Mostrar mensagens com a etiqueta Música Africana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Música Africana. Mostrar todas as mensagens

11 novembro, 2012

Amadou & Mariam - Na Gulbenkian, Às Escuras

Vai ser, por certo, uma experiência única: a admirável dupla maliana Amadou & Mariam (na foto, de Marie Dagnaux), vai apresentar na Gulbenkian, em Lisboa, dia 18 deste mês, o espectáculo «Eclipse», em que os espectadores vão ouvir música -- e percepcionar outras sensações -- completamente às escuras. Como este é um espectáculo especial há algumas regras que é necessário seguir. Está tudo explicado aqui em baixo: «Domingo, 18 Nov 2012, 19:00 - Grande Auditório AMADOU BAGAYOKO (voz, guitarra) MARIAM DOUMBIA (voz) MAMANI KEITA (voz) YAO DEMBELE (baixo elétrico) YVO ABADI (bateria) ALI KEITA (balafon) MADOU DIABATE (kora) IDRISSA SOUMAORO (teclados) Músicas do Mundo: Eclipse AVISO Informamos que o espetáculo ECLIPSE decorre na total escuridão e terá a duração de 75 minutos. Por razões de segurança, toda a sala foi equipada com um sistema de visão noturna. Em caso de emergência, desconforto, indisposição, ou desorientação que provoque a necessidade de sair da sala, deverá o espetador agitar no ar o programa. Um assistente irá imediatamente ao seu encontro e prestará o auxílio necessário. Para garantir o sucesso do espetáculo é obrigatório respeitar e aceitar as seguintes regras: 1. Todos os objetos, sacos, malas ou casacos deverão ser entregues no Bengaleiro; 2. Todos os equipamentos passíveis de emitir luz, som ou vibração (telemóveis, relógios, etc.) deverão estar desligados. 3. É proibida a entrada na sala de qualquer dispositivo de gravação vídeo ou som; 4. Após o início do espetáculo não será possível a entrada ou reentrada na sala. ECLIPSE é um espetáculo que pretende exacerbar a estimulação dos sentidos como o olfato e a perceção da temperatura ambiente, que poderá oscilar entre 15º e 30º Celsius; Desejamos que apreciem esta experiência multissensorial. A Fundação Calouste Gulbenkian reserva o Direito de Admissão perante o não cumprimento das determinações referidas. A dupla formada pelos malianos Amadou Bagayoko e Mariam Doumbia há muito que se tornou um dos nomes mais fortes do circuito da world music. Mas se já não é novidade a capacidade de estabelecer pontes com a música ocidental (Manu Chao, Damon Albarn, TV on the Radio), o espetáculo Eclipse aproxima-nos como nunca antes das suas canções: totalmente às escuras, neste espetáculo multissensorial ser-nos-á contada a história do casal amblíope e ouviremos as suas composições tal como eles – com a dispensa da imagem.»

22 fevereiro, 2011

É Senegal... Ninguém Leva a Maal!


O trocadilho é desculpável... Porque vem aí o Carnaval, mas ainda muito mais importante do que isso é a música do... Senegal!!! Aqui, para si e mais uma vez em textos recuperados do arquivo da "Time Out", apresentamos os álbuns mais recentes dos senhores Carlou D, Baaba Maal (na foto), Nuru Kane e Cheikh Lô.


Cheikh Lô
"Jamm"
World Circuit/Megamúsica

O senegalês Cheikh Lô é, possivelmente, um dos cantores e músicos africanos que mais géneros usa, sem limites nem fronteiras, no seu incansável trabalho de congregador de diferentes sonoridades: mbalax do Senegal, highlife do Gana, rumba congolesa, reggae, blues, jazz, funk, flamenco e muitos outros géneros convivem harmoniosamente na sua música, uma música que nunca esquece no entanto de onde vem e quais são os seus pilares. Por exemplo, no seu novo álbum, "Jamm", Cheikh Lô faz uma versão maravilhosa de “Il N'Est Jamais Trop Tard” uma das poucas canções que não é cantada em wolof, ao lado de um tema também em francês e outro parcialmente interpretado em espanhol), um clássico com quase 50 anos dos Bembeya Jazz National. E o resto das canções, por ele compostas, trazem também esse ou outros lastros brilhantes. (*****)



Baaba Maal
"Television"
Palm Pictures

Príncipe da música senegalesa (o rei é Youssou N'Dour!) e do mbalax na sua forma mais moderna, vanguardista e excitante – porque também há um mbalax apimbalhado e esse até é melhor... não conhecer -, Baaba Maal está de regresso com mais um excelente álbum. Com o apoio do produtor Barry Reinolds e dois dos Brazilian Girls – o teclista Didi Gutman e a vocalista Sabina Sciubba -, que dão parte da base instrumental, para além de Sabina ajudar bastante nos coros e voz dialogante, "Television" está muito longe de ser um álbum de música tradicional africana. Nele está lá a voz de Maal (a cantar em pulaar) e as percussões tradicionais mas também flamenco, trip-hop, música irlandesa, guitarras indie-rock ou tecno, tudo irmanado numa grande festa global, tal como celebrada na canção “International”. (****)


Carlou D
"Muzikr"
World Village/Harmonia Mundi

Saído de um dos mais conhecidos e respeitados grupos de hip-hop africanos, os Positive Black Soul, o senegalês Carlou D assina agora um extraordinário álbum a solo em que o hip-hop surge, musicalmente, apenas a espaços – embora a sua influência seja decisiva, isso sim, nas letras (muitas delas de características interventivas e assombradas pela fé Baye Fall, já que Carlou é um dos seguidores do Cheikh Ibra Fall). De resto, este é um disco em que Carlou D canta e mergulha de cabeça na tradição da música mandinga (há aqui uma kora e uns balafons quase sempre), nos blues, em aproximações à música árabe ou ao reggae, no jazz e na soul. "Muzikr" é um álbum absolutamente surpreendente e imediatamente candidato a um dos melhores do ano. (*****)


Nuru Kane
"Number One Bus"
Iris Music/Harmonia Mundi

Segundo álbum do senegalês Nuru Kane, "Number One Bus" é a continuação natural de "Sigil",mas agora com um grau de verdade e sofisticação – embora uma sofisticação que passa mais pela simplicidade de processos do que por um “abarrocamento” das harmonias – muito superior ao do primeiro. De resto, está tudo lá: a luta política, a fé Baye Fall, o mbalax, a sua paixão pela música gnawa desenvolvida na Argélia (Kane, para além de guitarra e baixo, também toca guimbri e no seu grupo BFG há vários músicos do norte de África), os blues, a pop e o rock, o reggae... E, apesar de "Number One Bus" ser um álbum variado e em que cada tema tem o seu lugar, sente-se que todas estas influências estão agora incrivelmente bem digeridas. (*****)

05 agosto, 2010

Afro-beat - O Passado, o Presente e o Futuro


O afro-beat (há muita gente que escreve as duas partes de afrobeat - a grafia normalizada e absolutamente aceitável do termo - pegadas, mas eu cá uso um hífen por razões íntimas e pessoais...) é um dos géneros pioneiros da mestiçagem de músicas africanas e anglo-saxónicas.E, ainda hoje, há milhares de bandas e de artistas a praticá-lo. Neste post - que recupera três textos publicados originalmente na "Time Out" - fala-se dos modernos Fanga, do veterano Dele Sosimi (ex-teclista de Fela Kuti, o inventor do género) e de alguém que passeou pelo afro-beat mas também por muitas outras músicas: o incontornável - olá Toni :) - Manu Dibango (na foto).

Fanga
"Natural Juice"
(Underdog Records)

O afro-beat – fixado nos anos 70 pelo nigeriano Fela Kuti, que reuniu de forma genial elementos (e instrumentos) dispersos de várias músicas norte-americanas (funk, jazz, soul..) com estilos africanos – é um género ingrato: ou é muito bem tocado e, mais importante ainda, extremamente inventivo ou pode transformar-se numa imensa chatice. Esse não é, de caras, o caso deste álbum dos franceses Fanga. Começando com um tema afro-beat de formato clássico (e com o grande Tony Allen a dar uma ajuda), o álbum “Natural Juice” segue depois – e apesar de manter sempre a matriz do afro-beat bem presente (nas teclas, na secção de metais, nas percussões...) - em roda livre por outras sonoridades africanas, das mandingas à juju music (com King Sunny Adé como outro papa dos Fanga) e com uma série de remisturas modernaças, mas de extremo bom-gosto, a ajudar ao resultado final. (****)




Dele Sosimi
"Identity"
Helico Records

Se calhar, muita gente conhece uma canção de Dele Sosimi sem saber quem raio poderá ser o seu autor: “Turbulent Times”, na remistura de Paul Oakenfold e com uma base que deve tudo ao... “Smells Like Teen Spirit”, dos Nirvana, e que de Sosimi só mantém o refrão (a voz dele e os coros femininos). Passa em muitas discotecas, com sucesso. Mas dele convirá conhecer, mesmo, a obra original. Uma obra que se inscreve sempre na grande família do afro-beat fundado por Fela Kuti – continuada pelos filhos Femi e Seun e pelos seus antigos companheiros de banda como Tony Allen e o próprio Dele Sosimi, durante muitos anos o teclista e director de orquestra de Fela e, depois da sua morte, um dos seus maiores e mais legítimos representantes. Oiça-se este álbum e veja-se como, aqui, o afro-beat é uma realidade. Viva e actual. (****)



Manu Dibango
"Makossa Man: The Very Best Of"
Nascente/Megamúsica

Não é por acaso que este “best of” de Manu Dibango se chama "Makossa Man" – o tema “Soul Makossa” foi, na primeira metade dos anos 70, um enorme sucesso em toda a África e também na Europa e Estados Unidos, lançando o nome do saxofonista (e vibrafonista) camaronês Manu Dibango para a ribalta. E muito justamente: “Soul Makossa” foi, com a sua mistura de funk, jazz e afro-beat um precursor do disco-sound, tendo sido usado e recriado por nomes como Michael Jackson, Wyclef Jean, Jay-Z, A Tribe Called Quest ou Rihanna. Mas a carreira de Manu Dibango tem muitos outros pontos altos, como esta colectânea comprova – brilhante a sua citação livre, e irónica!, de “Le Freak” (dos deuses do disco-sound Chic), por ele ironicamente rebaptizada “Ah Freak Sans Fric” (tradução fonética: “África sem Dinheiro”).(*****)

26 julho, 2010

Kimi Djabaté - Um dos Destaques de Sines em Entrevista


Originalmente publicada na "Time Out Lisboa", esta entrevista com Kimi Djabaté pode também servir de aperitivo ao concerto que este cantor e músico guineense vai dar esta semana no FMM de Sines. Mais em baixo segue a crítica ao novo álbum de Djabaté, "Karam".

Sob o Foco
Kimi Djabaté

Ao segundo álbum, o griot guineense Kimi Djabaté chega a uma grande editora internacional de world music, a Cumbancha, o selo da Putumayo dedicado à descoberta de novos valores musicais. E “Karam”, o álbum, merece todos os elogios entusiásticos que anda a receber um pouco por todo o lado...

Kimi, podes começar por explicar o que é um griot?

Há griots na Guiné-Bissau e noutros países ali à volta desde há séculos. Um griot é um músico que conta as histórias do povo e dos reis. Muitas vezes, eram os griots que, nas zonas de conflito, iam lá para obter a paz. Também servem para dar o devido reconhecimento, através da sua música, às pessoas que fazem coisas importantes ou que estão no bom caminho ou para levantar a moral das pessoas que estão em baixo.

O teu novo álbum, “Karam”, é quase um álbum conceptual, ao antigo estilo do rock progressivo, não musicalmente mas no sentido de cada canção ter uma dedicatória a alguém ou a alguma coisa que achas importante.

O álbum reflecte a minha maneira de ver o mundo, hoje. Mais especificamente, desde que estou na Europa comecei a olhar para África de uma maneira diferente e tenho que dizer que há coisas que não me agradam muito por lá – e falo delas nas minhas canções. Mas também presto homenagem a pessoas com quem concordo ou que eu admiro, como Dabó ou Fatumata. Mas também falo dos conflitos entre etnias, dos fulas e dos mandingas, na Guiné-Bissau e noutros países africanos. Falta democracia, falta estabilidade – um país pode estar calmo num dia e no outro já não estar -, há muita miséria... E é disso que fala o disco. Do sofrimento dos povos e também de coisas que sofro dentro de mim.

Tu falas de assuntos tristes – por vezes, trágicos – mas sobre uma base musical muitas vezes luminosa, alegre, dançável...

Não concordo. As pessoas podem achar que a música é alegre, mas eu sinto-a triste, quando falo de coisas tristes. Quando eu componho e me inspiro, por exemplo, na situação do meu país – que está muitas vezes em guerra e onde eu continuo a ter a família – não consigo dar à música a alegria de que muita gente pode estar à espera.

Uma característica muito bonita dos músicos da Guiné-Bissau que vivem em Portugal é colaborarem muitas vezes todos juntos. Neste teu álbum também tens muitos deles (Braima Galissá, N'dara Sumano, Maio Coppé...), os Guiné All Stars todos!

Sim, foi de propósito. Eu busco sempre a união entre todos. Nós, guineenses, temos que nos unir e ajudarmo-nos uns aos outros. Um músico sozinho não faz nada! Mas também há músicos de outros países: portugueses, moçambicanos, uma senegalesa, um guitarrista dinamarquês...

O teu primeiro álbum, que saiu há cerca de cinco anos, era uma gravação caseira, muito simples... Este, ao contrário, tem uma excelente produção e estás numa grande editora. É um grande salto.

É, é um grande salto. Mas não me esqueço das pessoas que trabalharam comigo no primeiro e que me acompanharam até aqui. Também foi importante. Mas estou muito feliz por fazer parte da Cumbancha: está a levar o meu trabalho a sítios com que nunca sonhei.




Kimi Djabaté
"Karam"
Cumbancha/LeveMuisc

Radicado em Portugal há quinze anos, o cantor, guitarrista e balafonista (o balafon é um xilofone tradicional da África Ocidental) Kimi Djabaté nasceu na Guiné-Bissau, no seio de uma família de griots – os transmissores ancestrais da sabedoria dos povos da África Ocidental. E não fugiu ao seu destino. Músico desde criança, editou há alguns anos o álbum de estreia, "Terike", mas é agora, com o segundo Karam, que está a gerar um grande sururu no circuito da world. Sururu merecido: em "Karam" está toda a tradição griot – dos textos cantados aos instrumentos (balafon, kora, etc...) - mas também uma magnífica pulsão eléctrica que a leva para o futuro. Em “Mogolu”, uma canção lindíssima (mas não a única), a guitarra e o resto parecem Ali Farka Touré. E isso é bom. (****)

15 julho, 2010

Batida - Sincretismo Sem Secretismo



Os Batida vão protagonizar, na madrugada de dia 31 de Julho, o concerto de encerramento do FMM de Sines deste ano. É mais que justo: o grupo luso-angolano é uma das maiores revelações musicais dos últimos anos da música que se faz em Lisboa mas que tem as suas raízes em África. Hoje, neste blog, recupero uma entrevista que fiz com eles o ano passado, quando saiu o álbum «Dance Mwangolé», originalmente publicada na «Time Out Lisboa».


As pontes que a Batida faz

Entre Lisboa e Luanda, os Batida gravaram um dos álbuns mais importantes de sempre da música portuguesa e angolana: "Dance Mwangolé". António Pires investigou, junto de DJ Mpula e Ikonoklasta, as coordenadas deste mapa do tesouro onde entram o kuduro, mas não só, e antigas gravações de música angolana.

Apesar de, nas últimas décadas, terem surgido novas expressões musicais em vários países da Europa continental – mercê da modernização de músicas tradicionais através do seu diálogo com géneros modernos, ou de músicas híbridas criadas em zonas essencialmente portuárias, de cruzamento de vários povos e culturas (Lisboa, Barcelona, Paris, Marselha, Istambul, Berlim...) – não nasceu, pelo menos de forma visível, nenhum novo género musical importante ou relevante para a história da música actual. Pelo contrário – e quase sempre tendo como base várias tipologias da música negra, anglo-saxónicas ou não –, Nova Iorque assistiu ao nascimento do hip-hop; Kingston ao do dancehall; Joanesburgo ao do kwaito; Londres ao do grime; Rio de Janeiro ao do baile funk; Luanda ao do kuduro... E o início do mapa Batida fica assim feito. Mas com um acrescento fundamental e o toque que torna este disco o documento histórico que ele realmente é: o mergulho nos arquivos da Valentim de Carvalho, em busca de samples e de bases dadas por antigas gravações de música angolana, velhos sembas e merengues, ritmos dados por reco-recos ou por berimbaus de Cabinda.

DJ Mpula – da Rádio Fazuma e iniciador deste processo todo – e Ikonoklasta – do seminal Conjunto Ngonguenha – são, nesta conversa, os porta-vozes dos Batida. E não, dizem eles, quando todo este processo começou não tiveram consciência da ponte de gerações e do sincretismo quase perfeito de várias músicas angolanas em que "Dance Mwangolé" viria a tornar-se. DJ Mpula diz: “Curiosamente, eu rejeitava a música angolana que os meus pais ouviam, o que acaba por ser normal numa criança ou num adolescente, geralmente mais atraído por coisas como o hip-hop ou o punk...”. Mas, se o respeito que tanto Mpula quanto Ikonoklasta têm por formas mais antigas de música angolana cresceu bastante nos últimos muitos anos, os Batida são a cristalização definitiva desse respeito pelos “cotas”.

Diz Ikonoklasta que “o Conjunto Ngonguenha sempre procurou fazer um hip-hop fortemente personalizado e enraizado na música angolana, logo um hip-hop angolano” (e o álbum “Ngonguenhação”, editado em 2004 era um passo decisivo neste sentido). Anos depois, DJ Mpula e Ikonoklasta (ambos angolanos), Beat Laden (português) e mais uma série de cúmplices – Sacerdote, Roda (no design dos elementos visuais do colectivo), Limão (no vídeo), o remisturador brasileiro DJ Chernobyl, a lenda da música angolana Carlos Burity, os grupos e artistas samplados no disco e ainda “clips” sonoros actuais presentes no documentário paralelo “É Dreda Ser Angolano” fazem a banda-sonora deste surpreendente e fabuloso "Dance Mwangolé".

DJ Mpula faz questão de dizer que “este não é um disco de kuduro! Há lá kuduro, mas há lá também os ritmos antigos e outros mais novos como o kwaito, o kwassa kwassa do Congo, o dancehall, o baile funk, etc... Não andámos à procura da variedade pela variedade, mas entre as “recolhas”, a intervenção nossa e dos MCs, as remisturas, as participações especiais, acabou tudo por ficar assim”.

Um dos momentos mais marcantes do álbum é quando uma voz anónima termina o fortíssimo e hiper-dançável “Bazuka” com a frase, aproximadamente, “Tenho dois estilhaços da guerra. Um aqui e outro na cabeça. Era só isso”. E tanto Mpula como Ikonoklasta dizem que nunca pensaram “em fazer um disco com estas características que não fosse, de certa forma, de intervenção e que não falasse dos problemas de Angola: os resquícios da guerra, a corrupção, etc...”. É que, para completar o ramalhete de "Dance Mwangolé", ainda faltava esta parte!

28 maio, 2010

Festim - Segunda Edição Arranca na Próxima Semana


Aproxima-se mais uma edição do Festim, festival de world music com epicentro em Águeda (d'Orfeu) e braços estendidos a vários municípios vizinhos. O último comunicado oficial reza assim:

«Terem Quartet (Rússia), Rare Folk (Espanha), Renato Borghetti (Brasil), Kilema (Madagáscar), Mahala Raï Banda (Roménia), Minyeshu (Etiópia), Serenata Guayanesa (Venezuela)

Todo o mundo no Festim, a partir de 2 Junho!


O Festim - festival intermunicipal de músicas do mundo apresenta, este ano, sete nomes em cartaz, registando-se duas estreias absolutas em Portugal: Terem Quartet e Minyeshu. Do Índico ao Mediterrâneo, do Cáucaso ao Chifre de África, dos Balcãs à América Latina, esta programação em rede aposta no fascínio da diversidade.

A partir de 2 Junho, o mundo em música, nos palcos e plateias do Festim! Cinco municípios vizinhos partilham um cartaz comum: Águeda, Sever do Vouga, Estarreja, Ovar e Albergaria-a-Velha. A iniciativa da d’Orfeu Associação Cultural, além da parceria intermunicipal como factor decisivo, conta ainda com o apoio do Ministério da Cultura / Direcção-Geral das Artes.

O festival inicia a 2 de Junho com os russos Terem Quartet e inclui ainda, até 17 de Julho, concertos de Rare Folk (Espanha), Renato Borghetti (Brasil), Kilema (Madagáscar) - que substitui os Narasirato, cuja tournée europeia foi cancelada - , Mahala Raï Banda (Roménia), Minyeshu (Etiópia) e Serenata Guayanesa (Venezuela). Os bilhetes para os concertos de sala estão já à venda. Toda a informação está disponível em www.festim.pt, sítio oficial do festival.

Universidade de Aveiro estuda impactos do Festim

A Universidade de Aveiro vai desenvolver, por ocasião desta 2ª edição do festival intermunicipal, um Estudo de Impactos e caracterização de públicos do Festim. Muito além do objecto artístico, interessa aprofundar um conhecimento sobre a dimensões socioeconómicas do evento e as mais-valias que um festival desta natureza aporta a cada um dos Municípios. Esta parceria da Universidade de Aveiro surge ao segundo ano do quadriénio previsto para o Festim - festival intermunicipal de músicas do mundo, com edições garantidas até 2012.

Programa dos 19 concertos no sítio oficial:
http://www.festim.pt/»

16 dezembro, 2009

Marimbas à Solta no MusicBox - Já Hoje!


Um raro concerto de um grupo de marimbas do Botswana - a Maru-a-Pula Marimba Band - acontece hoje no MusicBox, em Lisboa:

“MARU-A-PULA MARIMBA BAND

Se cada instrumento escrevesse o seu próprio legado era na escola Maru-a-Pula, no Botswana, que iríamos encontrar o da marimba. É lá, na actividade exra-curricular do liceu, que o legado continua a escrever-se, no ressoar das marimbas da famosa Maru-a-Pula Marimba Band. Uma melodia tão genuína e contagiante que arrancou as raízes da terra e atravessou o oceano, sempre a dançar. Chegou aos Estados Unidos, Brasil, Canadá e até aos ouvidos de George W. Bush. A irreverência acompanha-os, não apenas por serem na maioria mulheres, mas porque decalcam a tradição botswana sem medo de incorporar o Afro Jazz , o African Pop e a música contemporânea. Do Botswana ao Cais do Sodré viajam os dez estudantes, com banda sonora no bolso, “Tears of Joy”. “



http://www.youtube.com/watch?v=ULLuRZKp7pY



http://maruapula.org/pages/what-makes-us-different/map-marimba-band.php



http://afmap.org/marimba_tour/»

Mais informações, aqui.

Alèmu Aga - A Harpa dos Deuses


Uma das revelações da série de discos «Éthiopiques» foi, sem dúvida, a do harpista Alèmu Aga, que actua esta semana em Lisboa (Teatro Maria Matos, dia 17) e no Porto (Culturgest, dia 18). O comunicado da Filho Único:

«Amplamente desconhecida do mundo Ocidental até meados dos anos 1980, a música etíope, uma multitude de expressões culturais e espirituais próprias de um vasto país, independente (à excepção da relativamente breve ocupação fascista italiana no século XX) há milhares de anos, tem sido revelada perante nós no último par de décadas, recebida com o maior entusiasmo, admiração e reverência.
O principal responsável por este notável trabalho de divulgação é Francis Falceto, produtor francês que continua a dirigir, vai para 12 anos, a essencial série de discos Ethiopiques, com mais de duas dezenas de alguns dos fundamentais documentos da música etíope do último século. O 11º volume deste conjunto de obras, pertence a Alemu Aga, das pedras mais preciosas que, por cá, deste lado dos mares e oceanos, temos podido avistar.
Aga é um dos grandes – e cada vez mais escassos – mestres da begena, um instrumento que se aproxima da família das liras e das harpas, que se crê ter origem no país desde a época do Rei David, há cerca de três mil anos. Um instrumento inicialmente conotado com um meio real e aristocrático (vários membros da família real etíope, ao longo dos tempos, tocavam-no), sofreu uma democratização no seu uso e tradição em épocas mais recentes. É quase exclusivamente utilizado em orações (mesmo que não em espaços ou ocasiões de âmbito religioso, onde não existe esse hábito), como música de meditação, sempre num registo puramente solista, nunca se misturando com outra instrumentação.

Resulta de uma antiga e extensíssima tradição oral, sem qualquer espécie de notação que hoje, não havendo mais mestres a ensinar a begena em escolas de música no país (Aga foi o seu último professor nesse meio), vê a continuidade dos seus grandes músicos e intérpretes – e a sua própria, também – ameaçada.

Alemu Aga, tocador, geógrafo e lojista residente em Adis Abeba, viaja, há já algum tempo, um pouco por todo o mundo (mesmo que não tantas vezes quanto a sua arte o merece), a mostrar esta sua maravilhosa música ancestral, que parece pertencer a este e a todos os outros tempos, passados, futuros, espaciais, tridimensionais. Uma música da maior solenidade, sintonizada com uma paz eterna, luminosa, beatífica, capaz de nos levar para um outro estado, um outro sítio, de nos devolver a uma outra vida.

myspace http://www.myspace.com/alemu_aga

Concerto: Alèmu Aga

Local: Teatro Maria Matos
Data: 17 de Dezembro
Horário: 22h00
Entrada: 10€, 5€ para menores de 30 anos
Uma Colaboração com o Teatro Maria Matos

Pré-venda: Teatro Maria Matos

e

Local: Culturgest Porto
Data: 18 de Dezembro
Horário: 22h00
Entrada: 5€

Pré-venda: Culturgest Porto, Culturgest Lisboa, Ticketline»

15 setembro, 2009

Kora Jazz Trio, Mulatu Astatke e Ferro Gaita em Lisboa


É uma muito boa notícia: o Kora Jazz Trio, o grande Mulatu Astatke (acompanhado pelos Heliocentrics; na foto) e os sempre festivos Ferro Gaita são os protagonistas de um grande dia de música (que começa logo a seguir ao almoço, com o DJ Rykardo, às 15h00, e continua com os concertos do Kora Jazz Trio às 18h00, de Mulatu às 20h00 e dos Ferro Gaita às 22h00), organizado pelo Africa.Cont e marcado para 26 de Setembro, na sede deste centro de arte africana, as Tercenas do Marquês (que fica muito próximo do Museu de Arte Antiga, às Janelas Verdes). Os pormenores da organização:


«26 SETEMBRO | 15h – 24h
KORA JAZZ TRIO
18h
O encontro entre a tradição musical mandinga e a liberdade do jazz. A união da Kora, das percussões da costa ocidental africana e do swing afro-americano.
Um diálogo entre o griot e a blue note.
Kora Jazz Trio salvaguarda a espontaneidade da sua linguagem e a individualidade de cada elemento. A de Abdoulaye Diabaté, pianista e compositor
senegalês, com formação clássica e adepto de uma estética livre ao piano. De Djeli Moussa Diawara, guineense, irmão de Mory Kanté, e virtuoso na voz e
na Kora de 32 cordas. E de Moussa Cissoko, também senegalês, mestre da percussão mandinga, celebrizado pelas colaborações com Peter Gabriel,
Jacques Higelin, Manu Dibango ou Rey Lema.
Kora Jazz Trio constrói uma ponte musical imaginária sobre o Oceano Atlântico, entre dois continentes que partilham raízes melódicas e rítmicas comuns.
http://korajazztrio.free.fr
http://www.dailymotion.com/video/x3j5zx_kora-jazz-trio_news


MULATU ASTATKE &
THE HELIOCENTRICS
20h
Mulatu Astatke descobre a música aos 16 anos e desenvolve os seus estudos, primeiro em Londres, onde colabora com Tubby Hayes, Frank Holder, Joe
Harriott e Ronnie Scott, depois no Berklee College, em Boston e ainda em Nova Iorque, onde conhece John Coltrane e colabora depois com Duke Ellington.
É na década de 60 que se protagoniza como pai do Ethio-Jazz e desenvolve novos arranjos de melodias tradicionais da Etiópia (séries “Ethiopiques”).
O grande reconhecimento do trabalho de Mulatu Astatke acontece com a sua participação na banda sonora do filme “Broken Flowers”, de Jim Jarmusch,
com vários espectáculos em 2008, de onde se destacam as participações no Barbican e em Glastonbury.
The Heliocentrics é um colectivo radicado em Londres que integra um luxuoso leque de músicos de diferentes origens e formações, e desenvolve um
trabalho excepcional de comunicação entre diferentes linguagens musicais.
“Inspiration Information” (2009) é uma colaboração de Mulatu Astatke com The Heliocentrics que nasce do seu regresso a Londres e que procura perseguir as
raízes, usando como base sólida o Ethio-jazz original. Um salto qualitativo no que respeita aos novos conceitos de fusão musical, colaboração e combinação
trans-cultural.
http://www.ethiojazz.com
http://www.youtube.com/watch?v=mlGmjXxnGgM


FERRO GAITA
22h
O nome FERRO GAITA vem da combinação de dois instrumentos: o Ferro (pedaço de metal tocado com uma faca) e a Gaita (tipo de acordeão/concertina),
utilizados na musica tradicional Cabo-verdiana, e instrumentos base do género musical mais tocado pelo grupo: o FUNANÁ. Tradicional da Ilha de Santiago
e próximo do Forró do Nordeste Brasileiro, este ritmo é um sedutor convite à dança.
FERRO GAITA é uma das referências mais consistentes e mais reputadas da música Cabo-verdiana. Na sua abordagem profunda aos ritmos tradicionais de
Cabo-Verde, primam pela autenticidade, pelo dom e pela energia, sobretudo ao vivo, onde são inacreditavelmente efervescentes.
Com 13 anos de carreira têm 5 álbuns editados: Fundu Baxu (1996), Rei di Tabanka (1999), Rei di Funaná (compil, 2001), Ferro Gaita ao vivo (2006) e Cidade
Velha (2008).
http://www.ferrogaita.cv
http://www.youtube.com/watch?v=pCcXZ5IKS9w

ENTRADA LIVRE [ATÉ AO LIMITE DA LOTAÇÃO]».

02 julho, 2009

15º Aniversário da ZDB com Konono Nº1 e Guiné All Stars


Um dia antes de subirem ao Porto para o Festival Mestiço, os congoleses Konono Nº1 são os cabeças-de-cartaz da festa de 15º aniversário da ZDB, que se realiza este sábado no exterior do Museu de História Natural (ao Príncipe Real), em Lisboa. No programa estão também os Guiné All Stars - que incluem Kimi Djabaté (na foto), Maio Coopé e Braima Galissá, entre outros - e dois nomes do novo rock norte-americano: os Pocahaunted e Sun Araw. O comunicado completo:


«Sábado, 04 de Julho a partir das 19h00
15 Anos de Zé Dos Bois
MUSEU NACIONAL DE HISTÓRIA NATURAL AO AR LIVRE(R. Escola Politécnica 54 - Príncipe Real)

As portas abrem às 18h, Sun Araw arranca às 19h. A festa terá que terminar antes da meia-noite

KONONO Nº1 (CG)
GUINÉ ALL STARS (GN)
POCAHAUNTED (US)
SUN ARAW (US)



KONONO Nº1
Ponto mais alto da primeira noite de festejos do 15º aniversário da ZDB, a actuação dos Konono nº 1 marca a estreia deste projecto da República Democrática do Congo em Lisboa.

Fundado há vinte e cinco anos por Mawangu Mingiedi, Konono nº 1 destaca-se no universo da música tradicional electrificada africana pelo uso de três likembes electrónicos (deste lado do mediterrâneo chamamos-lhes pianos de polegar) e percussão diversa maioritariamente construídos e amplificados a partir de velhas peças de automóveis e outros apetrechos similares resgatados do ferro-velho e posteriormente modificados. Com este sistema de som – que não é menos que um milagre – e as vozes de Waku Menga e Pauline Mbuka os Konono nº1 reinventam a música tradicional da etnia Bazombo (território congolense situado na fronteira com Angola, de onde Mingiedi é original), ligando engenhosamente à corrente o irresistível hipnotismo polirítmico que a caracteriza.

Apesar de editarem deste 1978, apenas em 2005, com o precioso “Congotronics”, lançado pela Crammed Discs, chegaram ao grande público ocidental. Já demasiado tempo se perdeu. É essencial partilhar da força criativa que guia esta gente.

Formação
Mawangu Mingiedi likembé
Mbuta Makonda likembé
Mawangu Makuntima likembé
Waku Menga voz
Antoine Ndombele likembé baixo
Ndofusu Mbiyavanga percussão
Vincent Visi percussão
Pauline Nsiala Mbuka voz

+ Info: Site|Myspace|Vídeo|Vídeo|Artigo




GUINÉ ALL STARS
Guiné All Stars reúne pela primeira vez um conjunto de músicos guineenses que a ZDB tem apresentado com alguma regularidade ao longo dos últimos anos nos mais diversos contextos de inovação perante uma tradição cultural pré-moderna.

Guineenses lisboetas, representantes por direito próprio de uma das diásporas africanas musicalmente mais ricas, Kimi Djabaté, Maio Coopé, N’ Dará Sumano, Braima Galissá, Sadjo, Gelajo Sane e Renato trazem a magia gumbé e griot ao Museu Nacional de História Natural.

Formação
Kimi Djabaté voz, balafon e guitarra acústica
Maio Coopé voz, cabaça, m'bira e percussões)
N'Dara Sumano voz
Braima Galissá kora
Sadjo guitarra eléctrica
Gelajo Sane percussão
Renato baixo eléctrico

+ Info: Myspace Kimi Djabaté|Myspace Djumbai Jazz |Vídeo|Vídeo|Vídeo




POCAHAUNTED
Sediada em LA, a NOT NOT FUN Records representa, em conjunto com as editoras Siltbreeze, Ecstatic Peace e VHF, um dos mais estimulantes catálogos deste final de década. Em torno de Britt Brown - gestor do selo - gravita um núcleo de projectos domésticos, com destaque para Robedoor, Pocahaunted, Magic Lantern e Sun Araw. Só nos últimos três anos, a NNF - iniciais pelas quais é carinhosamente conhecida - reuniu discos imprescindíveis de artistas impolutos como Thurston moore, Christina Carter, Ducktails, Teeth Mountain, Wet Hair ou os "nossos" Loosers. Agora, pela primeira vez na Europa, Pocahaunted e Sun Araw, duas das mais importantes bandas da NNF, mostram-se ao vivo.

Renovando desde 2006 o referencial místico e holístico do imaginário nativo-americano, os Pocahaunted efabularam-se em disco (obrigatório ouvir “Island Diamonds”, “Peyote Road” e o mais recente “Passage” ) como projecto de drone maciço, com a intuição rítmica do dub e de um funk movido 16 rpm. Amanda Brown e Diva Dompe (também no baixo) entoam cânticos estáticos, acompanhadas pela guitarra de Britt Brown, o órgão de Cameron Stallones e a bateria de Mark Gengras. O quinteto eleva o registo melódico para um universo que desde há décadas estilhaça ovos cósmicos, dilatando consciências, enquanto a secção rítmica engancha o corpo, direcionando-o para um experiência ritual, atulhada de groove, fumo e abandono de meia-pálpebra.

Formação
Amanda Brown voz
Diva Dompe baixo e voz
Britt Brown guitarra
Cameron Stallones orgão
Mark Gengras bateria

+ Info: Site|Myspace|Editora|Vídeo|Vídeo|Vídeo|Entrevista|Artigo sobre NNF


SUN ARAW
Sun Araw, alias de Cameron Stallones (guitarrista dos Magic Lantern e colaborador pontual de Pocahaunted) faz-se acompanhar ao vivo por William Giacchi no órgão. Crème de la crème da Not Not Fun Records, Sun Araw depressa constituiu um corpo de trabalho fascinante e coeso.

Ouvindo a magistral "Horse Steppin" (de “Beach Head") conseguimos descobrir o manifesto: uma elegia ao kraut, ao rock amoniacal dos Spacemen 3 e uma essência tropical que de imediato põe em prática um universo melódico e rítmico de uma fresca música de Verão. É música de um onirismo febril - não menos pedrado - esta que encontramos nos arpejos de guitarra que gargarejam delay e no drone adocicado com que o orgão nos deixa encandeados. Às nossas praias chega agora o precioso búzio “Heavy Deeds” (LP, NNF)

Formação
Cameron Stallones voz e guitarra
William Giacchi orgão

+ Info: Site|Editora|Vídeo|Vídeo

Entrada : €10 em venda antecipada; €12 no dia do evento | Bilhetes disponíveis antecipadamente na loja de discos Flur, Louie Louie e ZDB (4ª a Sáb, entre as 15h e as 23h e noites de concerto até à 1h00)».

03 junho, 2009

Música Africana - Três Edições Fundamentais


Nos últimos meses foram editados - ou distribuídos - em Portugal três álbuns importantíssimos de música africana: o álbum de estreia do grupo congolês Staff Benda Bilili (na foto), o terceiro do grupo semi-queniano semi-norte-americano Extra Golden e a caixa «Memórias de África», que agrupa muitas gravações antigas efectuadas nas ex-colónias portuguesas de África nos anos 60 e 70. A propósito de todos eles, aqui recupero três textos meus editados originalmente na «Time Out Lisboa» há algum tempo.

Extra Golden
«Thank You Very Quickly»
Thrill Jockey/Edel

No já longo namoro do pop/rock anglo-saxónico com músicas «estranhas» ou «exóticas» - de George Harrison, Brian Jones, Mickey Hart, Robert Plant, Peter Gabriel, David Byrne, Paul Simon ou Jah Wobble aos... Beirut e aos Vampire Weekend -, os Extra Golden assumem agora a dianteira de um movimento que, neles, é tão natural quanto a soma aritmética das partes: dois norte-americanos e dois quenianos (os primeiros com circuito feito no rock indie ianque; os outros dois herdeiros directos da música benga do Quénia e continuadores dos ensinamentos de um dos fundadores dos Extra Golden, Otieno Jagwasi, entretanto falecido) chegam a este terceiro álbum com o seu som apuradíssimo: doses semelhantes de benga, juju music, merengue, por um lado, e funk, rock psicadélico (e há ali um órgão saído dos Doors!) e guitarras eléctricas em distorção, por outro. *****


Staff Benda Bilili
«Trés Trés Fort»
Crammed Discs/Megamúsica

Mais um OVNI musical a sair de Kinshasa, na República Democrática do Congo - a juntar aos Kasai Allstars, Konono Nº1 e outros grupos da fornada Congotronics -, o Staff Benda Bilili é um grupo de músicos de rua, sem-abrigo, que costuma actuar para os turistas e visitantes do Jardim Zoológico de Kinshasa. Paraplégicos, vítimas de poliomelite, pedintes... Vistas assim as coisas até parece que o efeito «Dona Rosa» está a render no circuito da world music. E rende! Mas há aqui, no Staff Benda Bilili, qualquer coisa mais: uma música verdadeira e eléctrica, rude mas bela muitas vezes, que não se envergonha de citar descaradamente músicas exteriores (James Brown, de maneira óbvia... e o reggae, o ié-ié francês dos anos 60, o rock'n'roll...) nas suas canções, em tudo o resto profundamente africanas - com acento óbvio na rumba congolesa tal como prescrita por Franco. ****


Vários
«Memórias de África»
Difference/Farol

A crise da indústria discográfica, inclusive na chamada world music, até tem um lado muito bom: a necessidade de garimpagem de gravações perdidas em arquivos de editoras, rádios, estúdios, etnomusicólogos ou museus. E, dessa garimpagem, já muitas pérolas musicais esquecidas regressaram à luz do dia. Há milhentos exemplos mas, só para se situar, pode-se falar da série «Éthiopiques», das redescobertas da Mr Bongo ou das sucessivas reedições de gravações antigas de música jamaicana da Soul Jazz Records. E isso é bom! Assim como tem sido muito bom a esforço de estruturas nacionais que estão a pôr no mercado objectos historicamente irrepreensíveis como a caixa «Angola» ou a colectânea «Os Reis do Semba», ou exteriores, como o álbum «Rádio Mindelo», de Cesária Évora enquanto jovem. Agora, e através do trabalho de pesquisa incansável da Difference, surge outro marco, ainda maior, desta busca por uma música antiga que quer ser ouvida nos dias de hoje: os quatro CDs «Memórias de África» reúnem dezenas de gravações feitas em todas as ex-colónias portuguesas de África nos anos 60, 70 e inícios de 80, que lançam pontes óbvias, e necessárias, entre nomes do passado e as músicas do presente. Ouvem-se os merengues e os sembas de Elias Kimuezo ou Carlos Lamartine e já se imaginam kizombas e kuduros. Ouvem-se as mornas e as coladeiras de Bana ou Ana Firmino e já se estão a ouvir as canções de Orlando Pantera e as vozes de Tcheka e Mayra Andrade. Ouvem-se as marrabentas moçambicanas e sabe-se logo onde os Gorwhane, Mabulu ou Massukos foram beber a inspiração. E ouvem-se as músicas, estas ainda mais desconhecidas, da Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe, e agradece-se a quem deu voz a estas memórias... *****

02 abril, 2009

Cromos Raízes e Antenas L


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo L.1 - Khaled


Outrora conhecido como Cheb Khaled («cheb» significa «jovem» e não é um nome próprio, sendo comum a outros artistas norte-africanos como Cheb Mami ou Cheb i Sabbah), o cantor, compositor e multi-instrumentista argelino Khaled é um dos artistas mais representativos do género tradicional rai, na sua forma modernizada. De nome completo Khaled Hadj Brahim (nascido a 29 de Fevereiro de 1960, em Sidi-El-Houri, Argélia), Khaled mistura na sua música as raízes do rai com muitos outros géneros como o jazz, o funk, a pop, o r'n'b, as electrónicas, onde instrumentos tradicionais como o ney (flauta) ou a darabuka se fundem com sintetizadores, instrumentos eléctricos e uma secção de metais. Khaled - que toca banjo, acordeão, bateria, teclados, guitarra... - começou a sua carreira com apenas catorze anos, no grupo Les Cinq Étoiles e, ainda na Argélia, foi perseguido pelo teor da sua música, considerada demasiado ocidentalizada e com letras impróprias. Fixou-se em França em 1986 e, a partir daí, a sua fama nunca mais parou de crescer. Audição aconselhada: «Khaled» (1992), «1, 2, 3 Soleils» (1999; em parceria com Rachid Taha e Faudel) e «Ya-Rayi» (2004).


Cromo L.2 - Los de Abajo


Exemplo maior entre os maiores de uma música viva, dinâmica, empenhada politicamente e onde muitas músicas se cruzam sem que, por isso, a música final perca um pingo de identidade própria, o grupo Los de Abajo (formado na capital mexicana, Cidade do México, em 1992) é capaz de misturar ska, punk, cumbia, mariachi, son jarocho e muitos outros géneros de uma forma fluida, natural, orgânica. Também activos social e politicamente, ao longo do seu trajecto Los de Abajo defenderam causas como a do EZLN (Ejército Zapatista de Liberación Nacional), dos Jóvenes en Resistencia Alternativa e a dos presos políticos de Atenco. Gostando de caracterizar o seu som como «tropipunk», Los de Abajo já se encontraram criativamente com o catalão Macaco e, mais recentemente, com Neville Staples (Fun Boy Three) e a dupla Neil Sparkes/Count Dubulah (os Temple of Sound), no álbum de remisturas «LDA v The Lunatics» (2006). Outro álbum aconselhado: o histórico «Cybertropic Chilango Power» (2002).


Cromo L.3 - Gigi Shibabaw


Gigi (aka Ejigayehu Shibabaw) é uma cantora e compositora etíope que chegou à fama internacional através da mão de Bill Laswell - Gigi, aliás, viria a casar com este activíssimo produtor e músico - e de outro nome mítico da música, Chris Blackwell, patrão da editora Palm Pictures e o antigo responsável pela fama de muitos grandes artistas de reggae (como Bob Marley), quando liderava a Island Records. E, apesar de ter chegado a gravar anteriormente nos Estados Unidos, Gigi chegou ao sucesso internacional com os álbuns editados pela Palm Pictures: «Gigi» (2001), «Zion Roots» (assinado pelo grupo Abyssinia Infinite; 2003) e «Gold & Wax» (2006), onde à música de raiz - muitas vezes inspirada pelas Genna, celebrações do Natal na Etiópia - se juntam electrónicas, dub, funk, rock ou jazz (em «Gigi», ela foi acompanhada por nomes graúdos do jazz como Herbie Hancock, Wayne Shorter e Pharoah Sanders). Outros artistas com quem já se cruzou: Buckethead, Karsh Kale, Tabla Beat Science, Nils Petter Molvaer, Foday Musa Suso e Jah Wobble.


Cromo L.4 - The Zydepunks


Nova Orleães, é sabido, foi há cerca de cem anos o berço ideal de uma música nova, o jazz, onde muitas outras músicas - africanas e europeias - namoravam entre si: os blues, o gospel, o ragtime, as valsas, o klezmer, etc, etc... E é, agora, o berço de uma banda singular, os Zydepunks - onde também muitas músicas convergem: o zydeco e o cajun originários da Louisina, o punk, a country, a música cigana dos Balcãs, a música «celta» revista pelos Pogues, o klezmer... e cantando em seis línguas diferentes. Criados em 2003, os Zydepunks usam um baixo eléctrico (mas não guitarras) e baseiam o seu som num violino e num acordeão endiabrados, voz e bateria. E - conta a lenda - são capazes de dar concertos absolutamente arrebatadores. Formados por Denise Bonis (violino, voz), Juan Christian Küffner (acordeão, rabeca, voz principal), Joe Lilly (bateria, voz), Scott Potts (baixo, voz) e Eve (acordeão, melódica, voz), os Zydepunks lançaram até agora os álbuns «9th Ward Ramblers», «...And The Streets Will Flow With Whiskey», «Exile Waltz» e «Finisterre».

Nota: A primeira série dos «Cromos Raízes e Antenas» termina aqui. São 50 «carteirinhas» de quatro Cromos cada, o que soma o bonito número de 200 entradas. Os meus agradecimentos a quem sugeriu nomes, fez reparos, emendou gralhas e asneiras... Se tudo correr bem, uma nova série se seguirá...

01 abril, 2009

Rokia Traoré - Concertos no Porto e em Lisboa


Depois do maravilhoso espectáculo na noite de encerramento do FMM de Sines do ano passado, a cantora maliana Rokia Traoré regressa ao nosso país para espectáculos no Porto (Casa da Música, dia 27 de Maio) e Lisboa (Lux, um dia depois), ainda em apresentação do novo álbum «Tchamantché». O comunicado da organização:


«Rokia Traoré Ao Vivo

É uma das vozes mais importantes do continente africano, mas é a universalidade que faz dela uma artista de eleição.

Rokia Traoré em Portugal numa produção Mandrake.

Rokia Traoré alcançou, definitivamente, um estatuto só ao alcance dos artistas mais prodigiosos. Com «Tchamantché», o 4º álbum de originais, a cantora, compositora e guitarrista do Mali arrastou o culto para fora das fronteiras tradicionais da «world-music» e agarrou com elegância a crítica e público de todos os quadrantes.

A música de Rokia Traoré, sublime na sua transversalidade, não se limita aos ritmos tradicionais do Mali, vai mais além: o Funk, o Blues, o Jazz e o Rock, são géneros em destaque numa sonoridade original e muito sofisticada. Ao vivo, Rokia Traoré começa lentamente a conquistar a audiência com ritmos jazz para, gradualmente, dar lugar a ritmos mais festivos que facilmente passam do palco para a plateia.

A guitarra eléctrica «Gretsch», a harpa, o «N’Goni» (guitarra maliana), a voz sussurrante, as letras na língua Bambara, os instrumentos clássicos, tudo em perfeita harmonia, criam uma atmosfera fabulosa que não deixa ninguém indiferente e, muito menos, parado.

A festa fica marcada para os próximos dias 27 de Maio, na Casa da Música, Sala 2, no Porto, e 28 de Maio em Lisboa, no Lux. Pela primeira vez, Rokia Traoré apresenta-se em Portugal em concerto próprio e o entusiasmo é enorme para ver e ouvir esta genial intérprete, tantas vezes elogiada pelo seu conterrâneo Ali Farka Touré.

PORTO | CASA DA MÚSICA – SALA 2 | 27 MAIO – 21H30 | 22 EUROS

LISBOA | LUX | 28 MAIO – 22H00 | 22 EUROS»

31 março, 2009

Sky Fest - Com Lila Downs, Nneka, Edson Cordeiro e The Dynamics


Na sua segunda edição, o Sky Fest, mini-festival que decorre no Casino de Lisboa, de 14 a 17 de Maio, apresenta desta vez concertos com Lila Downs, Nneka (na foto), Edson Cordeiro e The Dynamics. Não se sabe ainda se, à semelhança do ano passado, haverá outros nomes nas primeiras partes, mas seria desejável que sim. O texto de apresentação do festival:


«SKY FEST - 14 a 17 MAIO - Casino Lisboa

Horário

Concertos às 22h

Preço

25€ e 30€

Local de Venda


Casino Lisboa, FNAC, Worten, El Corte Inglés, Bliss, Bulhosa, Abreu, Megarede
WWW.TICKETLINE.SAPO.PT
RESERVAS 707 234 234


Depois do sucesso em Abril de 2008, o SKY FEST está de regresso ao Casino Lisboa para uma 2ª edição.

Um festival multicultural que junta o Jazz, a World Music e o Blues no mesmo espaço, o SKY FEST reúne nomes consagrados com novos talentos, garantindo grande abrangência de sonoridades e revelação de novas tendências nas áreas musicais em destaque.

14 Maio - Edson Cordeiro & Klazz Brothers
Auditório dos Oceanos

Edson Cordeiro é um daqueles casos raros de sucesso, considerado por muitos um "músico de culto", devido à sua abrangência e à-vontade em géneros tão diversos como a ópera, o rock, a MPB, o funk, o gospel, o jazz, o flamenco e o samba, cantando em português, inglês, francês, espanhol e alemão. Com os Klazz Brothers, 3 virtuosos músicos de Dresden, Edson Cordeiro apresenta um espectáculo de fusão onde Konigin der Nacht, de Mozart, e Garota de Ipanema, de Jobim, se harmonizam com grande perfeição num alinhamento surpreendentemente encantador.


15 Maio - Nneka
Auditório dos Oceanos

Cantora e compositora, a nigeriana Nneka está de regresso com um novo álbum, No Longer at Ease, um projecto que evidencia os seus instintos criativos, explorando-os num vasto leque de sonoridades inovadoras, numa verdadeira odisseia Afrobeat. Com produção de DJ Farhot, este álbum é muito pessoal e, apesar de musicalmente mais ambicioso, não se afasta do estilo ou rumo habituais de Nneka.


16 Maio - The Dynamics
Arena Lounge - Entrada gratuita

Existem desde 2004 e o seu sucesso internacional já bateu recordes. Com origem em Lion, França, a música dos Dynamics é fortemente marcada pelo soul americano harmonizado com os ritmos jamaicanos. O seu estilo único caracteriza-se pela fusão de sonoridades estabelecidas com as mais modernas técnicas de produção, permitindo um sabor vintage que surpreende qualquer público, por muito exigente que seja.


17 Maio - Lila Downs
Auditório dos Oceanos

De origem mexicana, Lila Downs é um fenómeno internacional. Em parceria com o músico e produtor americano, Paul Cohen, Lila Downs assina as próprias composições caracterizadas pela mescla perfeita entre o tradicional folclore mexicano (charangos, kenachos e zampoñas) e os sons modernos das guitarras eléctricas, baixos e baterias. Com 7 álbuns editados, Lila Downs tem conseguido anular fronteiras, apresentando-se como uma cantora e compositora global capaz de esgotar salas por todo o mundo. No Auditório dos Oceanos no Casino Lisboa, apresenta Ojo de Culebra, o seu mais recente projecto.

19 março, 2009

Cromos Raízes e Antenas XLVIII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo XLVIII.1 - Rupa and The April Fishes


Ainda só têm um álbum editado no circuito internacional, mas são já uma das maiores promessas - OK, são já uma certeza! - daquilo que de melhor e mais abrangente se pode esperar de um grupo de «world music». E, aqui, o termo até está bem aplicado. Com base em San Francisco, Estados Unidos, Rupa and The April Fishes são liderados pela compositora, cantora e guitarrista Rupa, sendo os April Fishes formados por Marcus Cohen (trompete), Isabel Douglass (acordeão e voz), Aaron Kierbel (percussões), Safa Shokrai (contrabaixo) e Ara Anderson (trompete). Com influências que vêm da música indiana (Rupa, que é médica de profissão, tem as suas raízes no Punjab e viveu alguns anos em França), do tango, da canção francesa, do jazz (inclusive na sua variante cigana à Django, o jazz manouche), da cumbia, da pop... Rupa and The April Fishes lançaram em 2008 o álbum de estreia «eXtraOrdinary rendition», e já fazem parte, por direito próprio, do firmamento mais brilhante da música actual.


Cromo XLVIII.2 - Franco


Franco (aka Franco Luambo, François Luambo Makiadi e L'Okanga La Ndju Pene Luambo Lwanzo Makiadi; nascido a 6 de Julho de 1938, em Sona Bata, no Congo Belga, actual Zaire; falecido a 12 de Outubro de 1989) foi o mais importante compositor, cantor e guitarrista congolês do Séc. XX. Ao longo da sua carreira, deixou - em discos a solo ou com os grupos OK Jazz e TPOK Jazz - mais de mil canções gravadas, espalhadas por cerca de 150 álbuns. Com um estilo muito pessoal de tocar guitarra - era cognominado «O Feiticeiro da Guitarra» -, Franco misturou na sua música sonoridades africanas, jazz, ritmos latino-americanos (muito em especial a rumba), funk e soukous. Um fenómeno musical desde a adolescência - Franco gravou o seu primeiro single, «Bolingo Na Ngai Beatrice», com apenas 15 anos -, em 1956 fundou o OK Jazz (mais tarde rebaptizado TPOK Jazz), que rapidamente se tornou o grupo mais importante do Congo e com o qual tocou até à sua morte. Era um ídolo no seu país (e noutros países de África) e o seu funeral foi acompanhado por dezenas de milhares de pessoas.


Cromo XLVIII.3 - DJ Click


Membro do colectivo electro-jazz-world UHT, director da editora No Fridge, DJ e remisturador apaixonado por inúmeras músicas do mundo - e como ele as conhece bem! -, o francês DJ Click é um dos melhores, talvez mesmo o melhor, exemplo de como se podem transportar muitas músicas tradicionais para um futuro em que a música de judeus e muçulmanos, de ciganos espanhóis e do leste da Europa, de negros, de brancos e de mestiços de várias origens conseguem conviver, cruzar-se e obrigar toda a gente a dançar numa nave espacial utópica e cheia de músicas novas. E em que músicas novas como o dub, o electro ou o drum'n'bass e músicas antigas como o gnawa, o klezmer ou a música cigana dos Balcãs têm o mesmo espaço e importância. Com DJ Click já se cruzaram (em remisturas ou colaborações) nomes como Mitsoura, Gnawa Njoum Experience, Transglobal Underground, Rachid Taha, Leontina Vaduva, Burhan Öçal, Recycler, Tziganiada ou Estelle Goldfarb. (1)


Cromo XLVIII.4 - Pentangle


Um dos mais importantes grupos da folk britânica de sempre, os Pentangle nasceram em 1967, em Londres, à volta de Bert Jansch e John Renbourn - dois guitarristas geniais que já tinham um passado comum na folk -, uma cantora apaixonada pela tradição, Jacqui McShee, e dois músicos de jazz, Danny Thompson (baixo) e Terry Cox (bateria). E o resultado desse encontro foi explosivo: canções que iam à folk, aos blues, ao psicadelismo, ao jazz, ao rock progressivo ou à música barroca; canções que se encaixavam perfeitamente na música do seu tempo mas que também deixavam - pelo grau de abertura que demonstravam - muitas pistas para o futuro. Os Pentangle separaram-se em 1973 e ressurgiram nos anos 80, tendo passado inúmeros outros músicos pelas suas várias formações. E em 2007 os cinco membros fundadores voltaram a reunir-se para receber o Prémio Carreira dos Folk Awards atribuídos pela BBC Radio 2 e, no ano seguinte, fizeram uma digressão de enorme sucesso pelas Ilhas Britânicas. Audição aconselhada: os álbuns «The Pentangle», «Sweet Child», «Basket of Light» e «Solomon's Seal».

(1) - Texto adaptado de uma prosa anterior minha acerca do álbum «Flavour», de DJ Click.

12 março, 2009

Speed Caravan, Dele Sosimi, Chicha Libre e Kasai Allstars no FMM


E - depois do jamaicano Lee «Scratch» Perry e dos italianos Circo Abusivo - mais quatro nomes juntam-se ao rol de artistas alinhados para o próximo FMM de Sines: o myspace dos Speed Caravan (música do norte de África electrificada,com alaúdes em distorção e versões dos... Chemical Brothers e dos Cure) e de um dos mestres do afro-beat Dele Sosimi (com a sua Dele Sosimi Afrobeat Orchestra) já adiantam datas destes dois para Sines. Por sua vez, um comunicado da Crammed Discs assinala a presença dos latino-americanos infectados pelo psicadelismo e pelo surf rock Chicha Libre (na foto) em vários grandes festivais europeus deste Verão, incluindo Sines. E o camarada João Gonçalves, no Grandes Sons, informa que os congoleses Kasai Allstars - que estavam previstos para o ano passado e não apareceram devido a problemas com os vistos - também estão confirmados na edição do FMM deste ano, que decorre mais cedo que o habitual (entre 17 e 25 de Julho, mais dia menos dia).

27 fevereiro, 2009

Cacharolete de Discos - Seun Kuti, Nitin Sawhney e Maria João & Mário Laginha


Depois de uma ausência prolongada - uma pneumoniazita que já está a passar -, o R&A regressa hoje para recuperar algumas críticas publicadas há algum tempo originalmente na «Time Out Lisboa». Desta vez, ao álbum de estreia de Seun Kuti (o filho mais novo de Fela Kuti), ao surpreendente novo disco de Nitin Sawhney (na foto) e ao disco de regresso ao jazz da dupla Maria João/Mario Laginha.



SEUN KUTI + FELA'S EGYPT 80
«MANY THINGS»
Tôt ou Tard

Transportar o nome – e a herança – de um dos nomes maiores da música nunca é fácil. Não o foi para os filhos de gente como John Lennon ou Bob Marley, de Frank Zappa ou de Charles Mingus (apesar de alguns deles terem construído uma carreira bastante decente em nome próprio). No caso de haver vários filhos a competirem no mesmo território a questão ainda se torna mais complicada, como é o caso de Seun e do seu irmão Femi, ambos filhos de uma das figuras mais importantes da música africana, o inventor do afro-beat Fela Kuti. Porque para além de competirem com a memória e o peso do nome do pai , ainda têm que «competir» entre si, para ver qual deles pode continuar a carregar a bandeira da família e/ou eventualmente a levá-la mais longe e a hasteá-la mais alto. Neste exemplo específico, a herança é encarada de maneiras diferentes pelos dois manos em compita: Femi (o mais velho), com uma carreira mais longa e já com o seu nome bem firmado no circuito da world music, é o que diverge mais da linha firmada pelo pai: nele, o afro-beat é a base, sim, mas nele incorpora sem problemas outras linguagens como o reggae, o hip-hop, o jazz, o R&B, até canções no seu sentido mais clássico. Já Seun (o mais novo), não se atreve a divergir e neste seu álbum de estreia, «Many Things», aquilo que se ouve é afro-beat puro e duro, sem grandes (nem pequenos) desvios aos ensinamentos paternos. O lado positivo é que os fãs de Fela podem ver aqui uma continuação lógica do trabalho do mestre – e Seun faz questão de ser acompanhado, para que não haja dúvidas, por muitos músicos que tocaram com o pai, os Egypt 80, e que a ligação seja imediatamente reconhecida. O lado negativo é que já ouvimos esta música antes, há 30 anos atrás, e não há aqui, mesmo!, grandes (nem pequenos) acrescentos. (***)


NITIN SAWHNEY
«LONDON UNDERSOUND»
Cooking Vinyl/Edel

Um dos nomes maiores da cena musical indo-britânica, Nitin Sawhney está de volta com um álbum (o oitavo, e o primeiro desde «Philtre», saído em 2005) surpreendente. Um álbum sério, maduro, mais pop e muito menos dançável do que é habitual. Tendo como mote os atentados de extremistas islâmicos ao metropolitano londrino a 7 de Julho de 2005, dos quais resultaram 52 vítimas e 700 feridos (daí o trocadilho do título do álbum, «London Undersound», com o London Underground), o disco é uma elegia aos mortos e a uma parte da cidade de Londres que «também morreu nesse dia». E o álbum é uma surpresa! Começa com dois temas pop («Days of Fire», com a participação de Natty, e «October Daze», com Tina Grace) e um terceiro («Bring It Home», com Imogen Heap) já com uma pulsão dançável mais imediatamente reconhecível de Nitin Sawhney. E depois entra... Paul McCartney, mas com uma voz quase irreconhecível, envelhecida, cansada mas cheia de alma na faixa «My Soul» – um tema com alusões a «A Day in the Life», dos Beatles (tema que encerra o álbum «Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band»), e uma certa atmosfera indiana. Numa outra canção há uma pulsão brasileira, a lembrar que este álbum também foi inspirado pela morte do brasileiro Jean Charles de Menezes às mãos da polícia inglesa, que o confundiu com um terrorista. E a seguir há rumba catalã e tablas indianas em «Shadowland», tema de colaboração com os Ojos de Brujo. E, à medida que o álbum avança, a presença da música indiana sente-se cada vez mais, com o canto tradicional konokol, a voz que parece saída de um filme de Bollywood de Reena Bhardwaj, ou a maravilhosa sitar de Anoushka Shankar no tema que encerra o disco. (*****)

MARIA JOÃO & MÁRIO LAGINHA
«CHOCOLATE»
Universal Music Portugal

Há comemorações e... comemorações. Há comemorações chatas, institucionais, preguiçosas, previsíveis e, logo, inúteis. E há comemorações vivas, felizes, brilhantes, inesperadas e, logo, inesquecíveis. E, na música, são cada vez mais raras as comemorações - sejam elas quais forem - que se enquadram na segunda categoria. Mas «Chocolate», o novo álbum de Maria João e Mário Laginha, entra de caras e directamente nesse segundo grupo. Porque é um disco que comemora 25 anos de trabalho e criação em conjunto - duas décadas e meia depois do pioneiro álbum do Quinteto de Maria João - mas, muito mais do que isso, é um álbum com um som novo, fresquíssimo, espelho mais que perfeito daquilo que os dois fizeram - e já fizeram tanto! - antes... e de tudo aquilo que ainda poderemos esperar deles, para um depois qualquer. Entre vários clássicos de sempre do jazz e derivados («Goodbye Pork Pie Hat», «I've Grown Accustomed to His Face», «I'm Old Fashioned», «When You Wish Upon a Star»...) e alguns originais compostos pelo duo, o álbum viaja, de forma perfeita, por vários géneros de jazz - alguns mais clássicos, outros mais free ou mais experimentais ou mais contemporâneos... -, e deixando sempre brilhar a voz de Maria João (nas palavras, nos sussurros, no scat, numa mais ampla e aberta gama de frequências que a faz chegar a inesperados e absolutamente bem-vindos registos graves), o piano excelentíssimo - e qual «grilo falante» em diálogo com a voz de Maria João - de Mário Laginha, o saxofone voador (seja ele gaivota, seja ele moscardo) de Julian Arguelles, as percussões mágicas de Helge Norbakken, e os seguríssimos cimentos que são o contrabaixo de Bernardo Moreira e a bateria de Alexandre Frazão. Mais que uma comemoração, «Chocolate» é uma... celebração. (*****)

12 novembro, 2008

Morreu Miriam Makeba - A Voz da Luta Anti-Apartheid


A cantora e activista sul-africana Miriam Makeba morreu anteontem, dia 10, deepois de ter desfalecido em palco no final de um concerto em Castelvolturno, perto de Nápoles, Itália. Miriam Makeba, de 76 anos, tinha acabado de interpretar aquele que foi provavelmente o tema que lhe deu maior visibilidade mundial, «Pata Pata». A ela, à sua música, à música sul-africana e à causa à qual dedicou boa parte da sua vida: a luta anti-apartheid na sua terra natal.

Miriam Makeba nasceu nos arredores de Joanesburgo, em 1932, e iniciou a sua carreira musical na década de 50. Colaborou com outro grande nome da música sul-africana, Hugh Masekela, com quem aparece no filme anti-apartheid «Come Back, Africa». Em Inglaterra e, depois, nos Estados Unidos, onde se exilou, tornou-se amiga de Harry Belafonte. Casou com Stokely Carmichael, figura de proa da organização Panteras Negras. Este casamento - e devido à perseguição de que o marido era alvo por parte das autoridades norte-americanas - levou-a a novas mudanças de país, tendo-se fixado na Guiné-Conakry e, depois, na Bélgica. Acolhida durante muitos anos em todo o mundo - excepto no seu próprio país - como a Voz da música sul-africana, sempre social e politicamente empenhada (mesmo o último concerto que deu, em Itália, estava integrado numa iniciativa anti-racista e anti-Máfia), Miriam Makeba regressou à África do Sul em 1990, quando Nelson Mandela assumiu o poder. Miriam Makeba tinha sido homengeada neste blog num dos Cromos Raízes e Antenas, aqui.

17 outubro, 2008

Auto-Promoção (ou World DJing no DocLisboa)


Em contacto de última hora - mas nem por isso menos bem-vindo -, o autor deste blog e DJ nas horas vagas António Pires foi convidado para pôr música no festival de cinema documental DocLisboa, amanhã (sábado) à noite e na próxima quinta-feira, com ambas as sessões a decorrer no Cinema São Jorge, em Lisboa. A primeira sessão tem como mote a música cubana e o documentário «Black Tears» («Lágrimas Negras»), dedicado ao mítico grupo Vieja Trova Santiaguera (na foto). A segunda sessão, que parte da música moçambicana para outras músicas africanas, terá como pedra de toque os filmes de temática moçambicana «Hóspedes da Noite», de Licínio de Azevedo, e «Kuxa Kanema: O Nascimento do Cinema», de Margarida Cardoso.

Programação completa e demais informações sobre o DocLisboa, aqui.

15 outubro, 2008

Eneida Marta - Também na WOMEX!


Para além de Camané, há outra presença lusófona entretanto confirmada na WOMEX: a da cantora guineense Eneida Marta (na foto), com showcase confirmado nesta feira/festival de Sevilha no próximo dia 30. O comunicado oficial, que explica bem a carreira de Eneida Marta, já a seguir:

«A cantora Eneida Marta integra a selecção oficial da WOMEX 2008 (World Music Expo) que decorrer em Sevilha de 29 de Outubro a 2 de Novembro.

Considerado o mais importante mercado profissional de World Music do planeta, esta feira integra cerca de 2,800 delegados e 1,400 empresas de mais de 90 países, 52 showcases com mais de 350 artistas de 42 países divididos por 5 palcos. A organização seleccionou a artista Eneida Marta para um showcase integrado na sua programação oficial que decorrerá no dia 30 pelas 22.15h no Pavilhão 1 na Praça de Espanha.

Eneida Marta apresentará neste showcase temas do seu úlltimo album Lôpe Kai (2006, Iris Music) que deu origem à Tour Lôpe Kai levando-a a pisar alguns dos palcos mais prestigiados nos quatro cantos do mundo, como tambèm apresentará temas do seu muito antecipado novo álbum que tem data de lançamento para 2009.

Eneida Marta nascida na Guiné-Bissau mas radicada em Portugal, é uma das mais bonitas vozes africanas dos dias de hoje. Misturando a sua voz notável com ritmos como Gumbe, Morna, Singa, Tina-Flmenco, Afro-beat e cantando em Mandinga, Fula, Criol, Futa-Fula e Português combina as raízes da sua origem com a vibracidade dos arranjos de Juca Delgado um dos mais importantes produtores de musica africana em Portugal e que desde cedo apostou no valor de Eneida e lhe proporcionou colaborações em trabalhos de conceituados artistas, como Don Kikas, Rui Sangara, Fernando Santos (Aiaia), Aliu Bari, Punga e Iva e Ichi.

Com o seu primeiro álbum, Nô- Storia, editado pela Maxi Music, em 2001, e produzido por Juca Delgado, fez uma tournée por Cabo Verde, França, Holanda, Alemanha, Guiné-Bissau e Portugal, que mereceu críticas muito favoráveis tanto da parte do público, como da parte dos media. Já com o seu segundo trabalho, Eneida Marta converteu-se numa nova referência musical e despertou o interesse de editoras como a “Putumayo”, “Club Star” e “JPS Production”; americana, alemã e francesa respectivamente. Foi finalmente com a conceituada editora americana, Putumayo que Eneida participa, com um tema, Na Bu Mons, do seu primeiro cd, numa compilaçao dedicada à musica das colónias portuguesas em África, “An Afro-Portuguese Odyssey- (2002).

Esta participação abriu-lhe as portas do reconhecimento internacinal da sua espectacular voz, colocando-a em posições de topo nos meios de comunicação.

Eneida Marta esteve presente, em imensos meios de comunicação internacionais, colaborou em diversas compilações, e, tambèm em discos de conceituados artistas, no panorama musical africano: “Guiné, S. Tomé” compilação de artistas de Guiné-bissau e São Tomé (2002), “Para Alem da Música+”, disco editado por CIC-Portugal para angariar fundos de ajuda humanitária em África (2003), “Mindjer” de Nino Galissa (Guinea Bissau - 2004), “Santa Mariazinha” de Caló Pascoal (Angola - 2005), entre outros.

Em Janeiro de 2006, apresentou o seu terceiro disco, Lôpe Kai, editado pela Íris Music (França), a partir do qual se inicia a sua primeira grande tournée europeia Tour Lôpe Kai 2006-2007. Em Julho de 2005, ficou em primeiro lugar, na categoria de World Music, num concurso que decorreu em Portugal, com a canção Mindjer Dôlce Mel; que tambèm està incluído na compilação Acoustic Africa, da Putumayo World Music, gravou o seu primeiro videoclip.

Eneida e Juca exploram, ao desenvolver a sua obra, uma grande variedade de estilos, Gumbe, Morna, Singa, toques de Flamenco, de Gospel e jazz... Tudo envolto num erotismo pleno... uma verdadeira fábrica de ritmo.»