava a cadência da sua composição musical", explicou.

"No caso de `Casa da Mariquinhas` que é um poema que permite uma leitura nas entrelinhas, a música de Khalil é muito subtil, com descida nas escalas nessas segundas leituras, e depois um ritmo mais acelerado".

"`Adolescência perdida`, de que gosto muito, mostrei-a ao Rabih, e numa semana, durante as gravações em estúdio, aprendi a música e gravámos", afirmou.

Para o fadista, vencedor de uma Grande Noite do Fado (1998) e detentor de um Prémio Amália Rodrigues Revelação (2005), "há na música de Abou-Khalil laivos de fado e até do cante alentejano, mas não houve qualquer tipo de tentativa de aproximação".

"Claro que está lá fado, porque canto fado, mas procurei desligar-me e corresponder ao registo pretendido, à cadência e ao ritmo", disse.

"Essas reminiscências quer do fado quer do cante são naturais, pois os árabes estiveram 800 anos na Península Ibérica", acrescentou.

Fadista da linha tradicional, habituado ao público das casas de fado e das noites de tertúlia fadista, Ricardo Ribeiro afirmou à Lusa que se sentiu "assustado" com o projecto que lhe parecia "complicado".

"Fiquei assustado, com um músico do calibre do Rabih que nunca tinha juntado voz à sua música, mas depois correu muito bem", disse.

"Na música de Khalil tanto o ritmo, muito forte, como a melodia são muito improvisados e não há uma base harmónica como estou habituado no fado", acrescentou.

O fadista realçou que "intuitivamente" se aproximou da música de cariz árabe e quanto a mudanças de estilo afirma: "Sou eu na mesma, porque afinal é a minha alma que canta".

Com Ricardo Ribeiro (voz) e Rabih Abou-Khalil (alaúde) estão Michel Godard (tuba), Jarrod Cagwin (tambor tradicional árabe) e Luciano Biondini (acordeão).

Mannheim, na Alemanha, e Dudelange, no Luxemburgo, são os dois próximos palcos deste projecto, respectivamente a 06 e 14 de Junho.

Agendados estão já mais de uma dezena de espectáculos na Europa: Vila Nova de Cerveira será a primeira localidade portuguesa a recebê-los, dia 26 de Julho. Dia 04 de Agosto estarão no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e dia 10 do mesmo mês na casa da Música, no Porto».

29 abril, 2008

Do Tejo ao Oriente - E Uma Rota de Retorno...


Há muitos séculos, as naus partiram do Tejo em busca do Oriente - de um Oriente mítico mesmo quando verdadeiro, um Oriente feito de gengibre, canela e pimentas, de mulheres exóticas e de marfins brancos de elefantes mortos. A aventura foi feita de coragem e de aventura mas também de crimes, de doenças, de enganos e desenganos (leia-se a «Peregrinação»; oiça-se o «Por Este Rio Acima»...). Mas lá chegámos: à Índia, ao Ceilão, à China e ao Japão - e que os Da Vinci nos perdoem a pobre rima!

Agora, nos inícios do ano 08 do Séc. XXI, a Fundação Oriente inaugura o seu Museu do Oriente, dia 8 de Maio, ali na Doca de Alcântara, em Lisboa, marés-meias de onde as naus partiram para as terras onde nasce o Sol. E, segundo informam as Crónicas da Terra, «nos quatro primeiros dias (de 8 a 11 de Maio), Mário Laginha apresenta o projecto "Trimurti" concebido especialmente para a inauguração do Museu e que inclui notáveis colaborações do guitarrista vietnamita Nguyen Lê (especialista em psicadelismo hendrixiano), do tocador de tablas indiano Prabhu Edouard e do percussionista japonês de taiko e shakuhachu Joji Hirota». Mas ainda há mais: «Durante este fim-de-semana (de 9 a 11 de Maio) há música hindustani com o recital de sitar de Miguel Leão, músicas e danças tradicionais de Goa com o grupo Ekvât (a 10 e 11 de Maio), danças do deserto indiano do Rajastão com a dançarina Carolina Fonseca (9 a 11 de Maio) e música chinesa em instrumentos ocidentais com o Quarteto Capela formado por António Anjos (violino), Bin Chao (violino), Massimo Mazzeo (viola) e Varoujan Bartikian (violoncelo), também nos dias 9, 10 e 11 de Maio. Durante a semana que se segue (dia 14 de Maio), é possível assistirmos à união entre intérpretes sufis paquistaneses da música qawwali (que tinha em Nusrat Fateh Ali Khan o seu mestre supremo) e o flamenco. Faiz Ali Faiz (na foto), que já actuou nos Sons em Trânsito de Aveiro, partilhará o palco do Museu do Oriente com os espanhóis Duquende e Chicuelo (só é pena que Miguel Poveda não participe também neste espectáculo). A 17 de Maio haverá fado (e só fado, sem pontes de entendimento com a música do oriente) com Ana Moura. Uma semana depois, podemos assistir a outro agradável regresso. O colectivo cigano egípcio Musicians of the Nile que participou no último África Festival actua neste espaço a 24 de Maio. A actividade do Museu do Oriente abranda um pouco durante as três semanas que se seguem, para regressar em força a 21 de Junho com o colectivo da Mongólia Egschiglen, que traz na bagagem o álbum recém editado “Gereg” e que é "Top of the World" da última edição da revista britânica Songlines. Um sexteto que já passou pelo saudoso Cantigas do Maio e que é referência obrigatória para quem é apreciador de ritmos cavalgantes das estepes de Tuva e pelo canto gutural Khomei de projectos como os Huun Huur-Tu». Obrigado, Luís!

21 abril, 2008

Cromos Raízes e Antenas XLIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XLIII.1 - Ryuichi Sakamoto


Saído de um dos mais importantes grupos electro-rock japoneses dos anos 70, a Yellow Magic Orchestra, Ryuichi Sakamoto - nascido a 17 de Janeiro de 1952, em Nakano, Tóquio - rapidamente se destacou como um dos mais marcantes compositores e músicos dos últimos trinta anos, tendo a sua obra para disco, filmes (a sua banda-sonora de «Feliz Natal, Mr.Lawrence», onde também é actor ao lado de David Bowie, é maravilhosa) ou outros suportes passado pelo rock, o experimentalismo, a world music (nele convivem vários elementos tradicionais nipónicos mas também música árabe, indiana, africana ou brasileira), as electrónicas ou a ópera. Ao longo do seu riquíssimo percurso musical já trabalhou com David Byrne, David Sylvian, Thomas Dolby, Iggy Pop, Youssou N'Dour, Brian Wilson, Alva Noto, Arto Lindsay ou Jaques Morelenbaum (com quem gravou canções de António Carlos Jobim). Um génio absoluto.


Cromo XLIII.2 - «Latcho Drom», de Tony Gatlif


Pesquisador incansável e apaixonado da cultura cigana, nomeadamente da sua música, o realizador de cinema argelino, e cigano, Tony Gatlif (de seu verdadeiro nome Michel Dahmani, nascido a 10 de Setembro de 1948, em Argel), concluiu em 1993 um filme absolutamente extraordinário: «Latcho Drom», a (longa) história de uma viagem que traça a diáspora do povo cigano a partir do Rajastão, na Índia, e a sua chegada a países distantes como a Roménia, França, Egipto, Turquia, Hungria, Eslováquia ou Espanha. Uma viagem que é feita, sempre, com a música e a dança como traço fundamental de união e de memória deste povo. «Latcho Drom» (que significa, em romani, «boa viagem») é, talvez, o pico mais alto da carreira de Gatlif - ele também compositor de música - que tem como outros filmes marcantes o igualmente inesquecível «Gadjo Dilo», «Vengo», «Exils» ou o recente «Transylvania».


Cromo XLIII.3 - Susana Baca


A cantora Susana Baca - de seu nome completo Susana Esther Baca de la Colina, nascida a 24 de Maio de 1944, em Chorrillos, Lima - é também uma respitadíssima compositora e estudiosa da influência da música africana no Peru. Paralelamente à sua carreira musical - que já nos deu álbuns fabulosos como «Vestida de Vida, Canto Negro de las Américas!», «Fuego y Agua», «Espíritu Vivo», «Lamento Negro» (com o qual ganhou um Grammy) ou «Travesías» - é também, juntamente com o seu marido Ricardo Pereira, a responsável pelo Instituto Negro Contínuo que, nos arredores de Lima, recorda as heranças culturais que os escravos vindos de África deixaram no seu país. Cantando lunduns, valsas, marineras, zamacuecas ou canções de Gilberto Gil e poemas de Pablo Neruda, a sua voz é sempre enorme e a sua vida um enorme exemplo.


Cromo XLIII.4 - Babatunde Olatunji


Mito maior da música africana - e do que a música africana tem de mais ancestral, as percussões -, Babatunde Olatunji nasceu a 7 de Abril de 1927 em Ajido, Lagos, na Nigéria, e morreu a 6 de Abril de 2003, nos Estados Unidos. E foi nos Estados Unidos que ele teve a parte principal da sua profícua carreira, iniciada nos anos 50 quando fez amizade com um dos maiores génios do jazz, John Coltrane, e com o A&R John Hammond, da Columbia Records, editora para a qual começou a gravar em 1957 (o seu álbum «Drums of Passion» é um clássico). Fundador do Olatunji Center for African Culture, em Harlem, Nova Iorque, e guru de inúmeros bateristas, percussionistas e outros músicos (de Bob Dylan a Santana, de Mickey Hart a Airto Moreira, de Quincy Jones a Stevie Wonder, de Max Roach a Muruga Booker), Olatunji foi também um activista dos direitos civis nos EUA, ao lado de Martin Luther King e, depois, de Malcolm X.

22 fevereiro, 2008

DuOud, Maghrebika e Bodyshock - Mais Música de Fusão (Com e Sem Confusão)


O Ocidente (e quando falo em «ocidente» falo da Europa e dos Estados Unidos) sempre teve um grande fascínio pelos sons vindos do, em sentido lato, Oriente. E aqui o Oriente pode assumir a forma do Japão, da China, da Índia ou, um pouco mais perto de nós, da Turquia e dos países do norte de África. Hoje, no Raízes e Antenas, há lugar para a fusão de músicas (e músicos) ocidentais com músicas (e músicos) do norte de África e da Turquia: o álbum de colaboração dos DuOud - o duo de Smadj e Mehdi Haddab (na foto) - com Abdulatif Yagoub, Bodyshock e Maghrebika com Bill Laswell.


DUOUD & ABDULATIF YAGOUB
«SAKAT»
Indigo Records

Os DuOud são um maravilhoso exemplo de como as músicas tradicionais se podem misturar na perfeição com programações electrónicas, efeitos de estúdio, estilos «ocidentais» (dub, breakbeats, rock vindo de guitarras eléctricas, etc, etc...), sempre sem perder a essência e a verdade da música de raiz e a pureza dos seus instrumentos: as vozes, os sopros, as percussões, as cordas. DuOud, trocadilho - e se se reparar bem, DuOud pode ler-se de trás para a frente - com as palavras «duo» e «oud» (o alaúde árabe), é o grupo de dois músicos residentes em Paris, o tunisino Jean-Pierre Smadja (também conhecido como o DJ, produtor e engenheiro-de-som Smadj) e o argelino Mehdi Haddab (também dos Ekova). E, apesar de ambos tocarem oud - o que está bem presente no seu álbum de estreia, «Wild Serenade» -, para este segundo disco, «Sakat», os dois convocaram o cantor e mestre do alaúde Abdulatif Yagoub e ainda Ahmed Taher (que toca mismar, um instrumento de sopro), músicos que os DuOud «descobriram» no Iémen, durante uma digressão pelo norte de África. E foi no Iémen que o duo gravou, com Yagoub, Taher e os seus percussionistas, vários temas tradicionais que depois trabalharam e pós-produziram em Paris. Mas fizeram-no com tal paixão e arte que o resultado final nunca sufoca a música de raiz, antes sublinhando-a e levando-a para lugares belos e inesperados. Faz lembrar, só por vezes, o que Brian Eno e David Byrne fizeram em «My Life In The Bush of Ghosts»; e isso é bom! (9/10)


MAGHREBIKA
«NEFTAKHIR»
Barraka el Farnatshi/Barbarity

Embora não seja tão bom quanto «Sakat», o primeiro álbum de estreia dos Maghrebika, «Neftakhir», é também um feliz encontro entre músicos e produtores «ocidentais» - o germano-suiço Pat Jabbar (fundador da editora Barraka el Farnatshi, colaborador da cantora Sapho e o «descobridor» dos históricos Aisha Kandisha's Jarring Effects) e o «maior trabalhador do mundo da música depois de Frank Zappa» Bill Laswell (tal é a quantidade de discos e projectos em que se ele mete) - com dois argelinos radicados na Suiça, Abdelkader Belkacem e Abdelaziz Lamari, mais alguns músicos do norte de África e ainda as cantoras das B-Net Marrakech (cinco mulheres berberes que já tinham antes colaborado com Rachid Taha e Cheb I Sabbah). E o resultado do encontro é uma viagem, em primeira classe, por géneros norte-africanos - o rai, o gnawa, o shabee... - polvilhados por electrónicas variadas (lounge, trip-hop, dub, até o tecno - cf. em «Matkhafsh»), tudo locomovido pelo baixo eléctrico de Laswell. E se bem que, comparativamente com o álbum dos DuOud, as electrónicas e os efeitos de estúdio tenham em «Neftakhir» um peso maior, o álbum dos Maghrebika ouve-se quase com o mesmo agrado, sendo muitas vezes também viciosamente dançável. (8/10)


BODYSHOCK
«THE BELLYDANCE PROJECT»
Caravan Records

Claramente o menos interessante deste lote de três discos, «The Bellydance Project», dos Bodyshock - projecto de um homem só, o compositor, produtor e autor de bandas-sonoras Rabih Merhi - poderá ser, no entanto, um rebuçadinho para muitos DJs em busca de músicas exóticas/orientais propulsionadas a ritmos das pistas de dança ocidentais. Com inúmeras alusões à música turca, à música árabe, até à música indiana (em «Namaste») e à rembetika grega (em «Athena») - e fazendo uso de imensos instrumentos tradicionais (alaúdes, bendires, darabukas, bouzouki, ney, etc, etc), os géneros e os intrumentos tradicionais são depois mergulhados num caldo de efeitos electrónicos, sintetizadores, beats que nem sempre resultam - o primeiro tema, «Sahara Spirit», é simplesmente horrível! - mas que por vezes até conseguem passar mais ou menos despercebidos, lá mais para o fim do disco. E, para fazer alguma justiça ao título, quase todos os temas até são bons para exercícios variados de «dança-do-ventre». (5/10)

20 fevereiro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XXXIX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXIX.1 - Calexico


Influenciados por Ennio Morricone, Ry Cooder, country, fado, surf rock, jazz, música andina e mexicana, os Calexico são um dos mais interessantes exemplos de como várias músicas podem conviver numa música nova e excitante. Formados por Joey Burns na guitarra e voz e John Convertino na bateria e percussões (ambos envolvidos nos Friends of Dean Martinez e, ainda antes, nos Giant Sand), em Tucson, Arizona, Estados Unidos, em 1996, os Calexico tornaram-se - logo ao primeiro álbum, «The Black Light» (1998)- um dos nomes de ponta do alt-country norte-americano, sendo também bastante apreciados por largas franjas dos cultores do rock indie. Ao longo dos anos, os Calexico - actualmente uma banda alargada a seis músicos - têm tocado e gravado com gente como Victoria Williams, Howe Gelb (ex-«patrão» do duo nos Giant Sand), Iron & Wine ou Mariachi Luz de Luna.


Cromo XXXIX.2 - Celia Cruz


Por muitos considerada como a maior cantora cubana do último século, Celia Cruz - Úrsula Hilaria Celia Caridad Cruz Alfonso, nascida a 21 de Outubro de 1925, em Havana, falecida a 16 de Julho de 2003 - dedicou a sua vida à divulgação no exterior do seu país natal de vários géneros musicais cubanos, principalmente a salsa. Com uma carreira de enorme sucesso - no seu historial contam-se 23 discos de ouro -, é difícil imaginar que a sua vida artística começou como cantora de um bar de strip-tease e que teve como primeiro salário... um bolo. O seu primeiro disco, gravado na Venezuela, foi editado em 1948. Mas foi dois anos depois que começou a dar nas vistas, quando integrou a orquestra Sonora Matancera. E, nas décadas que se seguiram, Celia teve frutuosas parcerias com músicos como Tito Puente, Johnny Pacheco ou Ray Barretto, para além de ter pertencido ao mítico super-grupo latino-americano Fania All-Stars.


Cromo XXXIX.3 - Alim Qasimov


Dono de uma voz poderosíssima, extraordinariamente bem timbrada e transmissora de emoções únicas, Alim Qasimov (ou Gasimov) é o intérprete mais conhecido de um género raro e difícil de música, o mugam, um estilo próprio do Azerbaijão e de alguns países vizinhos em que a forma de cantar tem que estar directamente conectada, emocionalmente, com as palavras que se cantam. E, no mugam, tanto o cantor quanto os músicos que o acompanham, podem e devem improvisar a partir dos poemas da base de cada canção. Alim Qasimov nasceu em 1957, em Shamakha, no Azerbaijão, e tem tido uma assinalável carreira de sucesso internacional, nos últimos anos também ao lado da sua filha Fargana Qasimova. Um dueto de Alim com o malogrado Jeff Buckley - gravado no álbum «Live a L'Olympia», de Buckley - é uma maravilhosa porta aberta entre dois mundos.


Cromo XXXIX.4 - Farafina


Nome maior da música do Burkina Faso, os Farafina são um grupo de músicas e danças tradicionais fundado em 1978, na cidade de Bobo Dioulasso, por Mahama Konaté, que fazia parte, tocando balafon, do Ballet Nacional do Alto Volta (o antigo nome do Burkina Faso). Com uma música que partilha afinidades com a de outros países do antigo Império Mandinga, na África Ocidental, os Farafina usam essencialmente instrumentos tradicionais (balafon, djembé, kora, flauta, doum-doum...) para criar uma sonoridade pulsante, dançável, quentíssima. E no seu currículo contam com actuações históricas (Festival de Jazz de Montreux; o concerto de aniversário de Nelson Mandela no Estádio de Wembley, em Londres; Festival Womad...) e colaborações em álbuns de músicos e grupos como os Rolling Stones (em «Steel Wheels»), Jon Hassell (em «Flash of The Spirit») ou Ryuichi Sakamoto (em «Beauty»).

08 fevereiro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XXXVIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXVIII.1 - Trilok Gurtu


Trilok Gurtu (nascido em Bombaim, Índia, a 30 de Outubro de 1951) é baterista, percussionista e, acima de tudo, um mestre incontestado da arte de bem tocar tablas, o instrumento de percussão mais emblemático do seu país. Músico, compositor, homem de olhos abertos para o mundo - e com os olhos do mundo sempre atentos ao que ele faz - Trilok sente-se tão à vontade a reinventar as músicas tradicionais indianas como em palcos e estúdios que partilha com músicos e cantores do jazz, do rock, da fusão, da world music. Já tocou com gente tão diferente como Terje Rypdal e Dulce Pontes, John McLaughlin e Don Cherry, Joe Zawinul e Robert Miles... ou no histórico colectivo Tabla Beat Science (com outras luminárias como Bill Laswell, Karsh Kale e Talvin Singh) e em parceria com o grupo italiano Arkè String Quartet. Um génio.


Cromo XXXVIII.2 - Led Zeppelin


Inventores absolutos da corrente hard-rock/heavy-metal - juntamente com os Deep Purple e os Black Sabbath -, os Led Zeppelin nasceram em Setembro de 1968, em Londres, Inglaterra, integrados na enorme fornada de músicos brancos, ingleses, que iam aos Estados Unidos e aos blues negros buscar a sua inspiração maior. Copiando (muitas vezes pilhando descaradamente) e reinventando essa música de origem ancestral africana, os Led Zeppelin - Robert Plant (voz), Jimmy Page (guitarras), John Paul Jones (baixo) e John Bonham (bateria) - criaram, até 1980 (ano do seu desaparecimento como banda), um «corpus» musical onde, aos blues e ao rock, muitas outras músicas se juntaram: reggae, a música folk britânica (inesquecível o tema com Sandy Denny, «The Battle of Evermore», no quarto álbum da banda) e as músicas do mundo, desde a indiana à música árabe («Kashmir», do álbum «Physical Graffiti», é um belíssimo exemplo).


Cromo XXXVIII.3 - Mory Kanté


E, de repente, as pistas das discotecas - nessa segunda metade da década de 80 -, mais habituadas ao electro, ao euro-disco ou à nascente house music, abriam-se a uma música africana, «Yéké Yéké», que entrava ali como faca em manteiga, mesmo que a faca estivesse revestida de alguns símbolos incompreensíveis. O tema era assinado por Mory Kanté e escondia uma grande história: a de um músico nascido numa das melhores famílias de griots da Guiné-Conacri, Mory Kanté, cantor, especialista na antiga arte de tocar kora mas fascinado pelos ritmos ocidentais. Mory nasceu em Kissidougou, na Guiné-Conacri, a 29 de Março de 1950, mas foi no Mali que aprendeu a tocar kora ainda durante a infância. E foi no Mali que, ao lado de Salif Keita, fez parte da lendária Super Rail Band, em Bamako. Uma lenda que continuou, anos depois, quando editou álbuns em nome próprio e se tornou um dos mais respeitados artistas africanos na Europa e nos Estados Unidos.


Cromo XXXVIII.4 - Sevara Nazarkhan


Diva maior da música do Uzbequistão, Sevara Nazarkhan é uma cantora, instrumentista e compositora que transporta consigo a música da «rota da seda» - e quantos trocadilhos se poderiam fazer, a partir do nome deste tecido, com a sua própria voz! -, abrindo-a, com subtileza e elegância, a outras músicas. Nascida em Andijan, no vale de Fergana, Sevara começou por cantar num quarteto de vozes femininas antes de se lançar numa frutuosa carreira a solo em que canta, compõe e toca doutar (o alaúde, com apenas duas cordas, da Ásia Central). Acolhida no seio da Real World, a editora fundada por Peter Gabriel, editou em 2003 o aclamadíssimo álbum «Yo'l Bo'lsin», produzido por Hector Zazou - ao qual se seguiram «Bu Sevgi» (2006) e «Sen» (2007) -, e colaborou, entre outros nomes, com os Afro Celt Sound System. Ela e a sua música têm uma beleza rara.

25 janeiro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XXXVII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXVII.1 - Caetano Veloso


O cantor, músico, letrista e compositor brasileiro Caetano Veloso (na foto, de Thereza Eugenia) é um dos maiores génios da música mundial. De nome completo Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, nascido em Santo Amaro da Purificação, Bahia, a 7 de Agosto de 1942, Caetano é um dos maiores paradigmas de uma música que vai às raízes populares do seu local de origem para a fundir com a música que as «antenas» lhe trazem. Não por acaso, o seu nome confunde-se com o conceito de «tropicalismo» - a corrente musical brasileira de finais dos anos 60 em que as origens africanas, o caldeirão de culturas que era a Bahia e expressões musicais como a pop, o rock ou o jazz se uniam num todo magnífico, original, vivo. Ao longo de quarenta anos de carreira, Caetano Veloso mudou a música brasileira e influenciou de uma maneira ou outra muitos artistas não brasileiros (de David Byrne a Sérgio Godinho, de Devendra Banhart a Lila Downs).


Cromo XXXVII.2 - Ojos de Brujo


Nascidos no borbulhante movimento do «som mestiço» - que tem como papa Manu Chao -, os Ojos de Brujo formaram-se em 1996, em Barcelona, Catalunha, com uma ideia de música bem-definida e incrivelmente consistente desde o início: fundir o flamenco, e mais especificamente um dos seus «palos» (géneros), a rumba catalã, com muitas outras músicas. Uma aposta que, apesar de não ser completamente original, tem nos Ojos de Brujo o seu expoente máximo. Na sua música - espalhada pelos álbuns «Vengue» (1999), «Barí» (2002), «Techarí» (2006) e «Aocaná» (2009) - o flamenco surge transfigurado, renovado, em contacto com o hip-hop, o funk, o reggae, as electrónicas, a música árabe, latino-americana e indiana. O grupo, que tem à frente a maravilhosa cantora Marina «La Canillas», tornou-se, com mérito, um dos mais importantes do circuito da world music.


Cromo XXXVII.3 - Googoosh


Neste momento é difícil acreditar que no Irão tenha havido divas da música pop e estrelas do cinema equiparáveis às suas congéneres de outros países (norte-americanas, europeias, indianas...). Mas a verdade é que as houve. E o maior e melhor exemplo de uma cantora-actriz, a estrela mais brilhante de um firmamento muito próprio - o Irão ocidentalizado do Xá Rheza Pahlevi - é o de Googoosh, nascida com o nome Faegheh Atashin, em 1950, em Teerão. De origem azeri, Googoosh chegou ao estrelato muito jovem, durante os anos 60, protagonizando filmes e discos que a transformaram, já durante a década seguinte, na maior vedeta iraniana. Na sua música houve - e há - elementos de música persa, azeri, rock, blues, jazz, disco-sound! Com a chegada ao poder do Ayatollah Khomeini, em 1979, Googoosh foi presa durante alguns meses e proibida de cantar. Mas permaneceu no Irão e, vinte anos depois, voltou à ribalta internacional.


Cromo XXXVII.4 - SambaSunda

A expressão máxima, mais genuína e verdadeira, da música indonésia é o gamelão: orquestras de percussões em que campânulas metálicas (ou, por vezes, de bambu) são percutidas de uma forma repetitiva, hipnótica, intrincada. E esta é uma música mágica, ancestral, em que é raro haver desvios. Mas que os há, há: os SambaSunda são um extenso grupo de músicos (geralmente catorze) de Bandung, na ilha de Java, liderados pelo multi-instrumentista e compositor Ismet Ruchimat e com uma cantora, Rita Tila, a traçar surpreendentes melodias sobre uma música feita de tradição - os ensinamentos dos gamelões e o canto tradicional kecak - misturada com reggae, música brasileira (a palavra «samba» em SambaSunda não está lá por acaso), jazz e a energia do rock. «Rawhana's Cry», álbum editado em 2006, lançou-os ao Mundo... E o Mundo agradece.

10 janeiro, 2008

Cromos Raízes e Antenas XXXV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXV.1 - Woody Guthrie


O cantor, músico e compositor Woody Guthrie (Woodrow Wilson Guthrie, nascido a 14 de Julho de 1912, no Oklahoma, Estados Unidos, falecido a 3 de Outubro de 1967, em Nova Iorque) foi o principal pioneiro da folk de intervenção norte-americana, tendo influenciado decisivamente cantores como Bob Dylan, Phil Ochs ou Joan Baez. Compositor de centenas de canções (entre as quais a emblemática «This Land Is Your Land»), sempre do lado das ideologias socialistas - não por acaso, a sua guitarra exibia a inscrição «this machine kills fascists» -, Guthrie lançou as sementes da folk com uma música inspirada na country, na música tradicional irlandesa e nos blues. Fez parte dos importantíssimos Almanac Singers - ao lado de Pete Seeger e outros - e deixou um legado ainda hoje glosado por dezenas de artistas (de Ani DiFranco aos Klezmatics, de Bruce Springsteen a Billy Bragg e os Wilco).


Cromo XXXV.2 - Stella Chiweshe


Instrumento transversal a variadíssimos países africanos, a m'bira (aka kalimba ou kissange ou sansa ou likembe, entre outras designações) é um lamelofone que consiste num jogo de lamelas de metal presas a uma caixa de ressonância de madeira. Há milhares de tocadores de m'bira em África, mas a embaixadora principal do instrumento é a cantora e instrumentista Stella Chiweshe (nascida a 8 de Julho de 1946, em Mhondoro, no Zimbabué). Curiosamente, em várias culturas africanas o acesso à m'bira está interdito às mulheres mas ela aprendeu a tocá-la (à m'bira dzavadzimu, típica do povo Shona, a que Stella pertence) no final dos anos 60, quando ainda por cima qualquer aprendizagem cultural estava proibida à população negra da então Rodésia. Stella é cantora, intérprete de m'bira e compositora, dançarina, actriz, activista. Tudo numa só, e grande, mulher.


Cromo XXXV.3 - Tinariwen


Ainda só têm três álbuns no circuito internacional - «The Radio Tisdas Sessions» (2000), «Amassakoul» (2004) e «Aman Iman» (2007) - mas são uma lenda da música africana, com dezenas de cassetes gravadas desde a fundação do grupo, em 1982. Formados por músicos que, no início, faziam parte da guerrilha tuaregue treinada nos campos militares líbios e apadrinhada pelo Coronel Khadafi, os malianos Tinariwen começaram a desenvolver um estilo musical próprio - o «tishoumaren» -, em que estão presentes elementos de músicas tradicionais tuaregues e de outros povos do norte e oeste de África, os blues e o rock. Não é por isso de estranhar que os seus instrumentos de eleição sejam, ao lado do djembé, várias guitarras eléctricas e um baixo eléctrico. Os seus espectáculos, sempre memoráveis, são uma intensa celebração musical e de vida.


Cromo XXXV.4 - Mercan Dede


Na vanguarda da fusão entre músicas tradicionais e as mais modernas tendências da pop e das electrónicas, o músico, compositor, produtor, DJ, misturador e, só por vezes, cantor turco Mercan Dede é um dos mais notáveis exemplos de como se podem misturar músicas ancestrais (como a música sagrada dos sufis) com as novas linguagens sonoras. Mercan Dede (de verdadeiro nome Arkın Ilıcalı e também conhecido como DJ Arkin Allen; nascido em 1966) aprendeu em jovem a tocar ney (uma flauta tradicional), bendir (instrumento de percussão) e oud (o alaúde dos países árabes), mas a sua paixão pela música ocidental levou-o a seguir para cruzamentos inspirados de música tradicional do Médio Oriente com outras músicas (da música indiana e espanhola ao drum'n'bass, ao dub, ao house...). Entre os seus colaboradores contam-se a cantora indiana Susheela Raman, a turca Aynur ou Peter Murphy (dos Bauhaus).

28 dezembro, 2007

Rabih Abou-Khalil, Mari Boine, Balanescu Quartet... - Os Primeiros Concertos de 2008


O ano de 2008 promete muitos e bons concertos, muitos e ainda melhores festivais. O 10º aniversário do FMM de Sines - que decorre de 17 a 26 de Julho e para o qual está já confirmada a presença dos congoleses Kasai Allstars -, o crescimento sustentado de outros festivais como o MED de Loulé ou o Intercéltico de Sendim, só para referir alguns dos mais óbvios, são garantias de doze meses de programação variada e rica de surpresas nestas «áreas» da world music, da folk e das músicas tradicionais. Mas, para já - e fazendo uso de informações já disponibilizadas pelas Crónicas da Terra -, para os primeiros meses do ano novo estão previstos concertos com o mestre do alaúde libanês Rabih Abou-Khalil (na foto), dia 18 de Janeiro no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, e um dia depois, na Culturgest, em Lisboa; com a fabulosa cantora norueguesa Mari Boine (ver «Cromo» de há alguns dias neste blog), dia 15 de Fevereiro no Teatro Municipal da Guarda e um dia depois na Culturgest, em Lisboa; com o ecléctico quarteto de cordas Balanescu Quartet, também em Fevereiro, dia 7 no Centro Cultural de Belém, dia 8 no Theatro-Circo de Braga e dia 9 no Cine-Teatro de Alcobaça; e com o multi-instrumentista norueguês Karl Seglem, dia 15 de Maio, na Casa da Música, Porto. Lá mais para a frente, a Casa da Música recebe também a visita de outro colectivo congolês, os Konono Nº1, dia 29 de Junho, durante o Festival Mestiço, colectivo que se apresenta também em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, dia 1 de Agosto.

16 novembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXXI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXXI.1 - The Pogues


The Pogues! Diz-se o nome e ouve-se logo a música: aquela música que tanto deve à folk de inspiração «celta» quanto ao punk, com uma energia imensa e uma beleza irrepetível... The Pogues! Diz-se o nome e ouvimos logo a voz de Shane MacGowan e o acordeão, o violino, o bandolim, a tin whistle a meterem-se pela chinfrineira rock adentro... The Pogues! Banda (bando!) de londrinos, muitos deles com raízes irlandesas, que começa em 1982 o seu trajecto sob a designação Pogue Mahone (que significa, em gaélico, «beija o meu cu»), os Pogues sempre se preocuparam em dar importância igual às suas canções de intervenção política, a baladas recuperadas à tradição e a fazer uma música única, pessoal, enorme!, em que o «celtismo» e o rock se cruzavam, de outras vezes, com a country, o cajun ou a música latino-americana. Separaram-se em 1996 (nessa altura já sem Shane) e reagruparam-se, para concertos dispersos, em 2001 (felizmente, com Shane).


Cromo XXXI.2 - Putumayo


Muitas vezes criticada por ser uma editora light que faz compilações «fáceis» e nem sempre exemplares de world music, a nova-iorquina Putumayo é, mesmo assim, uma das melhores portas de entrada de milhões e milhões de pessoas em todo o mundo para... as músicas do mundo. Fundada por Dan Storper em 1975 como uma empresa de roupa, a Putumayo transforma-se em 1993, via Michael Kraus, numa editora de sucesso. Colectâneas temáticas e conceptuais de muitas e variadas músicas - e um design gráfico coerente, comum a todos os discos, de Nicola Heindl - tornaram a Putumayo uma editora famosa não só em lojas de discos mas também em lojas de roupas, livros e até cafés um pouco por todo o mundo. Desde há alguns anos tem dois selos associados: a Putumayo Kids (colecções globais de música para crianças) e a Cumbancha (a editora dos Ska Cubano, The Idan Raichel Project e Andy Palacio).


Cromo XXXI.3 - Ofra Haza


Diva global improvável - e improvável porque vinda de um lugar, digamos, exótico e de uma arte que unia dois mundos desavindos -, a cantora israelita Ofra Haza tornou-se, mercê da sua apresentação num Festival Eurovisão da Canção (em 1983), numa mulher conhecida em todo o mundo. Ofra Haza (de nome completo Bat Sheva' Ofra Haza Bat Shoshana, nascida a 19 de Novembro de 1957 em Tel Aviv, Israel; falecida a 23 de Fevereiro de 2000, em Ramat Gan, Israel) era de origem iemenita, mais precisamente, de judeus radicados no estado árabe do Iémen. E a sua música reflectiu sempre essa dualidade: com um pé em Israel e outro nos países muçulmanos «inimigos»; e com um pé na tradição e outro na modernidade e numa música feita com recurso às electrónicas e a sonoridades ocidentais. A sua imparável e riquíssima carreira como cantora começou em 1980 e terminou vinte anos depois, numa trágica morte provocada pela SIDA.


Cromo XXXI.4 - Radio Tarifa


Às vezes há músicas tão próximas que não damos conta delas, por serem demasiado próximas e por serem tão óbvias as suas ligações. Mas os espanhóis, de Madrid, Radio Tarifa tiveram a inteligência e a arte suficientes para descobrir os elos escondidos entre a música espanhola (nomeadamente o flamenco) e a música do norte de África. Logo no seu primeiro álbum, «Rumba Argelina», de 1993, estabeleceram uma ponte que veio para ficar (de Espanha para o Magrebe e vice-versa) e que, de tão óbvia que é, estranho é ninguém a ter feito antes. Fundados no final dos anos 80 pelo vocalista e letrista Benjamín Escoriza, o guitarrista, percussionista e arranjador Faín S. Dueñas e o saxofonista Vincent Molino, os Radio Tarifa deixaram, em quatro álbuns de originais, uma música nova, excitante e valiosa que parece ter tido um fim: Escoriza lançou em 2006 o seu primeiro álbum a solo, «Alevanta!», e os Radio Tarifa entraram em «hibernação».

08 novembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXX.1 - Yungchen Lhamo


A maior embaixadora da música tibetana - e também uma importante porta-bandeira da liberdade para o seu país anexado pela China -, a cantora Yungchen Lhamo («yungchen», que é mesmo o seu nome de origem, significa curiosamente «deusa do canto», o que nos faz acreditar que o seu destino esteve desde sempre traçado) nasceu em Lhasa, capital do Tibete, em 1966, tendo começado em criança a cantar temas religiosos budistas, prática proibida pelas autoridades chinesas. Em 1989, Yungchen atravessa os Himalaias e inicia o seu exílio com uma visita ao Dalai Lama, em Dharamsala, na Índia. Daí parte para a Austrália, onde edita o seu primeiro álbum, «Tibetan Prayer» (1995), antes de se fixar em Nova Iorque e começar a gravar para a editora inglesa Real World. Os seus discos e concertos (em que costuma apresentar-se sem qualquer acompanhamento) são um grito de esperança e uma manifestação artística arrepiante.


Cromo XXX.2 - Hector Zazou


Músico, produtor e compositor dos mais versáteis que a música conheceu nas últimas décadas, o francês Hector Zazou - nascido a 11 de Julho de 1948, falecido a 8 de Setembro de 2008 - passou pelo rock e as suas margens (com os Barricades e o projecto ZNR) mas foi na sua demanda por uma música universal que se tornou uma referência fundamental da world music. Três álbuns de reinvenção das músicas africanas ao lado de Bony Bikaye, o disco que recuperou para a actualidade os cantos da Córsega («Les Nouvelles Polyphonies Corses»; de 1991), o lindíssimo «Sahara Blue» (baseado na poesia de Rimbaud; de 1992), o absolutamente inventivo «Chansons des Mers Froids» (onde visita e adapta canções tradicionais dos países nórdicos, do Japão ou da Gronelândia; de 1995) ou «Lights In The Dark» (cantos sagrados celtas; 1998) chegam para o colocar no panteão. Para já não falar de quem ele se faz rodear nos seus álbuns: John Cale, Sakamoto, Manu Dibango, Varttina, Bjork, Sylvian, Khaled...

Cromo XXX.3 - «The Blues» de Martin Scorsese

O realizador e produtor Martin Scorsese assina, com a sua produção da série de filmes «The Blues», o maior trabalho cinematográfico de sempre acerca de um género musical. Um trabalho feito de amor pela música, pelo rigor com que se conta a história de um género - o primeiro episódio da série, realizado pelo próprio Scorsese, «Feel Like Going Home», demonstra claramente as origens dos blues em África -, pela riqueza de intervenções e abordagens diferentes feitas pelos realizadores convidados para com ele colaborarem nos vários episódios: Wim Wenders, Richard Pearce, Charles Burnett, Marc Levin, Mike Figgis e Clint Eastwood. Todos eles a contarem uma parte da história, de África para os campos de algodão do sul dos Estados Unidos, do delta do Mississippi para Memphis e Chicago, a sua evolução para o rock e como se espalhou pelo mundo. Uma obra de arte maior e um hino à música.


Cromo XXX.4 - The Skatalites



Há quem diga - eles, pelo menos, dizem-no - que sem os Skatalites não existiria ska, reggae, rocksteady, dancehall e toda a música jamaicana conhecida. É capaz de ser exagero - outros nomes estão também na génese da música moderna jamaicana (e nas suas ramificações pelo mundo) - mas é verdade que os Skatalites foram uns dos principias pioneiros de um som novo nascido na Jamaica que, nos anos 50 e 60 do séc. XX, juntava o mento e o calipso caribenhos a géneros vindos dos Estados Unidos: o jazz, o rhythm'n'blues e o emergente rock'n'roll. Com um período inicial de enorme fulgor no início dos anos 60, criando música própria ou acompanhando outros artistas - nomeadamente Prince Buster -, os Skatalites têm uma carreira fugaz feita à volta do mítico Studio One mas reaparecem para reclamar a sua herança em 1986, depois do ska e da música jamaicana em geral terem conquistado o planeta. Ainda andam por aí.

18 abril, 2007

Cromos Raízes e Antenas XVII


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Cromo XVII.1 - Clannad



Fala-se em Clannad e a maior parte dos puristas da folk arregaça as mangas, saca das pistolas e encontra logo mil palavrões para caracterizar o grupo irlandês (criado em Gweedore, em 1970). E, diga-se, muitas vezes com razão: os últimos muitos anos do grupo assistiram a uma sucessiva e imparável descida dos Clannad até territórios demasiadas vezes escorregadios ou duvidosos. Não que a música de fusão, como ideia, seja má - há inúmeros grupos e artistas de fusão que fazem música belíssima. O problema é quando a fusão é feita numa chinela. Fora disso, a verdade é que o início dos Clannad (liderados pela cantora Máire Brennan e o seu irmão Ciarán), nos anos 70, levou muita gente para a folk. E a sua continuação - com outra mana Brennan, a cantora Enya, também no barco, durante os anos 80, quando a pop e a new age já espreitavam pelo meio da música tradicional irlandesa -, também. Devemos-lhes, ao menos, isso, e já é muito.


Cromo XVII.2 - Frances Densmore



Graças ao fonógrafo de Edison (e de outros, numa longa história que não vem aqui ao caso), desde o final do séc.XIX podemos ter acesso a gravações vindas de épocas e de locais muito diferentes daqueles em que vivemos. E, graças a essa invenção técnica, muitos etnomusicólogos deixaram de tomar notas em cadernos e avançaram determinados para o terreno gravando a música que existia à sua volta. Uma das pioneiras desta busca foi Frances Densmore (nascida em Red Wing, Minnesota, Estados Unidos, a 21 de Maio de 1867, falecida em 1957), que consagrou boa parte da sua vida ao registo da música dos índios norte-americanos, um gosto e uma missão que lhe veio do seu contacto com os índios Sioux durante a infância. Numa altura - o início do séc.XX - em que os índios eram, se já não massacrados, utilizados como atracções de circo e vítimas de uma aculturação forçada, Frances Densmore ajudou a preservar muita da sua cultura original.


Cromo XVII.3 - Taiko



Os tambores Taiko - nos últimos anos bastante difundidos no Ocidente através dos deslumbrantes espectáculos do grupo Kodo - são originários do Japão, onde são utilizados tanto na música tradicional como clássica. Tambores com dupla face, percutidos com grossas baquetas de madeira, têm vários tipos e tamanhos (os maiores obrigam os músicos que os utilizam a um esforço físico tremendo, sendo esta execução considerada quase uma arte marcial) e como principal característica o facto das peles percutidas estarem muito esticadas devido ao clima quente e húmido dos Verões japoneses, altura em que decorrem as principais festividades naquele país. A utilização generalizada dos tambores taiko remonta à Idade Média do Japão, em que era usado como um instrumento que ajudava à marcha e motivação das tropas. Anteriormente, o taiko era percutido para afastar a peste das searas ou chamar a chuva e muita gente acreditava que o espírito dos seus antepassados vivia dentro destes tambores.


Cromo XVII.4 - Lhasa de Sela



A extraordinária cantora canadiana Lhasa de Sela (ou, simplesmente, Lhasa) é o produto quase natural de uma ascendência híbrida e de um início de vida aventuroso. Nascida em 1972, com sangue mexicano e judeu-libanês-americano, em Big Indian, Nova Iorque (Estados Unidos), Lhasa passou os primeiros anos da sua vida em viagem pelos Estados Unidos e pelo México, juntamente com os pais e as suas três irmãs. Aos vinte anos, Lhasa radica-se no Quebeque, Canadá, depois de ter conhecido o seu parceiro de vida e aventuras musicais Yves Desrosiers, com quem viria a gravar o lindíssimo álbum «La Llorona» (1998) - onde a memória das canções que ouviu no México é uma constante, mesmo que mesclada com outros elementos, da música klezmer ao rock. Nos mais recentes «The Living Road» (2003) e «Lhasa» (2009), a música mexicana continua presente mas diluída entre outras influências, como a «chanson» francesa, a folk norte-americana e o rock independente.

30 março, 2007

Cromos Raízes e Antenas XV


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XV.1 - Yma Sumac



Muitos anos antes da designação «world music» existir, uma forma musical que ia a várias músicas étnicas buscar a sua inspiração (mesmo que adulterando-as e, muitas vezes, caricaturando-as) era conhecida como «exotica». Desse género, corrente nos anos 50 e 60 do séc. XX, destacaram-se os nomes de Martin Denny, Les Baxter, Esquivel e a extraordinária cantora Yma Sumac. Nascida a 10 de Setembro de 1922, em Ichocán, no Peru (se bem que nem a data nem o local de nascimento estejam confirmados) e falecida a 1 de Novembro de 2008, Yma Sumac (Zoila Augusta Emperatríz Chavarri del Castillo de verdadeiro nome, alegadamente uma princesa inca descendente de Atahualpa) foi uma vedeta internacional da música «exotica» nos anos 50, muito à custa da sua estranha, vibrante e hiper-maleável voz (que podia abranger cinco oitavas!), dando a conhecer ao mundo muita música sul-americana.


Cromo XV.2 - Paco de Lucia



Filho de uma portuguesa (Lúcia - e daí o nome artístico Paco... de Lucia), o genial guitarrista Paco de Lucia nasceu em Algeciras, Espanha, a 21 de Dezembro de 1947. Músico, compositor, maestro, arranjador, Paco de Lucia é um dos nomes maiores do flamenco mas nunca se fechando neste género, antes abrindo as portas a colaborações com músicos de jazz (como nos concertos e discos com John McLaughlin e Al DiMeola) ou em incursões pela música erudita como na sua maravilhosa interpretação do «Concierto de Aranjuez», de Joaquín Rodrigo, com uma orquestra clássica. Francisco Sánchez Gómez, de seu verdadeiro nome, nasceu numa família dedicada à música (o pai, Antonio Sánchez, era guitarrista e dois dos seus irmãos enveredaram também pela carreira musical) e, juntamente com o cantor Camarón de la Isla (com quem gravou dez álbuns), contribuiu decisivamente para a renovação do flamenco.


Cromo XV.3 - Gamelão



O gamelão é uma orquestra essencialmente composta por instrumentos de percussão que tem a sua origem nas ilhas da Indonésia (principalmente Java, Bali, Madura e Lombok). É composta por metalofones, xilofones, tambores e gongos, embora também possa incluir flautas de bambu, instrumentos de cordas e vozes. Semelhantes a orquestras (e aqui refira-se que «gamelão» é o nome do conjunto de instrumentos e não o dos seus tocadores ou de qualquer instrumento) existentes noutros países como as Filipinas ou Malásia, os gamelões indonésios destacam-se pela sua variedade - cada orquestra tem uma formação própria e cada uma esforça-se por ser diferente das outras - sendo interessante notar que algumas das orquestras contêm essencialmente percussões feitas em metal e outras percussões feitas em bambu. A sua influência na música ocidental estende-se desde Claude Débussy (que teve contacto com o gamelão na Expo de Paris, em 1900) a compositores actuais de música minimal-repetitiva.


Cromo XV.4 - DobaCaracol



Um dos projectos mais interessantes, divertidos e criativos a emergir do milagroso cadinho musical que é a região (nação?) canadiana do Quebeque, as DobaCaracol são um grupo formado em 1998, em Montreal, por Doriane Fabreg (Doba) e Carole Facal (Caracol) depois de uma «rave party» selvagem. Cantoras e percussionistas, Doriane e Carole actuaram durante cinco anos como um duo antes de juntar um grupo de quatro músicos - Maxime Lepage, Mohammed Coulibaly, Martin Lizotte e Maxime Audet-Halde - que com elas desenvolveu um estilo que mete na mistura funk, soul, rock, reggae, música africana, brasileira e latino-americana. Tendo actuado em variadíssimos pontos do globo, as DobaCaracol editaram até agora os álbuns «Le Calme Son» (2001) e o excelente «Soley» (2004), este último produzido por François Lalonde (Lhasa, Jean Leloup).