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29 junho, 2011

Viagem ao Norte de África (e de lés-a-lés!)


Hoje, o Raízes e Antenas recupera críticas (originalmente publicadas na Time Out) dedicadas à música do norte de África, do seu oeste ao seu leste e dos dois lados do deserto do Sahara. Mais especifiicamente de Marrocos à Eritreia, do Niger à Tunísia e à Argélia. Os nomes? Hasna El-Becharia, Ghalia Benali, Souad Massi (na foto), Etran Finatawa, Asmara All Stars e todos os que protagonizam mais uma colectânea dedicada à música árabe pela Rough Guide.




Hasna El-Becharia
"Smaa Smaa"
Lusafrica/Tumbao

Os gnawa, do sul de Marrocos, são o povo que descende dos escravos negros da África Ocidental levados para o norte do Sahara pelos árabes. Com uma música de transe – igualmente conhecida como gnawa – que traça a ponte entre os dois lados do grande deserto, no gnawa tradicional encontram-se os habituais gritos guturais das mulheres berberes, instrumentos típicos da música árabe (como as darabukas), mas também instrumentos próprios como as krakabs ou o guimbri, um baixo acústico. E Hasna El Becharia – um dos raros exemplos de argelinos a praticar esta música -, cantora de voz grave, exímia tocadora de guimbri e guitarrista, transporta sempre consigo esta tradição, mas nunca deixando de a levar para o futuro: como neste belo e novo álbum, "Smaa Smaa", em que o gnawa por vezes se aproxima do rai, outras vezes dos blues, outras até de um proto-flamenco. Uma lição. (****)



Ghalia Benali
"...Sings Om Kalthoum"
Zimbraz

Já há alguns anos, a cantora tunisina Ghalia Benali – então acompanhada pelo seu grupo Timnaa -, deu no saudoso Intercéltico do Porto um dos concertos obviamente menos “celtas” deste festival. Na altura ela fundia música árabe com flamenco, Balcãs e até havia lá uma... guitarra portuguesa. Agora, no seu novo álbum, Ghalia presta homenagem a uma das maiores cantoras de sempre do norte de África e Médio Oriente, a diva egípcia Umm Kulthum (ou Om Kalthoum ou outra das inúmeras maneiras ocidentalizadas de escrever o seu nome), que se notabilizou pela sua voz inimitável e pelos longuíssimos concertos que protagonizava. E Ghalia faz-lhe aqui justiça, recorrendo a um pequeno ensemble acústico, com arranjos descarnados e nenhuma tentativa de modernização da música de Umm. É um acto de amor e vale por isso. (****)


Etran Finatawa
"Tarkat Tajje/Let's Go!"
World Music Network/Megamúsica

A pouco e pouco, os Etran Finatawa – banda originária do Niger que agrupa músicos tuaregues e de etnia wodaabe (todos eles nómadas que já se cruzaram nos inúmeros caminhos do deserto do Sahara, ora combatendo e roubando esposas, ora convivendo pacificamente e participando nas festas familiares uns dos outros) – foram estabelecendo o seu nome, no sentido que Malcolm McLaren deu aos Sex Pistols, definitivamente no circuito da world music. Não são a coisa mais original do mundo (os Tinariwen, Tartit e Ali Farka Touré estão na sua base e inspiração maior), mas o desvio dado aos blues do deserto pelas harmonias vocais e os meneios musicais/transe quase “transgender” dos wodaabe fazem, e neste "Tarkat Taaje" ainda mais!, dos Etran Finatawa um objecto musical único. (****)


Vários
"The Rough Guide to... Arabic Lounge"
World Music Network/Megamúsica

Há centenas de colectâneas – e de variadíssimas editoras – de música árabe, do norte de África do próximo e médio Oriente... Umas mais electrónicas, outras mais chill out, outras mais pop, outras mais acústicas e jazzy. E "The Rough Guide to... Arabic Lounge" é uma amálgama disto tudo. Algo desequilibrado também por isso, o álbum contém no entanto algumas pérolas como a canção gainsbourguiana interpretada, logo a abrir, pelo libanês Ghazi Abdel Baki, alguns desvios jazz curiosos (outros, mais jazz de hotel, nem por isso) ou as vozes mágicas de Natacha Atlas e da palestiniana Rim Banna e, mais importante que o resto, traz como bónus o álbum de estreia de Akim El Sikameya, cantor e músico argelino que faz uma excelente ponte entre a Andaluzia e o norte de África. (***)


Asmara All Stars
"Eritrea's Got Soul"
Out Here Records/Megamúsica

Encravada entre o Sudão e a Etiópia, a Eritreia é – tal como os seus vizinhos próximos – um dos países mais pobres do mundo e, devido a sucessivos conflitos (incluindo uma longa guerra com a Etiópia), é igualmente um dos territórios mais isolados e imunes às influências das “antenas” viradas para o éter exterior. Talvez por isso, este álbum do super-grupo Asmara All Stars, gravado em Asmara (a capital do país) pelo produtor francês Bruno Blum, mostra uma música que poderia ter sido registada nos anos 70 e não em 2008 (data da gravação), onde, ao lado de sonoridades próximas do ethio-jazz tal como estabelecido por Mulatu Astatke se ouvem reggae, hard-rock, funk e soul. E, ao contrário de parecer requentado ou simplesmente retro, "Eritrea's Got Soul" soa a fresco e actualíssimo. (*****)


Souad Massi
"Ô Houria"
Island Records/Universal Music

Numa entrevista que deu a propósito do seu quarto álbum, "Ô Houria" – que significa “liberdade” –, a cantora argelina Souad Massi refere que continua a ter Leonard Cohen, Neil Young e Bruce Springsteen – ela começou a carreira num grupo rock – como principais referências musicais. Mas, ouvindo-se este novo álbum, pode dizer-se que nunca a sua música foi ao mesmo tempo tão argelina ou, se quisermos, magrebina (está aqui o fabuloso intérprete de oud Mehdi Habbad, dos DuOud e Speed Caravan) nem tão francesa (estão aqui, também bem presentes, Francis Cabrel e Michel Françoise), embora lá esteja também um “bife” inesperado: Paul Weller! Mas o que fica disto tudo é o melhor e mais maduro disco de Souad até à data: interventivo, apaixonado, sem fronteiras. (****)

14 junho, 2011

Dimi Mint Abba (1958 – 2011)


Faleceu Dimi Mint Abba, a mais respeitada cantora da Mauritânia. Em jeito de despedida e de homenagem, aqui fica o comunicado da World Circuit:

"Dimi Mint Abba (1958 – 2011)

We are deeply saddened to announce that one of Mauritania’s most beloved musicians, Dimi Mint Abba, passed away in a Moroccan hospital on 4 June after suffering a brain haemorrhage two weeks ago. She was 52. Known as the ‘Diva of the Desert’, Dimi was celebrated as one of the world’s greatest singers.

Born Loula Bint Siddaty Ould Abba in 1958, Dimi came from a prominent musical family belonging to the ‘iggawin’ (also known as ‘griot’) tradition and excelled at the ardin (similar to the West African kora) and as a percussionist from an early age. Abba’s breakthrough as a singer came when she won a prize at the Festival d’Oum Kelthoum in Tunisia in 1976. She went on to represent Mauritania at various other festivals including The Festival of Arabic Youth in Iraq (1977), Festival of Timgad in Algeria (1978), and the Festival of Agadir in Morocco in 1986.

Dimi’s first international album - ‘Moorish Music from Mauritania’ – was released on World Circuit in 1990. The recording features Abba and the gifted singer Khalifa Ould Eide and was the first studio quality recording of Moorish music by any artist from that country. Dimi was an institution in her homeland and a valued performer throughout Europe and Africa; musicians such as Ali Farka Toure, Baaba Maal, Toumani Diabate and Youssou N’Dour have expressed their huge admiration for her talents."

03 abril, 2009

Group Doueh e Omar Souleyman na Gulbenkian


Olha que bela notícia! O Juramento Sem Bandeira avança com a informação de que o Group Doueh (na foto) e Omar Souleyman actuam dia 21 de Junho, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, num concerto organizado pela Filho Único. Atenção - o espectácculo (seguido de sessões dos DJs Hisham Mayet, Alan Bishop e Mark Gergis) começa às... 19h00. O texto do Vítor:

«Entre as datas conjuntas que o Group Doueh e Omar Souleyman vão fazer na Europa, há uma para Lisboa, a realizar na Fundação Calouste Gulbenkian, com mão da Filho Único: 21 de Junho. Group Doueh é um dos nomes mais relevantes (e em actividade, diga-se de passagem) do catálogo Sublime Frequencies, o selo norte-americano que desde há meia-dúzia de anos tem vindo a editar gravações mais ou menos obscuras de artistas mais ou menos obscuros de paragens mais ou menos obscuras dos continentes africano e asiático. Há dois anos, a Sublime Frequencies deu a conhecer ao mundo mais atento este grupo de guitarras eléctricas do Sahara Ocidental através do LP de edição limitada "Guitar Music from the Western Sahara", excelente como documento, embora o péssimo som lhe manche a ambição de objecto de entretenimento que se encontra noutros trabalhos recentes também vindos do Norte de África, onde também blues, guitarras eléctricas e deserto costumam ser as quatro palavras mais citadas nos textos sobre eles discorridos. Não deixa, porém, de ser um documento fantástico. E também ali se assiste a uma contaminação interessante de influências ocidentais nas tradições locais, em proporções muito semelhantes aos grupos antes citados de rés-vés. Vai ser interessante deixar para trás a imaginação que o disco proporciona e comprovar ao vivo o valor do Group Doueh. A acompanhá-los vai estar outro nome do catálogo da SF, o sírio Omar Souleyman. Meio folk, meio pop, completamente chunga, está para a folk local quase como o fasil das pistas de dança actual está para o fasil turco antigo, ou como o Bhangra Pop está para a folk indiana. Não há como perder esta noite».

Mais informações aqui.

02 abril, 2009

Cromos Raízes e Antenas L


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo L.1 - Khaled


Outrora conhecido como Cheb Khaled («cheb» significa «jovem» e não é um nome próprio, sendo comum a outros artistas norte-africanos como Cheb Mami ou Cheb i Sabbah), o cantor, compositor e multi-instrumentista argelino Khaled é um dos artistas mais representativos do género tradicional rai, na sua forma modernizada. De nome completo Khaled Hadj Brahim (nascido a 29 de Fevereiro de 1960, em Sidi-El-Houri, Argélia), Khaled mistura na sua música as raízes do rai com muitos outros géneros como o jazz, o funk, a pop, o r'n'b, as electrónicas, onde instrumentos tradicionais como o ney (flauta) ou a darabuka se fundem com sintetizadores, instrumentos eléctricos e uma secção de metais. Khaled - que toca banjo, acordeão, bateria, teclados, guitarra... - começou a sua carreira com apenas catorze anos, no grupo Les Cinq Étoiles e, ainda na Argélia, foi perseguido pelo teor da sua música, considerada demasiado ocidentalizada e com letras impróprias. Fixou-se em França em 1986 e, a partir daí, a sua fama nunca mais parou de crescer. Audição aconselhada: «Khaled» (1992), «1, 2, 3 Soleils» (1999; em parceria com Rachid Taha e Faudel) e «Ya-Rayi» (2004).


Cromo L.2 - Los de Abajo


Exemplo maior entre os maiores de uma música viva, dinâmica, empenhada politicamente e onde muitas músicas se cruzam sem que, por isso, a música final perca um pingo de identidade própria, o grupo Los de Abajo (formado na capital mexicana, Cidade do México, em 1992) é capaz de misturar ska, punk, cumbia, mariachi, son jarocho e muitos outros géneros de uma forma fluida, natural, orgânica. Também activos social e politicamente, ao longo do seu trajecto Los de Abajo defenderam causas como a do EZLN (Ejército Zapatista de Liberación Nacional), dos Jóvenes en Resistencia Alternativa e a dos presos políticos de Atenco. Gostando de caracterizar o seu som como «tropipunk», Los de Abajo já se encontraram criativamente com o catalão Macaco e, mais recentemente, com Neville Staples (Fun Boy Three) e a dupla Neil Sparkes/Count Dubulah (os Temple of Sound), no álbum de remisturas «LDA v The Lunatics» (2006). Outro álbum aconselhado: o histórico «Cybertropic Chilango Power» (2002).


Cromo L.3 - Gigi Shibabaw


Gigi (aka Ejigayehu Shibabaw) é uma cantora e compositora etíope que chegou à fama internacional através da mão de Bill Laswell - Gigi, aliás, viria a casar com este activíssimo produtor e músico - e de outro nome mítico da música, Chris Blackwell, patrão da editora Palm Pictures e o antigo responsável pela fama de muitos grandes artistas de reggae (como Bob Marley), quando liderava a Island Records. E, apesar de ter chegado a gravar anteriormente nos Estados Unidos, Gigi chegou ao sucesso internacional com os álbuns editados pela Palm Pictures: «Gigi» (2001), «Zion Roots» (assinado pelo grupo Abyssinia Infinite; 2003) e «Gold & Wax» (2006), onde à música de raiz - muitas vezes inspirada pelas Genna, celebrações do Natal na Etiópia - se juntam electrónicas, dub, funk, rock ou jazz (em «Gigi», ela foi acompanhada por nomes graúdos do jazz como Herbie Hancock, Wayne Shorter e Pharoah Sanders). Outros artistas com quem já se cruzou: Buckethead, Karsh Kale, Tabla Beat Science, Nils Petter Molvaer, Foday Musa Suso e Jah Wobble.


Cromo L.4 - The Zydepunks


Nova Orleães, é sabido, foi há cerca de cem anos o berço ideal de uma música nova, o jazz, onde muitas outras músicas - africanas e europeias - namoravam entre si: os blues, o gospel, o ragtime, as valsas, o klezmer, etc, etc... E é, agora, o berço de uma banda singular, os Zydepunks - onde também muitas músicas convergem: o zydeco e o cajun originários da Louisina, o punk, a country, a música cigana dos Balcãs, a música «celta» revista pelos Pogues, o klezmer... e cantando em seis línguas diferentes. Criados em 2003, os Zydepunks usam um baixo eléctrico (mas não guitarras) e baseiam o seu som num violino e num acordeão endiabrados, voz e bateria. E - conta a lenda - são capazes de dar concertos absolutamente arrebatadores. Formados por Denise Bonis (violino, voz), Juan Christian Küffner (acordeão, rabeca, voz principal), Joe Lilly (bateria, voz), Scott Potts (baixo, voz) e Eve (acordeão, melódica, voz), os Zydepunks lançaram até agora os álbuns «9th Ward Ramblers», «...And The Streets Will Flow With Whiskey», «Exile Waltz» e «Finisterre».

Nota: A primeira série dos «Cromos Raízes e Antenas» termina aqui. São 50 «carteirinhas» de quatro Cromos cada, o que soma o bonito número de 200 entradas. Os meus agradecimentos a quem sugeriu nomes, fez reparos, emendou gralhas e asneiras... Se tudo correr bem, uma nova série se seguirá...

13 março, 2009

Cromos Raízes e Antenas XLVII


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)

Cromo XLVII.1 - Billy Bragg


Não são raros os exemplos de punks britânicos que se viraram depois para a folk ou para a «world» - os Pogues, os Chumbawamba e até Joe Strummer (dos Clash) são alguns desses exemplos, entre muitos outros... -, mas Billy Bragg é, sem dúvida, um dos maiores expoentes dessa tendência. Billy Bragg (Stephen William Bragg, nascido a 20 de Dezembro de 1957, nos subúrbios de Londres, Inglaterra) começa a sua carreira em 1977, na banda punk Riff Raff, com a qual não obtém sucesso. Mas em 1981 inicia uma profícua trajectória musical a solo em que os seus extraordinários dotes de cantautor (inspirado pela folk britânica e norte-americana mas sem nunca esquecer o seu passado punk) e o seu activismo político anti-fascista e anti-racista também o levaram a colaborações memoráveis com músicos dos R.E.M., Johnny Marr (The Smiths), Michelle Shocked, Kirsty MacColl ou, mais recentemente, o projecto The Imagined Village. É uma referência incontornável.


Cromo XLVII.2 - Cornershop

~
A cantora Sinéad O'Connor teve o seu pico de projecção mediática quando queimou uma fotografia do Papa João Paulo II. E o grupo indo-britânico Cornershop - uma referência às «lojas de esquina» dos imigrantes indianos e paquistaneses em Inglaterra - deram visibilidade à sua música quando queimaram uma foto de Morrissey, depois deste cantor ter assumido ideias racistas (inclusive nas letras de algumas canções). Surgidos em Leicester, Inglaterra, em 1992 - e ainda hoje em actividade -, os Cornershop, desde sempre liderados por Tjinder Singh e Ben Ayres, caracterizam-se por uma fusão consistente de canções infecciosamente pop, algumas electrónicas e referências discretas à música indiana (instrumentos como a sitar, harmonium, dholaki, tamboura e tablas fazem parte do seu «kit» habitual). O seu tema «Brimful of Asha» (de 1997; uma homenagem a Asha Bhosle) e a respectiva remistura de Fatboy Slim vão ficar para sempre na história da world music.


Cromo XLVII.3 - Naftule Brandwein


Ouve-se, agora, Woody Allen a tocar jazz no seu clarinete e sente-se, sem a menor dúvida, que aquele clarinete deve tudo à música klezmer. Ou ouvia-se, antes, o clarinetista Benny Goodman ou o início do «Rhapsody In Blue», de Gershwin, e sentia-se que as bases destas músicas estavam nas suas raízes judaicas. Actualmente não há banda de klezmer que não tenha um clarinete. E, em todas elas, são nítidas as influências do maior clarinetista klezmer de todos os tempos: o lendário Naftule Brandwein. Tendo nascido em Przemyslany (no actual território da Ucrânia), em 1884, no seio de uma família de músicos judeus, emigrou para os Estados Unidos em 1908. Conhecido como «O Rei da Música Judaica», gravou variadíssimos discos de 78 rpm durante os anos 20. E embora a sua carreira tenha decaído desde essa altura e até à sua morte, em 1963, a sua música foi depois recuperada, amada e emulada por todas as novas vagas de músicos klezmer.


Cromo XLVII.4 - Krakabs


As krakabs (ou quaquabou, chkacheks, krakebs e garbag) apresentam-se, ao lado do gimbri (ou guembri, um baixo acústico rectangular), como o instrumento mais emblemático da música gnawa, sendo utilizado por grupos como os Nass Marrakech, Gnawa Impulse ou na banda acompanhante da grande Hasna El-Becharia, entre muitos outros. Também conhecidas como castanholas de metal, as krakabs são o instrumento de percussão fundamental para a criação (e sustentação) dos ritmos transe-hipnóticos do gnawa, género - e também a designação da comunidade sufi que o pratica - do sul de Marrocos, criado pelos descendentes dos escravos da África Ocidental levados para o lado norte do Sahara pelos árabes. Fazendo parte da família dos idiofones, as krakabs são crótalos feitos de ferro, em forma de 8, e o seu som tenta imitar o galope de um cavalo.

12 março, 2009

Speed Caravan, Dele Sosimi, Chicha Libre e Kasai Allstars no FMM


E - depois do jamaicano Lee «Scratch» Perry e dos italianos Circo Abusivo - mais quatro nomes juntam-se ao rol de artistas alinhados para o próximo FMM de Sines: o myspace dos Speed Caravan (música do norte de África electrificada,com alaúdes em distorção e versões dos... Chemical Brothers e dos Cure) e de um dos mestres do afro-beat Dele Sosimi (com a sua Dele Sosimi Afrobeat Orchestra) já adiantam datas destes dois para Sines. Por sua vez, um comunicado da Crammed Discs assinala a presença dos latino-americanos infectados pelo psicadelismo e pelo surf rock Chicha Libre (na foto) em vários grandes festivais europeus deste Verão, incluindo Sines. E o camarada João Gonçalves, no Grandes Sons, informa que os congoleses Kasai Allstars - que estavam previstos para o ano passado e não apareceram devido a problemas com os vistos - também estão confirmados na edição do FMM deste ano, que decorre mais cedo que o habitual (entre 17 e 25 de Julho, mais dia menos dia).

15 abril, 2008

Think of One, El Tanbura e Bedouin Jerry Can Band - O Deserto Já Chega à Bélgica


As visões mais catastróficas sobre o aquecimento global prevêem que daqui a algumas dezenas de anos todo o sul da Europa será um deserto: a Península Ibérica, sim, mas também partes de França, Itália, Grécia... Mas, pelo menos para já, em termos musicais o norte de África já chegou à Bélgica há alguns anos, via Think of One (na foto), banda que depois das derivações «brasileiras» volta agora a uma paixão antiga: a música norte-africana. E, para lhes fazer companhia neste texto, do norte de África mesmo - mais especificamente do Egipto - vêm os fabulosos El Tanbura e a surpreendente Bedouin Jerry Can Band.


THINK OF ONE
«CAMPING SHAÂBI»
Crammed Discs/Megamúsica

O grupo belga, de Antuérpia, Think of One - um dos mais consistentes e respeitados projectos da chamada world music, uma designação que neles assenta que nem uma luva, mercê da quantidade de cruzamentos musicais em que já estiveram envolvidos ao longo da sua carreira - está de volta a um território que conhece particularmente bem, a música magrebina, depois de dois álbuns em que namorou mais intimamente com a música brasileira. Neste «Camping Shaâbi», a música berbere, o gnawa e o sha'abi são a pedra de toque para uma música que, como habitualmente, envolve os géneros tradicionais em muitos outros géneros como o rock, o hip-hop (oiça-se o fortíssimo e interveniente «Oppressor»), o dub, o jazz, a música latino-americana ou o funk, tudo misturado com a sabedoria de quem já faz isto há muitos anos - «Camping Shaâbi» é o oitavo álbum do grupo - e sempre com um sentido global e de aventura notáveis. Rodeados de inúmeros músicos e cantores do norte de África, incluindo a cantora Ghalia Benali, e mais alguns convidados especiais - do trio belga Laïs e ao mentor da Crammed, Marc Hollander (que toca piano num dos temas) -, os Think of One atingem neste álbum alguns picos musicais notáveis como a faixa de abertura, «J'Étais Jetée», o já referido «Oppressor», o hipnótico «Gnawa Power», o inesperado «Hamdushi Five», o festivo «Où Tu Vas?» (na linha de Manu Chao) ou o fabuloso «Antwaarpse Shaâbi». (9/10)


EL TANBURA
«BETWEEN THE DESERT AND THE SEA»
World Village/Harmonia Mundi

E de sha'abi também se pode falar quando se fala de «Between The Desert and The Sea», o maravilhoso álbum dos El Tanbura, grupo egípcio de Port Said, ali no Mediterrâneo e ao lado do Canal do Suez. Com uma música em que entram vários instrumentos tradicionais (com destaque para a simsimiyya, uma harpa cuja origem remonta ao tempo dos faraós e que foi usada como instrumento de... exorcismos!, mas também flautas e muitas percussões) e variadas harmonias vocais, os El Tanbura misturam música sufi com canções de pescadores e sha'abi, criando melodias belíssimas, quase sempre hipnóticas e circulares mas bastante ricas em nuances e variações harmónicas. Canções tradicionais e alguns originais - essencialmente compostos por Zakaria Ibrahim, o líder do grupo - que falam de amor, de guerra ou de religião (como na mágica «Dundarawi», um tradicional sufi), mas também da convivência entre vários povos (como em «Sar A Lay», cantada num dialecto de beduínos e em núbio). Umas vezes mais acelerado - quando as percussões tomam a dianteira e levam as vozes e os outros instrumentos atrás -, de outras mais ambiental e contemplativo - principalmente quando a simsimiyya e outra harpa, a gandouh, estão em destaque -, «Between The Desert and The Sea» é uma experiência sonora lindíssima e difícil de esquecer. (9/10)


BEDOUIN JERRY CAN BAND
«COFFEE TIME»
30IPS/El Mastaba Center

Vizinhos dos El Tanbura, e com uma música que muitas vezes lhes é semelhante, os músicos e cantores da Bedouin Jerry Can Band habitam no deserto do Sinai, onde o norte de África se encontra com o Médio Oriente. Não por acaso, os El Tanbura colaboram neste álbum de estreia da BJCB, «Coffee Time», e um dos instrumentos usados pelo grupo é também a simsimiyya - ao lado de flautas, da magroona (gaita), rababa (um violino de uma corda só) e percussões inusitadas (jerrycans, sim!, e também caixas de munições abandonadas no deserto aquando das várias guerras que assolaram a região, bilhas de água, cafeteiras de metal...). Beduínos semi-nómadas fixados no oásis de El Arish, pertencentes a uma tribo de religião sufi, Suwarka - mas incluindo também membros de outras origens étnicas, como o poeta Soliman Agman Mohamed Agmaan -, os músicos da BJCB assinam neste álbum uma música pura, de raiz, riquíssima de ritmos e harmonias, aproximando-se aqui e ali de formas ocidentais conhecidas como... o rock (oiçam-se «Wesh Melek» ou «Mareia»). Tendo como manager Zakaria Ibrahim - pois, o líder dos El Tanbura e o mentor do El Mastaba, um centro para o desenvolvimento da música tradicional egípcia -, a Bedouin Jerry Can Band está, ao lado dos El Tanbura, a fazer um trabalho precioso de preservação das antigas tradições musicais daquele país. E nós só temos que lhes estar agradecidos por isso. (8/10)

22 fevereiro, 2008

DuOud, Maghrebika e Bodyshock - Mais Música de Fusão (Com e Sem Confusão)


O Ocidente (e quando falo em «ocidente» falo da Europa e dos Estados Unidos) sempre teve um grande fascínio pelos sons vindos do, em sentido lato, Oriente. E aqui o Oriente pode assumir a forma do Japão, da China, da Índia ou, um pouco mais perto de nós, da Turquia e dos países do norte de África. Hoje, no Raízes e Antenas, há lugar para a fusão de músicas (e músicos) ocidentais com músicas (e músicos) do norte de África e da Turquia: o álbum de colaboração dos DuOud - o duo de Smadj e Mehdi Haddab (na foto) - com Abdulatif Yagoub, Bodyshock e Maghrebika com Bill Laswell.


DUOUD & ABDULATIF YAGOUB
«SAKAT»
Indigo Records

Os DuOud são um maravilhoso exemplo de como as músicas tradicionais se podem misturar na perfeição com programações electrónicas, efeitos de estúdio, estilos «ocidentais» (dub, breakbeats, rock vindo de guitarras eléctricas, etc, etc...), sempre sem perder a essência e a verdade da música de raiz e a pureza dos seus instrumentos: as vozes, os sopros, as percussões, as cordas. DuOud, trocadilho - e se se reparar bem, DuOud pode ler-se de trás para a frente - com as palavras «duo» e «oud» (o alaúde árabe), é o grupo de dois músicos residentes em Paris, o tunisino Jean-Pierre Smadja (também conhecido como o DJ, produtor e engenheiro-de-som Smadj) e o argelino Mehdi Haddab (também dos Ekova). E, apesar de ambos tocarem oud - o que está bem presente no seu álbum de estreia, «Wild Serenade» -, para este segundo disco, «Sakat», os dois convocaram o cantor e mestre do alaúde Abdulatif Yagoub e ainda Ahmed Taher (que toca mismar, um instrumento de sopro), músicos que os DuOud «descobriram» no Iémen, durante uma digressão pelo norte de África. E foi no Iémen que o duo gravou, com Yagoub, Taher e os seus percussionistas, vários temas tradicionais que depois trabalharam e pós-produziram em Paris. Mas fizeram-no com tal paixão e arte que o resultado final nunca sufoca a música de raiz, antes sublinhando-a e levando-a para lugares belos e inesperados. Faz lembrar, só por vezes, o que Brian Eno e David Byrne fizeram em «My Life In The Bush of Ghosts»; e isso é bom! (9/10)


MAGHREBIKA
«NEFTAKHIR»
Barraka el Farnatshi/Barbarity

Embora não seja tão bom quanto «Sakat», o primeiro álbum de estreia dos Maghrebika, «Neftakhir», é também um feliz encontro entre músicos e produtores «ocidentais» - o germano-suiço Pat Jabbar (fundador da editora Barraka el Farnatshi, colaborador da cantora Sapho e o «descobridor» dos históricos Aisha Kandisha's Jarring Effects) e o «maior trabalhador do mundo da música depois de Frank Zappa» Bill Laswell (tal é a quantidade de discos e projectos em que se ele mete) - com dois argelinos radicados na Suiça, Abdelkader Belkacem e Abdelaziz Lamari, mais alguns músicos do norte de África e ainda as cantoras das B-Net Marrakech (cinco mulheres berberes que já tinham antes colaborado com Rachid Taha e Cheb I Sabbah). E o resultado do encontro é uma viagem, em primeira classe, por géneros norte-africanos - o rai, o gnawa, o shabee... - polvilhados por electrónicas variadas (lounge, trip-hop, dub, até o tecno - cf. em «Matkhafsh»), tudo locomovido pelo baixo eléctrico de Laswell. E se bem que, comparativamente com o álbum dos DuOud, as electrónicas e os efeitos de estúdio tenham em «Neftakhir» um peso maior, o álbum dos Maghrebika ouve-se quase com o mesmo agrado, sendo muitas vezes também viciosamente dançável. (8/10)


BODYSHOCK
«THE BELLYDANCE PROJECT»
Caravan Records

Claramente o menos interessante deste lote de três discos, «The Bellydance Project», dos Bodyshock - projecto de um homem só, o compositor, produtor e autor de bandas-sonoras Rabih Merhi - poderá ser, no entanto, um rebuçadinho para muitos DJs em busca de músicas exóticas/orientais propulsionadas a ritmos das pistas de dança ocidentais. Com inúmeras alusões à música turca, à música árabe, até à música indiana (em «Namaste») e à rembetika grega (em «Athena») - e fazendo uso de imensos instrumentos tradicionais (alaúdes, bendires, darabukas, bouzouki, ney, etc, etc), os géneros e os intrumentos tradicionais são depois mergulhados num caldo de efeitos electrónicos, sintetizadores, beats que nem sempre resultam - o primeiro tema, «Sahara Spirit», é simplesmente horrível! - mas que por vezes até conseguem passar mais ou menos despercebidos, lá mais para o fim do disco. E, para fazer alguma justiça ao título, quase todos os temas até são bons para exercícios variados de «dança-do-ventre». (5/10)

24 setembro, 2007

Cromos Raízes e Antenas XXVI


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XXVI.1 - Aisha Kandisha's Jarring Effects



O rock é uma realidade global que «contaminou» - assim como muitos dos seus derivados - muita da música que se faz hoje em dia. E, no interminável mundo das fusões de músicas locais com o rock (e derivados), os marroquinos Aisha Kandisha's Jarring Effects são um dos exemplos mais interessantes: começando por fazer música tradicional shabee, durante os anos 80, o seu primeiro álbum, «El Buya», de 1990 foi produzido pelo suiço Pat Jabbar (o mesmo que trabalha agora com os Maghrebika), que mergulhou a música do grupo num molho de dub, rock e electrónicas, com excelentes resultados. No álbum seguinte, «Shabeesation», de 1992, os Aisha Kandisha's Jarring Effects tiveram a colaboração do incansável Bill Laswell (o homem das mil colaborações e produções), álbum em que também colaboraram membros dos Last Poets e dos Parliament. Hoje, os A.K.J.E. continuam de boa saúde e a trilhar os mesmos caminhos.

Cromo XXVI.2 - Tsinandali Choir



Tentar fazer a viagem dos cantos polifónicos europeus é uma experiência fascinante: pode começar-se pelo Alentejo, seguir pela Córsega e a Sardenha, parar para beber da beleza das vozes femininas na Bulgária e acabar na Geórgia, antiga república da União Soviética. Aqui, na Geórgia, o ponto de paragem obrigatório é a cidade de Tsinandali (na região da Kakhetia), conhecida no exterior pelo seu vinho e, desde que Peter Gabriel editou na Real World o único álbum do Tsinandali Choir, em 1993 (reedição de um disco originalmente lançado em 1988 apenas na Geórgia), também pela sua maravilhosa música. Grupo apenas de homens, que cantam a capella, o Tsinandali Choir faz justiça à sua origem e neste disco interpreta as chamadas «canções de mesa», isto é, odes ao vinho que congregam os amigos nas noites frias do Leste, depois de uma noite de muita comida e ainda mais bebida. É belíssimo!


Cromo XXVI.3 - Mickey Hart



Ao longo dos tempos, muitos foram os artistas anglo-saxónicos que se apaixonaram pelas chamadas «músicas do mundo». George Harrison, Robert Plant, Brian Jones, David Byrne, Paul Simon ou Peter Gabriel estão do lado dos mais conhecidos... Mas houve e há muitos outros, menos conhecidos, mas tão ou mais importantes que estes no cruzamento de variadíssimas linguagens musicais. Entre eles está, na linha da frente, o baterista, percussionista, escritor e musicólogo norte-americano Mickey Hart (nascido a 11 de Setembro de 1943). Membro dos Grateful Dead entre 1967 e 1971, e, depois, entre 1974 e 1995, Hart teve no mítico percussionista Babatunde Olatunji uma das suas maiores influências. E, ao longo da última década e meia, gravou álbuns importantíssimos com alguns dos mais importantes percussionistas mundiais. A conhecer (pelo menos estes álbuns): «Planet Drum», «Mystery Box» e «Supralingua».


Cromo XXVI.4 - Chavela Vargas



Nascida na Costa Rica (em San Joaquín de Flores, a 17 de Abril de 1919), mas mexicana por adopção e paixão, Chavela Vargas - de verdadeiro nome Isabel Vargas Lizano - é a maior lenda viva da música tradicional do México, especialmente da música ranchera, um estilo feito de canções de amores fatais e geralmente reservada aos homens. Há poucos anos, Chavela revelou numa entrevista aquilo de que muita gente suspeitava devido ao facto de quase sempre se ter vestido como um homem: ser lésbica. Assim como se ficou a saber que, durante a sua juventude, foi amante da pintora Frida Khalo (e ironicamente, ou talvez não, Chavela tem um dos seus momentos de maior reconhecimento internacional ao cantar no filme «Frida», de Julie Taymor). Mas isto são apenas pormenores, se bem que reveladores, da vida de uma mulher cuja força maior está na sua voz marcante, pessoal, inesquecível. A Mulher do Poncho Vermelho.

26 maio, 2007

Cromos Raízes e Antenas XX


Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo XX.1 - Robert Johnson



Mito maior dos blues, o cantor e guitarrista norte-americano Robert Johnson (de nome completo Robert Leroy Johnson, nascido a 8 de Maio de 1911 em Hazlehurst, Mississippi, falecido a 16 de Agosto de 1938), foi um compositor, músico e cantor tocado pela mão de Deus, apesar de, como alegadamente conta a lenda, ele ter vendido a alma ao diabo numa encruzilhada, de modo a poder ser o maior guitarrista do mundo. Lenda faustiana à parte, a verdade é que Robert Johnson fez a ponte entre os blues rurais do delta do Mississippi e outros sons que ia ouvindo na rádio, lançando as sementes daquilo que vinte anos depois da sua morte viria a ser o rock'n'roll. Morto muito jovem (na idade «fatal» dos 27 anos), Johnson deixou apenas 29 canções originais gravadas, mas as suficientes para que se tornasse o ídolo de gente como Bob Dylan, Jimi Hendrix, Phish, Fleetwood Mac, Eric Clapton, Rolling Stones, White Stripes ou os nossos Nobody's Bizness.


Cromo XX.2 - Madredeus



Os Madredeus foram, nos últimos vinte anos, a maior exportação da música portuguesa, numa escala só comparável à da diva Amália Rodrigues, muitos anos antes deles. Criados em 1985 pelo guitarrista Pedro Ayres Magalhães (Heróis do Mar) e o teclista Rodrigo Leão (Sétima Legião), a eles juntaram-se o acordeonista Gabriel Gomes (Sétima Legião), o violoncelista Francisco Ribeiro e a cantora Teresa Salgueiro, que gravaram um ano depois «Os Dias da Madredeus», um álbum que lançava logo as pistas pelas quais a música do grupo se viria a reger depois: uma mistura de fado, música popular portuguesa e os ensinamentos globais da Penguin Cafe Orchestra. Apesar de ao longo dos anos terem tido profundas alterações na formação - numa segunda fase, Leão, Gomes e Ribeiro saíram, entrando o teclista Carlos Maria Trindade, o guitarrista José Peixoto e o baixista Fernando Júdice; e numa terceira, Teresa Salgueiro, Peixoto e Júdice deixaram o grupo, que reencarnou em 2008 como Madredeus & A Banda Cósmica -, os Madredeus contam com centenas de concertos em Portugal e no estrangeiro e com um pico de glória: a música e participação no filme «Lisbon Story», de Wim Wenders.


Cromo XX.3 - Cheikha Rimitti



Antes de Khaled, Cheb Mami ou Rachid Taha terem feito a ligação entre o género argelino rai e as músicas ocidentais, a fabulosa cantora argelina Cheikha Rimitti (de verdadeiro nome Saadia El Ghizania, nascida a 8 de Maio de 1923, em Tessala, falecida a 15 de Maio de 2006, em Paris), cultivou este género, o rai, na sua forma mais pura e excitante mas também, em anos mais recentes, com outras fusões, como quando gravou com Flea, dos Red Hot Chili Peppers. Órfã, a jovem Saadia iniciou a sua carreira musical aos 15 anos, quando se estreou como cantora e dançarina num grupo de música tradicional argelina. Atrevendo-se a cantar temas brejeiros e de uma sexualidade implícita - interditos às mulheres em público -, a sua fama começou a espalhar-se por toda a Argélia durante a segunda guerra mundial. Compositora prolífica - estimando-se o seu espólio em cerca de 200 canções originais -, Cheikha gravou o seu primeiro disco em 1952 e chegou à fama internacional apenas nos anos 80. Ainda a tempo de a conhecermos e amarmos.


Cromo XX.4 - Peter Gabriel



Cantor, músico, compositor e performer único, Peter Gabriel (aqui numa pintura de Neal Hamilton) é uma das mais importantes personagens do longo e belo filme de amor entre o rock e a world music. Começando a sua carreira como vocalista do fundamental grupo de rock progressivo Genesis, em 1967, Gabriel (Peter Brian Gabriel, nascido a 13 de Fevereiro de 1950 em Chobham, no Surrey, Inglaterra) envereda em 1976 por uma carreira a solo que o levaria gradualmente à descoberta de muitas músicas e de muitos músicos que existem por esse mundo fora. O pico dessa descoberta é o álbum «Passion», de 1989 (banda-sonora do filme «A Última Tentação de Cristo») e o seu álbum-irmão «Passion - Sources», compilação de música da Arménia, Egipto, Senegal, Índia, Irão, Marrocos, etc, que o inspirou para o álbum de originais. A criação do festival WOMAD, da editora Real World e da organização de direitos humanos Witness fizeram, e fazem, o resto da sua história.

18 janeiro, 2007

Cromos Raízes e Antenas X



Este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo X.1 - Os Mutantes


Exemplo maior e pioneiro de como as músicas locais se podem fundir na perfeição com músicas «globais», o movimento brasileiro do tropicalismo (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé...) teve no grupo Os Mutantes a sua expressão mais radical. Os Mutantes nasceram em 1966, em São Paulo, pela mão de Rita Lee (voz), Sérgio Dias (guitarra e voz) e Arnaldo Baptista (baixo, teclados e voz) e cedo se destacaram com a sua mistura de música brasileira com o psicadelismo, o garage, o experimentalismo (inclusive na criação de instrumentos próprios, como as «guitarras de ouro» construídas por Cláudio César). Depois, colaboram com Gilberto Gil, criam espectáculos cénicos completos (entre os Beatles e os Velvet Underground/Andy Warhol o seu coração balança), atiram-se ao rock progressivo, mudam de formação várias vezes... até acabarem em 1978. Agora fazem parte das brumas de uma belíssima lenda; uma lenda que renasceu durante alguns meses para uma digressão internacional em 2006 (com Zélia Duncan no lugar de Rita Lee).


Cromo X.2 - Sandy Denny


Voz inesquecível da folk britânica, Sandy Denny (Alexandra Elene MacLean Denny; nascida a 6 de Janeiro de 1947 e falecida a 21 de Abril de 1978) será para sempre recordada como a cantora da fase de ouro dos Fairport Convention. Em meados dos anos 60 fez parte dos Strawbs e gravou um álbum a solo antes de ingressar nos Fairport Convention, com os quais gravou três álbuns fundamentais da folk britânica. Em 1969 Sandy forma a sua própria banda, Fotheringay, que tem uma existência fugaz, antes de gravar alguns álbuns a solo, com músicos convidados dos... Fairport Convention, banda a que regressa em 1972 para a gravação de um álbum genial, «Rising for the Moon». No interim é o contraponto perfeito de Robert Plant no dueto de «The Battle of Evermore», dos Led Zeppelin. Continua a gravar nos anos 70 mas a sua estrela vai-se apagando - Sandy foi, durante muitos anos, dependente de álcool e drogas duras - até à sua morte.


Cromo X.3 - Bouzouki


Instrumento-símbolo da música tradicional grega - mas adoptado também pela música balcânica e por uma miríade de grupos folk britânicos (principalmente na sua variante irlandesa) e não só... -, o bouzouki é um cordofone com o corpo em forma de pêra e um braço bastante longo. Descendente do alaúde e irmão da bandola e do saz (da Turquia), o bouzouki foi chamado na antiguidade «pandouris» ou «pandourion» e é geralmente considerado o primeiro cordofone conhecido (há documentos do séc. IV A.C. a ele referentes). No séc. XX, o bouzouki fica indelevelmente ligado ao género musical grego por excelência, a rembetika, e chega à fama internacional através do filme «Zorba, O Grego». Mas antes disso, no início do século, foi perseguido porque era associado ao mundo do crime, tendo alguns intérpretes de bouzouki sido presos por tocá-lo.


Cromo X.4 - Hoba Hoba Spirit


Originários de Casablanca, em Marrocos, os Hoba Hoba Spirit são os líderes da «hayha music», género que mistura músicas ocidentais (punk, funk, reggae...) e do norte de África (châabi, rai, gnawa...) com mensagens de paz e tolerância. Os Hoba Hoba Spirit nasceram em 1998, um pouco à imagem do «DIY»: dois amigos, vagamente músicos, o guitarrista e letrista Reda Allali e o percussionista e cantor Aboubakr Zehouani, juntaram-se para fazer música apenas por divertimento, aos quais se juntou depois outro guitarrista, Anouar (irmão de Aboubakr). Mas a história dos Hoba Hoba Spirit só começa a sério em 2002: sem Aboubkar, o duo remanescente (Reda e Anouar) recruta músicos profissionais para o projecto e lança-se à conquista de vários palcos (Marrocos, França, Alemanha...). Escuta aconselhada: «Blad Sziko», álbum de 2005.

13 dezembro, 2006

Rachid Taha, Akli D. e Cheb i Sabbah - Três Argelinos na Diáspora


Há alguns anos, Rachid Taha disse-me em entrevista (encontrável algures neste blog...) que «o meu país é a minha música... e a minha música é o meu país», frase mais que natural saída de um cantor, músico e compositor que se sente mais à vontade num território mítico em que não há fronteiras nem «papéis», a música, do que entre dois países, no caso dele, a Argélia e a França. Festejando o lançamento do seu novo álbum «Diwan 2», aqui deixo também textos acerca de discos recentes de Akli D. (na foto) e Cheb i Sabbah, dois outros argelinos que há muitos anos também emigraram para França.


RACHID TAHA
«DIWAN 2»
Wrasse Records/Universal Music

«Diwan 2» é a continuação lógica, oito anos depois, de «Diwan», álbum em que Rachid Taha homenageava muitos dos músicos e cantores que ouvia na sua infância. Em «Diwan 2» o tributo continua - há aqui versões de temas de Mohamed Mazouni, Missoum Abdlillah/Blaoui Houari, Ahmed Wabhy e Dahmane El Harrachi, entre outros - mas com uma qualidade e uma inventividade muito maiores do que no primeiro álbum do «díptico Diwan». Em «Diwan 2» podemos ouvir rai misturado com reggae, rock com gnawa, música mandinga (anda uma kora à solta em «Agatha», original de Francis Bebey), punk com música egípcia, e por aí fora, numa festa pegada, variadíssima (não há um único tema que se assemelhe a outro, neste álbum...), que nos agarra do princípio ao fim do álbum. Menos rock e pesado do que «Tékitoi», o seu fabuloso álbum anterior, e quase não recorrendo a electrónicas, «Diwan 2» continua no entanto a conter temas que podem assaltar facilmente os ouvidos mais «ocidentalizados» (como «Josephine» ou «Ah Mon Amour», os dois originais de Taha incluídos no álbum, o primeiro também co-assinado por Steve Hillage, companheiro de Taha há muitos anos). Mas, paradoxalmente, é quando ele se aproxima mais da tradição - mesmo que uma tradição misturada com outros elementos - como em «Ecoute Moi Camarade», «Agatha», «Mataouel Dellil» ou «Maydoum», que se consegue começar a imaginar qualquer coisa muito estranha que é: «e se o rock tivesse nascido em Alger e não em... Memphis»?... Isso é que era!! (9/10)


AKLI D.
«MA YELA»
Because Music

Também a habitar em França desde há muitos anos, Akli D. (Akli Dehlis) é muito menos conhecido do que Rachid Taha, mas está agora a mergulhar definitivamente no circuito da chamada world music (e a sua presença na última WOMEX é disso prova). Originário da região da Kabilia, no norte da Argélia, Akli D. cresceu a ouvir a riquíssima música da sua região (já falada neste blog), rock norte-americano e francês, reggae e m'balax. Akli D. chega a França no início dos anos 80, por alturas da revolta dos berberes na Kabilia, onde começa por tocar nas ruas e no metro, acompanhado pelo seu banjo (!). Muitos anos depois fará parte dos grupos El Djazira e Les Rebeuhs des Bois, antes de começar a editar a solo. Para o seu novo álbum, «Ma Yela», Akli D. contou com a ajuda preciosa de Manu Chao, que o produziu e nele introduziu algumas das suas marcas habituais (cf. em «DDA Mokrane»). Um álbum em que se ouve uma deliciosa mistura de música châabi da Kabilia - e outros géneros berberes -, folk norte-americana, reggae e blues, jazz manouche e afro-beat... Com letras de intervenção - Akli D. fala de imigrantes ilegais e dos direitos das mulheres muçulmanas -, mas também com letras em que o amor, a paz e a harmonia são o mote principal, «Ma Yela» é mais um luminoso álbum em que muitos e variados géneros se encontram para criar uma música nova e em que já não faz sentido falar de géneros específicos. (8/10)


CHEB I SABBAH
«LA KAHENA»
Six Degrees Records

Igualmente argelino, o respeitadíssimo músico, compositor e DJ Cheb i Sabbah tem uma já longa carreira na mistura de ritmos de dança ocidentais com música do Norte de África, música sufi e música indiana. Tendo também deixado a Argélia natal em direcção a França ha dezenas de anos, Cheb i Sabbah trabalhou com o Living Theatre, com o trompetista de jazz Don Cherry e com o grande cantor paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, antes de saltar para a ribalta com os seus álbuns «Shri Durga» (1999), «MahaMaya - Shri Durga ReMixed» (2000), «Krishna Lila» (2002) e «As Far As» (2003). Há um ano editou este «La Kahena - Les Voix du Maghreb» (já saiu, entretanto, o álbum de remisturas baseado neste disco, «La Ghriba»). Para «La Kahena», Cheb i Sabbah foi para Marrocos gravar com cantores (principalmente, cantoras) e músicos locais, em busca das raízes da sua música. E o resultado é um disco espantoso de ritmo e harmonia, de transe e elegância, de raiz e de modernidade, em que a música árabe, berbere, gnawa e até orações, se fundem naturalmente com drum'n'bass, dub, beats hip-hop... Para além de Cheb i Sabbah e da «crew» marroquina, também outros músicos bastante conhecidos participam em «La Kahena», como Bill Laswell, Richard Horowitz e dois «irmãos» de Cheb nestes cruzamentos das electrónicas com as suas músicas tradicionais: o turco Mercan Dede e o indiano Karsh Kale. Um cruzamento que, no caso destes três - e daí a irmandade - é sempre feito com um respeito e uma paixão enorme pela tradição, por muitos outros elementos que a sua música contenha. (8/10)

29 outubro, 2006

Cromos Raízes e Antenas II


Na ressaca da WOMEX, em Sevilha (notas soltas sobre os concertos do festival ficam prometidas para os próximos dias), este blog continua hoje a publicação da série «Cromos Raízes e Antenas», constituída por pequenas fichas sobre artistas, grupos, personagens (míticas ou reais), géneros, instrumentos musicais, editoras discográficas, divulgadores, filmes... Tudo isto sem ordem cronológica nem alfabética nem enciclopédica nem com hierarquia de importância nem sujeita a qualquer tipo de actualidade. É vagamente aleatória, randomizada, livre, à vontade do freguês (ou dos fregueses: os leitores deste blog estão todos convidados a enviar sugestões ou, melhor ainda!, as fichas completas de cromos para o espaço de comentários ou para o e-mail pires.ant@gmail.com - a «gerência» agradece; assim como agradece que venham daí acrescentos e correcções às várias entradas). As «carteirinhas» de cromos incluem sempre quatro exemplares, numerados e... coleccionáveis ;)


Cromo II.1 - Master Musicians of Jajouka



Circular, hipnótica, antiga, a música dos Master Musicians of Jajouka, das montanhas do norte de Marrocos, foi tema de análise por parte de escritores - Paul Bowles, Brion Gysin e William S. Burroughs (que deles disse serem uma «banda de rock'n'roll com quatro mil anos de existência») - antes de serem «mostrados» ao ocidente através de Brian Jones, guitarrista dos Rolling Stones, que editou o álbum «Brian Jones Presents The Pipes Of Pan At Jajouka» (1971). A partir daí têm editado regularmente até agora, inclusive um disco - «Master Musicians of Jajouka Featuring Bachir Attar» (2000) - em que experimentam cruzamentos da sua música com as electrónicas de Talvin Singh. Misto de música berbere e música árabe, os Masters Musicians of Jajouka usam como instrumentos primordiais a voz, percussões, flautas, a rhaita (gaita) e o guimbri (baixo acústico rectangular).


Cromo II.2 - Alan Lomax


O musicólogo e etnólogo norte-americano Alan Lomax (nascido a 31 de Janeiro de 1915; falecido a 19 de Julho de 2002) foi um dos mais importantes recolectores de música tradicional do século XX, tendo feito trabalho no terreno principalmente nos Estados Unidos, Ilhas Britânicas, Itália, Espanha e Caraíbas. Filho de John Lomax - que foi um dos pioneiros na recolha de canções tradicionais norte-americanas -, Alan seguiu os passos do pai e gravou milhares de temas musicais e entrevistas com músicos (Jelly Roll Morton, Leadbelly, Woody Guthrie...), tendo começado essa actividade com o registo de cantos de trabalhadores negros dos campos de algodão e de prisioneiros no Texas, Louisiana e Mississippi. Alan é também o autor de uma teoria de análise musical aplicada à música tradicional, «cantometrics», que ele desenvolveu a partir de 1959 em conjunto com o departamento de Antropologia da Universidade de Columbia.


Cromo II.3 - Hedningarna


Precursores de muitos dos projectos que cruzam a música tradicional com linguagens musicais mais recentes, o grupo sueco Hedningarna lançou em 1987 um explosivo cocktail que, ao longo dos anos, tem incluído música tradicional de várias regiões da Escandinávia (o grupo chegou a viver muito da criatividade de duas cantoras finlandesas e um cantor de yoik), rock e electrónicas. Construindo alguns dos seus instrumentos - réplicas de instrumentos antigos como a sanfona, moraharpa, nickelharpa ou gaitas-de-foles - e muitas vezes electrificando-os, os Hedningarna lançaram o seu primeiro álbum, homónimo, dois anos depois, e são considerados, mais que justamente!, o mais importante grupo folk da Escandinávia das últimas duas décadas. Outros álbuns aconselhados: «Kaksi!», «Trä» e «Karelia Visa».


Cromo II.4 - Didgeridoo


Inventado pelos aborígenes australianos, que o usam como instrumento de eleição para fins recreativos mas essencialmente em rituais religiosos, e agora adoptado por milhares de músicos em todo em mundo (nomedamente em inúmeras bandas rock e folk), o didgeridoo é um aerofone feito de madeira (maioritariamente de eucalipto), um tubo oco e comprido (entre um a dois metros de comprimento) que pode amplificar naturalmente a voz, que a transforma e que serve muitas vezes para criar drones (bordões) intermináveis. Há quem diga que é o instrumento de sopro mais antigo que se conhece, mas não há provas da veracidade desta afirmação embora estudos arqueológicos refiram a existência de didgeridoos desde há, pelo menos, mil e quinhentos anos.