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19 setembro, 2007

Tarrachinha - A Música Mais Sexy do Mundo (e Outras Músicas de Angola)


A paz em Angola - depois de décadas de guerra (primeiro a guerra contra as tropas portuguesas, depois uma guerra fratricida igualmente sangrenta) - proporcionou o desenvolvimento de variadíssimas e riquíssimas formas musicais e a sua divulgação interna e externa. Não que muita música não se fizesse e gravasse antes - vejam-se as gravações contidas na caixa «Angola», já referida há alguns meses neste blog, ou na recente compilação «Os Reis do Semba», todas feitas durante os anos finais de dominação portuguesa - ou as inúmeras gravações de artistas de kizomba editadas ainda durante a guerra civil. Mas, nos últimos anos, outros géneros foram nascendo e crescendo com uma força imparável: a versão muito própria e angolana do hip-hop e também o kuduro e a tarrachinha. De todos estes estilos, antigos ou modernos, damos conta a seguir.

O espantoso documentário «Mãe Ju» (na foto que encima este texto), realizado por Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves, é um espelho quase perfeito do que é um alfobre de novas músicas - assim como se fosse uma Factory de Manchester transposta para um bairro pobre de Luanda e reconvertida numa espécie de barracão com bola de espelhos incorporada, o botequim da Mãe Ju. Realizado paralelamente à preparação da exposição «Agora Angola» (foto das noivas, ao lado), «Mãe Ju» mostra os fazedores e dançarinos de kuduro e da mais recente tarrachinha no local em que, segundo eles, estas músicas nasceram e se desenvolveram. Nele estão nomes como DJ Znobia, Puto Português, Gata Agressiva, Nacobeta, Come Todas ou Bobani King, nomes de ponta do bem conhecido kuduro mas também da tarrachinha. E o que é a tarrachinha (ou tarraxinha ou tarracha)?... É tão só um kuduro despido de muita da sua carga interventiva, com beats mais lentos e letras de forte carga erótica, mas igualmente electrónico e feito com samples. Mas o resultado é inacreditável: a música é quente, erótica, pulsante; dançada quase como se o casal (homem e mulher) mexessem apenas as ancas, corpo colado ao outro corpo, «roça roça» ou «esfrega esfrega» - nas palavras dos protagonistas - ou, em palavras de escritor, José Eduardo Agualusa, no seu recente e maravilhoso livro «As Mulheres do Meu Pai»: «É uma dança de um erotismo violento. Supera em muito tudo o que vi (e vi bastante) nos bailes funk das favelas cariocas. A moça enrosca-sa ao peito do rapaz, segurando-o pela nuca, e vai-se atarraxando a ele com lentíssimos movimentos dos quadris».

Há letras - e sons! - de tarrachinhas que fariam o «Je T'Aime Moi Non Plus», de Serge Gainsbourg, ou o «I Feel Love», de Donna Summer, parecerem aulas de catequese. E há, percebe-se bem vendo o filme (e ouvindo-se muita da música contida nos discos de que se fala a seguir), que há uma linha invisível que une muitas das músicas angolanas: o semba tem uma continuidade óbvia na kizomba e esta na tarrachinha; o hip-hop à angolana evoluiu naturalmente para o kuduro, na mesma medida em que, noutros locais, o hip-hop influenciou decisivamente o kwaito sul-africano, o baile funk brasileiro ou o reggaeton latino-americano. Na Mãe Ju é possível um kuduro feito ao vivo dar lugar, naturalmente, a uma tarrachinha ou uma kizomba ter como contraponto imediato uma... tarrachinha. E atrevo-me a dizer - embora sem grau absoluto de certeza - que a tarrachinha é o culminar perfeito, a súmula quase completa de todas estas músicas já referidas: do semba e da kizomba pelo lado do calor, do sexo, do contacto. E do hip-hop e do kuduro pela parte «mecânica» de como a tarrachinha é feita. Desses outros géneros, aqui representados por quatro discos recentes e disponíveis em Portugal (via lojas ou sites), fazem-se curtas fichas a seguir:

Na sequência lógica da caixa «Angola» - e com as mesmas estruturas envolvidas (os arquivos da Valentim de Carvalho, a pesquisa da equipa da Difference Music e com distribuição da Som Livre) - surge agora uma maravilhosa colecção de sembas gravados durante os últimos anos de dominação portuguesa. Infelizmente parco em informação de carácter musicológico - tal como já acontecia na caixa «Angola» -, o livreto do disco aponta porém os locais em que o semba (género musical antigo, já referenciado em Angola desde há séculos) resistia a outras músicas, importadas, durante os anos 50 do séc. XX: os musseques, bairros pobres de Luanda, onde o semba era preservado, amado e dançado, evoluindo naturalmente com a chegada de instrumentos novos, eléctricos. Nas gravações presentes em «Os Reis do Semba» - álbum que reúne 50 temas de numerosos grupos e artistas angolanos dos anos 60 e 70 - as guitarras eléctricas e os órgãos competem com percussões acústicas na criação de uma música que faz a ponte entre as músicas tradicionais angolanas com as músicas anglo-saxónicas emergentes, abrindo espaço para a criação posterior da kizomba.

Mais de 50 mil exemplares!!! Foi isso que vendeu a colectânea «O Midjor di Kizomba», editada o ano passado pela Farol - e não se pense que foram só africanos a comprar o disco. Na continuação, o recente «O Midjor di Kizomba 2», a Farol volta a apostar em alguns dos nomes já presentes na primeira compilação e juntou-lhe alguns outros. Artistas angolanos, cabo-verdianos e imigrados na Europa, todos juntos em mais um caldeirão de dança pura, na festa desta música que tem as suas raízes no semba, os ramos no zouk das Antilhas e algumas folhas já a serem «contaminadas» pelo hip-hop ou o R&B. Artistas como Philipe Monteiro, Paulinha, Irmãos Verdades, Roger, Miss S, Isidora, Contu Nobo, Mel, Micas Cabral, Scarlette... E, como bónus, um DVD com mais aulas de como bem dançar kizomba e vídeos de dois dos artistas presentes (Roger e Paulinha).

Banda-sonora de um documentário que ainda aí vem, a colectânea «É Dreda Ser Angolano» (edição da U-hu Fazmisso! Filmes, com o apoio da Rádio Fazuma) contém parte da música captada nas gravações feitas para o documentário em Luanda. O ponto de partida, contam, é o Conjunto Ngonguenha (que aqui dão voz ao tema-título), mas nela estão também muitos outros nomes que protagonizaram o álbum «Ngonguenhação», do Conjunto Ngonguenha, e outros MCs e Djs emblemáticos da cena hip-hop angolana. A lista de participações na compilação é impressionante: Conjunto Ngonguenha, Conductor, Ikonoklasta, Keita Mayanda (os três do Conjunto Ngonguenha), Phay Grand, MCK, Cocas o FSM, Leonardo Wawati, Das Primeiro e Os Turbantes. E, ouvindo-se o álbum (à venda no site da Fazuma pelo preço simbólico de cinco euros), fica a certeza de que o hip-hop em Angola é uma voz livre na luta contra a corrupção e outros males da sociedade e, por outro lado, uma música que, apesar de ser devedora do hip-hop norte-americano, nela estão contidas - em samples, em ritmos, em cadências - muita música local: sembas, kizombas e, obviamente, kuduro (o último tema, d'Os Turbantes, é kuduro puro e duro).

Finalmente, e em «raccord», o último disco deste lote é o CD que reúne os melhores temas de dois discos de Dog Murras - um dos expoentes máximos do kuduro -, editado pela Frikyiwa de Frédéric Galliano, o mesmo que editou «Frédéric Galliano Presents Kuduro Sound System». E «Um Golpe na Obscuridade», assim se chama este álbum de Dog Murras, é uma surpresa para quem poderá ter do kuduro a ideia de esta ser uma música primitiva, simplista, até boçal. Dog Murras é um MC de voz potentíssima, grave e marcante, uma voz que está sempre ao serviço das mensagens fortemente politizadas do cantor. E, na sua música, há inúmeras referências a músicas tradicionais angolanas, batuques a servir de contraponto às programações electrónicas, coros que só poderiam sair de Angola. É um disco extraordinário, para pôr ao lado, nos escaparates da modernidade - de uma modernidade feita de elementos locais e/ou globais -, dos álbuns de M.I.A., dos Konono Nº1, dos Bonde do Rolê e, claro, dos Buraka Som Sistema. A descobrir com urgência.

27 junho, 2007

África Festival (ou Lisboa na Cidade Negra*)



O África Festival começa amanhã, dia 28, na Torre de Belém, em Lisboa, com concertos de Mayra Andrade e dos Músicos do Nilo. E espero - do fundo do coração! - que comece bem e assim continue, tanto na sua «base» mais visível em Belém como na sua extensão ao Cinema S.Jorge, na primeira semana de Julho. Tive o prazer de colaborar com a organizadora do festival, Paula Nascimento, escrevendo um texto sobre música africana que ocupa as páginas centrais do jornal que vai ser distribuído no África Festival; o que muito me honrou. Uma colaboração que vai ter o seu epílogo no debate de encerramento do festival, dia 8 de Julho, depois da exibição do filme «Lusofonia, A (R)evolução». A todas as pessoas envolvidas no África Festival mas, principalmente, à Paula Nascimento - cujo profissionalismo, visão, empenho e paixão por esta causa são exemplares - deixo um grande obrigado, um «até já» e a recuperação de um texto publicado neste blog há alguns tempos:

O bolo principal do África Festival, que decorre no relvado junto à Torre de Belém, em Lisboa, já é conhecido mas fica aqui recordado: Mayra Andrade (Cabo Verde) e Músicos do Nilo (Egipto) no dia 28 Junho; Paulo Flores (Angola) e Bassekou Kouyaté (Mali) no dia 29; e Sally Nyolo (Camarões; na foto) e Baaba Maal (Senegal) no dia 30. Mas o Festival inclui ainda outros concertos de bastante interesse e muito cinema, na sua extensão ao Cinema S.Jorge, também em Lisboa, de 1 a 8 de Julho. Da programação de concertos faz parte um espectáculo de apresentação do novo álbum de Nancy Vieira (dia 2 de Julho); o novo projecto do músico, compositor e construtor de instrumentos Victor Gama «FWD: Utopia» (4 de Julho); do fabuloso grupo de tuaregues do malianos Tinariwen, que recentemente editou o álbum «Aman Iman», cuja crítica pode ser encontrada um pouco mais abaixo neste blog (dia 5 de Julho); e de um novo projecto em que Kalaf convida músicos angolanos e de outros países, Ecos da Banda (dia 7 de Julho); para além das Kizomba Sessions (um concurso de kizomba que decorre de 3 a 6 de Julho, seguido de um workshop de kizomba por Avelino Chantre, a 7).

Também no S.Jorge é apresentada, nestes dias, uma variadíssima programação de cinema, «Sons e Visões de África», que inclui os filmes «Bamako», de Abderrahmane Sissako (dia 3); «Bajove Dokotela - The Philip Tabane Story», de Khalo Matabane e Dumisani Phakathi, «Being Pavarotti», de Odette Geldenhuys, e «Amandla!», de Lee Hirsch (dia 4); «Le Miel N'Est Jamais Bon Dans Une Seule Bouche - Ali Farka Touré», de Marc Huraux, e «Teshumara - Les Guitares de La Rébellion Touareg», de Jérémie Reichenbach (dia 5); «Ishumars, Les Rockers Oubliés du Désert», de François Bergeron, e «Sierra Leone's Refugee All Stars», de Zach Niles e Banker White (dia 6); «Marrabentando, ou As Histórias Que a Minha Guitarra Canta», de Karen Boswell, «Muxima», de Alfredo Jaar, e «Mãe Ju», de Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves (dia 7); «Calado Não Dá», de João Nicolau, «Mais Alma», de Catarina Alves Costa, «Batuque, A Alma de Um Povo», de Júlio Silvão Tavares, e «Lusofonia, A (R)evolução», da Red Bull Music Academy (dia 8).

*«Lisboa na Cidade Negra» é o título de um maravilhoso livro de Jean-Yves Loude, recentemente editado pela Dom Quixote; mote para uma visita guiada pelo autor pela África que há em Lisboa, dia 1 de Julho. O lançamento oficial do livro decorre no S.Jorge, um dia depois.

24 abril, 2007

Tinariwen, Victor Gama, Kalaf e Cinema - Também no África Festival



O bolo principal do África Festival, que decorre no relvado junto à Torre de Belém, em Lisboa, já é conhecido mas fica aqui recordado: Mayra Andrade e Músicos do Nilo no dia 28 Junho; Paulo Flores e Bassekou Kouyaté no dia 29; e Sally Nyolo e Baaba Maal no dia 30. Mas o Festival inclui ainda outros concertos de bastante interesse e muito cinema, na sua extensão ao Cinema S.Jorge, também em Lisboa, de 1 a 8 de Julho. Da programação de concertos faz parte o novo projecto do músico, compositor e construtor de instrumentos Victor Gama «FWD: Utopia» (4 de Julho); do fabuloso grupo de tuaregues do malianos Tinariwen, que recentemente editou o álbum «Aman Iman», cuja crítica pode ser encontrada um pouco mais abaixo neste blog (dia 5 de Julho); e de um novo projecto em que Kalaf (na foto) convida músicos angolanos e de outros países, Ecos da Banda (dia 7 de Julho); para além das Kizomba Sessions (um concurso de kizomba que decorre de 3 a 6 de Julho, seguido de um workshop de kizomba por Avelino Chantre, a 7).

Também no S.Jorge é apresentada, nestes dias, uma variadíssima programação de cinema, «Sons e Visões de África», que inclui os filmes «Bamako», de Abderrahmane Sissako (dia 3); «Bajove Dokotela - The Philip Tabane Story», de Khalo Matabane e Dumisani Phakathi, «Being Pavarotti», de Odette Geldenhuys, e «Amandla!», de Lee Hirsch (dia 4); «Le Miel N'Est Jamais Bon Dans Une Seule Bouche - Ali Farka Touré», de Marc Huraux, e «Teshumara - Les Guitares de La Rébellion Touareg», de Jérémie Reichenbach (dia 5); «Ishumars, Les Rockers Oubliés du Désert», de François Bergeron, e «Sierra Leone's Refugee All Stars», de Zach Niles e Banker White (dia 6); «Marrabentando, ou As Histórias Que a Minha Guitarra Canta», de Karen Boswell, «Muxima», de Alfredo Jaar, e «Mãe Ju», de Kiluanje Liberdade e Inês Gonçalves (dia 7); «Calado Não Dá», de João Nicolau, «Mais Alma», de Catarina Alves Costa, «Batuque, A Alma de Um Povo», de Júlio Silvão Tavares, e «Lusofonia, A (R)evolução», da Red Bull Music Academy (dia 8). Também integrado na programação do África Festival está o lançamento do livro «Lisboa na Cidade Negra», de Jean-Yves Loude.

20 fevereiro, 2007

Lúcia Sigalho Leva a Kizomba P'ró Teatro



A companhia de teatro Sensurround, de Lúcia Sigalho, estreia dia 22, quinta-feira, o seu novo trabalho, «Kizomba», peça baseada e inspirada neste escaldante género musical angolano (e com ramificações posteriores em Cabo Verde, Holanda, Estados Unidos e Portugal). Com interpretação de Cláudia Jardim, Lúcia Sigalho, Victor Gonçalves e as participações especiais do professor de danças africanas Aires Silva e do DJ Lucky, o espectáculo sobe à cena na Casa d'Os Dias da Água, dias 22, 23, 24 e 25. E, para melhor se perceber o que nos pode esperar, aqui fica o texto explicativo da coisa: «Quisemos começar pelo óbvio. Há sete anos fizemos um trabalho com o Fernando Alvim chamado Dedicatórias. Um dia, ele foi dançar com a Clara Andermatt no B.Leza e, à persistÍncia da falta de concordância na passada, resolveu o problema logo assim: isto em Angola dança-se doutra maneira: vou-te mostrar – chama-se kizomba!... Ele ficou nas nossas vidas para sempre. Há três anos que está a fazer uma Trienal de Arte Contemporânea em Angola. Nós ainda nunca lá fomos e quisemos mesmo fazer e apresentar esta primeira parte do trabalho para a Trienal de Luanda assim: sem nunca lá ter ido, a Angola. Trabalhámos sobre lugares imaginários, imaginados, sobre uma ideia de África, um desejo por África, um silêncio pequenino dentro do coração, saudades de um lugar que nunca existiu. Concluímos que, no fundo e secretamente, o que nós queremos mesmo é ir para essa África nossa e ficar lá muito quietos e calados... Mergulhados em sol, calor, espaço. E, ao mesmo tempo, queremos mais do que tudo, nunca, mas nunca por nunca ser, ter de voltar a esta terra... Whatever it means, voltar... Obviamente, e esta maneira de fazer é intencional, quisemos começar pelo começo e pelo óbvio: Como no amor, como se estivéssemos completamente desprevenidos, desprotegidos, sem querer saber. Quisemos partir do zero, daqui, de Lisboa, com Kizomba, renitências, resistências, dúvidas insolúveis, clichés incontornáveis, preconceitos díspares, confusões insanas, tremeliques vários e muito, muito frio. Já reparou no frio que faz neste Inverno?».

28 agosto, 2006

Zouk, Kizomba & Som da Kabilia - Géneros Menores?


Assim como há músicas híbridas, na chamada world music, que são bem aceites neste circuito - desde o neo-flamenco de uns Ojos de Brujo aos punks de Tuva Yat-Kha, dos cruzamentos das novas electrónicas com a tradição de DJ Dolores ou Mercan Dede a mil outras experiências de fusão -, há outros géneros que não são considerados nobres o suficiente para integrarem os circuitos habituais de difusão das chamadas músicas do mundo como o kuduro, o baile funk, o reggaeton, o kwaito sul-africano, o zouk das Caraíbas, a kizomba angolana e cabo-verdiana ou a música popular da Kabilia, na Argélia. Três colectâneas editadas há pouco tempo reunindo temas dos três últimos géneros referidos são uma boa porta de entrada nestes estilos musicais. A adesão, ou não, a cada um deles (ou a todos) só depende de quem os ouvir... ou de quem os dançar.

VÁRIOS
«ZOUK ME LOVE»
Ngola Música/Maxi Music

O zouk é um estilo nascido nas Caraíbas (principalmente nas ilhas de Martinica e Guadalupe) que mistura ritmos locais com a pop anglo-saxónica e francesa, a soul, o reggae, a música africana e, mais recentemente, o hip-hop e o novo r'n'b norte-americano. Tendo como figuras de ponta nos anos 80 e seguintes os incontornáveis Kassav, rapidamente o género se dividiu em vários sub-géneros como o zouk lambada e o zouklove. E é bastante popular nos países de origem e também em Angola e Cabo Verde - países onde o zouk contribuiu para o aparecimento da kizomba - e junto de comunidades imigrantes caribenhas e africanas em Lisboa, Paris, Amesterdão ou Londres. «Zouk Me Love», colectânea de artistas de zouklove, género mais romântico e lento do que o zouk propriamente dito, é uma boa mostra deste género, maioritariamente cantado em francês mas por vezes com desvios - como acontece no tema «Tudo Pa Bo», de Suzanna Lubrano, cabo-verdiana radicada na Holanda - para o inglês e o creoulo cabo-verdiano. Destaque para «Fanm'Fo», excelente tema de Valerie Odina, Lea Galva e Danielle Renee-Corail, para a entrada mais que natural de um flow hip-hop em «Wooh She's Who», de Shydeeh, e a festa quentíssima e quase salseira de «Bagaill La Bandé», de Jean-Philippe Marthely, Jean-Luc Guanel e Marius Priam que fecha o álbum. (6/10)

VÁRIOS
«O MIDJOR DI KIZOMBA»
Farol Música

Basta ouvir esta colectânea de kizomba a seguir à de zouk para, facilmente, constatar a proximidade, quase de irmãos, destes dois géneros. Nascida em Angola - misturando semba, merengue, zouk e géneros anglo-saxónicos - mas também bastante popular e praticada em Cabo Verde, a kizomba foi popularizada por Bonga, primeiro, e Don Kikas, depois, até chegar à expressão que tem actualmente, com dezenas (centenas?) de artistas a aderir ao género. «O Midjor di Kizomba», colectânea lançada agora pela editora portuguesa Farol e apontada às comunidades imigrantes africanas de expressão portuguesa (e a todos os outros que a queiram ouvir), agrupa 16 temas recentes de kizomba feito por artistas angolanos e cabo-verdianos e é um bom espelho deste ritmo quente, sensual e - também à semelhança do zouk - para dançar a dois, bem agarradinhos. O primeiro tema, «Ná-Ri-Ná», de Denise, é lindíssimo, com o funaná e a coladeira cabo-verdianos a meterem-se facilmente pela kizomba dentro. Já o segundo, «Alta Segurança», de Philip Monteiro, é kizomba a sério, cheia de sintetizadores e reverberação açucarada na voz do cantor, tendências repetidas por outro nome histórico da kizomba, os Irmãos Verdades, em «Amar-te Assim». E o resto da colectânea é um desfilar coerente de temas que oscilam, sempre, entre a modernidade (produções cheias e luxuosas e até aproximações ao hip-hop, como em «I Want You Back», de Katinga MC) e a tradição: ouvem-se sembas e merengues aqui e ali, ouve-se mais Cabo Verde acolá (o funaná quase em estado puro de «Nha Madrinha», de Jorge Neto), ouve-se uma pitada de São Tomé misturada com Angola (no tema do falecido Camilo Domingos, «Dicena»). Um vídeo sobre como dançar bem kizomba surge como bónus neste CD. (7/10)

VÁRIOS
«KABYLIE NON-STOP - Vol.1»
Night&Day/Megamúsica

Prima do zouk e da kizomba - na mistura de elementos da música ocidental com géneros locais - a música popular da Kabilia (região do norte da Argélia) está próxima do rai, da música berbere (e os seus característicos gritos ululantes, que aparecem em quase todos os temas deste género musical) e de outras zonas do norte de África e, em igual medida, da pop anglo-saxónica e francesa. É uma música alegre, saltitante, óptima para dançar à sombra de uma tamareira (ou outra árvore qualquer) e com um chá de menta na mão. Nesta colectânea, «Kabylie Non Stop - Vol.1», com música escolhida e misturada pelos DJs Fayçal e Youcef, podem ouvir-se muitos temas representativos do género como os incontornáveis «Anzor L'Wali», de Hassiba Amrouche, «Nana Ala», de Mohamed Allahoua, o delicioso «Byiy Anasay», de Alilou, «Yemma», do histórico Takfarinas, o excelente «Sidi Lqurci», de Ouerdia, «Ça Va, Ça Va», de Nadia Baroud; mas também temas mais próximos da música tradicional (sem instrumentos ocidentais) dos Freres Khalfa, «Idbalen», com as gaitas-de-foles da região, bendires e darabukas, e da veterana e respeitadíssima Cherifa (na foto que encabeça este post), «Echah Arnouyas», que está bastante perto da tradição kabiliana, da música clássica egípcia e do flamenco; e ainda remisturas de temas como «Ines Ines», de Massa Bouchafa, e «Sniwa Difengalen», de Ali Irsane. (7/10)